Rei Davi
Livro Um
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Porque tenho frio e trem o durante a noite, buscaram -m e esta donzela, Abisag, a sunam ita, para que partilhe o m eu leito e m e traga calor. Abisag é um a donzela am ável e bonita, nédia e de pele m acia com o as azeitonas novas. Bem preparada tam bém no uso dos lábios de cerej a e das m ãos quentes. Não evidencia a m ais ínfim a repugnância quando pressiona a sua j uventude contra o m eu corpo frio e seco com o o couro (quase o corpo de um cadáver). Trabalha em silêncio e com ternura, com um a arte que é ou natural ou resultado de um a boa educação; m as eu não consigo corresponder-lhe.
A velhice é um naufrágio. Por vezes, a m eio da noite, negado o sono, ouço a sua respiração e dou com igo a chorar.
Ela hesita em falar. Não sei se tem a cabeça cheia de perguntas que não ousa fazer-m e. Estou im pressionado com o seu autodom ínio, se eu fosse um hom em sentim ental, leria am or na sua ternura. Mas é claro que não há am or, e nem poderia haver. Quando eu era j ovem , a sim ples idéia de um a donzela ligada assim à coisa flácida e seca em que m e tornei, ter-m e-ia enoj ado. Mesm o agora, sinto pena dela, pelo m enos o suficiente para a guardar do m edo que m e consom e o espírito. Coloco a m ão entre as suas coxas e sonho acordado com o passado.
É im possível que o m eu filho Salom ão, que todas as m anhãs entra no m eu quarto na esperança de entretanto se ter tornado rei, m e com preenda, pois foi educado em palácios, com toda a delicadeza, sem que a sua pele algum a vez tenha sido exposta ao rigor do clim a, ao passo que eu fui criado na adversidade, entre as m ontanhas. Guardo-lhe rancor por esta diferença, e não gosto dele por isso. De todos os m eus filhos, é dele que m enos gosto, e, no entanto, ele será o m eu sucessor, porque estou velho e não posso opor-m e a sua m ãe, Betsabé, a quem outrora am ei m ais do que a qualquer outra das m inhas esposas, exceto Mical, filha de Saul, que se virou contra m im , tal com o eu agora m e virei contra Betsabé, em bora estej a dem asiado cansado e débil para contrariar a sua vontade.
Salom ão não sabe o que é ter frio, estar exposto ao vento e à chuva e a neve ouvir os lobos a uivarem nas franj as da noite. Nunca conheceu a solidão, nem se sentiu um m ero grão de poeira na im ensidão do deserto. Nunca ouviu no vento as palavras do Senhor. Com o pode ele ser rei, um rei com o eu tenho sido?
Eu era o m ais j ovem e o m ais bem parecido dos filhos de m eu pai, o filho da sua velhice e o seu preferido. Os m eus irm ãos odiavam -m e, todos exceto Cham á, tal com o os irm ãos de José o odiaram ao vê-lo vestido com um a túnica com prida. Quanto a m im , invej ava-os porque tinham escapado a pastoricia e ido para o exército para se j untarem ao grande rei Saul. Eu inventava histórias na noite, e agora não sei quais eram verdadeiras e quais eram im aginárias. Será que m atei realm ente um leão e um lobo, com o m e vangloriava de ter feito? Talvez Mas sou um poeta, e os poetas são m entirosos que glorificam o Todo-Poderoso pela fertilidade da Sua criação.
Mas Sam uel não foi im aginação m inha.
Eu conhecia-o apenas com o sum o sacerdote, o servo do Senhor e um hom em cuj a ira era conhecida em toda a tribo de Judá
Quando m andou inform ar o m eu pai, Jessé, com o adm inistrador de Belém , de que tencionava ficar aloj ado em nossa casa quando viesse oferecer um sacrifício ao Senhor na nossa pequena cidade, fiquei contente por ter um a desculpa para m e escapar para as m ontanhas para tom ar conta das ovelhas. Não queria saber de sacerdotes, e um a vez que estava na altura dos partos, tinha de velar pelo bem -estar do m eu rebanho.
