Príncipe Mecânico
14 | A Cidade do Silêncio
14
A Cidade do Silêncio
Ela uivou alto: “Estou pegando
fogo por dentro.
Não há murmúrio de resposta.
O que irá eliminar meus pecados,
E me salvar da morte”?
— Alfred, Lord Tennyson, “The Palace
of Art”
— Jessamine — repetiu Henry, pela quinta ou sexta vez. — Ainda não consigo acreditar. Nossa Jessamine?
Cada vez que falava, Tessa percebeu, a boca de Charlotte enrijecia um pouco mais.
— Sim — repetiu mais uma vez. — Jessamine. Ela estava nos espionando e relatando cada uma de nossas ações a Nate, que transferia as informações para Mortmain. Preciso repetir?
Henry piscou para ela.
— Desculpe, querida. Estou prestando atenção. É que... — suspirou. — Eu sabia que ela era infeliz aqui. Mas não pensei que nos detestasse.
— Não acho que detestava, nem que deteste. — Jem opinou; ele estava perto da lareira, com um braço apoiado. Não tinham se reunido para o café da manhã como sempre faziam; não houve qualquer anúncio formal quanto à razão para tal, mas Tessa supôs que a ideia de tomar café com o lugar de Jessamine vazio como se nada tivesse acontecido fosse demais para Charlotte.
Charlotte chorou por pouco tempo naquela noite, antes de recobrar a compostura; descartou as tentativas de Sophie e Tessa de ajudarem com panos molhados ou chá, balançando a cabeça duramente e repetindo sem parar que não devia se permitir ter um acesso desses, que agora era hora de planejamento e estratégia. Fora até o quarto de Tessa, com Sophie e Tessa apressando-se atrás dela, e mexeu fervorosamente nos tacos no chão, até encontrar um pequeno livro, como uma Bíblia doméstica, de capa de couro branco, embrulhado em veludo. Guardou-o no bolso com uma expressão determinada, dispensando as perguntas de Tessa, e se levantou. O céu lá fora já havia começado a clarear com a luz fraca do amanhecer. Parecendo exausta, dissera a Sophie que instruísse Bridget a servir um café da manhã simples e frio, na sala de estar, e que avisasse a Cyril para que os homens fossem informados. Depois saíra.
Com a ajuda de Sophie, Tessa finalmente pôde se livrar das roupas de Jessamine, o que a deixou muito grata; tinha tomado banho e colocado seu vestido amarelo, o que Jessamine lhe dera de presente. Achava que a cor poderia alegrá-la, mas continuava se sentindo abatida e cansada.
Encontrou o mesmo olhar refletido no rosto de Jem quando ele entrou na sala. Estava com olheiras, e logo desviou o rosto. Doeu. Também a fez pensar na noite anterior, com Will, na varanda. Mas aquilo tinha sido diferente, disse a si mesma. Aquilo foi fruto de pó de feiticeiro, uma loucura temporária. Nada como o que tinha se passado entre ela e Jem.
— Não acho que nos odeie — repetiu ele, corrigindo a conjugação no passado. — Sempre foi uma pessoa tão cheia de desejos. Sempre tão desesperada.
— A culpa é minha — disse Charlotte suavemente. — Não devia ter imposto que ela fosse Caçadora de Sombras, algo que ela despreza com tanto ardor.
— Não. Não! — Henry se apressou em consolar a esposa. — Você nunca foi nada além de gentil com ela. Fez tudo o que pôde. Existem mecanismos tão... tão quebrados que não há como consertar.
— Jessamine não é um relógio, Henry — respondeu Charlotte, em tom distante. Tessa ficou imaginando se ela ainda estava chateada com Henry por não ter recebido Woolsey Scott com ela, ou se simplesmente estava com raiva do mundo. — Talvez eu devesse me retirar do Instituto com uma reverência e entregá-lo a Benedict Lightwood. É a segunda vez que temos um espião debaixo do nosso teto e não percebi até que um grande mal já estivesse feito. Sou claramente incompetente.
— De certa forma, na verdade foi apenas um espião. — Henry começou a argumentar, mas se calou quando Charlotte lhe lançou um olhar capaz de derreter vidro.
— Se Benedict Lightwood está trabalhando para Mortmain, não pode ficar encarregado do Instituto — afirmou Tessa. — Aliás, o baile que ele deu ontem à noite deve bastar para desqualificá-lo.
— O problema é provar — argumentou Jem. — Benedict vai negar tudo, e será a palavra dele contra a sua... e você faz parte do Submundo...
— Temos Will — disse Charlotte, franzindo o cenho. — Por falar nisso, onde está Will?
— Deitado, sem dúvida — respondeu Jem —, e quanto a ideia de Will servir como testemunha, bem, todos já acham que ele é um lunático...
— Ah — disse uma voz na entrada —, estão na reunião anual do todos-acham-Will-um-lunático, certo?
— É semestral — respondeu Jem. — E não, não é essa reunião.
Os olhos de Will procuraram os de Tessa do outro lado.
— Estão sabendo sobre Jessamine?
— perguntou. Parecia cansado, mas não tanto quanto Tessa imaginou; estava pálido, mas tinha uma animação reprimida que era quase... alegria. Sentiu o próprio estômago revirar ao ser inundada pelas lembranças da noite anterior: as estrelas, a varanda, os beijos.
Que horas Will tinha voltado para casa?, pensou Tessa. Como? E por que parecia tão... animado? Será que estava horrorizado pelo que tinha acontecido na varanda, ou achando graça? E, meu Deus, será que tinha contado a Jem? Pó de feiticeiro, disse a si mesma, desesperadamente. Certamente Jem entenderia. Partiria seu coração fazê-lo sofrer. Se é que ele se importava...
— Sim, sabem tudo sobre Jessamine — respondeu, apressadamente. — Ela foi interrogada com a Espada Mortal e levada para a Cidade do Silêncio, e agora estamos em uma reunião para decidir o que fazer em seguida, e é muito importante. Charlotte está muito chateada.
Charlotte olhou para ela, admirada.
