Práticas dialógicas de linguagem
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(Organizadora)
Práticas dialógicas de
linguagem
possibilidades para o ensino de
língua portuguesa
Ilhéus - Bahia
2018
©2018 by ISABEL CRISTINA MICHELAN DE AZEVEDO
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
A994
Azevedo, Isabel Cristina Michelan de
Práticas dialógicas de linguagem [livro eletrônico]: possibilidades para o ensino de língua portuguesa / Isabel Cristina Michelan de Azevedo (org.). – Ilhéus, BA: Editus, 2018.
1.979 Kb; ePUB.: il.
Inclui referências.
ISBN: 978-85-7455-494-5
1. Linguagem e Línguas – Estudo e ensino. 2. Linguagem e Línguas – Gênero. 3. Análise do discurso. 4. Língua portuguesa – Estudo e ensino. 4. Letramento. I. Título.
CDD 407
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EDITORA FILIADA À
Apresentação
A presente obra registra parte das atividades que estão sendo realizadas no Programa Mestrado Profissional em Letras em Rede Nacional, PROFLETRAS, proposto pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes, em 2012, com o objetivo de capacitar professores de língua portuguesa para o exercício da docência no ensino fundamental. Com atual sede na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o Programa congrega universidades com polos nas regiões Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, constituindo um conjunto integrado de instituições associadas que visam colaborar com a
plena realização da proposta desse novo curso1.
Considerando a grande meta de empoderar os docentes de valor pedagógico para contribuir com o enriquecimento das práticas profissionais, na esperança de aumentar o nível de qualidade de ensino dos estudantes do ensino fundamental, com o multiletramento de estudantes e professores e a construção de pedagogias que efetivem as aprendizagens, o trabalho realizado no PROFLETRAS alinha-se em função de objetivos específicos, entre os quais destacamos o interesse em:
1. qualificar os docentes para desenvolver múltiplas competências
comunicativas em ambiente on-line e off-line;
2. promover estratégias de mediação que permitam formar os
professores que possam bem conduzir classes heterogêneas em variados aspectos;
3. orientar os mestrandos para o entendimento das línguas
naturais como sistemas estruturados e variávis, bem como para o conhecimento de modos de lidar com as faces heterogênea e dinâmica da linguagem humana;
4. apontar meios adequados para trabalhar com os diferentes
gêneros discursivos e textuais que integram práticas de ensino e de aprendizagem da escrita e da leitura, em suportes digitais e não digitais;
5. instrumentalizar os professores do ensino fundamental a
elaborar material didático inovador que lance mão, quando
relevante, de recursos tecnológicos disponíveis na sociedade2.
Com esses desafios em mente, em 2014, enquanto estava sendo ministrada a disciplina optativa “Gêneros discursivos/textuais e práticas sociais”, prevista no PROFLETRAS, tanto na Universidade Federal de Sergipe (UFS) quanto na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), organizamos o I Ciclo de Estudos Bakhtinianos, com a intenção de promover discussões em torno das possibilidades de ensino da língua portuguesa em uma perspectiva discursiva. As atividades desenvolvidas com professores convidados ampliaram significativamente as reflexões entre mestrandos, professoras e estudantes e possibilitaram novos diálogos com colegas de outras universidades e programas.
As interlocuções tiveram como preocupação central a transformação ou a ressignificação das práticas escolares a fim de favorecer a aprendizagem efetiva de gêneros discursivos/textuais e o estudo da língua portuguesa por meio de práticas sociais concebidas como atos dialógicos que acontecem na arena discursiva constituída pela comunicação social interativa. Como cada enunciado ocupa um espaço único e singular na existência, tudo o que é dito está determinado pelos posicionamentos decorrentes de uma certa visão de mundo, de um ponto de vista assumido diante do outro, seja ele conhecido ou não, esteja ele próximo ou distante, participe ele ou não da mesma unidade espaço-temporal.
As ideias de Bakhtin e do Círculo são potentes ainda hoje por permitirem compreender os complexos sistemas de signos que
circulam em nossa cultura 3. Em particular, contribuem para o entendimento da diversidade polifônica das realizações incluídas no conceito de textos, posto que, na contemporaneidade, são evidências de atos dialógicos.
Ao assumir que os textos são configurações estético-culturais e representativas dos gêneros discursivos, reconhecemos que os produtos culturais em geral e os conhecimentos construídos socialmente extrapolam os limites dos espaços-tempos, devido à heterogeneidade e multiplicidade dos sistemas culturais, possibilitando a configuração de práticas pedagógicas que se aplicam a diferentes contextos educacionais.
