Profissão: assistente social
Considerações finais
Você terá uma vida boa e segura quando estar vivo significar
mais para você do que a segurança, o amor mais do que o
dinheiro, sua liberdade mais do que a opinião pública ou do
partido; quando o sentimento presente na música de Beethoven
ou de Bach passar a ser o sentimento da sua vida inteira [...];
quando se deixar guiar pelos pensamentos dos grandes sábios
e não mais pelos crimes dos grandes guerreiros; quando você
deixarde dar mais importância a uma certidão de casamento do
que ao amor entre homem e mulher; quando aprender a
reconhecer seus erros prontamente e não tarde demais, como
faz hoje; quando você pagar aos homens e mulheres que
ensinam seus filhos mais do que paga aos políticos.
Wilhelm Reich
Realizamos uma retomada da trajetória histórica do Serviço Social
de modo a melhor situar as características contemporâneas da
profissão, a partir de uma análise centrada no mundo do trabalho.
A sociabilidade humana entendida a partir da centralidade do
trabalho se expressa na organização das relações sociais e nas
modificações que impõe na esfera do indivíduo enquanto ser social.
Procuramos explicitar por que compreendemos o Serviço Social
como inserido na divisão sociotécnica do trabalho na sociedade do
capitalismo maduro. Entendemos que a forma da sociedade
capitalista contemporânea é a mais complexa que a humanidade já
vivenciou, não podendo ser considerada trabalho somente a relação
homem -natureza, mas todas as atividades em que se caracteriza a venda da força de trabalho descolada do controle do capital ou da
propriedade dos meios para sua realização. A diminuição do número
de trabalhadores na indústria ocorre simultaneamente ao aumento
no comércio e na prestação de serviços, acompanhado de novas formas de propriedade que dão fundamento e sustentação ao atual
modo de produção, que não foi superado.
A concentração da renda e dos meios de produção na atualidade e
a complexidade do desenvolvimento econômico é tanta que a
grande massa populacional se encontra desprovida dos meios de
produção, nada mais possuindo além da venda da sua força de
trabalho para manter a sua sobrevivência.
O comércio se intensifica na sociedade do capital a partir do
desenvolvimento da produção e de sua divisão interna do trabalho.
A expansão dos serviços comerciais garante a expansão do
conhecimento adquirido por meio da permanente troca de objetos
cada vez mais conhecidos, bem como a expansão do consumo a níveis superiores ao que o planeta pode suportar sem causar sua
destruição.
A prestação de serviços surge a partir de novas necessidades
sociais geradas historicamente, o atendimento se transforma em mercadoria que se vende ou que aparece na forma do atendimento
público do Estado, cujo pagamento já se realizou previamente
através de impostos.
A prestação de serviços por assalariamento, em suas formas precarizadas ou não (sem vínculo empregatício, diarista, pagamento
por hora, contrato temporário, etc.), pressupõe um proprietário, ou
uma propriedade, e um empregado que executa um “serviço”
vendendo sua força de trabalho.
A prestação de serviços pertence, assim, a uma nova divisão do
trabalho na sociedade do capital, assalariando inclusive médicos e
advogados, profissões tradicionalmente autônomas, liberais,
vinculadas à acumulação de riqueza a partir da concentração de
renda como fruto da atividade em clínicas e consultórios
particulares.
A realidade atual demonstra que há muitos advogados dependentes
do seu salário público, e algumas atividades, como a defensoria pública, que exclui a possibilidade da advocacia na forma privada e
autônoma pelo mesmo profissional, passa a ser “terceirizada”,
através de convênio com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB),
cujos advogados recebem por atendimento – isto é, por produção.
No caso dos médicos, suas clínicas estão abarrotadas, com poucas
exceções, de pacientes de “cooperativas médicas”, com o
profissional também sendo pago por atendimento.
