Rei Davi
Livro Dois
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Até Asael estava espantado e irritado por eu não m e declarar agora o rei Ungido de Israel. Ele não ficou satisfeito com a explicação que lhe apresentei de que tinha aprendido um a coisa sobre a arte de governar: nunca tom ar um a decisão enquanto não fosse essencial e não tivesse chegado o m om ento certo. Ele abanou a cabeça, incrédulo, quando eu disse que esperaria até que fosse cham ado.
Joab, dizia ele, estava furioso. Joab tam bém não podia com preender-m e. Asael hesitou, e em seguida, num a torrente de palavras, disse que o seu irm ão m ais velho até se perguntava se eu teria perdido a coragem .
- Tem po e paciência - disse eu -, tem po e paciência.
Em vez disso, eu enviara felicitações discretas a Aquis pela sua vitória. Depois, secretam ente, e sem lhe anunciar a m inha intenção, retirei-m e para Hebron, a principal cidade de Judá. Convém lem brar que, por esta altura, o reino de Israel estava cortado ao m eio devido à continuada ocupação de Jerusalém pelos j ebuseus. Assim , estabeleci-m e nesta altura em Hebron e fui aceite com o rei pelos hom ens de Judá, m as Abner, que era eternam ente leal à casa de Saul, sendo prim o do falecido rei, em bora am istoso para com igo, colocou o últim o filho de Saul que sobrevivera, Isboset, com o rei no lugar de Saul. Fê-lo, em bora soubesse que Isboset era um a pobre criatura, lento de raciocínio e indolente, que não era um soldado m as um covarde que Saul m antivera afastado do exército para salvaguardar o seu próprio orgulho. Abner, na sua obstinada (m as louvável) devoção à m em ória de Saul, fez Ishoset rei, e eu honrei-o pela sua lealdade. Joab, com invej a da nobreza e do renom e de Abner, argum entou que Abner pretendia, com o tem po, ver-se livre de Isboset e tornar-se, ele próprio, rei.
- Bem - disse eu -, sabes com o eu confio na tua opinião, prim o, m as tem os de esperar para ver. Confia na vontade do Senhor. Abner tam bém pertence à casa de Saul, que o Senhor privou do reino, pela boca de Sam uel, da m esm a form a que esse m esm o reino m e foi prom etido. Mas não o procurarei com derram am ento de sangue. Fazê-lo seria um pecado grave. Não tenho qualquer desej o de derram ar o sangue dos nossos conterrâneos israelitas. Com o disse ao teu irm ão, tem po e paciência resolverão as coisas a nosso favor.
Assim , enviei um a m ensagem am igável a Abner e a Isboset, e sugeri que devíam os colaborar contra os filisteus. Não m encionei o assunto do rei, m as falei apenas com o se fôssem os todos os três iguais.
Abner respondeu no m esm o tom , e propôs um a data e um local para um encontro. O lugar sugerido era Guibeon, que, ficando a cerca de oito quilôm etros a oriente de Guibeá e a cerca de dez quilôm etros a noroeste de Jerusalém , situava-se dentro do território que Isboset controlava, em bora ineficazm ente.
Eu concordei, e em seguida com eti um dos m aiores erros da m inha vida. Reconhecendo o perigo de ir eu próprio a tal lugar, m esm o com um guarda e m esm o confiando em Abner, pedi a Joab que chefiasse a nossa delegação.
- O próprio Isboset não estará lá - disse eu -, m as a delegação deles será chefiada por Abner, o segundo hom em do reino deles. Por isso não é adequado que eu vá. É m ais apropriado que tu, com o segundo hom em de Judá, fales com Abner, o que am bos farão com o iguais. Porque tu, Joab, és para m im o m esm o que Abner é para Isboset.
Eu disse isto para agradar a Joab, dem onstrando-lhe a m inha confiança nele e a m inha elevada consideração pelas suas capacidades. E resolvi não lhe revelar que estava à espera de um a cilada. Não suspeitava de Abner, m as, recordando o desdém de Jónatas pelo irm ão Isboset, e recordando tam bém o desprezo com que Mical falara dele, receei que ele pudesse, sem conhecim ento de Abner, aproveitar a oportunidade para tratar do m eu assassínio. Dessa form a ele afastaria do cam inho o Ungido do Senhor, para assim m ostrar ao seu povo que a m aldição que Sam uel lançara sobre a casa de Saul era coisa vã.
Tenho m otivos, que só vim a conhecer m ais tarde através do próprio Abner, para acreditar que as m inhas suspeitas eram j ustificadas, e que m e tinham m ontado tal arm adilha, em bora Abner estivesse inocente e não tivesse conhecim ento de nada naquela altura. E, no entanto, censuro-m e por não ter corrido o risco, e por ter perm itido que a prudência m e governasse.
Faço-o agora com conhecim ento de causa do que se passou.
A conferência com eçou am igavelm ente, assim m e relataram , com Abner e Joab a recordarem batalhas passadas contra os filisteus, batalhas em que am bos tinham conquistado glória. Então Abner (aparentem ente) sugeriu que alguns dos j ovens de cada lado divertissem os m ais velhos ao participarem num a guerra fictícia. E Joab concordou, observando - segundo m e contaram - que veriam sem dúvida que os j ovens tinham m uito que aprender.
Foi Laís quem , banhado em lágrim as, m e forneceu o m ais fidedigno relato do que então se seguiu, sendo ele um dos j ovens a quem Joab disse que se despisse para aquele j ogo de guerra.
