Princípio de Karenina
Capítulo 3
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«Infelicidade é questão de prefixo.
(…) e que viver é um rasgar-se e remendar-se.»
TUTAMEIA
João Guimarães Rosa
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Cortam-se as asas dos pássaros para que não fujam, para que não voem.
De certa maneira, naquela altura, na minha altura, não educar as mulheres equivaleria a partir-lhes as articulações, uma vez que isso dificultaria, ou impediria de todo, a sua saída de casa, a sua independência. Curiosamente, as Amazonas, dizia Hipócrates, deslocavam as articulações dos filhos varões, nas ancas ou nos joelhos, para que não pudessem lutar ou fugir e não se organizassem contra as mulheres. Davam-lhes profissões sedentárias: sapateiros, por exemplo (que ironia, fazer sapatos e não poder caminhar). Esta ideia atribuída às Amazonas parece-me apenas uma transposição daquilo que é uma ideia de poder masculina.
Mas há outras maneiras de olhar para as limitações impostas aos que amamos. Por vezes, nascem precisamente do amor. Hoje, acho que a minha mãe via a minha deformidade como uma bênção.
Antigamente deformavam os ferreiros nas ancas, nas pernas, nos pés, para que não pudessem deixar a comunidade com os seus segredos, com o ferro, com as armas mais poderosas. A pessoa mais importante era então deformada para que não caminhasse.
Acho que eu fui a personificação disso mesmo. O meu pai, por medo (também de me perder?), deformou-me com a sua educação, limitando a minha possibilidade de me deslocar, fez-me coxo na cabeça; e a minha mãe, por amor, prezava a minha deformidade física porque isso me mantinha perto dela, me afastava da guerra, me salvava.
Dos primeiros meses do meu casamento, tenho pouco a dizer, excepto que me fui assemelhando ao pai, barbarificando o mundo. Passei a sentar-me à lareira a fumar cachimbo, a deslocar as ancas e os joelhos da minha mulher (figuradamente, claro), e creio até que me tornei uma versão mais composta, mais conforme a tudo o que me foi ensinado, não deve sair de casa, menino, não deve morrer longe, menino, é tão simples quanto isso, e a minha vida transformou-se rapidamente numa estranha maneira de definhar. O único objectivo era manter a estabilidade da pedra cúbica e as suas arestas afiadas. Detestava janelas abertas e obriguei a Fernanda a largar o trabalho na farmácia, porque não me agradava o contacto dela com os clientes, ainda por cima, doentes ou potencialmente doentes. Ela anuiu na condição de, não trabalhando directamente, poder controlar o negócio, uma vez que o pai já estava perto de se reformar.
As tias do Norte partiram finalmente para o Norte, libertando a casa das suas figuras pesadas, dos pliés em frente à televisão, do cheiro omnipresente a colónia e a laca. Despediram-se comovidas, agarrando-me nas bochechas como quando eu era criança e dando os conselhos triviais nestas situações, em coro:
— O menino seja um bom marido,
— não ande a correr feito doido, só os incapazes correm atrás da vida,
— ouça bem, menino, seja um bom pai, colherá o que semear,
— os homens de bem, tal como o seu falecido pai, Deus o tenha ao Seu lado, esperam que a vida lhes traga o que é seu por direito,
— trabalhe com zelo, que para descansar terá a eternidade.
— esperam sentados, não andam a correr. Felizmente, o menino é coxo e parte desse problema está naturalmente resolvido.
E, de facto, a nossa família foi-se gerindo assim, apesar de, em certa medida, contrariando o conselho das tias, eu sentir que corríamos, mas corríamos de uma maneira muito especial, corríamos para ficar parados, como a rainha de copas. E assim foi, até um dia, até ao momento em que apareceu a pessoa que haveria de mudar tudo. O estrangeiro. O mundo de fora. O mundo de tão longe que fica para lá do que é longe: a tua mãe. A minha mulher era dedicada, indecisa, nervosa, e pude verificar que as tias do Norte tinham razão: ela amava-me. Desde que deixara de trabalhar na farmácia, ia pela manhã e ao final do dia controlar a caixa e os dois empregados. A minha mãe praticamente não falava com ela, apesar de a tratar com cordialidade (eu continuava cego para a sua decadência evidente). A Fernanda costumava penteá-la, com carinho, parecia-me, e tricotavam juntas em frente à lareira, em silêncio. As agulhas das duas mulheres pareciam dialogar, ou lutar, não sei dizer, às vezes sobrepondo o som, outras encontrando uma momentânea sintonia para rapidamente voltarem à desordem intervalada por arbitrários momentos de silêncio, ora de uma delas ora das duas simultaneamente. Creio que um criptógrafo poderia encontrar ali uma linguagem qualquer e traduzi-la para um diálogo, ou para uma discussão, talvez aquele som de agulhas a bater fosse um discurso sincero e naturalmente doloso. Lembro-me de ficar muitas vezes absorto e concentrado nas duas, nos seus rostos, nas suas mãos, nos sons, nos gestos, lembro-me de concluir que as duas mulheres sabiam perfeitamente o que diziam a tricotar e que eu era o único que não percebia nada. Eu era o estrangeiro.
A velhíssima criada da Mealhada, que milagrosamente ainda se mantinha viva e activa, mais ou menos vertical, servia, por volta das quatro da tarde, bolinhos que comprava na padaria, de manteiga, recheados com doce de morango, e chá preto com umas folhas de hortelã. Sempre em silêncio, a minha mãe e a minha mulher guardavam os novelos e as agulhas, deitavam açúcar no chá e retomavam o diálogo do tiquetaque, desta feita com o bater das colheres nas chávenas enquanto mexiam e, para concluir, batendo nas bordas antes de pousarem as colheres nos respectivos pires. Sempre em silêncio, sopravam o chá, comiam um bolinho cada uma, sopravam o chá, bebericavam, comiam mais um bolinho, voltavam a soprar o chá. A criada, admiravelmente em pé, esperava que acabassem o lanche, levava o tabuleiro, a Fernanda pedia licença e retirava-se. A mãe baixava a cabeça em assentimento. Eram assim muitas das tardes.
Depois da inspecção do final do dia, a Fernanda voltava um pouco antes da hora de jantar. Era à mesa que falávamos mais, especialmente sobre o quotidiano da vila, sobre os boatos do dia, sobre política e sobre a moral dos outros, sempre tão duvidosa e frágil. Aos domingos, o Dr. Vala juntava-se a nós para almoçar. Saía sempre a queixar-se das costas, malditas cruzes, a insultar a gota e a elogiar a comida, o cabrito, o bacalhau, as migas, as caldeiradas, os enchidos, os cozidos, e a mulher dele a gabar-lhe a inteligência, que inteligente que é, meu querido, com ideias tão profundas e verdadeiras.
