Quadros de História Portuguesa

I. F. Silveira da Mota · Capítulo 16 de 26

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Quadros de História Portuguesa

Capítulo XI

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XI

Conquista de Goa

1510

«A cidade de Goa, diz Barros, está situada em a terra a que os portuguezes chamam Canará, em uma ilha por nome Tiçuary, que quer dizer trinta aldêas, porque tantas havia n'ella quando os mouros a conquistaram, e tantas lhes pagavam direitos da novidade que colhiam.» Os geographos modernos consideram-n'a a mais importante possessão das que ainda temos na Asia, e todavia apenas conserva{158} um pallido reflexo da grandeza antiga. Ruinas sobre ruinas, marcadas com o cunho solemne da historia, e um resto de actividade commercial que os desvarios dos governos não têm podido destruir, eis quasi só o que existe da que foi capital das Indias, quando ensinámos aos demais povos da Europa o caminho do poderio e da gloria.

Era Goa, ao tempo em que os portuguezes a commetteram, excellente ponto maritimo, e a principal entrada dos reinos de Narsinga e Dekan. A segurança do porto, a brandura do clima, a fertilidade do territorio adjacente, e a altura das muralhas, assentadas á beira do rio, tornavam-n'a um dos mais ricos emporios do commercio asiatico, e talvez o logar mais adequado para se estabelecer a metropole das nossas conquistas no Oriente. Accrescia{159} ter sido, havia pouco, avassallada pelos mouros, e não estarem os indigenas ainda de todo submissos ao jugo dos vencedores.

Com estas circumstancias é natural que Affonso de Albuquerque, logo que tomou posse do governo da India, resolvesse no seu animo apoderar-se de Goa; outros cuidados, porém, e por ventura a consciencia das poucas forças de que dispunha, far-lhe-hiam espaçar a tentativa para occasião favoravel. Esta em breve se offereceu, e accommodada maravilhosamente aos seus designios. Partido de Cochim com vinte e tres velas e pouco mais de mil combatentes, e encaminhando-se a destruir a grossa armada que o sultão do Cairo apparelhava em Suez, encontrou-se proximo a Onor com Timoja, antigo corsario d'aquella costa e já então nosso alliado, que o dissuadiu{160} de expedição tão longinqua, quando tinha perto a ilha e cidade de Goa, que n'aquella conjunctura podia invadir com vantagem, por estar o Hidalcão muito desviado d'esses sitios, e detido a conter o fogo da revolta, que lavrava nos seus subditos, e ameaçava devorar-lhe o throno. Aproveitando um aviso tão conforme aos seus desejos, Albuquerque não quiz, comtudo, decidir por si só a opportunidade da empreza, ou porque receiasse a má vontade de alguns dos seus companheiros, ou por outros quaesquer motivos ignorados hoje; e convocando a conselho os principaes capitães, ahi assentou com elles o dirigirem-se a Goa, onde de feito surgiu a frota no dia 27 de fevereiro de 1510.

O resultado foi feliz como o previra Timoja. Tanto que os habitantes e governadores da cidade viram aquella{161} floresta de navios ancorar no seu porto, prepararam-se para a defensa não obstante o sobresalto do nome portuguez; mas a audacia com que os invasores arremettiam ás muralhas, ou pelejavam no campo peito a peito, depressa os desanimou, agigantando-se-lhes o perigo á força de o temerem. Era gente collecticia, a maior parte sem aquelle despreso da vida que nasce do exercicio da guerra, e por isso não admira que logo aos primeiros revezes desesperassem da victoria. Resolveram, pois, capitular com o partido das vidas e fazendas, e propozeram n'este sentido as condições da entrega. Incitado pelos generosos impulsos da sua alma, Affonso de Albuquerque accedeu á proposta, querendo antes recusar aos seus soldados o promettido despojo do que protrahir inutilmente os horrores da guerra; e no dia seguinte{162} entrou em Goa, no meio das acclamações festivas dos indigenas, que lhe entregaram as chaves da cidade, como homens que já não se julgavam inimigos, mas só vassallos do rei de Portugal.