- Estávam os a lutar corpo a corpo - disse ele -, e então, de repente, eu vi que um dos j ovens de Abner puxara por um a adaga e que se estava a preparar para apunhalar o seu adversário, que era El-Hanan. Gritei um aviso, m as dem asiado tarde. A adaga deslizou entre as costelas de El-Hanan, que soltou um forte grito, e o seu corpo desfaleceu na m ão do outro. Foi horrível, David. Num m om ento, um a brincadeira, e, no m om ento seguinte, um a carnificina. Porque, é claro, quando viu o que estava a acontecer, Joab gritou que fom os traídos, e sacou da sua própria espada, e todos aqueles que tinham estado a conversar e a beber vinho com o velhos com panheiros estavam agora filados às gargantas uns dos outros. Não posso culpar Joab, pois sabem os que ele am ava El-Hanan, e, no entanto, creio que se ele tivesse agido de outra m aneira, o próprio Abner teria despachado o assassínio...
À m edida que ele falava, recordei aquela noite no deserto, quando Azarei m atou Neem ias, sargento de Jónatas, num a briga, e eu, agindo com o j uiz e carrasco ao m esm o tem po, evitei um a rixa sangrenta ao...
- Continua - disse eu a Laís -, m as sê breve.
- Não poderia ter sido propositado - disse o rapaz -, pois nem Abner nem nenhum dos seus hom ens estava preparado para um a batalha, enquanto Joab nos avisara com antecedência para não tirarm os os olhos das nossas arm as, caso fôssem os am eaçados por um a conspiração traiçoeira. Por isso depressa os colocam os em fuga, até Abner, que apenas teve tem po para agarrar um a lança antes de se encam inhar para as m ontanhas. E Asael foi atrás dele... e não regressou... Estava j á
escuro quando encontram os o seu corpo, com um a ferida provocada por um único golpe de lança. Em seguida espiam os Abner e os seus hom ens, à m edida que a Lua se levantava, a salvo daqueles que perseguíam os e que se encontravam no cim o de um a colina. E Abner gritou cá para baixo, para Joab: « Até quando irá a espada ceifar vidas? Até quando os israelitas m atarão israelitas?» Laís chorava.
- Eu am ava Asael - disse ele em voz baixa e entrecortada -, e fui eu que o trouxe. Sepultam o-lo no túm ulo da fam ília, em Belém , e aqui estam os nós, David. Abner pode não ter tido outra alternativa, m as Joab j am ais lhe perdoará.
A m im , Joab disse apenas:
- Agora tam bém eu aprendo a praticar a paciência.
Eu pregava paciência, praticava paciência, reconhecia a necessidade de ter paciência; e, m esm o assim , cansava-m e dessa virtude.
- Quanto tem po, Ó Senhor - rezava eu -, quanto tem po ainda para que o Teu servo entre no reino que lhe foi prom etido?
Eu tam bém praticava diplom acia. Essa pode ser um a atividade cativante. Contudo, descrevê-la é cansativo. Ouvir um relato de m anobras diplom áticas é insuportável. Em bora, em Hebron, eu m e esforçasse por governar bem , por ser am ado e - m ais im portante ainda respeitado pelos m eus súbditos, eu estava consciente de que os anos estavam a passar, e de que eu estava a envelhecer sem a oportunidade de m e realizar. A im paciência de Joab aborrecia-m e. Desde que Abner m atara Asael, Joab era sem pre m ais taciturno e m enos de confiança. Eu receava o assalto de um espírito das trevas que o envolvesse e o destruísse com o o espírito m aligno aniquilara o pobre Saul.
Eu tinha poucos consolos. Cartas ocasionais do sensato Aitofel, conselheiro de Saul e agora do filho, secretam ente entregues, asseguravam -m e que a governação do infeliz Isboset era cada vez m enos aceitável para os Filhos de Israel. E, contudo, Abner continuava obstinadam ente leal e não havia qualquer sinal de revolta. Aitofel tam bém aconselhava paciência.
Para aliviar o m eu aborrecim ento, que eu receava que m e levasse a com eter algum ato im prudente, tom ei várias esposas em Hebron. Agora, na velhice, para além do ato de fazer am or, é-m e doloroso tentar lem brá-las. E, na verdade, o nom e de várias j á se m e escapou da m em ória em declínio. Havia um a, no entanto, que m e trouxe um prazer especial, e cuj a im agem ainda m e aparece em sonhos. Por que m otivo isso acontece, confunde-m e, pois desse casam ento surgiu a m ais intensa m istura de am or, m edo, ódio, dor e autocensura. E raiva.
O nom e dela era Maaca. Era filha de Talm ai, rei de Guessur, um m iserável principado a noroeste do m ar da Galileia. Era um a rapariga árabe, trigueira, de olhos da form a e da cor das azeitonas escuras, e m em bros que podiam ultrapassar o cabrito-m ontês na corrida. Tinha o caráter feroz com o um cão selvagem . E deu-m e dois filhos: Absalão, o m eu filho m ais am ado, e Tam ar, a m ais bela das m inhas filhas.
E terei m ais a relatar sobre eles - em grande parte para m e consolar -, se o Senhor desej ar que eu sej a obrigado a fazê-lo.
Então, finalm ente, irrom peu a discórdia no reino do Norte, que eu há tanto esperava. Isboset, para com por a sua loucura, zangou-se com Abner, aparentem ente porque Abner se apoderara de um a rapariga que fora em tem pos concubina de Saul, e que ele próprio desej ava. A verdadeira causa era m ais profunda. Apesar da sua incapacidade, Isboset estava lisonj eado pelo seu título de rei, e chegara a acreditar na realidade da sua governação. Assim , sentia-se cada vez m ais ressentido com o dom ínio que Abner exercia, naturalm ente, tanto pela força do seu caráter com o pela razão da sua experiência. O próprio Abner se sentia ressentido com as reprim endas que lhe eram publicam ente dirigidas. O seu desdém pelo rei, que ele elevara a tal posição apenas por causa da sua própria devoção à m em ória de Saul, intensificou-se. Lem brou-se do afeto e do respeito que sem pre sentira por m im e, assim , finalm ente, enviou em baixadores para que sugerissem que os dois reinos se deveriam voltar a unir, que ele próprio se livraria de Isboset, e que eu deveria ser reconhecido com o o rei de direito de todo o Israel.