As noites entre mim e a minha mulher poderiam ter sido momentos de fulgor e calor entre duas pessoas recém-casadas, mas o ambiente era de escritório. Ela era, como já disse, indecisa, e isso paga-se caro na cama quando tudo deve ser fluido, sem hesitações. E eu, pelo meu lado, estava ali como quem carimba um formulário, zeloso do dever da multiplicação, sem manifestações que pudessem abalar a sobriedade cristã, para a frente, para trás, para a frente, para trás, ela de olhos colados no tecto, eu de olhos colados na cabeceira da cama de carvalho, controlando a respiração e concluindo, com uma espécie de suspiro longo, que, se resultasse em descendência, haveria de justificar aquela cena ridícula, que é a cópula executada como nós a executávamos.
Eu retirava-me então de cima dela, apagava a luz e fechava os olhos. A Fernanda, nas primeiras semanas, dizia que me amava e dava-me a mão, mas depois, aos poucos, foi deixando de o fazer. Talvez por falta de reciprocidade ou simplesmente porque havia desistido.
O que é certo é que o desejado resultado daquelas noites enfadonhas, a multiplicação, não aconteceu. Nada que me afectasse, eu era o homem, o problema era sempre da mulher e dos úteros secos. Os olhares da criada velhíssima, da minha mãe, o meu e o da Fernanda manifestavam alguma preocupação. O da Fernanda estava também carregado de culpa.
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E, entretanto, a minha mãe ia ficando transparente, macilenta, parada. Sentava-se sozinha nos cantos a rezar.
Cheguei a elogiá-la por isso, sem me aperceber de como ficava invisível.
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Em criança, eu evitava o rio porque a criada velhíssima dizia que os fantasmas gostam de água. Estão sempre sedentos. Depois de me casar, passou a ser o meu lugar favorito para descansar do trabalho de gerir a propriedade. O Dois Metros sentava-se comigo ao final da tarde, nas margens, a fumar. Os pensamentos dos peixes consistem inteiramente de água, pensei enquanto os observava a nadar no rio. Os peixes só devem pensar em água, disse ao Dois Metros.
— Ou então não: nós não estamos sempre a pensar em ar — rebateu ele. — De resto, não sei se os peixes serão dados a lucubrações filosóficas. Já não me lembro quem contou a história de um peixe que passa por outros dois e pergunta: Então, como está a água? E os outros entreolham-se e interrogam-se: Água? De que é que ele está a falar? O que é a água?
Riu-se e continuou:
— É isto, não é? Não percebemos o lugar onde vivemos porque estamos encerrados nesse mesmo lugar. A nossa água é a rotina, o lar, o senso comum.
— Então os pensamentos dos peixes não são sobre a água?
— Não me parece.
Reparei que trazia vestidas umas cuecas da mãe, com rendas. Viam-se a sair das calças. Ele notou que eu reparei e disse: Estive a treinar luta, mas a desculpa não me soou nada convincente. Aquilo não se parecia nada com os fatos de banho, ou lá o que é, que os lutadores usam.
Acendeu um cigarro. Ficámos em silêncio e ele atirou a beata ao rio. Voltou ao assunto dos peixes:
— A água para os peixes é tédio, rotina, não se apercebem.
Era isso, Dois Metros, o tédio pode ser convertido nas mesmas contas da moral e da barbárie. O tédio, Dois Metros, é resultado do conforto do lar, da isenção da ameaça externa, do enfraquecimento da Cochinchina.
— Sim — concordei —, é tão simples quanto isso.
Sim, era tão simples quanto isso. À medida que nos afastamos da rotina, que é a coluna vertebral da moralidade, a nossa água, o costume, a tradição, entramos no caos, no relativismo, no estrangeiro, na barbárie, enfim, na imoralidade. E eu, no meio da água em que vivia, não me apercebia da sua composição, porque essa rotina é também uma forma de cegueira. Não me apercebia de como à minha volta se sofria silenciosamente: a minha mãe, a minha mulher, eu, o meu melhor amigo, a criada, o Dr. Vala com as suas dores nas cruzes, e a esposa dele, sem vida para lá da posição social do marido.
— Olha que se as pessoas — disse ao Dois Metros — reparam que usas cuecas de mulher, podem pensar outras coisas. As pessoas não sabem que queres ser lutador.
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Porque a criada velhíssima da Mealhada estava velhíssima, sentimos o dever de contratar uma nova criada, que também soubesse cozinhar. Sugestão da minha mãe. Senti-a tremer quando o sugeriu, mas achei que era apenas fruto da emoção de considerar que a nossa criada de há tantos anos podia estar a chegar ao final do contrato laboral, que, nesse caso, coincidia com a própria vida.
Recordo distintamente a primeira vez em que eu e a minha mulher vimos a tua mãe, o momento em que ela entrou na sala e eu mandei fechar as janelas. Estão fechadas, disse a Fernanda. Estão fechadas, disse a criada em uníssono. Claro que estão, disse eu. A tua mãe era daquelas pessoas que irradiava uma luz, como se fosse um candeeiro aceso, e eu fiquei sem saber o que fazer ou dizer, a boca ficou longínqua e seca, a Fernanda disse sente-se, a tua mãe sentou-se, incandescente ali no meio, com um vestido preto, as mãos unidas pousadas no colo, a cabeça baixa, o cabelo negro apanhado. Era uma mulher educada, a voz muito fina, quase translúcida, e as suas palavras, ditas com sotaque, faziam-me cócegas no corpo. Fiz os possíveis por esconder o deslumbramento que me assolou nesse instante e julgo ter sido capaz de o fazer, sempre fui bom a conter emoções, tenho uma barragem na aorta, mas
— É muito bom se poder trabalhar aqui.
quando ela disse «é muito bom se poder trabalhar aqui», a minha mulher corrigiu-a:
— Diz-se «seria muito bom poder trabalhar aqui».
A tua mãe ruborizou-se pela correcção, e aquela cor ainda hoje é a minha noção de encarnado.
E depois fui eu que entrei em pânico com o que ela disse a seguir.
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Tentei afastar aquela impressão luminosa dos olhos, mas tinha a retina carimbada com o fulgor intenso de uma revelação. Quase toda a gente espera casar-se por paixão, amor, essas coisas que nos dão na adolescência e terminam numa igreja a dizer que sim, a prometer o infinito, a garantir que a nossa história terá um final igual, igualzinho, ao dos contos infantis: felizes para sempre. Acontece que me apaixonei, sim, mas por um imperativo moral, ou lá o que foi, e me casei com beijos a saber a «ela não presta. Podes ficar com ela».
Até ao dia em que contratámos a tua mãe, eu vivia uma rotina amável, a meia-luz, sem sobressaltos, cego às dores alheias. A partir desse instante, a solidez da minha rotina começou a abrir uma brecha por onde entrava luz. A presença dela haveria de perturbar o tédio nosso de cada dia, abrindo uma janela por onde quer que passasse. Eu, no enfadonho quotidiano que laboriosamente erigi, evitava olhar para a tua mãe: quando ela servia a sopa, eu desviava o olhar para a parede, sacudia uma migalha do fato ou esticava-me para pegar no saleiro, para tentar minimizar a perturbação que sentia no corpo e no espírito. Depois de ela se ausentar, eu fechava os olhos por causa da claridade que me provocava, mas era pior: sabes quando olhamos fixamente para uma luz e fechamos os olhos? Fica tudo a arder com uma intensidade tenaz, que não nos abandona, por mais escuridão que faça dentro de nós, à nossa volta, no quarto, na sala, na vida.
