Príncipe Mecânico
18 | Até Eu Morrer
18
Até Eu Morrer
Por toda a vida aprendi a amar.
Ora de minhas artes a maior irei
provar
E declamar minha paixão — céu ou
lamaçal?
Ela não vai me dar o céu? Não faz
mal!
— Robert Browning, “One Way of
Love”
— Senhorita. Senhorita! — Tessa acordou lentamente, com Sophie sacudindo seu ombro. A luz do sol entrava pelas janelas lá no alto. A criada estava sorrindo, com os olhos acesos. — A sra. Branwell mandou que eu viesse levá-la para o quarto. Não pode ficar aqui para sempre.
— Ugh. Eu não iria querer! — Tessa sentou-se e em seguida fechou os olhos, dominada por uma tontura. — Acho que preciso de ajuda para levantar, Sophie — falou, em tom de quem se desculpa —, não estou tão firme quanto poderia.
— Claro, senhorita — Sophie esticou o braço e ajudou Tessa a ficar de pé. Apesar de magra, ela era bem forte. Tinha de ser, não é, pensou Tessa, após anos carregando fardos pesados de roupa suja enquanto subia e descia escadas, alimentando as lareiras com carvão. Tessa franziu a testa ao colocar os pés no chão e não pôde deixar de olhar para conferir se Will estava na enfermaria.
Não estava.
— Will está bem? — perguntou, enquanto Sophie a ajudava a calçar os chinelos. — Acordei brevemente ontem e vi enquanto retiravam o metal das costas dele. Foi horrível.
Sophie resfolegou .
— Então pareceu pior do que foi. O sr. Herondale mal permitiu que pusesse uma iratze nele antes de sair. Partiu pela noite para fazer só o diabo sabe o quê.
— Foi? Podia jurar que falei com ele ontem à noite. — Já estavam no corredor, Sophie conduzindo-a com a mão suavemente pousada em suas costas. Imagens começavam a tomar forma na cabeça de Tessa. Imagens de Will ao luar, dela própria dizendo a ele que nada importava, que era apenas um sonho; e tinha sido, não?
— Deve ter sonhado, senhorita. — Haviam chegado ao quarto de Tessa, e Sophie estava distraída, tentando abrir a maçaneta sem soltá-la.
— Tudo bem, Sophie. Consigo ficar de pé sozinha.
Sophie protestou, mas Tessa insistiu com firmeza o bastante para que a copeira logo abrisse a porta e acendesse a lareira enquanto Tessa sentava-se na poltrona. Havia um bule de chá e um prato de sanduíches sobre a mesa ao lado da cama, e ela se serviu, satisfeita. Não estava mais tonta, mas se sentia cansada, com um desgaste mais espiritual do que físico. Lembrou-se do gosto amargo do chá da noite anterior e da sensação de ser abraçada por Will — mas aquilo tinha sido um sonho. Perguntava-se o quanto do que vira no dia anterior teria sido irreal — Jem suspirando ao pé da cama, Jessamine chorando nos lençóis na Cidade do Silêncio...
— Sinto muito pelo seu irmão, senhorita. — Sophie estava ajoelhada perto da lareira, as chamas projetando luzes em seu rosto adorável. Estava com a cabeça abaixada e Tessa não via a cicatriz.
— Não precisa dizer isso, Sophie. Sei que foi culpa dele, na verdade, o que aconteceu a Agatha... e Thomas...
— Mas ele era seu irmão. — A voz de Sophie soou firme. — O sangue fala mais alto. — Ela se curvou ainda mais sobre as brasas e alguma coisa na gentileza de sua voz e na forma como seus cabelos cacheavam, escuros e vulneráveis, na nuca fez Tessa dizer:
— Sophie, eu a vi com Gideon no outro dia.
Sophie imediatamente ficou tensa, o corpo todo enrijecido, sem olhar para Tessa.
— Como assim, senhorita?
