Princípio de Karenina
Capítulo 2
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«No entanto, no sangue do homem há uma vaga, uma antiga corrente marinha, que é de algum modo aparentada ao crepúsculo, a qual traz até ele rumores de beleza provenientes de todas as lonjuras, tais como vestígios flutuantes de ilhas ainda não descobertas nos chegam pelo mar.»
CONTOS
Lord Dunsany
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O da Herdade Nova era bonito, alto, atlético, dentes perfeitos, apelido perfeito, cabelos lisos, era galante, sabia falar, colocar a voz um tom abaixo, o que dava um ar sério e comprometido, perfeito como todos os homens perfeitos. A Fernanda da farmácia estava caída de amores, olhava para ele com os olhos a tremer, com as mãos a entrelaçarem-se como cabelos, a voz a vacilar, a abdicar de toda a firmeza. Ou eu assim achava, porque na juventude sabemos tão pouco que dói, estamos constantemente errados, acostumadamente equivocados.
Tínhamos ambos dezoito anos, mas ele parecia ter uma década mais. A década não aparecia na cara, mas era evidente nos gestos.
Como poderia eu, rapaz relativamente deformado, sonhar um dia casar-me com a Fernanda da farmácia, quando o meu rival era o ápice do cânone grego, uma pessoa meio dicionário mitológico, meio recordista dos cento e dez metros barreiras? Mas, na verdade, o segredo é incorpóreo, não se vê. A realidade pode ser muito dura, mas os sonhos dão boas almofadas. O mundo pode ser de pedra, mas os sonhos são um colchão por cima dele e têm a teimosia e a ousadia de não desistir. Por mais que os afastemos, enxotemos como fazemos às moscas incómodas, os sonhos voltam sempre a assombrar-nos, a pousar-nos na cabeça, a picar-nos. Não é a dureza do mundo que vence, são estes insectos frágeis, sem ossos, sem corpo, a que chamamos sonhos, que acabam por fazer buracos no mundo, por o penetrar e vencer.
O da Herdade Nova era alto, era bonito, tinha os ombros largos e as coxas de um atleta de competição, as mãos fortes, os dedos compridos, o peito cheio. E, sobretudo, sabia colocar a voz. Um tom abaixo.
A minha única arma era a teimosia de um sonho.
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O Dois Metros tentava dissuadir-me de conquistar a da farmácia.
— Quem, então?
A pergunta só fazia sentido se a escolha fosse limitada. E, para mim, era. Havia as mulheres adequadas ou as outras. Eu preferia as adequadas, que correspondessem à descrição paternal, a quaisquer outras.
— A da papelaria — sugeriu o Dois Metros.
A da papelaria nem sequer se colocava como hipótese.
— A da papelaria não gera futuro.
— Tens razão. Talvez devas esperar. Casar para quê?
— Ter filhos, família, sentar-me à lareira.
— Por vezes, soas igual ao teu pai. E o amor?
O amor era cheio de janelas abertas, correntes de ar, milhões de bactérias, fonte de medos, milhões de deimos, o amor podia destruir as paredes que erigíamos com tanto esmero, o amor podia até abraçar o estrangeiro, a distância, podia destruir toda a ética, deixar-nos à mercê do insólito, do inesperado, do horror da surpresa A minha noção de amor, na juventude, era uma noção de propriedade. Se era algo que podia fazer parte da casa e da sua perpetuação, muito bem, poderia ser considerado. De outro modo, era uma fera, uma ferida, uma doença, tal como o meu pai me ensinara: o amor constrói-se, por isso a escolha deve ser racional e não passional, escolhemos uma pessoa adequada e depois vamos criando um edifício amoroso. O amor que nasce do ímpeto sentimental ou carnal é perigoso. É um ladrão de sobriedade e objectividade. Barbarifica-nos. Temos de olhar para ele como quem olha para a porta e vê o que está do lado de fora. A passos, devagar e ponderadamente, vai arriscando, conquistando território selvagem e domesticando-o. A exaltação é para as galinhas. Os seres humanos decidem com ponderação, é tão simples quanto isso, não cacarejam nervosos.
— O amor vem de Deus.