Indiscutivelmente, os valores do pagamento pela produção de um
médico ou de um advogado não são idênticos aos valores do
pagamento ao cortador de cana ou ao apanhador de laranja, mas o
princípio do pagamento por produção é idêntico. Obriga os
profissionais a intensificar o trabalho, seja no emprego da capacidade preponderantemente física, que pode levar à exaustão,
como tem ocorrido aos cortadores de cana-de-açúcar nos canaviais
do Estado de São Paulo, seja no emprego de capacidade
preponderantemente intelectual, de modo a gerar doenças
psíquicas. A pressão para “render cada vez mais”, para aumentar a
renda, aliada à insegurança subjetiva da perda da oportunidade de
trabalho causam desgastes emocionais diagnosticados com
dificuldade pela medicina tradicional.
A prestação de serviços tornou-se indispensável à acumulação do
capital.
Educação, saúde, cultura, lazer, necessidades sociais, alimentação,
higiene/limpeza transformaram-se em mercadorias, gerando um
mercado de trabalho assalariado que passa pelas mesmas
modificações materializadas em precarização nas relações
trabalhistas, de modo a colocar à margem da proteção social
milhões de trabalhadores em todo o mundo.
A partir de Mészáros (2006), entendemos que o Estado não faz
parte da superestrutura, como apontado por Gramsci, mas sim da
estrutura do capital, porque possui uma função comercial – é o
maior ou um dos maiores compradores de material de consumo, imprescindível à sobrevivência do capital, regulamenta o comércio
nacional e internacional.
O Estado incorporou a função comercial ao seu funcionamento, pois
se tornou provavelmente o maior consumidor da produção industrial,
desde papel, material de limpeza e de escritório, móveis,
equipamentos, até produtos militares, mantendo a indústria da
guerra.
Responsável pela manutenção da “ordem social”, um equilíbrio
temporário entre os interesses antagônicos, tem se formatado ou
apresentado características de acordo com o momento histórico. Em
momentos de expansão do capital precisa assegurar
simultaneamente um nível baixo de assalariamento para permitir a acumulação do capital na empresa e sua consequente
competitividade, e oferecendo seus produtos com valores cada vez
mais baixos, para garantir um nível de consumo pela classe
trabalhadora constituída pela maioria da população.
Os baixos salários inviabilizam o consumo em larga escala, e,
assim, o Estado precisa complementar a renda do trabalhador na
forma de benefícios – como no Estado de Bem -Estar Social, ou
Welfare State, que, por meio dos investimentos públicos, favorece a
classe trabalhadora como grande empregador na execução das
políticas sociais, permitindo o acesso aos resultados da produção da
moderna sociedade de bens e serviços, e a elevação do consumo
pelo pagamento dos chamados “benefícios sociais”, como complemento de sua renda.
Atualmente, o recurso público encontra -se minimizado para o
atendimento da classe trabalhadora, quer o Estado seja considerado
como empregador, quer como executor de políticas públicas, para atender às necessidades básicas e sociais da população, como
alimentação, vestuário, trabalho, moradia, transporte, saúde,
educação, previdência e assistência social.
Encontra -se, porém, maximizado para o setor hegemônico. A atual
crise global do capital tem demonstrado claramente: faltam recursos
públicos para o funcionalismo, em processo de achatamento salarial
permanente e de degradação nas condições materiais de trabalho, e para a execução das políticas públicas necessárias ao atendimento
da população em geral.
No entanto, o setor financeiro privado tem recebido grandes
investimentos públicos no mundo todo, conforme noticia a mídia.
Por outro lado, com o recebimento dos impostos – pagos por toda a
sociedade, mas de forma desigual –, ainda se mantém como grande
empregador, talvez o maior, na sociedade do capital, de modo a
assegurar o assalariamento, mesmo em situação cada vez mais precária.
O seu produto não é o produto originário da relação do homem com
a natureza, mas a prestação de serviços para o atendimento de
necessidades humanas historicamente determinadas, que se tornaram mais complexas, como educação, saúde, previdência,
assistência social, além das funções tradicionais de legislação,
coerção e repressão.