— Voltei para buscar meu colar — relatou Tessa —, meu anjo mecânico, para dar sorte. E a vi com Gideon no corredor. — Engoliu em seco. — Ele estava... apertando sua mão. Como um pretendente.
Fez-se um silêncio muitíssimo longo enquanto Sophie olhava para o fogo. Finalmente falou:
— Vai contar para a sra. Branwell?
Tessa se encolheu.
— O quê? Sophie, não! Eu só... queria alertá-la.
A voz de Sophie estava seca.
— Alertar contra o quê?
— Os Lightwood... — Tessa engoliu em seco. — Não são boas pessoas. Quando estive na casa deles, com Will, vi coisas terríveis, horrorosas...
— São coisas do sr. Lightwood, não dos filhos! — O tom estridente da voz de Sophie fez Tessa se encolher. — Eles não são como o pai!
— Quão diferentes podem ser?
Sophie ficou de pé, o atiçador estalando no fogo.
— Acha que sou tonta o suficiente para permitir que um cavalheiro indigno zombe de mim depois de tudo que passei? Depois de tudo que a sra. Branwell me ensinou? Gideon é um bom rapaz...
— É uma questão de criação, Sophie! Consegue imaginá-lo indo até Benedict Lightwood e dizendo que quer se casar com uma mundana, copeira ainda por cima? Consegue visualizá-lo fazendo isso?
O rosto de Sophie se contorceu.
— A senhorita não sabe de nada — respondeu. — Não sabe o que ele faria por nós...
— Está falando do treinamento? — Tessa estava incrédula. — Sophie, sinceramente...
Mas Sophie, balançando a cabeça, havia recolhido as saias e se retirado, deixando a porta se fechar atrás de si. Charlotte, com os cotovelos na mesa da sala de estar, suspirou, amassou o décimo quarto pedaço de papel e o jogou na lareira. O fogo faiscou por um instante, consumindo a folha, que escureceu e ruiu em cinzas.
Ela pegou a caneta, mergulhou na tinta, e começou novamente.
Eu, Charlotte Mary Branwell, filha de Nephilim, através desta e a partir desta data, entrego a exoneração do cargo de diretora do Instituto de Londres, em meu nome e do meu marido, Henry Jocelyn Branwell...
— Charlotte?
A mão dela fez um movimento brusco, traçando uma mancha de tinta pelo papel e estragando a letra cuidadosa. Ela levantou o olhar e viu Henry ao lado da mesa, com uma expressão preocupada no rosto fino e sardento. Ela repousou a caneta. Teve consciência, como sempre tinha com Henry e raramente em outras ocasiões, de sua aparência física — de que o cabelo estava escapando do coque, o vestido não era novo e estava manchado de tinta na manga, e que seus olhos estavam cansados e inchados de tanto chorar.
— O que foi, Henry?
Henry hesitou.
— É que eu estive... Querida, o que você está escrevendo? — Ele circulou a mesa, olhando por cima do ombro da esposa. — Charlotte! — Ele arrancou o papel da mesa; apesar de as letras estarem manchadas de tinta, boa parte do que fora escrito ainda era legível para que ele compreendesse. — Renunciar ao Instituto? Como pode?
— É melhor isso do que ser destituída pelo Cônsul Wayland — disse Charlotte, baixinho.
— Quer dizer “destituídos”? — Henry pareceu magoado. — Não posso ao menos opinar?
— Você nunca se interessou pela direção do Instituto antes. Por que se interessaria agora?
Foi como se Henry tivesse sido estapeado por ela, e Charlotte precisou se esforçar muito para não se levantar, abraçá-lo e lhe dar um beijo na face sardenta. Lembrou-se de quando se apaixonara por ele, de como o achava parecido com um cachorrinho adorável, com as mãos grandes demais para o corpo, os enormes olhos cor de âmbar, o comportamento ávido. Sempre acreditou que a mente por trás daqueles olhos era afiada e inteligente tanto quanto a dela, mesmo quando os outros riam das excentricidades de Henry. Ela sempre pensou que bastaria estar perto dele e amá-lo, independentemente de haver ou não retribuição. Mas isso foi antes.
