Princípio de Karenina
Capítulo 1
Princípio de Karenina
Afonso Cruz
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Ao meu pai
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«Depois de si próprios, [os Persas] têm na maior consideração os seus vizinhos mais próximos; depois, os que vivem mais perto desses vizinhos; e assim sucessivamente, por ordem de proximidade, não tendo qualquer respeito pelos que vivem mais afastados da sua terra. A razão para isto é julgarem-se, de longe, o melhor povo do mundo a todos os níveis, crendo que os outros perdem virtudes à medida que aumenta a distância a que se encontram deles, de modo que os que vivem mais longe são os piores povos do mundo.»
THE HISTORIES (OXFORD WORLD’S CLASSICS)
Heródoto
«Os Egípcios referem-se a qualquer um que não fale a sua língua como bárbaros.»
THE HISTORIES (OXFORD WORLD’S CLASSICS)
Heródoto
«Há quem diga que as mulheres Amazonas deslocavam as articulações dos seus filhos varões, quando crianças — em alguns casos no joelho, noutros casos na anca —, tornando-os aleijados e impedindo assim que o sexo masculino pudesse conspirar contra o feminino. Depois, faziam deles artesãos, usando-os em trabalho sedentário, como sapateiros ou ferreiros. Se estes relatos são, ou não, verdade, não sei (…)»
ON THE ARTICULATIONS
Hipócrates
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Eu seria muito infeliz num mundo feliz. Ela seria feliz em qualquer mundo.
Esta história, minha e da tua mãe, é também a tua. No lugar sinistro onde me encontro (sabes o que está aqui escrito em todas as paredes, porque faz parte da estrutura e enteléquia destes edifícios?, «vós, que entrais aqui, abandonai toda a esperança»), escrever-te é a minha transubstanciação, de pão em palavra, de palavra em pai. É a minha hipótese de contrariar a pedra deste edifício, a sua funesta função, e, de algum modo, alcançar a redenção possível. Não sei se, como a tua mãe, tens essa capacidade admirável de, independentemente das dificuldades, ser feliz em qualquer mundo. Como teu pai, espero que sim. No lugar onde me encontro, a felicidade é um luxo, e talvez por isso, porque pela primeira vez me encontro numa situação verdadeiramente desesperada, tenha alcançado aquilo que o conforto ou a abundância ou a segurança nunca me deram, esse estranho júbilo que não se deixa afectar pelo mundo, pelas suas circunstâncias, e que, malgrado a dor que nos rodeia, mantém em nós um sorriso intocado, invulnerável, por debaixo das aparências mais desconcertantes ou sofridas.
Não falamos a mesma língua, mas tenho esperança de que alguém te traduza esta história e de que a leias ou te seja lida, pois disso depende a minha salvação e, provavelmente, também a tua.
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A minha mãe gostou sempre da deformidade com que nasci. Durante muito tempo não consegui perceber o motivo, mas seria algo que marcaria toda a minha vida. A imperfeição. A imperfeição salvar-me-ia com igual intensidade e na mesma medida com que me faria sofrer.
O espaço visível da minha infância foi praticamente todo ocupado pelo meu pai, remetendo a minha mãe para lá da fronteira social, para um espaço estrangeiro, ginecóide, em que as respectivas funções sociais eram claramente separadas, tornando as esposas numa espécie de criadas com privilégios, alheadas da autoridade que não fosse relativa à organização do lar. O espaço restante, o que lhes sobrava desse exílio social, era uma orientação invisível e subtil das nossas vidas através de afectos.
Recordo uma noite em que o meu pai me chamou (o meu pai era daquelas pessoas que por vezes interrompem o discurso para uma pausa dramática, fechando os olhos e pressionando as pálpebras com o polegar e o indicador) e me fez sentar junto dele (venha cá, menino, sente-se aqui). Recordo esse momento porque era um tipo raro de proximidade, por isso claudiquei, timorato, até junto dele e sentei-me com parcimónia, deixando metade do rabo fora do assento. O pai continuava com os olhos fechados, a cabeça ligeiramente inclinada para baixo. Levantou o rosto com dramatismo, lentamente, abriu os olhos e disse:
— Nunca saia do seu país, menino, nunca saia de casa mais do que o estritamente necessário, que é perigoso. — Voltou a fechar os olhos e a levar o polegar e o indicador às pálpebras. — É muito perigoso — sublinhou, com os olhos fechados. — Se precisar de alguma coisa de fora, mande vir pelos correios. Sente-se à lareira, que não há nada melhor nem mais importante. — Abriu os olhos e acho que sorriu. — Em relação ao seu futuro matrimónio, escolha na nossa região, ou pelo menos mulheres da nossa pátria, que são mais trabalhadoras. Apesar de serem muito feias, são virtuosas. Case-se com a filha do da farmácia ou com a filha do doutor. À noite exija silêncio, abrace a necessária solitude que um varão deve cultivar para bem da sua hombridade. É tão simples quanto isto. À noite, como já lhe disse, sente-se à lareira, fume um charuto ou cachimbo, não ouse tocar naquelas coisas de papel, os cigarros, isso faz um mal que não supõe, beba uma aguardente vínica, medite sobre o passado e faça os planos necessários para o futuro. Rigor e seriedade, é isso que é preciso na vida.
E eu passei a ter medo de sair da aldeia, dar um passo era uma aventura. Tinha oito anos.
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Da janela da sala, viam-se os ciprestes que ladeavam o caminho até à entrada da propriedade, bem como a velha figueira que quando dava fruto se enchia de pardais e estorninhos, como se também os pássaros fossem figos. E, no céu, suspensas no seu voo, várias gralhas. A sala da nossa casa era de pedra, não por causa das paredes, mas porque tudo era sólido, ali dentro tudo era granito, as palavras, o ar, a majestade dos móveis, os anos escondidos nas fissuras do edifício, a paisagem do outro lado das janelas, que rasgavam as paredes de alto a baixo. O meu pai, claro, ficava sempre de costas para as janelas, porque era assim que ele tratava o mundo exterior, com desprezo.
Tirava o cachimbo e acendia-o com uma brasa da lareira, servia-se de uma aguardente velha, passava o indicador pelo bigode.
Eu observava-o com atenção, estudava todos os detalhes dos seus movimentos e quando estava sozinho imitava-os diante do espelho de corpo inteiro do guarda-fatos de carvalho do meu quarto. Cada gesto dava-me uma espécie de tranquilidade, a mesma que o meu pai aparentava ter, mesmo sabendo-se cercado pelo estrangeiro e pelos bárbaros que o habitam.
