Princípio de Karenina

Afonso Cruz · Capítulo 4 de 7

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Princípio de Karenina

Capítulo 4

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«A grandiosa frase de abertura do grande livro — não o seu mais importante, mas talvez o segundo mais importante — é (sim, podemos dizê-lo em coro): ‘Todas as famílias felizes se parecem; todas as infelizes são infelizes à sua maneira.’ As traduções variam, mas não de forma considerável. As pessoas citam essa frase tantas vezes que isso deve significar que ela as satisfaz; mas a mim não, nunca me satisfez. E, há vinte e tal anos, comecei a assumir essa insatisfação. Essas famílias felizes — de que ele tão confiantemente fala, apenas para as descartar como sendo todas iguais —, onde estão elas?»

THE WAVE IN THE WIND: TALKS AND ESSAYS ON THE WRITER, THE READER, AND THE IMAGINATION

Ursula K. Le Guin

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A tua mãe tinha saído do Vietname no princípio da década de 70. Talvez ela te tenha contado a história da sua juventude. A infância dela foi destruída por ataques aéreos. Napalm. A tua mãe bebia chá quando teve de sair de casa, a pele a queimar, correr para salvar a vida. Há uma fotografia famosa. Não sei se a tua mãe está nela, mas é possível, talvez não esteja nessa, mas numa muito parecida. É irrelevante, as desgraças são sempre parecidas. Ou talvez sejam todas diferentes e sejam as alegrias que se parecem, como objectos industriais. Tolstoi acreditava que sim. O que me magoa, na frase que abre o romance Anna Karenina — («Todas as famílias felizes se parecem, todas as infelizes são infelizes à sua maneira», que é uma derivação de uma outra, de Aristóteles, relativamente à bondade: «As pessoas são boas de uma maneira e más de inúmeras», e que por sua vez é apenas a formulação moral da perfeição platónica: «a Ideia, a perfeição, é uma, as imperfeições, as suas sombras, são infinitas») — é que, apesar de este princípio se poder aplicar em muitos outros casos, quando se aplica à felicidade parece falhar.

É certo que: Existem infinitos lugares para estar errado, apenas um para estar certo, dois e dois tem um resultado correcto e infinitos resultados errados. É assim que funciona a entropia e os copos inteiros/partidos. Existem inúmeras configurações para os cacos de vidros partidos, mas apenas uma para ter o copo original. Todos os quadrados perfeitos, se nos abstrairmos das suas dimensões, são iguais. São as mazelas, as imperfeições, que fazem «quadrados» diferentes, imperfeitos.

Porém, a felicidade não obedece a essas regras. Estar no lugar errado pode ser fonte de felicidade. Matar-me pode ser fonte de felicidade. Não há condições certas para ser feliz. Existem condições propícias para se estar contente, ou momentaneamente feliz, mas não para ser feliz. Todas as disposições dos cacos de vidro podem ser modelos de felicidade. Disposições imperfeitas, cada uma à sua maneira, mas felizes, cada uma à sua maneira.

Não existe felicidade na igualdade e na monotonia. As famílias felizes terão de ser imperfeitas (ou seja, diferentes umas das outras), é impossível ser feliz sem dor, como diz a música, pergunte ao seu orixá, o amor só é bom se doer. A felicidade é um estado especial que só pode existir se incluir no seu seio uma certa dose de infelicidade, por muito paradoxal que possa parecer. Sem desequilíbrio, nada se move. Um círculo está em constante desequilíbrio. É bom para fazer andar os carros. Os quadrados não têm essa possibilidade. Já estão bem assim, sentados à lareira, a sublinhar a sua hombridade, a sua estrutura sólida. Não são felizes, são produtos industriais saídos de uma máquina de fazer quadrados. A vida é um desequilíbrio e, sem essa instabilidade e assimetria, teríamos apenas um vazio de pedra. A vida que o meu pai desejava. Mas a vida que vale a pena ser vivida precisa do desequilíbrio. De viajar. De abrir janelas.