Na sociedade do capital, a prestação estatal de serviços cumpre também, sem dúvida, a proteção ao patrimônio, à propriedade, na
função de legislador e de fiscalizador das leis criadas, além da
difusão da ideologia, através principalmente da educação. Suas
funções coercitiva e fiscalizadora continuam.
Entretanto, o Estado incorporou mecanismos democráticos que
permitem a presença de representação do interesse dos
trabalhadores. As lutas dos movimentos sociais impõem mudanças
na legislação do Estado, e, assim, a função fiscalizadora serve tanto
para proteger a propriedade e a concentração da renda como para
amparar o trabalhador com leis de proteção social, num movimento
em que prevalece ainda o interesse da classe burguesa em
mecanismos mais poderosos para ampliação e concentração da renda, mas sendo obrigado a incorporar alguns limites à voracidade
do capital e medidas de proteção à classe trabalhadora, na forma de
políticas sociais.
O movimento sindical se encontra enfraquecido pelo desemprego
estrutural descontrolado e a greve, principal instrumento
reivindicatório, não funciona mais em virtude da possibilidade
concretado desemprego. Os movimentos sociais, por outro lado,
apresentam novas possibilidades de lutas sociais, mesmo quando segmentadas por interesses específicos e imediatos, funcionando
como elementos agregadores de pressão política.
A assistência social, enquanto política pública, é função do Estado,
mas pode ser realizada em conjunto com a sociedade civil, como prevê a atual legislação. Com essa “fenda” legal é possível
“reestruturar produtivamente” o Estado: diminui a prestação de
serviços, “enxuga” a área executiva na assistência social, que passa
a ser “terceirizada” para as entidades sociais, geralmente
filantrópicas, 1 que por sua vez, obedecendo aos ditames do
mercado de trabalho, igualmente precarizam as relações de trabalho
para poder sobreviver com os mínimos recursos.
O Estado, enquanto proprietário de imóveis, de móveis e
administrador do dinheiro público, comprador da força de trabalho,
transfere para o chamado terceiro setor a sua função de prestador
do serviço público. O setor privado passa a ser responsável ou
corresponsável pelo atendimento às necessidades sociais do
público.
O discurso de responsabilização da sociedade civil pela esfera
pública mascara as verdadeiras relações entre o Estado e os
representantes do capital, fazendo crescer uma nova divisão social,
manifestada também na divisão do trabalho, criando-se o chamado
“terceiro setor”.
As organizações sociais não governamentais proliferam e passam a
transitar na esfera da filantropia e da caridade, descaracterizando a política pública, oferecendo somente a pequenos grupos os serviços
de assistência social, em franco desacordo com a política de
universalização do atendimento.
As entidades sociais, sem fins lucrativos ou, ainda, beneficentes,
também se tornam proprietárias de imóveis, de móveis, compram a
força de trabalho de seus empregados, administram o dinheiro
público que lhes chega às mãos via pulverização do recurso público
ou via donativos das pessoas, inclusive das que participam das habituais promoções para arrecadar fundos a fim de sustentar suas
ações. Flexibilizam as relações de trabalho, oferecem precários
serviços, às vezes melhores que os prestados pelo Estado, mas
para um público selecionado, não sendo atendimento universalizado
como preconiza a legislação em vigor.
Outras áreas das políticas públicas, especialmente saúde e
educação, são “capitalizadas”. Tornam -se também mercadorias
vendidas a preço estabelecido pelo “livre comércio”, e o acesso a
elas está restrito à pequena parcela da população que pode
pagá -las.
O assistente social não possui o controle dos meios de realização
do seu trabalho, ainda que a profissão esteja regulamentada como
profissão liberal.
A condição de assalariamento do assistente social se concretiza nas
entidades sociais numa esfera em que as instituições se tornam
empregadoras privadas, diferindo das demais pela finalidade não
lucrativa. No entanto, incorporam estratégias de gestão da esfera
privada.
São complexas as relações na sociedade do capitalismo maduro.