— Bem, você está — disse Tessa, quase sem ar por ter falado tão depressa. — E estava perguntando por Will...
— E aqui estou — disse ele, jogando-se em uma cadeira ao lado de Jem. Tinha um curativo em um dos braços, estava com a manga dobrada bem em cima dele. Suas unhas estavam sujas de sangue seco. — Fico feliz em saber que Jessamine está na Cidade do Silêncio. É o melhor lugar para ela. Qual é o próximo passo?
— Esta é a reunião que estamos tentando fazer — disse Jem.
— Bem, quem sabe que ela está lá? — perguntou Will, prático.
— Apenas nós — respondeu Charlotte —, e o Irmão Enoch, mas ele concordou em não reportar nada à Clave pelos próximos dois dias, mais ou menos. Ate decidirmos o que fazer. Isso me faz lembrar que preciso ter uma conversinha com você, Will, sobre correr para a casa de Benedict Lightwood sem me informar, levando Tessa com você.
— Não havia tempo a perder — respondeu Will. — Até conseguirmos acordá-la e fazê-la concordar com o plano, Nathaniel já teria ido embora. E não pode dizer que foi uma má ideia. Descobrimos muito sobre Nathaniel e Benedict Lightwood...
— Nathaniel Gray e Benedict Lightwood não são Mortmain.
Will traçou um desenho no ar com seus dedos longos e elegantes.
— Mortmain é a aranha no coração da teia — declarou. — Quanto mais descobrirmos, mais saberemos sobre a extensão do alcance dele. Antes da noite passada não fazíamos ideia de que ele tinha qualquer ligação com Lightwood; agora sabemos que o sujeito é uma marionete do Magistrado. Sugiro que reportemos à Clave, entregando Benedict e Jessamine. Deixe que Wayland cuide deles. Vamos ver o que Benedict revela sob a Espada Mortal.
Charlotte balançou a cabeça.
— Não, eu... não acho que podemos fazer isso.
Will inclinou a cabeça para trás.
— Por que não?
— Jessamine disse que isso é exatamente o que Mortmain quer que façamos. E fez o relato sob a influência da Espada Mortal. Não estava mentindo.
— Mas podia estar enganada — argumentou Will. — Mortmain pode ter antevisto esta situação e solicitado que Nate plantasse a ideia na cabeça de Jessamine, para que descobríssemos depois.
— Acha que ele teria pensando tão à frente assim? — perguntou Henry.
— Com certeza — respondeu Will. — Ele é um estrategista. — Tamborilou na própria têmpora. — Como eu.
— Então acha que devemos procurar a Clave? — perguntou Jem.
— De jeito nenhum — respondeu Will. — E se for verdade? Aí vamos nos sentir idiotas.
Charlotte jogou as mãos para o alto.
— Mas você disse...
— Eu sei o que disse — falou. — Mas é preciso examinar as consequências. Se procurarmos a Clave e estivermos enganados, aí caímos na armadilha de Mortmain. Ainda temos alguns dias até o prazo. Ir cedo demais para a Clave não traz vantagem alguma. Se investigarmos, podemos proceder com mais certeza...
— E como propõe que investiguemos? — perguntou Tessa.
Will virou a cabeça para olhar para ela. Não havia nada naqueles frios olhos azuis que lembrasse o Will da noite anterior, que a tocara com tanta ternura, que sussurrara seu nome como um segredo.
— O problema de interrogar Jessamine é que mesmo quando forçada a revelar a verdade, existe um limite de conhecimento. Contudo, temos mais uma conexão do Magistrado. Alguém que provavelmente sabe muito mais. Esse alguém é seu irmão, Nate, através de Jessamine. Ele ainda confia nela. Se ela solicitar um encontro, poderemos capturá-lo.
— Jessamine jamais concordaria — afirmou Charlotte. — Não agora...
Will a olhou sombriamente.
— Vocês estão todos muito ansiosos, não estão? — disse. — Claro que não concordaria. Vamos pedir que Tessa reprise o papel de Jessamine. Uma Jovem Traidora Dama da Moda.
— Parece perigoso — comentou Jem, com a voz fraca. — Para Tessa.
Tessa olhou rapidamente para ele, e captou um lampejo de seus olhos prateados. Era a primeira vez que olhava para ela desde que deixou seu quarto naquela noite. Será que estava imaginando ter ouvido preocupação na voz dele ou era apenas o mesmo temor que Jem tinha por todo mundo? Não desejar que ela sofresse uma morte terrível era mera bondade, e não... não o que gostaria que ele sentisse.
O que quer que fosse, ao menos não a odiava...
— Tessa é destemida — afirmou Will. — E o perigo é pouco. Podemos enviar um bilhete marcando um encontro em algum lugar onde possamos aparecer fácil e rapidamente. Os Irmãos do Silêncio podem torturá-lo até ele ceder a informação que precisamos.
— Torturar? — disse Jem — É o irmão de Tessa...
— Torturá-lo — disse Tessa. — Se for preciso. Têm minha permissão.
Charlotte olhou para ela, chocada.
— Não pode estar falando sério.
— Você disse que havia uma maneira de investigar a mente dele para procurar segredos — falou Tessa. — Pedi que não fizessem isso, e não fizeram. Agradeço, mas não vou pedir que mantenham a promessa. Cavem a mente dele o quanto quiserem. Há muito em jogo para mim, como sabem. Para vocês é uma questão do Instituto e da segurança dos Caçadores de Sombras. Eu também me importo com essas coisas, Charlotte. Mas Nate, ele está trabalhando com Mortmain, que quer me prender e me usar, ainda não sabemos para quê. Mortmain, que pode saber o que eu sou. Nate falou para Jessamine que meu pai era um demônio e minha mãe uma Caçadora de Sombras...
Will se sentou.
— Isso é impossível — declarou. — Caçadores de Sombras e demônios... não podem procriar. Não podem produzir seres vivos.
— Então talvez tenha sido mentira, como a mentira sobre Mortmain estar em Idris — disse Tessa. — Isso não significa que Mortmain não saiba a verdade. Eu preciso saber o que sou. Acho que, no mínimo, esta é a chave para descobrirmos por que ele me quer.