Os seres vivos são desequilibristas, escrevi eu no meu livro de contabilidade, seguido de:

Ânimo (thymos) é o pano de fundo que resulta na vida feliz ou infeliz, independentemente dos acontecimentos. Se o ânimo se mantiver positivo (euthymia), acima de zero, a vida é boa. Se for negativo, ou seja, desânimo (dysthymia), a vida é infeliz mesmo na ocorrência de acontecimentos felizes: eu seria infeliz num universo feliz, ela seria feliz em qualquer mundo.

No dia dos bombardeamentos, a tua mãe partiu com os pais, os teus avós maternos.

Num acampamento para refugiados, acordou pela manhã e teve a maior surpresa e o maior medo que jamais sentira, incomparável com o medo das bombas, um dos maiores e mais difíceis desequilíbrios a que a vida nos submete.

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Quando acordou, naquele acampamento, os pais não estavam com ela. A tua mãe tinha sido abandonada, mas repara na antinomia necessária: tinha sido abandonada por amor, porque era a única maneira de a salvar. Sem pais, seria levada para o estrangeiro, onde poderia começar uma vida mais auspiciosa, onde poderia acordar sem bombas a explodir na rua. A solidão e a sensação de abandono fazem explodir partes de nós, aquelas partes específicas que sobraram do napalm.

Como será acordar sem pais aos dezasseis anos?

Como é que a tua mãe manteve aquele ânimo sofrendo revezes como este?

Os pais dela partiram então para o Camboja, na esperança de refazer a vida e resgatá-la do exílio — acreditavam eles — provisório.

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Aterrei em Ho Chi Minh e procurei um hotel. Os phobos dessa viagem eram incontáveis, não pela distância ou pelo tempo, mas pela história que isso implicava. Fiz uma pequena viagem até à costa, antes de procurar a casa de onde a tua mãe me enviou a maior parte das cartas depois da sua partida.

Na praia, fiquei horas sentado na areia a observar um grupo de mulheres a entrar na água, a sair da água, num exercício de voyeur discreto (segurava num jornal e fingia ler), limitado pela fraca acuidade da visão. Nem todos somos Botticelli mas alguns conseguem encontrar beleza nos mesmos temas, em vénus banhistas. Não gosto de nadar. Se entro na água, é para chegar o mais depressa possível a algum lado. Horroriza-me a ideia de o acto de nadar poder ser um prazer. No entanto, observar aquelas mulheres a sublinharem a beleza do mar, a justificarem a sua beleza, comovia-me. Não penses que havia luxúria envolvida. O meu olhar era o mesmo olhar admirado com que um apreciador de arte olha para os nenúfares de Monet. E, de alguma maneira, todas aquelas mulheres me pareciam variantes da tua mãe, derivações e possibilidades que o Bom Deus criou e, sabendo não ser perfeitas, fez, porém, amáveis e graciosas, sublinhando a versão arquetípica.

O olhar interfere no mundo, é co-criador. Nada do que vemos emerge das águas da mesma forma. Não quero trazer à colação aquela bruxaria dos físicos, que dizem que um fotão se porta como partícula porque o cientista voyeur olha para ele, mas é um pouco isto: em nome da verdade, olhamos e as coisas olhadas tornam-se coisas tocadas, assombradas de luz. Tal como uma onda colapsa e revela a partícula, também aquelas ondas colapsavam para revelar mulheres de longos cabelos negros a emergir à superfície, a devolver-nos realidade depois de terem sido sonhadas debaixo de água.

Para mim, que sou aleijado, a beleza conserta-me. Ainda que apenas durante uns breves segundos, mas, quando nos toca, quando a beleza com os tais dedos de luz nos toca, deixamos de ser defeituosos para passarmos a ser pessoas que carregam beleza. São Cristóvão carregou Jesus, é o santo dos viajantes. É o trabalho da viagem carregar a beleza, levá-la de uma margem do rio à outra, do longe ao perto. Fui aprendendo a ser este tipo de estivador, até porque me restou muito pouco da vida para além destes momentos de redenção e assombro face à beleza que, tal como a minha mãe me via perfeito e o seu olhar desfazia a deformidade, desfaz a deformidade.

