Piloto de Guerra

Antoine de Saint-Exupéry · Capítulo 2 de 4 · parte 1/6

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Piloto de Guerra

Piloto de guerra

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Ao comandante Alias, a todos os meus camaradas do grupo de reconhecimento aéreo 2/33 e, mais especialmente, ao capitão observador Moreau e aos tenentes Azambre e Dutertre, que foram, um a um, meus companheiros de bordo, durante todos os meus voos de guerra na campanha de 1939-40 e dos quais serei, por toda a minha vida, amigo fiel.

I

 

Sem dúvida, estou sonhando. Estou no ginásio. Tenho quinze anos. Resolvo pacientem ente m eu problem a de geom etria. Apoiado na carteira escura, uso direitinho o com passo, a régua, o transferidor. Estou concentrado e tranquilo. Os cam aradas, atrás de m im , falam baixinho. Um deles alinha as cifras num quadro negro. Alguns, m enos sérios, j ogam bridge. De quando em quando, m ergulho m ais longe no sonho e dou um a espiada pela j anela. Um galho de árvore oscila docem ente ao sol. Fico olhando m uito tem po. Sou um aluno distraído… Sinto prazer em experim entar esse sol, com o em saborear esse odor infantil da carteira, do giz, do quadro-negro. Encerro-m e com tanta alegria nessa infância bem protegida. Bem sei: prim eiro, há a infância, o ginásio, os cam aradas, depois chega o dia em que fazem os os exam es. Em que recebem os algum diplom a. Em que atravessam os, com um aperto no coração, um certo lim iar além do qual, subitam ente, som os hom ens. Então o passo fica m ais pesado, m ais no chão. Já estam os traçando nosso cam inho na vida. Testarem os enfim nossas arm as em adversários de verdade. A régua, o esquadro, o com passo, nós os usarem os para construir o m undo ou para triunfar sobre os inim igos. Acabaram as brincadeiras!

Sei que, norm alm ente, um colegial não receia enfrentar a vida. Um colegial esperneia de im paciência. Os torm entos, os perigos, as am arguras de um a vida de hom em não intim idam um colegial.

Mas eis que sou um colegial esquisito. Sou um colegial que conhece sua felicidade e que não tem tanta pressa de enfrentar a vida…

Dutertre passa. Eu o convido.

— Senta aqui, vou te fazer um truque com o baralho…

E fico feliz em achar seu ás de espadas.

À m inha frente, em sua carteira, escura com o a m inha, Dutertre está sentado com as pernas pendentes. Ele ri. Sorrio m odestam ente. Pénicot se j unta a nós e põe o braço no m eu om bro:

— E então, m eu velho?

Meu Deus, com o tudo isso é terno!

 

Um bedel (é um bedel?) abre a porta para convocar dois cam aradas. Eles largam suas réguas, com passos e saem . Nós os seguim os com o olhar. O colégio acabou para eles. Vão soltá-los na vida. Sua ciência será aplicada. Eles vão, com o hom ens, testar em seus adversários os resultados de seus cálculos. Estranho colégio, de onde partim os um de cada vez. E sem grandes despedidas. Esses dois cam aradas nem m esm o nos olharam . Porém , os acasos da vida talvez os levem — ou não — m ais longe do que à China. Bem m ais longe. Quando a vida, depois do colégio, dispersa os hom ens, eles podem j urar que irão se rever?

Curvam os a cabeça, nós que vivem os ainda na paz quente da incubadora…

— Escuta, Dutertre, esta noite…

Mas a m esm a porta se abre de novo. E ouço, com o um veredicto:

— O capitão de Saint-Exupéry e o tenente Dutertre, na sala do com andante.

Acabou o colégio. É a vida.

— Você sabia que era a nossa vez?

— Pénicot voou esta m anhã.

Sem dúvida, partirem os em m issão, pois estão nos convocando. Estam os no fim de m aio, em plena retirada, em pleno desastre. Sacrificam -se tripulações com o se j ogassem copos d’água no incêndio de um a floresta. Com o calcular os riscos quando tudo desm orona? Som os ainda, para toda a França, cinquenta tripulações de Grande Reconhecim ento. Cinquenta tripulações de três hom ens, das quais vinte e três estão conosco, no Grupo 2/33. Em três sem anas, perdem os dezessete tripulações dessas vinte e três. Derretem os com o cera. Disse ontem ao tenente Gavoille:

— A gente vai ver isso depois da guerra.

E o tenente Gavoille m e respondeu:

— Meu caro Capitão, você tam bém não tem a pretensão de estar vivo depois da guerra?

Gavoille não estava brincando. Nós bem sabem os que nada podem os fazer além de nos atirar no braseiro, m esm o que num gesto inútil. Som os cinquenta, para toda a França. Sobre nossos om bros deposita-se toda a estratégia do Exército francês. Há um a im ensa floresta queim ando, e alguns copos d’água a sacrificar para apagá-la: vão sacrificá-los.

Está certo. Quem sonha em reclam ar?

Por acaso j á se ouviu responder outra coisa, no nosso país, senão: “Positivo, Com andante. Obrigado, Com andante”? Mas há um a im pressão que dom ina todas as outras nesse fim de guerra. É a do absurdo. Tudo rui à nossa volta. Tudo desaba. E é tão total que a própria m orte parece absurda. Falta seriedade à m orte nessa bagunça…

Entram os na sala do com andante Alias. (Ele com anda ainda hoj e, na Tunísia, o m esm o Grupo 2/33.)

— Bom dia, Saint-Ex. Bom dia, Dutertre. Sentem -se.