Ações públicas prestadas pelo setor privado, Estado reestruturado
produtivamente, entidades sociais “enxutas”, também
“reestruturadas produtivamente”.
As assistentes sociais participantes da nossa pesquisa são
prestadoras de serviços públicos na esfera privada. Trabalham em
organizaçõesnão governamentais, entidades sociais beneficentes,
cumprindo uma função pública, a de execução da assistência social. São instituições privadas, porém sem fins lucrativos.
A precarização do trabalho das assistentes sociais ocorre
duplamente: primeiro, pelo assalariamento sem estabilidade,
quando poderia ser emprego público, com estabilidade, se o serviço fosse prestado pelo Estado; segundo, pela remuneração sem a
proteção social prevista pela Consolidação das Leis Trabalhistas
(CLT), como férias, 13 o salário e fundo de garantia. Ainda que existam vínculos empregatícios na forma da CLT, identificamos a
tendência da precarização nessas relações.
O profissional convive cotidianamente com usuários dos seus
serviços, dirigentes de instituições, públicas ou privadas, outros profissionais e com integrantes dos mecanismos de democracia
participativa, como os conselhos.
E é nesse inter-relacionamento que é possível estabelecer a práxis
profissional, uma relação entre as escolhas éticas e teórico-metodológicas com a operacionalização propriamente dita,
diferenciando a postura do assistente social no sentido da
emancipação e fortalecimento dos usuários das políticas sociais,
distanciando-se do viés clientelista, da política do favor, da
benemerência.
O estudo e o aperfeiçoamento contínuo, o compromisso com o
projeto ético-político da profissão, são condições fundamentais para
o desenvolvimento de um trabalho competente e ético na gestão e
na execução das políticas sociais.
Com todas as dificuldades encontradas pelas assistentes sociais
que participaram da pesquisa, muitas têm conquistado espaços de
reflexão, de participação em grupos de estudo, e realização de
cursos. Isto pode permitir uma ação diferenciada, em especial, nos conselhos do município, que se constituem em espaços
privilegiados na gestão das políticas sociais.
Várias profissionais oferecem espaço para a realização de estágios,
contribuindo para a formação de futuros assistentes sociais.
Simultaneamente, a presença de estudantes no ambiente de
trabalho provoca questionamentos a ações realizadas cotidiana e
repetidamente, e ainda eles se fazem portadores de informações
atualizadas do conteúdo profissional, em todos os seus aspectos: teórico-metodológico, ético-político e técnico-operacional.
Essa situação também contribui positivamente para uma reflexão
constante da ação profissional.
A realidade apresenta possibilidades, mesmo repleta de
contradições. Compete ao profissional a escolha da sua postura
diante da realidade sócio -histórica, com o direcionamento de suas
ações no sentido de conservar o statu quo vigente, ou no sentido da
sua transformação.
Se a totalidade da realidade social possui vetores negativos, ou
seja, aspectos negativos, de não reprodução das relações entre os
diferentes complexos, é imperioso um olhar acurado para a leitura
dela, tanto para desvendar a pseudoconcreticidade da aparência como para identificar a negatividade, os vetores negativos da
própria realidade, para que possam ser apropriados e
potencializados com a ação consciente, num processo de
permanente ação -reflexão, para objetivar a práxis social e a práxis
profissional, atendendo a finalidades de transformação da realidade
vivenciada.
Os vetores negativos se manifestam em diferentes graus de
visibilidade. Movimentos sociais de organização nacional possuem
ação mais visível de negatividade da realidade, como o Movimento
dos Trabalhadores sem Terra (MST), mas outras situações não
menos perceptíveis, como a indignação e a resistência a injustiças singulares, mais localizadas, também são representativas da
universalidade.
Colocar-se favorável às lutas de resistência às injustiças sociais
mais amplas, ou mais localizadas, significa potencializar a
negatividade de uma realidade dada, cuja transformação total só
poderá ocorrer quando houver condições objetivas para tanto, mas
que não prescinde dos momentos anteriores de fortalecimento das
condições subjetivas que contribuem para a formação das condições objetivas.