Passados tantos anos, ainda sinto um sabor estranho na boca quando pronuncio a palavra que a tua mãe disse na sala, no dia em que a conhecemos, a palavra que começou o derradeiro ataque contra o edifício que eu construíra com os blocos de pedra da educação paterna.
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Nesse encontro primordial, incandescente, a minha mulher perguntou:
— Qual é o seu país de origem?
(Como se não soubesse!)
E a tua mãe disse que vinha do Oriente. Isso era evidente pelo seu aspecto, mas mesmo assim tive vontade de fugir, não pela lonjura que a figura da tua mãe representava nem porque antevia nessa mesma distância o ruir da minha normalidade e a contaminação do tédio que custa tanto construir. Uma surpresa faz-se de repente, mas o tédio exige prática, repetição, repetição, repetição, até ser alcançado o grau de monotonia necessário ao conforto sem sobressaltos. A minha vontade de fugir devia-se à beleza incomodativa da tua mãe, uma presença que abalava a certeza da família que eu estava a tentar sedimentar.
A tua mãe acrescentou «do Sudeste asiático». E, de seguida, disse a palavra que mais me perturbou e que ainda hoje sinto que é uma espécie de definição de amor, disse que vinha de uma região a que antigamente chamavam:
Cochinchina.
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Um dia na Cochinchina, calculando os phobos correspondentes, é algo como 1 279 670 400 000. Um ano são 467 079 696 000 000 phobos. A quantidade de phobos que a tua mãe representava era incalculável. Mas já não era a distância, não era o estrangeiro que me perturbava. Era a proximidade. Era o paradoxo de uma pessoa de tão longe me provocar uma proximidade tão grande.
Quando ouvi a palavra Cochinchina, sem me aperceber de que era o amor que eu temia e não o monstro da minha infância, levantei-me e disse gravemente, tal como teria feito o meu pai numa situação idêntica se fosse ameaçado pelo estrangeiro ou pelo amor: fechem as janelas. A minha mulher e a criada velhíssima da Mealhada e a minha mãe olharam para mim, hesitantes, antes de dizerem, em uníssono: estão fechadas.
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Cochinchina era para o meu pai o lugar para lá do lugar. Uma pessoa podia pecar, mas a Cochinchina era o metapecado, a fera suprema, o ponto onde a razão enlouquece, estava para lá de Deus. Uma pessoa podia imaginar a extensão do mundo, mas a Cochinchina era um passo além da nossa imaginação. Como nunca tinha sentido uma paixão verdadeira, ainda não sabia que a mesma definição se poderia aplicar ao amor: fera suprema, enlouquecimento da razão, ponto para lá de Deus ou da imaginação.
Não conseguia dormir. Senti que tinha voltado a ter oito anos e que me havia confrontado com a existência de uma região mitológica, uma barbárie onde viviam pessoas, algumas delas bastante luminosas, com caras de janelas abertas, com quem era possível falar e, quem sabe, amar. Não era capaz de dormir. Fui procurar, nos livros de História da pequena biblioteca que herdei do pai, uma explicação racional para aquele espaço geográfico. Encontrei o seguinte: «Originalmente, o nome ‘Cochinchina’ começou a usar-se porque, existindo uma região — que fazia parte da China, mas hoje é território do Vietname e do Camboja — cujo nome era foneticamente parecido com Cochim (cidade indiana, mais conhecida dos portugueses), houve a necessidade de distinguir as duas, a Cochim da Índia da Cochim chinesa.» Cochinchina.
Fechei o livro.
Continuava insone.
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A chegada da tua mãe mudou a minha paisagem, já não era capaz de pensar noutra coisa. Era o amor em botão, o amor que ainda não se vê. Como as flores da figueira. O figo é a tal flor que floresce para dentro, em segredo, que não sabe expor-se ou não quer expor-se. O Dois Metros apercebeu-se disso logo nos primeiros dias.
— Estás distante.
Era curioso que usasse aquela expressão, estás distante. Acho que Deus nos dá, à nascença, uma quantidade dela, de distância, e nós usamo-la como acharmos conveniente. Assim, podemos gastá-la em passos, passeios, viagens, enfim, na materialidade da geografia, ou usá-la sem nunca sair do lugar, criando um território entre nós e as pessoas que nos rodeiam. Podemos viver dentro de uma muralha, não sair dela, mas gastamos a distância com quem partilhamos o quotidiano ou saímos dessas muralhas e esbanjamos distância deslocando-nos, física ou mentalmente. Ao fazê-lo, por um motivo que nos pode parecer metafísico, aproximamo-nos das pessoas de quem estamos fisicamente longe.
Ou seja:
1. Ou gastamos a distância fisicamente e estamos emocionalmente perto de todos com quem nos cruzamos 2. Ou gastamos a distância emocionalmente e ficamos emocionalmente distantes de todos com quem convivemos fisicamente
3. Ou gastamos a nossa distância mentalmente e ficamos emocional e fisicamente próximos de quem nos rodeia
— Distante, como? — perguntei ao Dois Metros, sem lhe dar muita atenção.
— Distante, desinteressado, alheado, avoado, distraído, não tenho mais sinónimos, eu falo em nuvens, tu falas em sapatos.
Não lhe respondi.
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A curcuma foi um dos ingredientes que a tua mãe usou no primeiro jantar, a curcuma é um remédio e um alimento. Não sei se isso não será uma espécie de sinónimo.
Depois da morte do meu pai, assumi a direcção da propriedade. Também eu, imitando-o sem consciência disso, comecei a passar serões atrás de papéis. No livro de contabilidade (o livro de contabilidade substituiu o livro das contas, de modo natural, tal como a maturidade substitui a infância), a partir do primeiro jantar que a tua mãe cozinhou, comecei a anotar nas últimas páginas os nomes de todos os ingredientes que ela usava, bem como algumas ideias sobre eles. Pareciam orações ou pequenos tesouros. É claro que eu já conhecia o açafrão-da-índia, mas nunca tinha pensado nele como um alimento distante, um alimento cheio de longe. Enfim, peguei num dos livros da biblioteca do pai e procurei informações
— Que fazes? — perguntou o Dois Metros.
Eu não respondi directamente, li o que dizia o livro e balbuciei umas palavras, que a curcuma é milagrosa, dá cor ao budismo, é anti-inflamatória, cura todas as maleitas, faz milagres, arranja-nos, corrige-nos, diz-se que pode até fazer, não, isso seria demais, pode até fazer um coxo andar. Mas a característica que mais me fascinou foi quando, semanas depois, reparei que as colheres de pau não perdiam a cor de poente, como se tivessem sido mergulhadas na luz que se derrama nas praias ao final da tarde. As colheres estavam irremediavelmente tingidas. Era uma memória luminosa que não saía com água.
— Fica para sempre.
— Que dizes?
— As colheres de pau ficam irremediavelmente tingidas,
— Vês? Era a isso que me referia, estás diferente...
— a curcuma, por mais que tentemos
— Vou-me embora.