A imagem que guardo dele é a de um homem sentado com as pernas cruzadas, a encher o cachimbo, a pendurá-lo nos lábios, a fungar com frequência, a envolver a própria cara com o fumo do tabaco, de olhar altivo, desapegado e ao mesmo tempo cansado, como se o mundo que estava para lá da sua pele o agoniasse. Mas a mais palpável das suas características psicológicas, tão material quanto um músculo ou uma perna, era a advertência contra o exterior (com o indicador e o polegar sobre as pálpebras fechadas), contra tudo a que ele chamava estrangeiro e que não se limitava a uma fronteira geográfica, mas sobretudo moral:
— Ouça, menino: se alguns lugares são geograficamente acessíveis, são, no entanto, moral e psicologicamente aberrantes. Um homem de bem não deve sair do seu espaço, deve deixar a selva para os selvagens. Imagine o que era isto, menino, cheio de brutossauros de dentes afiados. A selva para as bestas, para os primitivos e para aqueles homens sem gravata, como é que se chamam?, artistas modernos. Dizem que comem sanduíches. A única coisa boa num artista é a arte antiga, o resto deve evitar-se, pois é uma doença. Escute, menino, um homem de bem não deve jamais sair do seu espaço, um homem sem as suas roupas, sem os seus criados, sem a sua família, sem os seus tapetes e naturezas-mortas, não é nada. Lembre-se, menino, que nós não somos só nós, somos a civilização, e, mal viajamos, deixamo-la para trás. Um passo fora e somos uns macacos. O que nos protege da animalidade são as paredes, as cortinas, as janelas, os cadeirões, isto que vê à sua volta é a muralha contra os mongóis, contra os turcos, contra o mundo.
— Mas Paris é longe. O Dr. Vala diz que é a cidade mais civilizada do mundo.
— Paris é civilizada para os parisienses, para nós é um embrutecimento em forma de cidade, nada se compara à casa onde vive, não há cidade nenhuma que possa ombrear com um espaço doméstico. Paris é um animal selvagem para nós. Só aqui dentro, no interior sagrado desta casa, somos plenamente humanos.
— Nem na igreja?
— Na igreja também, desde que seja perto de casa e tomemos todas as precauções necessárias para atravessar o espaço que vai do nosso lar ao de Deus. São alguns metros, mas podem matar-nos moralmente. Um pequeno descuido e já andamos de quatro, sem qualquer noção de ética.
— Acontece assim tão rápido?
— Há uma fera terrível lá fora. É tão simples quanto isto.
Eu pensava, na altura, que essa fera era uma alegoria, como aquelas dos evangelhos que ouvia na missa, com pastores, pães, peixes, ovelhas, filhos pródigos, sementes, essas coisas, mas depois comecei a sentir, uma sensação tão háptica quanto tocar nas brasas da lareira e queimar-me, que de facto existia uma fera terrível que rondava a casa e que tanto mal me poderia fazer. Quanto mais me afastava da casa, mais medo sentia, e até cheguei a fazer uma equação do medo (era muito bom a matemática, nas contas, como se dizia), que era o produto da distância (em metros) a que me encontrava de casa multiplicado pelo tempo (em segundos) passado no exterior do lar (Ph = d.t) As unidades do medo eram expressas em deimos e phobos (que é a milésima parte de um deimos e cujo baptismo se deveu ao fascínio que sentia por um livro de mitologia da biblioteca do meu pai. Enfim, o mero final da rua provocava-me pânico. O meu objectivo, aos oito anos, era chegar aos subúrbios sem morrer de medo pelo caminho.
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Havia breves e raros momentos em que a nossa casa sorria, quando de manhã a criada da Mealhada abria as janelas, para arejar a casa, e as cortinas esvoaçavam. Ou quando eu me reclinava nos acordes, como se fossem divãs, que a minha mãe tocava ao piano. Ouvia as notas ao longe, atravessando o longo corredor da casa. Imaginava que as composições que ouvia eram a banda sonora da minha vida e fazia tudo àquele ritmo, saltitava ao mesmo tempo que certas notas, movia-me à velocidade da música, à velocidade do som. O pai nutria pelos acordes (em que eu me reclinava como se fossem almofadas ou nadava como uma carpa vermelha) o sentimento oposto, tenho a sensação de que a música o aleijava. Quando a minha mãe se alongava na prática, ele aproximava-se e dizia «um pouco de silêncio, por favor», e a casa, de repente, ficava triste e as cortinas deixavam de esvoaçar.
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Além das horas matutinas ao piano, a minha mãe passava algum tempo, habitualmente depois do almoço, a cantar as canções da rádio, cujas letras diziam que era bom deitar cedo e cedo erguer, que os pobres são mais felizes, que a humildade enche a barriga, esse tipo de arrazoado, e eu ficava a vê-la e a ouvi-la, fascinado com os trinados a meia-voz e o tremor delicado dos lábios. A minha mãe falava pouco, por isso tudo o que dizia era precioso, e, quase sempre sob a aparência humilde da simplicidade, o conteúdo das frases era inusitado e ao mesmo tempo profundo. Posso, admito, pela raridade das conversas com ela, ter exagerado e engrandecido o que me disse e que recordo com o filtro do tempo, da maturidade, sobredimensionando agora o que de facto ouvi. Como dizia, a minha mãe passava horas a cantar as canções da rádio e um dia confessou-me que cantava, não necessariamente porque gostava muito das canções, mas porque gostava de cantar com milhares de pessoas. Na altura não percebi, mas hoje consigo imaginar a quantidade de mulheres, sim, especialmente mulheres, que, a passar a ferro, a lavar, a embalar os filhos, a cozer o feijão, a tricotar, a quantidade de mulheres que interrompiam o choro, que olhavam pela janela, que fechavam os olhos, a quantidade de mulheres que, ao mesmo tempo que a minha mãe, cantavam a mesma canção que ouviam na rádio. Ela devia sentir uma espécie de comunhão, uma união estranha e subtil, uma fraternidade invisível que interrompia as suas dores para cantar uma canção em uníssono. Ela, quando sintonizava o rádio, era para se sintonizar com as outras mulheres.
Não tinha o desejo de mudar o mundo, queria apnas fazer parte dele.
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O Dois Metros era o meu melhor amigo. Chamavam-lhe assim porque era muito alto para a idade. Não haveria de se verificar um crescimento proporcional à expectativa gerada até aos doze ou treze anos, mas a alcunha ficou, apesar de, em adulto, ter apenas conquistado a humilde altura de um metro e sessenta e quatro.
— Vou, dentro de dois dias, talvez três, mas não mais do que isso, partir numa missão perigosíssima.
— E que missão é essa? — perguntou-me o Dois Metros.
— Na devida altura ficarás a saber. Todos ficarão a saber.
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Na noite em que anunciei a minha missão ao Dois Metros, a conversa ao jantar poderia ter-me dissuadido da demanda.