Entrementes, essa postura crítico -reflexiva, propositiva e
reforçadora dos vetores negativos que constroem novos valores e
novas relações sociais não é tarefa óbvia, nem simples.
Depende da capacidade de leitura da realidade, de aportes
teórico-metodológicos existentes na formação básica do
profissional, da sua formação continuada ao longo da sua trajetória
profissional e da postura ético-política.
No caso das assistentes sociais nas entidades sociais em
Bebedouro, detectamos também uma influência do psicologismo,
com práticas oriundas da área terapêutica.
A Resolução CFESS no 569, de 25/5/2010, regulamenta a proibição
de práticas terapêuticas por assistentes sociais.2
Há que se considerar, entrementes, que o curso de Terapia Familiar,
tanto na forma de especialização como na forma de extensão foi o
único oferecido no município por instituições de outras cidades,3
facilitando o acesso das profissionais, justamente numa área –
família – em que se concentram suas ações, porém com o viés da
individualização psicologizante e não da abordagem centrada na
sociabilidade do trabalho, nem da questão social. Além do mais, a
abordagem individual pode causar sentimento de impotência e frustração, pois, com a pequena carga horária em diferentes locais de trabalho e a consequente sobrecarga de tarefas, dificilmente a
profissional poderá proporcionar o atendimento individualizado com
a qualidade que deseja, desprezando outras formas de abordagem
que poderiam trazer melhores resultados à sua ação profissional e
dentro do projeto ético-político.
O contexto vivenciado pelas profissionais em Bebedouro, e
provavelmente em muitos outros municípios, independentemente de
seu porte, de salários baixos, longa jornada fracionada em mais de um local de trabalho, relações trabalhistas com vínculo empregatício
não formalizado, precárias condições físico -institucionais de
trabalho, a luta pela subsistência e por condições éticas e técnicas
de trabalho pode assumir preponderância em vários momentos,
dificultando a postura crítico -reflexiva.
Se as condições objetivas de trabalho são constituintes dos
elementos dificultadores, não se apresentaram como condições
fatalmente impeditivas de rompimento com a repetitividade e a
trivialidade do cotidiano profissional, pois várias buscam espaços de
reflexão, seja através de formação continuada, seja no oferecimento
de estágio supervisionado, seja na sua inserção em conselhos, o
que em nosso entendimento podem se transformar em vetores negativos da realidade, dependendo da postura do profissional
quando diante delas.
As entidades sociais se movem dentro da filantropia, mas
direcionadas pela Política Nacional de Assistência Social, obrigadas a realizar ao menos pequenas mudanças em suas ações, como
contratação de assistentes sociais, elaboração de projetos que de
fato sejam executados, e outras adequações à legislação.
O momento não é de euforia pelo espaço de trabalho conquistado, mas também não é de descrença. É, sim, de se capacitar para
identificar os limites pessoais, os institucionais, mas também os
vetores negativos da realidade, as possibilidades de negação da
realidade vivida, para serem apropriados e potencializados. Igualmente, as possibilidades pessoais e institucionais necessitam
ser identificadas, apropriadas e potencializadas.
Nosso estudo apontou para a mobilidade e articulação das
profissionais entre si, com profissionais de outras áreas e com os
dirigentes das instituições em que trabalham.
Se as assistentes sociais escolherem a alternativa de referenciar
sua postura e suas ações no projeto ético -político da profissão
podem se apropriar do espaço conquistado para identificar quem
são seus parceiros de ideais, e então realizar uma verdadeira
articulação e organização de ações que fortaleçam os princípios de
igualdade, justiça social e liberdade, e também melhorar as próprias
condições objetivas de trabalho.
O projeto societário atualmente hegemônico no Serviço Social de
construção de uma nova sociedade não totaliza as tendências. No
âmago da categoria profissional se apresentam diferentes
tendências e projetos societários que precisam conviver em liberdade democrática, mas com diálogos e debates construtivos
para permitir o enriquecimento da profissão.
