Piloto de Guerra

Antoine de Saint-Exupéry · Capítulo 1 de 4

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Piloto de Guerra

Introdução

Sum ário

 

Introdução — Mônica Cristina Corrêa

PILOTO DE GUERRA

Cronologia

Sugestões de leitura

Introdução

A guerra é um a doença

MÔNICA CRISTINA CORRÊA

 

Pois seus atos autenticaram suas palavras

e sua vida foi a caução de sua obra.1

 

As palavras do prim eiro biógrafo de Antoine de Saint-Exupéry (1900-44), Pierre Chevrier (na realidade pseudônim o de Nelly de Voguë), em 1959, não poderiam ser m ais j ustas para definir esse piloto-escritor francês do século XX, cuj a obra tem profunda relação com a experiência cotidiana. Para ele, essa experiência é a da aviação, que tanto o incitou a ser piloto quanto lhe forneceu um “instrum ento” de reflexão, o avião, perm itindo-lhe observar o m undo do alto, literalm ente. Saint-Exupéry, dito o “poeta da aviação”, foi, não obstante, m ais que o cantor dessa profissão que surgia praticam ente com seu século. Autor de m uitos textos dos quais a aviação é tem a, não se ateve a sim plesm ente narrar voos ou visões aéreas, nem aventuras pessoais nos diferentes locais de pouso, pois entendia que “o avião não é um a finalidade: é um a ferram enta” (Terra dos homens, 1939). Ferram enta com que forj ou sua escrita, reflexo de um a filosofia própria, de um pensam ento que “voava” para depois transform ar-se na m atéria-prim a de sua obra. E não há com o dissociar a prosa exuperiana do aviador que foi o escritor. É ele m esm o que reconhece esse traço indissociável entre sua vida de piloto e sua escrita, conform e afirm ou ao j ornal La Presse em 29 de abril de 1942: “Tenho horror da literatura pela literatura. Por ter vivido ardentem ente, pude escrever fatos concretos. Foi a profissão que delim itou m eu dever de

escritor”.2

Num a vida relativam ente breve com o a que teve Antoine de Saint-Exupéry, 44 anos, a m encionada experiência da aviação m ostrou-se, ao contrário, vasta, abrangendo m om entos que, se não chegaram a ser conflitantes, foram ao m enos antagônicos, indo da participação no processo de im plantação da m ais longa linha de correio aéreo daquela época à sua m obilização com o piloto de guerra. Do risco idílico ao risco tenebroso, na sua pena tudo se tornaria literatura.

Saint-Exupéry viveu os prim órdios da aviação trabalhando para a em presa de correio aéreo Latécoère — posteriorm ente Aéropostale —, e, pela audácia de pilotar m áquinas voadoras prim itivas e sem recursos sobre m ontanhas, desertos e florestas virgens, fez parte dos que ficariam designados com o “os cavaleiros do céu”. Nessa fase (1926-31) teve um a m issão de quase dois anos no deserto (1927-9), onde viveu num a espécie de cabana ao lado de um forte espanhol, no Marrocos. Depois passou praticam ente o m esm o tem po na Am érica do Sul, baseado em Buenos Aires. Frutos dessa vivência que o levou da solidão do deserto aos confins da Patagônia, passando pelo Brasil, são três de seus livros: Correio sul (1929), Voo noturno (1931) e Terra dos homens (1939), os dois últim os tendo reconhecim ento de público e de crítica, tornando o piloto um escritor célebre e traduzido.

A Aéropostale, no entanto, seria adquirida por quatro outras com panhias j á em fusão. Em 1933, tais fusões deram origem à Air France. A nova em presa aérea não em pregou Saint-Exupéry com o piloto, m as, servindo-se de sua celebridade de escritor, contratou-o para sua propaganda. Antes disso, ele trabalhou tam bém com o piloto de testes, o que acabou num acidente na baía de Saint-Raphaël, no Mediterrâneo, em 1932, no qual quase perdeu a vida. Finalm ente, um período parisiense propicia ao piloto-escritor um a vida noturna efervescente, j unto a outros intelectuais, todos assíduos do fam oso café Les Deux Magots e do restaurante Lipp, no bairro Quartier Latin.