Havia tristeza na expressão de Jem quando ele olhou para ela, e depois para o outro lado.
— Muito bem — disse ele. — Will, como propõe que consigamos atraí-lo para um encontro? Acha que ele não conhece a letra de Jessamine? Não é provável que tenham algum código secreto de comunicação?
— Jessamine precisa ser convencida — disse Will — a nos ajudar.
— Por favor, não sugira que a torturemos — respondeu Jem, irritado. — A Espada Mortal já foi utilizada. Ela já contou tudo o que pode...
— A Espada Mortal não revelou onde se encontram, nem nenhum código ou apelido que utilizem — argumentou Will. — Não entende? Esta é a última chance de Jessamine. A última oportunidade de colaborar. De merecer a clemência da Clave. De ser perdoada. Mesmo que Charlotte continue no Instituto, acha que deixarão o destino de Jessamine em nossas mãos? Não, ficará a cargo do Cônsul e do Inquisidor. E não serão generosos. Se ela fizer isto por nós, pode representar a vida dela.
— Não sei se ela liga para a própria vida — comentou Tessa, suavemente.
— Todo mundo liga — defendeu Will. — Todo mundo quer viver.
Jem virou de costas para ele abruptamente e fixou os olhos no fogo.
— A questão é: quem podemos enviar para persuadi-la? — perguntou Charlotte. — Não posso ir. Ela me odeia e me culpa mais do que a todo mundo.
— Eu posso ir — disse Henry, a face gentil perturbada. — Talvez consiga argumentar com a pobrezinha, conversar sobre a insensatez do amor jovem, sobre a rapidez com que passa em face da dura realidade da vida...
— Não — o tom de Charlotte foi definitivo.
— Bem, duvido muito que ela queira me ver — observou Will. — Terá de ser Jem. É impossível odiá-lo. Até aquele maldito gato gosta dele.
Jem exalou, ainda olhando para o fogo.
— Vou até a Cidade do Silêncio — declarou. — Mas Tessa deve vir comigo.
Tessa levantou o olhar, espantada.
— Oh, não — protestou. — Acho que Jessamine não gosta muito de mim. Ela acredita que a traí imensamente ao me disfarçar dela e não posso dizer que está errada.
— Sim — concordou Jem. — Mas você é irmã de Nate. Se ela o ama como está dizendo... — Olhou nos olhos dela através da sala. — Você conhece Nate. Pode falar dele com propriedade. Pode conseguir fazê-la acreditar em coisas que eu não conseguirei.
— Muito bem — disse Tessa. — Vou tentar.
Isto pareceu decretar o fim do café da manhã. Charlotte se retirou para chamar uma carruagem da Cidade do Silêncio; era assim que os Irmãos gostavam de conduzir as coisas, explicou. Henry voltou para a cripta e para as invenções, e Jem, após murmurar alguma coisa para Tessa, foi buscar o chapéu e o casaco. Apenas Will permaneceu, olhando para o fogo, e Tessa, ao ver que ele não estava se movendo, esperou até a porta se fechar atrás de Jem e se colocou entre Will e as chamas.
Ele levantou os olhos para ela, lentamente. Continuava com as roupas da noite anterior, apesar de a camisa branca estar manchada de sangue e o casaco ter um rasgo longo. Também tinha um corte na bochecha, abaixo do olho esquerdo.
— Will — disse.
— Não deveria estar saindo com Jem?
— Eu vou — respondeu. — Mas preciso que me prometa uma coisa antes.
Ele voltou os olhos para o fogo; ela viu as chamas dançantes refletidas nas pupilas.
— Então me diga depressa o que é. Tenho assuntos importantes a resolver. Pretendo passar a tarde de mau humor, e depois talvez ter uma noite de rebeldia e uma madrugada de devassidão.
— Faça como quiser. Só preciso que me garanta que não vai contar para ninguém sobre o que aconteceu entre nós dois ontem à noite na bancada.
— Ah, foi você — disse Will, com ar de quem tinha acabado de se lembrar de um detalhe surpreendente.
— Poupe-me — irritou-se, ferida, apesar de tudo. — Estávamos sob a influência de pó enfeitiçado. Não significou nada. Nem eu o culpo pelo que aconteceu, por mais enfadonho que seja seu comportamento a respeito disso agora. Não há razão para ninguém mais ficar sabendo, e se você for um cavalheiro...
— Mas não sou.
— Mas é um Caçador de Sombras — argumentou Tessa, venenosamente. — E não há futuro para um Caçador de Sombras que se envolve com feiticeiros.
Os olhos de Will dançaram com o fogo. Ele disse:
— Está começando a ser um tédio provocar você, Tess.
— Então dê-me sua palavra de que não vai contar a ninguém, nem mesmo Jem, e aí eu saio e paro de entediá-lo.
— Tem a minha palavra, em nome do Anjo — disse. — Não era nada de que pretendia me gabar. Apesar de eu não entender por que está tão preocupada com a possibilidade de alguém aqui suspeitar da sua falta de virtude.
O rosto de Jem passou pelo olho mental de Tessa.
— Não — disse. — Realmente não entende. — E com isso virou-se de costas e saiu, deixando-o olhando para suas costas, confuso.
***
Sophie se apressou pelo Picadilly, com a cabeça abaixada e os olhos no asfalto sob seus pés. Estava acostumada a murmúrios sussurrados e olhares ocasionais quando saía e viam sua cicatriz; havia aperfeiçoado uma maneira de caminhar que escondia o rosto sob a sombra do chapéu. Não tinha vergonha da cicatriz, mas detestava a pena nos olhos daqueles que a viam.
Estava com um dos vestidos velhos de Jessamine. Ainda não estava fora de moda, mas Jessamine era uma daquelas meninas que classificava qualquer vestido que já tivesse usado mais de três vezes como “de época”, e ou o descartava, ou mandava remodelarem. Era listrado de verde e branco, e o chapéu tinha flores brancas de plástico. No geral, pensou, poderia se passar por uma moça bem-nascida — quer dizer, se não estivesse sozinha na rua — principalmente com suas mãos calejadas de trabalho cobertas por luvas brancas.