Por um m om ento, no entanto, hesitei. Adm irava Abner e, contudo, não podia fazer outra coisa senão suspeitar de que ele m e estava a atrair a um a arm adilha. Assim , fiz-lhe um teste. Disse-lhe que só concordaria com um encontro se ele, ao m esm o tem po, m e trouxesse de volta Mical, de quem a ira e a invej a de Saul m e tinham privado, para que eu a restabelecesse na posição que era sua, de direito, com o m inha esposa.
É claro que m e estava a enganar a m im próprio. Não era que eu receasse realm ente um a arm adilha. Mais do que isso, o que eu desej ava era que essa fosse a prim eira afirm ação do novo poder que eu devia assum ir: exigir o regresso de Mical com o condição para m e encontrar com Abner. A perda de Mical - e o fato de Saul a ter entregue im ediatam ente em casam ento - fora o m ais profundo insulto que j am ais m e tinham feito. Mical, para além dos outros aspectos em que era perfeita, fora para m im a prova do m eu grande êxito e aceitação com o um dos hom ens poderosos de Israel. A hum ilhação de a perder fizera voltar a m im todos aqueles anos passados no deserto. Eu não falara disso a ninguém . Era com o se, ao perder Mical, eu tivesse perdido parte da m inha virilidade, com o se, ao arrancá-la de m im , Saul m e tivesse transform ado num eunuco. Eu sabia que ele se apercebera disso, e que rej ubilara com o que fizera. Por isso, era necessário que ela m e fosse devolvida, se eu queria ficar de novo inteiro, e com o se só assim o reino de Israel pudesse recuperar a sua perfeita saúde e a fertilidade.
No entanto, eu esperava a sua chegada com agitação e profunda ansiedade. Toda a vida m e foi fácil dom inar as m ulheres. Não é só porque sou rei que, m esm o agora, não tenho dificuldade em conseguir um sorriso da m inha pequena sunam ita. Nunca duvidei da m inha capacidade de cativar, e a m aneira de ela sorrir prova-m e que essa capacidade não desapareceu. É claro que os hom ens acham natural dom inarem as suas m ulheres, e a m aior parte fá-lo, de fato. Mas poucos
- talvez nenhum - devem tê-lo achado tão fácil com o o rei David. Até Maaca, aquela gazela selvagem do deserto, corava com o m eu sorriso e trem ia com o um a j ovem potra quando eu lhe tocava. É assim que deve ser.
Mas Mical, desde o nosso prim eiro encontro, insistiu na nossa igualdade com o hom em e m ulher, e o seu sorriso sugeria que ela considerava que a sua aceitação dessa igualdade era m era pretensão. O orgulho dela com o filha do rei era algo que eu nunca venci. E até nos m eus m om entos m ais cruéis, eu conhecia em m im um certo prazer por não ter conseguido fazê-lo.
A própria Mical deve ter sofrido. Eu não podia duvidar disso, em bora sem pre tivesse duvidado de que o am or dela por m im fosse igual ao m eu por ela. Ela fora tratada pelo pai com o um obj eto, um obj eto que lhe oferecia um m eio de expressar o seu ressentim ento em relação a m im , e, nesse sentim ento, que então dom inava o seu coração em desordem , ele não pensou nos sentim entos da filha. Menosprezou o orgulho dela, que era a principal das suas em oções, em guerra apenas com o seu am or-próprio e com a adm iração pela sua própria beleza. Sem se preocupar com o que ela sentia, ele dera-a a outro em casam ento, a um hom em que ela desconhecia, e de condição hum ilde. Saul tratara a sua filha com o um hom em podia tratar um a escrava de quem se cansara, livrando-se dela onde quer que lhe parecesse conveniente. Eu não podia duvidar de que Mical ficara am argam ente ressentida. Eu tam bém não podia duvidar de que ela tivesse escondido o seu ressentim ento, pois m ostrar ressentim ento em público é um a ofensa ao orgulho de qualquer pessoa.
Mas eu não podia ter a certeza de que ela não se ressentia igualm ente daquilo que ela poderia presum ir com preender com o um a revelação de um sentim ento em m im que não era am or por ela, m as sim plesm ente desej o de posse. Por outras palavras - e as m inhas palavras são cada vez m ais confusas, com o os m eus pensam entos, nas noites desperdiçadas da velhice -, eu receava que ela m e pudesse ver com o via Saul. O hom em poderoso que pega onde lhe apetece e larga conform e lhe apetece.
Assim , o m eu prim eiro cuidado deve ser m ostrar que exigi o seu regresso porque ela era m ais im portante para m im do que qualquer outra m ulher. Conseqüentem ente, ordenei a Maaca, que eu reconhecia que era a única entre as m inhas esposas que Mical poderia ver com o adversária, que voltasse por algum tem po para a sua tribo - o que ela fez, levando consigo os nossos dois filhos, Absalão e Tam ar. O fato de m e ter privado, m esm o que apenas por algum tem po, da com panhia não só da esposa que m ais m e satisfazia a fazer am or, m as tam bém dos dois filhos que eu m ais am ava, é prova da sinceridade da m inha paixão por Mical.
Joab disse que eu era louco em querê-la de volta. Aquela m ulher é um a cabra, e toda aquela fam ília só traz com plicações. Devias saber isso m elhor que ninguém , David. No entanto, nada que eu possa dizer te fará m udar de opinião. Sem pre foste tão obstinado em relação a ela com o Jónatas era contigo. Até o fiel Laís levantou dúvidas.
- Oh, eu lem bro-m e, David, quantas vezes te tenho ouvido suspirar por ela, com o até, por vezes -ele soltou um riso abafado -, m e cham avas pelo nom e dela. Mas ressuscitar o passado? Poderá tal ser possível? Será até sensato tentar?