Lembro-me muito bem dessa refeição em que o Dr. Vala disse à mesa que as batatas vinham da América do Sul. As emoções, positivas ou negativas, são uma máquina de impressão. Todos os acontecimentos tendem a desvanecer-se, mas a emoção grava-os na pedra da realidade, da nossa realidade, ou melhor, as emoções transformam memórias em pedra, como os heróis que são recordados em estátuas. A minha alma andava às voltas com a expectativa da missão, fragilizada pelo receio do desconhecido, e ouvir que aquilo que eu comia, aquilo que metia na boca, vinha de tão longe, fez-me mal à barriga. O cheiro das batatas cozidas estragava-me o nariz, aquele cheiro quase doce, que fazia as janelas da copa transpirarem, continha a imoralidade da distância. E nós alimentávamo-nos dessa coisa. Olhei de soslaio para o meu pai, tentando perscrutar alguma reacção sua que confirmasse aquilo que eu acabara de perceber, a imoralidade de certa comida que mastigávamos e engolíamos. Aquilo que era o nosso combustível para brincar, ler, escrever, pensar, amar estava contaminado, vinha de longe, senão da Cochinchina, pelo menos da América do Sul. O meu pai permanecia impassível e soberano, como aliás era sua pose e seu costume, e, sem qualquer asco pelo que levava à boca, mastigava, engolia, empurrava com vinho.
— O que se passa com o menino? — perguntou.
Eu saí a correr da mesa, sem responder, para despejar na retrete o que tinha na boca. Fiquei ali a tremer.
Ouvi o meu pai chamar-me e voltei à mesa, receoso. O Dr. Vala explicava que a planta da batata era originária da América do Sul, eu tremia, mas que antigamente não comiam o tubérculo, eu tremia, servia apenas para decorar jardins franceses, eu tremia, porque dá uma flor bonita, e a Sr.a Vala, que bem dito, meu querido, como é culto e erudito e sabe coisas tão belas, e o doutor continuava, antes os pobres comiam castanhas, depois entraram as batatas na gastronomia, eu tremia, e a Sr.a Vala, como é que sabe estas coisas todas?, e o doutor, o Van Gogh até pintou um quadro, eu tremia, até que ganharam o protagonismo que se vê, a Sr.a Vala bateu palmas. Eu tremia.
— O que é que se passa? O menino está pálido.
Estava, efectivamente. Como se enfia na boca uma coisa de tão longe, com um oceano Atlântico pelo meio, como se mastiga aquela distância toda? Desatei a chorar e a criada da Mealhada levou-me para o quarto, despiu-me e deitou-me.
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A minha mãe abraçava-me todas as noites quando eu me deitava, depois de a criada da Mealhada prender os lençóis na cama e sair para aquecer na chaleira a água destinada à higiene íntima, a que na altura se chamava «lavar por baixo». Todas as noites, a minha mãe, ao inclinar-se sobre mim, parecia despedir-se. Acho que ela sentia mesmo isso, que por cada dia que passava havia uma parte de mim ou dela que ia embora.
Massajava-me o pé deformado. Fazia-o com uma dedicação que eu não compreendia. Para mim, a deformação física era algo que queria fazer desaparecer, que queria que ninguém notasse, e o que para mim era motivo de extrema vergonha para ela parecia ser motivo de adoração, considerando o modo como passava as mãos pela pele, pela deformidade, com lentidão, demorando-se mais no pé boto do que a beijar-me a testa. Tenho também a sensação de que nesses instantes chorava baixinho, mas não era de tristeza, era outra coisa (não tenho, porém, a certeza se estas recordações são fidedignas ou se foram construídas mais tarde, depois das nossas tragédias, porque a memória que tenho delas não passa de registos confusos, embotados pela emoção, em que não sou capaz de detalhar quase nada).
Por causa da missão que me havia imposto naquele Outono, recordo contudo uma dessas despedidas que talvez tenha servido de eixo matricial para as recordações das outras noites. Estava nervoso com o que me esperava e, em vez de ficar parado como habitualmente, constrangido pela vergonha do meu pé grotesco, não só o movi ligeiramente enquanto a minha mãe passava a sua mão por ele como pronunciei estupidamente uma frase de ressonância bíblica, que escutara por diversas vezes na missa (a missa era tridentina e dita em latim):
— In quo mihi conplacui [no qual me comprazo].
Nada na expressão do rosto ou nos gestos da minha mãe se alterou e nem sequer tenho a certeza de ela me ter ouvido. No entanto, fiquei horas acordado, sem conseguir dormir, corroído pela vergonha da frase proferida naquele momento já de si embaraçoso.
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As alcaparras e as azeitonas têm de ser curadas antes de serem consumidas, assim como as pessoas, que são intragáveis se não forem arredondadas pela água do tempo. O meu pai era cheio de arestas. Na manhã seguinte ao jantar com o Dr. Vala, preparando-me mentalmente para a missão outonal, avaliando os perigos, perguntei-lhe onde começava exactamente o estrangeiro, em que ponto preciso começava o perigo de erosão moral.
Olhou-me de alto a baixo como se eu tivesse feito a pergunta mais imbecil do mundo.
Apontou para o tapete da porta da rua.
O estrangeiro começava logo a seguir à porta de casa, e esse exterior estendia-se até à Cochinchina, expressão que o meu pai (e não só o meu pai) usava para descrever uma singularidade, o longe mais longe possível, mais longe do que a distância, o momento e o espaço em que a desordem se impõe de uma forma tal que nada faz sentido.
— Deus deu-nos a Natureza — disse o meu pai — como quem dá um pouco de barro a um filho. E que esperava Deus desse filho? Que moldasse o barro. A Natureza, sem ser moldada pelas mãos humanas, é uma indignidade, uma afronta. Olhe pela janela, menino. Vê as vides a povoar a terra, ordenadas e moderadamente belas? É isto. É tão simples quanto isto. Moldamos o barro que o Pai nos deu.
»O nosso chão é mais duro, não é como o dos franceses, onde se plantam alcachofras do tamanho de pinheiros e uma cabra pesa o mesmo que dois rinocerontes. Mas as dificuldades mostram a nossa têmpera. Se Deus nos deu um barro mais duro é porque gosta mais de nós, porque as dificuldades fazem-nos crescer. Os outros já nascem altos. Nós temos de subir para cima de bancos. É tão simples quanto isto.
Caminhei lentamente em direcção ao meu quarto, para me preparar. Nunca corria à frente dele. Quando me distraía e o fazia, aos tropeções por causa do pé disforme, ouvia as suas admoestações:
— Correr? Só se deve correr por absoluta necessidade, porque a nossa vida corre perigo ou porque estamos atrasados. A pontualidade é uma característica elementar do homem de bem. Correr? Jesus nosso Senhor não foi a correr para Jerusalém. Foi em cima de um burro.
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Calcei umas botas de couro, liguei o meu pé disforme, pus alguma comida na mala da escola, uma maçã e um pouco de queijo, coxeei até à porta, inspirei fundo. Desci os degraus com as pernas a tremer e dirigi-me a casa do Dois Metros, para me despedir. Quando entrei em casa dele — naquela época ninguém trancava as casas —, vi-o em frente ao espelho, vestido com um maiô azul da mãe. Olhou-me assustado e disse:
— É que quero ser campeão de luta greco-romana.
— Não vai ser fácil — disse eu.
— Pois não — concordou.
