Profissão: assistente social
Lista de mapas
Mapa 1 – Localização regional e estadual do município de
Bebedouro 31
Mapa 2 – Localização das entidades sociais no município 37
1 Introdução
Minhas opiniões sobre trabalho estão dominadas pela nostalgia
de uma época que ainda não existe, na qual, para o
trabalhador, a satisfação do ofício, originada do domínio
consciente e proposital do processo de trabalho, será
combinada com os prodígios da ciência e do poder criativo da
engenharia, época em que todos estarão em condições de
beneficiar-se de algum modo desta combinação.
Braverman, 1987, p.18
O Serviço Social enquanto profissão faz parte de nossa trajetória de
vida desde o final da década de 1970 e início dos anos
1980, 1quando descobrimos que as atividades que desejávamos executar pertenciam não à Psicologia, como pensávamos, mas à
profissão de assistente social.
Uma profissão ainda pouco conhecida na cidade interiorana de
Bebedouro, mas o curso encheunos a alma, com o desejo de executar o que estávamos aprendendo, um misto de psicologismo e
criticismo, com leituras de livros de Paulo Freire quase às
escondidas, aprendizado de técnicas de planejamento e projetos, de
diferentes abordagens para entrevistas individuais, trabalho em
grupo e em comunidade. Era o tempo de Serviço Social de Caso,
Serviço Social de Grupo e Serviço Social de Comunidade, na visão
ainda fragmentada das necessidades sociais, ainda que já se
sentissem críticas ao modelo.
A trajetória na profissão foi marcada pelo desafio constante de
provar às pessoas envolvidas no trabalho, que ser assistente social
era, sim, uma profissão, e que suas atividades compreendiam algo
mais do que distribuir cestas básicas,2 e que a visita domiciliar não
era para destampar panelas no fogão, nem abrir armários para conferir o que estava sendo feito com a alimentação e o leite
recebidos, e tampouco ensinar a lavar roupas e tirar piolhos das
cabeças de todos os integrantes da família.
Vez por outra, escutamos histórias de alunos em seus estágios e de
profissionais recémformados relatando que são ainda confrontados
com a mesma realidade e que, muitas vezes, a grande dificuldade
em fazer avançar o trabalho está no entendimento que as pessoas
dirigentes em geral possuem do Serviço Social, tanto na esfera pública como na privada.
E, muitas vezes, o profissional, dependente do seu salário, é
obrigado a realizar tarefas nem sempre específicas do Serviço
Social, a interromper projetos e ações com a mudança de governos ou de diretorias. No entanto, ouvimos igualmente relatos de
mudanças positivas na esfera de ação do Serviço Social quando as
pessoas dirigentes, em qualquer setor, são assistentes sociais ou
têm familiaridade com a profissão, permitindo um avanço nos
serviços prestados.
Sabemos que a filantropia e a política do favor e da dominação,
quando não a política da repressão,3 percorrem a história da assistência social e da própria profissão até os dias atuais.
Nossa experiência em entidades sociais, no poder público municipal
– seja como concursada, seja como contratada para cargo em
comissão –, na docência privada e no poder público estadual 4tem
provocado profundas inquietações, numa conjugação de elementos:
a decantada filantropia, a política de favor, a subalternidade, a
alienação e a identidade da profissão, conjugados aos limites institucionais e à condição de assalariamento. Eles compõem
particularidades profissionais que mediatizam a ação singular
profissional. as condições de emprego, com formas cada vez mais
flexibilizadas e precarizadas no mundo do trabalho, afetam
diretamente a condição de sobrevivência do profissional e de sua
família.
A construção teórica do Serviço Social no Brasil, sobretudo a partir
de 1980, tem sido rica para a compreensão da profissão em seus
limites e possibilidades, desvendando aspectos fundamentais para
fazer avançar o complexo arcabouço teóricometodológico da área, como os estudos de Iamamoto, Netto, Yasbek, martinelli, Serra,
mota, Falleiros, Pontes, que já se constituem em referências
internacionais, especialmente para a américa Latina, com diversos
títulos já traduzidos para a língua espanhola.
Os eventos científicos nacionais e internacionais específicos do
Serviço Social ou de áreas de atuação têm apresentado grande
participação de profissionais do Brasil, de países da américa Latina
e de todos os continentes do mundo, ainda que com menor
representatividade.
Consideramos o estudo de grande relevância, em especial porque
as organizações não governamentais têm representado um espaço
importante de trabalho profissional. Seu crescimento quantitativo na
prestação de serviços assistenciais tem exigido a incorporação de
assistentes sociais, inclusive para adequação à legislação atual da
assistência social, e é preciso conhecer melhor esse espaço de
trabalho.
A docência, principalmente nas disciplinas de trabalho e
Sociabilidade e Fundamentos Históricos, teóricometodológicos em
Serviço Social, tem proporcionado continuamente leituras,
questionamentos dos alunos e também de colegas, o que muito colaborou para as reflexões.
Alunos, profissionais mais antigos ou mais jovens comumente
relatam situações em que estão presentes todos os problemas que
têm caracterizado a trajetória histórica do Serviço Social no Brasil, como os limites institucionais e a dependência do salário, também
nas formas mais precarizadas, para a subsistência, ainda que
tenham consciência crítica e desejo de agir de acordo com os
princípios éticopolíticos e com a legislação em vigor. a condição
material, objetiva em que se desenrola a atuação profissional a
determina em muitos aspectos. No entanto, é possível também observar avanços e que a postura profissional é, sem dúvida
alguma, um fator altamente relevante no direcionamento das forças
conjunturais de um determinado momento histórico, impulsionando,
otimizando os aspectos transformadores, de modo a oferecer resistência nos momentos de retrocesso, ou, contrariamente,
favorecer o avanço da retroação, se é que é possível usar essa
expressão paradoxal.
Partimos preliminarmente do entendimento de que a condição de assalariamento dos profissionais e as contemporâneas modificações
no mundo do trabalho correspondem a determinações concretas
deste momento histórico da práxis profissional do Serviço Social,
considerado como profissão que se insere na divisão sociotécnica
do trabalho no capitalismo maduro.
No presente estudo, nossa atenção voltouse para compreender as
condições objetivas e subjetivas do processo de trabalho de
assistentes sociais em entidades sociais no município de
Bebedouro.
A ação profissional já tem sido objeto de análise em diversos
estudos, porém, com menos frequência buscase investigar as reais
condições de trabalho que o assistente social encontra em seu
cotidiano profissional.
Nossa análise procura compreender o processo de trabalho do
Serviço Social em entidades sociais de modo a descartar, a priori,
tanto a tendência fatalista que considera que os limites do espaço
profissional são insuperáveis, como a tendência messiânica que
considera o assistente social um profissional independente, com
autonomia quase absoluta para desenvolver propostas
transformadoras da realidade, desconsiderando a verdadeira inserção profissional na realidade concreta.
As duas abordagens, tanto a fatalista como a messiânica, não
relevam a historicidade social a partir da realização dos homens, as
particularidades da profissão e os elementos que a singularizam em determinado momento histórico e em cada processo de trabalho. Procuramos então responder à questão: quem são os profissionais
que estão nas entidades sociais? Quais as condições objetivas e
subjetivas da ação profissional nesse espaço de trabalho? o que se
revela por trás da cotidianidade, o que há de significativo para além da repetição cotidiana?
Nosso universo de investigação foi constituído por todas as
entidades sociais regularmente inscritas no Conselho municipal de
assistência Social (CmaS) no ano de 2008. isso significa que as entidades sociais tinham que estar em dia com o CmaS com suas
obrigações referentes ao ano de 2007, como a apresentação de
relatórios das atividades realizadas e a prestação de contas ao
órgão gestor, além de projetos para 2008.
Após a definição da assistência social na Constituição Federal de
1988, em seus artigos 203 e 204, como integrante da política de
seguridade social, e que deve ser prestada “a quem dela necessitar”
(art. 203), a Lei orgânica de assistência Social (Loas), de no
8.742/93, vem estabelecer com maior precisão a assistência social
em seu artigo 1 o:
A assistência social, direito do cidadão e dever do Estado, é
Política de Seguridade Social não contributiva, que provê os
mínimos sociais, realizada através de um conjunto integrado de
ações de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento às necessidades básicas.
A Constituição estabelecea como política pública, dever do Estado,
tendo por diretriz “descentralização político administrativa, cabendo
a coordenação e as normas gerais à esfera federal e a coordenação e a execução dos respectivos programas às esferas estadual e
municipal, bem como a entidades beneficentes e de assistência
social” (grifo nosso) – artigo 204, parágrafo I.
O disposto referente à participação de entidades beneficentes e de assistência social abre brechas para que o Estado deixe de cumprir
integralmente a sua função pública, podendo “dividir” sua responsabilidade com as organizações beneficentes da sociedade
civil, principalmente as já envolvidas na assistência social.
E no seu artigo 3 o define as instituições que podem fazer parte da assistência social:
Consideram-se entidades e organizações de assistência social
aquelas que prestarem, sem fins lucrativos, atendimento e
assessoramento aos beneficiários abrangidos por esta Lei, bem
como as que atuam na defesa e garantia de seus direitos.
Utilizamos no presente estudo a nomenclatura entidades,
organizações não governamentais, ou simplesmente instituições,
referindonos sempre às não governamentais. muito embora não sejam objetos de nosso estudo, questões como o público e o
privado, o chamado “terceiro setor” e as políticas sociais públicas
perpassam todo o trabalho.
de 2002 a 2008 mantivemos contatos com profissionais, integrantes do Conselho municipal de assistência Social (CmaS) e do
departamento municipal de Promoção Social, seja pela relação de
trabalho, seja pela pesquisa ora levada a efeito, o que nos permitiu
o acesso às profissionais e instituições.
Nosso estudo foi caracterizado por momentos de grandes
dificuldades, ocasionados não pelas profissionais, pois quase todas
aquiesceram prontamente em participar, mas pelas contingências do
momento histórico vivenciado e da conjuntura política, pois era ano
de eleições municipais (2008).
A instabilidade nos postos de trabalho em todos os setores da
sociedade, inclusive na área social, potencializada nos momentos
de crise econômica como a que se iniciou em 2008 em âmbito
mundial, obrigounos a uma reflexão mais profunda sobre a
metodologia da pesquisa, bem como o fato de ser ano eleitoral nos
municípios, o que acirrava as diferenças e os conflitos entre os
diferentes grupos políticos, principalmente no segundo semestre do ano, o que dificultou a organização de reuniões entre profissionais, devido ao fato de muitas delas possuírem vínculos com o poder
público municipal ou pelo envolvimento de dirigentes das entidades
sociais em que trabalham na disputa política.
Assim considerando, nosso cuidado foi redobrado no sentido de
preservar o sigilo da identidade dos sujeitos e das informações
obtidas através do questionário.
Procuramos aprofundar os aspectos, cujas mediações foram
surgindo a partir do próprio processo investigatório, como a
precarização e a flexibilização nas relações de trabalho do
assistente social.
Os questionários foram aplicados no período de julho de 2008 a
fevereiro de 2009.