Viu Gideon antes que ele a visse. Estava apoiado em um poste de luz em frente a um grande portão de entrada de carruagem da loja de departamento Fortnum & Mason. Seu coração parou ao olhar para ele, tão bonito com roupas escuras, verificando a hora em um relógio dourado preso ao bolso do colete por uma corrente fina. Parou por um instante, observando as pessoas passando em volta dele, a vida agitada de Londres acontecendo, e Gideon calmo como uma pedra no meio de um rio agitado. Todos os Caçadores de Sombras tinham um pouco disso, pensou, aquela quietude, aquela aura obscura de separação que os destacava da corrente da vida mundana.
Ele então levantou os olhos, viu-a e abriu aquele sorriso que transformava todo o seu rosto.
— Srta. Collins — disse, avançando, e ela também caminhou para encontrá-lo, sentindo, ao fazê-lo, que adentrava em sua área de distanciamento. O ruído firme do trânsito da cidade, de pedestres e do resto pareceu diminuir, e lá estavam apenas ela e Gideon, olhando um para o outro na rua.
— Sr. Lightwood — disse ela.
O rosto dele mudou, só um pouquinho, mas ela viu. Também viu que ele estava segurando alguma coisa na mão esquerda, uma cesta de piquenique. Olhou para a cesta e depois para ele.
— Um dos famosos cestos da Fortnum & Mason — disse, com um sorriso lateral. — Queijo Stilton, ovos de codorna, geleia de pétalas de rosa...
— Sr. Lightwood — disse ela novamente, interrompendo-o, para sua própria surpresa. Uma servente jamais interrompia um cavalheiro. — Fiquei muito agoniada, agoniada demais, entende, e me perguntei se deveria vir aqui ou não. Finalmente decidi que sim, ainda que para lhe dizer pessoalmente que não posso sair com o senhor. Achei que merecesse o gesto, apesar de não ter certeza.
Ele olhou para ela, espantado, e naquele instante ela não viu um Caçador de Sombras, mas um menino normal, como Thomas ou Cyril, segurando uma cesta de piquenique, sem conseguir esconder a surpresa e a tristeza no rosto.
— Srta. Collins, se fiz alguma coisa para ofendê-la...
— Não posso sair com o senhor. Isso é tudo — disse Sophie, e virou-se de costas, com a intenção de se apressar de volta pelo mesmo caminho por onde veio. Se fosse rápida, poderia conseguir entrar na próxima diligência para a cidade...
— Srta. Collins. Por favor — disse Gideon, atrás dela. Não a tocou, mas estava caminhando ao seu lado, com a expressão perturbada. — Diga-me o que fiz.
Ela balançou a cabeça em silêncio. O olhar no rosto dele... talvez tivesse sido um erro vir. Estavam passando pela livraria Hatchards, e ela cogitou entrar; certamente ele não a seguiria, não para um lugar onde poderiam ser ouvidos. Mas, por outro lado, talvez o fizesse.
— Sei o que é — disse, abruptamente. — Will. Ele contou, não foi?
— O fato de estar me dizendo isso revela que existe algo a ser contado.
— Srta. Collins, posso explicar. Venha comigo, por aqui. — Ele virou e ela se viu seguindo-o, cautelosamente. Estavam em frente à igreja de St. James; ele a conduziu pela lateral, por uma rua estreita que fazia ponte entre o Picadilly e a Jermyn Street. Era um local mais quieto, porém não deserto; diversos passantes olharam curiosos: a menina com uma cicatriz e o rapaz bonito com o rosto pálido, repousando cuidadosamente uma cesta no chão.
— Isto é por causa de ontem à noite — disse. — O baile na casa do meu pai em Chiswick. Achei que tivesse visto Will. Fiquei imaginando se ele teria contado a vocês.
— Então confessa? Que estava lá, naquele baile depravado, inadequado...
— Inadequado? Foi um pouco mais do que inadequado — disse Gideon, com mais força do que ela jamais o vira utilizar. Atrás dele o sino da igreja indicou a hora; ele não pareceu escutar. — Srta. Collins, tudo que posso fazer é jurar que até ontem à noite eu não fazia ideia do tipo de companhia baixa e dos hábitos destrutivos com os quais meu pai havia se associado. Passei o último semestre na Espanha...
— E ele não era assim antes? — perguntou Sophie, incrédula.
— Não exatamente. É difícil explicar. — Olhou para além dela, o verde-cinzento de seus olhos mais tempestuoso do que nunca. — Meu pai sempre desprezou as convenções. Sempre foi do tipo que se desvia da Lei, senão transgride-a. Sempre nos ensinou que é assim que todo mundo faz, que todos os Caçadores de Sombras são assim. E nós, eu e Gabriel, por termos perdido nossa mãe tão cedo, não tivemos melhor exemplo a seguir. Só quando cheguei a Madri comecei a compreender a extensão das... incorreções do meu pai. As pessoas não desprezam a Lei e nem fogem às regras, e fui tratado como uma criatura monstruosa por pensar que era assim, até mudar minha atitude. Pesquisa e observação me levaram a crer que tinham me ensinado princípios falhos, e que isso fora feito deliberadamente. Só consegui pensar em Gabriel e em como poderia salvá-lo da mesma descoberta, ou pelo menos de fazê-la de forma tão chocante.
— E sua irmã... a srta. Lightwood?
Gideon balançou a cabeça.
— Foi protegida de tudo. Meu pai acha que mulheres não têm de tomar conhecimento dos aspectos mais sombrios do Submundo. Não, ele acredita que sou eu que tenho de saber dos seus envolvimentos, pois sou o herdeiro do patrimônio dos Lightwood. Foi com um olho nisso que meu pai me levou ao evento de ontem, no qual, presumo, Will me viu.
— Sabia que ele estava lá?
— Fiquei tão enojado com o que vi naquele lugar que eventualmente escapei e fui para os jardins respirar um pouco. O fedor de demônios me deixou nauseado. Lá fora, vi uma figura familiar perseguindo com determinação um demônio azul pelo gramado.