— enxaguar, não sai, é como ela,
— Ela, quem?
— tingiu a minha vida toda. Não sairá com os anos.
O olhar dela é cor de curcuma, anotei eu no livro de contabilidade enquanto o Dois Metros saía furioso, batendo com a porta.
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Com a chegada da tua mãe, a nossa mesa diversificou-se, era fácil reconhecer o mundo inteiro no nosso prato, era uma espécie de planisfério, já não se limitava a três ou quatro ingredientes com bacalhau. Comíamos toda a geografia possível, e o nosso território, sem sairmos da quinta, deixou de ser apenas aquilo que, mesmo não sendo dali, fazia parte do nosso ali, como coentros, sardinhas, porco, azeitonas, nabiças, borrego e bacalhau. Essa foi uma das dádivas da tua mãe. Alimentou-me, alimentou-nos, com o mundo todo, e pela primeira vez tive a sensação de perfeita plenitude e harmonia, não apenas pelo estrangeiro que a comida continha, mas por todas as sensações exógenas que agora me habitavam. É evidente que a comida era um símbolo de tudo o que mudava na minha vida. Um espelho carnal da alma.
Foi uma luta difícil de travar: tantos anos a erigir uma muralha interior contra o estrangeiro, com o fantasma do meu pai sempre presente, a sussurrar-me por cima do ombro que tudo era simples, para depois a presença da tua mãe, em poucos dias, fazer ruir serenamente toda a construção de pedra da educação que recebi. O fantasma do meu pai foi perdendo força, como se fosse sendo varrido pela corrente de ar de janelas deixadas abertas. É certo que sempre que olhava para a tua mãe de perto me magoava, porque tudo aquilo abalava os meus alicerces e a minha educação, mas, por outro lado, havia um prazer ao qual não conseguia virar costas, um pouco como o picante que nos aleija, nos faz chorar e, mesmo assim, procuramos com avidez e deleite.
Anotei no meu caderno de contabilidade:
Quando olho para ela, vejo uma janela aberta.
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Um dia, caminhava na rua quando vi claramente que o mundo se dobra de uma maneira estranha, que um acontecimento neste lugar está ligado a acontecimentos em lugares distantes, sem ligação óbvia, como quem dobra uma folha e liga dois pontos dessa mesma folha, que de outro modo jamais se tocariam. Vi, nesse dia, o mundo formado dessa maneira e percebi que, por vezes, podemos ver as estruturas desses fios que unem invisivelmente, sem causa e tempo e efeito lógicos, todas as coisas. Imagina um arco-íris, como esse arco liga dois pontos e quando nos movemos ele liga outros dois e, se nos movermos mais um pouco, ainda outros dois, acabando por unir tudo. Os arcos-íris, explicou-me uma vez a minha mãe, teria eu uns oito ou nove anos, são uma aparição fugaz dessa estrutura implícita no Universo. De repente, vemos as costuras.
A mãe que me levava pela mão, baixando-se à minha altura, explicou-me que no fim do arco-íris não estava um pote com moedas, como diz a ciência, mas que aquilo eram as costuras do céu, que por vezes se viam, se destapavam.
— Não percebo.
Um dia vais perceber.
A minha mãe levantou a bainha da saia.
— Vês, tudo tem o seu segredo.
Agora, muitos anos depois, não sei se era isso que a minha mãe me queria dizer, mas olho para aqueles pontos de linha, arcos como os do céu, que mantêm a saia inteira, do mesmo modo que a realidade é mantida inteira por outros arcos escondidos, arcos que a chuva e o sol por vezes desvendam.
Creio que essa ideia da minha mãe talvez viesse do facto de tocar piano e coser. É que o piano não se toca numa sequência linear, como passam os dias, um a seguir ao outro. O piano não se toca cromaticamente, começando numa ponta e acabando na outra, o piano toca-se premindo teclas afastadas, notas distantes entre si, que se encontram simultaneamente em harmonia, apesar de estarem fisicamente afastadas, sem qualquer contacto directo. Tal como a minha mãe cantava com as outras mulheres as canções da rádio. No piano, as composições são feitas graças ao arco que a mão faz por cima dos acontecimentos, das teclas. Neste caso, a mão do pianista é um arco-íris. De resto, era assim que os vestidos, os casacos, as camisolas e as saias se mantinham coesos, não por o tecido ser um contínuo mas por arcos invisíveis unirem partes cujo tecido não une directamente. Assim como nós, em tudo o que fazemos, consumimos a distância: ingredientes que encerram em si milhares de quilómetros, pessoas e olhares do outro lado do mundo; oceanos distantes que nos molham com chuva (as nuvens são mãos de pianista para a água dos mares); respiramos átomos com milhares de milhões de anos, somos tão absolutamente recentes como absolutamente velhos. Por mais distantes que estejam acontecimentos ou objectos ou seres vivos, estão unidos pelos arcos invisíveis das costuras do Universo.
O mundo do meu pai estava a desaparecer para me deixar ver o arco-íris que a minha mãe apontou quando eu tinha oito ou nove anos.
Nesse dia de epifania, em que vi como o mundo se dobrava em infinitas costuras, foi também o dia triste em que, desde que decidira casar com a Fernanda, verdadeiramente olhei para a minha mãe e vi que sofria, que definhava sozinha, sentada ao ritmo do tiquetaque das agulhas de tricô, isolada do mundo, uma náufraga no meio da nossa sala, agarrada a um cachecol inacabado para não ir ao fundo, e que de vez em quando entoava timidamente uma canção que ouvia na rádio, na tentativa de ainda pertencer a esse coro imenso de mulheres unidas por costuras invisíveis.
Talvez porque finalmente olhei para ela, talvez porque essa fosse a única coisa que ela esperava, um olhar, um olhar, um olhar, a minha mãe largou o cachecol que tricotava e caiu à cama, magra e fraca. Em poucos dias, já não era capaz de se alimentar.
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O Dr. Vala não me dava nenhuma esperança em relação a uma recuperação. Como é que eu pudera deixar de reparar na rápida erosão do seu corpo? Era certo que a minha mãe tinha uma presença diáfana, de fada, mas agora parecia-me um absurdo inexplicável eu não ter reparado na pele macilenta, na tristeza encovada nos seus olhos. Cheguei a culpar a Fernanda por isso, por não me ter chamado a atenção, mas era tudo tão óbvio que os outros achavam que a minha atitude desprendida e desafectada não era desconhecimento, mas uma estranha maneira de lidar com a dor. Com a alegria, todos riem de maneira semelhante, mas, face ao sofrimento, a atitude é quase sempre uma surpresa.
Depois de um almoço de negócios, sentei-me a seu lado, junto à cama. Ela agarrou-me a mão e com a outra desenhou um arabesco no ar: nós damos muitas voltas, as voltas que quisermos, mas o amor vai sempre em linha recta.
Parecia contradizer o facto de todos os lugares estarem unidos por costuras invisíveis, uma linha recta não admite esses arcos que, numa batota ontológica, fazem coincidir opostos.