— Charlotte — disse ele. — Sei por que está brava comigo.
Charlotte levantou o rosto, surpresa.
Ele realmente seria perceptivo a esse ponto? Apesar da conversa com o Irmão Enoch, achou que ninguém tivesse notado. Ela mesma mal tinha conseguido pensar no assunto, quanto mais no tipo de reação que Henry teria ao saber.
— Sabe?
— Porque não a acompanhei à reunião com Woolsei Scott.
Alívio e decepção se acumularam no peito de Charlotte.
— Henry — suspirou. — Isso dificilmente poderia...
— Não percebi — explicou ele. —
Às vezes fico tão envolvido com minhas ideias. Você sempre soube que eu sou assim, Lottie.
Charlotte enrubesceu. Ele raramente a chamava assim.
— Eu mudaria se pudesse. Dentre todas as pessoas, pensei que você entendesse. Você sabe... Você sabe que não é bobagem para mim. Sabe que quero criar alguma coisa que torne o mundo melhor, que melhore as coisas para os Nephilim. Assim como você, na direção do Instituto. E apesar de saber que sempre virei em segundo lugar para você...
— Segundo lugar para mim? — A voz de Charlotte se elevou a um ganido incrédulo. — Você em segundo lugar para mim?
— Tudo bem, Lottie — disse Henry, com grande gentileza. — Sabia quando aceitou se casar comigo que era apenas porque precisava ser casada para dirigir o Instituto. Sabia que ninguém aceitaria uma mulher sozinha na posição de diretora...
— Henry — Charlotte se levantou, trêmula —, como pode dizer coisas tão terríveis a meu respeito?
Henry pareceu pasmo.
— Pensei que fosse assim...
— Pensa que não sei por que se casou comigo? — gritou Charlotte. — Pensa que não sei sobre o dinheiro que seu pai devia ao meu, ou que meu pai prometeu perdoar a dívida se você se casasse comigo? Ele sempre quis um menino, alguém para assumir o Instituto depois dele. E como não conseguiu isso, bem... por que não pagar para casar sua filha incasável, sem graça demais, determinada demais, com um pobre rapaz que só estava cumprindo com obrigações familiares?
— CHARLOTTE. — Henry tinha ficado completamente vermelho. Ela nunca o vira tão enfurecido. — DE QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FALANDO?
Charlotte se apoiou na mesa.
— Sabe muito bem — disse. — Foi por isso que se casou comigo, não foi?
— Nunca me falou uma palavra sobre isso até hoje!
— Por que falaria? Não é nada que você não saiba.
— Eu não sabia. — Os olhos de Henry estavam ardendo. — Não sei nada sobre meu pai ter dívidas com o seu. Eu o procurei de boa-fé e solicitei que me concedesse a honra de me permitir pedi-la em casamento. Nunca houve qualquer discussão financeira!
Charlotte prendeu o fôlego. Nos anos em que foram casados, ela nunca tinha conversado com Henry sobre as circunstâncias do noivado; nunca pareceu haver razão para isso, e ela nunca quis escutá-lo gaguejar negações a respeito do que ela sabia ser verdade. Seu próprio pai não tinha lhe dito isso quando contou sobre o pedido de H e nr y? Ele é um homem bom o bastante, melhor do que o pai, e você precisa de uma espécie de marido, Charlotte, se for dirigir o Instituto. Eu perdoei as dívidas do pai dele, então este problema entre nossas famílias está encerrado.
Claro, não tinha dito, não diretamente, que tinha sido por isso que Henry havia feito o pedido. Ela presumiu...
— Você não é sem graça — disse Henry, com o rosto ainda em chamas —, você é linda. E eu não pedi ao seu pai para me casar com você por obrigação; o fiz porque a amo. Sempre amei. Sou seu marido.