De volta à capital, a Ho Chi Minh, procurei então a casa de onde a tua mãe me enviava a correspondência. As ruas estavam cheias do barulho das motorizadas, são milhões a circular pelo país, e dos gongos tradicionais que chamam as crianças para a escola. O cheiro do café embrulhava tudo, um café amargo e forte que costuma ser domesticado com leite condensado.

Encontrei a casa sem dificuldade de maior. O prédio, tipicamente vietnamita, passara a ser um restaurante. Comi muito bem, bastantes vegetais, com uma presença forte de coentros, erva-príncipe, hortelã. Pedi um café e acendi o cachimbo. Fiz perguntas sobre os anteriores inquilinos. Confirmaram-me que a tua mãe vivera ali. Uma vez que os teus avós tinham fugido para o Camboja, não sei por que motivo a tua mãe foi viver nessa casa, em vez de os ter procurado imediatamente no país vizinho. Talvez porque estava grávida e preferia uma geografia onde falava a língua e, de alguma maneira, se sentia em casa. Perguntei se sabiam para onde a tua mãe partira, e o dono do restaurante, depois de várias idas e vindas, algumas trocas de palavras com familiares, acabou por anotar num papel uma morada em Phnom Penh, capital do Camboja.

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Depois de ter ficado mais dois dias em Ho Chi Minh, decidi subir o rio Mekong até Phnom Penh. Contratei uma guia.

— Pode chamar-me Sun — começou por dizer quando a conheci —, que o meu nome vietnamita é difícil de pronunciar. Significa raio de sol («My name means sunlight. Ya. Don’ call me electric light. Ya. Thank you so much, Mister. Mister. Ya. Inside our car I can change the temperature. Ya, ya. Outside I can’t. I’m sunlight, not air conditioner. Thank you so much. The travel guide is me. Ya. I don’t speak portuguese. What a pity. Thank you so much. Ya. English is not my first language. Ya. Thank you so much.»)

A cada «ya» que dizia, fazia um aceno com a cabeça.

Fomos de autocarro até ao cais, onde apanhámos um barco para subir o rio.

A Sun não parava de falar. As piadas não eram grande coisa, mas o modo como as dizia fazia-me rir:

— A sua tia é tão sem classe que podia ser uma utopia marxista. Ya. Estava só a brincar. Thank you so much.

Durante o trajecto, parámos para ver a casa do amante de Duras, onde tomámos chá.

O amante de Duras não sabia que era famoso.

Dizem que os maridos são os últimos a saber. Neste caso, foi o amante.

— Mister. Mister, aqui as pessoas são correctas com os pais. Ya.

O maior crime, crime número um, é ser mau para os pais. Crime número dois, posse de drogas. Ya. Mister. Mister, não ande com drogas. Thank you so much.

A cada paragem, a Sun dizia uma piada qualquer:

— Não se esqueça, Mister. Mister, de levar a carteira consigo. Ya. Thank you so much. Se a deixar aqui, eu roubo o dinheiro. Thank you so much. Estava só a brincar. Ya.

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Já em Phnom Penh, encontrei a casa para onde a tua mãe teria ido, um edifício tradicional, como tantos naquela rua, com quatro pisos, o de baixo era garagem ou loja, ao fundo a cozinha, por cima a sala, depois no terceiro os quartos e no quarto o templo. Quis aproximar-me, mas tive medo, as pernas tremiam-me, a cidade toda tremia. A Sun encorajou-me: Vá, não tenha medo. Ya.

Atendeu-me uma senhora chamada Tat, mais ou menos da minha idade. Tinha o cabelo pintado com hena, um cheiro acre misturado com cardamomo, os olhos pintados com kohl, desfocados pelo tempo. Era muito baixa e eu via-lhe o topo da cabeça. Havia pequenos mosquitos a voar por cima do cabelo, extasiados com o cheiro da hena. De dentro de casa chegava o som do rádio, publicidade, cítara, publicidade outra vez.

Convidou-nos para entrar, depois de lhe ter perguntado pela tua mãe e por ti. A Sun sentou-se no chão e serviu-se de um chá com a naturalidade de quem é dona da casa. Eu optei por uma cadeira, que o meu pé detesta o chão.