Mas eu esperava por ela, e recordava os atos que Saul exigiu que eu realizasse para poder ganhá-la, e ela aproxim ou-se, e os anos voaram . A sua beleza não se alterou, e ela não se aj oelhou quando se aproxim ou de m im ; e havia aquele velho m eio sorriso trocista no seu rosto quando disse:
- David, m eu m arido, e rei, segundo consta...
- Um rei com falta da sua verdadeira rainha.
- Sem pre soubeste fazer discursos bonitos, que não significavam nada, tal com o o teu canto conseguiu arrancar o rei, m eu pai, à sua loucura e aos dem ônios que o habitavam , e isso, infelizm ente, no fim , tam bém não significava nada. Mas um a vez que és rei, segundo consta, e um a vez que eu sou a tua verdadeira esposa, a quem tu pediste que voltasse, aqui estou eu. Tom a-m e com o eu sem pre fui.
O que significava, com o eu sabia e voltei a constatar, de algum a form a separada de m im m esm o quando estávam os m ais próxim os um do outro.
Abner provara a sua sinceridade. Mical foi-m e devolvida ao m eu leito, e à m inha casa, onde, naturalm ente, assum iu o lugar principal entre as m inhas esposas. Assim , eu com binei então um a data e um local para m e encontrar com Abner para deliberarm os com o é que ele poderia colocar todo o Israel sob o m eu governo. Para facilitar as coisas, e porque sabia da inim izade que Joab nutria por Abner, um a inim izade tornada m ais aguda, suspeito eu, pelo receio de que Abner, devido ao seu talento, ao seu caráter, e aos serviços que estava em vias de m e prestar, suplantasse rapidam ente Joab e ocupasse o segundo lugar no m eu exército e na m inha adm inistração - por todas estas razões, eu despachei Joab, para que acalm asse alguns distúrbios na fronteira com os filisteus, um a tarefa para a qual ele era, é claro, em inentem ente capaz.
As m inhas negociações com Abner não poderiam ter corrido m elhor. Ele confessou que tinha feito um grande disparate após a batalha do m onte Guilboa, quando prom overa a causa de Isboset.
- Mas - disse ele - eu prom etera a Saul, no extrem o do seu desespero, que não trairia a sua casa, e, assim , pareceu-m e que não tinha alternativa. Se eu m e tivesse sentido livre, na m inha m ente e no m eu espírito, para m e virar para ti, David, eu tê-lo-ia feito, pois, com o sabes, sem pre adm irei o teu talento e caráter. Nunca deixei de lam entar o ódio que Saul desenvolveu por ti. Mas esse ódio era um fato que pesava bastante nas m inhas considerações. Além disso, tenho de adm itir que havia m uitos dos hom ens im portantes de Israel que perderam
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pais, irm ãos, filhos ou outros parentes no m onte (lullhoa, que estavam contra ti por causa da tua aliança com os filisteus. « Se David não se tivesse aliado a Aquis» , diziam eles, « m esm o não tendo ele participado naquela terrível batalha, m esm o assim os filisteus teriam estado m ais fracos, pois teriam sido obrigados a destacar tropas para as funções que os hom ens de David estavam a desem penhar em nom e deles; e, assim , poderíam os ter ganho a batalha» . Receio, David - continuou Abner -, que nunca te tenhas apercebido do quanto a tua aliança com os filisteus te prej udicou.
- E que outra alternativa m e restava? - respondi. - Não foi Saul que m e em purrou para o deserto, onde poderia ter m orrido de fom e, com o um anim al selvagem , se não m e tivesse virado para Aquis?
Abner colocou a m ão no m eu j oelho.
- Não duvido de que a tua visão sobre o que era necessário fazer estivesse correta. Não sei o que eu teria feito, se m e tivesse encontrado na tua situação. Acredita-m e, estou de acordo contigo, e se soubesses as vezes sem conta que eu tentei persuadir Saul a abandonar a guerra contra ti!... Bem - ele levantou as m ãos ao alto -, seria tão fácil contar as folhas de um a árvore ou os grãos de areia no deserto com o determ inar as ocasiões em que Jónatas e eu falám os a teu favor. Mas aquela m aldita visita de Sam uel à casa de teu pai, em Belém esse era um tem a ao qual, novam ente por razões que não podes deixar de com preender, Saul regressava sem pre. Era com o um a espinha que tinha cravada na garganta. Conseqüentem ente, não conseguim os nada. Nada podia prevalecer contra o ódio de Saul e o m edo que ele tinha de Sam uel e da tua relação com o sum o sacerdote.
Bebeu um pouco de vinho.
- David - disse ele -, estou apenas a tentar explicar, m esm o que não tivesse j urado a Saul que defenderia a sua casa - e nesse j uram ento Saul leu a prom essa de que eu desafiaria a m em ória e a herança de Sam uel -, m esm o que não o tivesse feito, eu não poderia ter falado a teu favor em Israel, após o desastre do m onte Guilboa. A anim osidade contra ti era intensa, não porque os hom ens se lem brassem com o Saul te perseguira e aprovassem essa perseguição, m as por causa da tua aliança com Aquis. De fato, se eu o tivesse feito, só teria enfraquecido e talvez até destruído a m inha própria posição e a influência que possuo.
- Mas agora as coisas são diferentes?
- Certam ente. Tenho discutido ultim am ente estes assuntos com Aitofel, que sente, com o sabes, um a grande ternura por ti, e a quem eu encoraj ei para que se correspondesse contigo, fato de que os m eus agentes há m uito m e inform aram . Em prim eiro lugar, o tem po foi passando, e a lem brança da tua aliança com Aquis j á não é tão nítida. Os hom ens estão agora m ais preparados para a perdoar. « Talvez David não tivesse alternativa» , dizem eles. De qualquer m aneira, a form a com que ele se tem conduzido desde então prova que não é am igo dos filisteus. Em segundo lugar, a estupidez brutal de Isboset tem desgostado todos profundam ente. Em baciou a m em ória de Saul. Saul, na verdade, dizem os hom ens, foi grande e coraj oso na sua j uventude, m as o caráter de Saul deteriorou-se com a idade e a longa perm anência no poder. Isboset não pode com parar-se à glória de Saul na sua j uventude, m as tam bém ele m ostra sinais de deterioração. O fato é que, a cada dia que passa, ele deixa o povo m ais desgostoso. Entretanto, chega a notícia de que, em Hebron, David governa com paciência e equidade. E depois fala-se de Sam uel...