Entretanto o conservar este dominio não era cousa tão facil como tinha sido adquiril-o. Os indios, naturalmente pacificos e já de certo modo affeitos ao despotismo estranho, contentaram-se quasi todos com a segurança e amparo que lhes garantiu o vencedor; mas os mouros, nossos implacaveis adversarios por odios de crença e de raça e por emulação de conquista, conspiraram desde logo contra o poder das quinas com a actividade incançavel, com a perseverança e talento de quem não attenta nos obstaculos senão para completamente os vencer. Por outro lado o Hidalcão, apenas soube a fatal{163} nova, celebrou pazes com muitos reis seus inimigos, os quaes determinaram logo auxilial-o, mandou tropas numerosas a fim de reconquistar Goa a todo o custo, e elle proprio se preparou para as seguir, resolvido a dar aos intrusos uma pesada demonstração de que pagava com usura as offensas recebidas.

Ao principio resistiram os portuguezes com alguma vantagem, repellindo constantemente os successivos assaltos, e fazendo grande estrago no exercito dos mouros; mas quando chegou o Hidalcão com sessenta mil soldados, e entre elles cinco mil cavalleiros, conheceram os mais valentes como a situação era impossivel, e instaram com Albuquerque para que, abandonada por em quanto a empreza, tentasse a fortuna por outro meio, temerario muito embora, mas não de tal sorte{164} imprudente, que o resultado só podesse ser funesto. De mau grado annuiu a isto o animo de ferro do heroe da India; faltando-lhe, porém, os soccorros que mandára vir de Cochim, vendo-se rodeado de traições, e conhecendo que os cercadores pretendiam queimar-lhe as naus, unico refugio com que contava no caso de extremo perigo, mandou embarcar a gente e recolheu-se á frota por entre os tiros dos inimigos, que, ao retirarem-se os portuguezes, os saltearam de improviso, furiosos pela inopinada resolução, que lhes frustrava, acaso para sempre, os planos de vingança.

Seguiu-se durante alguns mezes um combate incessante e terrivel, cujas diversas phases deixaremos de memorar por não valerem para o nosso principal intuito. Baste saber-se que{165} nos principios de agosto sahiu a frota da barra de Goa, e que aos 22 de novembro ahi surgiu outra vez, trazendo cerca de dous mil homens entre portuguezes e malabares.

Com esta gente determinou Affonso de Albuquerque rehaver Goa ou acabar na contenda. Reconhecendo, todavia, a insufficiencia dos seus recursos militares para tomar á escala vista uma cidade tão fortificada e guarnecida de defensores, meditou n'um ardil, que equilibrasse até certo ponto a desegualdade de forças. O engenho natural e a experiencia da guerra depressa lh'o suggeriram; e o logar tenente de D. Manuel, que via realisarem-se uns apoz outros quasi todos os seus planos, contou de antemão com a victoria, não esquecendo, todavia, nem as mais leves precauções para o bom exito do commettimento.{166} Era isto, era a audacia nos projectos junta á prudencia nas combinações que tornavam invencivel o insigne capitão. Quanto, pois, o systema offensivo dos assedios em taes casos recommendava, quanto os petrechos e provimentos de que dispunha podiam subministrar, tudo foi por elle empregado para que a tentativa, que parecia desatino, tivesse por termo a desaffronta e a gloria.

No entanto os soldados, convictos do proprio esforço, pediam com enthusiasmo o combate. Não tardou elle muito. Fixado para o assalto o dia 25, e reunidos na vespera os capitães da armada, decidiu Albuquerque que se investisse a cidade pelo lado da ribeira, em quanto alguns bateis com gente e artilheria simulavam o ataque por differentes partes, e distrahiam d'esse modo a attenção dos sitiados.{167} A empreza assustou os nossos, não por si, mas pelo general que declarou querer expôr-se ao balanço da aventura. Supplicaram-lhe, por isso, que deixasse a elles sós o risco, e aguardasse o resultado, para que, se cahissem, houvesse quem os vingasse, e não se perdesse de todo o que se possuia na India. Resistindo, porém, Albuquerque ás reiteradas instancias, e conhecendo-lhe todos o caracter inflexivel, prepararam-se para aquelle feito, que já então seria indecoroso deixar de levar a cabo.