Nesse sentido, a universidade se constitui em espaço privilegiado
propiciador de encontros para a formação profissional permanente,
de divulgação dos princípios ético-políticos, de diálogo entre as diferentes tendências e de construção do conhecimento a partir da
realidade social e profissional.
O pluralismo de ideias é saudável, mas não pode ser confundido com o ecletismo que esvazia o sentido político das discussões.
Para os profissionais que se pautam pelas diretrizes e objetivos do
projeto ético-político da profissão, é imprescindível:
a) postura crítico-investigativa: a trivialidade precisa ser
descontruída, destituída de sua pseudoconcreticidade para
identificar as mediações e os vetores negativos da realidade
investigada;
b) compromisso com a qualidade dos serviços prestados à
população, aliado à publicização de informações aos usuários e
democratização nos processos decisórios em todos os níveis
da ação profissional;
c) atualização permanente do conhecimento da profissão e do
âmbito específico da atuação, seja no contato com o ambiente
acadêmico, seja na participação em eventos, seja na leitura
constante dos materiais publicados;
d) proposição de alternativas de ação quando no
enfrentamento das refrações da questão social, dos limites
institucionais e profissionais;
e) coletivização das lutas através da articulação da categoria e
com todos os grupos formais e informais de outras profissões e
da população próximos à sua atuação.
Nosso estudo identificou inúmeras limitações da ação profissional,
mas também possibilidades para a superação da cotidianidade, para
a vivência da reflexão que propicia uma ação propositiva.
As determinações das difíceis condições de trabalho, da insegurança nas relações trabalhistas, precariedade nas condições
técnicas e éticas de trabalho estão presentes, mas as assistentes
sociais identificaram avanços conquistados que indicam a luta
cotidiana para melhorar o próprio trabalho.
A legislação atual do Serviço Social é importante instrumento de
luta, ainda que as profissionais tenham dificuldades para efetivá -la.
O assistente social não tem a missão de construir um novo mundo,
novas relações societárias, mas, como parte da sociedade e como profissional, detém possibilidades em suas mãos que podem ser
utilizadas na conservação da sociedade como está ou na construção de uma sociedade justa e digna. Não pode mudar o
mundo, mas pode mudar sua postura perante o mundo.
A intervenção do assistente social ocorre nas mediações de
segunda ordem do capital, assumindo também uma característica
socioeducativa e transmissora de valores que pode ser de
manutenção ou de transformação da sociedade, dependendo de
sua postura perante o mundo.
A complexidade da realidade social é muito grande e não se pode
deixar de ver a negatividade contida nela mesma, e, mais
especificamente, no processo de trabalho do assistente social e de
outras profissões, em especial as que atuam na área social.
O grande desafio para o Serviço Social é identificar a negatividade
da ordem social vigente. É fundamental desenvolver a nossa
capacidade para identificar esses vetores negativos em cada
situação e lutar para potencializá-los, de modo a colocar nosso
conhecimento a serviço da humanidade, da justiça social às classes subalternas.
O desabrochar intelectual do Serviço Social iniciado nos anos 1960
teve grande desenvolvimento nos anos 1980, com a produção do
conhecimento em bases teórico-críticas, que tem prosseguido intensamente nas últimas décadas.
A característica interventiva do Serviço Social é rica em
possibilidades de investigação e de (re)elaboração teórico -prática,
ou seja, de sua práxis, que muda a realidade e a si mesmo enquanto profissão, acumulando conhecimento, mas também a
esperança e a certeza de que a ação comprometida com o projeto
ético-político tem uma contribuição efetiva na construção de uma
sociedade justa e igualitária.
Crença esta, sem ingenuidade, romantismo ou messianismo, mas
solidificada em sua trajetória histórica, que soube superar muitos limites – avançou e ainda há muito para avançar. Sabe pelo próprio
conhecimento e experiência que há muito para caminhar e
conquistar.
