Príncipe Mecânico

Cassandra Clare · Capítulo 19 de 26

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Príncipe Mecânico

17 | Nos Sonhos

17

Nos Sonhos

 

Venha a mim nos meus sonhos, e

em seguida

Amanhecendo estarei bem.

Pois então à noite serei mais que

compensado

Pelo dia em desejo

desesperançado.

— Matthew Arnold, “Longing”

A consciência veio e foi em ritmo hipnótico, como o mar surgindo e desaparecendo no convés de um navio galgando águas tempestuosas. Tessa sabia que estava em uma cama com lençóis brancos no centro de um cômodo comprido; que havia outros leitos, todos iguais, naquele recinto; e que havia janelas no alto que permitiam a entrada de sombras, e depois da luz de sangue do amanhecer. Fechou os olhos outra vez contra a luminosidade, e a escuridão voltou.

Acordou com vozes sussurrantes e faces pairando sobre ela, ansiosas. Charlotte, com os cabelos cuidadosamente presos, ainda uniformizada, e a seu lado viu o Irmão Enoch. O rosto cheio de cicatrizes já não era pavoroso. Ouvia a voz dele na mente.

O ferimento na cabeça dela é superficial.

— Mas ela desmaiou — disse Charlotte. Para surpresa de Tessa, havia medo verdadeiro na voz dela, ansiedade real. — Com um golpe na cabeça...

Ela desmaiou pela sucessão de choques. O irmão morreu em seus braços, você disse? E pode ter achado que Will também estava morto. Falou que ele a cobriu com o próprio corpo no momento da explosão. Se ele tivesse morrido, teria abdicado da vida para salvar a dela. É um grande fardo para se carregar.

— Mas acha que ela ficará bem?

Quando o corpo e o espírito tiverem repousado, ela vai despertar. Não sei quando será.

— Minha pobre Tessa. — Charlotte tocou levemente o rosto de Tessa. Suas mãos estavam com cheiro de sabão de limão. — Ela não tem mais ninguém no mundo...

 

A escuridão voltou, e Tessa sucumbiu a ela, grata por descansar da luz e dos pensamentos. Deixou-se envolver e se permitiu flutuar, como os icebergs na costa do Labrador, embalados pelo luar e pela água negra e gelada.

 

Um grito gutural de dor interrompeu seu sonho com a escuridão. Estava encolhida de lado em um emaranhado de lençóis, e a algumas camas de distância da sua encontrava-se Will, de bruços. Ela percebeu — embora graças a seu estado de torpor não tenha ficado muito chocada — que ele provavelmente estava nu; os lençóis o cobriam até a cintura, mas as costas e o peito estavam expostos. Os braços estavam cruzados sobre os travesseiros diante dele, a cabeça apoiada neles, o corpo tenso como a corda de um arco. Os lençóis brancos sob o corpo estavam manchados de sangue.

O Irmão Enoch estava de um lado da cama, e ao lado dele encontrava-se Jem, perto da cabeça de Will, com uma expressão ansiosa.

— Will — dizia Jem com urgência. — Will, tem certeza de que não quer mais um símbolo para dor?

— Não... mais — disse Will, através dos dentes cerrados. — Acabe logo com isso.

O Irmão Enoch ergueu o que parecia uma perversa pinça afiada. Will engoliu em seco e enterrou a cabeça nos braços, os cabelos negros contrastando com os lençóis. Jem estremeceu como se a dor fosse nele quando a pinça penetrou fundo nas costas de Will e o corpo dele se retesou na cama, os músculos enrijecendo sob a pele, o grito de agonia breve e abafado. O Irmão Enoch puxou a ferramenta, que segurava um caco metálico ensanguentado.

Jem pôs a mão na de Will.

— Aperta minha mão. Vai ajudar com a dor. Faltam apenas mais alguns.

— Para você... é fácil falar — engasgou Will, mas o toque do parabatai pareceu relaxá-lo ligeiramente. Estava arqueado, com os cotovelos afundados no colchão, a respiração curta. Tessa sabia que devia desviar o olhar, mas não conseguia. Percebeu que nunca tinha visto tanto de um corpo masculino antes, nem mesmo o de Jem. Descobriu-se fascinada pela forma como o músculo esguio deslizava sob a pele suave de Will, o inchaço e o relaxamento de seus braços, a barriga dura e lisa tremendo enquanto ele respirava.

A pinça brilhou novamente — a mão de Will apertou a de Jem, e os dedos de ambos embranqueceram. Sangue brotou e escorreu pela lateral nua de Will. Não emitiu nenhum ruído, apesar de Jem parecer enjoado e pálido. Moveu a mão como se pretendesse tocar o ombro de Will, em seguida a recolheu, mordendo o lábio.

Tudo isto porque Will cobriu meu corpo com o dele para me proteger, pensou Tessa. Como dissera o Irmão Enoch, era de fato um fardo muito pesado.