- Sim - disse eu -, e que dizem os hom ens de Sam uel?
- Que ele falou as palavras do Senhor. Que a conduta de Isboset é a m anifestação da sabedoria de Sam uel na sua com preensão de que o Senhor rej eitara a casa de Saul. Que talvez os hom ens falem verdade quando dizem que Sam uel reconheceu David com o aquele que era verdadeiram ente o Eleito do Senhor, e que, por isso, o ungiu com óleo.
- Então, finalm ente - disse eu -, chegou a hora...
- Na verdade, chegou. Deixa o assunto nas m inhas m ãos, David.
- De boa vontade - disse eu, e abracei-o.
E assim foi com binado. Abner regressaria ao Norte e exerceria os seus poderes de persuasão sobre os hom ens m ais im portantes do reino e das tribos, para que concordassem em rej eitar Isboset, tal com o o Senhor instruíra Sam uel para que rej eitasse Saul, e se virasse para m im , com o o verdadeiro Ungido do Senhor verdadeiro. Sete anos de paciência, diplom acia e contenção teriam assim a sua recom pensa. A m inha am bição seria cum prida e a do Senhor seria m anifestada, e glorificada.
Mas, infelizm ente, em bora eu sem pre tivesse confiado no Senhor, aprendi que o Acaso pode desfazer o m ais sensato e o m ais virtuoso dos planos. O Acaso, a que poderei tam bém cham ar contingência, desem penha, nos assuntos dos hom ens, um papel que tem tanto de dram ático com o de insondável.
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Aconteceu que Joab tratara dos seus assuntos na fronteira com a eficiência que eu esperara m as com um a alacridade que eu não previra. Regressou a Hebron exatam ente quando Abner partia. A notícia do seu regresso não chegara até m im , pois eu estava ocupado com Maaca, que cham ara secretam ente e aloj ara num a casa construída no interior da m uralha oriental de Hebron; fi-lo porque achara que Mical, apesar do am or que eu sentia por ela e da devoção que ela ainda m e inspirava, não m e podia oferecer, devido ao hábito da reserva desdenhosa, acrescida da form a com o fora usada e abusada na m ão de Saul, não podia ou não queria oferecer-m e aquela excitação sensual nem aquela alegria de entrega sexual que Maaca invariavelm ente m e proporcionava na sua ardente e anim alesca paixão pela m inha pessoa.
Assim , eu deitava-m e com Maaca quando o desej o m e incendiava, e encontrava-m e nos braços dela quando Joab regressou e encontrou Abner j unto à porta norte da cidade.
Cada um deles, contaram -m e m ais tarde, evidenciou surpresa ao ver o outro. A surpresa era genuína da parte de Abner, m as parece-m e hoj e provável que Joab, que m antinha espiões (com o eu suspeitava) m esm o entre os servos que habitavam a intim idade da m inha casa, tivesse tido conhecim ento da m issão de Abner e se tivesse apressado a interceptá-lo. No entanto, cada um deles fingiu sentir prazer ao ver o outro. Atiraram -se ao pescoço um do outro e abraçaram -se. Então Joab sugeriu que, para selar a sua reconciliação, e talvez para discutir outros assuntos, deviam retirar-se por algum tem po para um a taberna próxim a e tom arem vinho com o sím bolo da am izade passada e das boas relações futuras. Abner, nobre e generoso com o sem pre, concordou.
O que transpareceu, de início, daquilo de que falaram , no espaço apertado daquela taberna escura, nunca poderá saber-se com exatidão. Pode até nem ter havido qualquer discussão. Mas antes que o Sol tivesse abandonado o ângulo em que proj etava som bra, Joab surgiu, de adaga ensangüentada na m ão, e gritou a Abisai, dizendo que o irm ão Asael fora finalm ente vingado. Então os soldados de Joab, com o se estivessem preparados, caíram sobre a escassa tropa de Abner, m ataram alguns elem entos e capturaram os restantes, am arrando-lhes os pulsos e levando-os sob custódia para o posto m ilitar guarnecido pelos hom ens de Joab.
Quando m e trouxeram a notícia, chorei e rasguei as m inhas vestes e cham ei Joab à m inha presença.
Ele ficou de pé, im passível e som brio, com ar de reprovação.
- David - disse ele -, que gênero de hom em és? Conhecias Abner há m uitos anos com o teu inim igo, apesar das suas alegações de am izade. Sabias que, sem a sua aj uda, Isboset nunca se teria tornado rei de Israel e que o rei serias tu, e eu próprio seria o segundo hom em do reino, com o sou em Hebron. Conhecia-lo com o o assassino de Asael, m eu irm ão, teu sobrinho, e a quem tu tam bém am avas. E, m esm o assim , arranj as um a desculpa para m e enviares para a fronteira para fazer um trabalho que qualquer sargento estaria à altura de fazer, e assim , tendo forj ado a m inha ausência, convidas o teu inim igo a vir aqui, negoceias com ele e obsequiá-lo. David, nenhum hom em te serviu com m ais lealdade do que eu, Joab, e do que os m eus irm ãos, filhos de Seruia. Desertam os do exército de Saul, no qual ganham os honras, por tua causa; enfrentam os a m orte e a desonra por tua causa; arriscam os tudo por tua causa. E a tua recom pensa foi m agra. Preferiste Abner, o inim igo da nossa casa, e teu inim igo, porque ele se m anteve fiel a Saul e em seguida colocou Isboset no trono em teu lugar - e, m esm o assim , preferiste-o a nós, os teus servos m ais leais. David, há em ti qualquer obstinação que faz com que am es os teus inim igos e desprezes os teus am igos. Observei isso em ti desde o início, quando te apresentei à glória, fazendo com que tivesses aceso a Saul; e, no entanto, nunca m e agradeceste, m as afastaste-te de m im para te virares para o filho do rei, Jónatas, e estavas deitado com ele enquanto eu m e consum ia de raiva, lá fora, no escuro. E agora que m atei Abner, o inim igo da nossa casa e o assassino do m eu querido irm ão, num a luta j usta que surgiu de repente com o as tem pestades que irrom pem sobre as m ontanhas de Judá, censuras-m e e lam entas a sua perda. David, isso é indigno de um hom em e indigno de ti. Pensa só nisto: o que fez Abner por ti, e o que fiz eu, Joab, por ti? Pesa estas duas perguntas e vê para que lado se inclina a balança...