Importante salientar que os sujeitos da pesquisa foram informados
quanto aos objetivos do estudo, não existindo qualquer
obrigatoriedade para a participação, nem foi concedido nenhum tipo
de indenização às participantes, que assinaram o termo de
Consentimento Livre e Esclarecido, conforme preceitua a resolução
no 196/96, do Conselho Nacional de Saúde.
Contextualizando o universo da pesquisa
o município de Bebedouro, localizado no norte do Estado de São
Paulo, distante 345,4 km da capital, com 74.815 habitantes de
acordo com o iBGE/2000,5 possui taxa de urbanização de 93,52%, com uma população urbana de 69.964 habitantes e rural de 4.851
habitantes. Pertence à microrregião de Jaboticabal e à mesorregião
de ribeirão Preto.
Segundo o atlas de desenvolvimento Humano, Bebedouro possui a
composição por faixa etária mostrada pela tabela 1.
Tabela 1 – Faixa etária da população do município
Faixa etária 1991 2000
Menos de 15 anos 21.624 19.690
15 a 64 anos 42.251 49.593
65 anos e mais 3.888 5.532
Total 67.763 74.815
De acordo com a classificação de municípios estabelecida pela
Política Nacional de assistência Social em 2004 (PNaS/2004),
Bebedouro é um município de médio porte, que abrange números
entre 50.001 a 100.000 habitantes.
No município de Bebedouro existem somente mulheres no exercício
da profissão de assistentes sociais, o que nos levou a optar pela
referência feminina.
Realizamos um levantamento geral de assistentes sociais no
município, iniciado na reunião com as profissionais para falar da
pesquisa e em contatos pessoais e telefônicos com outras
profissionais e instituições.
Mapa 1 – Localização regional e estadual do município de
Bebedouro
Fonte: Google, dados cartográficos, 2009, disponível em:
<http://maps.google.com.br/maps?hl=pt
Br&tab=wl&q=bebedouro>.acesso em 10/1/2009.
Constatamos que existem em Bebedouro 58 postos de trabalho, que são ocupados por 41 assistentes sociais, assim distribuídas:
– INSS (Federal): três assistentes sociais em três postos de
trabalho.
– Tribunal de Justiça (Estadual): duas assistentes sociais em
dois postos de trabalho.
– Prefeitura municipal: 18 assistentes sociais em 19 postos de
trabalho:
Assistência Social: onze assistentes sociais, sendo sete
efetivas; duas contratadas por processo seletivo por tempo
determinado; duas contratadas para cargo em comissão.
Saúde: sete assistentes sociais, sendo cinco efetivas e
duas contratadas por processo seletivo por tempo
determinado.
Departamento de recursos Humanos: uma assistente
social, efetiva (trabalha também no departamento de
Promoção Social).
– Entidades sociais: 21 assistentes sociais, distribuídas em 28
postos de trabalho. das 21, seis trabalham na Prefeitura
municipal.
– Empresas: seis assistentes sociais empregadas em seis
postos de trabalho, e, destas, três trabalham na Prefeitura
municipal.
Unimed (Cooperativa de trabalho médico): duas assistentes
sociais.
Instituto Bebedouro de Nefrologia (ibene): uma assistente social.
Transportadora: uma assistente social.
Senac: duas assistentes sociais, que não são contratadas com
a denominação de assistente social, mas a instituição as
reconhece como profissionais de Serviço Social.6trabalham na
área de educação profissionalizante.
Tabela 2 – Número de assistentes sociais no município
Serviço Setor
Público Privado
Federal Estadual Municipal Entidades Empresa
sociais
3 2 18* 21** 6***
Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.
* das 18 assistentes sociais na Prefeitura, uma exerce
dupla jornada e possui vínculo com entidades sociais.
** das 21 assistentes sociais em entidades sociais,
seis são funcionárias públicas municipais.
*** das seis assistentes sociais em empresas, duas
são funcionárias públicas municipais, e uma trabalha na Prefeitura com contrato de trabalho por tempo
limitado, aprovada em processo seletivo.
Gráfico 1 – assistentes sociais no município Fonte: Pesquisa de
campo realizada em 2008/2009.
A Prefeitura Municipal possui profissionais de Serviço Social nos
departamentos municipais de Promoção Social, Saúde e recursos
Humanos.7
No departamento municipal de Promoção Social encontram-se 11
profissionais, sendo que oito são concursadas, duas entraram por
processo seletivo por tempo determinado e duas são contratadas para cargo em comissão.
No de Saúde encontram-se sete profissionais, sendo cinco
concursadas e duas contratadas por processo seletivo por tempo
determinado.
Uma das profissionais do município trabalha em jornada dupla,
atendendo a setores diferentes da Prefeitura municipal.
O setor público emprega 45% das assistentes sociais, e, destas, o
município é responsável pela maioria, com 35%.
As entidades sociais empregam 45% das profissionais, o que demonstra a relevância do presente estudo, pois, se considerado
por parcela, é o segmento com maior número de assistentes sociais
empregadas.
Das dezoito assistentes sociais que trabalham na Prefeitura, seis possuem vínculo também nas entidades sociais, e outras três (duas
efetivas e uma contratada por processo seletivo por tempo
determinado) trabalham em empresas também. assim, 50% dessas
assistentes sociais possuem ao menos mais de um vínculo de
trabalho.
Importante salientar que, durante a realização da pesquisa, foi
aberto concurso público municipal no final de dezembro de 2008,
para preenchimento de cinco vagas de assistentes sociais – com
carga horária mensal de 100 horas (aproximadamente 25 horas
semanais, ou 5 horas diárias) e salário de r$ 720,06 –, o qual se
realizou em fevereiro de 2009, mas até abril de 2009 não tinham
ocorrido as contratações.
Em Bebedouro existem ainda seis assistentes sociais que residem
no município, mas que trabalham em municípios da região.
O município possui também o instituto de Ensino Superior de
Bebedouro (imesb), com um curso de Serviço Social. 8 Para as
disciplinas específicas de Serviço Social, existem seis assistentes
sociais, sendo apenas uma residente em Bebedouro e as cinco
demais residentes em cidades da região.
Verificamos que existem 33 entidades sociais cadastradas no
CmaS, mas duas não tiveram suas inscrições renovadas por
apresentarem irregularidades no seu funcionamento, e se
encontram em fase de reorganização para que o cadastro seja
renovado. 9 Para a pesquisa, então, consideramos as demais 31
entidades sociais.
Dentre as 31 entidades sociais, 21 possuem assistentes sociais em
seus quadros e dez não possuem profissionais de Serviço Social ou
as contratam eventualmente.
As dez que não possuem profissionais são:
– Associação de Protetora dos Pacientes Renais Transplantados de Bebedouro e Região (appret)
– Colégio Anjo da Guarda
– Creche Lourenço Santin
– Desenvolvendo a Criança e o Adolescente (DCa)
– Grupo antialcoólico independente de Bebedouro (Gaib)
– Missão restauração
– Rede Feminina de Combate ao Câncer
– Sociedade recreativa José do Patrocínio
– Vila Vicentina
– Associação Menina dos Olhos
As 21 entidades sociais que possuem ao menos uma profissional de
Serviço Social são mostradas na tabela 3.
Tabela 3 – assistentes sociais nas entidades sociais
No Entidade No de Assistente Total
assistentes social na
sociais coordenação
1 Associação Arte 1 - 1
e Solidariedade
(Artsol)
2 Associação 1 - 1
Antialcoólica
(AAA)
3 Associação dos 1 - 1
Deficientes de
Bebedouro
(ADB)
4 Associação de 3 - 3
Pais e Amigos
dos
Excepcionais
(Apae)
5 Associação 1 - 1
Protetora da
Infância –
Província de São
Paulo – Recanto
São Vicente de
Paulo
6 Associação de 1 - 1
Valorização dos
Deficientes
Auditivos (Avida)
7 Casa do 1 1 2
Adolescente
8 Casa da Criança- 1 1
Irmã Crucifixa
9 Casa de Maria 1 - 1
10 Casa de Santa 2 - 2
Clara
11 Casa de Santo 2 1 3
Expedito
12 Centro 1 - 1
Assistencial
Espírita do
Calvário ao Céu
(Caecc)
13 Centro de 1 - 1
Estudo e
Projetos para o
Bem- Estar do
Menor
(Ceprobem)
14 Centro Integrado 1 - 1
de Equoterapia
Bebedouro
(Cieb)
15 Comunidade 1 - 1
Educativa Figuls
Assunção (Cefa)
16 Educandário 2 - 2
Santo Antônio
17 Fundação Abílio 1 - 1
Alves Marques
18 Grupo Luta e 1 - 1
Amor à Vida
(Glav)
19 Lar do Idoso 1 - 1
Servas do
Senhor
20 Serviço Social 1 - 1
de Atendimento
Familiar (SSAF)
21 Vila Lucas 1 - 1
Evangelista
Total 25 3 28
Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.
Mapa 2 – Localização das entidades sociais no município
Fonte: Organização pessoal a partir do Google e dos endereços
constantes na lista de entidades sociais fornecida pelo CMAS.
Realizamos uma reunião inicial em que puderam participaram nove
profissionais para apresentação da pesquisa e do instrumental,
quando incorporamos algumas sugestões para o levantamento. as profissionais receberam posteriormente o questionário em envelope
e o devolveram pessoalmente ou o recolhemos no local de trabalho
ou na moradia. os contatos foram de uma riqueza ímpar pelo
interesse das colegas em participar do estudo, pelos relatos plenos
de detalhes, socializando suas experiências, seus desafios e suas
conquistas. o teor das informações não será apresentado pelo mesmo motivo já apontado para a não realização do segundo
momento da pesquisa: a fim de preservar o sigilo e a não
identificação dos sujeitos.
Em 21 entidades sociais existem 28 postos de trabalho com
profissionais de Serviço Social, sendo 24 na função de assistentes
sociais, uma na coordenação de projetos e três na função de
coordenação da instituição.
Pelo levantamento realizado, constatamos que os 28 postos de
trabalho são ocupados por 21 assistentes sociais, indicando a
existência de profissionais que exercem suas atividades em mais de
uma instituição.
Das 21 assistentes sociais, duas não concordaram em participar da
pesquisa, o que nos permitiu totalizar a participação de dezenove,
representando 90,48% do total de profissionais nas entidades
sociais.
O capítulo 2 aborda o perfil das assistentes sociais nas
organizações não governamentais, como idade, tempo de formação,
local de formação, conhecimento da legislação da profissão, início
do Serviço Social na instituição, tempo de trabalho na entidade,
tempo de trabalho como assistente social. No mesmo capítulo, relatamos as relações de trabalho, incluindo tipo de vínculo,
quantidade de vínculos, carga horária na instituição, carga horária
total como assistente social, renda mensal na instituição, renda
mensal como assistente social, exercício de outra atividade rentável
e experiência de desemprego; e as condições éticas e técnicas de
trabalho, como espaço físico, equipamentos e incentivo ao
aprimoramento profissional.
No capítulo 3 abordamos o cotidiano profissional nas entidades
sociais, com reflexões sobre o Estado e seu papel no enfrentamento
à questão social, terceiro setor, entidades sociais, e sobre o
cotidiano, enquanto espaço de vida e de luta das assistentes
sociais, com apresentação dos resultados da pesquisa e relatos sobre cotidiano profissional, espaços de reflexão na vida cotidiana,
dificuldades, avanços e desafios, e sociabilidade pessoal.