Nós nos sentam os. O Com andante abre um m apa sobre sua m esa e volta-se ao guarda:

— Vá buscar a previsão m eteorológica.

Depois, ele fica batendo na m esa com seu lápis. Eu o observo. Seus traços estão tensos. Não dorm iu. Ele fez a patrulha de carro, em busca de um Estado-Maior fantasm a, o Estado-Maior da divisão, o Estado-Maior da subdivisão… Tentou lutar contra os postos de abastecim ento que não m andavam as peças de reposição. Acabou preso na estrada em engarrafam entos inextricáveis. Tam bém presidiu à últim a m udança, à últim a acom odação, pois m udam os de terreno com o m iseráveis perseguidos por um guardião inexorável. Alias conseguiu salvar, a cada vez, os aviões, os cam inhões e dez toneladas de m aterial. Mas nós vem os que ele está no lim ite de suas forças e de seus nervos.

— Bem , é isso…

Ele continua batendo na m esa e não olha para nós.

— É m uito chato…

Depois, dá de om bros.

— É um a m issão chata. Mas eles fazem questão, no Estado-Maior. Discuti, m as fazem questão… É assim .

Dutertre e eu olham os, através da j anela, um céu calm o. Ouço cacarej arem as galinhas, pois a sala do com andante fica ao lado de um a fazenda, com o a sala de inform ações fica num a escola. Não oporei o verão, as frutas am adurecendo, os pintinhos ganhando peso, os trigais se erguendo, à m orte tão próxim a. Não vej o em que a calm a do verão contradiga a m orte, nem em que a ternura das coisas sej a irônica. Mas um a ideia vaga m e ocorre: “É um verão que se estraga. Um verão em pane…”. Vi colheitadeiras abandonadas. Vi ceifadores abandonados. Nos buracos das estradas, carros quebrados abandonados. Vilas abandonadas. Um a fonte de um a vila vazia deixava correr sua água. A água pura se transform ava em lodo, a m esm a que custara tanto trabalho aos hom ens. De repente, um a im agem absurda m e ocorre. A de relógios quebrados. De todos os relógios quebrados. Relógios das igrej as da vila. Relógios das estações de trem . Pêndulos de lareiras das casas vazias. E, nessa placa de reloj oeiro fugido, esse ossuário de pêndulos m ortos. A guerra… Não se m ontam m ais os pêndulos. Já não se colhem beterrabas. Não se consertam m ais os vagões. E a água, que era captada para a sede, ou para alvej ar as belas rendas de dom ingo das cam ponesas, espalha-se em lam a na frente da igrej a. E m orre-se no verão…

É com o se eu tivesse um a doença. Esse m édico acaba de m e dizer: “É m uito chato”. Seria então preciso pensar no tabelião, nos que ficariam . De fato, nós com preendem os, Dutertre e eu, que se trata de um a m issão sacrificada:

— Em vista das atuais circunstâncias — conclui o com andante — não podem os considerar dem ais os riscos…

Lógico. “Dem ais”, não. E ninguém está errado. Nem nós, de nos sentirm os m elancólicos. Nem o com andante, de estar constrangido. Nem o Estado-Maior, de dar as ordens. O com andante reclam a porque são ordens absurdas. Nós o sabem os, bem com o o próprio Estado-Maior. Mas dá ordens porque é preciso dar ordens. Durante um a guerra, um Estado-Maior dá ordens. Ele as confia a belos cavaleiros ou, m ais m odernos, a m otociclistas. Onde reinavam a bagunça e o desespero, cada um desses belos cavaleiros desce de um cavalo fum egante. Ele m ostra o Porvir, com o a estrela dos Reis Magos. Ele traz a Verdade. E as ordens reconstroem o m undo.

Este é o esquem a da guerra. A im aginária na cor da guerra. E cada um se em penha o m ais que pode para fazer com que a guerra pareça guerra. Piam ente. Cada um se esforça para aplicar bem as regras. Talvez, então, essa guerra trate de parecer-se com um a guerra.

E a fim de fazer com que ela pareça um a guerra é que nós, tripulantes, nos sacrificam os, sem obj etivos precisos. Ninguém adm ite que essa guerra não se parece com nada, que nada faz sentido, que nenhum esquem a se adapta e puxam -se gravem ente fios que não m ais se com unicam com as m arionetes. Os Estados-Maiores expedem com convicção ordens que não levarão a lugar algum . Exigem de nós inform ações que é im possível colher. A aviação não pode assum ir a responsabilidade de explicar a guerra aos Estados-Maiores. A aviação, por suas observações, pode controlar hipóteses. Mas não há m ais hipóteses. E solicita-se, de fato, a uns cinquenta tripulantes, que m odelem um rosto para um a guerra que não o tem . Dirigem -se a nós com o a um a tribo de cartom antes. Olho Dutertre, m eu observador-cartom ante. Ele retrucava, ontem , a um coronel da divisão: “E com o eu vou fazer a dez m etros do solo, e a quinhentos e trinta quilôm etros por hora, para referenciar as posições? Olha, o senhor verá de onde atiram contra o senhor! Se atirarem no senhor, é porque as posições são alem ãs”.

— Ri m uito — concluía Dutertre, depois da discussão.

Pois os soldados franceses nunca viram aviões franceses. Há uns m il destes, dissem inados de Dunquerque à Alsácia. Mais certo dizer que estão diluídos no infinito. Assim , quando, no front, um aparelho passa com o um a raj ada, com certeza é alem ão. É tratar de esforçar-se em abatê-lo antes que solte suas bom bas. Só o seu ronco j á desencadeia as m etralhadoras e os canhões de tiro rápido.