 

Ela estava em sua cama estreita no antigo quarto no apartamento de Nova York. Através da janela, via o céu cinzento, os telhados de Manhattan. Uma das colchas de retalhos coloridas da tia estava na cama, e ela a segurava quando a porta se abriu e a tia entrou.

Sabendo o que sabia agora, Tessa pôde ver a semelhança. Tia Harriet tinha olhos azuis, cabelos claros desbotados; até o formato do rosto era como o de Nate. Com um sorriso, ela veio e se inclinou sobre Tessa, colocando na testa da sobrinha uma das mãos, fria contra a pele quente de Tessa.

— Sinto muito — sussurrou Tessa. — Por Nate. É culpa minha ele estar morto.

— Nada disso — disse a tia. — Não é culpa sua. É culpa dele e minha. Sempre senti muita culpa, sabe, Tessa. Por saber que eu era mãe dele mas sem suportar a ideia de contar. Permiti que ele fizesse tudo que queria, até que se tornou mimado além de qualquer possibilidade de salvação. Se eu tivesse revelado que era mãe dele, Nate não teria se sentido tão traído quando descobriu a verdade, e não teria se voltado contra nós. Segredos e mentiras, Tessa, são como um câncer na alma. Corroem o que é bom e deixam apenas destruição.

— Sinto tanto a sua falta — disse Tessa. — Agora não tenho família...

A tia se inclinou para beijá-la na testa.

— Você tem mais família do que pensa.

 

— Muito provavelmente vamos perder o Instituto agora — disse Charlotte. Não soava triste, mas distante e desprendida. Tessa pairava como um fantasma pela enfermaria, olhando para onde Charlotte e Jem estavam, ao pé de sua cama. Tessa se viu dormindo, os cabelos escuros espalhados como um leque sobre o travesseiro. Will dormia a algumas camas de distância, com as costas cheias de curativos e um iratze preto na nuca. Sophie, com a touca branca e o vestido escuro, espanava os parapeitos. — Perdemos Nathaniel Gray como fonte, uma das nossas se revelou espiã, e não estamos mais perto de encontrar Mortmain do que estávamos há duas semanas.

— Depois de tudo que fizemos e descobrimos? A Clave vai entender...

— Não vão. Já estão no limite no que se refere a mim. Posso muito bem ir até a casa de Benedict Lightwood e refazer a papelada do Instituto em nome dele. Acabar logo com isso.

— O que Henry acha disso tudo? — perguntou Jem, que, assim como Charlotte, não estava mais de uniforme. Ele usava uma camisa branca e calças de tecido marrom, enquanto Charlotte trajava um de seus vestidos escuros sem graça. Quando Jem virou a mão, contudo, Tessa viu que ainda estava suja com o sangue seco de Will.

Charlotte bufou de um jeito nada feminino.

— Ah, Henry — disse, soando exausta. — Acho que ele está tão chocado, porque um dos seus dispositivos realmente funcionou, que não sabe nem o que fazer. E não suporta a ideia de vir até aqui. Ele se sente culpado por Will e Tessa estarem machucados.

— Sem aquela peça poderíamos estar todos mortos e Tessa nas mãos do Magistrado.

— Tente explicar isso a ele. Eu já desisti.

— Charlotte... — A voz de Jem estava suave. — Eu sei o que as pessoas dizem. Sei que você já ouviu fofocas cruéis. Mas Henry ama você. Quando ele achou que você estivesse machucada lá no armazém de chá, quase enlouqueceu. Ele se jogou naquela máquina...

— James. — Charlotte afagou desajeitadamente o ombro de Jem. — Aprecio sua tentativa de me consolar, mas mentiras não trazem bem algum no fim das contas. Há muito tempo aceitei que Henry ama as invenções em primeiro lugar, e a mim em segundo, se é que ama.

— Charlotte — disse Jem, exaurido, mas antes que pudesse acrescentar qualquer outra palavra, Sophie já estava ao lado dele, com um pano na mão.

— Sra. Branwell — falou com a voz baixa. — Se eu puder falar com a senhora por um instante.

Charlotte pareceu surpresa.

— Sophie...

— Por favor, senhora.

Charlotte colocou uma das mãos no ombro de Jem, falou alguma coisa suavemente ao ouvido dele e em seguida acenou com a cabeça para Sophie.

— Muito bem. Venha comigo até a sala de estar.

Enquanto Charlotte saía do recinto com Sophie, Tessa percebeu, surpresa, que Sophie era mais alta que a patroa. Charlotte tinha uma presença tão forte que era fácil esquecer o quanto era pequena. E Sophie era tão alta quanto Tessa, e magra como um salgueiro. Tessa repassou a imagem mental dela com Gideon Lightwood, pressionada contra a parede do corredor, e ficou preocupada.

Quando a porta se fechou atrás das duas, Jem se inclinou para a frente, com os braços cruzados sobre o pé da cama metálica de Tessa. Estava olhando para ela, sorrindo um pouco, apesar de ser um sorriso torto, as mãos caindo pelas laterais do corpo, sangue seco nas juntas e sob as unhas.