O Dois Metros colocou então a hipótese de o amor da Fernanda da farmácia poder nascer da carne e não da conveniência social, do florir do corpo e não da razão, e, palavras dele, um amor pode ser mais entremeada do que missa. Isso explicava por que motivo a Fernanda preferia o da Herdade Nova. Fiquei tão irritado com a possibilidade de a Fernanda da farmácia poder preferir a carne ao espírito, que me dispus a provar o contrário: afastá-la-ia do da Herdade Nova e casar-me-ia com ela. Já não era apenas a sugestão ou a imposição paternal, era uma questão ética, religiosa, e até metafísica. Se a carne, se um monte de músculos e boa aparência vencem a deformidade e o intelecto, então não há mais esperança para o mundo.
Arregacei uma das pernas das calças, mostrei o pé deformado e disse-lhe:
— A imperfeição conquistará o mundo.
— Calça-te.
— Vais ver.
Nesse dia, planeei a minha nova missão outonal.
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Peguei no meu caderno e comecei a fazer contas. Efectivamente, tudo indicava que eu era um melhor partido, fosse pela descendência, fosse pela educação e cultura, fosse pelas posses. Ambos estávamos a entrar na idade adulta e, ainda que ele parecesse mais maduro, eu era definitivamente mais inteligente e ponderado, mais focado, mais organizado, mais cristão, mais caridoso, mais generoso e, evidentemente, mais modesto. A única matéria passível de derrota era física. Eu era disforme. Concluí então que para a Fernanda a aparência era mais do que a essência e que era preciso demonstrar-lhe o erro em que incorria, e passei a agir como uma pessoa apaixonada. Talvez tenha sido por isso, por essa pantomima, ao comportar-me como alguém consumido pela paixão, que me apaixonei realmente.
Passava todos os dias pela farmácia.
Passava pouco tempo com a minha mãe, que emagrecera demasiado nos últimos meses sem eu reparar.
Passava pouco tempo com o Dois Metros.
Na verdade, mal nos falávamos.
Quando nos cruzávamos, ele acabava sempre por encontrar um argumento para me dissuadir de casar com a Fernanda, para me convencer de que eu estava destinado a outra pessoa, a um grande amor, que ela era gorda, feia, demasiado bela, prepotente, magríssima, tinha nariz pequeno, era tímida, pobre, rica, tinha nariz grande, que o da Herdade Nova era muito mais galante do que eu, que desistisse e não me humilhasse numa empresa que não estava ao meu alcance. A minha relação de amizade com o Dois Metros fragilizava-se proporcionalmente ao meu desejo de contrair matrimónio com a Fernanda da farmácia.
Apesar das adversidades — uma delas era o meu pé, o desequilíbrio com que caminhava —, insisti. Continuava a descer e a subir a rua da farmácia, procurando vislumbrar através da porta de vidro fosco a sua silhueta a servir antibióticos e xaropes para a tosse. Curiosamente, vi a minha mãe na farmácia algumas vezes, muito mais do que seria seu hábito, mas não tive presença de espírito para reparar nisso, os meus olhos estavam fernandorientados, monofocados.
Com pedras, desenhava corações no caminho da Fernanda, entre a farmácia e a sua casa. Gesto que haveria de se voltar contra mim.
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Cansado das minhas tentativas desajeitadas de sedução, acabei por concluir que se, através do espírito, derrotasse fisicamente o meu rival, a omnipotência do amor espiritual seria definitivamente provada, pelo menos aos olhos da Fernanda da farmácia, que haveria de perceber a ilusão torpe em que vivia, desrespeitando a única e verdadeira noção de amor, que deve ser um sentimento lento, construído com paciência e razão divina. Assim, eu teria de ser capaz de, sendo muito mais fraco fisicamente, fisicamente derrotar o da Herdade Nova. A nova missão outonal, segunda grande missão outonal da minha vida, ganhava forma.
O meu raciocínio levou-me então a considerar o seguinte: precisava de um aliado, o mais forte que pudesse conceber: não me limitaria a entidades finitas e mortais. A catequese já há muito me havia explicado quem seria esse aliado de grandeza inconcebível. Bastar-me-ia que Deus lutasse ao meu lado, e, parecia-me evidente, Ele estaria sempre do lado da essência e não dos músculos, do lado dos deformados, aleijados, magoados, do lado da justiça. Confiaria n’Ele, não havia outra hipótese, nem melhor nem mais desejável. O espírito acabaria por vencer a carne e mostrar cabalmente à Fernanda da farmácia como de facto funciona o mundo e como deve ser a engrenagem moral da vida.