Durante muitos anos, efectivamente, acreditei que o Dois Metros tinha esse sonho de ser um lutador, nunca me tendo interrogado como, se aquela era provavelmente a pessoa que eu conhecia com menos aptidão para qualquer tipo de actividade física. Lento e frágil, descoordenado e poltrão, parecia que tudo nele era flácido, era como se fosse uma pessoa líquida, uma pessoa que se derrama.
— Venho despedir-me — disse eu.
— O que se passa?
— Vou ao estrangeiro.
— Fazer o quê?
— Não sei bem, mas tenho de perceber, de ver o que há para lá da casa do Dr. Vala. Já calculei tudo. Estando fora cerca de seis horas, multiplicando pelos metros percorridos, não pararei antes dos quinze mil metros, dá 324 000 000 phobos.
— Isso é muito?
Mostrei-lhe o caderno de contas que levava na mala da escola:
— 324 000 deimos.
— Isso é muito?
— É assustador.
— Bom, despedimo-nos, então. Se vieres a tempo do lanche, há leite e bolos.
Não contava voltar para lanchar e nem tinha certeza se voltaria. Ia contra a fera, ia atingir esse lugar horrendo que era o espaço que eu não via da varanda da casa, que ficava para lá da igreja, para lá da casa do Dr. Vala, para lá do que a vista alcança.
A barbárie.
Iria até aos confins do meu mundo, bem para lá do espaço que via da varanda, com o desejo firme de explorar a geografia dos bárbaros e provar que podia sair ileso, moralmente ileso, de tal empreitada. Não podemos soçobrar ao medo, temos de saber ser capazes de resistir ao Mal, conhecê-lo, olhá-lo nos olhos e negá-lo veementemente. Um herói ou um santo só existe se confrontado com o Mal, só existe depois de emergir ileso da barbárie, e eu queria ser um santo como os que ouvia na missa e admirava nos nichos de pedra e nos frescos da igreja. Desejava vir a ser uma estátua de pedra, uma recordação duradoura (ideia que ainda hoje me persegue, como perceberás).
Saí da casa do Dois Metros, fazendo o mesmo caminho que todos os dias percorria para ir para a escola ou até à igreja, mas tendo naquela manhã a intenção de atravessar uma fronteira física e moral e sobreviver. Suava e tremia, parava com frequência, afligido pela falta de ar. O meu pé parecia mais pesado do que antes, era difícil arrastá-lo, era a bola de ferro de um condenado. Abria a boca como um peixe e inspirava com força, mas não parei, continuei a coxear em direcção ao espaço que não se via da varanda e que ia bem para lá da escola, da igreja e da casa do Dr. Vala. Conheceria a barbárie.
Entretanto, comecei a sentir-me mal. Muito mal. À medida que os phobos aumentavam, o pânico apoderava-se do meu peito, o medo agarrava-me com os seus braços poderosos. O medo gosta muito de nos abraçar enquanto nos vai roubando o ar.
A criada da Mealhada foi encontrar-me em posição fetal, desmaiado, ao cabo da vila.
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Recuperei os sentidos, a visão foi adquirindo nitidez, e a primeira coisa com que me deparei foi o meu pai, de pé, mesmo ao lado da cama, com o cachimbo pendurado na boca e as mãos atrás das costas. A minha mãe tinha a testa encostada ao meu pé deformado e levantou o rosto com um sorriso quando percebeu que eu recobrava consciência.
— O menino — disse-me o meu pai enquanto fechava os olhos e punha sobre eles o polegar e o indicador — não me pode humilhar e morrer fora de casa. Que vergonha. Uma pessoa só morre tranquilamente se o fizer no leito onde dormiu todos os dias, onde treinou para a eternidade — (o meu pai achava que dormir era o treino diário para a morte). — É tão simples quanto isto. Aí, deitado na sua cama, é que tem de morrer, não é na rua como um vagabundo ou um cão.
Nessa noite, quando a criada da Mealhada me ajeitava os lençóis, agarrei-me a ela a chorar e, quando a minha mãe se foi despedir, deitei a cabeça no colo dela e adormeci imediatamente.
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O pão era amassado às quartas-feiras e quando era cozido o vento não soprava. À noite, as palavras saíam com uma solidão que não tinham durante o dia e os olhos das criadas da nossa aldeia fechavam-se debaixo dos seus patrões.
Nas noites de tormenta, quando os relâmpagos chegavam a nossa casa, já cansados e roucos, o meu pai, de costas voltadas para a tempestade, cuspia na lareira. A velha criada da Mealhada dizia que isso nos protegia dos raios. As rezas a St.a Bárbara e a S. Jerónimo não eram suficientes. A velha criada dizia-as com os cantos da boca para baixo, como se as palavras fossem amargas. Se tinham medo, disfarçavam bem. Ela com os cantos da boca para baixo e o meu pai a cuspir no fogo com um copo de aguardente numa mão e o cachimbo na outra.
Numa dessas noites de tempestade, lembro-me muito bem, a minha mãe disse, enquanto a velha criada rezava e o meu pai cuspia:
— Hoje está muito frio, mas felizmente pus flores à janela, ou o Inverno seria insuportável.
À tarde, as mulheres sentavam-se no quintal a conversar e a coser e a tricotar, e eram para mim uma espécie de esteio do mundo. A imponência que geravam, os silêncios aturados, as palavras sussurradas ou gritadas, os olhares trocados, tudo aquilo me dava uma tremenda sensação de segurança. Eram majestosas (mudas ou a rir, a carpir ou a orar) e, por mais dura que fosse a vida, transmitiam ali, naquela estranha cumplicidade, a certeza de que tudo seguiria em frente, de que haveria um dia após o outro, e todo o Universo se equilibrava na ponta das suas pálpebras. Os gatos deitavam-se junto às suas pernas, ronronavam encostados às varizes e à pele seca do sol e por vezes uma delas cantava uma canção tão velha que cheirava a pedras vulcânicas. Soltavam os pés dos sapatos, descalçando-se ou deixando metade de fora, os calcanhares apoiados no chão. Espantavam-me os seus joanetes, as unhas grossas, mas sobretudo o modo como os dedos tinham perdido a suavidade da infância para exibirem a pressão dos outros dedos. Já não eram redondos e diáfanos, mas moldados pela pressão dos outros dedos. Eram assim essas mulheres, feitas umas das outras. A sua forma era definida por quem vivia com elas. Eu olhava para o pátio ao fim da tarde e via como todas eram moldadas pelas palavras, pelo riso, pela mudez que ali iam construindo, minuto a minuto, os séculos que elas carregavam nos corações. Quando eu corria (o meu pai não poderia estar a ver), desajeitado, assimétrico e desequilibrado, pelo pátio, pelo meio delas, respirava a densidade de mil sóis. Elas, imperturbáveis como os gatos que se deitavam aos seus pés, tratavam-me como se eu fosse apenas o vento que passava por entre as árvores. Sei que a felicidade de uma criança, da criança que eu era, apenas corroborava a atitude mitológica com que olhavam o mundo e, por mais sombrios que fossem os tempos, elas tranquilizavam o cosmos, como quem penteia os cabelos no meio de um terremoto.