— O sr. Herondale?
Gideon deu de ombros.
— Não fazia ideia do que ele estava fazendo lá; sabia que não tinha sido convidado, mas não consegui entender como havia descoberto nem se a perseguição ao demônio tinha alguma relação com a presença dele ali. Não tive certeza até notar o seu olhar ao me ver, agora...
A voz de Sophie se elevou e tornou-se afiada.
— Mas contou ao seu pai, ou a Gabriel? Eles sabem? Sobre o mestre Will?
Gideon balançou a cabeça lentamente.
— Não falei nada. Não acho que esperavam que Will estivesse lá de forma alguma. Os Caçadores de Sombras do Instituto deveriam estar atrás de Mortmain.
— E estão — respondeu Sophie, e quando o único olhar de Gideon foi de incompreensão, ela disse: — Aquelas criaturas mecânicas na festa do seu pai, de onde acha que vieram?
— Eu não... presumi que fossem alguma espécie de brinquedo...
— Só podem ter vindo de Mortmain — declarou Sophie. — Não viu os autômatos dele antes, mas o sr. Herondale e a senhorita Gray viram, e tiveram certeza.
— Mas por que meu pai teria alguma coisa de Mortmain?
Sophie balançou a cabeça.
— Talvez o senhor não deva me fazer perguntas para as quais não quer resposta, sr. Lightwood.
— Srta. Collins. — Os cabelos de Gideon caíram sobre os olhos; ele os puxou para trás, com um gesto impaciente. — Srta. Collins, sei que o que quer que me conte será verdade. De muitas maneiras, entre todos aqueles que conheci em Londres, acho que a senhorita é a pessoa mais confiável, mais do que minha própria família.
— Isso me parece um grande infortúnio, sr. Lightwood, pois só nos conhecemos há muito pouco tempo.
— Espero mudar isso. Pelo menos vá até o parque comigo, Soph... srta. Collins. Conte-me esta verdade da qual está falando. Se então não desejar mais nenhuma conexão comigo, respeitarei sua vontade. Só peço uma hora de seu tempo, mais ou menos. — Os olhos de Gideon imploravam. — Por favor?
Sophie sentiu, quase contra a vontade, uma onda de solidariedade por esse rapaz de olhos tempestuosos, que parecia tão sozinho.
— Muito bem — respondeu. — Vou ao parque com o senhor.
***
Um trajeto inteiro de carruagem sozinha com Jem, pensou Tessa, com o estômago apertando ao colocar as luvas e dar uma última olhada em si mesma no espelho do quarto. Há apenas duas noites esse prospecto não despertara qualquer sentimento diferente em Tessa; estava preocupada com Will, e curiosa em relação a Whitechapel, e Jem a distraiu gentilmente durante o caminho, falando sobre latim, grego e parabatai.
E agora? Agora se sentia como se um monte de borboletas voasse por seu estômago só de pensar em se trancar em um espaço pequeno e fechado com ele. Olhou para o próprio rosto pálido no espelho, beliscou as bochechas e mordeu os lábios para dar cor a eles, pegou o chapéu na prateleira ao lado da penteadeira. Colocando-o sobre os cabelos castanhos, se pegou desejando ter cachos dourados como Jessamine e pensou: será que poderia? Seria possível Transformar apenas uma pequena parte de si, se dar um cabelo brilhante, ou talvez uma cintura mais fina, ou lábios mais carnudos?
Afastou-se do espelho, balançando a cabeça. Como não tinha pensado nisso antes? E mesmo assim, a simples ideia parecia uma traição contra ela mesma. A fome de saber o que ela era ainda ardia dentro de Tessa; mesmo que as próprias características não fossem mais as mesmas com as que nascera, como poderia justificar essa demanda, essa necessidade de conhecer a própria natureza? Não sabe que não existe Tessa Gray?, Mortmain havia dito. Se utilizasse seu poder para transformar a cor dos próprios olhos em azul-celeste, ou para escurecer os cílios, não estaria provando que ele estava certo?
Balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos ao se apressar para fora do quarto e pelos degraus da entrada do Instituto. Esperando no jardim havia uma carruagem preta, sem nenhuma marca, conduzida por cavalos iguais, ambos cor de fumaça. No assento do cocheiro havia um Irmão do Silêncio; não era o Irmão Enoch, mas algum que ela não reconheceu. Não tinha tantas cicatrizes no rosto quanto Enoch, pelo que podia enxergar por baixo do capuz.
Começou a descer os degraus quando a porta se abriu atrás dela e Jem apareceu; fazia frio, e ele estava com um casaco cinza-claro que o deixava com olhos mais prateados que nunca. Jem olhou para o céu igualmente cinzento, carregado com nuvens negras e disse:
— É melhor entrarmos na carruagem antes que comece a chover.
Foi um comentário perfeitamente normal, mas, mesmo assim, fez Tessa perder a fala. Ela seguiu Jem silenciosamente para a carruagem e permitiu que ele a ajudasse a embarcar. Ao subir atrás dela e fechar a porta, ela notou que ele não estava carregando a espada-bengala.
A carruagem partiu com um puxão. Tessa, com a mão na janela, soltou um grito.
— Os portões... estão trancados! A carruagem...
— Acalme-se — Jem pôs a mão no braço dela. Tessa não conseguiu conter um arquejo quando a carruagem correu para os portões trancados... e passou através deles, como se fossem feitos de ar. O ar lhe escapou em um sopro de surpresa. — Os Irmãos do Silêncio dispõem de uma magia estranha — explicou Jem, e afastou a mão.
Naquele instante começou a chover, o céu se abriu como água quente saindo por perfurações em uma garrafa. Através dos lençóis de prata, Tessa observou enquanto a carruagem passava pelos pedestres como se fossem fantasmas, corria pelas aberturas mais estreitas entre os prédios, atravessava um jardim, depois um armazém cheio de caixas e finalmente emergia no Embankment, molhado e escorregadio, ao lado da água cinzenta e agitada do Tâmisa.
— Oh, santo Deus — disse Tessa, e fechou a cortina. — Não me diga que vamos para o rio.