Essa é a perspectiva que está na base dos trabalhos reunidos na obra que trazemos a público. Na abertura dos trabalhos, o artigo “Bakhtin, o Círculo e os gêneros do discurso”, escrito por Maria Helena Cruz Pistori, permite ao leitor retomar conceitos centrais do pensamento bakhtiniano em torno das concepções de língua e linguagem e compreender como se configura a abordagem conhecida como Análise Dialógica do Discurso. O texto está direcionado aos estudantes de graduação e pós-graduação que iniciam os estudos da obra de Bakhtin, pois apresenta uma visão panorâmica que explica a constituição do Círculo de Bakhtin, destaca a importância do conceito de gêneros do discurso na análise e interpretação de textos e apresenta como as noções bakhtinianas podem ser mobilizadas para analisar textos verbo-visuais, recolhidos como exemplares do gênero anúncio publicitário.
Visando continuar colaborando com o entendimento da obra bakhtiniana, mas com o olhar direcionado para o ensino de língua materna, o artigo “Da língua ao discurso: desafios para o ensino de língua portuguesa”, de Isabel Cristina Michelan de Azevedo, destaca o perfil do professor Bakhtin. Após a retomada do conceito de língua, desenvolvido pelo Círculo, o texto apresenta as reflexões desenvolvidas no período de docência de Bakhtin em uma escola de educação básica (entre 1942-1945) com o intuito de discutir alternativas para o ensino da gramática quando se toma a língua “viva” como base do trabalho. Bakhtin identifica limitações metodológicas no ensino do russo que são similares às que se vê no ensino de língua portuguesa, por isso o segundo artigo reúne exemplos de análise linguística que possibilitam evidenciar as nuances de sentido obtidas em diferentes composições escritas. As análises indicam que a visão estilística, como propõe Bakhtin, amplia a interpretação, pois deixa de estar guiada apenas pela correção gramatical, permitindo reconhecer as relações dialógicas que permeiam as construções linguísticas.
O terceiro artigo, intitulado “Reflexões acerca do ensino de língua portuguesa: dimensão argumentativa do discurso citado”, encabeça um conjunto de textos que aprofunda a discussão em torno das possibilidades para a renovação de práticas pedagógicas de ensino de língua portuguesa. Tomando o discurso citado como representativo da enunciação de um discurso por um outro discurso, como define Bakhtin e Volochínov, em 1929, Eduardo Lopes Piris propõe um trabalho contínuo com as formas de discurso citado, por considerar que estão intrinsecamente associadas aos processos de produção e circulação dos discursos e podem revelar posicionamentos ideológicos e intencionalidades relacionadas à autoria. As propostas de trabalho com o discurso citado são elaboradas a partir da análise de três gêneros discursivos do jornal impresso (artigo de opinião, notícia, charge) e em atividades localizadas em três coleções didáticas.
Na sequência, o leitor encontra o texto “A oralidade no ensino fundamental: o gênero seminário como objeto de ensino”, que apresenta um modo de ressignificar práticas encontradas em três livros didáticos adotados por professores de Fortaleza. Cíntia R. A. Coelho, Valdinar C. Filho e Wilson J. A. Carvalho escolheram aprimorar as práticas orais na escola, porque percebem que, em geral, são tratadas de forma superficial nos manuais de ensino. Ao escolher como objeto de estudo o gênero exposição oral, os autores tematizam um evento comunicativo que está presente nas mais variadas esferas sociais. A análise empreendida aponta que as práticas de oralidade na escola ainda não promovem o uso adequado dessa modalidade da língua, por isso foram indicadas complementações que podem contribuir para o avanço em relação ao desenvolvimento da competência discursiva oral na educação básica.
A assunção de uma perspectiva interacionista sociodiscursiva da linguagem é mantida no quinto artigo, “Sequências textuais no ensino de língua portuguesa”, elaborado por Maristela Felix dos Santos e Maria Acácia de Lima Bonifácio, mas, nesse texto, os conceitos são mobilizados para desenvolver um trabalho com sequências textuais (descritiva, explicativa, argumentativa, narrativa, injuntiva e dialogal) por meio de um objeto de aprendizagem digital. Tal empreendimento justifica-se pelo fato de esses tipos de sequência participarem da composição de todos os gêneros de texto. As autoras elaboraram um quiz digital, nomeado Por dentro do gênero, que é direcionado aos matriculados no sexto ano do ensino fundamental, visando contribuir para a compreensão da heterogeneidade composicional evidenciada pelos modos de articulação da infraestrutura textual nos diferentes gêneros. O trabalho ainda almeja contribuir com a atividade docente, servindo de inspiração para professores que queiram criar outros objetos, utilizando os mesmos recursos ou outros com base em diferentes suportes tecnológicos.