— Não pensei que quisesse ser — sussurrou.
Henry estava balançando a cabeça.
— Sei que as pessoas me chamam de excêntrico. Peculiar. Até mesmo de louco. Todas essas coisas. Nunca me importei. Mas você achar que sou tão fraco... você sequer me ama?
— Claro que amo! — gritou Charlotte. — Isso nunca esteve em questão.
— Não? Acha que não escuto os comentários? Falam de mim como se eu não estivesse presente, como se eu fosse alguma espécie de demente. Já ouvi Benedict Lightwood dizer várias vezes que você só se casou comigo para fingir que havia um homem à frente do Instituto...
Agora foi a vez de Charlotte se enfurecer.
— E você me critica por achá-lo fraco! Henry, eu jamais me casaria por este motivo, nunca, nem em mil anos. Abriria mão do Instituto antes de abrir mão...
Henry a estava encarando, os olhos âmbar arregalados, os cabelos ruivos eriçados como se tivesse passado a mão neles tantas vezes que estivesse prestes a arrancá-lo.
— Antes de abrir mão de quê?
— Antes de abrir mão de você — respondeu ela. — Não sabe disso?
E então ela não disse nada, pois Henry a envolveu nos braços e a beijou. Beijou de um jeito que a fez deixar de se sentir sem graça, ou consciente dos cabelos e da mancha de tinta no vestido, ou de qualquer coisa além dele, a quem sempre tinha amado. Lágrimas brotaram dos olhos e correram por suas faces, e quando ele recuou, tocou o rosto molhado de Charlotte, contemplativo.
— Sério — disse —, você também me ama, Lottie?
— Claro que amo. Não me casei com você só para ter um parceiro para dirigir o Instituto, Henry. Casei porque... porque sabia que não me importaria com a dificuldade que seria dirigir este lugar nem com os maus tratos da Clave se soubesse que o último rosto que veria antes de dormir todas as noites seria o seu. — Ela bateu levemente no ombro dele. — Somos casados há anos , Henry. O que você achou que eu sentisse por você?
Ele encolheu os ombros e beijou a cabeça dela.
— Achei que gostasse de mim — disse, rispidamente. — Achei que pudesse aprender a me amar, com o tempo.
— Era isso que eu pensava a seu respeito — falou, pensativa. — Como pudemos ser tão tolos?
— Bem, não me surpreendo comigo — revelou Henry. — Mas sinceramente, Charlotte, você deveria ter sido mais esperta.
Ela conteve uma risada.
— Henry! — Apertou os braços dele. — Tem mais uma coisa que preciso contar, algo muito importante...
A porta da sala de estar se abriu. Era Will. Henry e Charlotte se afastaram e o encararam. Ele parecia exausto — pálido, com olheiras escuras sob os olhos —, mas com uma clareza no rosto que Charlotte jamais havia visto, uma espécie de brilho na expressão. Ela se preparou para um comentário sarcástico ou uma observação fria, mas em vez disso ele apenas sorriu alegremente.
— Henry, Charlotte — disse. — Não viram Tessa, viram?
— Provavelmente está no quarto — disse Charlotte, aturdida. — Will, algum problema? Não deveria estar descansando? Depois dos ferimentos que sofreu...
Will descartou o comentário.
— Seus iratzes excelentes fizeram um bom trabalho. Não preciso descansar. Só quero ver Tessa e perguntar a vocês... — interrompeu-se, olhando para a carta na mesa de Charlotte. Com alguns passos chegou à mesa, pegou o papel e leu-o com o mesmo olhar incrédulo de Henry. — Charlotte... não, não pode abrir mão do Instituto!
— A Clave vai lhe oferecer outro lugar para morar — declarou Charlotte. — Ou pode ficar aqui até completar 18 anos, apesar de os Lightwood...