Visitei o Dois Metros, apesar do desgaste da nossa amizade. Enfim, até os anjos caídos serão levantados. Expliquei-lhe o que ia fazer.
Pus algum queijo e pão na mochila e saí de casa. O Dois Metros, atrás de mim, a implorar que não o fizesse, que o da Herdade Nova até corações deixava no caminho da Fernanda, desenhados com pedras.
— O quê? — gritei eu.
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A Fernanda julgava que essas pedras no caminho (que irónico, pedras no caminho) eram obra do da Herdade Nova, mas o equívoco dos corações desenhados no chão não me fez desistir. Era um revés que poderia, havendo tempo e sobriedade, explicar. Entrei no Café Central, dirigi-me à mesa do da Herdade Nova e disse: vamos lá para fora e lutamos pela Fernanda.
Ele levantou-se sem dizer nada. O Dois Metros, que já tinha há muito atingido o pico da sua altura, um metro e sessenta e quatro, agarrava-me a camisola.
Saímos os dois, eu e o da Herdade Nova, com uma corte de homens a invectivar-me e a rir-se, usando as palavras mais duras que poderiam pingar das suas línguas, enquanto o Dois Metros me objurgava, temeroso, não vás que te arrependes, não vás que te matas, aquela mulher não te merece, aquela mulher é um demónio, eu dizia que tinha um grande aliado, quem?, perguntava ele a olhar para todos os lados, o maior de todos, disse eu, verás.
Apesar da minha aparente confiança, todo o meu mundo era pânico, phobos incalculáveis.
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Já na rua, tirei o casaco e arregacei as mangas. O da Herdade Nova riu-se.
Baixou a cabeça.
Agarrou-me o pescoço com a mão direita e eu não me consegui mexer.
Aproximou o rosto do meu.
Ainda mais.
E ainda mais.
Parecia que tudo se passava em câmara lenta.
Eli, Eli, lama sabactani, disse eu.
Ainda tenho as cicatrizes dessa luta, não imaginas como foram profundas..
No momento em que o rosto do Arnaldo da Herdade Nova se aproximou do meu para me ferir para sempre, parecia câmara lenta, já o disse, porque foi efectivamente um gesto demorado, ele encostou os lábios à minha orelha. Ainda consigo sentir o calor do seu bafo, o cheiro acre das palavras sussurradas ao meu ouvido:
— Fica tu com ela. Eu não a quero para nada. Ela não presta.
E essas palavras enterraram-se dentro do meu crânio. Na altura, fiquei feliz, como se podia ser feliz, no limite da felicidade, sem suspeitar de que aquelas frases sentenciosas seriam a mais terrível fatalidade. Foi o mais espectacular KO da história universal, um KO que haveria de se revelar muito tempo depois de ter sido lançado contra o meu rosto. Como um soco que começou a ser dado lentamente, demorando anos a atingir-me com uma violência difícil de descrever.
Além desse KO com palavras, seguiu-se então um soco com a mão que me esmagou a cara e me arrancou dois dentes.
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A humilhação de ter caído com um soco do meu rival só me atingiu no dia seguinte.
Sabendo que o da Herdade Nova não queria a Fernanda e que eu tinha agora o caminho aberto, apresentava-se-me um novo problema: ele não a querer e eu ter sido humilhado não ajudava a que a Fernanda deixasse de o amar. Os meses passaram-se sem qualquer novidade, para além de já não passar tão amiúde pela farmácia e continuar a não reparar na magreza incomodativa da minha mãe, que ainda se despedia de mim todas as noites, apesar de eu já ser adulto, passando delicadamente a mão pela minha deformidade, como se esse gesto me pudesse corrigir, me pudesse curar. E talvez o fizesse. Aos seus olhos, não creio que alguma vez eu tivesse sido um aleijado. É que o amor corrige o mundo.