Entendemos o Serviço Social como profissão em sua totalidade
histórica, dentro da sociedade do capitalismo maduro vivenciando
um momento de financeirização, que tem provocado um acirramento
das manifestações da questão social, as quais se constituem em
objeto do trabalho profissional do assistente social, sendo, portanto,
fundamental apontar alguns elementos teóricos que situem nosso posicionamento.
Sociedade do capital e questão social
O desmoronamento da estrutura da sociedade feudal nos séculos
XiV e XV, aliado ao desenvolvimento das ciências, com consequente superação de antigos dogmas impostos pela igreja
Católica, provoca a desmoralização das explicações divinas para
resguardar o poder político e uma nova divisão das classes sociais.
Ao mesmo tempo, há um deslocamento do centro de poder do feudo para a cidade, as trocas simples durante a idade média vão se
tornando relações comerciais mais complexas, separase o campo
da cidade, o camponês da terra, o produtor dos meios de produção.
O assalariamento tornase cada vez mais comum, e o processo de
trabalho intensifica sua divisão. O capitalismo, em sua fase
mercantil, se desenvolve rapidamente, necessitando do
aprofundamento da discussão do papel do Estado, uma vez que há
um contingente populacional cada vez maior que não se insere nas novas formas sociais para garantir sua sobrevivência, e as relações
comerciais se intensificam e tornam-se mais complexas. a
propriedade privada é fortalecida, necessita de proteção, o que
exige intervenções até então desnecessárias.
Para Behring & Boschetti (2006, p.57),
Com a decadência da sociedade feudal e da lei divina como
fundamento das hierarquias políticas, por volta dos séculos XVi
e XVii, ainda no contexto da chamada acumulação primitiva do
capital, é desencadeada uma discussão sobre o papel do
Estado. desde maquiavel, buscase uma abordagem racional do
exercício do poder político por meio do Estado. Naquele momento, este era visto como uma espécie de mediador
civilizado [...,] ao qual caberia o controle das paixões, ou seja,
do desejo insaciável de vantagens materiais, próprias dos
homens em estado de natureza. Em seu Leviathan, de 1651,
Hobbes apontava que, no estado de natureza, os apetites e as
aversões determinam as ações voluntárias dos homens e que,
entre preservar a liberdade vantajosa da condição natural e o
medo da violência e da guerra, impõese a renúncia à liberdade individual em favor do soberano, do monarca absoluto. a
sujeição seria uma opção racional para que os homens
refreassem suas paixões, num contexto em que o “homem é o
lobo do homem”.
As indústrias se expandem, mas simultaneamente ocorre um
processo de pauperização da população, com aumento
descontrolado da mendicância e dos trabalhadores empobrecidos e
socialmente desprotegidos.
Parte do contingente populacional de origem rural tornase nômade,
vagando por grandes extensões, vendendo sua força de trabalho
especialmente em atividades ligadas à construção civil. as
condições de moradia nas cidades são precárias e sem saneamento
básico, e, no trabalho, os indivíduos são submetidos a extensas
jornadas em condições de insalubridade, o que favorece a
disseminação de diversas doenças.
Na inglaterra, um dos países onde mais rapidamente avançaram as
novas relações de produção, deparase com a dificuldade, a qual
exige um enfrentamento.
Marx (1998, v.2, p.770) descreve que:
O trabalho nômade é empregado em diversas atividades de construção e de drenagem, na produção de tijolos, para
queimar cal, na construção de ferrovias, etc. é uma coluna
pestilencial que se desloca, levando para as cidades em cujas
proximidades se instalam varíola, tifo, cólera, escarlatina, etc.
Quando os empreendimentos envolvem muito dispêndio de
capital, como ferrovias, etc., o próprio empresário fornece, em
regra, a seu exército barracos de madeira ou construções
semelhantes, verdadeiras aldeias improvisadas, sem qualquer
preocupação de ordem sanitária, fora do controle das
autoridades locais, e altamente rendosas para o empreiteiro,
que explora duplamente os trabalhadores como soldados da
indústria e como locatários.
Com a dissolução dos feudos, da vassalagem, imenso contingente é
expulso das terras, sem direitos; essas pessoas não podiam ser
todas inseridas nas manufaturas nascentes de modo tão rápido
quanto eram colocadas à disposição de um novo mercado,
formando grupos que praticavam a mendicância e a ladroagem, como marx (1998, v.2, p.848) explica:
Bruscamente arrancados das suas condições habituais de
existência, não podiam enquadrarse, da noite para o dia, na
disciplina exigida pela nova situação. muitos se transformaram
em mendigos, ladrões, vagabundos, em parte por inclinação,
mas na maioria dos casos, por força das circunstâncias.
A situação é tratada inicialmente de modo fortemente repressor e
coercitivo no trabalho, desde o Estatuto dos trabalhadores, de 1349, cujas ações são em parte desenvolvidas por algumas iniciativas
filantrópicas e outras pelo Estado, como a Casa de Correção,
instituída pela Lei dos Pobres, de 1597, que determinava o
confinamento dos praticantes da mendicância, submetendoos a
trabalhos forçados, independentemente de salário, de idade ou de
condição de saúde (martinelli, 2005, p.557).
Pelos países da Europa ocidental se expande uma legislação
sanguinária de combate à vadiagem, no final do século XV e
durante todo o século seguinte (marx, 1998, p.848).10 No século XVi, “estes vagabundos – tão numerosos que o rei Henrique Viii da
inglaterra, entre outros, mandou enforcar 72 mil – foram obrigados a
trabalhar com as maiores dificuldades, em meio à mais extrema
miséria e somente após longas resistências” (marx & Engels, 1993, p.87).
A legislação inglesa perdurou até o início do século XViii, e em
outros países europeus até quase a mesma época, o que
demonstra que, desde o início do desenvolvimento da sociedade do
capital, a população supranumerária, desfiliada11 do mercado de
trabalho, não absorvida pela crescente expansão do capital, é
despojada de suas condições de sobrevivência. os problemas daí advindos, como a mendicância e o roubo da propriedade alheia, são
punidos severamente, enquanto o trabalho tem uma conotação
diferente do valor de uso ou é usado como castigo. o trabalho livre
assume um novo significado com o valor de troca e a possibilidade
de permitir a acumulação de capital por meio da sua exploração.
Behring & Boschetti (2006, p.50) assinalam que:
Na sociedade préindustrial ou não capitalista, as atividades de
trabalho eram indissociáveis das demais atividades da vida social [...] Na sociedade capitalista burguesa, o trabalho perde
seu sentido como processo de humanização sendo incorporado
como atividade natural de produção para a troca, independente
de seu contexto histórico.
As lutas coletivas do proletariado, se não conseguem reverter a
situação de exploração da força de trabalho, nem atingir a proteção
cada vez mais forte à propriedade privada da burguesia, conquistam
direitos e atenuam a criminalização das manifestações da questão
social, que se estabelecem a partir dos contraditórios interesses do
capital e do proletariado. Por outro lado, a burguesia teme o avanço
dos ideais socialistas, que encontram ampla aceitação entre os
trabalhadores, e novas teorias são criadas de modo a conciliar os interesses da manutenção da propriedade privada e da exploração
da força de trabalho, e essas teorias são incorporadas pelos setores hegemônicos e postas em prática no sentido de diminuir os conflitos
sociais.
A questão social se formata exatamente nessa contradição que se
inicia na consolidação do capital e do trabalho assalariado. o eixo da
produção econômica se desloca do feudo para o capital, cuja
sociedade se reorganiza para privilegiar a concentração e a
expansão do capital em detrimento da defesa dos interesses do
imenso contingente populacional que fica à deriva para sobreviver, não lhe restando alternativa além de vender a sua força de trabalho,
já despojada de suas ferramentas de trabalho.
Se o trabalho assalariado representa a liberdade de transitar por
diferentes empregadores – o chamado trabalho livre –, deixando a servidão a um único senhor por toda a vida e por todas as gerações,
o assalariamento traz consigo a servidão ao lucro e à maisvalia. o
trabalhador só consegue vender sua força de trabalho em condições
que permitam ao seu empregador – possuidor dos meios de
produção – explorar a maisvalia e gerar o lucro sobre a utilização da
sua própria força de trabalho. Em outras condições, não existe o
emprego, ou seja, não se oferece a “vaga” disponível.
O trabalhador deixa de ter um único senhor, que recebia do seu
servo o imposto e, por isso, tinha interesse em que sua existência
fosse produtiva, para ter diversos empregadores que não têm
nenhum interesse em prover a existência do seu trabalhador,
interesandolhes somente a extração da sua força e da sua energia enquanto durarem, pois, quando gastas ou exauridas, podem ser
encontradas em outros trabalhadores, existentes aos milhares fora
da oportunidade do trabalho formalizado, o que faz impulsionar e
manter o salário em patamares insuficientes para a manutenção da
sobrevivência com dignidade.
A acumulação primitiva do capital nos séculos XVi e XVii dá origem
ao aumento do domínio das forças e obstáculos da natureza, com o
desenvolvimento de todas as áreas das ciências, impulsionando o
conhecimento humano, mas também causa o processo de
miserabilidade do trabalhador, cuja classe social não pode desfrutar dos avanços conquistados. os “efeitos colaterais” do
desenvolvimento econômico originam novas respostas por parte dos
que possuem o poder econômico e político, porém sempre de modo
a manter a nova ordem econômica e social em ascensão.
A expressão “questão social” surge nas primeiras décadas de 1800
para identificar as tensões sociais que se originam das condições
subhumanas de trabalho nas indústrias, como explica Castel (1998,
p.30):
Essa questão (social) foi explicitamente nomeada como tal, pela
primeira vez, nos anos 1830. Foi então suscitada pela tomada
de consciência das condições de existência das populações
que são, ao mesmo tempo, os agentes e as vítimas da revolução industrial. é a questão do pauperismo.
As condições de trabalho nas indústrias aliadas às condições
subhumanas de sobrevivência que atingem os desempregados, ou
inempregáveis, inempregados, no dizer de Castel, para quem não existe lugar formal para vender sua força de trabalho, constituem os
ingredientes para a articulação e organização popular para exigir
melhores condições de vida e de trabalho, fazendo crescer os
movimentos dos trabalhadores, empregados ou não.
Para os detentores e organizadores do capital, o ruído social
representa uma grave ameaça à ordem estabelecida, necessitando
de contenção, de repressão, enquanto, na verdade, os movimentos
dos trabalhadores representam “a reivindicação fundamental de livre
acesso ao trabalho” (Castel, 1998, p.31).
A pauperização do trabalhador empurra, para o mercado produtivo,
mulheres e crianças em tenra idade, cujo envolvimento na luta pela
sobrevivência não é suficiente para a reprodução digna da vida
humana.
O processo de pauperização do trabalhador está diretamente ligado
ao excesso de horas do trabalho assalariado, à participação no
trabalho produtivo de mulheres e crianças desde tenra idade e ao desemprego estrutural, que provocam manifestações populares de
luta por direitos sociais. Essa situação era entendida 12 como
“desorganização social” que necessitava de repressão para a
manutenção da ordem.