A sinceridade e a pureza da sua raiva com overam -m e, com o Joab nunca m e tinha com ovido. Peguei-lhe no braço e levei-o para fora da sala, para o terraço. A noite caía e as prim eiras estrelas e um a Lua recém -nascida apareciam sobre a coroa das m ontanhas de Judá de que ele falara. Por baixo, na cidade, zurravam j um entos, e as raparigas tiravam água dos poços da noite vizinha.
-j oab - disse eu, e im buí a m inha voz de toda aquela terna doçura com a qual costum ava cativar as donzelas de Belém -, Joab, se fui inj usto para contigo, perdoa-m e. Mesm o que não tenha sido inj usto para contigo, e tu, m esm o assim , acredites que o tenha sido, perdoa-m e. Estou consciente e prezo m uito a tua devoção para com igo, assim com o estou consciente e prezo os teus serviços m ais do que as palavras podem dizer. Tam bém eu am ava Asael. Tam bém eu chorei a sua perda, e ainda choro. Mas um rei não é apenas um hom em . Um rei não se pode perm itir sentir apenas o que um hom em sente. Chegaram até m im inform ações sobre o descontentam ento existente no Norte. Tu próprio m e censuraste por ter decidido esperar até que tais inform ações chegassem até m im , e defendias que, em vez disso, eu tivesse m archado para Norte, tivesse usurpado o trono e em purrado o infeliz Isboset para o exílio. Contudo, quando expliquei os m eus m otivos, tiveste a benevolência de concordar com eles. Bem , então - fiz um a pausa e coloquei-lhe o braço por cim a dos om bros -, quando aquelas inform ações chegaram até m im , vieram diretam ente de Abner, que insistiu em encontrar-se com igo. Sim , tens razão, achei prudente enviar-te para longe daqui naquilo que descreves com o um a m issão de sargento. Lam ento-o agora. Teria sido m elhor se te tivesse contado na altura o que te estou a contar agora. Mas... se o m eu encontro com Abner não tivesse corrido bem ... eu receava que, no teu j ustificado desej o de vingar Asael... acontecesse o que acabou por acontecer... É claro que, se as coisas corressem com o eu esperava, eu planeava contar-te assim que regressasses. Bem , tentei ser dem asiado inteligente, dem asiado cuidadoso, e a culpa é m inha. Lam ento, Joab, lam ento m esm o. .. E tom ei-o nos m eus braços e senti na m inha a sua face chorosa. Podeis estar surpreendidos, com o m uitos o fizeram na altura, porque não castiguei Joab pelo assassínio de Abner. Teria havido vantagens em fazê-lo. Nada m e teria ilibado m ais de suspeitas de cum plicidade aos olhos das tribos do Norte e dos m uitos parentes de Abner. Além disso, a lei exige que um assassino sej a condenado à m orte em bora eu adm ita que há diferentes interpretações quando se trata de um a questão de vingança.
No entanto, tudo o que fiz foi sugerir que ele se retirasse por alguns m eses para o refúgio tranqüilo da casa de seu pai em Belém . É certo que eu ficara profundam ente com ovido com o desabafo de Joab, que m e consciencializou de que os seus sentim entos eram m ais com plicados e adm iráveis do que eu supunha; o seu caráter era m ais forte, m ais com plexo e m ais generoso.
Mas sem pre fui um hom em fácil de com over nesse sentido, sendo, contudo, capaz de tom ar atitudes frias na m anhã seguinte, atitudes que podem contradizer o teor da em oção. É, penso eu, aquilo a que tenho ouvido cham ar « o tem peram ento artístico» .
Havia outro m otivo, que sinto relutância em confessar. Ao andar ocupado com questões de diplom acia e assuntos de estado, eu negligenciara a gestão do exército no dia-a-dia. Deixara isso a cargo de Joab e entregara-lhe o recrutam ento. Não podia, por isso, ter a certeza, se, num m om ento de crise, as m inhas tropas m e obedeceriam a m im , ou ao seu com andante direto -Joab.
Dei a Abner um funeral m agnificente. A banda da m inha guarda real tocou um a lam entação que eu próprio com pus. Eu conduzi a procissão, vestindo apenas um sim ples m anto de luto, descalço e com cinzas na cabeça. Junto à sepultura, ergui a voz e cantei:
Será que Abner tinha de m orrer com o m orrem os insensatos?
As tuas m ãos não estavam algem adas, nem os teus pés presos a correntes.
Caíste com o se cai nas m ãos de crim inosos.
Em seguida decretei um dia de j ej um em toda a cidade, e quando o m eu arauto veio insistir com igo para que quebrasse o j ej um (com o lhe fora ordenado, dirigindo-se ao local onde eu estava sentado na praça pública), eu falei e disse:
- Sabes que caiu hoj e um grande príncipe em Israel, e o rei há-de com er? É m ais fácil que os abutres venham buscar os ossos de Abner do que passar essa com ida entre os m eus lábios neste triste dia. Abençoado sej a o Senhor que ordena o luto por um príncipe com o Abner, um hom em tão valoroso, um conselheiro tão sensato e prudente nas suas ações. Veio aqui com o pacificador, falám os num am biente de am izade, e agora é-nos levado. Abençoado sej a o Senhor Deus dos Exércitos.