— Eu não iria querer morar aqui sem você e Henry. Por que acham que fico aqui? Pelo ambiente? — Will sacudiu o pedaço de papel até estalar. — Até com saudade da maldita Jessamine estou... bem, um pouco. E os Lightwood vão demitir nossos serventes e substituí-los pelos deles. Charlotte, não pode permitir. Esta é a nossa casa. É a casa de Jem, de Sophie.
Charlotte olhou para ele.
— Will, tem certeza de que não está com febre?
— Charlotte. — Will bateu com o papel na mesa. — Eu proíbo você de abrir mão do seu cargo. Entendeu? Ao longo de todos esses anos você fez tudo por mim, como se eu fosse sangue do seu sangue, e eu nunca lhe disse que era grato. O mesmo vale para você, Henry. Mas sou grato, e por causa disso não deixarei que cometa este erro.
— Will — disse Charlotte. — Acabou. Só temos três dias para encontrar Mortmain, e não tem como. Simplesmente não dá tempo.
— Enforque Mortmain — disse Will. — Digo literalmente, é claro, mas também figurativamente. O limite de duas semanas para encontrá-lo foi essencialmente estabelecido por Benedict Lightwood como um teste ridículo. Um teste que, ao que parece, foi armação. Ele está trabalhando para Mortmain. Esse teste foi uma tentativa de tirar o Instituto de você. Mas se expusermos Benedict como o que ele é, uma marionete de Mortmain, o Instituto volta a ser seu, e a procura por Mortmain pode continuar.
— Temos a palavra de Jessamine de que expor Benedict é cair na armadilha de Mortmain...
— Não podemos não fazer nada — disse Will com firmeza. — Vale ao menos uma conversa, não acha?
Charlotte não conseguiu pensar em nenhuma palavra para dizer. Este não era o Will que conhecia. Era firme, direto, com intensidade irradiando dos olhos. Se o silêncio de Henry era algum indício, ele estava tão surpreso quanto ela. Will assentiu, interpretando isso como um sinal de concordância.
— Excelente — falou. — Vou pedir a Sophie que reúna os outros.
E saiu de lá.
Charlotte olhou para o marido, todos os pensamentos acerca da notícia que queria lhe dar foram afastados.
— Aquele era Will? — observou, afinal.
Henry arqueou uma sobrancelha ruiva.
— Talvez tenha sido sequestrado e substituído por um autômato — sugeriu. — Parece possível...
Pela primeira vez, Charlotte não fez nada além de concordar.
Taciturna, Tessa terminou de comer os sanduíches e tomar o resto do chá, repreendendo a própria incapacidade para não se meter nos assuntos alheios. Quando terminou, colocou o vestido azul, achando a tarefa complicada sem a ajuda de Sophie. Olhe para você, pensou, mimada após apenas algumas semanas com uma copeira. Não consegue se vestir, não consegue parar de se meter onde não é chamada. Logo precisará de alguém que lhe dê mingau na boca para não morrer de fome. Fez uma careta horrível para si mesma no espelho e sentou-se à penteadeira, pegando a escova prateada e passando-a pelos longos cabelos castanhos.
Ouviu uma batida à porta. Sophie, pensou Tessa esperançosa, voltando à espera de um pedido de desculpas. Bem, receberia um. Tessa repousou a escova e se apressou para abrir a porta.
Assim como anteriormente torcera para encontrar Jem na entrada e se decepcionara ao avistar Sophie, agora, esperando Sophie, surpreendeu-se ao se deparar com Jem. Ele trajava calças e um casaco cinza de lã, contra os quais seus cabelos prateados pareciam quase brancos.
— Jem — disse, espantada. — Está tudo bem?
Seus olhos cinzentos investigaram o rosto de Tessa, e os cabelos longos e soltos.
— Parece que estava esperando outra pessoa.
— Sophie. — Tessa suspirou e colocou um cacho rebelde atrás da orelha. — Temo tê-la ofendido. Meu hábito de falar sem pensar me prejudicou novamente.