Considerando a variedade de práticas pedagógicas adequadas ao ensino fundamental, Adna N. A. Santos, Karine Melo e Silva e Simone M. C. de Santana criaram o “Ludo das Fábulas: um jogo a serviço da compreensão de um gênero textual”. Essa ferramenta, destinada a alunos de doze a dezesseis anos, visa promover a leitura e a interpretação de fábulas em sua dimensão textual e discursiva, uma vez que a produção desse gênero se constitui como uma prática discursiva concreta, uma manifestação histórica e social, bastante presente no cotidiano das escolas. Com base no aporte teórico sobre gêneros textuais de Marcuschi, que propõe o trabalho com os gêneros em relação aos aspectos sócio-históricos e funcionais, composicionais e estilísticos, linguísticos e temáticos, as autoras adaptaram o tabuleiro e as regras do jogo ludo para apresentar aos professores de língua portuguesa uma ferramenta lúdica, criativa, isto é, um instrumento pedagógico que pudesse estimular a curiosidade, o interesse e o prazer do aluno na construção e compreensão de conhecimentos.
O único trabalho voltado exclusivamente ao ensino médio, intitulado “Os gêneros do discurso, linguagens e práticas sociais”, elaborado por Fransuelly Raimundo da Silva e Rita Maria Diniz Zozzoli, analisa como a estreita relação entre língua/linguagem e a vida/práticas sociais está (ou não) presente no trabalho com os gêneros discursivos em uma escola da rede pública, localizada em um bairro periférico de Maceió. Adotando uma perspectiva qualitativa e etnográfica, a pesquisa identificou que os textos são trabalhados a partir da categoria textual e estão voltados ao ensino de conceitos literários, restringindo o ensino de língua materna e a produção textual a esses elementos. Em entrevistas com os professores, as autoras perceberam que no discurso do professor há uma visão positiva com relação ao ensino da leitura de modo geral, entretanto, o trabalho com textos revela um contexto fragmentário e compartimentado no qual o ensino de língua portuguesa tem sido inserido, uma vez que as práticas escolares parecem dividir o ensino de língua portuguesa em blocos (gramática, literatura e produção textual), os quais são trabalhados de maneira claramente desconexa. Embora o trabalho com gêneros seja reconhecido como uma obrigatoriedade, a opção pelos aspectos supracitados acaba por silenciar o caráter marcadamente heterogêneo, a funcionalidade e a ação social, características intrínsecas do gênero, como bem ressaltou Bakhtin.
O último trabalho, “Novos letramentos e narrativas: as vozes das mulheres do Pontal da Barra”, desenvolvido por Alessandra R. S. Miranda, discute as contribuições das narrativas de um grupo de integrantes da associação de mulheres bordadeiras do Pontal da Barra para a construção da identidade dessa comunidade, por meio da introdução de novos usos da escrita no contexto social local. A partir da análise das informações coletadas, observou-se a circulação de uma visão depreciativa da atividade profissional do filé, por parte das rendeiras, colaborando para manter o caráter monológico do discurso capitalista, pois, no avesso dessa história, existem grandes marcas explorando mão de obra barata: as mulheres atuam como força produtiva de baixo custo e, seus produtos, por elas depreciados, são valorizados pelas grifes que os comercializam no mercado, gerando altos lucros.
Os textos reunidos neste livro reforçam a ideia de que o trabalho com a linguagem, especialmente com os gêneros do discurso, pode acontecer de maneira dinâmica, por meio da relação estabelecida entre os tipos de enunciados e suas funções na interação verbal que se estabelece em sociedade. As propostas sugeridas por professores e estudantes nesta obra comprovam o vínculo orgânico entre a utilização da linguagem e a atividade humana e indicam que não falamos no vazio, não produzimos enunciados fora das múltiplas e variadas esferas do agir humano.
Isabel Cristina Michelan de Azevedo
Ilhéus, 15 de junho de 2016.
Table of Contents / Sumário /
Tabla de Contenido
Front Matter / Elementos Pré-textuais / Páginas Iniciales
1 - Bakhtin, o Círculo e os gêneros do discurso
2 - Da língua ao discurso: desafios para o ensino de língua
portuguesa
3 - Reflexões acerca do ensino de língua portuguesa:
dimensão argumentativa do discurso citado
4 - A oralidade no ensino fundamental: o gênero seminário
como objeto de ensino
5 - Sequências textuais no ensino de língua portuguesa: uma
proposta interacionista sociodiscursiva
6 - Ludo das Fábulas: um jogo a serviço da compreensão de
um gênero textual
7 - Os gêneros do discurso, linguagens e práticas sociais: o
trabalho numa turma de LP do ensino médio
8 - Novos letramentos e narrativas: as vozes das mulheres do
Pontal da Barra