Jem riu. Mesmo com o choque, foi um som muito bem-vindo.
— Não. As carruagens da Cidade do Silêncio só viajam por terra, até onde sei, apesar de ser uma viagem peculiar. É um pouco nauseante nas primeiras vezes, mas você acaba se acostumando.
— Mesmo? — Olhou diretamente para ele. Esse era o momento. Tinha de falar, antes que a amizade fosse ainda mais afetada. Antes que ficassem mais desconfortáveis. — Jem — falou.
— Sim?
— Eu... você precisa saber... o quanto sua amizade significa para mim — começou, desconfortavelmente. — E...
Um olhar de dor passou pelo rosto dele.
— Por favor, não.
Espantada, Tessa só conseguiu piscar.
— Como assim?
— Cada vez que você fala a palavra “amizade” é como uma facada em mim — declarou. — Ser amigo é uma coisa linda, Tessa, e não desdenho disso, mas há muito tempo venho torcendo para sermos mais do que amigos. E então pensei que depois daquela noite, talvez minhas esperanças não tivessem sido vãs. Mas agora...
— Agora estraguei tudo — sussurrou. — Sinto muito.
Ele olhou para a janela; Tessa sentiu que Jem estava lutando contra alguma emoção fortíssima.
— Não deveria ter de se desculpar por não retribuir meus sentimentos.
— Mas Jem. — Ela estava aturdida, e só conseguia pensar em acabar com a dor do menino, em deixá-lo menos machucado. — Eu estava me desculpando pelo meu comportamento naquela noite. Foi além dos limites e indesculpável. O que você não deve estar pensando a meu respeito...
Ele levantou o olhar, surpreso.
— Tessa, não pode achar isso, pode? Fui eu que me comportei de maneira indesculpável. Mal consigo olhar para você desde então, pensando no quanto deve me desprezar...
— Jamais poderia desprezá-lo — disse. — Jamais conheci alguém tão gentil e bondoso quanto você. Achei que estivesse chocado comigo. Que você me desprezasse.
Jem pareceu chocado.
— Como poderia desprezá-la se foi minha própria distração que levou ao que aconteceu entre nós dois? Se eu não estivesse em um estado tão desesperado, teria tido mais controle.
Ele quer dizer que teria tido mais controle para me conter, pensou Tessa. Não espera que eu seja correta. Presume que isso não faz parte da minha natureza. Ela começou a olhar fixamente para a janela outra vez, ou melhor, para o pedacinho dela que conseguia ver. O rio estava visível, barcos pretos boiando na corrente, a chuva se misturando ao rio.
— Tessa. — Ele trocou para o outro lado da carruagem, de maneira a ficar ao seu lado, e não em frente, o rosto belo e ansioso perto do dela. — Sei que meninas mundanas aprendem que têm a responsabilidade de não tentar os homens. Que os homens são fracos e as mulheres devem contê-los. Garanto a você, a moral dos Caçadores de Sombras é diferente. Mais igualitária. Foi escolha nossa fazer... o que fizemos.
Ela o encarou. Jem era tão gentil, pensou. Parecia capaz de interpretar os medos que ela trazia no coração e tranquilizá-los, antes mesmo que Tessa pudesse verbalizá-los.
Então pensou em Will. No que acabara acontecendo entre os dois na noite anterior. Afastou a lembrança do ar frio ao redor, do calor dos corpos enquanto se abraçavam. Estava drogada, assim como ele. Nada do que tinham feito ou dito teve mais significado que os devaneios de um viciado em ópio. Não havia necessidade de contar para ninguém; não tinha significado nada. Nada.
— Diga alguma coisa, Tessa. — A voz de Jem tremeu. — Temo que pense que eu me arrependo daquela noite. Não me arrependo. — Ele passou o polegar sobre o pulso dela, a pele exposta entre o punho do vestido e a luva. — Só me arrependo de ter acontecido tão depressa. Eu... eu gostaria de tê-la... cortejado antes. De tê-la levado para dar um passeio, com uma acompanhante.
— Uma acompanhante? — Tessa riu, apesar de si.
Jem prosseguiu, determinado.
— Falar sobre meus sentimentos antes de demonstrá-los. Escrever poesia...
— Você nem gosta de poesia — disse Tessa, com a voz falhando, com uma espécie de riso aliviado.
— Não. Mas você me faz querer escrever. Isso não conta?
Os lábios de Tessa se curvaram em um sorriso. Ela se inclinou para a frente e olhou para o rosto dele, tão próximo do seu que dava para identificar cada cílio prateado individualmente, as cicatrizes brancas desbotadas na pele pálida do pescoço, onde outrora teve Marcas desenhadas.
— Esta fala parece quase ensaiada, James Carstairs. Quantas meninas já encantou com essa observação?
— Só existe uma garota que quero encantar — disse. — A pergunta é: ela se encanta?
Tessa sorriu para ele.
— Sim.
Um instante mais tarde — Tessa não sabia como tinha acontecido —, ele a estava beijando, os lábios macios nos dela, a mão se erguendo para segurar o queixo e a bochecha dela, mantendo seu rosto firme. Tessa ouviu um barulho suave e percebeu que era o som das flores de seda do chapéu sendo esmagadas contra a lateral da carruagem enquanto o corpo de Jem pressionava o dela. Ela segurou as lapelas do casaco dele, tanto para conservá-lo perto quanto para não cair.
A carruagem parou. Jem se afastou, parecendo entorpecido.
— Pelo Anjo — disse ele. — Talvez nós precisemos mesmo de uma acompanhante.
Tessa balançou a cabeça.
— Jem, eu...
Jem ainda parecia espantado.
— Acho melhor eu me sentar ali — disse, e tomou o lugar em frente a ela. Tessa olhou para a janela. Através do buraco nas cortinas viu que o Parlamento se erguia sobre eles, torres sombriamente emolduradas pelo céu que clareava. Não chovia mais. Ela não sabia por que a carruagem havia parado; na verdade, voltou à vida logo depois, rolando diretamente para dentro do que parecia uma sombra negra que havia se aberto diante deles. Já estava preparada o suficiente para não engasgar de surpresa dessa vez; então veio uma escuridão, e em seguida entraram em uma sala de basalto negro iluminada com tochas que lembravam a reunião do Conselho.
