Rei Davi

Allan Massie · Capítulo 4 de 4 · parte 1/2

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Rei Davi

Livro Três

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

 

Vi todas as obras que se produzem sob o Sol; e tudo é vaidade e torm ento. Pouco depois de Salom ão ter nascido, eu entrei no Outono dos anos. Alcançara tudo, e o fruto era am argo. Os reis de todas as terras que rodeavam Israel honravam -m e e reconheciam a m inha virtude, o m eu poder e a m inha sabedoria. E eu dava m enos valor às suas palavras do que aos elogios que as raparigas que se reuniam em volta do poço, na m inha j uventude, tinham esbanj ado nas m inhas canções.

Disse para m im próprio: há um a estação para tudo, e um a altura própria para cada um dos obj etivos a alcançar sob o firm am ento.

« Quando eu era j ovem » , pensei, « na glória da m anhã, eu agia sobre o m undo; agora é o m undo que age sobre m im , e as som bras erguem -se, gigantescas, nas areias da vida» .

Na m inha perplexidade, eu encontrava pouco prazer em m ulheres ou em busca de sabedoria, e tão-pouco na bebida ou na dança. Betsabé j á não m e encantava, m as eu tam bém não procurava prazer que a substituísse. Conversava m uitas vezes com Natan, porque ele conhecia o m eu coração, m as Natan não podia restituir-lhe a alegria.

Pendurei em m inha casa a trom beta da guerra, e deixei as batalhas e a busca de glória para outros. Havia dias em que ansiava pela m orte, e noites em que receava a sua vinda. A m úsica que eu fazia era m elancolia, e as m inhas canções estavam repletas de am argura.

Um hom em sensato, avançado em anos, procura prazer nos filhos, m as os m eus traziam -m e apenas sofrim ento.

Em relação a Am non, eu sentia-m e protetor: era o m eu prim ogênito, concebido e gerado no m eio de perigos. Era o m eu sucessor, aquele que devia governar o im pério de Israel. Aitofel procurara colocar-m e contra ele. Em vão. Eu am ava-o exatam ente pela sua fragilidade.

Am non não era m uito sociável. Era som brio e reservado. Não era capaz de confiar em si próprio nem de inspirar confiança nos outros. Enquanto crescia, acom panhava com j ovens estouvados alguns anos m ais velhos do que ele, que sentiam prazer em conhecer o filho do rei, em desencam inhá-lo, em ensiná-lo a beber e a desprezar as m ulheres. Am non, nessa altura, aprendeu a assum ir m odos grosseiros de soldado, e eu lia neles um profundo desej o de ser diferente do que era. Em Am non eu via um a certa parecença com Saul, em bora não houvesse ligação de sangue. Curiosam ente, a única m ulher com quem ele se sentia à vontade era Mical, que residia agora num a casa a alguns quilôm etros de Jerusalém . Era lá que, segundo m e disseram , Am non passava m uitas horas a conversar com ela. Ia ter com ela quando algum a coisa o perturbava. Talvez ela visse nele um reflexo daquele descontentam ento que ela própria sem pre conhecera, daquela incapacidade de esquecer ou de perder a consciência da im agem que ela, a cada m om ento, apresentava. Com o Mical, Am non não era capaz de se perder em ação; era com o se ele observasse tudo o que fazia; e até em ação, desdenhava do que fazia e considerava-o inútil.

Eu dizia para m im próprio: « Am non detesta-se. É m inha culpa que ele sej a assim ?»

Que diferentes eram os filhos que eu tinha de Maaca, a m inha selvagem donzela árabe do deserto do Norte! O rapaz, Absalão, era o j ovem m ais belo de Israel; a rapariga, Tam ar, era a m enina m ais encantadora. Eram com o reflexos um do outro, pois am bos pareciam possuir os encantos de am bos os sexos. Vê-los m ovim entarem -se era testem unhar um a celebração da vida.

Eu sabia que Am non tinha ciúm es de Absalão. Acusava-m e de preferir o irm ão m ais novo. O que podia eu dizer? Não podia dizer-lhe a verdade: que adorava Absalão pela sua perfeição, e que am ava Am non pela sua im perfeição. Por isso enganei-o com um a resposta tão vaga ao ponto de parecer falsa. Mas assegurei-lhe, m ais um a vez, que era o m eu sucessor, que seria rei depois de m im .

Será que o m andei em bora a pensar que eu o am ava apenas por dever, m as a Absalão por natureza?

Não sei. Sei apenas que estava cego, ocupado com os m eus próprios pensam entos e a m inha angústia cada vez m aior.

Um dia, Jonadab apresentou-se a m im exibindo o seu sorriso insidioso e m eneando os quartos traseiros com o um a cadela ao calor. Eu confiava nele porque tinha poucos em quem confiar.

Jonadab disse:

- Meu rei e senhor, Am non está doente. Queres ir visitá-lo? Assim fiz. E encontrei-o no seu quarto, deitado no seu leito, m uito

pálido e fraco, com o se não tivesse com ido e estivesse com febre. Quando falou, fê-lo em voz baixa, de form a que tive de m e debruçar sobre ele, e pegou na m inha m ão, apertando-a. Eu disse:

- Enviar-te-ei Betsabé, pois ela percebe m ais de doenças do que eu.

Ele m urm urou:

- Não incom odes a rainha. Pede antes a m inha irm ã Tam ar que venha ver-m e. Não tenho apetite, m as tenho grande desej o de com er aqueles bolinhos de am êndoa que ela faz.

Era um pedido estranho, m as Am non tinha um aspecto tão pálido, débil e infeliz que não lho pude recusar. Não coloquei tal coisa em questão.

Eu nunca soube exatam ente o que aconteceu a seguir, pois contaram -m e diferentes versões da história.

Apercebi-m e de um retraim ento no ar e de um silêncio no palácio. Havia um a atm osfera de profunda ansiedade, com o se tivesse ocorrido um a calam idade e ninguém ousasse contar ao rei. No entanto, Israel estava em paz. Mandei cham ar Jonadab para lhe perguntar. Ele não m e olhou de frente e protestou que não sabia de nada.

- Am non m orreu? - perguntei. - O m eu filho m orreu?

- Não, m eu rei e senhor. Am non está vivo. Eu disse:

- Vej o perfeitam ente que m e escondes algum a coisa de terrível.