Os m eus irm ãos, no entanto, estavam ansiosos por verem o sum o sacerdote, e lutavam entre si para decidirem qual deles receberia a sua benção.
- E porque deveria ele querer abençoar um de vós? - perguntei, e recebi logo o troco.
- Esses são assuntos que transcendem a com preensão de um pastor - responderam -m e eles.
Era um a m anhã de Prim avera da m áxim a beleza. Cerca do m eio-dia, reuni as ovelhas à som bra de um olival, e deitei-m e j unto delas, tranqüilo, com o braço em volta do pescoço forte de um dos cães. Sol batia, quente, nas m inhas pernas, os cordeirinhos brincavam e, de vez em quando, ouvia-se o balir de um a ovelha para lem brar a um deles de que se tinha afastado dem asiado. Eu bebia vinho m isturado com água do m eu odre, e com ia pão com queij o, que partilhava com os cães.
A luz do Sol trem eluzia entre os ram os de oliveira, e o m undo era bom e estava em paz. Eu dava voltas aos versos de um poem a que estava a fazer para exaltar a beleza da terra e a m agnificência da criação do Senhor. Toda a vida tenho sido m uito feliz na solidão, sob os céus, pois é só então que tudo está sossegado e que o m ovim ento do tem po parece parado.
Murm urei o m eu nom e: « David, David, David» , com ternura, e pareceu-m e que se espalhava pelas encostas das m ontanhas e que enchia o m undo. « Do Senhor é a terra e a sua plenitude.» E foi-m e concedido gozá-la plenam ente.
Nesse m om ento, soube que não m e estava destinado passar os dias a cuidar de rebanhos, nem a contar m olhos no tem po das ceifas, e que m e esperava um destino m ais nobre. E, porque tinha essa certeza, não sentia im paciência m as prazer no desem penho da m inha hum ilde tarefa, assim com o nas oportunidades para pensar e sonhar que a solidão m e oferecia. Sem pre desconfiei e desprezei o hom em que não suporta estar sozinho.
Som os criaturas de tão estranhas sugestões que este contentam ento se coadunava facilm ente com a invej a que eu sentia pelo fato de os m eus irm ãos se encontrarem a servir no exército.
Até nessas alturas eu sentia o m eu poder, e o vento nas folhas das oliveiras trazia-m e a prom essa de glória.
O som de passos que trepavam a encosta interrom peu-m e o sonho. O pêlo do cão endureceu sob a m inha m ão, e o anim al rosnou um aviso em surdina. Fiz pressão sobre ele para evitar um latido, e levantei-m e, preparado para qualquer encontro.
Era o m eu irm ão Cham a, cheio de calor e a arfar, e, por uns m om entos, incapaz de falar. Passei-lhe o m eu odre e ele refrescou-se e sorriu.
- Hum - disse ele, - passam -se coisas estranhas lá em baixo, não há dúvida.
Voltou a beber e devolveu-m e o odre.
- Mandaram -m e vir buscar-te - continuou ele.
- Isso não faz sentido - disse eu. - Não posso deixar o rebanho. O pai sabe isso.
- Não faz m al - disse ele -, se olhares lá para baixo, verás o velho Gedeão a subir para te substituir.
- Mas o que se passa?
- Bem , é um m istério - disse ele. - Sam uel chegou.
- Com o é ele?
- Aquilo que se esperava. Alarm ante. O conselho de anciãos da cidade estava nervoso. « É de paz a tua vinda?» , perguntaram eles. Tinham aspecto de quem lhe teria barrado a entrada se tivessem tido coragem .
- Mas porquê? Ele é o sum o sacerdote. Deviam ter-se sentido honrados.
- És um inocente, m eu j ovem irm ão David, perdido nos teus sonhos, na tua poesia e nos teus rebanhos, não sabes m esm o nada, pois não? Oxalá Gedeão não se dem ore.