— Nós achamos que ele é que anda aos esses, mas somos nós. Ele lá vai como uma estrada a direito e nós é que andamos pelas bermas, por atalhos, por outros caminhos e por vezes voltamos a encontrar aquela estrada, sempre a direito, que é o amor.
Pensei muito nisto e foi a tua mãe que, mais tarde, me forneceu a solução, mas ali, confuso e desfeito pela dor, a estranha serenidade sentenciosa com que a minha mãe falava contrastava com a ideia que se tinha dela, de mulher simples, leve, semitransparente, e, talvez por isso, as suas palavras tenham feito tanta pressão no meu peito, que de repente comecei a chorar. Soluçava violentamente ao seu lado, agarrando-lhe a mão enquanto ela, com a placidez que sempre tivera, fixava o tecto com um subtil sorriso no rosto, repetindo, vai a direito, o amor.
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Desejava, quando observava a tua mãe, que ela não fosse tão bonita. Inventava-lhe defeitos: o nariz era demasiado pequeno, a pele demasiado lisa, não era suficientemente alta, falava mal a minha língua, era estrangeiro, era distância, mas esses defeitos que eu inventava não se instalavam nela, não a arranhavam, passavam como vento e desapareciam sem qualquer efeito prático, e rapidamente eu retornava ao desejo de que ela não fosse tão bonita.
Era também uma pessoa feliz. Sim, desde que conheci a tua mãe, sei bem o que isso é. A felicidade é o cenário onde vivemos. Podem acontecer coisas terríveis, mas o fundo, a paisagem, está sempre lá, sorridente. Os acontecimentos tristes, alegres, confusos, intensos, enfadonhos passam, obrigam-nos a ter sentimentos condizentes, a chorar, a rir, mas, lá no fundo, o cenário mantém-se incólume, uma espécie de sorriso imperceptível. Mesmo num mundo absurdamente infeliz, como o nosso, ela floria com uma alegria tímida mas inabalável. Eu seria muito infeliz num mundo feliz. Ela seria feliz em qualquer mundo. Mesmo naquele, que é o dela, em que a guerra arrasou o seu país, a separou dos pais, a obrigou a fugir, lhe roubou a infância e a juventude, a guerra que na sua arrogância obscena suspende a Humanidade. Mesmo nesse mundo, ela ainda tinha, por debaixo da dor, o tal sorriso quase imperceptível, inquebrantável na sua suavidade.
Um dia, as nossas mãos tocaram-se, as minhas e as da tua mãe, dedos com dedos, nós com nós, unhas com unhas, um pequeno incidente, mas não se separaram imediatamente. A pele é uma coisa que fica para sempre, tocamo-nos e depois ela fica o mesmo lençol para toda a eternidade. A pele que se toca com amor fica ferida para sempre. As nossas mãos ficaram juntas uns segundos, séculos, férias, milénios. Ela estava a limpar o pó, eu estava a colocar um livro na estante. Aquele toque episódico poderia ter sido uma luta terrível e épica contra os meus princípios, que ainda considerava sólidos e inexpugnáveis, mas foi apenas um momento de doce tranquilidade. Senti uma felicidade estranha, como se nunca a tivesse experimentado em nenhuma das suas variantes, como se a felicidade fosse um bicho exótico que nunca tinha visto, um animal mitológico. E, no entanto, esse momento de extremo júbilo que me percorria estava manchado pela doença da minha mãe, deitada num quarto mesmo ao lado da minha felicidade, ao lado da minha mão que tocava na mão da tua mãe, que tocava o lugar mais longínquo da Terra.
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A tua mãe passava bastante tempo com a minha, na verdade, mais do que eu e mais do que a minha mulher e mais do que a velhíssima criada da Mealhada. Havia uma empatia entre as duas, um silêncio que as unia. Talvez por vir de tão longe, da Cochinchina, que fica para lá do longe, a tua mãe tivesse gastado toda a sua distância disponível e só lhe restasse a proximidade. Ficava por vezes a observá-las, a reparar nos gestos que pareciam fruto de uma coreografia encenada, de tão harmoniosos e coordenados, ao ponto de, por vezes, eu próprio me confundir sobre quem de facto tinha mexido a mão, se a minha mãe, se a tua.
A Fernanda tomava zelosamente conta da casa e da medicação da minha mãe. Sentava-se no seu quarto, como era costume passarem as tardes, a tricotar ao seu lado, em silêncio, antes de ir à farmácia verificar as contas. Ao sair, ajeitava o lençol que cobria a minha mãe, e esse era o seu mais generoso gesto de carinho.
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Num final de tarde, estava a minha mulher na farmácia e a tua mãe a passar a ferro na sala quando passou uma música na rádio, uma daquelas músicas que serve para dar solidez à vida, para a espessar, quando eu voltei a tocar-lhe na mão, desta vez num gesto deliberado, e ela virou-se lentamente, olhou para mim e começámos a dançar. Eu disse que não queria, que não sabia, que era aleijado, ela respondeu que dançar era ir a direito dando voltas como parafusos, e isso explicava a definição de amor que a minha mãe desenhou com o dedo no ar.
— A direito?
— Sim, dançar é a direito, só andamos às voltas porque não queremos chegar ao finalidade.
— Ao fim.
— Sim, imagine, senhor, chegar ao finalidade, ao fim.
— Seria a morte.
— Sim, damos círculos uns com os outros porque é assim, é vida. Agarre minha mão.
Agarrei-lhe a mão, encoste o seu cara no meu, deixe que o corpo não o leve ao finalidade, e eu encostei a minha cara à dela e corrigi, não é ao finalidade, é ao fim, e ela confirmou, sim, ao fim, devemos andar aos círculos até finalidades, voltei a corrigi-la, até ao fim, sim, disse ela, dançámos.
Fui aproximando os meus lábios dos da tua mãe, fazendo a viagem da orelha dela até à boca, e quando os cantos dos nossos lábios já se tocavam e a respiração se confundia, os corações a bater irregulares como as agulhas de tricô das tardes da minha casa, ela afastou-me com um sorriso tímido. Voltou para a tábua e continuou a passar.
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Foi com uma sensação de glória e ao mesmo tempo de derrota que beijei pela primeira vez a tua mãe quando a trazia das compras (o saco com vários tipos de farinha, sultanas, tomates, alcaparras, sésamo e caril). Parei junto a uma rotunda e aproximei os meus lábios dos dela. A tua mãe olhou-me nos olhos, como quem põe o indicador e o polegar sobre as pálpebras, e anunciou: és a primeira pessoa que eu sou apaixonada (frase que anotei no livro de contabilidade).
A ordem não me fazia diferença. Ou melhor, fazia. Eu poderia ser o milésimo, desde que fosse o primeiro, o único. Isso não reflectia uma ordem cronológica, mas quantiosa. Eu não queria ser o primeiro, queria ser o mais importante. Não tinha nada que ver com ordem, como, aliás, nunca tem. O amor não obedece a esse cromatismo do tempo, um dia a seguir ao outro, dá saltos como uma gazela do cântico dos cânticos e, por incrível que pareça, vai a direito, como quem dança.