Convidado a escrever artigos j ornalísticos, Saint-Exupéry esteve na Rússia e conheceu o stalinism o; foi tam bém à Espanha, onde ficou estarrecido com as m azelas do franquism o. Ainda dois acidentes aéreos m arcariam o piloto, am bos graves: o prim eiro, na Líbia, em 1935, quando, na tentativa de fazer Paris-Saigon, ele e seu m ecânico caíram no deserto. Após cinco dias de errância, foram salvos, quase m ortos de sede, por um a caravana de beduínos. Três anos m ais tarde, com o m esm o m ecânico, Saint-Exupéry caiu assim que decolou na Guatem ala por um erro no abastecim ento do avião, que o tornou pesado além da conta. O piloto ficou m ais de oito dias em com a e por pouco não teve de am putar um braço.

A eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, encerrará definitivam ente a carreira de piloto civil de Saint-Exupéry, que, a partir de então, pilotará aviões m ilitares. Em 3 de setem bro daquele ano, a França declara guerra à Alem anha, e Saint-Exupéry é designado para o grupo de reconhecim ento aéreo 2/33, no qual cum priria, sete m eses m ais tarde, nove m issões de observação, entre 29 de m arço e 9 de j unho de 1940.

Os anos sacrificados m as venturosos de piloto do correio aéreo e dos raides haviam ficado para trás, assim com o seus m ais estim ados com panheiros, m ortos na aviação. Mas para Saint-Exupéry o avião continuaria a ser um a espécie de instrum ento; todavia, durante as m issões de guerra, do alto, o que se m ostra é a França dilacerada pelo avanço alem ão sob o olhar patriótico do escritor. A natural discrepância entre essas duas form as de voar e entre as m issões — antes entregar cartas e agora observar o invasor sabotando a pátria — tam bém está assinalada na sua produção literária: “Vivi outrora aventuras: a criação das linhas postais, a dissidência saariana, a Am érica do Sul… Mas a guerra não é um a verdadeira aventura, é só um a im itação de aventura. […] A guerra é um a doença” (ver p. 68).

Essa é a perspectiva abordada em Piloto de guerra, cuj o “m ote” (e não exatam ente tem a) é a m issão que Saint-Exupéry executa em 23 de m aio entre as cidades de Bapaum e e Arras, atacadas e incendiadas. O piloto as sobrevoou em situação de alto risco, com dois outros tripulantes. Tendo partido no com ando de um Bloch-174 com o observador tenente Dutertre e o artilheiro Sargento Mot, de Orly (Paris), às sete horas da m anhã, Saint-Exupéry foi escoltado por nove caças Dewoitine 520, divididos em duas patrulhas. Mas a escolta desapareceu e um obus explodiu sob o avião que ele pilotava. Com o estouro, o reservatório de óleo foi atingido e o piloto se refugiou num a nuvem , fiando-se em seus instrum entos e orientado pelo observador. O avião pousou em Orly às 15h50 e se constituiu num a prova cabal dos ataques alem ães. Essa m issão, eleita por Saint-Exupéry com o parâm etro da narrativa de seu livro, foi, no entanto, m ais um a das m issões de rotina do grupo 2/33, cuj o obj etivo era reportar a posição do inim igo. Mas a realização desses voos se tornava extrem am ente arriscada por um a inferioridade m aterial flagrante em relação aos alem ães. De fato, a realidade daquela disputa era im piedosa: contavam -se 1210 caças alem ães contra 637 franceses, 1700

aviões de bom bardeio alem ães contra 242 franceses.3 No grupo a que pertencia Saint-Exupéry, o 2/33, dezessete das 23 tripulações foram atingidas.

Naturalm ente, nessas condições nem sem pre as inform ações coletadas podiam chegar no tem po desej ado. Restava, adem ais, o problem a incontornável da recusa do Estado-Maior francês em crer nos relatórios fornecidos pelas m issões quase suicidas (baixa altitude em m eio à caça inim iga); o alto-com ando não se dava conta do avanço alem ão por terra. A consequente falta de providências põe a Força Aérea francesa sob am eaça de aniquilam ento. Saint-Exupéry critica abertam ente os disparates de se cum prirem m issões que se revelam inúteis: “Sacrificam -se tripulações com o se j ogassem copos d’água no incêndio de um a floresta” (ver p. 25). A França estava derrotada.

Essa hum ilhação do país é percebida e, principalm ente, sofrida por Saint-Exupéry, testem unha ocular da derrocada. A França invadida, com cidades incendiadas e o êxodo de m ulheres e crianças à deriva, sem condições de enfrentar as estradas atulhadas no m ais absurdo caos. E essa destruição, em Piloto de guerra, é, pois, a “défaite” da França. Défaite, de défaire, palavra que exprim e em francês m ais que a derrota, m ais que perder a batalha, porque tam bém significa “desfazer-se”. “A derrota desfaz o que estava feito”, dirá o piloto (ver p. 155).