— Tessa, minha Tessa — disse, com a voz suave, tão melódica quanto seu violino. — Sei que não pode me ouvir. O Irmão Enoch disse que seu machucado não é sério. Não posso dizer que isso é o bastante para me confortar. É mais ou menos como quando Will me garante que só estamos um pouco perdidos em algum lugar. Sei que isso significa que não veremos nenhuma rua familiar durante horas.

Ele diminuiu a voz, deixando-a tão baixa que Tessa não teve certeza se o que falou em seguida foi real ou parte da escuridão do sonho que ascendia para envolvê-la, apesar de ela lutar contra.

— Nunca nem me importei — prosseguiu. — Em ficar perdido, quero dizer. Sempre achei que ninguém pudesse se perder de verdade se conhecesse o próprio coração. Mas temo ficar perdido sem conhecer o seu. — Jem fechou os olhos como se estivesse exausto, e ela viu o quão finas eram as pálpebras dele, como pergaminho, e o quanto ele parecia cansado. — Wo ai ni , Tessa — sussurrou. — Wo bu xiang shi qu ni.

Ela soube, sem ter ideia de como, o que as palavras significavam.

Eu te amo.

E não quero perdê-la.

Também não quero perdê-lo , queria dizer, mas as palavras não vieram. Em vez disso, o cansaço venceu, e uma onda escura a cobriu em silêncio.

 

Escuridão.

Estava escuro na cela, e a primeira coisa que Tessa percebeu foi a sensação de muita solidão e pavor. Jessamine estava deitada na cama estreita, com os cabelos claros caídos sobre os ombros. Tessa pairou sobre ela e, ao mesmo tempo, de alguma forma, sentiu que tocava sua mente. Sentia a profunda dor da perda. De algum jeito, Jessamine sabia que Nate estava morto. Antes, quando Tessa tentara tocar a mente da menina, tinha encontrado resistência, mas agora sentiu apenas uma tristeza crescente, como uma mancha de tinta preta espalhando-se pela água.

Os olhos castanhos de Jessie estavam abertos, fixos na escuridão. Não tenho nada. As palavras foram tão claras quanto um sino na mente de Tessa. Escolhi Nate e traí os Caçadores de Sombras, e agora ele está morto, Mortmain também vai me querer morta, e Charlotte me despreza. Apostei e perdi tudo.

Enquanto Tessa observava, Jessamine esticou a mão e retirou um pequeno cordão do pescoço por cima da cabeça. Dele pendia um anel dourado com uma pedra branca brilhante — um diamante. Segurando-o entre os dedos, começou a utilizar o diamante para marcar letras na parede de pedra.

JG.

Jessamine Gray.

Talvez houvesse mais nesse recado, mas Tessa jamais descobriria, enquanto Jessamine pressionava a pedra, esta se quebrou, e a mão dela bateu na parede, arranhando as juntas.

Tessa não precisava tocar a mente de Jessamine para saber o que ela estava pensando. Nem o diamante era verdadeiro. Com um grito baixo, Jessamine rolou e enterrou o rosto nos cobertores ásperos da cama.

Quando Tessa acordou novamente estava escuro. Uma luz fraca vinda das estrelas penetrava as altas janelas da enfermaria, e sobre a mesa ao lado da cama havia uma lâmpada de luz enfeitiçada. Perto desta, uma xícara de chá soltando vapor e um pratinho de biscoitos. Tessa sentou-se, prestes a alcançar a xícara... e congelou.

Will estava sentado na cama ao lado da dela, com uma camisa folgada, calças e um roupão preto. Sua pele estava pálida sob a luz das estrelas, mas nem mesmo a pouca luminosidade conseguia desbotar o azul dos seus olhos.

— Will — disse ela, alarmada —, o que você está fazendo acordado? — Será que ele a estava observando dormir, imaginou? Mas que coisa esquisita de Will fazer.

— Trouxe um chá —disse ele, um pouco tenso. — Mas você parecia estar tendo um pesadelo.

— Parecia? Mas eu nem me lembro o que sonhei. — Ela puxou as cobertas sobre si, apesar de já estar mais do que coberta pela modesta camisola. — Achei que estivesse escapando para o sonho, que a vida real era o pesadelo e que o sono era onde eu poderia ficar em paz.

Will pegou a xícara e foi sentar-se ao lado dela na cama.

— Aqui. Beba isto.

Tessa pegou a xícara, obediente. O chá tinha um gosto amargo, porém convidativo, como um tempero de limão.

— O que isto faz? — perguntou.

— Acalma — respondeu Will.

Ela olhou para ele, com gosto de limão na boca. Parecia haver um torpor em seus olhos, vendo através dele, Will parecia algo saído de um sonho.

— Como estão seus ferimentos? Está com dor?

Ele negou, balançando a cabeça.