A Sr.a Tat começou por contar a história do início. Não é tão simples quanto isso, começou por dizer (uma frase que contrariava directamente o meu pai. Gostei dela a partir desse instante). Contou então que os Hoang, os teus avós, conseguiram, graças a uns bons conhecimentos, que levassem a filha para a Europa e tentaram salvar-se emigrando, mas escolheram mal, fugiram de um urso para encontrar um leão. O Camboja para onde se mudaram era uma terra prestes a conhecer uma das maiores tragédias da sua História: Pol Pot dizimou um quarto da população, dois ou três milhões de vítimas em quatro anos.

— Quer chá?

— Não, obrigado.

— A situação era desesperante e não sabiam o que fazer. Estavam a sofrer por terem abandonado a filha, mas que fazer num caso daqueles? Que fazer?, diga-me! Passar a fronteira para o Camboja para fugir da guerra parecia uma opção razoável, eu faria a mesma coisa, sim, tenho a certeza de que faria a mesma coisa, fugir, sim, fugir, era isso que eu faria, o mundo era horror atrás de horror, era infinitamente feio.

— De certeza que não quer chá? De jasmim?

— Não, obrigado.

— Depois, os Khmer — prosseguiu a Sr.a Tat — entraram na cidade. Mandaram as pessoas sair das suas casas, assim mesmo, sair das casas, famílias inteiras, crianças de colo, e mataram quem se recusou, sem piedade, entraram nas casas e dispararam, quem estava na rua ouvia os gritos e estremecia. Levaram toda a gente para o campo. Se alguém dizia que, camarada, não sei semear arroz, era levado para o mato para que fosse ensinado. Expliquem-lhe como se semeia arroz. Davam-lhe um tiro. Tiravam-lhe a camisa. Levavam a camisa e mostravam aos outros. Alguém quer uma camisa? Um incauto dizia que sim, que uma camisa lhe poderia fazer falta. Matavam-no. Porco capitalista, que quer mais uma camisa. Sim, fomos todos para os campos, fomos todos ser iguais, foi lá que os conheci.

— E a filha deles?

— Acontecem milagres no Camboja. Talvez prefira café!

— Estou bem, obrigado.

A Sun comentou:

— Sim, o Camboja é um país de milagres. Ya. O povo recebe menos de três dólares por dia e consegue sobreviver. Outros recebem cento e trinta dólares por mês ou o ordenado mínimo e andam de bmw. Thank you so much. É um país de milagres. Toda a gente faz milagres com o dinheiro. Ya.

Ela ignorou o que a Sun disse, confirmando apenas que o Camboja era um país de milagres, mas não naquele caso.

— O avô de Nhài, o Sr. Hoang, estava muito debilitado e morreu naquele campo. A Sr.a Hoang foi enviada para outro campo e nunca mais a vi. O senhor não imagina o horror, aqueles tempos, foi tudo tão difícil. Até as nossas mãos eram vigiadas, a nossa pele. Se tinham calos, indicavam um trabalhador braçal, se não tinham, indicavam um intelectual. Os portadores de mãos sem calos levavam tiros.

E assim se matou um quarto da população em poucos anos, a morte era um novelo sem ponta. As famílias levadas para o campo tinham de construir a própria casa e tingir as roupas para ficarem todos iguais, achatar o mundo, retirar os altos e baixos com a sola das botas.

— Doeu-nos muito, aos que sobreviveram.

Há quem pense que as coisas artesanais são melhores do que as industriais. Talvez. Depende dos casos. As execuções no Camboja eram artesanais. Tudo feito à mão. Os crânios eram esmagados com o que havia, paus, pedras, e as crianças eram atiradas de varandas. Com essa produção de morte artesanal, poupavam-se munições, gás, explosivos, cordas, venenos. Outros regimes construíram fábricas de morte, o processo era industrial, mas no Camboja era tudo feito à mão. Era uma espécie de artesanato. Não se gazearam dezenas de pessoas ao mesmo tempo. Foram asfixiadas, uma de cada vez.

— Não podia haver cores diferentes — disse a Sr.a Tat. — Era tudo cinzento. Impunha-se destruir a vaidade capitalista. Tudo cinzento.