Eu chegava a duvidar se a tarde acontecia ou se era conjurada e evocada, e, de todas as vezes que corri entre aquelas mulheres, não me lembro de alguma vez os meus pés terem de facto tocado o chão de pedras ásperas do pátio. Eram os únicos instantes em que não me sentia coxo.
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Assim como o meu pai chamava bárbaros a todos os que viviam fora da nossa casa, os gregos chamavam bárbaros aos que não eram gregos. Os romanos, a quem não era grego ou romano. Os persas, dizia Heródoto, criam ser o povo mais espectacular do mundo e que quanto mais longe se vivia da Pérsia mais horrível era a raça. O mesmo Heródoto dizia que os egípcios chamavam bárbaros a quem não falava egípcio. Para o meu pai, qualquer pessoa que não fosse da nossa família era bárbaro e, mesmo falando a nossa língua, grunhia em estrangeiro, esse fenómeno fonético especialmente animalesco.
Fui anotando no caderno de contas algumas perplexidades referentes aos bárbaros e aos seus costumes, que pareciam contrariar o que o meu pai me dizia. Ainda me lembro de algumas delas:
Andam como nós e não de quatro.
Falam.
Por vezes, sabem tocar piano.
O meu pai, sei disso hoje, resumia-se a uma palavra: medo. Toda a aversão ao estrangeiro, ao inusitado, à novidade, ao que está além, era apenas um pânico visceral do mundo, que ele disfarçava transformando esse medo trágico em ética conservadora, em solidez moral. Parecia seguro e inabalável, mas é assim que o medo se veste para sair à rua, para ir à missa, para comentar o tempo e as doenças das vides e o trabalho do lagar.
Eu caminhava atrás dele quando, em família, nos dirigíamos para a igreja, a minha mãe dava-lhe o braço, a criada seguia-me de perto, por vezes encostava uma mão no meu ombro para que me afastasse da estrada e me aproximasse da parede. Era frequente o caminho cheirar a pão, porque passávamos sempre pela rua da padaria.
O meu pai, sei disso hoje, cada vez que falava, transpirava a segurança de quem nada teme, sem no entanto se aperceber de uma lei elementar: a imponência do muro que nos rodeia é directamente proporcional ao receio que sentimos.
No átrio da igreja, as pessoas cumprimentavam-nos. Com o meu pai falavam de negócios ou do tempo ou das culturas, enquanto a minha mãe apenas sorria. Eu e a criada da Mealhada sentávamo-nos no murete da fonte onde nadavam os peixes que guardavam os desejos das nossas moedas. O meu pai, direito, a minha mãe de braço dado, o meu pai, direito, sei disso hoje, ao proteger o seu mundo da invasão bárbara dos bárbaros, aprisionou-se no seu mundo, condenou-se a uma eterna reclusão em si mesmo e nunca para lá de si mesmo. Uma boa parte da Humanidade pode ser definida pela doença do meu pai, pelo medo. É a mimese voluntária da doença mental, da incapacidade de comunicar com o mundo, do total alheamento deste, da interacção essencial à metamorfose do crescimento e às mudanças de carapaças.
Quando chegava o Dois Metros, desvanecia-se o tédio da espera. Falávamos, brincávamos e depois entrávamos na igreja e cada um seguia os seus familiares. Comungávamos e retornávamos ao nosso mundo de pedra, o único lugar que parecia seguro, a intransigência da nossa solidão disfarçada de ética. A nossa moralidade rodeada de pecado por todos os lados.
Um dia, fomos efectivamente atacados por uma das hordas bárbaras que o meu pai mais temia.
Entrou em nossa casa sem que déssemos por isso.
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O acontecimento mais marcante da minha adolescência deu-se quando a casa começou a cheirar mal. A criada da Mealhada abria as janelas. Torcia o nariz: há qualquer coisa podre, dizia ela.
Eu quase não dava por nada, mas o meu olfacto não é especialmente apurado. No dia seguinte, não encontrei os meus sapatos, nem um par. Corri descalço até ao piso térreo e perguntei por eles. A criada da Mealhada fez um gesto com a cabeça, apontando para a rua. Estavam pendurados no estendal. Perguntei-lhe o motivo, mas não era preciso. Tinha estado a lavar os sapatos pois o cheiro nauseabundo vinha dos meus pés. Ou assim pensava ela.
Os meus sapatos ficaram então imaculados, inodoros, e, no entanto, a casa estava cada vez mais nauseabunda.
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Nessa tarde, na catequese, ao perceber a severidade das condenações divinas, cujo sentido de justiça me parecia dúbio, gritei:
— Todos os anjos caídos serão levantados.
A catequista empurrou os óculos contra os olhos com o indicador, olhou para mim, perdão? Eu repeti, expliquei-lhe que, se visse um homem terrível cair ao chão, o ajudaria a levantar-se e que, se o meu arqui-inimigo caísse por terra, ferido, eu o trataria para o poder vencer quando estivesse recuperado, só assim vale a pena lutar, e se eu, grande e frequente pecador, era capaz de façanhas simples e sumamente boas como as que dera de exemplo, muito mais poderia o Deus trino e uno, que era incomensuravelmente mais bondoso do que eu, voltei a repetir, grande e frequente pecador.
Fui expulso e castigado.
Senti-me injustiçado e contei isso ao Dois Metros enquanto lanchávamos na cozinha da minha casa.
— Não achas que os maus merecem ser perdoados?
— Se são maus, não confio neles. Não são de confiança, os maus. Fazem-me uma vez, não me fazem outra.
— Mas uma eternidade é um castigo muito longo.
— Eles merecem. Se não forem os maus a merecer um castigo longo, quem é que o merece?
Aquilo irritou-me e comecei a gritar com ele, a acusá-lo de falta de misericórdia, sem sequer me aperceber de que a minha ideia de remissão dos maus era também uma maneira de perdoar a geografia e perdoar a barbárie, fazê-la nossa. Perguntei-lhe, aos berros, o que ele faria aos adversários de luta greco-romana, se preferia despedaçá-los com os seus músculos precocemente desenvolvidos ou perdoar-lhes, depois de lhes pôr um pé em cima como se faz aos animais para mostrar claramente quem é o vencedor.
— Despedaçá-los.
Acusei-o então de o cheiro nauseabundo que enchia a minha casa ser culpa dele, que não tomava o banho quinzenal. O Dois Metros baixou a cabeça e saiu magoado.
Nos dias seguintes, não voltámos a falar.
E em casa cheirava cada vez pior.
