Ou Isto ou Aquilo

Cecília Meireles · Capítulo 11 de 15

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Ou Isto ou Aquilo

O menino pergunta ao eco onde é…

O eco

O menino pergunta ao eco onde é que ele se esconde. Mas o eco só responde: “Onde? Onde?”

O menino também lhe pede: “Eco, vem passear comigo!”

Mas não sabe se o eco é amigo ou inimigo.

Pois só lhe ouve dizer: “Migo!”

As duas velhinhas

Duas velhinhas muito bonitas, Mariana e Marina, estão sentadas na varanda: Marina e Mariana.

Elas usam batas de fitas, Mariana e Marina, e penteados de tranças: Marina e Mariana.

Tomam chocolate, as velhinhas, Mariana e Marina, em xícaras de porcelana: Marina e Mariana.

Uma diz: “Como a tarde é linda, não é Marina?” A outra diz: “Como as ondas dançam, não é, Mariana?

“Ontem, eu era pequenina”, diz Marina.

 

“Ontem, nós éramos crianças”, diz Mariana.

E levam à boca as xicrinhas, Mariana e Marina, as xicrinhas de porcelana: Marina e Mariana.

Tomam chocolate, as velhinhas, Mariana e Marina. E falam de suas lembranças, Marina e Mariana.

 

O último andar

No último andar é mais bonito: do último andar se vê o mar. É lá que eu quero morar.

O último andar é muito longe: custa-se muito a chegar. Mas é lá que eu quero morar.

Todo o céu fica a noite inteira sobre o último andar. É lá que eu quero morar.

Quando faz lua, no terraço fica todo o luar.

É lá que eu quero morar.

Os passarinhos lá se escondem, para ninguém os maltratar: no último andar.

De lá se avista o mundo inteiro: tudo parece perto, no ar. É lá que eu quero morar:

no último andar.

 

Canção de Dulce

Dulce, doce Dulce, menina do campo, de olhos verdes de água de água e pirilampo.

Doce Dulce, doce dócil, estendendo pelo sol lençóis entre anil e vento.

Dócil, doce Dulce de face vermelha, doce rosa airosa a fugir da abelha da abelha, de vespas e besouros tontos pelo arroio de ouro de seixos redondos...

A língua do nhem

Havia uma velhinha que andava aborrecida pois dava a sua vida para falar com alguém.

E estava sempre em casa a boa da velhinha, resmungando sozinha: nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

O gato que dormia no canto da cozinha escutando a velhinha, principiou também

a miar nessa língua e se ela resmungava, o gatinho a acompanhava: nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

Depois veio o cachorro da casa da vizinha, pato, cabra e galinha, de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam a falar noite e dia naquela melodia nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

De modo que a velhinha que muito padecia por não ter companhia nem, falar com ninguém,

ficou toda contente, pois mal a boca abria tudo lhe respondia: nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

Cantiga da babá

Eu queria pentear o menino como os anjinhos de caracóis. Mas ele quer cortar o cabelo, porque é pescador e precisa de anzóis.

Eu queria calçar o menino com umas botinhas de cetim. Mas ele diz que agora é sapinho e mora nas águas do jardim.

Eu queria dar ao menino umas asinhas de arame e algodão. Mas ele diz que não pode ser anjo, pois todos já sabem que ele é índio e leão.

(Este menino está sempre brincando, dizendo-me coisas assim. Mas eu bem sei que ele é um anjo escondido, um anjo que troça de mim.)

 

A avó do menino

A avó vive só.

Na ca da avó o galo liró faz “cocorocó!”

A avó bate pão-de-ló e anda um vento-t-o-tó na cortina de filó.

A avó vive só.

Mas se o neto meninó mas se o neto Ricardó mas se o neto travessó vai à casa da avó, os dois jogam dominó.

 

O vestido de Laura

O vestido de Laura, é de três babados, todos bordados.

O primeiro, todinho, todinho de flores de muitas cores.

No segundo, apenas borboletas voando, num fino bando.

O terceiro, estrelas, estrelas de renda -- talvez de lenda...

O vestido de Laura vamos ver agora, sem mais demora!

Que as estrelas passam, borboletas, flores perdem suas cores.

Se não formos depressa, acabou-se o vestido todo bordado e florido!

Roda na rua

Roda na rua a roda do carro.

Roda na rua a roda das danças.

A roda na rua rodava no barro.

Na roda da rua rodavam crianças.

O carro, na rua.