— Depois que o metal foi retirado, conseguiram usar um iratze — explicou. — Os ferimentos não estão completamente curados, mas estão fechando. Até amanhã não passarão de cicatrizes.

— Que inveja. — Ela tomou mais um gole do chá. Estava começando a deixá-la tonta. Tessa tocou o curativo na testa. — Acredito que vá demorar muito até eu poder tirar isto.

— Enquanto isso, pode curtir o visual de pirata.

Ela riu, mas a risada soou trêmula. Will estava perto o suficiente para que ela pudesse sentir o calor irradiando dele. Estava quente como uma fornalha.

— Está com febre? — perguntou, antes que pudesse se conter.

— O iratze eleva a temperatura do corpo. É parte do processo de cura.

— Ah — disse ela. Tê-lo tão perto estava causando tremores em seus nervos, mas ela estava tonta demais para se afastar.

— Sinto muito pelo seu irmão — disse ele, suavemente, a respiração agitando o cabelo dela.

— Não pode sentir — disse Tessa, amargamente. — Sei que você acha que ele mereceu. E provavelmente é verdade.

— Minha irmã morreu. Ela morreu, e não havia nada que eu pudesse ter feito — revelou, e tinha um pesar cru na voz. — Eu sinto muito pelo seu irmão.

Tessa olhou para ele. Os olhos, grandes e azuis, aquele rosto perfeito, o formato proeminente da boca, curvada para baixo nos cantos em sinal de preocupação. Preocupação por ela. A própria pele de Tessa parecia quente e tesa, a cabeça leve e arejada, como se estivesse flutuando.

— Will — sussurrou. — Will, estou me sentindo muito estranha.

Will se inclinou sobre ela para repousar a xícara na mesa, e seu ombro tocou o dela.

— Quer que eu busque Charlotte?

Tessa balançou a cabeça. Estava sonhando. Tinha quase certeza; tinha a mesma sensação — de estar no corpo e ao mesmo tempo não estar — que tivera quando sonhara com Jessamine. Saber que era um sonho a deixou mais corajosa. Will continuava inclinado para a frente, com o braço estendido; ela se encolheu contra ele e colocou a cabeça em seu ombro, fechando os olhos. Sentiu nele um espasmo de surpresa.

— Eu machuquei você ? — sussurrou, lembrando-se tardiamente das costas dele.

— Não me importo — respondeu ele, ardentemente. — Não me importo. — Os braços de Will a envolveram; ela repousou a bochecha na junção calorosa entre o pescoço e o ombro. Ouviu o eco da pulsação de Will e sentiu o cheiro dele, sangue, suor, sabonete e magia. Não foi como na varanda, uma mistura de fogo e desejo. Ele a segurou cuidadosamente, apoiando a cabeça no cabelo dela. Will tremia enquanto seu peito subia e descia, conforme deslizava os dedos hesitantemente sob o queixo de Tessa, erguendo seu rosto...

— Will — disse Tessa. — Tudo bem. Não importa o que fizer. Você sabe, estamos sonhando.

— Tess? — Will pareceu alarmado. Apertou os braços em volta dela. Ela se sentiu morna, suave e tonta. Se ao menos Will realmente fosse assim, pensou, e não apenas nos sonhos. A cama se moveu sob ela como um barco no oceano. Tessa fechou os olhos e se deixou levar pela escuridão.

 

O ar noturno estava frio, a névoa espessa e verde-amarelada sob as piscinas de luz intermitente vinda dos postes enquanto Will descia a King’s Road. O endereço que Magnus lhe dera ficava em Cheyne Walk, perto de Chelsea Embankment e Will já sentia o cheiro familiar do rio, feito de areia e água, de sujeira e podridão.

Vinha tentando impedir que o coração saltasse do peito desde que encontrara o bilhete de Magnus, cuidadosamente dobrado em uma bandeja sobre sua cabeceira. Não continha nada além de um breve endereço rabiscado: 16 Cheyne Walk. Will estava familizarizado com a área. Chelsea, perto do rio, era um ponto popular para artistas e literatos e as janelas dos estabelecimentos pelos quais passava brilhavam com luzes amarelas receptivas.

Apertou mais o casaco ao dobrar uma esquina, dirigindo-se ao sul. Suas costas e pernas ainda doíam em virtude dos ferimentos, apesar dos iratzes; a sensação era de ter sido picado por dúzias de abelhas. E mesmo assim ele mal sentia. A cabeça voltada para várias possibilidades. O que Magnus havia descoberto? Certamente não chamaria Will sem motivo. Estava com o corpo repleto de Tessa, da sensação e do cheiro dela. Estranhamente, o que mais feria seu coração e sua cabeça não era a lembrança dos lábios dela na noite do baile, mas a maneira como ela havia se apoiado sobre ele essa noite, com a cabeça em seu ombro, a respiração suave em seu pescoço, como se confiasse plenamente nele. Ele daria tudo que tinha e tudo que jamais teria só para se deitar ao lado dela na cama estreita da enfermaria e abraçá-la enquanto dormia. Afastar-se dela foi como arrancar a própria pele, mas foi o que precisou fazer.