No capitalismo concorrencial, a questão social era tratada com
ações coercitivas pelo Estado, à medida que a força de trabalho
respondia às refrações daquele mediante a organização e
mobilização para o alcance de seus direitos sociais. ou seja, era
uma questão de polícia e não de política. (Serra, 2000, p.171,
grifo da autora)
A questão social expressa, assim, o confronto de interesses entre a
classe industrial burguesa e a classe operária nascente. a
acumulação do capital exige a exploração da classe trabalhadora
como totalidade, exploração que se manifesta nas longas jornadas
de trabalho e no trabalho noturno que desorganizam a família, nas condições insuficientes de alimentação, vestuário, moradia, saúde,
educação, e sobretudo no embrutecimento moral e intelectual dos
trabalhadores.
Hobsbawm (1988 e 2002) analisa o período de 1789 a 1848 que tem como principal característica uma dupla revolução: a Francesa
e a industrial, que marcam definitivamente a história da sociedade
burguesa. é um período de lutas, revoltas populares, em busca de
direitos sociais e de ideais democráticos, mas também um período
que estabelece as bases para a fase seguinte, de 1848 a 1875, que
Hobsbawm chama de “Era do Capital”.13
No ano de 1848 marca a ocorrência de uma revolução generalizada; o Manifesto do Partido Comunista, escrito por marx e Engels, é
publicado em Londres, no mês de fevereiro, com grande
repercussão no país e traduzido em várias outras línguas,
difundindose pela Europa. Nas palavras de Hobsbawm,
1848 foi a primeira revolução potencialmente global, cuja
influência direta pode ser detectada na insurreição de 1848 em
Pernambuco (Brasil) e poucos anos depois, na remota
Colômbia. Em certo sentido, foi o paradigma de um tipo de
“revolução mundial” com o qual, dali em diante, os rebeldes
poderiam sonhar e que em raros momentos, como no pósguerra das duas Guerras mundiais, eles pensaram poder
reconhecer. (Hobsbawm, 2002, p.28)
Ainda que a revolução, ou as revoluções de 1848, não tenha tido o
resultado desejado pelos proletários, determinou reações políticas para o enfrentamento dos problemas advindos dos conflitos entre
capital e trabalho. Se o modo de produção não foi alterado, a classe
burguesa se apropria de reivindicações dos trabalhadores e,
juntamente com o Estado, passa a modificar as condições de
trabalho e de vida dos operários, o que permite uma diminuição dos
conflitos, a reprodução da classe trabalhadora e a afirmação do
modo de produção capitalista.
A palavra “capitalismo” começa a ser difundida nas áreas da
economia e da política no mundo a partir da década de 1860, ainda
que sua origem possa ter ocorrido duas décadas antes (Hobsbawm,
2002, p.19).
É nesse período histórico que se processa a passagem da fase
concorrencial do capitalismo para a fase dos monopólios, e tem
início a mundialização do modo de produção. Esse processo traz
consigo igualmente a mundialização da questão social, cujas
refrações passam a merecer a atenção estatal, e as políticas sociais se institucionalizam.
Assim como o capitalismo e a classe burguesa triunfaram, os
projetos que lhes eram alternativos recuaram, apesar do
aparecimento da política popular e dos movimentos trabalhistas. Esses projetos não poderiam parecer menos
promissores do que em, digamos, 187273. Porém em poucos
anos o futuro daquela sociedade que havia triunfado tão
espetacularmente mais uma vez parecia incerto e obscuro, e
movimentos destinados a substituíla ou derrubála precisavam
novamente ser levados a sério. (Hobsbawm, 2002, p.221)
O modo de produção centrado no capital apresenta o maior
desenvolvimento das forças produtivas, o domínio cada vez mais
aperfeiçoado dos limites naturais, mas arrasta consigo as marcas do
“efeito colateral”, com a maioria da população excluída dos seus benefícios, aumentando cada vez mais a distância entre os
detentores dos meios de produção e os que vendem sua força de
trabalho, mantendo, à margem do seu progresso, milhões de
pauperizados.
Essa contradição permanente entre desenvolvimento e
pauperização vai perseguir toda a sociedade do capital, provocando
invariavelmente crises econômicas e reações populares, numa luta
igualmente permanente por melhores condições de trabalho e de
vida.
O processo de organização do trabalho na sociedade do capital tem
por finalidade última a expansão e a concentração do próprio
capital, de modo a permitir a reprodução das relações sociais
existentes. a partir disso, se estabelecem dois aspectos que
merecem a concentração dos esforços: a eficácia da produção, que
deve ser aumentada constantemente, e o preço do trabalho, que
deve ser constantemente reduzido, ou seja, é necessário combinar a redução do trabalho vivo com a maximização da produtividade, o
que permite, em menor tempo, a extração do sobretrabalho. À
medida que a sociedade desenvolve as forças produtivas, conforme
afirma antunes (1999, p.119),
é bastante evidente a redução do trabalho vivo e a ampliação
do trabalho morto. mas, exatamente porque o capital não pode
eliminar o trabalho vivo do processo de criação de valores, ele
deve aumentar a utilização e a produtividade do trabalho de
modo a intensificar as formas de extração do sobretrabalho em
tempo cada vez mais reduzido. (Grifos do autor)
Para atingir a finalidade da sociedade vigente, o trabalho é
organizado para a necessidade da expansão e da acumulação do
capital, e não para atender à necessidade de sobrevivência e
desenvolvimento do trabalhador, enquanto ser social que possui outras necessidades além das básicas de sobrevivência: “o
trabalhador existe para o processo de produção e não para o
trabalhador” (marx, 1998a, p.555).
Institucionalização do Serviço Social
Para o enfrentamento da questão social, na defesa do ideário
burguês, surgem duas grandes tendências, de acordo com martinelli
(2005): a Escola Humanitária e a Filantrópica, a partir dos
economistas adam Smith e david ricardo, que, apesar de apresentarem algumas diferenças, mantêm a culpabilização do
indivíduo pela situação de pobreza vivenciada e buscam coibir
conflitos e confrontos que surgiam na defesa dos trabalhadores.
As poucas iniciativas privadas filantrópicas e estatais de atendimento da população empobrecida não são suficientes e o
Estado é requisitado a intervir mais diretamente na realidade social.
Como afirma martinelli (2005, p.66): “Burguesia, igreja e Estado
uniram-se em um compacto e reacionário bloco político, tentando coibir as manifestações dos trabalhadores eurocidentais, impedir
suas práticas de classe e abafar sua expressão política e social”.
A institucionalização do Serviço Social ocorreu nos últimos anos do
século XViii e início do século XiX dentro dos marcos da consolidação do capitalismo, no tensionamento dos interesses entre
as classes dos proprietários dos meios de produção e dos que têm
somente a sua força de trabalho para vender e daí tirar a sua
sobrevivência.
Sob a liderança do setor industrial que, de um lado, proporcionava
um grande desenvolvimento das forças produtivas, e, por outro,
deixava um lastro de miséria, as populações rurais, sem apoio para
enfrentar suas dificuldades, dirigem-se em massa para as cidades
em busca de oportunidade de trabalho nas indústrias em expansão,
transformandoas em grandes centros, porém sem infraestrutura
para tamanho contingente populacional.
É assim que surge em Londres, inglaterra, em 1869, a Sociedade de
organização da Caridade, com forte influência da igreja Protestante,
como continua martinelli (2005, p.66):
Surgiam assim, no cenário histórico os primeiros assistentes
sociais, como agentes executores da prática de assistência
social, atividade que se profissionalizou sob a denominação de
“Serviço Social”, acentuando seu caráter de prática de
prestação de serviços. (Grifos da autora)
A nova profissão, a de prestadores de assistência social, se
expande por toda a Europa e pela américa do Norte. a profissão
surge diretamente ligada à reprodução material das relações entre
trabalho e capital, uma vez que permite a sobrevivência do trabalhador (a reprodução da espécie humana, porém dentro das
condições da sociedade do capital) e atenua os conflitos existentes
entre trabalhadores e detentores dos meios de produção.
Martinelli (2005, p.86) refere que
O pauperismo, como polo oposto da expansão capitalista,
crescera tanto na Europa durante o século XiX que seu
atendimento já não podia mais se restringir às iniciativas de
particulares ou da igreja; era preciso mobilizar o próprio Estado,
incorporando a prática da assistência e sua estratégia
operacional – o Serviço Social – à estrutura organizacional da
sociedade burguesa constituída, como um importante
instrumento de controle social. (Grifos da autora)
Entendendo que a pobreza era um “defeito de caráter”, a Sociedade
de organização da Caridade difunde seus ideais e estratégias de
atendimento à população por toda a Europa e pela américa do
Norte, inserindo no final dos anos 1860 um esforço de
sistematização e de cientifização de suas ações, já incorporadas
pelo Estado, e estendendo sua intervenção para além da
assistência material através de visitas domiciliares, para a
orientação no âmbito da família, da saúde e da educação.
A partir de 1840, 14 os movimentos proletários se difundem pelos
países industrializados, simultaneamente à divulgação da crítica à
sociedade do capital em ideários socialistas, comunistas e
anarquistas. as lutas por melhorias nas condições de trabalho e
direitos sociais se espalham e, no embate de forças contraditórias, o
Estado se vê na contingência de intervir diferentemente ao período
do capitalismo concorrencial, quando o combate às manifestações da questão social era feito apenas com a repressão.
O Estado, majoritariamente constituído por representantes da classe
burguesa, procura desenvolver ações mais voltadas à proteção
social, incorporando parcelas das reivindicações das massas populares, porém não age sozinho, procurando se apropriar das
antigas iniciativas de assistência filantrópica.
Com o desenvolvimento das forças produtivas, o modo de produção
capitalista deixa sua fase mercantil, concorrencial, para expandirse por todo o mundo, inaugurando uma nova fase, a dos monopólios. a
nova fase econômica mantém e aprofunda as mesmas contradições
entre capital e trabalho, aumenta a complexidade das manifestações
da questão social, inaugurando uma forma de enfrentamento: a
institucionalização da assistência, incorporandoa como mecanismo
político, de modo a garantir a reprodução e expansão do capital e a
reprodução da classe trabalhadora dentro dos limites da chamada
“ordem social”.
É somente com o advento do capitalismo monopolista que a
“questão social” tornase objeto de respostas institucionais por
meio de políticas sociais como um mecanismo básico para a
reprodução social da força de trabalho e de legitimidade das elites, além da reprodução do capital como pressuposto
constitutivo da formação capitalista. (Serra, 2000, p.171)
Com a necessidade crescente de responder à nova demanda de
intervenção social, a proposta de criação do ensino de Filantropia aplicada surge com mary richmond, da Sociedade de organização
da Caridade de Baltimore, durante a Conferência Nacional de Caridade e Correção, em 1897, em toronto, Canadá; o curso é
realizado em 1898, em Nova York. Nessa mesma cidade, em 1899,
surge a primeira Escola de Filantropia aplicada – training School in
applied Philanthropy, e em seguida, no mesmo ano, surge uma escola em amsterdã, Holanda, introduzindo a matéria na Europa. os
cursos se difundiram rapidamente pela Europa e Estados Unidos da
américa (martinelli, 2005).
Desse modo, a prestação de serviço na forma de assistência aos pobres deixa de ser uma atividade voluntária, vinculada à
benemerência, sendo incorporada à divisão social do trabalho a
profissão de assistente social.