Diz-m e o que é, e não tem as a m inha ira, pois sei que estás inocente de qualquer ato m aldoso.

- Oh, m eu rei e senhor - disse ele -, quem m e dera estar... E prostrou-se por terra, agarrou-m e pelos j oelhos e chorou.

-Jonadab - disse eu -, és o filho da m inha irm ã, m eu parente chegado, e que eu m uito estim o devido aos serviços que m e tens prestado. Não precisas de recear a m inha ira.

- Senhor, m eu rei, sê m isericordioso. O teu filho Am non está doente, m as a sua doença é do espírito e não do corpo. Ele está doente de am or pela irm ã, a sua m eia-irm ã, Tam ar...

Nesse m om ento, sem cerim ônia, a porta abriu-se de rom pante e Absalão entrou, sem se anunciar. Estacou ao ver Jonadab ainda com os braços em volta das m inhas pernas. Levantei Jonadab e virei-m e para Absalão. As suas faces tinham perdido a cor, em bora tivesse nos olhos o brilho de estrelas.

- Pai - gritou ele... m as eu não sou capaz de escrever as palavras que ele pronunciou. O seu discurso estava im pregnado de pragas, e ele estava m eio louco de dor e fúria.

Contou-m e que Tam ar, de acordo com aquilo que eu determ inara, fora visitar Am non, e ele, então, m andara em bora os serviçais, e, encontrando-se sozinho com a rapariga, declarou-lhe o seu am or.

- O seu am or - Absalão cuspiu as palavras. - Digam os antes o seu desej o, o seu desej o pervertido.

- E que disse ela?

- Ela disse... ela disse... ela disse que tinha pena dele.

Eu não quis ouvir m ais. Absalão forçou-m e a ouvir. Contou-m e com o Am non agarrara então Tam ar, lhe rasgara o vestido, a atirara para o leito e a violara.- E esta coisa que está agora aqui contigo - gritou Absalão -, era o proxeneta dele, o alcoviteiro.

Jonadab choram ingou um a m eia negação. Eu silenciei-o com um olhar.

Após o terrível ato, disse Absalão, Am non virara as costas a Tam ar, com o se com repugnância, com o se ele fosse a vítim a, e ordenou-lhe que saísse. Fora o próprio Absalão que a encontrara, atirando pó para a cabeça e chorando o seu desespero, na via pública. Levara-a para sua casa, e viera im ediatam ente ter com igo.

- Eu não sabia que era essa a intenção de Am non - disse Jonadab. - Por favor, acredita em m im , eu não sabia.

- Ela está desonrada - gritou Absalão, e a sua voz era com o o uivo de um lobo no deserto. Em bora estivesse pálido com o a m orte, o suor escorria-lhe da testa. - Eu conheço a Lei - disse ele.

- A Lei. Isto não é assunto para a Lei.

- A Lei - a voz de Absalão era agora calm a, e ele falava com autoridade. - Se um hom em tom ar sua irm ã, a filha de seu pai, e vir a sua nudez, e se ela vir a nudez dele, é um a coisa pecam inosa, e eles serão afastados da vista das pessoas; aquele que pôs a descoberto a nudez da irm ã, suportará a sua iniqüidade. Assim diz a Lei. E Am non, que era m eu irm ão, fez pior do que isso, pois tom ou Tam ar pela força, sem o seu consentim ento, e violou-a.

Nesse m om ento eu conheci, nitidam ente, a agonia de Saul, pois parecia que o Senhor m e abandonara.

Am non era m eu filho, o m eu prim ogênito, e eu era responsável por ele, sangue do m eu sangue, carne da m inha carne. Se ele era culpado, eu não podia considerar-m e inocente. O fantasm a de Urias estava a bater à m inha porta.

Jonadab disse:

- Ele só m e pediu conselho sobre a form a com o poderia declarar o seu am or. Nunca im aginei que...

« Pobre Am non» , pensei eu, m as não ousei dizê-lo, « para que o desespero o levasse a tal extrem o» . E pensei novam ente em Saul.

Eu disse o que poderia ser dito para confortar e acalm ar Absalão. E, em seguida, acrescentei:

- Em prim eiro lugar, tem os de garantir a proteção de Tam ar. Ela foi violada e rej eitada, um a dupla vergonha, que, para bem dela, deve ser escondida do m undo.

- Escondida? Para bem dela?

- Absalão, m eu filho, m eu filho am ado, queres que ela enlouqueça? Movido pela tua cólera, pela tua cólera j usta, falas da Lei. Pensas que conheces a Lei tão bem com o eu? Gostarias de expor a pobre rapariga ao seu rigor, à sua severidade? Gostarias que ela fosse obrigada a reconhecer a sua desonra publicam ente? Nunca.

E assim eu continuei a convencê-lo, e o que eu dizia era verdade e tinha grande peso, e ele com preendeu-m e. Fi-lo j urar silêncio, « por enquanto» , disse eu.

- Tem os inim igos - prossegui -, até em Israel, que se alim entariam avidam ente deste crim e.

Louvei o seu ardor. Elogiei o am or que ele sentia pela irm ã e que incendiava esse ardor. Mas insisti no silêncio. Disse-lhe que tinha de consultar Betsabé, que era sensata em tais assuntos. Passou-m e pela m ente que talvez Am non devesse casar com Tam ar. Eu tinha a certeza que isso poderia arranj ar-se - ela era apenas sua m eio-irm ã - m as não falei disto a Absalão. Disse-lhe que trouxesse Tam ar à m inha presença quando ela estivesse suficientem ente bem e preparada para m e ver e que, entretanto, a guardasse bem e lhe oferecesse o m áxim o conforto possível. Tom ei-o nos m eus braços, beij ei-o, apertei-o contra m im , e bebi da sua j uventude e da sua força.

- Ele destruiu-a - disse ele. - A rosa de Israel está desfeita e as suas pétalas espalhadas.

- Absalão, m eu filho, m eu m uito am ado filho, vai em paz e que o Senhor estej a contigo neste terrível dia.

Quando ele partiu, ordenei a Jonadab que não perdesse tem po e colocasse um guarda atrás de Am non.

- Tira-lhe as arm as - disse eu - não vá ele, no seu desespero suicidar-se.