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Tínhamos o costume de atravessar o Verão com roupas de Inverno, de ignorar as cores da Primavera e tudo o que nos pudesse cativar e fazer sair de casa e passear. Havia um Outono a acontecer permanentemente dentro de nós, alguma chuva, folhas secas. Lá em casa era tudo sem cor, sem expressão, como se a vida pudesse magoar os nossos sentidos, e, assim, era preciso criar uma austeridade cinzenta, era imprescindível e incontornável colocar uma pedra de solenidade em tudo o que nos rodeava. Só não nos tratávamos por Vossa Excelência porque não enviávamos cartas uns aos outros (mesmo a relação que eu tinha com a minha mãe era cerimoniosa). Dava-me a sensação de que, ao caminhar pelo corredor, tinha de pedir licença aos móveis, por favor, com licença. O cheiro que nos avassalava por aqueles dias era a única perturbação na ordem prístina. O meu pai, sempre imerso nos seus estudos, vivia alheado da família, sem ligar a ninguém. Eu chegava a casa, dizia boa tarde, ele não respondia, continuava debruçado sobre a sua montanha de papéis, com os olhos encostados à secretária, ao fundo da sala, de costas voltadas para a família. A minha mãe dizia «o jantar está pronto», ele não respondia, por vezes fazia um sinal com o braço, jantava depois, quando já todos tinham acabado. Outras vezes, esquecia-se de comer, adormecia em cima da sua montanha de papéis, acordava de manhã já sentado à secretária, a postos para retomar o trabalho. Era uma rotina a que já ninguém ligava. Às vezes passavam-se dias sem haver qualquer interacção connosco ou com os trabalhadores da herdade. Pai, senhor, querido, patrão, quem quer que o chamasse recebia um pesado silêncio como resposta, a menos que, por algum motivo, se sentisse com predisposição para comunicar, para trocar umas palavras razoavelmente amáveis para os seus padrões. Nesse caso, erguia-se de trás dos seus papéis exibindo um olhar agudo e perguntava quem tinha morrido: Ninguém? Vá à sua vida.
Daquela vez, tinha efectivamente morrido alguém. Tinha morrido o meu pai e ninguém notara. O cheiro vinha do corpo em decomposição.
Estava atrás dos seus papéis. Foi a criada que, enlouquecida com o cheiro, teve a ousadia de o acordar para lhe comunicar o problema. O meu pai respondeu como tantas vezes fazia: com um pesado silêncio.
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A esposa do Dr. Vala tinha sempre algumas dificuldades na casa de banho e acabava por me chamar, ora para desabotoar qualquer coisa ora porque não via as casas dos botões ora porque não descobria o interruptor ora porque a roupa tinha defeitos.
Era grande e, sentada na sanita, olhava-me nos olhos com um sorriso que ainda hoje não sei explicar. Durante o enterro do pai, chamou-me três vezes.
Foi um dia muito triste, mais do que o do velório, noite em que o caixão esteve fechado por causa do cheiro, pousado na mesa da sala de jantar, rodeado de flores e velas e do pranto baixinho das recém-chegadas tias do Norte.
No cemitério tive sentimentos mais intensos, de irreversibilidade. O meu pai tinha feito a sua definitiva viagem para o estrangeiro eterno, e o estrangeiro parecia-me ter vencido em toda a linha, a barbárie não tem misericórdia e nem o meu pai soubera manter-se protegido da mais nefasta geografia, a morte, mesmo armado da sua moral e das pausas dramáticas com os dedos a pressionar as pálpebras e as noites sentado à lareira ou agarrado aos seus papéis.
Comemos os restos dos mortos até não restar nada. Os restos são recordações e nós vamos limpando os ossos da alma como os vermes fazem aos cadáveres. Até não sobrar nada. Um trabalho duradouro, que se estende por gerações, até ao olvido final e inevitável.
Ali estávamos nós com os restos do pai, que seriam arrancados dos ossos com os dentes da memória. É um estranho banquete este, o dos que sobrevivem, dos que ficam e comem estas estranhas migalhas de recordações, juntamente com o pão de cada dia.
O padre loava o meu pai, grande homem, benemérito e cristão, amigo do seu amigo, inviolado pelo Mal, amém, Deus o tenha em seu descanso, era generoso, era misericordioso, era prudente e abominava o pecado, amém, era um exemplo, um esteio de gravidade e verticalidade, amém. O sol obrigava-me a semicerrar os olhos. As gralhas gritavam na terra e na nogueira junto ao muro do cemitério. As tias do Norte acenavam, concordando com todas as palavras do padre, e a cada amém diziam assim seja, baixinho e em coro, com os olhos postos no além. Era sincero.
O padre, que não passava de mais um dos muitos turiferários que orbitavam a figura do meu pai, despejava elogios sobre a assistência enlutada, assistência constituída na sua maioria por pessoas que manifestavam a tristeza profunda que não sentiam, mas que era seu dever moral exibir. O sol pingava pontos luminosos nas hastes dos óculos, nas fivelas, nos fechos das malas das senhoras, que, com os joelhos colados e as mãos pousadas no colo, a cabeça baixa, os óculos escuros, o cabelo amarrado, soltavam lágrimas e soluços de acordo com o ímpeto do discurso do padre, enquanto os homens, seus maridos, amantes, irmãos e pais e filhos e netos, primos distantes, tios, não conseguiam disfarçar alguma impaciência, batendo os pés, tamborilando os dedos, compondo todos eles uma paródia da tristeza e do pesar, a necessária encenação social que nos mantém coesos enquanto comunidade. As tias do Norte choravam com sinceridade, verdadeiramente entenebrecidas, assim como também sofriam genuinamente a criada da Mealhada e a chihuahua Gina. Sobre a minha mãe, não sei dizer se sofria, mas arrisco imaginar que vivia um conflito entre a perda e o alívio.
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Eu tinha o costume, como quase todos os garotos daquele tempo, de subir às árvores. As que eu mais gostava de trepar eram figueiras. O motivo para isso é muito simples: são as que dão os melhores frutos, aqueles que se diz que é preciso abrir em quatro como se fossem pétalas de uma flor (na verdade, os figos são literalmente flores que crescem para dentro), sorver o interior. É assim que se come um figo: encostar os nossos lábios à sua carne, devorar de uma vez o suco, a matéria, a ferida, era qualquer coisa assim que dizia o manual de instruções que li mais tarde, um poema de D. H. Lawrence. Não me ensinou nada, esse manual, pois já era assim que eu sorvia os figos, foi apenas uma confirmação. Já enfiava o Verão na boca, fazia a minha língua abrir a pele verde ou preta, e com a ponta procurava o doce que o figo esconde dentro dele, avermelhado.
O facto de os figos serem flores que crescem para dentro fez-me concluir duas coisas,
a primeira,
que não precisam do mundo exterior, são como era o meu pai e abominam a barbárie, viram as costas às janelas, ao exterior.
segunda,
são um exemplo de humildade, de modéstia. A flor, que deveriam exibir ao mundo, guardam-na sem qualquer demonstração de vaidade. Os figos não querem saber de elogios e discursos laudatórios (ainda que também não se abram às críticas). Os figos, escrevi no caderno de contas, florescem para Deus, que é o único capaz de admirar o que acontece dentro das coisas sem as partir, sem as matar, sem as destruir.