Nesse dia, ao deitar-me, sabia precisamente o que teria de fazer: abandonar a minha mulher, casar-me com a tua mãe. Cumprir o destino dos contos infantis: ser feliz para sempre.
Não seria assim, como bem sabes, mas eu tinha conquistado naquele dia a verdadeira noção de beijo, éramos dois seres de janelas abertas, e o que me ficou marcado a fogo na alma foi exactamente o oposto daquilo que senti quando pela primeira vez beijei a minha mulher.
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A tua mãe chamava flores-fogo ao fogo-de-artifício.
Não foi, com certeza, coincidência que, na noite que se seguiu ao primeiro beijo, os festejos da Santa na vila tivessem feito iluminar a noite com fogo-de-artifício.
Flores-fogo.
O céu nocturno era uma imagem da minha alma. Durante os festejos, enquanto aquele desabrochar de luz enchia o céu de flores e as mulheres e os homens rodopiavam e riam ao som das concertinas, eu não tirava os olhos da tua mãe, que entrevia do outro lado do largo, através dos corpos que bailavam em círculos atirando sussurros aos ouvidos de amantes. Parecia que observava aqueles casais a dançar, mas apenas fixava a tua mãe, pequenos pedaços dela por entre tantos corpos, a visão fugaz de um pouco da manga da sua camisola, um pouco de uma perna, um pouco do cabelo, depois um pouco do rosto, uma das mãos, partes da sua figura que imediatamente deixava de ver com o rodopio dos amantes que se interpunham, indiferentes aos enamoramentos alheios. A minha mulher recolheu-se cedo, estou cansada, querido, eu beijei-a com a indiferença do costume. Aproximei-me da tua mãe e ela disse-me: reconheço-te desde sempre. Mais tarde, no quarto, antes de me deitar, haveria de anotar essa frase no livro de contabilidade: reconheço-te desde sempre.
Não podia dançar com ela porque não seria aceitável na vila, mas fiquei perto, a uma distância respeitável — o meu pai tinha razão, a distância é uma medida moral —, toda a noite, como um soldado, dizendo frases para o lado e olhando em frente. Também olhando em frente, com as mãos entrelaçadas encostadas ao ventre, a tua mãe contou-me várias histórias orientais (talvez eu não as tenha compreendido na totalidade, talvez tenha alterado alguma coisa, porque a tua mãe não falava um português perfeito e porque havia risos e gritos e concertinas e rebentavam flores no céu) e terminou com uma da sua — e da tua — família.
Disse-me que davam chá de jasmim aos cães de fila, deitavam-nos em camas de seda, para ostentar o seu modo de vida, vejam, até os nossos cães vivem num luxo impensável. A tua mãe pertencia à família Hoang de Da Nang, uma das primeiras a comercializar o chá verde de jasmim na Europa e a levar as damas britânicas a bebericar de uma chávena de porcelana uma infusão mais cara do que as jóias que tinham nos dedos. A família Hoang de Da Nang foi dizimada por uma sequência de acontecimentos que têm tanto de aberrante e insólito como de trágica delicadeza. A filha mais nova foi devorada por um galgo afegão enlouquecido com Porto e ópio, a irmã do meio morreu depois de comer pérolas em frente dos criados para mostrar que a nobreza não comia porco, pato ou rato, não comia nada que não fosse precioso e que quando se deitava para dormir o seu corpo não tocava os lençóis (como se os criados não os lavassem e não a vissem a encher a boca de porco, pato e rato). O pai acabou envenenado com cinábrio e estibina e chumbo, numa tentativa alquímica de viver para sempre sem ter de se alimentar de orvalho, como faziam os sábios imortais chineses. Encontraram-no morto no seu laboratório, que era mantido por nove criados que faziam todo o trabalho, depois de beber um balão de vitríolo, completamente enlouquecido. A mãe matou-se. Sobrou a irmã do meio, que era a trisavó da tua mãe.
A tua mãe rematou a história, dizendo: que bom é sermos silenciosos.
Também anotei esta frase no livro de contabilidade: que bom é sermos silenciosos.
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A minha mãe já não respondia aos estímulos externos. A Fernanda parecia vê-la como uma peça de mobiliário e tricotava à sua frente como se ela fosse a mistura de um toucador com a memória que tinha das tardes a fabricar cachecóis. Eu teria gostado de lhe ter colocado, à minha mãe, o dilema que me fazia sofrer, de lhe ter perguntado o que fazer na situação em que me encontrava. Sentava-me ao lado dela, sem qualquer esperança, simplesmente à espera do momento em que a inevitabilidade substituiria o seu corpo na cama, o instante em que o volume de um cadáver se torna o volume da dor.
Infantilmente, e porque já não havia esperança, imaginava que de repente se dava um milagre e a minha mãe recuperava a lucidez, agarrava na minha mão e corrigia tudo, como fazia ao amar a minha deformidade. Haveria também de corrigir a minha vida, perdoar-me, levantar-me, empurrar-me para a felicidade de viver com a tua mãe, derrotando phobos e deimos, porque a outra vida, a que eu levava, não valia a pena ser vivida. A minha mãe levantar-se-ia, dar-me-ia o braço para me ajudar a coxear na direcção certa, que seria simplesmente sair de casa. Todos os anjos caídos serão levantados. Um mal absoluto pode obter a redenção de um amor absoluto. Se Deus não for capaz disso, qualquer mãe saberá fazê-lo. Os coxos andarão. Todos os coxos correrão pelos prados.
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Fui adiando a conversa necessária, do divórcio inexorável, com a minha mulher, porque não a queria magoar. Perante a rigidez da minha educação, tudo aquilo me deixava angustiado, ansioso. Lutava contra uma palavra, ou contra várias, era sempre assim que queria falar. Por vezes, ficava com a língua coxa do combate violento.
— O que é que se passa contigo? — perguntava-me ela.
Nada, respondia, incapaz de lhe confessar que tinha sido infectado, primeiro pela claridade, depois pelo mundo todo. Mas, sobretudo, por um quotidiano que me trespassava com distância, porque o mundo, o meu medo, era impossível de conter nos parâmetros ilusórios que criara na esperança vã de serem eternos.
A tua mãe, por não falar correctamente, tinha a poesia de quem erra, que, por vezes, é a mais bela. Se queria dizer que a comida estava picante, dizia: abre os teus lábios e arde. Era impossível evitar o embaraço de uma frase destas pronunciada ao jantar. Não creio que a Fernanda tenha sido imune ao impacto destas frases, ingénuas e embaraçosas, ainda que sem essa intenção. Frases que acabavam imortalizadas no livro de contabilidade.
Fui adiando a decisão de acabar com o casamento, à espera de encontrar o momento certo para lhe anunciar a minha escolha, e depois às famílias, à minha e à dela. Foi por essa altura que a tua mãe entrou no quarto e me disse, em tom solene, que tinha um assunto muito sério para tratar comigo.