Martinelli (2005) aponta em seu estudo que as ações do Estado e das igrejas, tanto católica como protestante, estavam
profundamente vinculadas ao ideário burguês, de cuja classe social
provinham os primeiros agentes sociais.
Dessa maneira, a ação social não estava voltada ao atendimento das necessidades e interesses da classe trabalhadora, que por isso
mesmo não reconhecia o trabalho social realizado, mas sim
interpretava a situação social encontrada como um desajuste do
indivíduo, da família, incorporando princípios burgueses na sua
ação. ao mesmo tempo, se os trabalhadores não legitimavam a
ação social que se institucionalizava, esta era essencial à
sobrevivência de famílias que se encontravam ao desabrigo,
atingidas por doença e morte entre seus membros, especialmente quando envolvia o(s) responsável(is) pela manutenção da casa,
dificultando ou impedindo o acesso ao trabalho assalariado. o papel
dos agentes sociais aparece como uma benesse concedida aos
necessitados. Esse atendimento material, sem a perspectiva do
direito social da população, veicula a falsa idéia de um Estado
protetor e paternal. isto desvenda o aspecto ideológico da política
social, que mascara as verdadeiras relações implícitas ao serviço
realizado, dificultando ao próprio profissional o desvendamento da realidade de que ele mesmo também se tornava um trabalhador assalariado, submetido às mesmas leis da economia livre que
regulam a produção e reprodução da sociedade do capital.
Apoiar e dar cumprimento às orientações da igreja e do Estado
permitia a expansão rápida da profissão, que passa a atrair
sobretudo moças vinculadas às práticas religiosas baseadas em
princípios de solidariedade de indivíduo para indivíduo, e não de
classe (que implicaria o reconhecimento da legitimidade das
reivindicações dos operários).
Na Europa se acentua a influência religiosa na profissão,
principalmente a partir da Escola Católica de Serviço Social de Paris
no início do século XX, que se propõe a estudar a questão social a
partir da doutrina social da igreja Católica, forma núcleos de discussão e divulga seu ideário por toda a Europa e américa Latina.
Na américa do Norte se generaliza uma tendência de estabelecer
maior independência em relação à religião (mas não em relação à
burguesia), o que favorece o surgimento e crescimento da
associação Nacional de trabalhadores Sociais, a partir de 1920,
segundo martinelli (2005, p.119).
O estudo de martinelli (2005, p.120) salienta:
As décadas de 20 e 30 [do século XX] foram testemunhas de uma grande expansão do Serviço Social europeu, seja nas
ações profissionais, seja no processo organizativo. da
experiência dos pequenos Núcleos surgiu em 1925, na itália,
durante a i Conferência internacional de Serviço Social, em
milão, a União Católica internacional de Serviço Social (UCiSS).
tratavase de um organismo de maior porte e que exerceu
grande influência não só sobre o Serviço Social europeu como
também sobre o latinoamericano.
O período de pósPrimeira Guerra mundial exigiu na Europa um
esforço econômico, político e social para sua reconstrução. o poder
hegemônico da igreja Católica foi enfraquecido pelas alianças da
sociedade civil oligárquica. Para não deixar sua antiga aliança com a burguesia, a igreja procurou incentivar a participação de leigos em
ações sociais, de modo a operacionalizar a sua doutrina social.
O desenvolvimento do Serviço Social europeu, que serve de base
para o Serviço Social brasileiro, se dá a partir da concepção
religiosa de sociedade com a correspondente ação religiosa na
prática, com forte apelo à vocação da ajuda, às qualidades morais e
pessoais do profissional, aliadas aos conhecimentos próprios da
profissão, considerando os aspectos técnicos e científicos.
As qualidades pessoais, a vocação, a disposição para servir
continuavam presentes como elementos essenciais, aos quais
era preciso acrescentar o preparo técnico-científico para o
adequado exercício da prática social. À medida que se
institucionalizava, exigia de seus agentes procedimentos mais
técnicos e eficientes, capazes de exercer sobre as classes
subalternas o controle social e político exigido pelas classes
dominantes. (martinelli, 2005, p.121)
Aos profissionais de Serviço Social competia a utilização de seus
conhecimentos técnicooperativos em favor da adaptação do
indivíduo ao sistema social vigente, buscando eliminar com sua
intervenção qualquer forma de manifestação dos trabalhadores,
considerada perigosa à ordem e à disciplina, ou simplesmente
“esvaziando o conteúdo político de suas reivindicações coletivas,
exercendo um vigilante controle sobre as manifestações do
proletariado” (martinelli, 2005, p.121).
Simultaneamente, a ação do Serviço Social demonstrava a ação
“caridosa” da sociedade dominante, que escondia ou camuflava os
efeitos indesejáveis do progresso, manifestos na existência dos
miseráveis.
As três primeiras décadas do século XX apresentam, no quadro
internacional, a revolução russa de 1917 e a criação da União das
repúblicas Socialistas Soviéticas em 1922, a Primeira Guerra mundial, de 1914 a 1918, a crise econômica de 1929, confrontando
as soluções liberais e as comunistas para as situações enfrentadas.
Em todo o mundo aumenta a tensão social e os trabalhadores
procuram se articular e manifestar suas necessidades, lutando
contra as más condições de trabalho, de moradia, de alimentação,
de higiene, de saúde e de educação.
A partir de meados do século XiX até os primeiros trinta anos do
século XX predomina a teoria liberal para a sociedade do capital, em
que as relações econômicas devem ser reguladas pelo livre
mercado, “a mão invisível”, na concepção de adam Smith. o Estado
mercantilista tinha um forte papel intervencionista na economia, o
que passou a ser rejeitado pelas teorias liberais, que enfatizavam um Estado não interventor.
O liberalismo, alimentado pelas teses de david ricardo e
sobretudo de adam Smith [...],que formula a justificativa
econômica para a necessária e incessante busca do interesse individual, introduz a tese que vai se cristalizar como um fio
condutor da ação do Estado liberal: cada indivíduo agindo em
seu próprio interesse econômico, quando atuando junto a uma
coletividade de indivíduos, maximizaria o bemestar coletivo. é o
funcionamento livre e ilimitado do mercado que asseguraria o
bemestar. é a “mão invisível” do mercado livre que regula as
relações econômicas e sociais e produz o bem comum.
(Behring, Boschetti, 2006, p.56)
A crise de 1929 a 1932 suscita novas discussões sobre o papel do
Estado no enfrentamento da questão social, com influência da teoria
social da igreja Católica e das teorias liberais.
No Brasil, o Estado assume um discurso moralizador, com influência
das encíclicas papais Rerum Novarum e Quadragesimo Anno, que
propõem como princípios:
a aliança entre patrão e empregados; os patrões deveriam ter
consciência cristã, não explorar seus empregados, pagarlhes o
preço justo por seus serviços; os empregados, por sua vez,
deveriam se conformar com o lugar que deus lhes deu, pois o
trabalho e o homem contribuem para o engrandecimento da sua
pátria. além disso, o que não lhes foi dado nesta vida,
receberão com abundância no céu. (Cardoso et al., 2000, p.81)
No Brasil, com população eminentemente agrária no início do século
XX, tentase desenvolver sua economia dentro do sistema
agrárioexportador, procurando sufocar com a repressão os movimentos sociais de norte a sul do país, tanto rurais, por exemplo
as Ligas Camponesas, como os operários urbanos. 15
As manifestações do conflito entre capital e trabalho no período de
expansão da indústria e do capital, que formatavam a questão social
no mundo e no Brasil, a influência católica, com forte apelo à
solidariedade entre indivíduos e a pressão da sociedade civil para a
intervenção do Estado na minimização das refrações da questão social formam um terreno fértil para a expansão do Serviço Social
no mundo e sua institucionalização como profissão no Brasil.
Surgimento e desenvolvimento do Serviço Social
no Brasil
O Brasil entra no século XX com a recente abolição da escravatura
(1888) e a instalação do governo republicano (1889), pondo fim à
monarquia. a república se organiza em sistema federativo – cujo
poder político é exercido por pequenas oligarquias. Embora o
regime político se torne mais representativo do que no período
monárquico, não se torna mais democrático, fortalecendo o
mandonismo local, conhecido como coronelismo (Linhares, 2000,
p.165). a classe subalterna permanece excluída dos processos decisórios, e a economia continua baseada na agroexportação,
tendo como base de produção o latifúndio.
A década de 1920 no cenário mundial representou um momento de
combater as consequências do pósguerra (1914 a 1918), com o objetivo de expandir o capital, o que mantinha as contradições
inerentes ao desenvolvimento concentrador de riqueza. a
repercussão da revolução russa de 1917 fortalecia a divulgação do
ideário libertador de marx, favorecendo a mobilização do operariado em toda a américa Latina, com acirramento dos conflitos entre o
Estado, o empresariado nascente e os trabalhadores. o Estado é
pressionado a emitir respostas aos conflitos, numa postura de
buscar um “consenso” entre os interesses antagônicos visando à
“paz social”.
As relações sociais capitalistas se consolidam no Brasil sobretudo
no período de 1930 a 1980, que impôs à sociedade a saída de um
modelo agrárioexportador para um modelo urbanoindustrial.
O crescimento econômico provocado é regional e socialmente
desigual, com capitalismo dependente dos centros considerados
desenvolvidos.
As décadas de 1920 e 1930 no Brasil são decisivas para a implantação do Serviço Social. a questão social se intensifica com a
formação de novo operariado urbanoindustrial, e de forma desigual
pelo país. o maior desenvolvimento, e, consequentemente, também
as diferenciadas expressões da questão social, surgem nos estados
de São Paulo e do rio de Janeiro.
O início da industrialização é marcado pela falta de condições de
higiene, de salubridade e de segurança, com acidentes frequentes,
e salários baixos impulsionando para o mercado de trabalho
mulheres e crianças em idade prematura. a esse respeito, Iamamoto
& Carvalho (1985, p.131) escrevem que “é comum a observação
sobre a existência de crianças operárias de até 5 anos e dos
castigos corporais infligidos a aprendizes”.
E continuam explicando que
da força de trabalho industrial de São Paulo uma terça parte é
constituída de mulheres, metade aproximadamente são
operários e operárias menores de 18 anos, e 8% menores de
14 anos. a jornada normal de trabalho – apesar de diferir por
ramo industrial – é, no início do século, de 14 horas. Em 1911
será em média de 11 horas e, por volta de 1920, de 10 horas.
até o início da década de 1920, no entanto, dependerá na
maioria das vezes das necessidades das empresas. mulheres e
crianças estarão sujeitas à mesma jornada e ritmo de trabalho,
inclusive noturno, com salários bastante inferiores. (1985, p.131
2)
Importante salientar que não havia qualquer direito trabalhista, como
descanso semanal remunerado, férias, licença para saúde e outros.