- Devo prendê-lo?

- Não - respondi -, coloca o guarda com astúcia. O guarda está lá para proteção dele, nada m ais do que isso. Mas vai tu próprio tam bém , e diz-lhe que é m eu desej o que ele se m antenha em casa até que eu vá ter com ele. Este é um assunto que exige m uito tacto se é que não querem os que nos destrua a todos, que destrua a casa de David.

 

Tam ar não recuperou. Estava m ais bonita do que nunca, m as a sua beleza estava alterada. Era agora a beleza do Inverno: as folhas tinham sido arrancadas da sua árvore da vida, e as suas rosas lançadas ao vento forte. Ela tinha a beleza de todas as coisas boas que sabem os ter perdido. Os seus olhos vagueavam e as suas faces eram brancas com o a neve da m ontanha. Não cuidava da sua form a de vestir nem do seu pudor. A desonra habitava agora o seu coração, e, despedaçada pelo m undo e pela carne, ela forçaria o m undo a confessar a sua crueldade. Balbuciava estranham ente. Um dia foi encontrada a tentar aliciar hom ens na rua, a m ente transtornada, e, a partir dessa hora, fui obrigado a ordenar que ela não saísse de casa.

Só Absalão lhe inspirava confiança. Quando eu falava com ela, ela choram ingava, e, ou escondia o rosto atrás do véu, ou, o que era ainda m ais terrível, expunha-se a m im , com o se, sendo pai de Am non, eu tam bém a tivesse seduzido, e, nessas alturas, era com o se estivesse determ inada a confrontar-m e com a enorm idade do ato dele. Mas agarrava-se a Absalão com o um a criança pequena pode agarrar-se àqueles em quem confia. Eu receava que o desespero dela e o seu infortúnio inflam assem com nova intensidade os fogos da raiva dele por Am non, e estive tentado a proibi-lo de estar com a irm ã. Mas não ousei ceder a esta tentação, com m edo da sua recusa e das conseqüências de tal recusa.

Contudo, consegui persuadir Absalão a fazer as pazes com Am non, quando libertei o irm ão da secreta prisão dom iciliária que, de fato, eu lhe exigira. Abraçaram -se à m inha frente, e Am non, instruído por m im próprio e por Huchai, que tinha tanta pena dele com o eu, confessou o seu pecado, e procurou o perdão do irm ão.

- Para bem do nosso pai - respondeu Absalão.

Verificara-se im possível m anter em segredo o que acontecera, com o teria sido m eu desej o.

Joab veio ter com igo e disse:

- David, até o exército está dividido. Alguns apóiam Am non, outros Absalão. Se não resolveres a questão, as coisas piorarão. A ferida aberta criará um a úlcera. Se Am non deve ser rei, Absalão tem de ser enviado para o exílio, pois o reino não pode albergar os dois.

Betsabé concordava com ele. Ela sentia um a grande ternura por Am non - pelo m enos foi o que m e pareceu na altura - e com preendia o seu caráter difícil.

- Sim - disse ela -, Am non errou. O que ele fez foi cruel. Mas ele foi provocado. Tu adoras Absalão e és cego quanto aos seus defeitos. Podes até nem saber com o Absalão encoraj ou os j ovens que atrai à sua volta para troçarem do irm ão, com o ele espalhou rum ores, pelo m enos em seu redor, de que Am non era um pervertido, e com o, ao m esm o tem po, encoraj ou Tam ar a exibir os seus encantos perante ele.

Era-m e difícil acreditar nela, porque - é claro - eu não desej ava fazê-lo. E sabia que ela tinha ciúm es de Absalão. Talvez até naquela altura, penso eu agora, até naquela altura, em bora Salom ão não passasse de um a criança, ela estivesse decidida a que ele m e sucedesse no trono, e visse em Absalão, e não no m eu pobre Am non, o seu principal rival. Eu não sabia se ela dizia a verdade, em bora estas suspeitas m e tivessem invadido na escuridão progressiva dos anos.

Aitofel tam bém m e abordou. Em bora eu tivesse aprendido a não confiar nele, ainda sentia o encanto dos seus m odos e do seu intelecto.

- David - disse-m e ele -, tem os passado por m uita coisa j untos, nem sem pre concordando um com o outro, m as, m esm o assim , am bos trabalhando para o bem de Israel. E sabes que eu sem pre disse o que pensava, sem receio e sem esconder a verdade. É natural que o faças agora, pois Am non é teu filho, e am á-lo com o am as o seu irm ão Absalão. Acredita em m im , m eu velho am igo, com padeço-m e de ti nesse dilem a. Mas lem bro-m e tam bém do rapaz que foi ao acam pam ento de

Saul e defrontou Golias, quando todo o exército o tem ia, e da form a com o o m ataste, em bora as tuas arm as fossem apenas um a funda e algum as pedras do riacho, para além de um a confiança e coragem sublim es. Bem , m eu velho am igo, precisas agora dessa m esm a confiança e coragem . E digo-te que Am non, após este ato perverso, não serve para rei de Israel, pois o que ele fez foi pior do que um crim e, foi um disparate, após o qual nenhum hom em em Israel pode voltar a confiar nele. Lem bra-te com o, quando aquela disposição som bria se abateu sobre Saul, o exército trem eu e o seu espírito gelou. Assim será com Am non. Por isso, insisto para que o envies para o exílio, e que nom eies Absalão, que o exército e os j ovens adoram , teu único sucessor.

Assim , eu era atacado com conselhos contraditórios, e atorm entado pelo ferrão da razão e do sentim ento.

Jonadab - que vigiava o m eu quarto - era agora, j untam ente com Huchai, o m eu principal confidente, e eu estava-lhe agradecido, pois ele não m e enchia de conselhos que eu não desej ava ouvir.

Assim , um a vez que não conseguia m anter as palavras fechadas no m eu coração, eu falava com ele, em bora soubesse que ele era um bisbilhoteiro. E, na verdade, havia algum a vantagem em ser-se obj eto da sua língua-de-trapos; isso perm itia-m e dissem inar as m inhas intenções sem as proclam ar abertam ente.

- O rei - diria Jonadab - está determ inado a restaurar a concórdia na casa real e na nação. Está decidido a alcançar este obj etivo, e não vai alterar a sucessão - e assim por diante.