Quando voltámos a casa, depois do enterro, subi à figueira da entrada da propriedade. Creio que, nessa altura, pensava ainda na morte como um espaço físico que é possível vislumbrar como qualquer paisagem banal. O que vi nesse dia, do cimo da figueira da entrada da propriedade, foi uma visão feliz. Concluí nesse momento que as melhores paisagens são feitas de pessoas. E melhor do que as pessoas são os amigos.
O Dois Metros caminhava na direcção da nossa casa.
Desci da figueira. Não dissemos nada e abraçámo-nos. Não era só o meu pai que estava em paz. Nós também. O Dois Metros levantou a camisa branca e mostrou-me uma frase que tinha pintado no peito: Os anjos caídos serão levantados.
Agarrei-me a ele, a chorar.
— Pintei no coração.
— Sim.
Muitos anos mais tarde, ele haveria efectivamente de tatuar aquela frase no peito. Mas a paz verificada nesse dia foi efémera, voltaríamos a zangar-nos mais algumas vezes.
Fiz muitas asneiras, como bem sabes.
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As tias do Norte, que vinham por vezes passar o fim-de-semana connosco, tinham por hábito trazer sacos de enchidos, morcelas de arroz e chouriços de sangue, bolos de frutos secos, nozes e canela, e davam-me beijos com os lábios demasiado pintados, uns beijos húmidos e sonoros, apertando-me contra as suas mamas vastas. O batom ficava-me na cara como uma cicatriz de guerra.
Era assim desde criança: enquanto as esperava na sala, já temia o contacto húmido daqueles lábios velhos.
As tias do Norte eram três. Eram a única coisa que vinha do estrangeiro, ou seja, do Norte do país, que o meu pai suportava receber em casa. Tinham silhuetas religiosas, as bochechas cheias de pó-de-arroz e o cheiro enjoativamente doce de água-de-colónia misturada com sótão.
Com a morte do meu pai, vieram para o funeral, acabando por ficar lá em casa com a desculpa de que eu e a minha mãe precisávamos de apoio e, sobretudo, de alguém experiente que pudesse evitar qualquer gesto ou omissão menos correctos, ainda que elas, na sua moldura beata celibatária cristã, deixassem um pouco a desejar: as tias do Norte sonhavam com homens a beijá-las entre as pernas. Ouvi-as muitas vezes a gemer os seus pecados quando passava pelas portas mal fechadas dos seus quartos.
Uma tia do Norte, a do meio, tinha a mania de fazer um plié no meio da sala, em frente à televisão, relembrando o tempo em que tinha onze anos e aprendera ballet. Enquanto se mexia, sentia-se fugir dela o miasma de uma infância reduzida a um gesto patético, um resto de dança, de felicidade longínqua que ainda teimava em aparecer no meio da sala, em frente à televisão.
Era como se o tempo e a velhice fossem um exílio da infância, uma inevitável caminhada pelo terreno árido do estrangeiro, depois da expulsão do Éden que era ser criança.
A mais velha não sabia então que morreria seis meses depois.
Eu ia com as tias à missa, incluindo a que ia morrer dali a seis meses.
É muito triste, agora, recordar isso: andar a passear uma condenada, levá-la à missa. Ela estava tão feliz, ficava sempre tão feliz quando comungava. E, depois, o quê? Deus esperava-a numa esquina com um AVC apontado ao lado esquerdo. Foi fulminante, caiu no chão como chuva, e enterrámo-la dois dias depois no cemitério da vila.
Quando eu passava pelo cemitério, com certeza por sugestão, sentia cheiro a colónia.
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A vida era muito perigosa, eu sentia isso com intensidade renovada depois da morte do meu pai. Se ele, tão forte, tão impenetrável, podia sucumbir na sua cidadela — na sua própria casa — , então os outros, tão pequenos e moralmente frágeis, seriam um alvo demasiado fácil. Nesse período de fragilidade, comecei a contabilizar o perigo a que as pessoas estavam sujeitas e a contabilizar como esse perigo se radicalizava com a distância (os phobos eram efectivamente o produto da distância pelo tempo). O marceneiro da vila cruzava a fronteira para pecar, anotei eu no meu caderno de contas, e isso era extremamente irresponsável. Devia sentar-se à lareira e evitar sair de casa (as primeiras cidades espanholas estavam a cerca de 200 quilómetros, que, multiplicados por dois dias de devassidão, davam 34 560 000 000 phobos). Pecar com uma mulher da região reduziria consideravelmente a erosão moral (vinte quilómetros de distância até ao bordel mais próximo, uma hora de serviço activo, 72 000 000 phobos). Esse mesmo marceneiro, que nos fez os móveis da sala e o psiché do quarto da minha mãe, calçava sapatos beges com berloques e usava a cor do Mercedes a condizer com os sapatos (o carro, que viera de uma distância de 2159 quilómetros e estava na sua posse há três anos,
equivalia a uma carga de 204 258 672 x 106 phobos). Não trabalhava às terças, que era quando cruzava a fronteira para gastar — o que ganhava à segunda — com as mulheres do outro lado da fronteira. Não admira que tenha morrido esfaqueado quando lhe quiseram roubar um relógio recém-importado do estrangeiro. Quando estava com o Dois Metros, voltava com frequência à questão da apocatástase, dos anjos caídos que serão levantados, assunto que ocupava recorrentemente o meu espírito. Talvez a minha insistência na teoria segundo a qual no fim dos tempos todas as almas, mesmo as más, serão admitidas no Paraíso não fosse apenas pela eventual questão filosófica, mas pelo facto de nos termos zangado por causa disso. Muitas vezes as questões ganham relevância e importância nas nossas vidas, precisamente porque alguém de quem gostamos não gosta delas.
— O quê? Esse assunto outra vez?
— Tem de ser como as flores, pisamo-las e elas voltam a erguer-se.
— Se forem demasiado pisadas, não. Há limites para a dor.
— Mas, ainda assim, voltariam a nascer. Podemos pisar muita coisa, mas não pisamos as raízes. A regra parece-me ser simples de formular: as flores erguem-se depois de terem sido pisadas. Sejam exactamente as mesmas ou uma nova versão.
— E se não se erguerem?
— Se não se erguerem, transformar-se-ão num caminho.
— Porcos.
— O quê?
— Porcos. Para limpar os terrenos, é o melhor. Comem as raízes e não volta a crescer nada.
— Nesse caso, fazem caminhos.
— Fazem desertos.
Saí e bati com a porta.
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Essa sanha contra o exterior, o estranho, a novidade, tudo isso que se entranhou no meu crescimento, era outra forma de ter ossos e esqueleto. Como disse antes, o medo tornara-se ética. Já não era a criança de outros tempos, com medo de sair de casa, era um jovem que desprezava sair de casa. Mas essa aversão ao exterior tinha pés de barro. E, aos poucos, actividades tão ingénuas (para outras pessoas) como sair da vila para ir à praia foram alterando a minha práxis.