— Oh — falou Jem, com uma estranha falta de interesse. Normalmente teria perguntado a Tessa o que tinha dito a Sophie, e confortado-a, ou ajudado-a a traçar um meio de ter o perdão de Sophie. Seu habitual interesse vívido em tudo parecia estranhamente ausente, pensou Tessa, alarmada; ele também estava bastante pálido, e aparentava olhar para além dela, como se estivesse checando para ter certeza de que estava sozinha. — Bem, é que... gostaria de falar com você em particular, Tessa. Está se sentindo suficientemente bem?
— Depende do que vai me falar — respondeu, com uma risada, mas quando a resposta não despertou nenhum sorriso, ficou apreensiva. — Jem... jura que está tudo bem? Will...
— Não é sobre Will — afirmou. — Will está por aí vagando, e sem dúvida muito bem. Isto é sobre... bem, suponho que possa dizer que é sobre mim. — Ele olhou para um lado e para o outro do corredor. — Posso entrar?
Tessa pensou brevemente no que tia Harriet diria a respeito de uma menina que permitia a entrada de um rapaz sem parentesco em seu quarto, quando não havia mais ninguém presente. Mas a própria tia Harriet tinha se apaixonado, pensou Tessa. O suficiente para permitir que o noivo fizesse... bem, o que quer que se fizesse para alguém engravidar. A tia Harriet, se estivesse viva, não estaria em posição de falar nada. Além disso, a etiqueta para Caçadores de Sombras era outra.
Ela abriu completamente a porta.
— Sim, entre.
Jem entrou no quarto, e fechou a porta atrás de si. Ele andou até a lareira e apoiou um dos braços no mantel. Pareceu decidir que tal posição não era satisfatória e então foi até onde Tessa estava, no meio do quarto, e ficou parado diante dela.
— Tessa — disse ele.
— Jem — respondeu ela, imitando o tom sério, mas, novamente, ele não sorriu. — Jem — repetiu, mais quietamente. — Se for sobre sua saúde, sua... doença, por favor, me conte. Farei o que for possível para ajudar.
— Não é — explicou ele — sobre minha doença — respirou fundo. — Sabe que não encontramos Mortmain — falou. — Em alguns dias, o Instituto pode ser entregue a Benedict Lightwood. Ele sem dúvida permitirá que eu e Will permaneçamos aqui, mas não você, e não tenho a menor vontade de morar em uma casa governada por ele. E Will e Gabriel se matariam em questão de minutos. Seria o fim do nosso grupinho; Charlotte e Henry encontrariam uma casa, tenho certeza, e Will e eu talvez fôssemos para Idris até completarmos 18 anos, e Jessie... suponho que isso dependa da sentença aplicada pela Clave. Mas não poderíamos levar você a Idris conosco. Você não é Caçadora de Sombras.
O coração de Tessa começou a bater muito depressa. Ela se sentou, muito subitamente, na beirada da cama. Sentiu-se ligeiramente enjoada. Lembrou-se do desdém de Gabriel ao fazer piada com ela sobre arrumar “emprego”; após ter ido ao baile na casa deles, não podia imaginar coisa pior.
— Entendo — disse Tessa. — Mas para onde eu iria...? Não, não me responda. Vocês não têm qualquer responsabilidade sobre mim. Mas obrigada, por, pelo menos, me contar.
— Tessa...
— Vocês todos já foram tão generosos quanto poderiam comigo — falou —, considerando que permitir minha permanência não fez bem a nenhum de vocês aos olhos da Clave. Vou encontrar um lugar...
— Seu lugar é comigo — disse Jem. — Sempre será.
— O que quer dizer?
Jem enrubesceu, uma cor escura contra sua pele clara.
— Quero dizer — explicou —, Tessa Gray, você me concede a honra de se tornar minha esposa?
Tessa endireitou a postura imediatamente.