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Mostrou-me uma barriga perfeitamente lisa, disse que estava grávida. Tenho verdade nos olhos, disse-me a tua mãe (querendo dizer que tinha a certeza — mais uma frase que anotei no livro de contabilidade). Foi deste modo que foste anunciada, sem anjos de trombetas, mas com os gestos lentos da tua mãe, que passava a mão pelo seu ventre, a tua primeira pele. Fiquei feliz, ainda mais convicto daquilo que teria de fazer. Mas fui, mesmo assim, adiando o divórcio, por ser incapaz de falar com a Fernanda. O momento certo para uma revelação daquelas não vinha. Nesse dia sentei-me junto à minha mãe, mesmo sabendo que não obteria qualquer resposta, anunciei-lhe que me tornaria pai e ela seria avó. Agarrei-lhe na mão, levei-a ao rosto e beijei-a emocionado.
Apesar dessa hesitação pantanosa relativamente à separação, estava exultante. À noite, pé ante pé, saí do quarto para ir ter com a tua mãe. Pela primeira vez dormi com ela, não nos limitámos a um encontro amoroso furtivo, enfiados num canto da propriedade, escondidos atrás de um arbusto, numa arrecadação, no celeiro, dentro do carro. De madrugada, já a luz havia despontado, voltei para o meu quarto. A minha mulher dormia profundamente. Só mais tarde me lembrei, ao reviver essa noite, que quando saí do quarto da tua mãe a porta estava encostada, apesar de, tenho a certeza, a ter fechado e me ter certificado disso ao entrar.
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Dois dias depois, quando fazíamos amor escondidos na garagem, entre as chaves-inglesas e o óleo dos carros, a tua mãe disse-me que tinha de voltar, que o seu pai estava a morrer. Mas como?, perguntei, voltar para aquele país devastado! E ela disse que não havia outra possibilidade além de regressar. Vou até meu primeiro dia, salvar meu primeiro dia, estar ao lado desse dia quando ele morrer. Enfim, mais uma frase que não queria esquecer e que também anotei no livro de contabilidade, a definição de país como primeiros dias, como o início de tudo, do nosso Universo.
Compreendi a necessidade de ela voltar para a Cochin-china. Haveria de ir ter com ela, pensava eu, sem saber que o pai não era o verdadeiro motivo pelo qual voltava para a Ásia. Quando acordei, no dia seguinte à partida da tua mãe, senti que me faltava o interior, que me haviam roubado as entranhas, como se eu fosse apenas um fato de pele, uma espécie de cenário.
Três dias depois, percebi outro fenómeno, muito mais triste. Apesar de ter prometido que iria ter convosco, na verdade, comecei a sentir uma espécie de alívio. A pressão de comunicar a separação inevitável podia ser adiada para uma altura melhor. Ainda pensava em seguir-vos, claro, tinha a certeza de que o faria, mas a distância física foi criando uma outra distância, muito pior, e durante o dia pensava cada vez menos em vocês, a claridade dos olhos da tua mãe foi-se esbatendo dentro de mim. Voltei a comer somente coisas do meu mundo, cozinhadas por uma nova criada da terra que substituiu a tua mãe na cozinha, foi tudo encolhendo, ficando mais apertado e penumbroso. Uma semana depois, apenas uma semana depois — que vergonha, diminuir assim o amor —, percebi que tinha começado um trabalho eterno, o de esquecer a tua mãe. Um bocadinho a cada dia.
Para complicar, a minha mãe, moribunda, acamada, impossibilitava ou dificultava que eu me ausentasse, nem por uns dias, quanto mais para o outro lado do mundo, sem sequer saber quando regressaria. Deixar a minha mulher era em si um acto difícil, mas sê-lo-ia muito mais deixar a minha mãe morrer sem que eu estivesse presente, a segurar os seus últimos momentos de luz com os meus olhos. Também eu tinha os meus primeiros dias para salvar, para acarinhar.
O corpo da minha mãe desfazia-se, abria-se em feridas, devido ao tempo que levava acamada. Era a Fernanda que, negando auxílio externo, tratava dela. Era mais um motivo para que me fosse penosa a separação. Talvez isto seja tudo uma parca desculpa para a minha poltronaria, mas, em meu abono, considero que tinha alguma razão.
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Meses mais tarde, chegou um momento-chave, em que decidi que iria ter convosco, que não passaria daquele dia (ou talvez do dia seguinte): anunciaria a minha intenção de abandonar a minha mulher, a minha mãe (a frase do evangelho, «os mortos que enterrem os mortos», ecoava na minha cabeça), e partiria de imediato. O que fez renascer essa vontade e determinação foi a carta que recebera.
Tinhas nascido.
Tinhas dado o primeiro passo para fora, tinhas finalmente experimentado a luz e o vento e o tacto, era o começo de uma viagem, a mais difícil de todas, deixando para trás o conforto da escuridão morna do útero, das águas do início, quando dias e noites ainda não existiam, tinhas largado a tua primeira casa para experimentar os phobos inevitáveis do estrangeiro, a parte de fora das paredes do ventre.
Dentro do envelope havia uma fotografia tua com o teu nome completo, umas palavras ansiosas da tua mãe, uma pergunta:
«Quando chegas?» Coxeei, determinado, para o meu quarto e fiz uma mala o mais rapidamente que pude, pus lá dentro algumas roupas, não levaria muita coisa, depois se veria. Dirigi-me de seguida para o quarto da minha mãe, com a felicidade de me ter tornado pai. Levava na mão a carta que te anunciava. A minha mãe haveria de entender, ela era capaz de entender tudo. Partiria em breve. Fiz os possíveis para me acalmar, puxei o banco para junto da cama. A minha mãe de olhos fechados, peguei-lhe na mão. Estava fria. Tentei acordá-la, dizer-lhe que já era avó. Ela, no seu silêncio de pedra, entenderia. Eu partiria.
Mas fora ela quem partira.
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Repeti tantas vezes, eu adoro a minha mãe, eu adoro a minha mãe, eu adoro a minha mãe, mas Deus ou o destino ou o Universo não querem saber da agonia dos filhos, e quando repetimos o nosso amor e o atiramos ao céu somos apenas como mendigos que puxam a fralda da camisa de turistas burgueses que os ignoram enquanto tiram fotografias a cúpulas de igrejas e a frescos renascentistas. Eu adoro a minha mãe, eu adoro a minha mãe, e havia um silêncio absoluto no quarto, eu adoro a minha mãe, mais silêncio, eu dizia estas palavras para dentro, como se o facto de me encher com elas me alimentasse e fosse ocupar o vazio que a sua ausência deixaria. Evidentemente, não há palavras, por mais que sejam repetidas, capazes de tapar buracos.
Os meus olhos escorriam lágrimas e eu perguntava-me como seria a minha vida sem ela, como seria o céu sem ela, como seria a noite sem ela, como seria o sabor da comida sem ela, a que cheiraria um jasmim sem ela, os meus olhos escorriam lágrimas e eu repetia eu adoro a minha mãe, eu adoro a minha mãe, eu adoro a minha mãe.
Quando levantei a cabeça, estava junto a mim, com as mãos nas minhas costas, a minha mulher. E a criada velhíssima.
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Dormi dois dias seguidos, após o enterro. Nem reparei que a mala que fizera não estava onde a tinha deixado. Estava arrumada no armário e as roupas que tinha posto dentro dela tinham voltado aos respectivos cabides e às gavetas.