Son Sen, responsável pela polícia secreta, mandava matar pessoas que usavam óculos porque eram intelectuais. Ele, Son Sen, usava óculos.

Sim. É um dos grandes argumentos contra a plausibilidade de a experiência gerar empatia. Calçar os sapatos do outro pode ser apenas uma maneira de lhe dar um pontapé.

— Era tudo muito difícil. Pais abandonaram filhos porque acharam que era a única maneira de eles sobreviverem. Quantos filhos se esqueceram dos pais? Nunca voltaram a encontrar-se porque tinham menos de cinco anos quando foram separados.

Chegamos à conclusão de que as pessoas são más e de que nada vale a pena. Ou talvez cheguemos à conclusão de que tudo vale a pena. Eu acho que as pessoas não são más nem boas, são como tudo o resto. As pessoas são como o vento, como a chuva, como o mar. Por vezes, o mar põe-nos um peixe no prato, outras, entra pela terra adentro e mata aos milhares. O sol queima e faz crescer, o vento derruba e poliniza, a terra dá arroz e engole cidades, o fogo cozinha alimentos e faz arder as almas. As pessoas são assim, por vezes abraçam, por vezes matam.

— Sim, não há mistério nenhum nisto. Mas poderá ainda estar viva?

— Quem?

— A Sr.a Hoang.

— Ela, antes de partir para o outro campo, disse-me onde vivia, que é esta casa onde estamos. Quando o exército vietnamita entrou em Phnom Penh, quando pudemos finalmente voltar às cidades, eu, deixe-me limpar os olhos, instalei-me aqui, esperei por ela e fui cuidando da casa. Nunca voltou. Sabe o que isso quer dizer?

— Morreu?

— Sim.

Voltou a limpar os olhos antes de acrescentar:

— Mas acontecem milagres.

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— Gosto muito de passear — disse a Sr.a Tat, retomando o fio da história —, caminho de templo em templo, faço as minhas oferendas, espero que os deuses sejam benevolentes. Adormeço tranquilamente, não devo ter cometido demasiadas injustiças noutras vidas, a avaliar por esta. Um dia, quando ia entrar em casa depois de um passeio, a filha do casal Hoang apareceu aqui. Trazia um bebé nos braços, uma menina chamada Nhài.

— Quer dizer jasmim — disse a Sun.

— Não imagina como é ingrato ser arauto de notícias tão terríveis. Ao saber da morte dos pais, chorou durante vários dias. Contou-me a sua história, o que não ajudava ao drama. Uma mãe solteira neste país não é coisa boa. Ficámos amigas. Gostava dela, era silenciosa mas parecia que nos conhecia profundamente. Fazia sempre os gestos certos. Sim, era isso, era como se nada nunca estivesse errado nela. Cozinhava maravilhosamente. Partilhámos a casa durante uns meses, eu, ela e a filha. Pobre mulher. Que destino triste.

— Triste? Que lhe aconteceu?

Levantou-se.

— Preciso de me mexer por causa da circulação.

Subiu as escadas e deixou-nos, a mim e à Sun, ali sentados. Levantei-me e fui atrás dela, a coxear. Não aguentava aquela interrupção na história. Fui encontrá-la no último andar a fazer alongamentos. Indiferente à minha presença, pôs incenso a queimar. Sem se voltar, disse:

— Ficámos amigas.

— Já tinha dito.

— Deixou uma carta para si.

Levantou-se e descemos as escadas até à sala. Abriu uma gaveta e tirou uma carta. Abri-a, bastante nervoso. Procurei os óculos na mala de couro que levava e comecei a ler. Respirava com dificuldade.