— Com esse m étodo, acrescentava Dutertre — vão ser m uito preciosas as inform ações deles…

E vam os levá-las em conta porque, num esquem a de guerra, deve-se levar inform ações em conta.

Sim , m as a guerra tam bém está degringolada.

Felizm ente — bem sabem os que não vão dar a m enor im portância às nossas inform ações. Não conseguirem os transm iti-las. As estradas estarão congestionadas. Os telefones, quebrados. O Estado-Maior terá sido transferido com urgência. As inform ações im portantes sobre a posição do inim igo será o próprio inim igo quem fornecerá. Nós conversávam os, há alguns dias, perto de Laon, sobre a eventual posição das linhas. Enviam os um tenente para fazer contato com o general. No m eio do cam inho, entre nossa base e a do general, o carro do tenente bateu num rolo com pressor atravessado na estrada, atrás do qual estavam dois carros blindados. O tenente deu m eia-volta. Mas um a raj ada de m etralhadora o m atou na hora e feriu o chofer. Os blindados são alem ães.

 

No fundo, o Estado-Maior parece um j ogador de bridge a quem perguntaríam os, no côm odo ao lado:

— O que devo fazer com a m inha dam a de espadas?

O isolado daria de om bros. Nada tendo visto do j ogo, o que responderia?

Mas um Estado-Maior não tem o direito de dar de om bros. Se ele ainda controla alguns elem entos, deve fazê-los agir para m antê-los sob controle e para tentar todas as chances enquanto a guerra durar. Mesm o às cegas, ele deve agir e m andar agir.

Mas é difícil atribuir um a função, ao acaso, a um a dam a de espadas. Nós j á constatam os, prim eiro com surpresa, depois com o um a evidência que poderíam os ter previsto: quando com eça o desabam ento, falta trabalho. Consideram os o vencido subm erso num a torrente de problem as, desgastando-se inteiram ente para resolvê-los, sua infantaria, artilharia, seus tanques, aviões… Mas a derrota prim eiro escam oteia os problem as. Nada m ais se sabe do j ogo. Não se sabe em que em pregar os aviões, os tanques, a dam a de espadas…

Nós descartam os casualm ente a dam a de espadas na m esa, depois de quebrar a cabeça para lhe atribuir um papel eficaz. Reina o m al-estar e não a febre. Som ente a vitória se envolve na febre. A vitória organiza, a vitória constrói. E cada um se esfalfa para carregar suas pedras.

Mas a derrota m ergulha os hom ens num a atm osfera de incoerência, de tédio e, acim a de tudo, de futilidade.

Pois, prim eiram ente, essas m issões exigidas de nós são fúteis… Cada dia m ais fúteis. Mais sangrentas e m ais fúteis. Os que dão ordens não têm outros recursos para resistir a um deslizam ento de m ontanha, só lhes resta j ogar seus últim os trunfos na m esa.

Dutertre e eu som os trunfos e escutam os o com andante. Ele nos expõe o program a da tarde. Manda-nos sobrevoar, a setecentos m etros de altitude, os tanques estacionados na região de Arras, na volta de um longo percurso a dez m il m etros, com a m esm a voz com que nos diria:

— Sigam então pela segunda rua à direita, até a esquina da prim eira praça; tem lá um a tabacaria; com prem -m e fósforos…

— Positivo, m eu Com andante.

Nem m ais nem m enos útil, a m issão. Nem m ais nem m enos lírica, a linguagem que a significa.

E digo: “Missão sacrificada”. Eu penso… Eu penso m uitas coisas. Esperarei a noite, se estiver vivo, para refletir. Vivo… Quando um a m issão está fácil, retorna um a a cada três. Quando é um pouco “chata”, fica m ais difícil, evidentem ente, voltar. E aqui, no gabinete do com andante, a m orte não m e parece nem augusta nem m aj estosa, nem heroica nem dilacerante. Ela é apenas um sinal de desordem . Um efeito da desordem . O Grupo vai nos perder, com o se perdem bagagens num a confusão de conexões de estradas de ferro.

E não é que não pense sobre a guerra, sobre a m orte, sobre o sacrifício, sobre a França, qualquer outra coisa, m as m e falta um conceito diretor, um a linguagem clara. Penso por contradições. Minha verdade está em pedaços e só posso considerá-los um após o outro. Se estiver vivo, esperarei a noite para refletir. A noite bem -am ada. À noite, a razão dorm e, e sim plesm ente as coisas são. As que im portam verdadeiram ente retom am sua form a, sobrevivem às destruições das análises do dia. O hom em reata seus pedaços e se torna árvore calm a.

O dia é das cenas de briga, m as à noite, aquele que brigou reencontra o Am or. Pois o am or é m aior do que o sopro das palavras. E o hom em se debruça em sua j anela, sob as estrelas, de novo responsável pelos filhos que dorm em , pelo pão vindouro, pelo sono da esposa que repousa ali, tão frágil, delicada e passageira. O am or não se discute. Ele é. Que venha a noite e se m ostre a m im algum a evidência que m ereça o am or. Para que eu pense a civilização, o destino do hom em , o gosto da am izade no m eu país. Para que eu desej e servir a algum a verdade im periosa, m esm o que, talvez, ainda inexprim ível…

Por enquanto, pareço-m e inteiram ente com o cristão abandonado pela graça. Eu farei m eu papel, com Dutertre, honestam ente, isso é certo, m as com o se salvam ritos que j á não têm m ais conteúdo, quando o deus se retirou deles. Esperarei a noite, se puder ainda viver, para andar um pouco a pé na grande estrada que atravessa nossa vila, envolvido em m inha solidão bem -am ada, a fim de nela reconhecer por que eu devo m orrer.