Como sempre tivera de fazer. Como sempre fora obrigado a se privar de tudo que queria.

Mas talvez... depois dessa noite...

Cortou o pensamento antes que se enraizasse. Melhor não pensar; melhor não ter esperança e se decepcionar. Olhou em volta. Estava em Cheyne Walk agora, com suas casas requintadas de fachadas georgianas. Parou em frente ao número 16. Era uma construção alta, com uma grade de metal fundido e uma grande janela de sacada. Na grade havia um portão ornamentado, aberto. Will entrou e foi até a porta da frente, onde tocou a campainha.

Para sua grande surpresa, não foi aberta por um lacaio, mas por Woolsey Scott, cujos cabelos louros emaranhados iam até os ombros. Estava com um roupão verde-escuro de tecido chinês, calças escuras e o peito nu. Tinha um monóculo de contorno dourado equilibrado em um dos olhos. Trazia um cachimbo na mão esquerda e, ao examinar Will, exalou uma nuvem de fumaça com cheiro adocicado.

— Finalmente sucumbiu e admitiu que está apaixonado por mim? — perguntou a Will. — Gosto destas declarações-surpresa no meio da noite. — Apoiou-se na moldura da porta e acenou com a mão lânguida e cheia de anéis. — Pois bem, prossiga.

Pela primeira vez, Will ficou sem ter o que dizer. Não era algo que costumava acontecer, e foi obrigado a admitir que não gostava.

— Oh, deixe-o em paz, Woolsey. — Uma voz familiar falou de dentro da casa: Magnus, apressando-se pelo corredor. Ele estava ajeitando os punhos da camisa enquanto se aproximava, e seus cabelos eram um emaranhado preto e denso. — Eu disse que Will viria.

Will olhou de Magnus para Woolsey. Magnus estava descalço, assim como o lobisomem. Woolsey tinha uma corrente de ouro brilhante no pescoço, com um pingente que dizia Beati Bellicosi , “Abençoados são os guerreiros”. Abaixo, havia o desenho de uma pata de lobo. Scott notou que Will estava encarando e sorriu.

— Gosta do que está vendo? — perguntou.

— Woolsey — disse Magnus.

— Seu bilhete tinha alguma coisa a ver com evocação do demônio, não tinha? — perguntou Will, olhando para Magnus. — Não está... cobrando o favor, está?

Magnus balançou a cabeça desgrenhada.

— Não. Trata-se de negócios, nada mais. Woolsey foi gentil o bastante para me hospedar enquanto decido o que fazer em seguida.

— Sugiro irmos para Roma — declarou Scott. — Adoro Roma.

— Muito bem, mas primeiro preciso usar uma sala, de preferência uma que não tenha nada, ou quase nada dentro.

Scott retirou o monóculo e olhou para Magnus.

— E você vai fazer o que na tal sala? — O tom do lobisomem era mais do que sugestivo.

— Invocar o demônio Marbas — respondeu Magnus, sorrindo.

Scott engasgou com a fumaça do cachimbo.

— Suponho que tenhamos ideias diferentes sobre em que consiste uma noite agradável...

— Woolsey. — Magnus passou as mãos pelos cabelos negros. — Detesto mencionar o assunto, mas você me deve essa. Hamburgo? 1863?

Scott jogou as mãos para cima.

— Ah, muito bem. Pode ser o quarto do meu irmão. Não é usado desde que ele morreu. Aproveite. Estarei na sala de estar com uma taça de espumante e algumas xilogravuras um tanto indecentes que importei da Romênia.

Com isso, ele se virou e afastou-se pelo corredor. Magnus acenou para Will entrar, o que ele fez de bom grado, o calor da casa envolvendo-o como um cobertor. Como não havia lacaio, ele retirou o casaco azul de lã e o apoiou no próprio braço enquanto Magnus o observava com um olhar curioso.

— Will — disse ele. — Vejo que não perdeu tempo após receber meu bilhete, não o esperava antes de amanhã.

— Você sabe o que isto significa para mim — declarou Will. — Realmente achou que eu adiaria mais?

Os olhos de Magnus investigaram o rosto do Caçador de Sombras.

— Está preparado — disse ele. — Para que isto fracasse? Para que o demônio não seja o certo? Para a invocação não funcionar?

Por um longo instante Will não conseguiu se mover. Viu o próprio rosto no espelho perto da porta. Ficou horrorizado ao ver o quão desarmado estava — como se não houvesse mais nenhuma parede entre o mundo e os desejos do seu coração.

— Não — respondeu. — Não estou preparado.

Magnus balançou a cabeça.

— Will... — suspirou. — Venha comigo.