Entretanto, eu confiava no tem po e na paciência, velhos aliados.

- As coisas têm de ser com o é perm itido que aconteçam - disse eu a Jonadab -, ou sej a, com o o Senhor desej ar e prover.

Durante m uito tem po, Am non esteve relutante em encontrar-se com igo a sós. Receava o m eu am or m ais do que a m inha reprovação.

- A culpa e a repugnância por si próprio estão m isturadas na sua alm a - relatou-m e Jonadab.

Am non entregou-se a exercícios religiosos e à penitência. O crim e que com etera intensificou a sua m elancolia natural. Nunca sorria e, quando lhe perguntavam a opinião sobre qualquer assunto, suspirava, baixava os olhos e dava a entender que sentia que um hom em com o ele era indigno de oferecer um j uízo. A sua hum ildade conquistou-lhe a consideração dos sacerdotes, e havia nisso um perigo, pois parecia-m e que a casa de Israel estava dividida contra si própria. Os sacerdotes apoiavam Am non, e o exército apoiava Absalão. No entanto, enquanto Joab fosse com andante suprem o, a seguir a m im , o exército

» poderia apoiar em absoluto o m eu filho m ais novo. Aborrecia-m e sentir que dependia de Joab, m as não podia negar que, de fato, assim

era.

À m edida que o tem po passava, parecia que a m inha paciência era recom pensada. Am non recuperou um determ inado grau de autoconfiança. Absalão com portava-se para com o irm ão da form a que eu teria desej ado. Em bora nunca se encontrassem em privado, ele era educado e respeitoso para com ele, em conselho, m ostrando-se m esm o pronto a referir-se a ele com o o herdeiro do trono.

Para m im , Absalão era tão afetuoso com o era antes de o crim e de Am non ter ensom brado o seu espírito. A sua presença fortalecia-m e e o encanto dos seus m odos era um prazer sem -fim . Assim , quando ele veio ter com igo, um dia, e m e disse que pretendia fazer um grande festim na sua nova propriedade de Baal-Haçor, por altura da tosquia das ovelhas, e que esperava que eu fosse um dos convidados presentes, m uito m e custou recusar, m as fi-lo porque senti que a presença do rei im poria um a certa solenidade à ocasião, o que não seria bem -vindo. É um dos castigos da m aj estade: em ocasiões de festa, as pessoas estão ansiosas pela partida do rei. Por isso eu não iria.

Absalão expressou a sua decepção e disse:

- No entanto, espero que o m eu irm ão Am non aceite o m eu convite.

- Porque haveria ele de ir contigo? Sei que, em bora te com portes para com ele adequadam ente em público, não o am as.

- Não - disse Absalão -, não posso am á-lo. Som os feitos de m atéria diferente. Mas ele é filho de m eu pai, e o herdeiro do trono. O nosso afastam ento j á durou de m ais. Além disso, as suas conseqüências são perigosas. Há agora dois partidos no Estado, ou m elhor, dois partidos entre os j ovens, um que m e apóia a m im , e outro que apóia o m eu irm ão. Penso que não está certo. Sei que não é esse o teu desej o, m eu pai. Por isso, espero que Am non venha a m inha casa com o convidado para que eu possa m ostrar a todo o povo que estam os em paz um com o outro, e que não há m otivo para divisões. Assim , e um a vez que Am non não confia em m im , ficaria agradecido, pai, se insistisses para que ele viesse.

Fiquei encantado com a nobreza dos seus sentim entos, e concordei em fazer com o ele m e pedia. O rosto ilum inou-se-lhe de sorrisos com o um a m anhã de Verão. Precipitou-se em direção a m im , beij ou-m e a face, virou costas e saiu da m inha presença, radiante, com fortes m em bros e um a graça que m e cortava o coração. Oh, Absalão, m eu filho, m eu filho am ado, com o e onde é que eu te faltei?

Fui acordado por gritos de m ulheres e pelo som de pés a correrem .

• Em purrando a m inha concubina para o lado, cobri-m e com um a capa e deixei o m eu quarto. À m edida que o fazia, um j ovem de olhos as-

• sustados prostrou-se no chão de m árm ore e agarrou-m e os tornozelos. Levantou a cabeça e gritou:

-Traição e assassínio! Traição e assassínio! Todos os filhos do rei

foram m ortos e não resta nenhum com vida!

* Não m e lem bro do que se seguiu. Os cantores de baladas dizem

que m e atirei para o chão, que rasguei as vestes e uivei com o um cão. Posso tê-lo feito, m as não m e lem bro. Ouvir falar de tal tragédia aniquila-m e a m em ória.

Mas recordo um m om ento de terror: porque continuava eu próprio vivo?

Em seguida encontrava-m e no m eu quarto. Os olhos da concubina eram escuros, ela trem ia de horror, a boca aberta num pranto silencioso. Estava nua e trem ia ao olhar para m im . Vindo da antecâm ara, voltou a ouvir-se o queixum e do luto.

Mandei a rapariga em bora e ordenei que m e cham assem Jonadab. Em seguida vesti-m e. Lem bro-m e disso. Sentei-m e aos pés do m eu leito, e assim fiquei, segurando um a espada com am bas as m ãos, a ponta para o chão, am parada entre as m inhas pernas.

, Cham ei um a m ulher.

- Betsabé está em segurança? Manda alguém ver se está tudo bem

com Salom ão.

Finalm ente chegou Jonadab. Aj oelhou-se perante m im e colocou as m ãos nas m inhas, agarrando a lâm ina da espada.

- Não é com o dizem - contou ele. - Não é verdade que todos os filhos do rei tenham m orrido. Só Am non é que m orreu.

- Absalão?

- Absalão - disse ele. - Absalão, m eu rei e senhor, vingou-se e vingou a irm ã Tam ar pelo m al que sofreu. Há m uito, receio, que ele o queria fazer. Mas só Am non é que m orreu. Foi m orto quando estava em briagado, m as prim eiro Absalão falou com ele.

Pensei, logo naquela altura: « com o é que ele sabe disso? Ele não estava lá. Com o é que ele sabe?» .

Mas preferi não perguntar, receando a resposta. Se Jonadab fosse { desleal, onde iria eu procurar lealdade?

- Absalão?- perguntei.