II

 

Acordo do m eu sonho. O Com andante m e surpreende com um a estranha proposta:

— Se essa m issão o aborrece dem ais, se você não se sentir m uito em form a, posso…

— Ora, m eu Com andante!

O Com andante sabe m uito bem que tal proposta é absurda. Mas, quando um a tripulação não volta, ele se lem bra da gravidade dos rostos na hora da partida. Interpreta essa gravidade com o sinal de um pressentim ento. Culpa-se por tê-la negligenciado.

O escrúpulo do Com andante m e faz pensar no Israel. Eu estava fum ando antes de ontem , na j anela da sala de inform ações. Quando vi o Israel da m inha j anela, ele andava rapidam ente. Seu nariz estava verm elho. Um nariz grande, bem j udeu e bem verm elho. Fiquei bruscam ente chocado com o nariz verm elho do Israel.

Eu tinha por esse Israel, cuj o nariz estava observando, um a profunda am izade. Era um dos cam aradas pilotos m ais coraj osos do grupo. Um dos m ais coraj osos e um dos m ais m odestos. Tinham -lhe falado tanto da prudência j udia que ele devia tom ar sua coragem por prudência. É prudente ser vencedor.

Então, reparei no seu nariz grande e verm elho, que brilhou apenas um instante, dada a rapidez dos passos que levavam Israel e seu nariz. Sem querer zom bar, voltei-m e a Gavoille:

— Por que ele está fazendo aquele nariz?

— Foi a m ãe dele quem o fez — respondeu Gavoille.

Mas acrescentou:

— Estranha essa m issão em baixa altitude. — E saiu.

— Ah!

E, claro, eu m e lem brei, à noite, quando deixam os de esperar o retorno do Israel, daquele nariz que, plantado num rosto totalm ente im passível, exprim ia, com um a espécie de gênio próprio, a m ais pesada das preocupações. Se eu precisasse ter ordenado a partida do Israel, a im agem daquele nariz m e teria perseguido m uito tem po, com o um a recrim inação. Israel, decerto, nada respondera à ordem de partida, senão: “Positivo, Com andante. Sim senhor, Com andante”. Israel, decerto, não trem era um único m úsculo do rosto. Mas, devagar, insidiosa e traiçoeiram ente, seu nariz acendeu. Israel poderia contrair os traços de seu rosto, m as não a cor de seu nariz. E seu nariz abusara daquela cor para m anifestar-se, por sua conta, no silêncio. O nariz, à revelia de Israel, exprim ira ao com andante sua forte desaprovação.

Talvez sej a por isso que o Com andante não goste de m andar partir os que im agina estarem assolados de pressentim entos. Os pressentim entos quase sem pre enganam , m as dão às ordens de guerra um tom de condenação. Alias é um chefe, não um j uiz.

Assim , outro dia, a respeito do suboficial T.

Tanto quanto Israel era coraj oso, T. era acessível ao m edo. É o único hom em que conheci que experim entou de fato o m edo. Quando se dava a T. um a ordem de guerra, provocava-se nele um a estranha ascensão de vertigem . Era algum a coisa sim ples, inexorável e lenta. T. enrij ecia lentam ente dos pés à cabeça. Seu rosto ficava com o que lavado de qualquer expressão. E seus olhos com eçavam a luzir.

Ao contrário do Israel, cuj o nariz m e parecera tão aflito, aflito pela provável m orte do Israel e ao m esm o tem po m uito irritado, T. não form ava m ovim entos interiores. Ele não reagia: ele entrava em m utação. Quando se term inava de falar com T., descobria-se ter sim plesm ente acendido nele a angústia. A angústia com eçava por expandir em seu rosto um a espécie de claridade uniform e. T., desde então, ficava com o que fora de alcance. Sentia-se aum entar entre o universo e ele um deserto de indiferença. Em lugar algum , j am ais conheci, em ninguém no m undo, essa form a de êxtase.

— Nunca deveria tê-lo deixado partir naquele dia — dizia m ais tarde o Com andante.

Naquele dia, quando o Com andante anunciara a partida a T., ele não havia som ente em palidecido, m as tam bém com eçara a sorrir. Sim plesm ente sorrir. Assim fazem , talvez, os supliciados quando o carrasco, realm ente, passa dos lim ites.

— Você não está bem . Vou substituí-lo…

— Não, não Com andante. Já que é a m inha vez, é a m inha vez.

E T., em continência diante do Com andante, olhava para a frente, sem um m ovim ento.

— Mas se você não se sente seguro de si…

— É m inha vez, Com andante, é m inha vez.

— Vej am os, T…

— Com andante…

O hom em parecia um bloco. E Alias:

— Então o deixei partir.

O que se seguiu nunca teve explicação. T., m etralhador a bordo do aparelho, sofreu a tentativa de ataque por parte de um caça inim igo. Mas as m etralhadoras do caça tendo travado, este deu m eia-volta. O piloto e T. se falaram até quando próxim os do terreno da base, sem que o piloto notasse nada de anorm al. Mas a cinco m inutos da chegada, não teve m ais resposta.

E encontram os T. à noite, com o crânio fraturado pela em penagem do avião. Ele saltara de paraquedas em condições desastrosas, em plena velocidade, e isso sobre território am igo, quando nenhum perigo o am eaçava m ais. A passagem do caça funcionara com o um apelo irresistível.

* * *

— Vão se vestir — disse-nos o Com andante —, e estej am no ar às cinco e m eia.

