Príncipe Mecânico
Vire a página para ler a carta que Will enviou para a família no aniversário de 17 anos
Vire a página para ler a
carta
que Will enviou para a
família no
aniversário de 17 anos.
Londres
Instituto
Anno Domini 1878
Mãe, pai e irmãzinha—
Hoje é meu décimo
sétimo aniversário. Sei
que escrever para vocês
é uma transgressão. Sei
que provavelmente
rasgarei esta carta em
pedaços quando
terminar, como fiz em
todos os meus
aniversários desde o de
12 anos. Mas escrevo
mesmo assim, para
comemorar a ocasião,
da mesma forma que
alguns fazem
peregrinações anuais a
um túmulo e recordam
diante dele a morte de
uma pessoa amada.
Afinal, não estamos
mortos um para o outro?
Fico imaginando se,
quando acordaram hoje
de manhã, se lembraram
de que há 17 anos
tiveram um filho. Fico
imaginando se pensam
em mim e imaginam
minha vida aqui no
Instituto em Londres.
Duvido que possam
imaginar. É tão diferente
da nossa casa cercada
por montanhas e pelo
céu azul, enorme e
claro, e pelo verde
infinito. Aqui tudo é
negro, cinza e marrom,
e todo pôr do sol é
tingido de fumaça e
sangue.
Fico imaginando se
vocês se preocupam
com a possibilidade de
eu ser solitário, ou,
como mamãe sempre
fazia, com a
possibilidade de eu estar
com frio, ou ter saído na
chuva sem chapéu.
Ninguém aqui se
preocupa com esses
detalhes. Existem tantas
coisas que podem nos
matar a qualquer
instante que um pouco
de frio não parece
importante.
Ficou imaginando se
sabiam que eu podia
escutá-los naquele dia
que vieram me buscar
quando eu tinha 12
anos. Arrastei-me para
baixo da cama para não
ouvir vocês gritando meu
nome. Mas ouvi. Ouvi
mamãe gritar pelo fach,
seu pequenino. Mordi as
mãos até sangrarem,
mas não desci, e
eventualmente Charlotte
os convenceu a se
retirarem. Pensei que
talvez pudessem voltar,
mas não voltaram. É a
teimosia dos Herondale.
Lembro-me dos
grandes suspiros de
alívio que vocês dois
soltavam cada vez que o
Conselho aparecia para
perguntar se eu desejava
abandonar minha família
e me juntar aos
Nephilim e eu recusava,
mandando-os embora.
Fico imaginando se
sabiam que eu era
tentado pela ideia de
uma vida de glória,
dedicada a lutar e matar
em nome da proteção,
como um homem deve
fazer. Está no nosso
sangue: o chamado para
serafim e estela, para
Marcas e monstros.
Fico imaginando por
que deixou os Nephilim,
pai; fico me perguntando
por que mamãe escolheu
não Ascender e se
tornar Caçadora de
Sombras. É porque os
achava frios e cruéis? Eu
não achei. Charlotte é
especialmente gentil
comigo, nem imagina
como não mereço.
Henry é doido de pedra,
mas é um bom sujeito:
teria feito Ella rir. Há
poucas coisas boas a
serem ditas sobre
Jessamine, mas ela é
inofensiva. Por outro
lado, tenho muitas coisas
boas a falar sobre Jem
— ele é o irmão que
papai sempre achou que
eu devesse ter, sangue
do meu sangue, apesar
de não sermos parentes.
Apesar de eu ter perdido
tudo, pelo menos ganhei
uma coisa com a
amizade dele. E temos
uma nova adição a nossa
casa. O nome dela é
Tessa. Um nome muito
bonito, não? Quando as
nuvens vêm do oceano
cobrir as montanhas —
o cinza delas é o mesmo
em seus olhos.
E agora vou revelar
uma terrível verdade,
pois não pretendo
mesmo enviar esta carta.
Vim para o Instituto
porque não tinha para
onde ir. Nunca esperei
que fosse ser minha
casa, mas no meu tempo
aqui, descobri que sou
um verdadeiro Caçador
de Sombras. De algum
jeito, meu sangue me diz
que nasci para fazer
isso. Se ao menos eu
tivesse sabido antes e ido
com a Clave na primeira
vez em que me
chamaram, talvez
pudesse ter salvado a
vida de Ella. Talvez
pudesse ter salvado a
minha.
Seu filho,
Will
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