- Absalão fugiu, para o Norte, para a terra de Guessur, o país da m ãe.

- Vai - disse eu; m as ele não se m exeu enquanto eu não deixei a espada que segurava. Quando a vi nas m ãos dele, olhei-a, pasm ado.

Assim perdi dois filhos, e chorei am bos, e virei-m e para o Senhor e disse:

- E assim foi vingado Urias, o hitita. Tem m isericórdia do Teu servo, ó Senhor, e não m e visites com m ais sofrim ento.

De Guessur, Absalão enviou cartas a j ustificar a sua conduta. Expressou repetidas vezes o seu profundo am or por m im . As suas palavras m agoavam -m e, pois não podia lê-las sem ver o seu rosto encantador, sem ouvir a sua voz, alegre, terna e cheia de espírito trocista, sem sentir a sua presença que tanto prazer m e dava. Eu ansiava por ele com o um am ante chora pela pessoa am ada, que partiu de viagem e que pode não regressar. O m eu coração dizia-m e que visitasse Absalão e o cham asse do exílio. E, contudo, não o fiz. Ele era culpado do pecado de Caim , e, m esm o enquanto lia as suas cartas, a som bra pálida do rosto infeliz de Am non parecia trem er perante o m eu olhar. E rezava ao Senhor para que Ele m e guiasse nos cam inhos da retidão.

Tam bém Betsabé, segundo percebi, estava determ inada a que Absalão perm anecesse no exílio.

- O país - dizia ela - está m ais calm o sem ele. Sei que o am as profundam ente, David, com o é natural, am á-lo ainda m ais, talvez, porque ele é selvagem e caprichoso e, sim , perigoso com o um potro por dom ar. Mas se considerares a tranquilidade que agora reina em Israel, tenho a certeza de que te aperceberás de que a ausência de Absalão contribui para esta calm a. A verdade é que estam os todos m uito m elhor sem ele, e só o teu am or pelo rapaz, o teu am or m ais que com preensível, a tua excessiva parcialidade, é que te faz cego perante os fatos.

Eu era im potente perante Betsabé, pois ela tinha um a capacidade de m e perturbar, e um a habilidade para tornar a m inha vida m iserável

que eram dem asiado fortes para m im . Não é bom para um hom em depender de um a m ulher com o eu dependia de Betsabé naqueles anos. Ela desem penhava tam bém um papel cada vez m ais ativo nos assuntos do governo, para desgosto de Joab, o que não m e desagradava com pletam ente.

Israel estava em paz. Os reis vizinhos estavam felizes por prestarem hom enagem à m inha grandeza, e as riquezas que m e enviavam eram colocadas de lado para o m eu obj etivo de construir um a casa digna do Senhor. Eu recrutei e treinei arquitetos, escultores, artesãos que trabalhavam em m adeira e pedras preciosas, para que a obra fosse feita da form a m ais m agnificente e graciosa.

Naqueles anos de paz dediquei-m e com renovado zelo à poesia e à m úsica. Inaugurei um a biblioteca onde se podiam guardar coleções de versos, para que a posteridade se m aravilhasse com a grandeza da obra que eu fizera. Tam bém dei a Josafat e Seraías, escribas, o trabalho de com pilarem a história dos Filhos de Israel, um a tarefa nunca antes tentada. Exam inei o trabalho que tinham feito e tive ocasião de os repreender pelo tratam ento que deram a Sam uel e a Saul, e à desavença que surgira entre eles.

- É natural - disse eu - que vós, sacerdotes, assum ais que Sam uel tinha razão, m as, em bora eu lhe deva m uito, e em bora o rei Saul m e tenha declarado inim igo de Israel e tenha pretendido tirar-m e a vida, não era assim . Saul fez o m elhor que pôde, de acordo com a sua visão das coisas, e o ódio de Sam uel por Saul teve origem no ciúm e que sentia pelos seus êxitos, e não em qualquer pecado da parte de Saul. Acreditai, Saul era um grande hom em em Israel e fez grandes coisas, até que a sua m ente ficou obscurecida. Im ploro-vos, revede estas passagens, para fazer j ustiça a am bos estes hom ens notáveis. Estou feliz por acreditar que a posteridade dirá que vos aconselhei com sensatez.

A toda a hora eu ansiava por Absalão, e o prazer que eu encontrava no m eu trabalho era ensom brado e ofuscado pela sua ausência.

Em com pensação, eu passava m uito tem po com o m eu filho seguinte, Adonias, filho de Haguite, um a rapariga de beleza suave que m orrera ao dar-lhe a vida. Adonias tinha m uito da graça e do encanto de Absalão, em bora as m ulheres idosas dissessem que ele se parecia com igo quando eu era j ovem . Parecia-m e que, se Absalão, para m eu profundo pesar, se excluíra da sucessão ao trono através de atos por si próprio praticados, Adonias devia ser preparado em seu lugar (m as não declarei esta m inha intenção a Betsabé). Havia outra razão para instruir o rapaz: Jonadab relatara que Aitofel estava a fazer a m esm a coisa. Adonias era dado a um discurso im pulsivo, até im prudente

- um a vez, na m inha presença, observou que Salom ão era um pequeno pedaço de excrem ento de anim al de duas faces -, m as fez-m e rir e sentir m ais j ovem . Tam bém , e talvez m ais a propósito, ele dem onstrava um a aptidão para assuntos m ilitares que conquistou até a adm iração de Joab.

No entanto, não o nom eei m eu sucessor, pois ainda tinha esperança no regresso de Absalão, e porque não m e sentia suficientem ente forte para suportar a fúria gélida com a qual eu sabia que Betsabé receberia tal notícia.

Além disso, Betsabé, quando ela queria, ainda tinha a capacidade de m e dar m ais prazer do que qualquer outra m ulher, e eu estava am arrado a ela pelas cordas torcidas da piedade, do am or, do desej o e da culpa. ^

Um dia, um a m ulher im plorou que lhe desse um a audiência. Estava vestida de luto, e prostrou-se no chão perante m im .