— Até logo, Com andante.

O com andante responde com um gesto vago. Superstição? Com o m eu cigarro está apagado e vasculho em vão m eus bolsos: Por que você nunca tem fósforos? Exatam ente. E passo pela porta, com esse adeus, perguntando-m e: “Por que nunca tenho fósforos?”.

— A m issão o aborrece — observa Dutertre. — Eu penso: “Ele não se lixa”. Mas não é em Alias que estou pensando, fazendo essa tirada inj usta. Estou chocado com um a evidência que ninguém confessa: a vida do Espírito é interm itente. A vida da Inteligência, som ente esta, é perm anente, ou quase. Há poucas variações em m inhas faculdades de análise. Mas o Espírito não considera os obj etos, considera o sentido que os liga entre si. O rosto que é lido através deles. E o Espírito passa da plena visão à cegueira absoluta. Quem am a sua m orada, chega a hora em que não vê ali nada além da j unção de obj etos disparatados. Quem am a sua m ulher, chega a hora em que só vê no am or preocupações, contrariedades e obrigações. Quem apreciava certa m úsica, chega a hora em que ela nada lhe significa. Chega a hora, com o agora, em que não entendo m ais m eu país. Um país não é a som a de terras, costum es, m ateriais, que m inha inteligência sem pre consegue apreender. É um Ser. E chega a hora em que estou cego aos Seres.

O com andante Alias passou a noite com o general discutindo lógica pura. A lógica pura arruína a vida do Espírito. Depois, ele se esgotou, na estrada, contra im ensos engarrafam entos. Depois, ele encontrou, chegando ao Grupo, cem dificuldades m ateriais daquelas que nos roem pouco a pouco, com o os m il efeitos do desm oronam ento incontrolável de um a m ontanha. Ele enfim nos convocou para lançar-nos num a m issão im possível. Som os obj etos da incoerência geral. Não som os, para ele, Saint-Exupéry ou Dutertre, dotados de um m odo particular de ver as coisas ou de não ver, de pensar, andar, beber, sorrir. Som os pedaços de um a grande construção cuj o encaixe leva-se m ais tem po, m ais silêncio e m ais recuo para descobrir. Se fosse acom etido de um tique, Alias só teria observado o tique. Não expediria, a Arras, senão a im agem de um tique. Na balbúrdia dos problem as que se apresentam , no im bróglio, nós m esm os estam os divididos em pedaços. Essa voz. Aquele nariz. Esse tique. E pedaços não com ovem .

Não se trata aqui do Com andante Alias, m as de todos os hom ens. Durante os preparativos de enterro, am am os o m orto, não estam os em contato com a m orte. A m orte é um a coisa grande. É um a nova rede de relações com as ideias, os obj etos, os costum es do m orto. Ela é um novo arranj o do m undo. Nada m udou aparentem ente, m as tudo m udou. As páginas do livro são as m esm as, m as não o sentido do livro. Precisam os, para sentir a m orte, im aginar as horas em que tem os necessidade do m orto. Então, ele nos faz falta. Im aginar as horas em que ele precisaria de nós. Mas ele não precisa m ais de nós. Im aginar a hora da visita am iga. E descobri-la oca. É preciso ver a vida em perspectiva. Mas não há perspectiva nem espaço no dia em que se enterra. O m orto está ainda em pedaços. O dia em que se enterra, nós nos dispersam os em repisam entos, nas m ãos de am igos verdadeiros ou falsos a apertar, nas preocupações m ateriais. O m orto m orrerá só am anhã, no silêncio. Mostrar-se-á para nós em sua plenitude, para ser arrancado, em sua plenitude, da nossa substância. Então gritarem os por aquele que se vai, e que não podem os reter.

Não gosto das gravuras de Épinal sobre a guerra. O guerreiro rude aparece secando um a lágrim a e dissim ulando sua em oção com suas tiradas violentas. É falso. O guerreiro rude nada dissim ula. Se solta um a tirada, é que está pensando num a tirada.

A qualidade do hom em não está em questão. O com andante Alias é perfeitam ente sensível. Se não voltarm os, talvez ele sofra m ais do que qualquer outro. Com a condição de que se trate de nós e não de um a som a de detalhes diversos. Com a condição de que essa reconstrução lhe sej a perm itida pelo silêncio. Pois se, esta noite, o guardião que nos persegue obrigar o Grupo a se m udar novam ente, um a roda de cam inhão quebrada, num a avalanche de problem as, adiará nossa m orte. E Alias se esquecerá de sofrer por isso.

Assim eu, que parto em m issão, não penso em luta do Ocidente contra o nazism o. Penso em detalhes im ediatos. Im agino o absurdo de um sobrevoo sobre Arras a setecentos m etros. Na vacuidade das inform ações que desej am obter de nós. Na lentidão de uniform izar-se com o um a toalete para um carrasco. E depois nas m inhas luvas. Diabos, onde enfiei as luvas? Perdi m inhas luvas.

Não vej o m ais a catedral que habito.

Estou m e vestindo para o culto de um deus m orto.

III

 

— Anda logo… Cadê as m inhas luvas? Não, não são essas… Procura na m inha bolsa…

— Não achei, Capitão.

— Você é um im becil.

São todos uns im becis. Esse que não consegue achar as m inhas luvas. E o outro, do Estado-Maior, com sua ideia fixa de m issão em baixa altitude.

— Eu te pedi um lápis. Faz dez m inutos que pedi um lápis. Não tem um lápis?

— Sim , Capitão.

Está aí um que é inteligente.