Piloto de guerra apresentará, portanto, aspectos de docum ento histórico: a narrativa de um piloto participante. Entretanto, não é m era obra de um observador; é o testem unho de um hom em que se sente perfeitam ente integrado à luta: “Nós fom os todos vencidos. Eu fui vencido”, escreverá (ver p. 156). De acordo com François Gerber, “Aos elem entos fundam entais [da obra] acrescenta-se a busca perm anente de Saint-Exupéry, sua necessidade de existir através da ação m ilitar, através da guerra. O livro enfatiza valores que não estão presentes em outras publicações, com o os do hum anism o, a defesa da

dem ocracia liberal e a defesa dos j udeus”.4

Mas Piloto de guerra é tam bém literatura e o relato se m istura às rem iniscências do narrador-piloto, que entra no devaneio de suas lem branças de infância para refugiar-se da torm enta. Tudo aquilo que lhe fora tão caro, a que denom ina “território” da infância com o quem evoca um a pertença, está sob irrefreável destruição. O que se esvai, para ele, não são m eram ente os bens m ateriais, m as as conexões que dão sentido a um a civilização: “Morre-se por um a casa. Não por obj etos ou por paredes. Morre-se por um a catedral. Não por pedras. Morre-se por um povo. Não por um a m ultidão. Morre-se pelo am or do Hom em , se ele for o ponto de sustentação do conj unto de um a Com unidade. Morre-se unicam ente por aquilo por que se pode viver” (ver p. 172).

A solução paliativa da assinatura do arm istício que adveio em j unho de 1940, dividindo os franceses entre os que desej avam continuar a luta (resistentes) e os que preferiam a trégua (entre os quais os colaboracionistas do regim e do Reich alem ão), não arrefeceria o engaj am ento de Saint-Exupéry, disposto a realizar, pelos seus atos, o que expressavam suas palavras.

 

No final do ano de 1940, o escritor, j á desm obilizado, é convidado por seus editores dos Estados Unidos a ir receber em Nova York o National Book Award pelo livro Terra dos homens (1939), que j á vendera 250 m il exem plares; depois de m uita hesitação em deixar a França nas condições em que estava, ele decide partir. O prêm io não o atraíra tanto quanto o intento secreto de servir-se de sua celebridade artística para convencer o governo am ericano a entrar na guerra e salvar seu país.

A travessia do Atlântico leva três sem anas e Saint-Exupéry tem a oportunidade de dividir a cabine com o cineasta Jean Renoir, com quem planej a roteirizar um de seus livros. Desem barcando dia 31 de dezem bro em Nova York, desde a chegada é celebrado por j ornalistas. Trata-se do escritor francês m ais conhecido nos Estados Unidos…

Mas Saint-Exupéry encontrou na m egalópole am ericana um am biente nefasto: a colônia francesa ali exilada levara consigo suas m esquinharias. Instalara-se um a espécie de “resistência da Quinta Avenida”, que era para o escritor engaj ado, participante, um entourage nauseabundo form ado por pessoas que, ausentes do com bate, portanto do verdadeiro sofrim ento do país invadido, ainda assim se autorizavam a j ulgá-lo de longe. Saint-Exupéry, que tem posição apartidária, só conhecerá dissabores. Se de um lado ele estava persuadido de que era preciso unir os franceses pela m esm a causa, a de, literalm ente, salvar a pátria, de outro, o escritor se m ostrou sem pre avesso a Charles de Gaulle, que j ulgava um “fascista sem doutrina”. À fam osa assertiva do general De Gaulle “Nós perdem os um a batalha, nós não perdem os a guerra”, Saint-Exupéry destem idam ente retrucaria: “Diga a verdade, m eu general, nós perdem os a

guerra. Nossos aliados vão ganhá-la”.5 Há de se im aginar a reação de De Gaulle, que não estava disposto a adm itir nenhum a form a de resistência à invasão alem ã que não fosse sob seu com ando; m ais ainda, não perdoaria quem se opusesse à sua pretensa autoridade. Boicotes do general ao piloto-escritor e à sua obra transcenderão o período da guerra.

No am biente am ericano, onde pululavam os partidários “à distância” do general De Gaulle, ficou m ais fácil acusar Saint-Exupéry de “petanista”, ou sej a, de ser apoiador do governo colaboracionista de Vichy, conduzido pelo m arechal Pétain. E essa seria a m ais pesada das inj ustiças, sobretudo para um personagem com o “Saint-Ex”, ferrenho adversário do nazism o.