Sentia-me deprimido, incapaz de agir, de avançar. Sempre tive dificuldade em abrir janelas, o ar não entrava na minha vida. E, depois da derrota física a que me sujeitara, não podia deixar de ficar ressentido com o papel divino, a sua inexplicável ausência ou desprezo, precisamente na altura em que fazia mais falta, em que o fraco combatia o forte, em que o disforme combatia o músculo, as proteínas e a sorte na lotaria genética. A minha fé tinha também levado um soco e perdido dois ou três dentes. Preparei-me para sair da vila. Sim, foi a primeira vez que pensei em sair do meu lugar, depois da minha primeira missão outonal, cuja seriedade (ou infantilidade) poderá ser posta em causa na luta pelo primeiro posto.
Fiz as malas.
E, quando me preparava para partir, o Dois Metros bateu à porta, ofegante, com uma notícia que haveria de mudar a conjuntura quer das minhas relações de amizade, quer as minhas pretensões românticas. Lembro-me nitidamente desse dia. O Dois Metros sentou-se na mala que eu tinha à porta e contou-me as novidades. Eu abracei-o de felicidade. Levantei a perna esquerda das calças, tirei o sapato e a meia.
— Estás a ver?
— Estou.
— As nossas dores salvam-nos.
O Dois Metros enrolou um cigarro e acendeu-o.
— Pois. Tapa lá isso.
E expeliu o fumo para o ar.
Fui buscar uma aguardente e servi dois copos.
— Então o da Herdade Nova foi para a guerra?
— Sim, para a Guiné.
Pensei, enquanto bebia a aguardente, que ele não sobreviveria ao ultramar. Senti alguma felicidade nisso. Imaginei uma bala a entrar-lhe pela pupila castanha de um dos olhos, a esguichar sangue por todo o lado, o da Herdade Nova a cair no chão enlameado, a ficar ali esquecido para sempre, com a cara desfeita.
Era Deus a lutar ao meu lado. Afinal, estava do lado dos fracos, só havia demorado demasiado tempo a perceber quem era o coxo naquela luta.
— Não deve sobreviver, aquilo na Guiné é tramado — disse o Dois Metros.
Apesar disso, não fui ter com a Fernanda da farmácia. Tinha medo de ser uma segunda escolha. E, além disso, perguntava-me se a ausência do da Herdade Nova faria com que ela o esquecesse e passasse a amar-me perdidamente. Não sabia responder-me, e por isso hesitava.
O Dois Metros levantou-se da cadeira onde se sentara e, ao erguer-se, esticando o corpo, vi que trazia vestido por baixo da roupa o fato de banho da mãe dele, desta vez, um modelo florido. Via-se entre as calças e a camisola.
— Estiveste a treinar?
— O quê?
Fiz um sinal com o indicador a apontar para a tira de fato de banho que espreitava.
— Luta greco-romana?
— Sim, estive.
— Não vai ser fácil — disse eu.
Pensei detectar alguma tristeza no seu olhar, mas não percebi o motivo.
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Peguei na meia, mas não a calcei. O Dois Metros olhava para mim sem a comiseração que eu gostaria de receber. Mas, na verdade, o meu pé, grotesco, era a minha salvação. O da Herdade Nova estava na Guiné e eu estava em casa. Graças à imperfeição. Era a infelicidade que me salvava a vida. Em criança, chamavam-me o «fora de pé», alcunha que sempre me incomodou. Eu tentava disfarçar e, quando me chamavam assim, punha uma cara imperturbável, mas acabava por desenhar um sorriso que me traía e que mostrava o desconforto de ser aleijado, de nunca ter podido atirar-me do comboio em andamento como faziam os rapazes da vila. Pode parecer tonto, mas não poder saltar do comboio magoava-me mais do que ser aleijado, porque era, mais do que mancar, a certeza de que não era igual aos outros.
Pela primeira vez, acariciei o meu pé deformado, como fazia a minha mãe, com a gratidão que apenas dirigia a Deus na missa, passando a mão pela pele avermelhada, pelos sulcos, pelos buracos, pela irregularidade, e senti alguma beleza, sim, era isso, uma beleza, uma espécie de erotismo. Calcei a meia. A deformação era o que me mantinha de pé, literalmente e de várias maneiras.