As primeiras legislações e atuações do Serviço Social, na década
de 1930, estão voltadas para a regulamentação do trabalho nas fábricas e para a criança e a família, de vez que o que a sociedade
burguesa reconhece não é a situação dada como consequência de
péssimas condições de trabalho e de vida, mas sim como um “mal
necessário” ao desenvolvimento, e que é preciso atenuar suas
consequências. 16
O padrão de desenvolvimento que se instala e se desenvolve no
período de 1930 a 1970 é baseado na estratégia tayloristafordista de produção industrial (produção em massa, centralizada e
verticalizada, divisão rígida de tarefas). Somente a partir dos anos
1940 foi complementado pelo sistema keynesiano de Estado, que,
se de um lado favorecia os trabalhadores com salários indiretos
(criação de seguros e “benefícios sociais”), que permitiam
intensificar o consumo da produção industrial, por outro lado
favorecia a indústria com redução de impostos sobre o capital,
perdão fiscal e regulação de preços e de salários dos trabalhadores.
Em 1932, é fundado em São Paulo o Centro de Estudos e ação
Social de São Paulo (Ceas), resultado das atividades da ação Social
e da ação Católica, objetivando “dar maior rendimento às iniciativas
e obras promovidas pela filantropia das classes dominantes paulistas sob o patrocínio da igreja e de dinamizar a mobilização do
laicato” (Iamamoto & Carvalho, 1985, p.172). Seu objetivo era a promoção do bemestar social e, para isso, fundou centros operários
onde suas
propagandistas, por meio de aulas de tricô e trabalhos manuais,
conferências, conselhos sobre higiene, etc., procuraram
interessar e atrair as operárias e entrar assim em contato com
as classes trabalhadoras, estudarlhes o ambiente e
necessidades. (relatório do Ceas 19321934, apud Iamamoto &
Carvalho, 1985, p.175)
Nota-se que a atividade estava baseada no ideal funcionalista, em
que se buscava ajuste do indivíduo, da família e da coletividade à
sociedade existente, dentro do pressuposto de que a sociedade
encontrase corretamente estabelecida. os que não se ajustam à sua ordem são os “desajustados” e necessitam de ajuda para sua
reintegração social, para o seu “reajuste”.
As atividades filantrópicas voltadas principalmente para mulheres
valorizam a função da mulher no lar, num espírito de resignação às condições socioeconômicas, cujas dificuldades podem ser vencidas
com o aprendizado de novas capacidades, como costura e trabalhos
manuais, que podem aumentar o rendimento familiar, mas sem
deixar o seu próprio lar. 17 Entretanto, a dura realidade das mulheres
operárias era bem outra, uma vez que estavam subjugadas a
extenuantes jornadas de trabalho, com a submissão de seus filhos
às mesmas condições, comprometendo seu desenvolvimento físico
e intelectual, o que trouxe sérias consequências para a sociedade
posteriormente, exigindo novas intervenções do Estado para
minimizálas, uma vez que este representa os interesses da
burguesia industrial.
O grupo surgia num momento de intensificação de estratégias
desenvolvidas pela igreja Católica para revitalizar seu poder diante
do Estado e reafirmar “a noção de Nação Católica e o seu direito ao
exercício da influência como intérprete e guia da imensa maioria católica da população brasileira” (Iamamoto & Carvalho, 1985,
p.159).
As refrações da questão social começavam a ser enfrentadas pela
classe dominante no Brasil pelo viés religioso católico, influenciado
pela concepção do fortalecimento da família, da propriedade,
buscando, para isso, respaldo político nas instituições formais do Estado para eleger políticos que apoiam seus princípios, e com a
criação de organismos filantrópicos que desenvolvessem seu ideário
de ordem e disciplina, solidificando suas ações na divulgação
ideológica da prestação da ajuda aos sofredores. a ação visa
também (Iamamoto & Carvalho, 1985) fortalecer a ação católica
laica.
As lutas operárias se iniciam no Brasil no século XiX, com a primeira
greve organizada no rio de Janeiro pelos gráficos dos jornais diários,
em 1858 (Giannotti, 2007),18 e se intensificam nas primeiras
décadas de 1900, sob influência anarquista e posteriormente
comunista, a partir, sobretudo, da revolução russa de 1917. a crise
de 1929 aumenta os problemas e também a reação do movimento
operário. a primeira lei conquistada, mas não cumprida, por falta de
instrumentos legais, de janeiro de 1919 (Giannotti, 2007, p.100), a
Lei de acidentes de trabalho, responsabilizava os empregadores e o poder público pela indenização do trabalhador acidentado. a
indenização e outras conquistas, como redução da jornada de
trabalho, ficavam restritas a algumas fábricas, e seu cumprimento
estava mais submetido a acordos diretos com os trabalhadores, o
que os desfavorecia inegavelmente.
A década de 1920 é atravessada por intensos movimentos dos
trabalhadores, especialmente nos maiores centros urbanos, onde se
concentra o desenvolvimento fabril. o governo de Vargas, iniciado
em 1930, procura incorporar algumas das reivindicações dos
operários através das primeiras legislações trabalhistas, colocando,
entretanto, limites à organização sindical, atrelandoa ao controle
estatal. Em 1930, Vargas cria o ministério dos Negócios do trabalho, indústria e Comércio, e a partir de 1931 várias pequenas leis são
formuladas, como a que regulamenta o trabalho de mulheres e
crianças (1931), jornada de oito horas e descanso semanal
remunerado, limitação de trabalho noturno para mulheres e crianças (1932), imposto sindical e salário mínimo (1940) até culminar com a
Consolidação das Leis trabalhistas, promulgada em 1 o de maio de
1943.
Em 1935 é criado o departamento de assistência Social do Estado,
constituindose na primeira institucionalização da proteção social no
Brasil (Iamamoto & Carvalho, 1985, p.178).
Sem abrir mão das diretrizes do desenvolvimento capitalista, o Estado passa a colaborar na diminuição das nefastas
consequências do processo cumulativo do capital, na busca não da
justiça, mas do consenso entre as classes sociais antagônicas. o
sistema inicial de proteção é aliado a uma ação repressora das
manifestações dos movimentos operários e a estratégias de
divulgação de princípios de ordem e disciplina para se atingir o
desenvolvimento econômico, pois só a partir daí o social poderia ser
atendido.
A primeira escola de Serviço Social em 1936 é criada em São
Paulo19 pelo Centro de Estudos e ação Social de São Paulo (Ceas),
também como parte das respostas às manifestações da questão
social, e por iniciativa de grupos católicos pertencentes à burguesia,
mas com apoio do Estado, que absorverá as suas profissionais. Sua
preocupação é formar moças para o trabalho social, cuja ação se
fundamenta nos princípios da doutrina social da igreja Católica. as primeiras orientações para o desenvolvimento da profissão vêm da
Europa, mais precisamente da Escola Católica de Serviço Social de
Bruxelas, cuja influência será sentida nas primeiras décadas da
profissão.
Em 1937, surge a Escola de Serviço Social no rio de Janeiro,
segunda no Brasil, e, diferentemente do Estado de São Paulo, a
mobilização anterior à sua criação teve a participação majoritária de
representantes de instituições públicas, como os juízados de
menores e órgãos da área de assistência médica, sanitária e social
(Iamamoto & Carvalho, 1985).
Segundo Iamamoto & Carvalho (1985), a demanda inicial por
assistentes sociais nesse período era maior do que a oferta de
profissionais formadas pelas escolas.
O desenvolvimento da profissão, iniciado em plena ditadura
varguista, reflete todas as tendências presentes na sociedade, como
a teoria social da igreja Católica, depois o desenvolvimentismo e
influências socialistas, revolucionárias, especialmente na segunda
metade da década de 1950 e início da de 1960, com a revolução Cubana em 1959.
A política econômica de Vargas, a partir de 1930, voltase para o
desenvolvimento da indústria como estratégia de enfrentamento à
crise mundial que ocorria desde os últimos anos da década anterior. aliada à incorporação de alguns direitos trabalhistas, com
atrelamento do movimento sindical ao Estado, mantendo os níveis
salariais rebaixados, surgem as iniciativas estatais e privadas de
maior abrangência para o atendimento social, complementando a
ação de desmobilização dos trabalhadores com uma ação
paternalista e ajustadora.
Sob o patrocínio do Estado e das indústrias surgem o Conselho
Nacional de Serviço Social em 1938, a Legião Brasileira de
assistência em 1940, o Serviço Nacional de aprendizagem industrial
(Senai) em 1942, o Serviço Social da indústria em 1946 (Yasbek,
1984), a Fundação Leão Xiii em 1946, que incorporam os novos
profissionais bem como incentivam com bolsas de estudo a formação de novos assistentes sociais (Iamamoto & Carvalho, 1985,
p.184). 20
Surgimento de um novo projeto ético-político do
Serviço Social
Do início da década de 1960 até meados dos anos 1980, o Serviço
Social realiza um amplo movimento de questionamento de seus
fundamentos teóricos, metodológicos e operacionais – conhecido na história do Serviço Social como movimento de reconceituação –, de
modo a melhor compreender a própria profissão e traçar diretrizes
para as novas exigências da realidade social, que se apresentava
cada vez mais complexa.
Apesar da forte repressão, a resistência à ditadura continua se
organizando em todos os setores da sociedade. Grupos
guerrilheiros de esquerda, que posteriormente seriam todos
militarmente derrotados, se organizam em vários países da américa Latina.
Em 1968, a partir da teologia da Libertação, a igreja Católica
latinoamericana, na cidade de medellín, Colômbia, estabelece nova
base para o compromisso e a ação dos católicos em relação à classe trabalhadora. No Brasil, isso se manifesta na organização de
várias pastorais comprometidas com o povo e dos movimentos
eclesiais de base. a partir da discussão de textos evangélicos com a
população empobrecida, nascem vários movimentos
reivindicatórios, principalmente em São Paulo.
O movimento estudantil amplia suas ações e se fortalece, buscando
inspiração nos textos de inspiração marxista e revolucionária,
contribuindo também para a rearticulação dos movimentos sociais
na clandestinidade.
No âmbito do Serviço Social, os fatos não evoluem diversamente. O
questionamento teóricometodológico da profissão recebe influência
de autores marxistas, como o francês Louis althusser, porém sem se
voltar para os autores originais. os profissionais se questionam
quanto ao seu papel no contexto da américa Latina, cujos países
são mais duramente atingidos por crises econômicas. apesar da
forte repressão militar, a resistência à ditadura se organiza e se manifesta de várias formas, voltadas para a ampliação de direitos
civis, políticos e sociais.21
A autora Helena iracy Junqueira (1980, p.911)22 aponta alguns
eventos marcantes para o movimento de reconceituação:
Encontro regional de Escolas de Serviço Social do Nordeste,
realizado em janeiro/1964: “pode ser considerado como
primeira manifestação grupal de crítica ao Serviço Social
tradicional e ensaio de reconceituação” (Junqueira, 1980, p.9). I Seminário regional Latinoamericano de Serviço Social –
maio/1965, em Porto alegre, com 415 participantes do Brasil,
Uruguai e argentina. apoio: alaets e iSi. outros cinco seminários
se seguiram a esse, com grande influência na reconceituação:
II – em 1966, no Uruguai;
III – em 1967, na argentina;
IV – em 1969, no Chile;
V – em 1970, na Bolívia e
VII – em 1972, em Porto alegre.
O processo de questionamento da prática profissional se
desenvolvia como parte de um amadurecimento de vários outros
setores sociais, inclusive dos movimentos populares e da igreja Católica. as bases teóricas tradicionais baseadas na adaptação do
indivíduo e dos grupos à sociedade existente não conseguiam mais
dar respostas às demandas do Serviço Social, cujos profissionais
começam a interagir com outras profissões.