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O teor daquela carta era mais sério do que o das outras, o tom era de despedida. Explicava por que motivo havia voltado para o Vietname, o verdadeiro motivo do seu regresso. Ao contrário do que eu pensava e do que me dissera,

— Voltarei para os meus primeiros dias.

não tinha voltado ao seu país por saber que o pai estava moribundo — por ironia, o pai estava realmente a morrer, acabando por falecer antes da chegada dela, nos campos do Camboja — mas sim por outro motivo: regressar à Ásia fora uma chantagem da minha mulher, da Fernanda. Lembro-me de, quando pela primeira vez dormimos na mesma cama, a tua mãe e eu, na noite em que soube da gravidez, eu ter reparado, ao sair de madrugada, que a porta do quarto estava apenas encostada, quando eu tinha a certeza de me ter certificado de que a fechara. Julgo agora que a minha mulher a terá entreaberto e nos terá visto deitados na mesma cama. Não sei quais as ameaças proferidas, porque a tua mãe não as especificou na carta, mas é fácil, com duas ou três palavras-chave, fazer um refugiado voltar a ter medo. Contava também na carta como soubera através de vizinhos vietnamitas da morada da casa onde estávamos naquele momento, que fora a casa dos pais quando chegaram ao Camboja, a Phnom Penh. Escrevia ainda que decidira partir para Oeste, pois contava procurar a sua mãe, tentar saber, com mais certeza, se havia efectivamente morrido ou se, por milagre, sobrevivera. Enquanto existisse essa possibilidade, não descansaria.

No final falava um pouco de ti, do teu primeiro sorriso, do país (das praias completas de oceano), e ainda me descrevia com precisão, dizendo que tinha um pé indeciso e outro bom. Não poderia o meu carácter ter sido resumido mais eloquentemente. Sou de facto um pé que caminha sem medo e outro que espera. Um pé que dá passos e outro que reflecte. Um pé que é Epimeteu, outro que é Prometeu.

— Porque é que ela não me enviou a carta?

— Julgo que se esqueceu — disse a Sr.a Tat. — Ou talvez tenha caído da mala quando pegava em Nhài ao colo. Ou talvez se tenha arrependido. Não faço ideia.

— Partiram as duas?

— Sim, ela jamais se separaria da filha. Depois de tudo o que passara, da sua própria experiência.

— Bom, e depois?

— Depois?

— Ela encontrou a mãe? Estava viva?

— Não sei.

— Como não sabe?

— Elas nunca regressaram. Nunca mais voltei a vê-las.

— A senhora podia ter-me enviado a carta.

— Ela não preencheu o sobrescrito.

Cobriu o rosto com as mãos e chorou.

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A Sun perguntou-me se eu não queria visitar Angkor Vat.

— Para ver se sai dessa depressão. Ya.

Respondi-lhe que não com alguma aspereza. Lembrei-me de uma frase da tua mãe, mais uma que anotara no livro de contabilidade e que ela usava precisamente nos momentos em que eu deixava transparecer impaciência, ira ou fastio:

Meu amor, não sejas imperfeito.

— Talvez, >Mister. Mister, ruou ran, vinho de serpente, ya, cura tudo.

Respondi-lhe que não.

— Angkor Vat, então?

Respondi-lhe que não.

— É o maior templo do mundo. Thank you so much.

O maior templo jamais construído foi esquecido e rapidamente ficou coberto de vegetação. Imagina o que poderá esperar uma criatura como nós, tão exasperadamente mortal, frágil e insignificante. A sumptuosidade é já o prolegómeno da ruína, mas é precisamente o esforço de edificar, conhecendo à partida o triste destino desse acto, que coroa a vida. E, quanto mais cientes estivermos da nossa condição de seres a prazo, maior é a glória de qualquer gesto feito com essa consciência. O meu problema, que era também o vazio que sentia, era não ter construído nada, ter ficado longe das pessoas que mais amava para ter uma vida adequada, mais ou menos quadrada, com a ilusão da família feliz. Quando não se constrói nada, não se pode desejar ter ruínas verdejantes como as de Angkor Vat.

Naquela viagem, percebi que eu já não era o pai em busca da filha (como isso me deu sentido à vida) nem o potencial marido que viveria feliz para sempre com uma pessoa predestinada, por mais tola que esta ideia possa ser. Era um fantasma, alguém que passava pela vida sem deixar nenhuma pegada. Ou ruína.

O voo de regresso partia de Hanoi. Despedi-me da Sun.

— >Why did no one like hanging out with Ho Chi Minh?

— Não sei, Sun.

— Because he was so Hanoi’ing. Thank you so much.

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