— Jem!
Os dois ficaram se encarando por um instante. Finalmente, ele se pronunciou, tentando um comentário leve, apesar de a voz ter falhado:
— Não foi um não, suponho, apesar de também não ter sido um sim.
— Não pode estar falando sério.
— Estou.
— Não pode... não sou Caçadora de Sombras. Vão expulsá-lo da Clave...
Ele deu um passo para perto dela, com o olhar sério.
— Pode não ser exatamente uma Caçadora de Sombras. Mas não é mundana, nem comprovadamente faz parte do Submundo. Sua situação é única, então não sei o que a Clave fará. Mas não podem proibir algo que não é proibido pela Lei. Terão de levar o seu, o nosso, caso particular em consideração, e isso pode levar meses. Enquanto isso não podem impedir nosso noivado.
— Você está falando sério. — Tessa estava com a boca seca. — Jem, tamanha bondade de sua parte é uma coisa verdadeiramente incrível. Diz muito sobre você. Mas não posso permitir que se sacrifique de forma alguma por mim.
— Sacrificar? Tessa, eu te amo. Quero me casar com você.
— Eu... Jem, é que você é gentil, tão altruísta. Como posso confiar que não está fazendo isso simplesmente pelo meu bem?
Ele pôs a mão no bolso do colete e retirou algo liso e circular. Era um pingente de jade verde-esbranquiçado, com caracteres chineses esculpidos que ela não sabia ler. Ele o entregou a ela com a mão ligeiramente trêmula.
— Poderia lhe dar meu anel de família — disse. — Mas o anel deve ser devolvido ao fim do noivado após a troca de símbolos. Quero lhe dar alguma coisa que seja sua para sempre.
Tessa balançou a cabeça.
— Nunca poderia...
Ele a interrompeu:
— Isto foi dado a minha mãe pelo meu pai quando se casaram. A escrita é de I Ching, o Livro de Mudanças. Diz: quando duas pessoas são uma só em seus corações, destroem a força até mesmo do ferro ou do bronze.
— E você acha que somos? — perguntou Tessa, com a voz baixa em função do choque. — Uma só, quero dizer?
Jem se ajoelhou aos pés dela, de modo a poder olhar para o seu rosto. Ela o viu como na Blackfriars Bridge, uma adorável sombra prateada contra a escuridão.
— Não posso explicar o amor — disse ele. — Não sei dizer se a amei desde o primeiro instante em que a vi ou se foi no segundo, no terceiro ou no quarto. Mas me lembro da primeira vez que a vi caminhando em minha direção e percebi que de algum jeito o resto do mundo parecia desaparecer quando estou ao seu lado. Quando percebi que você era o centro de tudo que eu fazia, sentia e pensava.
Sobrecarregada, Tessa balançou a cabeça lentamente.
— Jem, nunca imaginei...
— Existe uma força e um poder no amor — disse ele. — É isso que essa inscrição significa. E também está na cerimônia de casamento dos Caçadores de Sombras. Pois o amor é tão forte quanto a morte. Não reparou o quanto melhorei nessas últimas semanas, Tessa? Ando menos doente, tossindo menos. Sinto-me mais forte, preciso menos da droga, por causa de você. Porque meu amor por você me sustenta.
Tessa o encarou. Será que uma coisa dessas era possível, fora dos contos de fada? O rosto fino de Jem irradiava luz; ele claramente acreditava, absolutamente. E ele estava melhor.
— Você fala em sacrifício, mas não é meu sacrifício que ofereço. É o seu que peço — prosseguiu. — Posso oferecer-lhe minha vida, mas é uma vida curta; posso oferecer meu coração, apesar de não saber quantas batidas lhe restam. Mas a amo o bastante para torcer que não se importe com meu egoísmo de tentar fazer o resto da minha vida, seja qual for a sua duração, feliz, ao seu lado. Quero ser casado com você, Tessa. Quero mais do que já quis qualquer outra coisa na vida. — Ele olhou para ela através de um véu prateado de cabelo caindo sobre seus olhos. — Isto é — falou, timidamente —, se você também me amar.