Virou-se com a graça felina, percorreu o corredor e subiu a escada curvilínea de madeira. Will foi atrás, atravessando a escadaria sombria, o tapete persa nos degraus abafando seus passos. Vãos nas paredes continham estátuas de corpos entrelaçados feitas de mármore polido. Will desviou o olhar apressadamente, depois olhou de novo. Magnus não parecia estar prestando atenção ao que Will fazia, e ele honestamente nunca tinha imaginado que duas pessoas pudessem se colocar em uma posição daquelas, quanto mais fazer parecê-la artística.

Chegaram ao segundo andar e Magnus seguiu pelo corredor, abrindo portas ao passar e murmurando para si mesmo. Quando finalmente encontrou o quarto certo, empurrou a porta e acenou para Will segui-lo.

O quarto do falecido irmão de Woolsey Scott era escuro e frio, e o ar cheirava a poeira. Will automaticamente procurou sua pedra de luz enfeitiçada, mas Magnus acenou para ele deixar isso para lá, acendendo um fogo azul com as pontas dos dedos. De repente, uma fogueira rugiu na lareira, iluminando o recinto. Era mobiliado, apesar de estar tudo coberto por panos brancos — a cama, o armário e as cômodas. Enquanto Magnus atravessava o quarto, puxando as mangas e gesticulando, a mobília começou a deslizar do centro do quarto. A cama rodopiou até a parede; as cadeiras, mesas e o lavatório voaram para os cantos do quarto.

Will assobiou. Magnus sorriu.

— Facilmente impressionável — observou Magnus, apesar de soar ligeiramente sem fôlego. Ele se ajoelhou no centro do quarto, agora vazio, e desenhou um pentagrama apressadamente. Em cada ponta da representação colocou um símbolo, apesar de Will não reconhecer nenhum do Livro Cinza. Magnus ergueu os braços e os estendeu por cima da estrela; começou a entoar um cântico, e rasgos se abriram nos seus pulsos, derramando sangue no centro do pentagrama. Will ficou tenso quando o sangue atingiu o chão e começou a arder com um brilho azul sombrio. Magnus recuou para fora do pentagrama, ainda entoando, pôs a mão no bolso e retirou o dente do demônio. Enquanto Will observava, Magnus jogou o objeto no centro da estrela agora em chamas.

Por um instante nada aconteceu. Em seguida, do núcleo ardente do fogo, uma forma escura começou a se materializar. Magnus havia parado de cantar; estava imóvel, os olhos semicerrados, focados no pentagrama e no que acontecia ali dentro. Os cortes em seus braços se fechavam rapidamente. Havia pouco barulho no recinto, apenas o estalo do fogo e a respiração pesada de Will, audível aos próprios ouvidos, enquanto a forma escura crescia em tamanho — fundia-se, e, finalmente, assumia um formato sólido e familiar.

Era o demônio azul da festa, não mais vestindo trajes a rigor. Tinha o corpo coberto por escamas azuis e uma cauda amarelada e longa, com um ferrão na ponta, que balançava de um lado para o outro. O demônio olhou de Magnus para Will, estreitando os olhos vermelhos.

— Quem invoca o demônio Marbas? — perguntou, com uma voz que dava a impressão de que as palavras ecoavam do fundo de um poço.

Magnus apontou com o queixo para o pentagrama. O recado ficou claro: o assunto agora era com Will.

Will deu um passo para a frente.

— Não se lembra de mim?

— Lembro-me de você — rosnou o demônio. — Você me perseguiu pelo terreno da casa de campo dos Lightwood. Arrancou um dos meus dentes. — Ele abriu a boca, mostrando o buraco. — Senti o gosto do seu sangue — sibilou. — Quando escapar deste pentagrama, sentirei novamente, Nephilim.

— Não — Will se manteve firme. — Estou perguntando se você se lembra de mim.

O demônio ficou em silêncio. Seus olhos, dançando com fogo, estavam ilegíveis.

— Cinco anos atrás — disse Will. — Uma caixa. Uma Pyxis. Eu abri, e você apareceu. Estávamos na biblioteca do meu pai. Você me atacou, mas minha irmã o repeliu com uma lâmina serafim. Recorda-se de mim agora?

Fez-se um longo, longo silêncio. Magnus manteve os olhos felinos fixos no demônio. Havia uma ameaça implícita neles, que Will não conseguia interpretar.

— Diga a verdade — Magnus se pronunciou afinal. — Ou vai acabar mal para você, Marbas.

A cabeça do demônio virou na direção de Will.

— Você — disse, relutantemente. — Você é aquele menino. O filho de Edmund Herondale.

Will respirou fundo. De repente sentiu-se tonto, como se fosse desmaiar. Enterrou as unhas nas palmas das mãos, com força, rasgando a pele, permitindo que a dor limpasse sua mente.

— Você se lembra.

— Eu estava preso há vinte anos naquela coisa — rosnou Marbas. — Claro que me lembro de ter sido libertado. Imagine se puder, mortal idiota, anos de negritude, escuridão, sem luz ou movimento; e então a liberdade, a abertura. E o rosto do sujeito que o aprisionou pairando sobre seu olhar.