Fechando o ciclo de m aledicências, em j aneiro de 1941 propagou-se um a notícia de que o m arechal Pétain teria nom eado Saint-Exupéry para fazer parte de um Conselho Nacional de Vichy. Sem que o escritor tivesse inform ação da suposta nom eação, a notícia se espalhou e com ela as calúnias. Deve-se incluir nisso o criador do Manifesto surrealista, dito o “papa do surrealism o”, André Breton, que tam bém vilipendiou Saint-Exupéry. A este, o piloto redigiria um a carta j am ais expedida, m as que traz à luz suas concepções políticas, bem com o suas posições críticas da literatura vanguardista: “Eu preferiria m e tornar m onge trapista a passar trinta horas na sociedade corânica que o senhor pretende nos preparar, na qual o hom em não é m ais j ulgado por sua qualidade de Ser, m as por

seu form ulário, na qual os m anifestos fazem as vezes de coração”.6

A situação ainda se agravaria m ais tarde pelo pronunciam ento de Saint-Exupéry publicado na New York Times Magazine, na Canada (Montreal) e divulgado em cadeia de rádio em 29 de novem bro de 1942, quando do desem barque anglo-am ericano na África do Norte e da retaliação alem ã com a ocupação de todo o território francês. A “Lettre ouverte aux Français” enfatiza os ideais (quase ingênuos naquele vespeiro) do piloto, a união de seus com patriotas de todos os lugares em prol da causa com um , que era salvar a França, independentem ente de partidos:

Prim eiro a França! A noite alem ã acabou de enterrar o território. […] Nada de nossa verborragia em m atéria de sociologia, de política, ou de arte pesará contra seus pensam entos [dos franceses na França]. […] Nós [os exilados] não representam os a França. Só podem os servi-la. Não tem os o direito, o que quer que façam os, a nenhum reconhecim ento. […] Os que lá estão são os únicos verdadeiros santos. Se tiverm os em breve a honra de participar do com bate, ainda estarem os em dívida. Não passam os de um acum ulado de dívidas. Esta é a prim eira verdade

fundam ental. Franceses, reconciliem o-nos para servir.7

Mas a incom preensão é geral e Saint-Exupéry sofre de ver suas palavras distorcidas ou m al interpretadas. Conform e escreveu sua biógrafa am ericana, Stacy de la Bruy ère: “Aliado de ninguém , Saint-Exupéry foi caluniado por

todos”.8

 

Piloto de guerra foi publicado nos Estados Unidos pouco depois do ataque de Pearl Harbour, adaptado em inglês por Lewis Galantière, com o título de A Flight to Arras. Apesar do contexto, não se tratava de um livro-panfleto. Para além da defesa dos valores que expressavam sua crença profunda, a preocupação do autor é notadam ente com o valor literário em si, com o se depreende da troca de correspondência entre ele e seu tradutor am ericano, que o apressava a term inar o trabalho a fim de servir-se do evento bélico para assegurar o sucesso do texto: “Ou m eu livro é bom e será lido um dia — estou m e lixando com pletam ente de saber quando — ou ele é nulo e não pode beneficiar-se de um tum ulto da

atualidade — pouco m e im porta que o leiam ”.9

A fortuna da obra m ostrará que o leram : nos Estados Unidos o livro tornou-se rapidam ente um best-seller. Na França, a história editorial seria insólita: o livro foi publicado em 14 de dezem bro de 1942, um m ês após a ocupação da zona antes dita “livre”, a zona sul, o que colocou o país quase inteiram ente sob o j ugo alem ão. Com o todas as publicações à época, passaria pela censura, a Abteilung. Provavelm ente por sugestão do editor francês Gaston Gallim ard, apenas um a frase foi suprim ida do texto original — “Hitler, que desencadeou essa guerra dem ente” — para que passasse pelo crivo dos ocupantes; e funcionou. Não obstante, é difícil com preender com o tenha escapado à Propaganda um a obra com bativa, cuj o título j á sugere a ideia de resistência e que faz, nitidam ente, a apologia de um piloto j udeu, de nom e Israel!