A fortuna favoreceu mais uma vez a audacia dos conquistadores. Os mouros, ao sentirem o rumor dos bateis que vogavam ao longo da praia, correram á frontaria da cidade, suppondo que por alli queriam os cercadores tomar terra; e só reconheceram o engano, de que já não era possivel resguardarem-se,{168} quando, ao romper d'alva, ouviram o som dos instrumentos bellicos na ribeira e pela costa acima. Entretanto não desanimaram com isto, mas comparando o seu numero com o diminuto dos sitiadores, e a vantajosa posição com a de quem, apesar de tudo, só debaixo dos pés os poderia investir, offereceram resistencia desesperada, e tanto mais terrivel, quanto o rancor entre os dous exercitos se accumulára por largos dias sem poder resfolegar. Por outra parte os portuguezes, trepando pelas tranqueiras, não obstante choverem sobre elles milhares de tiros e arremeços, pelejando braço a braço com os cercados, luctando e rolando de pedra em pedra para de novo subirem, e cada vez com mais denodo, conseguiram a final arrombar uma das portas, por onde se arrojaram destemidos, como homens aos{169} quaes a febre dos combates exaltára até o delirio.

Despedaçado o dique, começou na apertada senda um fluxo e refluxo dos dous bandos contendores, combate indeciso e accerrimo que apenas durou instantes. Era denso o enxame dos que vedavam a entrada, mas aquelles mesmos, que ao principio tinham mostrado impetuoso esforço, tomaram-se de repentino susto ao experimentarem de perto a tempera das espadas inimigas, e desamparando tumultuariamente os postos, acolheram-se ao interior da cidade, onde os invasores, cegos de ira, se entranharam apoz elles. Então teve logar nas ruas e praças de Goa a maior força da refrega, porque os mouros eram dez vezes mais numerosos, e pelejavam enraivecidos por terem cedido o passo a tão poucos; mas isto não impediu que os soldados{170} de Albuquerque, soccorridos a cada instante pelos companheiros que chegavam, constrangessem, emfim, os defensores da cidade a deixal-a para sempre.

Se os mouros levavam, fugindo, perda e desar, a victoria não sahira incruenta aos portuguezes; poucos havia que não estivessem feridos, e Albuquerque, abraçando um d'elles, exclamou: «Filhos, que não sei que vos faça senão que romperei as vestiduras diante de el-rei, porque vos faça mercê, que vos honrastes a vós e a mim.» Assim sabia o varão extraordinario, que a providencia parecia ter creado para perpetuar nas nossas mãos o imperio da Asia, adquirir a affeição dos seus soldados, aos quaes com o exemplo infundia esforço, com as revelações luminosas do genio uma confiança sem limites, com a severidade{171} talvez excessiva o respeito e a obediencia.

Albuquerque, porém, não era sómente guerreiro. O homem que fundou e firmou o imperio portuguez do Oriente, subjugando Ormuz, Goa e Malaca; que planeou a ruina completa do poder mussulmano com o desviar o curso do Nilo e destruir a casa de Meca; que deixou, emfim, tal memoria entre os vencidos, que elles vinham depois diante do seu tumulo invocal-o, pedindo-lhe justiça, era uma d'essas intelligencias eminentes, que abraçam por inspirações subitas e fecundas todos os ramos do saber humano; era um desses nobres espiritos, que, perseguidos pela incredulidade, pela inveja, pelo terror, pelo odio, por todas as paixões mesquinhas dos que os não podem comprehender, conseguem, todavia, elevar-se radiantes acima de tudo quanto{172} os cérca. Profundo conhecedor das boas doctrinas politicas não quiz confiar á sorte das batalhas o emprehendimento de novas conquistas antes de assentar o dominio de Goa em bases seguras e duradouras, começando assim a realisar o programma pacificador, que devia pôr magestoso remate á nossa grandeza na Asia. Admittiu, pois, vassallagem aos indigenas; prometteu segurança e protecção aos mercadores estrangeiros; recebeu embaixadas e homenagens da maior parte dos soberanos indiaticos; mandou cunhar moeda em nome de D. Manuel; melhorou e refez as fortificações; promoveu com dadivas e promessas casamentos entre os portuguezes e as mulheres da ilha; dirigiu de tal modo as cousas que dentro de pouco tempo esta povoação importantissima parecia que desde muitos annos estava sujeita ao{173} imperio portuguez; e só depois de lançar á terra essas sementes de grandeza e de prosperidade é que continuou a cadeia de feitos de armas, que lhe mereceu dos adversarios o nome de leão dos mares, e que o eleva, no conceito dos historiadores, com Cesar e Bonaparte, á altura d'esses gigantes de acção, a que chamâmos heroes.{174}

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