A teoria do desenvolvimentismo, principalmente no final da década
de 1950, dá origem ao desenvolvimento de Comunidade (dC), que
se manifesta no Serviço Social com duas tendências: uma prática
“moderna”, mais apropriada à realidade vivenciada no Brasil, e outra
baseada em análise de questões macrossociais. 23
Em 1961, no II Congresso Brasileiro de Serviço Social, no rio de
Janeiro, surge coletivamente uma intenção de mudança nos rumos profissionais, com valorização da intervenção “comunitária”. o ii
Congresso evidencia o início do amadurecimento profissional,
reivindicando aperfeiçoamento conceitual, técnico, científico e
cultural, bem como funções no planejamento dos projetos de
desenvolvimento, e não meramente executivas (Netto, 2004).
O processo de reflexão das bases da profissão sofre um duro golpe
com o início da ditadura em abril de 1964. através de medidas
antidemocráticas e repressoras, o Estado garante a acumulação do
capital para a sociedade burguesa, evitando a implantação de um projeto desconcentrador de renda, dentro dos princípios de justiça e
equidade econômicosocial.
Os questionamentos prosseguem, porém, o que prevalece são
tendências tradicionais, que Netto aponta como uma modernização conservadora:
a autocracia burguesa modificou substantivamente o cenário
em que ele (o processo de questionamento da profissão) vinha
se desenrolando. modificouo muito contraditoriamente: num primeiro momento, pela neutralização dos protagonistas
sociopolíticos comprometidos com a democratização da
sociedade e do Estado, cortou com os efetivos suportes que
poderiam dar um encaminhamento crítico e progressista à crise
em andamento no Serviço Social “tradicional”; mas com a
implantação do seu projeto de “modernização conservadora”,
precipitou esta mesma crise. (2004, p.141, grifo nosso)
Os seminários de araxá, de Sumaré, de teresópolis e do alto da Boa
Vista organizados pelo Centro Brasileiro de intercâmbio de Serviços
Sociais (CBCiSS) de 1967 a 1989 demonstram as contradições na
profissão, ainda que prevaleça a tendência conservadora.
O Seminário de araxá foi realizado em março de 1967, com a
presença de 38 assistentes sociais, para discussão do tema
teorização do Serviço Social.
Em janeiro de 1970, com o tema metodologia do Serviço Social,
realizouse o Seminário de teresópolis, com 33 assistentes sociais
presentes.
O tema Cientificidade do Serviço Social foi objeto de estudo do
Seminário de Sumaré, realizado em novembro de 1978, com 25 assistentes sociais, com os subtemas Serviço Social e
Fenomenologia e Serviço Social e dialética.
Seis anos depois, em novembro de 1984, é realizado o Seminário
de alto da Boa Vista, mas com menor significado, e cujo material
encontrase publicado na revista Debates Sociais de 1984.
Em junho de 1989, foi realizado o Seminário do rio de Janeiro,
O último organizado pelo CBCiSS, tendo como tema a Construção
do Conhecimento em Serviço Social, cujo conteúdo ficou sem publicação.
Em 1979, na efervescência dos anos duros da ditadura militar, o iii
Congresso Brasileiro de assistentes Sociais em São Paulo,
conhecido como “Congresso da Virada”, 24 tornase um marco no
movimento de reconceituação da profissão, quando os assistentes
sociais retiram da mesa de abertura os integrantes oficiais do
governo e colocam os representantes dos movimentos populares e da luta pela democracia.
O ser humano passa a ser visto como participante nas relações
sociais de um determinado modo de produção – capitalista –, sendo
a classe social a que pertence que vai determinar as situações que vivencia. a sociedade é, então, analisada como totalidade histórica,
com determinações econômicas sustentadas por aparatos políticos,
culturais e sociais.
O período histórico manifesta as mudanças que estavam ocorrendo, em consequência da Segunda Guerra mundial, no mundo (a guerra
fria, pela divisão do mundo em dois blocos, capitalista e comunista)
e em especial na américa Latina (revolução Cubana em 1959 e seu
consequente alinhamento à União Soviética, Estados nacionais,
hegemonia norteamericana e crescimento de movimentos populares
libertários em toda a américa Latina).
Faleiros (1987, p.50) explica que:
Os Estados nacionais, por sua vez, impulsionaram reformas
sob a égide do desenvolvimento, do crescimento e da
modernização ou de um programa minimamente redistributivista
de terras, renda e com um discurso participativo. o governo democratacristão de Eduardo Frei no Chile é típico da ação
desenvolvimentista e reformista. Velasco alvarado no Peru,
Frondisi na argentina, João Goulart no Brasil e Perez na
Venezuela tentaram essa via de aglutinação de massas em
torno de mudanças parciais.
O governo de João Goulart, no início dos anos 1960, em meio a
imensa pressão dos movimentos sociais de um lado, para
implementar mudanças sociais, e da burguesia de outro, para
controlar os conflitos sociais, assume um discurso de
desenvolvimento, crescimento e modernização através de um
programa mínimo de redistribuição de terras e renda, além de
incentivar a participação social das massas populares em torno de mudanças parciais.
Em âmbito mundial é desencadeado um esforço
contrarrevolucionário preventivo, sob a hegemonia norteamericana,
de padronização das diretrizes de desenvolvimento e expansão do capital, patrocinando inúmeros governos ditatoriais.
Para Netto (2004, p.16),
A finalidade da contrarrevolução era tríplice, com seus objetivos
particulares íntima e necessariamente vinculados: adequar os
padrões de desenvolvimento nacionais e de grupos de países
ao novo quadro do interrelacionamento econômico capitalista,
marcado por um ritmo e uma profundidade maiores da
internacionalização do capital; golpear e imobilizar os protagonistas sociopolíticos habilitados a resistir a esta
reinserção mais subalterna no sistema capitalista; e, enfim,
dinamizar em todos os quadrantes as tendências que podiam
ser catalisadas contra a revolução e o socialismo.
Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Uruguai, Equador e Peru
apresentavam governos militares de direita que combatiam através
da repressão armada qualquer movimento contrário à ordem
vigente. desse modo, lideranças populares foram dizimadas ou anuladas.
A ditadura militar no Brasil, que reprimia violentamente os
questionamentos e tendências contrários às suas imposições,
também marcou profundamente o movimento de questionamento das bases teóricometodológicas da profissão. a tendência de
ruptura no movimento, mais bem representada pela experiência do
curso de Serviço Social em Belo Horizonte,25 é praticamente anulada com a demissão dos profissionais na Escola de Serviço
Social da Universidade Católica de minas Gerais.
Para Netto (2004), o movimento de reconceituação no Serviço
Social foi marcado por três direções:
a) modernizadora, com caráter tecnocrático, procurando se
adaptar às novas tendências políticas de desenvolvimentismo
no país, explicitada nos seminários de araxá e teresópolis,
inspirada na matriz teórica neopositivista estruturalfuncionalista,
cujo expoente é José Lucena dantas;
b) renovação do conservadorismo que, pela apropriação de
conceitos fenomenológicos, a partir de autores secundários,
sem fontes originais, retoma a concepção de ajuda
psicossocial; apresenta crítica ao positivismo e às tendências
críticas de inspiração no materialismo dialético, que estava
sendo introduzido no Serviço Social; teve como principais
pensadores anna augusta almeida, do rio de Janeiro, e Joel
martins, pensador católico da PUC de São Paulo;
c) intenção de ruptura, que apresenta uma crítica sistemática ao
Serviço Social tradicional, tendo como principal referência
teórica a marxista, a partir de autores secundários como Louis
althusser.
A tendência de ruptura com os postulados conservadores é
praticamente anulada com a punição de profissionais liderados por
Leila Lima Santos, como a ocorrida em 1975 em Belo Horizonte,
com a demissão dos professores que desenvolviam uma experiência alternativa de ação profissional na área periférica da
cidade e em alguns municípios de minas Gerais.
Netto, na mesma obra, aponta o livro Relações sociais e Serviço
Social no Brasil: esboço de uma interpretação
histórico-metodológica, de marilda Iamamoto e raul de Carvalho, publicado em 1982, como um marco sinalizador da maioridade
intelectual da perspectiva da intenção de ruptura, em que os autores
realizam uma análise crítica da profissão a partir da obra original de
marx como fundamentação teórica.
O processo de revisão das bases teóricometodológicas do Serviço
Social, ocorrido durante praticamente vinte anos, estabeleceu uma
demarcação no âmbito da profissão, dando origem a uma
maturidade que continua até os dias atuais em permanente
aprofundamento.
A submissão aos ideários confessional e imperialista que
dominavam a profissão foi questionada a partir do confronto com a
realidade vivenciada nos países latinoamericanos, estabelecendo,
simultaneamente, uma interlocução com outras áreas das ciências
sociais, num contexto de combate às ideias e ações
antidemocráticas geradas no âmbito internacional da guerra fria.
O movimento de reconceituação desvendou o aspecto
políticoideológico da ação profissional, a visão de mundo e de
homem é alterada, imprimindo um novo rumo à profissão,
identificando a questão social como consequência da contradição inconciliável entre os interesses existentes entre capital e trabalho,
que produz manifestações cada vez mais complexas, e que é
compreendida como o objeto da ação profissional.
A postura crítica se abre para a influência do pensamento marxiano,
para a compreensão das relações macrossociais da sociedade do
capital e seus desdobramentos no âmbito microssocial, em que se
concretiza a ação profissional, que passa a ser investigada e é a fonte do seu próprio amadurecimento.
A reflexão sistemática sobre as condições gerais do capitalismo
e suas mediações nas relações entre as forças, sobre a
formação da vontade coletiva dessas forças nessas relações no
cotidiano vai possibilitando novos avanços no processo de
aliança entre profissionais e povo por um Serviço Social
comprometido com os dominados e que contribua às
transformações sociais. (Faleiros, 1987, p.67)
O processo reflexivo manifestouse em ações concretas dos
profissionais, como o Congresso da Virada, como ficou conhecido o
iii Congresso Brasileiro de assistentes Sociais, realizado em São
Paulo em 1979,26 quando os profissionais depuseram a mesa
composta por representantes oficiais do governo e chamaram
representantes dos trabalhadores para compôla.
A partir dos autores Netto e Iamamoto, podemos apontar, ainda, outras consequências, que indicam uma nova fase da profissão.
Netto considera o ano de 1982 um marco para o Serviço Social,
com a publicação do livro Relações sociais e Serviço Social no
Brasil: esboço de uma interpretação histórico -metodológica, de marilda Iamamoto e raul de Carvalho, como um indicativo da
maturidade da reflexão teórica da profissão.
São elas:
a) influência do pensamento de marx, em seus originais, em
consonância com o movimento ocorrido simultaneamente em
outras áreas do conhecimento, o que favorece a interpretação
da realidade latinoamericana como um todo, com rompimento
das tradicionais tutelas confessional e imperialista;
b) interlocução com outras áreas do conhecimento,
especialmente das Ciências Sociais, que também passavam
por reflexões críticas;
c) desvendamento do aspecto político da ação profissional,
rompendo com os conceitos de neutralidade
teóricometodológica, política e ideológica;
d) pluralismo profissional;
e) reinvidicação de atividades de planejamento e pesquisa por parte dos profissionais de Serviço Social, que se recusam a
realizar atividades técnicas meramente executivas na
intervenção microssocial.