E assim m anifestei o m eu pesar, e as m inhas palavras espalharam -se a todas as tribos do Norte e à fam ília de Abner, em particular; e vim a saber que os seus corações se acalentaram e se abriram para m im por causa do m eu desgosto e do respeito que eu dem onstrara para com o seu chefe caído.
Mas não fiz qualquer m enção do seu assassino, pois não via razão para levantar um a anim osidade m ais forte e m ais profunda. Se, em qualquer altura, os sacerdotes que registram estes assuntos m e atribuírem pragas dirigidas a Joab e aos filhos de Seruia, bem , então os escribas m entem .
No entanto, conservei a m em ória do ato de Joab bem viva no m eu coração.
A m inha correspondência com o sábio Aitofel assegurava-m e que a opinião que circulava entre os grandes hom ens do Norte estava, a cada dia que passava, a m udar a m eu favor, enquanto o infeliz Isboset, consciente de que estava a perder estim a, e dom inado por receios indignos de um rei, m ergulhava cada vez m ais no hábito desprezível da em briaguez.
Ora acontecera que, no nosso últim o encontro, eu inquirira a Abner se vivia alguém da fam ília de Jónatas. Havia apenas um a pessoa: o rapaz coxo, Mefiboset, que a am a, aterrorizada, deixara cair num a ocasião, e que vivia agora na corte do tio, o rei, com o obj eto de ridicularizarão e desdém .
Mandei dizer, através de Aitofel, que o rapaz seria bem -vindo em Hebron. Fi-lo não só porque m e agradava saldar desta form a, por m ais inadequada que fosse, a dívida que eu tinha para com o m eu querido Jónatas, m as tam bém porque sabia que, quando se soubesse que eu dem onstrara tal m ercê para com o infeliz descendente do heróico filho de Saul, eu ganharia boa respeitabilidade no seio da tribo de Benj am im . E assim , Aitofel garantiu a fuga do rapaz da casa de Isboset, e m andou que o trouxessem para Hebron de noite, sob a responsabilidade de guardas de confiança.
- O teu pai - disse-lhe eu - foi o m elhor am igo e o m ais verdadeiro que eu tive até hoj e, e por isso, naqueles dias que m e faltam viver, serás bem -vindo aqui. Estarás em segurança e serás um convidado de honra na casa de David.
Afaguei-lhe o cabelo, beij ei-o nos lábios e coloquei-o no chão. Ele agarrou-m e a m ão e cobriu-a de beij os. Todos aplaudiram em redor e o rapaz corou.
- Nada receies - disse eu -, e em breve aprenderás a deixar de ser tím ido.
Apenas um a pessoa não ficou encantada pela recepção que dei ao rapaz: Mical, sua tia.
- Porquê, David? - disse ela. - Porque m e hum ilhas? Afirm as que m e am as m ais do que a qualquer outra m ulher, que eu sou a pérola ou o rubi entre as tuas esposas, e, no entanto, expões-m e a este insulto público. Sabes que, em bora eu não tenha culpa, m as por vontade do Senhor e talvez devido à form a com o o m eu pai m e tratava, não posso ter filhos. Naturalm ente que as outras m ulheres da tua casa, sendo algum as delas as m ais m iseráveis e com uns criaturas, deixam escapar com entários sobre isso, em bora não o façam , é claro, na m inha presença. Mas agora trouxeste para aqui este deficiente, sabendo elas que é filho do m eu irm ão, e assim elas podem apontar para ele e dizer: « Se ela tivesse tido um filho, seria um m onstro com o este.» Por acaso pensaste no que estás a fazer, David? Será que o desej o de popularidade é tudo o que te dom ina? Algum a vez pensas nos m eus sentim entos?
- Mas o rapaz não é deficiente de nascença. A am a deixou-o cair no chão quando ele era bebe. É por isso que ele é assim . E é filho de Jónatas.
- Não m e fales de Jónatas, pois roubaste-m o.
- O que queres dizer com isso?
- Realm ente, David, por vezes penso que ainda és o rapaz pastor que eu conheci a tresandar a ovelhas e cabras.
Felizm ente, as honras que fiz a Abner, o relato da m inha raiva por Joab e da form a com o recebi o filho de Jónatas alcançaram o efeito que eu procurava. Quase todos os dias eu recebia em issários vindos do Norte e que insistiam para que eu reunisse as m inhas forças e afastasse o intolerável Isboset. No entanto, eu dem orava, à espera que o fruto m aduro caísse da árvore. À noite, costum ava isolar-m e sob os céus, no terraço do m eu pequeno palácio, e estendia o olhar para o Norte, quando a Lua se levantava por cim a das m ontanhas e o silêncio
da noite era quebrado pelo ladrar dos cães e os ganidos dos chacais do deserto. E orava ao Senhor para que m e enviasse um sinal.
Mas não chegava sinal nenhum , nenhum que eu pudesse reconhecer com segurança. Por isso, eu esperava.
Entretanto, todos os relatos que eu recebia indicavam que o apoio
estava a fugir a Isboset com o um cálice de água desaparece nas areias
do deserto.
* O fim dele foi súbito e brutal. Dois hom ens rebeldes, Recab e Baa-
na, filhos de Rim on de Beerot, entraram no palácio do rei sob qualquer pretexto, dirigiram -se ao seu quarto e encontraram -no deitado, em briagado do deboche da noite anterior, em bora fosse j á m eio-dia. Feriram -no com as suas adagas, cortaram -lhe a cabeça e fugiram do palácio, perante a indolência ou indiferença dos guardas de serviço. Viaj aram depois para o Sul e apresentaram -se-m e em Hebron, produzindo a cabeça de Isboset, banhada em sangue, do saco em que a traziam , e m ostraram -m a, sorridentes.