Tessa olhou para Jem, ajoelhado diante dela com o pingente nas mãos, e entendeu afinal o que as pessoas queriam dizer quando falavam que o coração de uma pessoa estava nos olhos, pois os dele, expressivos e luminosos, que ela sempre achou lindos, estavam cheios de amor e esperança.
E por que não deveria ter esperança? Ela havia lhe dado todos os motivos para crer que o amava. Amizade, confiança, gratidão, até mesmo paixão. E se havia alguma parte em si, pequena e contida, que ainda não tinha desistido de Will, ela certamente devia a si mesma, tanto quanto a Jem, fazer o que pudesse para destruí-la.
Muito lentamente, esticou o braço e pegou o pingente de Jem. Colocou-o no pescoço em um cordão dourado, frio como água, e o repousou na garganta, sobre o ponto em que ficava o anjo mecânico. Ao abaixar as mãos, viu a esperança nos olhos de Jem se acender, transformando-se num fulgor quase insustentável, tamanha felicidade e incredulidade. Sentiu como se alguém tivesse esticado a mão para dentro do seu peito e destrancado a caixa que guardava seu coração, derramando ternura por suas veias feito sangue novo. Jamais tinha sentido um impulso tão avassalador de proteger alguém, tamanho fervor, tamanha vontade de colocar os braços ao redor de alguém e envolver fortemente a pessoa, ficando sozinhos e longe do resto do mundo.
— Então, sim — respondeu. — Sim, eu me caso com você, James Carstairs. Sim.
— Oh, graças a Deus — disse ele, exultante. — Graças a Deus. — E enterrou o rosto no colo dela, abraçando sua cintura. Ela se inclinou sobre ele, acariciando seus ombros, as costas, o cabelo sedoso. O coração de Jem bateu forte contra os joelhos dela. Alguma pequena parte dentro de Tessa estava atordoada de espanto. Nunca imaginou que tivesse o poder de deixar alguém tão feliz. E não era um poder mágico: era puramente humano.
Ouviu uma batida à porta; desvencilharam-se. Tessa se levantou apressadamente e foi até a porta, parando para alisar o cabelo e, torceu, para conseguir acalmar a própria expressão antes de abrir. Dessa vez era Sophie. Mas a expressão rebelde no rosto dela demonstrou que não tinha vindo por vontade própria.
— Charlotte está a convocando para a sala de estar, senhorita — informou. — Mestre Will voltou, e ela deseja realizar uma reunião. — Olhou para além de Tessa, e sua expressão ficou ainda mais amarga. — O senhor também, mestre Jem.
— Sophie... — Tessa começou, mas Sophie já tinha virado e estava se afastando, a touca branca sacudindo. Tessa cerrou o punho na maçaneta, olhando para ela. Sophie havia dito que não se importava com os sentimentos de Jem por Tessa, e Tessa agora sabia que a razão disso era Gideon. Mesmo assim...
Ela sentiu Jem se aproximar por trás e colocar as mãos dentro das suas. Tinha dedos esguios. Eles deram as mãos, e Tessa soltou o ar. Era isso que significava amar alguém? Que todo fardo era um fardo compartilhado, que esse alguém poderia nos confortar apenas com uma palavra ou um toque? Ela deitou a cabeça no ombro de Jem, que a beijou na têmpora.
— Contaremos primeiro a Charlotte quando tivermos oportunidade — disse ele —, depois aos outros. Logo que o destino do Instituto estiver resolvido...
— Você soa como se não ligasse para o que vai acontecer — disse Tessa. — Não vai sentir falta daqui? Este é o seu lar.
Os dedos de Jem acariciaram levemente o punho de Tessa, fazendo-a tremer.
— Você é o meu lar agora.