O movimento de reconceituação, realizado num dos períodos mais difíceis da história do país, a ditadura militar, colocou à mostra
tendências contraditórias dentro da profissão, de renovação do
conservadorismo e de transformação das suas bases
teóricometodológicas.
Apesar da conjuntura totalmente desfavorável a qualquer processo
de reflexão, profissionais conseguiram introduzir novos elementos
de análise para a profissão. Simultaneamente, alguns aspectos
podem ser apontados como limites do movimento de
reconceituação.
O caráter messiânico sempre presente na profissão transmutouse
em militância políticopartidária, considerada padrão ideal de prática
profissional, apoiada especialmente em teorias como a de Louis
althusser, que negavam o espaço institucional como campo de
embate profissional, colocando as organizações públicas como
meros aparelhos ideológicos do Estado. isso fazia qualquer
assistente social com alguma formação crítica negar o espaço profissional existente, buscando nos trabalhos em sindicatos,
associações de bairro, partidos políticos, atividades nem sempre na
área profissional nem remuneradas, mas de grande conteúdo
político e compromissadas com a transformação social.
Os grupos católicos que também passavam por mudanças nas suas
orientações fundamentais, especialmente os ligados à teologia da
Libertação, ofereciam amplo espaço de trabalho, muitas vezes
voluntário, com grupos e massas de trabalhadores, nos quais profissionais buscavam praticar a articulação e organização da
população para o processo revolucionário socialista.
Se a pesquisa e a produção teórica passam a ser valorizadas,
dando um novo status à profissão, houve, por outro lado, uma supervalorização da produção teórica independente, cujos
profissionais procuravam recusar qualquer teoria importada.
Esse processo de questionamento permitiu que os profissionais no
Brasil se dedicassem também à teorização do seu próprio trabalho.
A partir da década de 1980 há uma constante busca de superação
da dicotomia teoria e prática, que se reflete na organização da
formação profissional, com novos currículos e novos códigos de
ética profissional.
Com o início da produção do conhecimento em bases críticas,
houve a possibilidade para o seu desenvolvimento e a superação
dos limites do movimento de reconceituação. Nem mais o caráter
messiânico do assistente social que tudo pode transformar, seja na forma de ajuda, seja na forma revolucionária, nem mais o caráter
fatalista que considera os espaços ocupacionais como irremediáveis
“aparelhos ideológicos do Estado”.
As mudanças de pensamento se refletem em mudanças na legislação da profissão, no projeto de formação profissional, na
defesa intransigente da igualdade e da liberdade, da construção de
uma sociedade justa e igualitária.
A perspectiva atual é do assistente social trabalhador, dependente
do seu salário, apesar de ser estabelecido na alínea b do artigo 2o
do Código de ética Profissional, como direito do assistente social, o
“livre exercício das atividades inerentes à profissão”. Um espaço contraditório, marcado por lutas, avanços, retrocessos, entre o livre exercício da profissão e as diretrizes do empregador, nem sempre
de acordo com os princípios do Serviço Social ou da legislação para
a efetivação das políticas públicas.
Compete ao assistente social desenvolver seu senso crítico e sua
capacidade de luta permanente para fazer avançar o projeto
éticopolítico da profissão, não só dentro da categoria profissional,
mas nos grupos que possuem objetivos semelhantes.
Falar em processo de trabalho significa ao menos uma tentativa de
superação da dicotomia teoria e prática, tão entranhada no exercício
profissional, não só pela falta de criticismo dos profissionais, mas
muito mais pelas formas de dominação do poder hegemônico, que
buscam naturalizar constantemente a desigualdade e a concentração da propriedade, da terra e da renda, organizando o
Serviço Social distante dos objetivos contemporâneos da profissão.
Apresentamos uma aproximação teórica de uma prática vivenciada
incialmente e pesquisada posteriormente, com a intenção de oferecer uma contribuição ao debate sobre o Serviço Social
enquanto profissão no momento histórico da sociedade do
capitalismo maduro, financeirizado e mundializado.
1 Cursamos Serviço Social entre 1979 e 1982, na Unaerp.
2 Nas décadas de 1970 e 1980, e talvez anteriores, ao menos em
Bebedouro, eram chamadas popularmente de “sacolas”, porque os
mantimentos eram geralmente entregues por entidades sociais em
grandes sacolas de tecido de brim azulescuro, com alças
reforçadas.
3 Em março de 2007 foi amplamente divulgada pela mídia a ação da
Prefeitura de apucarana (Pr) de recolher moradores de rua e
itinerantes, fichálos na delegacia de polícia por vadiagem. o
recolhimento de um total de 15 pessoas foi feito por assistentes
sociais acompanhadas de policiais militares e, após o fichamento
policial em delegacia, essas pessoas foram encaminhadas para as cidades de origem (a maioria), e os da cidade, para suas famílias ou
para abrigos. Notícia disponível em
<http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/vidaecidadania/
conteudo.phtml?id=646954>.
4 Desde novembro de 2007, atuamos como assistente social
judiciária na comarca de Barretos (SP).
5 Utilizamos os dados do censo do iBGE de 2000 por serem mais
completos. de acordo com a Fundação Seade (Sistema Estadual de
análise de dados), a população estimada do município para 2008 é
de 77.674 habitantes, com uma diferença para mais de 2.859 pessoas em relação ao ano de 2000. isto representa um
crescimento populacional em oito anos de apenas 3,82%, o que
consideramos não relevante para a caracterização populacional.
6 Realizamos contato telefônico e perguntamos se havia assistente
social no local, e a telefonista informou que existem duas e seus
horários de trabalho. Conversamos por telefone com uma das
profissionais.
7 As assistentes sociais aprovadas em concurso público da
Prefeitura municipal realizado no início de 2009 devem ser
convocadas ainda no ano, após o vencimento do contrato de
trabalho das profissionais que trabalham após aprovação em
processo seletivo, segundo as informações obtidas.
8 Não consideramos para a presente pesquisa os postos de trabalho de assistentes sociais para o curso de Serviço Social, por exigir uma
qualificação maior, mestrado ou doutorado.
9 As entidades que não tiveram sua inscrição renovada são a Casa
assistencial Espírita anselmo Gomes e Flor de Laranjeira. a primeira
tem por objetivo atender adolescentes em formação profissional e a
segunda, famílias de pessoas portadoras de câncer.
10 Marx descreve várias leis que se utilizavam da tortura, flagelação
com açoite, ferro em brasa, amputação de parte da orelha,
confinamento, escravidão e morte na forca.
11 Nomenclatura utilizada por Castel para designar o grande
contingente popular que não é inserido na sociedade salarial por
meio de empregos fixos e sob a proteção de legislação social, especialmente na “moderna sociedade salarial”. Utilizamos o termo
por extensão, considerando que na sociedade do capital sempre
ocorreu o contingente que não se insere no trabalho formal
disponível.
12 E ainda o é por muitos na sociedade contemporânea.
13 Hobsbawm escreve a quadrilogia A Era das Revoluções –
1789 -1848; A Era do Capital – 1848-1875; A Era dos Impérios –
1875 -1914; e A Era dos Extremos – O breve século XX –
1914 -1991, em que faz interessante análise crítica da sociedade do capital, abordando aspectos econômicos, políticos, sociais e
culturais.
14 A respeito das lutas sociais no período 18481875, ver A Era do
Capital, de Eric Hobsbawm.
15 A respeito das lutas dos trabalhadores, consultar a interessante
análise de Vito Giannotti, História das lutas dos trabalhadores do
Brasil.
16 Iamamoto & Carvalho apontam na nota de rodapé 11 (1985,
p.1389) interessante trecho de uma manifestação do Centro das
indústrias de Fiação e Tecelagem de São Paulo, em referência às férias dos trabalhadores operários, da qual transcrevemos: “Não nos
alongaremos sobre a influência da rua na alma das crianças que
mourejam na indústria e nos limitaremos a dizer que as férias
operárias irão quebrar o equilíbrio moral de toda uma classe social da nação, mercê de uma floração de vícios, e talvez, de crimes que
esta mesma classe não conhece no presente”.
17 Na atualidade, as atividades executadas pelas entidades sociais, agora vinculadas à Política Nacional de assistência Social, ainda
desenvolvem práticas semelhantes e seus dirigentes mantêm o
mesmo ideário burguês de reajustamento da família, que
geralmente é culpabilizada pela falta de estudo, de “capacitação
para o trabalho” e pelo desemprego.
18 Giannotti refere em seu estudo que ocorreram greves em vários
estados do Brasil antes de 1858, conquistando melhorias isoladas para os trabalhadores. Somente a partir de 1880 “as greves se
multiplicaram nas fábricas e oficinas das cidades que se
industrializavam” (2007, p.57).
19 O primeiro curso de preparação para ação social foi desenvolvido
em 1932 pelo Centro de Estudos e ação Social de São Paulo (Ceas)
para moças católicas, ministradas pela assistente social belga adèle
de Loneaux (Iamamoto, 1985; martinelli, 2005).
20 Iamamoto & Carvalho (1985) expõem detalhadamente esse
período de institucionalização do Serviço Social no Brasil.
apresentam um quadro (1985, p.184) de bolsistas mantidos por
instituições particulares, autárquicas e estatais na Escola de Serviço
Social de São Paulo no período de 1946 a 1953.
21 Ver, a respeito dos movimentos sociais: Wanderley, 1984; Paludo, 2001; Gohn, 2001; SchererWarren, 1989; Singer & Brant, 1980.
22 O artigo de Helena iracy Junqueira, na revista Serviço Social e
Sociedade, n. 4, recebeu fortes críticas de José Paulo Netto no
número seguinte da mesma revista, em artigo intitulado “a crítica
conservadora à reconceptualização”, contestando oito pontos do
artigo anterior, o que não lhe tira o mérito da organização dos dados
históricos que marcaram o movimento de reconceituação.
23 Castro (1987, p.136) refere que as primeiras discussões sobre o
Serviço Social na comunidade surgem nos anos 1920 nos Estados
Unidos da américa, em textos de diversos autores, a partir da
concepção funcionalista de desenvolvimento de comunidade.
24 O Congresso da Virada é objeto de homenagem pelo conjunto
Cfess/Cress, cuja agenda 2009 é dedicada ao tema trabalho e riqueza no Brasil: 30 anos do Serviço Social na Luta contra a
desigualdade, como parte das comemorações de três décadas do iii
Congresso Brasileiro de assistentes Sociais.
25 O grupo de professores e profissionais desenvolveu uma
experiência alternativa de ação profissional, conhecida como
método BH, na área periférica de Belo Horizonte (mG) na década de
1970, liderada pela coordenadora da Escola de Serviço Social da Universidade Católica de minas Gerais, professora Leila Lima
Santos, e cuja sistematização encontrase no livro Textos de Serviço
Social, editado pela Cortez em 1982. o grupo foi demitido em 1975
(Netto, 2004).
26 O ano de 2009 marca os trinta anos do Congresso da Virada, e é
objeto de eventos comemorativos por parte da categoria, inclusive
com a agenda profissional dedicada ao acontecimento histórico.