Com efeito, entre os cam aradas evocados e louvados em Piloto de guerra encontra-se o de nom e “Israel”, a quem o autor atribuirá, audaciosam ente naquela época, “um nariz grande, bem j udeu e bem verm elho”. “Israel desapareceu” — afirm a Saint-Exupéry no livro, crendo que o colega havia sido m orto em m issão em 22 de m aio de 1940, um dia antes de sua própria m issão sobre Arras. Ele nunca saberá que, na verdade, Israel, tendo sido atingido e aterrissando catastroficam ente, foi levado a um cam po de concentração alem ão, onde sobreviveu por quatro anos; só foi libertado depois da guerra. Quem , realm ente, não sabia que havia perdido um am igo era o próprio Israel; ele não m ais encontraria Saint-Exupéry.

 

Na crítica a Piloto de guerra, as reações não poderiam ser m ais contraditórias: ora se rotulou Saint-Exupéry de colaboracionista, ora de filossem ita… Desperta, a Propaganda não dem orou a prom ulgar a interdição da venda do livro na França: em 8 de fevereiro de 1943 é expedida ordem para que se retirem os exem plares das livrarias. Porém , as vendas declaradas no país até então eram de 21 874 livros, isto é, a totalidade de exem plares disponíveis… Se houve algum volum e rem anescente, pouco ou nada se soube das devoluções. Por fim , edições clandestinas serão realizadas após a proibição em Ly on e Lille; a obra só será liberada em outubro de 1944. À África do Norte, nas colônias francesas livres da ocupação e controladas pelos gaullistas, nenhum exem plar de Piloto de guerra chegará.

 

O engaj am ento de Saint-Exupéry na Segunda Guerra inicia-se pelo ato voluntário de um hom em que não crê na solução pelas palavras, m as unicam ente nos atos, e estes são, para ele, a própria condição hum ana: “O que sou se não participo? Preciso participar para ser” — escreverá tam bém em Piloto de guerra.

Transpor sua experiência e suas adj acentes conclusões filosóficas é para Saint-Exupéry a única form a de literatura, com o participar era a condição de sua existência. E, com o definira Pierre Chevrier, esse ato — seu engaj am ento —, autenticado por suas palavras, será definitivam ente caucionado por sua vida, porque foi levado às últim as consequências pelo piloto-escritor. O relato de um sobrevivente que constitui Piloto de guerra prenunciava, à revelia do autor, um a m issão do piloto em que aconteceria o pior.

Desesperado para retom ar o com bate com a ensej ada inserção dos am ericanos, Saint-Exupéry m overá m ontanhas para se fazer engaj ar novam ente em seu grupo 2/33, o que era im provável por causa de sua idade, considerada avançada para pilotar. Contrariando tudo e todos, conseguiu realizar seu intento. Assim , ele atravessou de volta o Atlântico no m ês de abril de 1943, desem barcando no norte da África, em Alger, cidade não ocupada pelos nazistas, m as onde ódios e desentendim entos se destilavam tam bém . Ao j untar-se novam ente ao 2/33, o piloto teve de passar por um treinam ento intensivo no avião P-38 Lightning, para o qual o lim ite de idade era de 35 anos. Em sum a, aparelho m oderno dem ais para um veterano da Aéropostale cuj os m ovim entos do corpo eram dificultosos em decorrência dos acidentes anteriores. Malgrado essas condições, em j unho, Saint-Exupéry é prom ovido a com andante e passa a realizar m issões de reconhecim ento no m ês seguinte.

Em 31 de j ulho de 1944, o piloto-escritor decolou sozinho às 8h30 de Borgo, na Córsega, num P-38, com a m issão de trazer fotografias da região de Grenoble, e j am ais retornou. Dispunha de com bustível para até o m eio-dia, e às catorze é dado com o desaparecido. Com os destroços do P-38 encontrados em 2002, quase sessenta anos m ais tarde, no fundo do Mediterrâneo, esclareceu-se que Saint-Exupéry estava fora da rota prevista. Um piloto de caça alem ão, Horst Rippert, um a vez localizado pelos pesquisadores, veio a público e assum iu ter abatido o avião do célebre escritor. Rippert j ustificou seu longo silêncio pelo fato de não ter certeza de se tratar de Saint-Exupéry, que, com o se supunha, teria findado na região de Grenoble. Em bora as circunstâncias do desaparecim ento de Saint-Exupéry não estej am com pletam ente esclarecidas (se houve pane, perda de oxigênio, que o teriam levado a voar tão baixo quanto descreveu Rippert), a probabilidade é de que esse tenha sido o seu destino. Todavia, a citação “Morto pela França”, com que se honra todo herói francês im olado em prol da pátria, não foi atribuída a Saint-Exupéry por causa do general Charles de Gaulle — que só deixou o governo de seu país em 1946.