— Prende esse lápis num barbante. E am arra o barbante nesta botoeira aqui. Diga-m e, Artilheiro, você não parece ter pressa…

— É que estou pronto, Capitão.

— Ah! Bom .

E bifurco para o observador:

— Tudo bem , Dutertre? Não falta nada? Calculou as direções?

— Tenho as direções, Capitão.

Bom . Ele tem as direções. Um a m issão sacrificada… Só lhes pergunto se é sensato sacrificar um a tripulação por inform ações de que ninguém precisa e, se um de nós ainda estiver vivo para reportá-las, nunca serão transm itidas a ninguém …

— O Estado-Maior deveria engaj ar espíritos…

— Para quê?

— Para que a gente possa com unicar-lhes essas inform ações esta noite, num a m esa girante.

Não fico m uito orgulhoso da m inha tirada, m as resm ungo ainda:

— Os Estados-Maiores, os Estados-Maiores… Fossem eles fazer essas m issões sacrificadas, esses Estados-Maiores.

Pois é longo o cerim onial de pôr uniform e, quando a m issão surge com o desesperada, e nos apetrecham os com tanto cuidado para serm os grelhados vivos. É trabalhoso vestir essas roupas espessas, triplas, sobrepostas, fantasiar-se com acessórios que usam os feito m ascates, organizar o circuito de oxigênio, circuito de aquecim ento, circuito de com unicações telefônicas entre m em bros da tripulação. É através dessa m áscara que eu respiro. Um tubo de borracha m e liga ao avião, tão essencial quanto um cordão um bilical. O avião entra em circuito com a tem peratura do m eu sangue. O avião entra no circuito das m inhas com unicações hum anas. Acrescentaram -m e órgãos que se interpõem , de algum m odo, entre m im e m eu coração. A cada m inuto, m e torno m ais pesado, m ais atulhado, m ais difícil de m anej ar. Viro num bloco e, se m e inclino para apertar as correias ou puxar os fechos em perrados, todas as m inhas j untas gritam . Minhas antigas fraturas doem .

— Dá aqui outro capacete. Eu j á te disse vinte e cinco vezes que não queria m ais o m eu. Está m uito apertado.

Pois só Deus sabe por qual m istério o crânio incha em grande altitude. E um capacete norm al no solo, a dez m il m etros aperta os ossos com o um torno.

— Mas esse é outro, Capitão. Eu troquei o seu capacete…

— Ah! Bom .

Pois resm ungo m esm o, m as sem nenhum rem orso. Tenho razão! Aliás, nada disso tem im portância. A gente atravessa, nesse instante, o próprio centro do deserto interior de que eu falava. Só há cacos aqui. Não m e envergonho nem m esm o de desej ar o m ilagre que m udará o curso desta tarde. Pane de laringofone, por exem plo. Sem pre quebram , esses laringofones! Porcaria! Um a pane de laringofone livraria nossa m issão de ser sacrificada…

O capitão Vezin m e aborda com um ar som brio. O capitão Vezin aborda cada um de nós, antes de partirm os em m issão, com um ar som brio. O capitão Vezin é encarregado, entre nós, das relações com os organism os de vigia dos aviões inim igos. Ele tem a função de nos inform ar sobre seus m ovim entos. Vezin é um am igo de quem gosto m uito, m as é um profeta do infortúnio. Lam ento que m e apareça agora.

— Meu velho — diz-m e Vezin —, é um a droga, um a droga, um a droga!

E ele tira papéis do bolso. Depois, olhando-m e desconfiado:

— Por onde você sai?

— Por Albert.

— É isso m esm o. É isso. Ah! É um a droga!

— Não banque o idiota, o que há?

— Você não pode partir!

Eu não posso partir! Que bonzinho, o Vezin! Pois que obtenha de Deus Pai um a pane de laringofone!

— Você não consegue passar.

— Por que não consigo passar?

— Porque há três m issões de caça alem ã que se revezam constantem ente sobre Albert. Um a a seis m il m etros, outra a sete m il e cinco, e outra a dez m il. Nenhum a deixa o céu antes da chegada das substitutas. Eles fazem interdição a priori. Você vai cair num a arapuca. E, depois, olha aqui!

E ele m e m ostra um papel, no qual rabiscou dem onstrações incom preensíveis.

Seria m elhor que Vezin m e deixasse em paz.

As palavras “interdição a priori” m e im pressionaram . Penso nas luzes verm elhas e nas contravenções. Mas a contravenção, aqui, é a m orte. Eu detesto principalm ente o “a priori”. Tenho a im pressão de ser pessoalm ente visado.

Faço um grande esforço de inteligência. É sem pre a priori que o inim igo defende suas posições. Essas palavras são estéreis. Que se danem , os caças! Quando eu descer a setecentos m etros, é a D.C.A. que m e abaterá. Não tem com o m e errar! Eis-m e bruscam ente agressivo:

— Em sum a, você vem m e dizer, urgentem ente, que a existência de um a aviação alem ã torna m inha partida m uito im prudente. Vá correndo avisar o general…

Não custaria a Vezin m e tranquilizar gentilm ente, batizando seus tais aviões: “Caças circulando nas proxim idades de Albert”.

O sentido era exatam ente o m esm o!

IV

 

Tudo pronto. Estam os a bordo. Falta testar os laringofones…

— Você está m e ouvindo bem , Dutertre?

— Estou, Capitão.

— E você, Artilheiro, m e ouve bem ?

— Eu… Sim … Muito bem .

— Dutertre, você ouve o Artilheiro?

— Ouço bem , Capitão.

— Artilheiro, você ouve bem o tenente Dutertre?

— Eu… Sim … Muito bem .