- Sou um a pobre m ulher - choram ingou ela -, um a pobre viúva, e tinha dois filhos, am bos belos. Mas, em bora eu am asse am bos, eles não se am avam um ao outro, e tiveram um a disputa. O m ais novo m atou o m ais velho e, receando pela sua vida, fugiu, enquanto eu chorava e cum pria luto pelo irm ão. E agora o resto da m inha fam ília, da fam ília do m eu m arido, e da fam ília do m eu falecido filho, insistem para que eu suplique ao rei que procure o m eu filho m ais novo e que o m ande m atar por ter assassinado o irm ão. Ó m eu rei e senhor, o m eu filho confessa a sua culpa, e eu confesso-a perante o rei, m as se ele for m orto, ficarei sem filhos. O irm ão está m orto e não lhe pode ser restituída a vida, e eu fico desesperada ao pensar que perderei o m eu outro filho e, dessa form a, não deixarei m em ória do m eu m arido nem de m im à superfície da terra. Por isso, im ploro ao rei que intervenha e salve a vida do m eu filho, para que m e sej a devolvido.

Não afirm o ter transm itido todas as suas palavras, nem as suas palavras exatas, pois ela exprim iu-se rapidam ente, algo confusa, no seu desgosto e agitação, m as o essencial da questão era claro. Senti o am or que ela tinha pelo filho, e prom eti-lhe que faria com o ela m e pedia e que protegeria o rapaz.

Então ela atirou para trás o véu e disse:

- Ó m eu rei e m eu senhor, enganei-te, pois não tenho filhos, m as tu tens, e aquele por quem sentes m ais estim a definha no exílio, e a sua vida é am eaçada pelos seus inim igos, tal com o o filho da m inha história. E, ao ouvi-la, j ulgaste bem e sensatam ente: podes fazer m enos do que isso no caso do teu próprio filho am ado, Absalão?

Então eu disse:

- Será que vej o a m ão de Joab nesta com édia que representaste perante m im ?

É que eu sabia bem do ciúm e que Joab sentia da influência de Betsabé, e eu suspeitava de que seria vantaj oso para ele se Absalão regressasse. Todavia, porque a m ulher m e revelara o m eu próprio coração, eu não fiquei zangado com Joab. Em vez disso, m andei cham á-lo, e, inform ando-o de que descobrira o seu em buste, sorri, e disse-lhe que trouxesse Absalão do exílio.

« O Senhor conhece as m inhas iniquidades» - cantei várias vezes essa canção. « O Senhor conhece os segredos do m eu coração...» , e assim por diante. É verdade, acredito que assim sej a. Mas um a coisa é cam inharm os nus perante o Senhor; e outra coisa é despirm o-nos em frente dos hom ens. E, contudo, se nestes últim os dias da m inha vida se espera que eu diga toda a verdade sobre m im próprio, é isso que devo fazer agora. Devo pôr a descoberto a m inha vergonha.

(Ó Abisag, vem nua com o a aurora, e beij a os m eus lábios ressequidos, reanim a-m e com a tua boca m acia e as tuas m ãos hábeis, para que, neste em baraço, eu possa pensar - não, sentir - que voltei a ser hom em !)

Quase todos os hom ens preferem confessar um pecado e não um a fraqueza, e, neste ponto, pelo m enos, não sou diferente dos dem ais. Poderá haver um a certa grandeza num pecado; pelo m enos, é um ato, um a expressão da vontade, e, m uitas vezes, da vontade de im perar, aquele alim ento que restaura a vitalidade, e que acelera o apetite de que se alim enta. Mas a fraqueza é um a abnegação da vontade; a fraqueza é sem pre de desprezar. E é isso que tenho de confessar.

Betsabé veio ter com igo e o seu sorriso parecia pintado nos seus lábios e era frio com o a noite do deserto.

- E assim - disse ela -, Absalão vai regressar. O teu filho am ado, o assassino, deve ser recebido com alegria - e eu nem sequer fui consultada. Deverá ele agora sentir-se livre para m atar Salom ão ou talvez Adonias?...

- Betsabé - disse eu -, por favor.

Mas ela continuou neste tom , m ordaz, com o um daqueles pequenos cães que os agricultores usam para m atar ratazanas.

- Pensei que m e am avas - gritou ela. - Muitas vezes te vangloriaste do teu am or por m im . E agora vej o o que ele vale, m eras palavras.

E noutro tom (com o ela queria que eu reconhecesse):

- Fazeres um a coisa destas sem m e consultares, isso é que dói choram ingou ela.

E continuou:

- A corte inteira sabe que eu m e tenho oposto ao regresso de Absalão. Quando m e perguntam , não hesito em dar a m inha opinião. E agora envergonhas-m e perante todo o povo, e troças de m im .

Ou:

- Acreditas que Absalão te am a? Com o poderia ele fazê-lo quando m atou Am non, o teu prim ogênito? É essa a form a de um rapaz m ostrar o am or que sente pelo pai?

Quando lhe levei a m ão ao rosto e lhe toquei os lábios com o costum ava fazer, ou a pousei nos seus seios, ela afastou-se e negou-se-m e.

- Não - gritou -, antes conquistaste-m e com palavras doces e m odos encantadores, m as agora sei que foi tudo um engano. Foi para isto que deixei o m eu m arido de direito, Urias, e que m e expus a censuras por am or por ti, e que ofendi gravem ente o m eu avô, Aitofel, que agora recom pensas ao fazer-m e passar por esta vergonha...

« David - disse ela, banhada em lágrim as -, David - falava num m urm úrio suave e prolongado -, David, se m e am asses, não m e tratarias desta m aneira. Bem , tenho sido um a idiota. Dei grande valor ao teu am or, ele foi a luz do Sol no Verão da m inha vida, m as agora vej o que não foi senão um m eio de m e conquistares, de provares o teu poder, de m e subm eteres à tua m onstruosa vontade. Por tua causa, sofri o desdém das m ulheres, deixei-m e ser um a prostituta estigm atizada, e suportei tudo isso porque acreditava que m e am avas.»

Pensei: « pequei por tua causa. Assassinei Urias por tua causa. Afastei-m e do am or do Todo-Poderoso por tua causa. E agora...» .

Mas não fui capaz de pronunciar estas palavras. Ela era dem asiado forte para m im . Eu enfrentara Golias, enfrentara Saul, esm agara as hostes dos filisteus, m as quando Betsabé virava o rosto para a parede, e se m e negava, a m inha vontade transform ava-se em água.