A carruagem parou, e a porta se abriu. Diversos Irmãos do Silêncio se encontravam do outro lado. O Irmão Enoch estava à frente. Dois o ladeavam, cada um segurando uma tocha acesa. Os capuzes não estavam levantados. Ambos eram cegos, apesar de apenas um, como Enoch, parecer não ter olhos; os outros tinham olhos fechados, com símbolos negros pintados sobre eles. Todos tinham lábios costurados.
Seja bem-vinda novamente à Cidade do Silêncio, Filha de Lilith , disse o Irmão Enoch.
Por um instante Tessa quis esticar o braço para trás e sentir a pressão calorosa da mão de Jem na dela, permitir que ele lhe ajudasse a saltar. Naquele momento, pensou em Charlotte. Charlotte, tão pequena e tão forte, que não se apoiava em ninguém.
Saltou da carruagem sozinha, os saltos das botas produzindo ruídos no chão de basalto.
— Obrigada, Irmão Enoch — disse ela. — Estamos aqui para ver Jessamine Lovelace. Pode nos levar até ela?
As prisões da Cidade do Silêncio ficavam abaixo do térreo, após o pavilhão das Estrelas Falantes. Uma escadaria escura levava ao andar de baixo. Os Irmãos do Silêncio foram primeiro, seguidos por Jem e Tessa, que não tinham se falado desde que saltaram da carruagem. Mas não era um silêncio desconfortável. Havia algo na grandeza assombrosa da Cidade dos Ossos, com os grandes mausoléus e os arcos elevados, que a deixava com a sensação de estar em um museu ou uma igreja, onde sussurrar era mais apropriado.
No pé da escada, um corredor seguia em duas direções; os Irmãos do Silêncio pegaram a esquerda, e conduziram Jem e Tessa quase até o fim do corredor. No trajeto passaram por diversas fileiras de pequenas câmaras, cada uma com uma grade presa por uma barra de ferro e cadeado. Todas continham uma cama, uma pia, e nada mais. As paredes eram de pedra e tinham cheiro de água e umidade. Tessa ficou imaginando se estavam sob o Tâmisa, ou em outro lugar totalmente diferente.
Finalmente os Irmãos pararam diante de uma porta, a penúltima do corredor, e o Irmão Enoch tocou o cadeado. Este se abriu, e as correntes que fechavam a porta caíram.
Podem entrar, disse Enoch, recuando. Estaremos esperando do lado de fora.
Jem colocou a mão na maçaneta e hesitou, olhando para Tessa.
— Talvez você devesse conversar com ela sozinha, por um instante. De mulher para mulher.
Tessa ficou pasma.
— Tem certeza? Você a conhece melhor do que eu...
— Mas você conhece Nate — respondeu Jem, e seus olhos se desviaram brevemente dos dela. Tessa teve a sensação de que havia algo que ele não estava revelando. Era uma sensação tão esquisita de se ter em relação a Jem que ela não soube ao certo como reagir. — Eu me junto a vocês em um instante, assim que você acalmá-la.
Lentamente, Tessa assentiu. O Irmão Enoch abriu a porta, e ela entrou, encolhendo-se um pouco quando a porta pesada se fechou atrás dela.
Era um cômodo pequeno e, como os outros, feito de pedra. Havia uma pia e o que provavelmente um dia fora um jarro de cerâmica com água; agora estava despedaçado no chão, como se alguém o tivesse atirado contra a parede. Sobre a cama estreita, Jessamine estava sentada com uma camisola branca, enrolada em um cobertor. Os cabelos caíam emaranhados em torno dos ombros, e ela estava com os olhos vermelhos.
— Seja bem-vinda. Um belo lugar para se viver, não? — disse Jessamine. A voz soava áspera, como se estivesse com a garganta inchada de tanto chorar. Olhou para Tessa, e seu lábio inferior começou a tremer. — Charlotte... a enviou para me buscar?
Tessa sacudiu a cabeça.
— Não.
— Mas... — os olhos de Jessamine começaram a lacrimejar. — Ela não pode me deixar aqui. Eu os ouço, a noite inteira. — Ela estremeceu, puxando o cobertor mais para perto.
— Ouve o quê?
— Os mortos — disse. — Sussurrando nas tumbas. Se eu ficar aqui por muito tempo, vou me juntar a eles. Sei disso.
Tessa sentou-se na beirada da cama e tocou cuidadosamente o cabelo de Jessamine, acariciando-o de leve.
— Isso não vai acontecer — disse, e Jessamine começou a soluçar. Seus ombros tremiam. Desamparada, Tessa olhou em volta, como se alguma coisa na cela terrível pudesse lhe trazer inspiração. — Jessamine — disse. — Trouxe uma coisa para você.
Jessamine levantou o rosto lentamente.
— É de Nate?
— Não — respondeu Tessa gentilmente. — É uma coisa sua. — Pôs a mão no bolso e retirou o objeto, estendendo a mão para Jessamine. Na palma havia uma bonequinha que havia retirado do berço na casa de bonecas de Jessamine. — Bebê Jessie.
Jessamine emitiu um “oh” baixo na garganta, e pegou a boneca de Tessa. Segurou-a com firmeza contra o peito. Chorou, e as lágrimas deixaram rastros em seu rosto. Era uma visão digna de pena, pensou Tessa. Se ao menos...
— Jessamine — disse Tessa novamente. Jessamine lhe parecia um animal que precisava de carinho, e sentia como se repetir o nome dela em tom suave pudesse ajudar de alguma forma. — Precisamos da sua ajuda.
— Para trair Nate —irritou-se Jessamine. — Mas não sei de nada. Sequer sei por que estou aqui.
— Sim, você sabe — foi Jem que falou, entrando na cela. Estava com o rosto vermelho e um pouco sem fôlego, como se estivesse apressado. Olhou conspiratoriamente para Tessa e fechou a porta atrás de si. — Sabe exatamente por que está aqui, Jessie...