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Passaram-se semanas, a morte sobrepusera-se à vida, ganhara espaço, a morte da mãe foi apagando lentamente a felicidade de teres nascido.
Mas ainda pretendia separar-me e partir, por isso, e, para não adiar mais, decidi — de novo — que não deixaria passar mais um dia. Contudo, na semana seguinte, tive de me ausentar em trabalho e a tal conversa com a minha mulher voltou a ser adiada. Uma semana depois, a beber chá ao final da tarde, pronto a anunciar a decisão irrevogável que tomara, a minha mulher disse-me que estava grávida. Fiquei baralhado, mas, não escondo, feliz. Tinha-se instalado um grande dilema: magoar uma ou magoar outra, o que deveria escolher? E as nossas famílias? E tu? E a gravidez da minha mulher? E os meus princípios? Não havia maneira nenhuma de sair moralmente ileso daquela situação. E, mais uma vez, a conversa foi adiada, precisava de meditar sobre tudo o que me acontecia, interior e exteriormente.
Dois ou três meses depois, ainda pensava seguir-vos, mas já não era um desejo, fora algo que me impusera como meta, uma missão que era agora apenas um ruído de fundo dentro de mim. Cada vez escrevia menos à tua mãe.
Procurei o Dois Metros para desabafar, apesar de estar profundamente magoado com ele, já nem me lembro do motivo, de tantas que foram as nossas zangas. Recebeu-me com frieza, um olá dito entredentes. Quando lhe disse que ia ser pai, encolheu os ombros. Eu já não aguentava mais, podia ter um pé deformado, mas tinha braços saudáveis, tentei um gancho de direita que ele facilmente impediu. Desatou a rir. Saí, ofendido, com a certeza de que acabáramos de ter a nossa derradeira contenda.
O som do Outono ouve-se com os sapatos. Quando as solas partem as folhas secas das árvores.
Cada vez que o Outono se partia debaixo dos meus pés, pensava na tua mãe, em como tudo acaba, como o amor se parte como folhas secas.
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A minha mulher abortou e viu-se na impossibilidade de ter filhos. O desejo de fazer as malas e partir voltou, mas a tristeza que encontrava nos seus olhos impedia-me de o fazer, não podia ser tão cruel, precisamente na altura em que ela mais precisava de mim. Voltei a adiar a minha missão outonal. A minha mulher tinha uma voz tão triste, que tudo o que dizia parecia belo. É que a beleza é assim, é triste, tem voz triste.
Nos momentos mais difíceis, deitava-me no chão a olhar para o tecto. Imaginava muitas coisas, queria saber muitas coisas: se sorrias durante o sono ou se dormias como uma concha ou com os braços abertos. Levava muitas vezes o meu pensamento ao teu quarto e deitava-me no chão, aos pés da tua cama, como um cão, e ficava ali só a ouvir-te respirar.
Quando discutia com a minha mulher, pensava: amanhã faço as malas.
Mas depois voltava a adiar.
E os anos passaram.
Não pararam de passar.
Os anos são eficazes a passar.
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Fui definhando sem que me inteirasse disso. Aos poucos, a minha pele ficou mais dura, a alma mais dura, o espelho devolvia-me uma figura que cada vez se parecia mais com a do meu pai, era tão simples quanto isso, apesar de já não ser capaz de barbarificar o mundo (até porque eu estava desfeito: uma parte de mim habitava na Cochinchina, nesse lugar que fica depois da definição de longe, outra, junto a uma lareira ou atrás de papéis). Já tinha começado a construir a mesma solidão que enclausurara o meu pai, desejando o silêncio e o enfado próprio da vida sem sobressaltos. A velhíssima criada parecia ter cometido o erro mitológico do filho de Laomedonte, que pediu a imortalidade a Zeus, esquecendo-se de pedir também a juventude eterna, e foi envelhecendo, envelhecendo, envelhecendo. Thanatos esquecera-se da minha criada, e ela, que se mexia como um camaleão, aos soluços, como se tropeçasse em si própria, ainda impunha a sua ordem na casa, chegando a sobreviver à minha mulher, que morreu prematuramente de um choque anafilático provocado pelas picadas de um enxame de abelhas. Encontraram-na inchada e vermelha no meio das vides. A criada velhíssima aproximou-se de mim, estava eu atrás dos papéis a fazer as minhas contas, quando ela, com uma voz que parecia ter sido acabada de desenterrar, me anunciou o sucedido, com o rosto impassível, não sei se por insensibilidade ou por dificuldade em mover os músculos da cara. Quando a vi aproximar, fiz um gesto para a afastar, não queria ser incomodado. Há anos que não queria ser incomodado. Ela aproximou-se, ainda assim, e disse, com a lentidão exasperante da solenidade, a patroa está morta. Não percebi à primeira e ela repetiu, a patroa está morta. Não reagi de imediato. A criada ficou em pé, ao meu lado, enquanto eu acabava as minhas contas.
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Depois da morte da minha mulher, não me senti mais só, porque a minha solidão era daquela espécie de solidão que não se sente. É como água para os peixes, respiramo-la. Nem sequer pensei em procurar-vos. Continuei a viver exactamente como tinha vivido nos últimos anos, atrás da secretária ou à frente da lareira ou a garantir a estabilidade da propriedade e da sua produção, enfim, a cumprir zelosamente a tarefa de me manter vivo, respirar, comer, dormir, intervalar com a indulgência de beber uma aguardente, fumar cachimbo, para voltar ao exercício de respirar, comer, fazer contas, dormir, esperar, manter tudo igual, garantir que o dia de ontem é igual ao dia de amanhã até que a morte me separe da rotina e me leve para um paraíso em tudo semelhante à vida na Terra, mas ligeiramente melhor, sem a desagradável maçada de ter de respirar, de ter de comer, de ter de dormir, um paraíso de descanso absoluto, pela eternidade fora.
Não me dera conta de que tudo desaparecera da minha vida, a minha mãe, a tua mãe, o meu pai, o meu melhor amigo, a minha mulher. Não me dera conta de que não fora somente o meu passado a desaparecer, tinha feito a mesma prestidigitação com o futuro: nessa actividade fastidiosa que é viver a vida plana (e não plena), também tu tinhas desaparecido.
Mas, ao contrário do que o meu pai dizia, as coisas nunca são tão simples quanto isso. Aliás, se há uma boa regra a ter em consideração, uma regra tão simples quanto isto, é a seguinte: nada é tão simples quanto isso.
No meio da placidez inviolável do meu mundo, não me dava conta de que algo se movimentava dentro de mim, como uma doença invisível ao diagnóstico, como uma raiz, como uma conspiração que ia conquistando o meu corpo até que haveria de irromper, brotar da aridez impenetrável da vida enferrujada.
Um dia, sem qualquer razão aparente, a meio de uma reunião de negócios, levantei-me da cadeira — na verdade, levantava-me dos mortos (os anjos caídos serão levantados) — e saí da sala sem qualquer justificação. Era Novembro. Seria a minha terceira missão outonal.
E parti, finalmente, à vossa procura.
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