— Por que você diz sem pre “Eu… Sim … Muito bem ”?

— É que estou procurando m eu lápis, Capitão.

 

Os laringofones não estão quebrados.

— Artilheiro, pressão do ar norm al nos tubos?

— Eu… Sim … Norm al.

— Os três?

Nos três.

— Pronto Dutertre?

— Pronto.

— Pronto, Artilheiro?

— Pronto.

— Então, vam os.

E eu decolo.

V

 

A angústia se deve à perda de um a verdadeira identidade. Se espero um a m ensagem da qual depende m inha felicidade ou o m eu desespero, sou com o que lançado no nada. Enquanto a incerteza m e m antém em suspense, m eus sentim entos e m inhas atitudes não passam de um disfarce provisório. O tem po cessa de fundar, segundo por segundo, com o constrói a árvore, o personagem verdadeiro que m e habitará em um a hora. Esse eu desconhecido vem ao m eu encontro, de fora, com o um fantasm a. Então tenho um a sensação de angústia. A m á notícia provoca não a angústia, m as o sofrim ento: é com pletam ente diferente.

Entretanto, eis que o tem po deixou de correr no vazio. Estou enfim instalado na m inha função. Não m e proj eto m ais num futuro sem rosto. Não sou m ais aquele que esboçará, talvez, um a espiral no turbilhão do incêndio. O futuro não m e assom bra m ais, com o um a estranha aparição. Meus atos, doravante, uns após os outros, o com põem . Sou aquele que controla a bússola para m antê-la a 313 graus. Que regula a rotação das hélices e o aquecim ento do óleo. São as preocupações im ediatas e sãs. São preocupações da casa, os pequenos deveres do dia que suavizam o gosto do envelhecer. O dia se torna casa bem lustrada, assoalho bem encerado, oxigênio bem gasto. Eu controlo, com efeito, o consum o de oxigênio, pois subim os rápido: seis m il e setecentos m etros.

— Tudo bem com o oxigênio, Dutertre? Está se sentindo bem ?

— Tudo bem , Capitão.

— Ei, Artilheiro, o oxigênio está bem ?

— Eu… Sim … Tudo bem , Capitão…

— Você ainda não achou seu lápis?

Torno-m e tam bém aquele que aperta o botão S e o botão A para controlar m inhas m etralhadoras. A propósito…

— Ei, Artilheiro, não tem um a cidade grande, atrás, em seu cam po de tiro?

— Hã… Não, Capitão.

— Vai. Teste as suas m etralhadoras.

Ouço suas raj adas.

— Funcionaram ?

— Funcionaram .

— Todas as m etralhadoras?

— Hã… Sim … Todas.

Eu tam bém atiro. Pergunto-m e aonde vão essas balas que lançam os sem escrúpulo ao longo dos cam pos am igos. Nunca m atam ninguém . A terra é grande.

Cada m inuto assim m e alim enta de seu conteúdo. Eu sou algum a coisa tão pouco angustiada quanto um fruto am adurecendo. Decerto, as condições do voo m udarão à m inha volta. As condições e os problem as. Mas estou inserido na fabricação desse futuro. O tem po m e m olda aos poucos. A criança não se assusta por pacientem ente transform ar-se num velhinho. É criança e brinca suas brincadeiras de criança. Eu brinco tam bém . Conto os m ostradores, os m anetes, os botões, os m anches de m eu reino. Conto cento e três obj etos a verificar, puxar, virar ou em purrar. (Só blefei ao contar com o dois o com ando de m inhas m etralhadoras: ele tem um pino de segurança.) Vou divertir o fazendeiro que m e hospeda esta noite. Vou lhe dizer:

— O senhor sabe quantos instrum entos um piloto hoj e em dia precisa controlar?

— Com o é que você quer que eu saiba?

— Não faz m al. Diga um núm ero.

— Que núm ero você quer que eu diga?

Pois m eu fazendeiro não tem nenhum tato.

— Diga qualquer núm ero!

— Sete!

— Cento e três!

E ficarei contente.

Minha paz está feita tam bém porque todos os instrum entos de que estava atulhado tom aram seus lugares e receberam seu significado. Essas tripas de tubos e cabos viraram rede de circulação. Eu sou um organism o contíguo ao avião. O avião fabrica m eu bem -estar, quando giro determ inado botão que aquece, progressivam ente, m inhas roupas e m eu oxigênio. O oxigênio, aliás, está quente dem ais e está m e queim ando o nariz. Esse oxigênio é consum ido proporcionalm ente à altitude, através de um instrum ento com plicado. E é o avião que m e alim enta. Isso m e parecia desum ano antes do voo; e agora, am am entado pelo próprio avião, sinto por ele um a espécie de ternura filial. Um a espécie de ternura de lactente.

Quanto a m eu peso, distribuiu-se em pontos de apoio. Minha tripla espessura de roupas superpostas, m eu pesado paraquedas dorsal pesam contra o assento. Minhas botas enorm es se apoiam nos pedais. Minhas m ãos espessam ente enluvadas e duras, tão desaj eitadas no solo, m anobram o m anche facilm ente. Manobram o m anche… Manobram o m anche…

— Dutertre?

— … pitão?

— Verifique prim eiro seus contatos. Está picotando. Você está m e ouvindo?

— Sim …, Capi…

— Sacode essa porcaria! Está m e ouvindo?

A voz de Dutertre volta a ficar clara:

— Estou ouvindo m uito bem , Capitão.

— Bom . Ainda hoj e em dia os com andos gelam : o m anche está duro; quanto aos pedais, estão com pletam ente em perrados!