- Muito bem - disse eu. - Não anularei a m inha decisão de que Absalão deve regressar. É dem asiado tarde, e isso só levantaria descontentam ento. Mas ele não verá o m eu rosto. Será excluído do palácio e ficará lim itado à sua própria casa, nos subúrbios da cidade. Será que isso te satisfaz? •«

Nessa altura ela pendurou-se aos m eus lábios, e entregou-se-m e com palavras doces. E eu voltei a conhecer o prazer, m as até no auge da m inha paixão eu sentia desprezo por m im próprio, porque perm itira que a m inha esposa m e governasse.

Mantive o m eu voto durante dois anos. Absalão dirigia-m e protestos e apelos, m as eu dera a m inha palavra a Betsabé e não estava inclinado a quebrá-la. No entanto, sentia-m e sem pre infeliz. Os prazeres a que m e entregava pareciam -m e insípidos e inúteis. De m anhã, sentia relutância em deixar o m eu leito, e, à noite, ansiava por ele, em bora, pela prim eira vez desde criança, eu o ocupasse a m aior parte das vezes sem com panhia.

Quando olhava Betsabé, surpreendia m uitas vezes nos seus olhos um a expressão que parecia m edir-m e, com o se estivesse a calcular quanto tem po é que eu duraria, e quanto tem po faltaria para que a coroa passasse para Salom ão. Um a vez, não m uito tem po antes, eu teria ficado desolado ao ver quão m ais profundo era o am or dela pelo filho do que por m im . Agora era-m e indiferente.

Para m inha surpresa, Aitofel concordou com a decisão que eu tom ara - de que Absalão deveria perm anecer afastado de m im .

- Sabes que eu tenho grande afeição pelo j ovem . Quem poderá não corresponder ao seu encanto? Contudo, David, sou um velho que toda a vida serviu Israel, e acredito que tenhas encontrado algum m érito nos m eus conselhos. E lam ento ter de dizer que, apesar de todas as suas qualidades, Absalão é dem asiado im prudente, dem asiado im petuoso, para ser rei. Farias m elhor ao entregar a sucessão a Salom ão.

Todavia, Huchai relatava que Aitofel freqüentava a com panhia de Absalão, e a dos j ovens que se reuniam à sua volta.

- A velha raposa tem qualquer truque na m anga - disse ele.

Pensei: « sej a o que for, não quero saber» .

Num a noite de Inverno em que não havia luar e o vento da m ontanha fustigava os terraços de Jerusalém , a m inha disposição era tão negra com o o céu sem estrelas. Bebia vinho, sem alegria, e invej ei Joab, que procurava refúgio da preocupação e da decepção na em briaguez. Pensei: « toda a m inha vida tenho servido o Senhor, realizei grandes façanhas por Israel, e agora o m eu cabelo grisalho está a descer para a sepultura m ergulhado em torm ento. Os dias escuros abateram -se sobre m im , e todos os m eus poderosos feitos não passam de vaidade» .

- Meu Deus, m eu Deus - gritei -, porque m e abandonaste? Ó, m eu Deus, choro de dia, m as Tu não ouves, e de noite, não fico em silêncio.

Em seguida pensei: « Absalão e os j ovens podem troçar de m im , porque sou governado por um a m ulher» .

Assim , m andei cham ar Jonadab, e, quando ele chegou, dei-lhe vinho a beber, e perguntei-lhe o que diziam agora os hom ens de m im .

Ele cravou os olhos no chão e não respondeu.

- Diz-m e - pedi-lhe eu -, sabes qual é a casa em que Absalão se encontra, e poderias guiar-m e até lá secretam ente?

Assim , vesti um m anto, cobri o rosto com as suas pregas, e Jonadab saiu com igo para a cidade. Seguíam os pelas ruas estreitas, com o ladrões, e os cães ladravam -nos. Passam os por tabernas donde vinham sons de festança, nos quais eu não ouvia qualquer alegria. No entanto, à m edida que continuávam os, senti que a m inha m á disposição m e abandonava. Era com o se eu m e tivesse sacudido e libertado dos laços da m aj estade, e a m inha j uventude se renovasse.

- Se alguém nos saudar - sussurrei ao m eu com panheiro -, lem bra-te de que não sou o rei, m as um viaj ante de um a terra distante. E, de fato, eu sentia-m e com o um desses viaj antes, e isso enchia-m e de alegria. Fom os abordados j unto ao portão da casa de Absalão. Eu fiquei para trás, enquanto Jonadab negociava a nossa entrada. Por um m om ento, hesitei. Não desej ava aparecer no m eio de um grupo de am igos do m eu filho.

- Preciso de m e encontrar com o j ovem a sós - sussurrei. Assim , deixaram -m e na antecâm ara, enquanto Jonadab foi à procura de Absalão. Esperei com o um cliente pobre, e senti-m e tão receoso com o um tal cliente se deve sentir m uitas vezes, pois não sabia com o Absalão receberia a notícia da m inha presença.

Então a cortina foi afastada para o lado, e ele estava na m inha com panhia. Tinha o rosto corado. Caiu à m inha frente, de j oelhos, e agarrou-m e as pernas. Levantei-o, beij ei-o e abracei-o, e, durante m uito tem po, não falám os, m as eu conheci a paz.

Passam os a noite a conversar. Muito do que dissem os foram insignificâncias. Muito escapou da m inha m em ória. Foram ditas coisas, tenho a certeza, que é m elhor serem esquecidas. Então ele afirm ou o am or profundo que tinha por m im , assim com o a sua ausência de ressentim ento. Eu im plorei o seu perdão, ele o m eu. Ele disse:

- Tenho sido tão tentado pelo desespero. Pensei que m e tinhas abandonado. Pensei que m e tinhas atirado à escuridão total.

- Meu filho am ado - disse eu -, eu próprio tenho habitado o vale do desespero. Mas o desespero é-nos proibido. O desespero é um pecado contra um Deus que nos am a.

- Tenho visto poucos sinais do am or de Deus - disse ele. E pareceu-m e que, com aquelas palavras, ele m e acusava de um a am argura insaciável. E continuou: ,>

- Há um a... coisa... que vos devo m ostrar.