E um deles disse:
- David, observa a cabeça do teu inim igo, o filho de Saul que te sentenciou à m orte. Israel é teu, m eu senhor.
E o outro acrescentou:
- Foi a vontade do Senhor. Fizem os o que fizem os a m andado do Senhor dos Exércitos, que, por interm édio de Sam uel, te ungiu com óleo.
Sorriam quando se aj oelharam perante m im , esperando que eu ficasse contente, e que os recom pensasse. Mas eu recuei, horrorizado, afastando-m e destes hom ens sanguinolentos.
Agora deixai-m e ser honesto. Porque não? Sou dem asiado velho para m entir.
É claro que fiquei contente por Isboset ter sido afastado, pois sabia que isso m e assegurava que os chefes de todas as tribos de Israel m e cham ariam agora para ser rei, e que eu assum iria o trono sem um a guerra que faria com que os israelitas se m atassem uns aos outros. Assim , no fundo do m eu coração, eu estava contente. E sabia que este era, de fato, o sinal que eu pedira ao Senhor.
Contudo, eu sentia-m e igualm ente m iserável ao ver a expressão dos assassinos enquanto colocavam a cabeça de Isboset a m eus pés. E sabia que recom pensar regicidas seria pôr em perigo a m inha própria posição no futuro. Nenhum estado pode estar seguro, se nele a vida do rei não for considerada sacrossanta.
Por isso disse-lhes, falando em voz alta para que todos os que se tinham reunido em redor pudessem ouvir:
- Quando, após a batalha do m onte Guilboa, um louco m e trouxe a cabeça de Saul pensando assim agradar-m e, com o é que eu o recom pensei? Agora trazeis-m e a cabeça de seu filho, que tam bém era rei de Israel e esperais que vos recom pense por terdes assassinado um hom em que estava deitado no seu próprio leito. Tereis a m esm a recom pensa que dei ao am alecita que m e trouxe de presente a cabeça de Saul.
Cham ei a m inha guarda, m andei prender os hom ens e j ulguei-os, com o m ereciam . Os guardas derrubaram -nos à m inha frente, cortaram -lhes as m ãos e os pés e penduraram -nos com o aviso para todos em Hebron.
Em seguida m andei sepultar a cabeça de Isboset no túm ulo que construíra para Abner. Se Abner não tivesse sido assassinado, ter-nos-íam os livrado de Isboset de um a m aneira m ais decente. Teria sido suficiente tirar-lhe os olhos e obrigá-lo depois a viver ao cuidado dos sacerdotes do Altíssim o com o assassínio de Isboset, a m inha sucessão ao trono estava segura, pois o castigo que eu atribuíra aos seus assassinos convencera todos aqueles que ainda eram leais à casa de Saul de que eu não tivera nada a ver com a sua m orte, com o era, de fato, o caso.
Poucos ousavam observar que os filhos de Rim on tinham servido
antes nas forças especiais que Joab recrutara e treinara com o guardas da fronteira.
E assim , a prom essa que o Senhor m e fizera pela boca de Sam uel foi cum prida, e, aos trinta anos de idade, tornei-m e rei de Todo o Israel, para regozij o geral.
Eu estava agora determ inado a em barcar num a em presa que há anos tinha na cabeça, desde aquele prim eiro final de tarde em que, viaj ando com Joab para o palácio de Saul para curar o rei da sua loucura, víram os as luzes de Jerusalém a cintilarem do outro lado do vale. Nessa altura, lem brem o-nos, eu perguntara a Joab por que razão é que sofríam os o fato de os j ebuseus controlarem um a cidade que, parecia, fora concebida pela natureza e pelo Senhor para ser o lugar principal de Israel. Essa idéia ocorrera-m e m uitas vezes ao longo dos anos de luta, e agora, quando m e perguntava onde deveria estabelecer a m inha residência principal, virei de novo o rosto para Jerusalém .
Certam ente que teria pena de deixar Hebron, onde vivera feliz e rodeado de honrarias durante sete anos. Mas Hebron não era apenas o baluarte da m inha própria tribo de Judá, o que por si só a tornava inadequada com o m inha residência principal, se eu queria m anter a lealdade, tão recentem ente conquistada, das tribos do Norte; m as, ficando tam bém situada no extrem o Sul da terra de Israel, a sua posição era m á, se eu queria exercer o governo efetivo de toda a terra, especialm ente porque as com unicações entre o Norte e o Sul eram interrom pidas pela posse de Jerusalém e dos arredores pelos j ebuseus.
Saul residira a m aior parte do tem po em Guibeá, onde Isboset fora assassinado, m as Guibeá era a cidade da tribo de Benj am im , e eu receava que, se escolhesse Guibeá, Judá ficasse ressentida.
Silo fora durante m uito tem po o local santo de Israel. Fora lá que os sacerdotes tinham guardado a Arca da Aliança até ao m om ento vergonhoso em que foi levada para Gat pelos filisteus. Fora em Silo que Sam uel servira Eli, o velho sum o sacerdote, e ainda era considerado Um local santo. Mas desde que fora saqueada pelos filisteus, as suas m uralhas nunca tinham sido com pletam ente reparadas; e, de qualquer m aneira, em bora eu tenha sem pre achado prudente m ostrar reverência para com os sacerdotes, eu não queria fazer nada que pudesse recordar aos hom ens os dias em que Israel era governado pelos Juizes e pelo sum o sacerdote e não por um rei.
Além disso, Silo situava-se na terra de Efraim , e, até certo ponto, a m esm a obj eção em relação a Silo aplicava-se igualm ente a Hebron e Guibeá. Eu estava determ inado a ser rei de Todo o Israel, a unir as doze tribos num a poderosa e coesa nação-estado, e apercebia-m e de que quanto m ais eu fosse associado a qualquer um a das tribos, tanto m ais difícil seria realizar essa tarefa.