A posição fatalista – de que nada adianta fazer, porque tudo vai
continuar igual – desconsidera o processo histórico-dialético da
sociedade e da profissão; é mais cômoda, pois não exige luta nem
enfrentamento, mas também não existem ganhos nem avanços.
A mudança qualitativa para melhor no trabalho do assistente social
é inegável, sobretudo nos últimos trinta anos, e, exatamente por
isso, não se pode desistir de prosseguir na luta a que se propôs o
Serviço Social enquanto profissão.
Sem incorrer numa visão messiânica e individualista, a postura
profissional a que nos referimos deve necessariamente estar voltada
para o coletivo. A articulação com todas as pessoas e grupos,
formais e informais, que possuem projetos societários semelhantes
ao vigente no Serviço Social constitui estratégia imprescindível para a superação das dificuldades enfrentadas cotidianamente.
O momento histórico vivenciado na contemporaneidade mostra uma
crise generalizada do sistema capitalista, o homem se vê
confrontado com os limites impostos pela própria natureza, pelo mundo degradado que não é descartável como tantos produtos
feitos pelas mãos humanas, impondo limites à produção e ao
consumo se quiser continuar vivendo sobre o planeta Terra.
Entendemos que, para resolver o dilema de colocar limites à produção e ao consumo e preservar o planeta, a alternativa é a
construção de novas relações sociais que não tenham mais como
centro o capital, com sua capacidade de destruição, e sim que
sejam centradas no ser social.
Isto nos impõe a tarefa de pensar também o papel da universidade
para a formação profissional básica na graduação e para a
formação continuada dos profissionais em Serviço Social que estão
na ponta da execução das políticas sociais, com a exigência de responder à imediaticidade das situações vivenciadas. É preciso
pensar em estratégias para atingir os profissionais nos municípios
mais distantes dos centros de produção acadêmica, para ocupar
espaços da profissão, levando uma proposta de formação continuada de qualidade dentro dos princípios do projeto
ético-político da nossa categoria profissional.
O processo investigativo da profissão, no qual procuramos inserir
nossa contribuição, deve prosseguir por todos aqueles que têm a alma inquieta e conseguem não se petrificar diante das
manifestações da barbárie contemporânea, mantendo viva a
indignação diante da corrupção e da iniquidade, primeira condição
para a práxis revolucionária.
Simultaneamente, compete-nos continuar no processo de intervenção e de formação profissional dentro das diretrizes
atualmente hegemônicas na profissão.
A tarefa educativa pertence a todos os que estejam interessados na construção de uma sociedade justa e digna para todos.
Consideramos finalmente, com as palavras de Mészaros (2005,
p.76), que
A nossa época de crise estrutural global do capital é também
uma época histórica de transição de uma ordem social existente
para outra, qualitativamente diferente. Essas são as duas
características fundamentais que definem o espaço histórico e
social dentro do qual os grandes desafios para romper a lógica do capital, e ao mesmo tempo também para elaborar planos
estratégicos para uma educação que vá além do capital, devem
se juntar. Portanto, a nossa tarefa educacional é,
simultaneamente, a tarefa de uma transformação social, ampla
e emancipadora. Nenhuma das duas pode ser posta à frente da
outra. Elas são inseparáveis.
1 Estamos nos referindo mais precisamente à área social, mas a
mesma situação existe na saúde, na educação e na previdência
social, numa forma ainda mais desumana de privatização, voltada
para fins lucrativos, ou seja, sua obtenção fica diretamente
vinculada ao poder aquisitivo das pessoas, como se não fossem
direitos universais.
2 Quando da elaboração deste trabalho, o CFESS havia emitido um
parecer claro contra as práticas terapêuticas por assistentes sociais
pela falta de conteúdos na formação profissional básica e por estar
em desacordo com o projeto ético-político da profissão.
3 Segundo a informação verbal das profissionais nos contatos
realizados durante a pesquisa.