— Porque me apaixonei! — disparou. — Você deveria saber como é. Vejo como olha para Tessa. — E, quando as bochechas de Tessa arderam, Jessamine lhe lançou um olhar venenoso. — Pelo menos Nate é humano.
Jem não perdeu a compostura.
— Não traí o Instituto por Tessa — declarou. — Não menti nem coloquei em perigo aqueles que cuidaram de mim desde que me tornei órfão.
— Se não o fez — afirmou Jessamine —, então não a ama de verdade.
— Se ela me pedisse isso — disse Jem —, eu saberia que ela não me ama de verdade.
Jessamine respirou fundo e virou-se de costas para ele, como se ele tivesse acabado de estapeá-la.
— Você — disse ela com a voz abafada. — Sempre achei que fosse o mais gentil. Mas é horrível. Vocês são todos horríveis. Charlotte me torturou com aquela Espada Mortal até eu revelar tudo. O que mais podem querer de mim? Já me forçaram a trair o homem que amo.
Com o cantinho da visão, Tessa viu Jem revirar os olhos. Havia algo de teatral no desespero de Jessamine, assim como em tudo que ela fazia, mas por baixo daquilo — por baixo do papel de mulher sofredora que havia atribuído a si mesma — Tessa sentiu que ela realmente estava com medo.
— Sei que você ama Nate — disse Tessa. — E sei que não vou conseguir convencê-la de que o sentimento não é mútuo.
— Está com ciúmes...
— Jessamine, Nate não pode amá-la.
Há algo de errado com ele; alguma peça faltando no coração. Deus sabe que eu e minha tia tentamos ignorar, dizer a nós mesmas que era brincadeira e desprendimento de menino. Mas ele assassinou nossa tia, será que contou isso a você? Assassinou a mulher que o criou e riu disso depois. Ele não tem compaixão, não é capaz de ser grato. Se você protegê-lo agora, não vai conquistar nada aos olhos dele.
— E nem é provável que volte a vê-lo — disse Jem. — Se não nos ajudar, a Clave jamais irá soltá-la. Ficará aqui com os mortos por toda a eternidade, se não for punida com alguma maldição.
— Nate avisou que tentariam me assustar — revelou Jessamine, com um fio de voz.
— Nate também disse que Charlotte e a Clave não fariam nada com você porque eram fracos — recordou Tessa. — E isso não se provou verdade. Ele só disse o que tinha de dizer, para que você fizesse o que ele queria. Ele é meu irmão, e digo a você: ele é um traidor mentiroso.
— Precisamos que escreva uma carta para ele — disse Jem. — Revelando que tem conhecimento de uma trama secreta dos Caçadores de Sombras contra Mortmain, solicitando que ele a encontre hoje à noite...
Jessamine balançou a cabeça, puxando o cobertor áspero.
— Não vou traí-lo.
— Jessie. — A voz de Jem era cheia de suavidade; Tessa não sabia como Jessamine poderia rejeitá-lo. — Por favor. Só estamos pedindo que se salve. Envie este recado; diga-nos onde normalmente se encontram. É só o que pedimos.
Jessamine balançou a cabeça.
— Mortmain — falou. — Mortmain vai vencê-los. Aí os Irmãos do Silêncio serão derrotados, e Nate virá me buscar.
— Muito bem — disse Tessa. — Imagine que isso não aconteça. Você diz que Nate a ama. Então ele perdoaria qualquer coisa, não é mesmo? Porque quando um homem ama uma mulher, ele entende que ela é fraca. Que ela não consegue suportar, por exemplo, uma tortura, da maneira como ele conseguiria.
Jessamine emitiu um ruído choramingado.
— Ele entende que ela é frágil, delicada e manipulável — prosseguiu Tessa, e tocou gentilmente o braço de Jessamine. — Jessie, está vendo sua escolha. Se não nos ajudar, a Clave ficará sabendo, e não serão clementes. Se ajudar, Nate vai entender. Se ele a ama... não terá escolha. Pois o amor significa perdão.
— Eu... — Jessamine olhou de um para o outro, como um coelho assustado. — Você perdoaria Tessa, se fosse ela?
— Perdoaria qualquer coisa que Tessa fizesse — afirmou Jem em tom solene.
Tessa não conseguiu ver a expressão de Jem, estava olhando para Jessamine, mas sentiu o coração parar por um instante. Não podia olhar para ele, por medo de que a expressão traísse seus sentimentos.
— Jessie, por favor — disse Tessa.
Jessamine ficou em silêncio por um longo tempo. Ao falar, finalmente, sua voz estava fina como uma linha.
— Você vai encontrá-lo, suponho, disfarçada de mim.
Tessa assentiu.
— Precisa usar roupas de menino — avisou. — Quando o encontro à noite, sempre me visto de menino. Assim é mais seguro andar sozinha. É o que ele estará esperando. — Ela levantou a cabeça, tirando o cabelo do rosto. — Têm papel e caneta? — acrescentou. — Vou escrever o bilhete.
Jessie pegou de Jem os itens solicitados e começou a rabiscar.
— Terei de receber alguma coisa em troca disto — falou. — Se não me deixarem sair...
— Não vão deixar — respondeu Jem —, até que seja determinado que a informação que nos deu é verdadeira.
— Então precisam no mínimo me dar uma comida melhor. Aqui é horrível. Só servem sopa de aveia e pão duro. — Após escrever o bilhete, o entregou a Tessa. — As roupas de menino que visto estão atrás da casa de boneca no meu quarto. Cuidado ao movê-la — solicitou, e por um instante voltou a ser Jessamine, com os olhos castanhos arrogantes. — E se precisar pegar alguma roupa minha emprestada, pegue. Tem usado os mesmos quatro vestidos que lhe dei em junho, incessantemente. Este amarelo é praticamente de época. E se não quer que ninguém saiba que anda troca beijos em carruagens, não deveria usar um chapéu com flores que amassam tão facilmente. As pessoas não são cegas, sabia?
— Parece que não — respondeu Jem com muita seriedade, e quando Tessa olhou para ele, ele sorriu só para ela.