— “É um a beleza.” Qual altitude?

— Nove m il e sete.

— E o frio?

— Quarenta e oito graus.

— E o seu oxigênio, tudo bem ?

— Tudo bem , Capitão.

— Artilheiro, o oxigênio está o.k.?

Nada de resposta.

— Ei, Artilheiro!

Nada de resposta.

— Você está ouvindo o artilheiro, Dutertre?

— Não estou ouvindo nada, Capitão.

— Cham e-o!

— Ei, Artilheiro! Artilheiro!

Nada de resposta.

Mas antes de m ergulhar, sacudo brutalm ente o avião para acordar o outro, caso estivesse dorm indo.

— Capitão?

— É você, Artilheiro?

— Eu… Hã… Sim .

— Você não tem certeza?

— Tenho.

— Por que não respondia?

— Estava fazendo um teste de rádio. Tinha desligado!

— Você é um canalha! Tem que avisar! Quase m ergulhei: achei que estivesse m orto!

— Eu… Não.

— Acredito na sua palavra. Mas não m e apronte m ais um a dessas! Avise-m e, pelo am or de Deus, antes de desligar.

— Perdão, Capitão. Entendido, Capitão. Avisarei.

Pois a pane de oxigênio não é sensível ao organism o. Ela se traduz por um a euforia vaga que term ina, em alguns segundos, com o desm aio e, em alguns m inutos, na m orte. O controle perm anente do consum o desse oxigênio é então indispensável, tanto quanto o controle, pelo piloto, do estado de seus passageiros.

Aperto um pouquinho, então, o tubo de alim entação de m inha m áscara, a fim de sentir no nariz as golfadas quentes que trazem a vida.

 

Em sum a, executo m eu trabalho. Não experim ento nada além do prazer físico de atos nutridos de sentido que bastam por si m esm os. Eu não tenho nem o sentim ento de um grande perigo (estava, ao contrário, preocupado, quando m e vestia), nem o sentim ento de um grande dever. O com bate entre o Ocidente e o nazism o se torna, dessa vez, na escala de m eus atos, um a ação por m anetes, alavancas e torneiras. É bem assim . O am or por seu Deus, no sacristão, faz-se am or pelo acendim ento das velas. O sacristão anda com passo indiferente, num a igrej a que não vê, e ele fica satisfeito em fazer florir, um a um , os candelabros. Quando todos estão acesos, ele esfrega as m ãos. Está orgulhoso de si.

Eu regulei adm iravelm ente a rotação das m inhas hélices, e m antenho o cabo a quase um grau. Isso deve m aravilhar Dutertre, se, todavia, ele observar um pouco a bússola…

— Dutertre… Eu… A agulha da bússola… Tudo bem ?

— Não, Capitão. Muita deriva. Incline à direita.

Paciência!

— Capitão, estam os passando as linhas de contato.

Com eço m inhas fotos.

— Qual a altitude em seu altím etro?

— Dez m il.

VI

 

— Capitão… A bússola!

Exato. Inclinei à esquerda. Não foi por acaso… É a cidade de Albert que m e repele. Eu a adivinho m uito longe, na frente. Mas ela j á pesa contra m eu corpo todo o seu peso de “interdição a priori”. Que m em ória se dissim ula então na espessura dos m em bros! Meu corpo se lem bra das quedas sofridas, das fraturas de crânio, dos com as viscosos com o xarope, das noites de hospital. Meu corpo tem e os golpes. Procura evitar Albert. Quando não o vigio, ele inclina à esquerda. Puxa para a esquerda, à m aneira de um velho cavalo que desconfiasse, por toda a vida, do obstáculo que um a vez o apavorou. E se trata do m eu corpo m esm o… Não do m eu espírito… É quando estou distraído que m eu corpo aproveita, sorrateiram ente, e escam oteia Albert.

Porque não sinto nada que sej a penoso.

Já não quero perder a m issão. Acreditei, há pouco, ter tido esse desej o. Eu pensava: “Os laringofones vão quebrar. Estou com sono. Vou adorm ecer”. Criava um a im agem m aravilhosa desse leito de preguiça. Mas eu sabia, tam bém , no fundo, que não há nada a esperar de um a m issão fracassada, senão um a espécie de desconforto ácido. É com o se um a m utação necessária m alograsse.

Isso m e lem bra do colégio… Quando eu era pequeno…

— Capitão!

— Quê!

— Nada… Pensei ter visto…

Não gosto m uito do que ele pensou ter visto.

Sim … Quando som os pequenos, no colégio, levantam os m uito cedo. A gente se levanta às seis horas da m anhã. Faz frio. Esfregam os os olhos, e sofrem os por antecipação pela triste aula de gram ática. É por isso que sonham os em ficar doente para acordar na enferm aria, onde as freiras de coifa branca nos trazem chás açucarados na cam a. A gente cria m il ilusões com esse paraíso. Então, é claro, se estivesse resfriado, eu tossia um pouco m ais do que o necessário. E, da enferm aria, onde acordava, ouvia o sino bater para os outros. Se eu fingisse um pouco dem ais, aquele sino m e punia: ele m e transform ava em fantasm a. Soava, fora, horas verdadeiras, as da austeridade das aulas, as do tum ulto dos recreios, as do calor do refeitório. Fabricava para os vivos, lá fora, um a existência densa, rica de m isérias, im paciências, j úbilos, lam entações. Eu ficava sum ido, esquecido, enj oado com os chás insípidos, da cam a úm ida e das horas sem rosto. Não há nada a esperar de um a m issão fracassada.

Continuar: parte 2 de 6