 

Entre a redação de Piloto de guerra e seu engaj am ento definitivo, Saint-Exupéry, sem suspeitar, redigira um a obra cuj a repercussão se daria no m undo inteiro, tornando-se o livro m ais lido do século XX: O pequeno príncipe. Diferente da produção anterior, O Pequeno Príncipe, que o próprio autor ilustrou, é um conto, um a espécie de fábula que com ove o m undo — m uito além do público infantil, aliás — há m ais de setenta anos. Com o toda obra que sofre excessiva popularização, O pequeno príncipe m uitas vezes é percebido por excertos tornados clichês que, não raro, escam oteiam um fato inegável: o de que foi escrito por um piloto; naquele m om ento, um piloto de guerra que am argava um profundo sofrim ento. O biógrafo Curtis Cate deixa claro: “Por m ais estranho que possa parecer, há um pequeno passo entre Piloto de guerra e a obra seguinte

de Saint-Exupéry, O pequeno príncipe”.10

“Sou da m inha infância com o de um território”, afirm a o piloto no m eio da guerra. E o alm ej ado refúgio nesse território parece se concretizar na obra seguinte, com a queda im aginária de um piloto no deserto e no seu encontro com o m enino de outro planeta. Trata-se do m esm o piloto em busca do que lhe parece essencial. O constante flerte com a m orte, em am bos os textos, insinua um a crença de que som ente pela transcendência seria possível encontrá-lo. O pequeno príncipe pactua com um a serpente para se livrar de seu corpo “pesado dem ais”; Antoine de Saint-Exupéry aceita participar do com bate sob todos os riscos.

Na véspera de seu desaparecim ento, em 30 de j ulho de 1944, Saint-Exupéry deixou um a “Carta ao general X”, expressando profunda am argura e decepção com o m undo, e concluiu: “É-m e indiferente se eu for m orto na guerra. Do que am ei, o que restará? […] Mas se eu voltar vivo desse ‘ofício necessário e ingrato’, só haverá para m im um problem a: o que se pode, o que se deve dizer aos hom ens?”. Ele não sabia, apesar de sua vigília prem onitória, que j á havia dito tudo. E que o exem plo de seu engaj am ento endossava definitivam ente suas palavras de piloto de guerra: “É preciso com eçar pelo sacrifício para fundar o

am or”.11

 

1 Pierre Chevrier, Saint-Exupéry: Essai par Pierre Chevier. Paris: Gallim ard, 1959, p. 7. (Coleção Pour Une Bibliothèque Idéale)

2 Jean-Pierre Guéno, La Mémoire du Petit Prince: Antoine de Saint-Exupéry, le journal d’une vie. Paris: Jacob-Duvernet, 2009, p. 188.

3 Thierry Spas, “Im ages de la résistance dans Pilote de guerre”. In: Claude Carlier et al., Saint-Exupéry: Pilote de guerre — L’engagement singulier de Saint-Exupéry. Paris: Gallim ard, 2013, p. 100. (Coleção Les Cahiers de la NRF)

4 François Gerber, Saint-Exupéry: Écrivain en guerre. Paris: Jacob-Duvernet, 2012, p. 181.

5 Antoine de Saint-Exupéry, Écrits de guerre (1939-1944). Paris: Gallim ard, 1982. (Coleção Blanche)

6 Id., “Lettre à André Breton”, Écrits de guerre, op. cit.

7 Id., “Lettre aux Français”. In: ——. Un sens à la vie. Org. de Claude Rey nal. Paris: Gallim ard, 1956, p. 209.

8 Stacy de la Bruy ére, Saint-Exupéry: Une vie à contre-courant. Trad. do inglês de Françoise Bouillot e Dom inique Lablanche. Paris: Albin Michel, 1994, p. 380.

9 Alban Cérisier, “La Publication française de Pilote de guerre: Une singulière histoire”. In: Claude Carlier et al., Saint-Exupéry: Pilote de guerre — L’engagement singulier de Saint-Exupéry, op. cit., p. 149.

10 Curtis Cate, Antoine de Saint-Exupéry: Laboureur du ciel. Trad. do inglês por Pierre Rocheron e Marcel Shneider. Paris: Grasset, 1973, p. 438.

11 Antoine de Saint-Exupéry, “Lettre au général X”. In: ——. Un sens à la vie, op. cit., p. 230.