Segui-o através de corredores longos e sinuosos. O cam inho era apenas ilum inado pela lam parina que ele levava. Descem os, então, um a escadaria e entrám os nas frias profundezas da sua casa. Ele tirou um a chave do cinto e abriu um a porta guarnecida de m etal. Passam os por ela e em ergim os num corredor com prido e úm ido. Por um m om ento, tive m edo, suspeitando de que Absalão - até o m eu filho pretendia fazer-m e m al. Aquele local era tão parecido com um a prisão...

Pressentindo a m inha hesitação, ele conduziu-m e pelo braço, sem

dizer nada.

Passam os por outra porta, que estava aberta, e entrám os num a pequena sala, ilum inada apenas por um a lam parina de azeite. Um a velha estava sentada, a coser, num banco de três pernas, j unto a um a porta de grades de ferro, que dava para um a sala interior. A m ulher ergueu o olhar, e os queixos trem eram -lhe quando m e reconheceu. Absalão colocou-lhe a m ão no pulso.

Trouxe o m eu pai para ver a m inha irm ã. com o está ela hoj e?

- Está irrequieta, m eu senhor, da form a que bem conheces, gem endo e gritando durante a prim eira parte da noite, e teria arranhado o rosto se eu não lhe tivesse am arrado as m ãos. Mas agora dorm e, sem barulho, porque o seu sono, com o sabes, é sem pre desassossegado, m as o sono que é possível, ela teve.

Espreitei pelas grades de ferro. Um vulto j azia sobre um leito, m as não conseguia discernir se se tratava de um hom em , de um a m ulher ou até de um anim al.- Tam ar... - disse eu. - Mas m andaste de Guessur a notícia de que ela estava m orta.

- Seria m elhor se estivesse - disse ele. - Ela própria preferiria. Tem atentado m uitas vezes contra a vida, e eu tenho-a im pedido. Talvez tenha feito m al, m as nunca desesperei em relação à sua recuperação. Tam ar, m inha am ada - cham ou ele, na m ais suave das vozes.

Voltou a cham ar, e um a terceira vez. Então a rapariga deixou o seu leito e dirigiu-se a nós, num estranho m ovim ento deslizante, com o se fosse um espírito, e não carne. Tinha vestida apenas um a túnica - ou seria um a cam isa? - rasgada e suj a, que, àquela luz pouco distinta, m e parecia cor de açafrão. O rosto tinha cicatrizes, com o se de velhos golpes de faca, e sulcos de lágrim as suj as. Os olhos eram selvagens, e, contudo, distantes, m as o cabelo com prido estava penteado. A boca descaía, aberta, e, quando viu Absalão, balbuciou qualquer coisa, sons estranhos que eu não sabia interpretar, a linguagem de um anim al, m ais do que de um a m ulher.

Agarrou as m ãos de Absalão através das grades da porta, e com prim iu os lábios contra elas.

Eu não consegui falar, e virei costas, atorm entado pela dor.

- Estás a ver, pai - disse Absalão, depois de term os deixado aquela cena de horror, e de term os percorrido o doloroso cam inho que nos levou de volta à câm ara onde ele m e recebera -, estás a ver, pai, ela tem o aspecto de um m onstro. Tem de estar presa, para seu próprio bem .

- Teria sido m elhor se ela tivesse m orrido.

- Assim é - disse ele. - Tem m om entos de lucidez, e essas são as piores ocasiões, pois lem bra-se do que era, e sabe o que agora é.

- Não m e reconheceu - disse eu.

- Só m e conhece a m im , e Anna, a m ulher idosa que cuida dela. Pensei: « que pecado m e sobrecarregou desta m aneira?» .

- Absalão - disse eu -, procedi m al para contigo. Tenho sido fraco, e tenho dado ouvidos àqueles que não te am am , e fui persuadido por Betsabé para ser inj usto para contigo. O Senhor revelou-m e o m al que eu fiz. Lam ento verdadeiram ente e estou arrependido.

Abraçam o-nos e, acom panhado por Jonadab, que extravasava em conversa à toa a sua alegria pela form a com o as coisas tinham decorrido, regressei ao palácio à luz acinzentada e rosa da aurora.

Pela m anhã, anunciei que Absalão recuperara o m eu favor, e que agora tom aria o lugar que era seu de direito no governo de Israel.

Um chefe não pode ter iguais, nem am igos, e não deve dar confiança a ninguém , nem perm itir introm issões na intim idade da sua existência. Vi que errara ao perm itir que Betsabé exercesse dem asiada influência sobre m im , e, por isso, decidi, dali para a frente, m antê-la à distância. Secretam ente, disse a Jonadab que lhe transm itisse o m eu desej o de que lhe fosse negado o acesso à m inha pessoa.

O regresso de Absalão devolveu à m inha governação um a popularidade que estivera em perigo de perder. Jonadab agora sentia-se suficientem ente ousado para m e inform ar de quanto Betsabé ficara ressentida com os m eus conselheiros e de quanto ela se tornara im popular j unto do povo. A opinião pública é, certam ente, um a m eretriz, facilm ente influenciável e sem princípios. Contudo, o chefe sensato desej a cultivá-la e com andá-la. Eu descobria agora, através dos agentes de Huchai, a que ponto chegara o descontentam ento. Inform aram -m e de conspirações m aquinadas entre as tribos do Norte, e agi com rapidez para as suprim ir e castigar os culpados.

Absalão estava ansioso por que eu o nom easse m eu sucessor. Todos os m eus instintos de am or insistiam para que eu o gratificasse com tal anúncio, e, contudo, eu recuava. Para o acalm ar, disse-lhe que desej ava protegê-lo da invej a que tal anúncio provocaria, e que não desej ava fazer dele, em particular, o obj eto do ódio de Betsabé.

- Betsabé está determ inada - disse eu - a que Salom ão sej a o m eu sucessor... deixá-la sonhar, estarem os todos m ais sossegados se assim continuar. Salom ão não passa de um j ovem estudioso, sem qualquer experiência de guerra. Penso que, quando eu m orrer, não terás qualquer dificuldade com ele. Entretanto, m eu filho estim ado, deixa-m e gozar de paz na m inha velhice. Ainda am o Betsabé, em bora, por tua causa, tenha ordenado que, por enquanto, ela se m antenha afastada de m im . Saberás com o lidar com Salom ão quando checar a hora.

Continuar: parte 2 de 2