— Tens o caminho livre — disse o Dois Metros.
A nossa amizade estava mais sólida.
— Referes-te à Fernanda da farmácia?
— Pois.
— Já não estou interessado — menti.
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As tias do Norte, as duas que ainda eram vivas, mandaram-me sentar.
— O menino sente-se e ouça-nos e depois levante-se, vista o seu melhor fato, o marrom, ponha uma flor na lapela, um lenço no bolso e vá a casa do farmacêutico pedir a filha dele em casamento. Estamos cansadas da sua passividade, e seu querido pai, que Deus o tenha, haveria de gostar de ter descendência.
— Vou ter com a Fernanda?
— Essa.
— E o da Herdade Nova?
— Quem?
— O que foi para a guerra.
As tias entreolharam-se.
— Não sei, escute, menino, a da farmácia só pensa em si, tem ancas largas, é trabalhadeira, sabe cozinhar, coser, o pai tem algum dinheiro, o apelido soa bem, o seu pai aprovaria.
Falavam como se fossem um dueto:
vista o seu melhor fato
ela ama-o desde garota, quer ser feliz para sempre e só o será consigo, pois, meu menino, ela só pensa em si
e ponha uma flor na lapela,
desde que se lembra de ser gente, é coisa escrita desde que Deus Pai decidiu criar as orbes celestes, as estrelas, a abóbada cerúlea, os anjos e arcanjos e moldar o ser humano a partir de um pouco de barro
vista o seu melhor fato,
penteie-se,
Ponha uma flor na lapela.
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— Na alegria e na tristeza?
— Sim — disse eu.
— Sim — disse ela.
O Dois Metros foi o meu padrinho. As tias do Norte choravam. A minha mãe estava comovida, mas serena. Também naqueles instantes, consumido pela felicidade do sacramento, pela agitação inevitável do coração, não compreendi que a face contida da mãe resultava do medo de sorrir, do receio de que, ao formar um sorriso, tivesse de o substituir por um esgar de dor física, e o seu rosto, num momento de felicidade como aquele, fosse a cara deformada da doença que a matava.
Recordo muito bem o trajecto que os nossos lábios, os meus e os da Fernanda, fizeram pela primeira vez, uns na direcção dos outros, até se tocarem, a sua lenta aproximação, o tempo ia desacelerando, as pálpebras caíram criando a noite, a noite melancólica dos amantes, os lábios cada vez mais perto, a respiração quente (há quem diga que é doce, mas é uma hipérbole poeticamente pobre, um beijo tem de ser tudo menos doce, tem de conjugar demónios), os lábios cada vez mais perto, o coração cada vez mais como as gazelas do monte Hebron, os lábios cada vez mais perto, talvez as nossas mãos se tenham apertado, o rosto enrubescido (noutras alturas fica corado, mas com os beijos enrubesce, há um glossário apropriado a todas as situações e devemos estar atentos à linguagem certa, devemos muito à exactidão), os lábios cada vez mais perto, o coração aos pulos pelo monte Hebron, as pernas frágeis e vacilantes sob o peso do que está para vir, os lábios cada vez mais perto, mil anos mais perto, pois o tempo está quase parado, uma inspiração entrecortada, arrepios pelo corpo, os lábios cada vez mais perto, uma eternidade mais perto, os pêlos dos braços eriçados, a pressão na boca do estômago, alguns cabelos colados à testa com o suor do calor de Julho, as bocas entreabertas, os lábios cada vez mais perto.
E tocaram-se.
Foi precisamente nesse instante que a dúvida se instalou. Foi quando o soco do KO do da Herdade Nova me atingiu verdadeiramente.
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Aquele primeiro beijo, já normatizado pela intervenção da Igreja, acabou por despertar o sentido das palavras que o da Herdade Nova pronunciou com os lábios colados à minha orelha. Aquelas palavras substituíram aquele beijo e os beijos consequentes e estes ficaram estragados, contaminados pela frase do da Herdade, ela não presta, podes ficar com ela. Aquele beijo, que deveria saber-me a céu e sinos a tocar, tinha um leve sabor a tragédia romântica. Ela não presta, era o que eu ouvia naquele beijo.
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