— Eu não sou o homem que o aprisionou...

— Não. Foi seu pai. Mas aos meus olhos você é igual a ele. — O demônio sorriu. — Lembro-me da sua irmã. Menina corajosa, me combatendo com aquela lâmina que mal conseguia usar.

— Ela usou bem o suficiente para mantê-lo longe de nós. Por isso nos amaldiçoou. Me amaldiçoou. Lembra-se disso?

O demônio riu.

— Todos que amarem você morrerão. O amor deles será a própria destruição. Pode ser que leve instantes, pode ser que leve anos, mas qualquer um que olhá-lo com amor vai morrer por isso, a não ser que você se afaste deles para sempre. E vou começar por ela.

Will sentiu-se como se estivesse respirando fogo. Seu peito inteiro ardia.

— Sim.

O demônio inclinou a cabeça para o lado.

— E você me invocou para lembrarmos deste evento compartilhado do nosso passado?

— Eu o invoquei, seu ser azul maldito, para que retire a maldição. Minha irmã, Ella, morreu naquela noite. Deixei minha família para que ficassem seguros. Já faz cinco anos. Chega. Chega!

— Não tente me despertar pena, mortal — disse Marbas. — Passei vinte anos de tortura naquela caixa. Talvez você devesse sofrer por vinte anos. Ou duzentos...

O corpo inteiro de Will ficou tenso. Antes que ele pudesse se jogar em direção ao pentagrama, Magnus disse, em tom calmo:

— Alguma coisa nesta história me parece estranha, Marbas.

Os olhos do demônio se voltaram para ele.

— O quê?

— Um demônio, ao ser libertado de uma Pyxis, normalmente está em seu estado mais fraco, por ter passado fome por todo o tempo pelo qual esteve aprisionado. Fraco demais para rogar uma praga tão forte e sutil quanto a que alega ter colocado em Will.

O demônio sibilou alguma coisa em uma língua que Will não conhecia, uma das línguas demoníacas mais incomuns, não foi em Cthonic nem em Purgatic. Os olhos de Magnus se estreitaram.

— Mas ela morreu — disse Will. — Marbas disse que minha irmã iria morrer, e ela morreu. Naquela noite.

Os olhos de Magnus estavam fixos nos do demônio. Alguma batalha de determinações opostas estava acontecendo em silêncio, fora do raio de compreensão de Will. Finalmente, Magnus declarou, suavemente:

— Realmente quer me desobedecer, Marbas? Deseja enfurecer meu pai?

Marbas praguejou, e se voltou para Will. O focinho do demônio estremeceu.

— O mestiço tem razão. A maldição foi falsa. Sua irmã morreu porque a atingi com meu ferrão. — O demônio balançou a cauda amarelada de um lado para o outro, e Will se lembrou de Ella sendo derrubada por aquele rabo, a lâmina caindo de sua mão. — Nunca houve maldição sobre você, Will Herondale. Não imposta por mim.

— Não — Will falou suavemente. — Não, não é possível. — Sentiu como se uma tempestade desabasse sobre sua cabeça; lembrou-se da voz de Jem d i ze nd o o muro está ruindo, e visualizou a grande muralha que o cercava e o isolava há anos sucumbindo. Estava livre, e sozinho, e o vento frio o cortou como uma faca. — Não. — Sua voz tinha adquirido um tom baixo e agudo. — Magnus...

— Está mentindo, Marbas? — irritou-se Magnus. — Jura por Baal que está dizendo a verdade?

— Juro — disse Marbas, revirando os olhos vermelhos. — Que vantagem eu teria em mentir?

Will se ajoelhou. Estava com as mãos fechadas sobre o estômago como se estivesse tentando impedir que as entranhas escapassem. Cinco anos, pensou. Cinco anos desperdiçados. Ouviu a família gritando e batendo às portas do Instituto e ele ordenando que Charlotte os mandasse embora. E nunca souberam por quê. Perderam uma filha e um filho em questão de dias, e nunca souberam por quê. E os outros — Henry, Charlotte e Jem — e Tessa — e as coisas que tinha feito...

Jem é meu grande pecado.

— Will tem razão — declarou Magnus. — Marbas, você é um ser azul maldito. Queime e morra!

Em algum lugar no canto da visão de Will uma chama vermelho-escura voou em direção ao teto; Marbas gritou, um uivo de agonia interrompido tão rapidamente quanto começara. O fedor de carne de demônio queimada preencheu o recinto. E mesmo assim, Will continuava agachado de joelhos, arfando. Meu Deus, meu Deus, meu Deus.

Mãos suaves tocaram seus ombros.

— Will — disse Magnus, sem qualquer humor na voz, apenas uma surpreendente gentileza. — Will, sinto muito.