O meu pai barbarificava o mundo. Este conceito foi importante para mim, pois fui percebendo que ele, o meu pai, se resumia a um ponto e tudo o resto a uma ameaça. Com o tempo, percebi que a identidade construída assim não cresce, não tem para onde crescer, não admite nada que lhe seja exógeno, e percebi também que outro tipo de pessoas considera a identidade de uma forma diferente: semelhante a uma colecção de conchas, conchas como aquelas que eu apanhei na praia, no Verão que se seguiu ao passamento do pai, quando fui para São Pedro de Moel com as tias do Norte. Apanhar conchas era uma maneira de levar o mar comigo, para o meu quarto, para a vila do interior, e, sem me aperceber, já estava a tornar-me um ser quiasmático, um entrelaçador, uma pessoa que se encontra com o mundo e se vai misturando com ele, como uma cabeleira despenteada. O apanhador de conchas, o rapaz tímido e coxo, começava a agarrar bocados da vida para que fizessem parte dele, e, mais importante ainda, a aprender um gesto fundamental: o coleccionador de conchas tem de baixar-se para as apanhar. O acto de nos baixarmos já é em si uma vitória. É com a humildade do gesto e do ego perante o mundo que o podemos abraçar. Só quem está disposto a baixar-se apanha conchas.
Quando voltei a casa nesse dia, o Dois Metros apareceu, dizendo que tivera saudades minhas (parecia ter esquecido a questão filosófica da apocatástase, que não era o motivo da nossa discórdia, mas era o motivo aparente da nossa discórdia, um pouco como as guerras religiosas: acontecem por uma razão qualquer que acaba racionalizada numa disputa teológica), e eu mostrei-lhe a safra das minhas férias de praia, um saco de conchinhas. Ele estava maravilhado, revirava-as nas mãos, nunca tinha visto o mar, pediu-me que lhe desse uma, mas aquelas conchas eram um tesouro de que eu não conseguia privar-me. Tens tantas, reclamou ele, tenho, respondi, e arrumei-as no saco e fechei o saco no armário do quarto, ignorante de que as coisas, quando são fechadas e guardadas, acabam por não servir para nada. As conchas nos armários deixam de respirar e acabam por perder o seu mar, o seu espírito vivo. Já não eram conchas, eram ondas pisadas.
Foi a tua mãe que me contou uma história do seu país, de um homem que tinha uma fortuna e queria enterrá-la para que ninguém a descobrisse. O vizinho sugeriu-lhe que em vez da fortuna enterrasse uma pedra e lhe desse o dinheiro, pois para quem enterra uma fortuna é irrelevante o que enterra.
Mas, em relação à minha atitude para com o Dois Metros, o mais importante e dolente era o meu desconhecimento de que aquela concha que me pedira só seria verdadeiramente minha se lha tivesse oferecido. Mas, à época, eu ainda era um barbarificador como o meu pai.
E esta foi mais uma das zangas entre nós, de longe uma das mais inofensivas.
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Foi por essa altura que a minha moral começou a vacilar. Paulatinamente, fui sofrendo ataques consistentes e insistentes à solidez da minha educação paterna. Um desses episódios, devidamente anotado no livro de contas, dizia que o meu pai era um afasta-tudo, enquanto o amor é o contrário disso. Durante um beijo trocam-se milhões de bactérias. De cada vez que as tias do Norte me apertavam contra as mamas e me beijavam, deixavam na minha pele cerca de oitenta milhões de bactérias. Comecei a perceber que somos todos feitos de imigrantes, destas coisas estranhas que entram dentro de nós. Somos povoados de estrangeiro. Poderíamos resistir moralmente, mas não biologicamente, e, mesmo assim, a questão era duvidosa: se o amor era perigoso porque esboroava a moralidade com a sua tendência para abrir coisas, bocas, braços e sabe-se lá que mais, por outro lado, é precisamente no território moral que encontra a sua força e é uma das virtudes cristãs mais celebradas.
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Depois das batatas e das bactérias e do amor e da irresponsabilidade e da ida à praia e das conchas, comecei a encontrar-me cada vez com mais assiduidade com esse tal estrangeiro e a perceber que ele nos envolve e se mistura nas nossas vidas sem que nos apercebamos sequer da sua presença, apesar de tonitruante e penetrante e inescapável: a cadela chihuahua que corria pelos corredores era de raça mexicana e o seu nome, Gina, devia-se a uma actriz italiana (Lollobrigida); o café vinha do Oriente ou de Timor ou do Brasil ou da Colômbia; os sapatos do meu pai eram italianos; as nuvens traziam dentro delas gotas de mares distantes; os livros da nossa biblioteca eram maioritariamente assinados por gregos e romanos; as colónias das tias eram francesas; Colónia é na Alemanha; o milho era da América central; o nome do salão de dança da vila era um trocadilho inglês (Coincidance); os tomates eram americanos; a Bíblia era semita e Deus tinha encarnado num estrangeiro, num judeu; o latim da missa era romano, assim como os esgotos; os números eram árabes; o açúcar vinha do Brasil; o pinheiro de Natal era nórdico; os árabes trouxeram laranjas e melão; o arroz e as massas vieram da Ásia; a bolacha Maria foi criada por um padeiro inglês; o ser humano nasceu em África; o nome Salazar é espanhol; as cartas de jogar vieram da China; a canela do arroz-doce era indiana; a única verdura verdadeiramente nativa da Europa era a couve, tudo resto era estrangeiro, a amêndoa veio do Afeganistão, as maçãs do Cazaquistão, os pêssegos da Pérsia, o damasco não veio de Damasco mas da Arménia, a alcachofra, da Palestina; nós, todos nós, somos pó de estrelas, as nossas sombras, as sombras que via em criança a passearem pela casa, soberanas e intocáveis, eram um produto dos nossos corpos mesclados com uma estrela de tamanho médio que envia bocados de si própria e que, ao passar pelos nossos limites, pelas nossas fronteiras, faz nascer uma silhueta. A sombra diurna é um casamento de seres e objectos com uma estrela. Uma sombra na Terra demora oito minutos a ser feita. Imagino que cada fotão já parta apaixonado, e, à velocidade da luz, venha na nossa direcção apenas para nos pintar de negro contra uma parede branca. Desenhar-nos. Não é estranho que tenhamos uma estrela a desenhar-nos? E que o faça precisamente do oposto daquilo de que é feita? Porque essas imagens não são de luz, são feitas da ausência dela.
Porém, o que me baralhou definitivamente foi quando percebi que a pessoa que mais amava naquela casa também era um terreno estrangeiro.
A minha mãe.
A minha mãe era como se vivesse fora das nossas vidas, remetida à cozinha, às canções da rádio cantadas com as outras mulheres, ao tricô, aos bolinhos e ao chá. Havia também uma fronteira entre a sala e o fogão, entre a biblioteca e as lãs, entre o vinho e o chá.
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