— Tudo o que fiz — falou Will. Seus pulmões pareciam incapazes de receber ar o suficiente. — Todas as mentiras, meu esforço para afastar os outros, o abandono da minha família, as coisas imperdoáveis que disse a Tessa; um desperdício. Um maldito desperdício, e tudo por causa de uma mentira na qual fui burro o suficiente para acreditar.

— Você tinha 12 anos. Sua irmã estava morta. Marbas era uma criatura ardilosa. Já enganou magos poderosos, que dirá uma criança sem qualquer conhecimento do Mundo das Sombras.

Will olhou para as próprias mãos.

— Minha vida inteira acabada, destruída...

— Você tem 17 anos — disse Magnus. — Não pode ter destruído uma vida que mal viveu. E não entende o que isso significa, Will? Passou os últimos cinco anos convencido de que ninguém poderia amá-lo, porque se o fizessem morreriam. O simples fato de que continuavam sobrevivendo provava que eram indiferentes a você. Mas se enganou. Charlotte, Henry, Jem, sua família...

Will respirou fundo, e exalou. A tempestade em sua mente estava se dissipando lentamente.

— Tessa — disse ele.

— Bem — agora havia um quê de humor na voz de Magnus. Will percebeu que o feiticeiro estava ajoelhado ao seu lado. Estou na casa de um lobisomem , pensou Will, com um feiticeiro me consolando e as cinzas de um demônio morto a poucos centímetros de mim. Quem poderia imaginar? — Não posso garantir nada a respeito do que Tessa sente. Caso não tenha percebido, ela é decididamente uma menina independente. Mas você tem tanta chance de conquistá-la quanto qualquer homem, Will, e não é isso o que queria? — Afagou o ombro de Will e recolheu a mão, levantando-se, uma sombra escura e esguia edificando-se sobre o garoto. — Se serve de consolo, pelo que observei na varanda naquela noite, acredito que ela goste bastante de você.

 

Magnus assistiu enquanto Will desceu pela entrada da casa. Alcançando o portão, ele parou, com a mão na tranca, como se hesitasse à beira de começar uma jornada longa e difícil. A lua havia surgido por trás das nuvens e brilhava sobre os cabelos escuros e cheios dele, e sobre o branco pálido de suas mãos.

— Muito curioso — disse Woolsey, aparecendo por trás de Magnus na entrada. A luz calorosa da casa transformara o louro-escuro do cabelo de Woolsey em dourado. Tinha cara de que estava dormindo. — Se eu não o conhecesse bem, diria que você gosta daquele menino.

— Se me conhecesse bem em que sentido, Woolsey? — perguntou Magnus, ausente, ainda observando Will e a luz do Tâmisa refletindo atrás dele.

— Ele é Nephilim — disse. — E você nunca gostou deles. Quanto ele pagou para que invocasse Marbas?

— Nada — respondeu Magnus, e agora não estava vendo mais nada, nem o rio, nem Will, apenas uma onda de lembranças: olhos, faces, lábios surgindo na memória, um amor que não sabia mais nomear. — Ele me fez um favor, do qual nem se lembra.

— Ele é muito bonito — disse Woolsey. — Para um humano.

— É muito corrompido — explicou Magnus. — Como um belo vaso que alguém um dia destruiu. Somente sorte e habilidade podem deixá-lo como antes.

— Ou magia.

— Fiz o que pude — disse Magnus suavemente enquanto Will finalmente abria a tranca e empurrava o portão. Ele passou para a calçada.

— Ele não parece muito feliz — observou Woolsey. — O que quer que tenha feito por ele...

— No momento ele está em choque — disse Magnus. — Acreditou em uma coisa durante cinco anos, e agora percebeu que por todo esse tempo vinha encarando o mundo através de um mecanismo defeituoso; que todas as coisas que sacrificou em nome do que achava ser bom e nobre foram um desperdício, e que apenas machucou quem amava.

— Santo Deus — disse Woolsey. — Tem certeza de que o ajudou?

Will atravessou o portão e o fechou atrás de si.

— Tenho — respondeu Magnus. — É sempre melhor viver a verdade do que uma mentira. E aquela mentira o teria deixado sozinho para sempre. Pode não ter tido quase nada durante cinco anos, mas agora pode ter tudo. Um menino com essa aparência...

Woolsey riu.

— Mas ele já entregou o coração — disse Magnus. — Talvez seja melhor assim. O que ele precisa agora é amar e ser amado. Não teve uma vida fácil para alguém tão jovem. Espero que ela entenda.

Mesmo a essa distância Magnus pôde ver Will respirar fundo, endireitar os ombros e partir. Magnus tinha quase certeza de que não estava imaginando, mas Will parecia saltitar.

— Não pode salvar todos os pássaros caídos — comentou Woolsey, apoiando-se contra a parede e cruzando os braços. — Nem mesmo os que são belos.

— Salvar um já basta — disse Magnus, e, como Will não estava mais em seu campo de visão, fechou a porta da frente.