- Ele é velho. É um grande esforço para ele, aquela m ontanha. De qualquer m aneira, não vej o... m as continua, conta-m e m ais coisas.
- Eles estavam nervosos e assustados, m as não puderam recusar deixá-lo entrar, vendo que ele é, com o dizes, o sum o sacerdote, para oferecer o seu sacrifício, e eu não sei por que teria ele de vir para Belém para fazer isso, m as, tam bém , não com preendo os sacerdotes, e depois os anciãos dispersaram , sem grande cerim ônia, devo dizer, e ele entrou em nossa casa. E deves ter reparado, m eu irm ãozinho, o estado em que as m ulheres estavam , e ainda ficaram piores quando Sam uel recusou com er e disse que tinha assuntos para tratar prim eiro. Que assuntos, bem podes perguntar, pois foi o que todos fizem os. Em seguida fez o pai passar conosco em parada em frente dele, um por um , e não m e im porto de te contar, David, que foi enervante a form a com o ele m e olhou, com o se visse dentro do m eu coração, da m inha m ente e da m inha alm a. E depois apalpou-m e com o se eu fosse um potro que ele quisesse com prar, resm ungou com voz rouca, e voltou a olhar-m e nos olhos, e abanou a cabeça e afastou-m e para o lado. Mas logo a seguir voltou a cham ar-m e, com o se estivesse a pensar fazer um a oferta, com o se faz no m ercado, colocou a m ão debaixo do m eu queixo, obrigando-m e a olhá-lo nos olhos. Digo-te, não gostei nada, senti o suor a correr-m e pela barriga das pernas. Mas ele suspirou e voltou a resm ungar, e disse ao pai: « Estão aqui todos os teus filhos? Não tens outro?» Então o pai disse que havia apenas o m ais novo, que estava a cuidar das ovelhas. « A cuidar das ovelhas» , repeliu Sam uel, num tom de voz com o se estivesse a m agicar qualquer coisa, ou talvez m ais desconfiado, « a cuidar das ovelhas? Manda buscá-lo» . Há algo de terrível nele, sabes, um ar de autoridade ou de poder, em bora não passe de um velho, com o se poderia pensar. « Manda buscá-lo im ediatam ente, pois não com erem os nem beberem os enquanto ele não tiver chegado.» As m ulheres com eçaram a m urm urar e a lam entar-se, pensando que o j antar estava estragado, e ele deve tê-las ouvido, pois olhou-as com ar carrancudo e disse: « Essa é a vontade do Senhor.» Por isso aqui estou eu, e aqui está finalm ente Gedeão para te substituir, e é m elhor que nos apressem os, pois não posso responder pelo seu m au hum or nem pelo da nossa m ãe, se nos dem orarm os.
E assim desci a encosta e entrei em casa. Por um m om ento, tendo acabado de sair do Sol, eu não via nada e senti-m e tonto, pois viera a correr, e o m undo girava em m eu redor. Mas um a m ão am parou-m e e segurou-m e, e a escuridão fez-se luz, e eu vi Sam uel e caí de j oelhos à sua frente.
Ele colocou a m ão sob o m eu queixo, pele áspera contra pele m acia, e puxou-o para cim a de form a a que os m eus olhos fossem obrigados a encontrar os dele. O cheiro da pele idosa era fétido e azedo com o o de um bode. Ele segurava-m e e ordenou aos outros que saíssem .
Estávam os a sós, e o seu silêncio, o seu cheiro, e um a estranha em anação de poder oprim iam -m e. Um j um ento zurrou no pátio, e Sam uel continuava sem falar.
Tirou das pregas do m anto um com o de óleo e derram ou um a pequena quantidade sobre a m inha cabeça, e esfregou o óleo no m eu crânio com o polegar. Murm urava palavras que eu não com preendia. Eram , sei-o agora, na língua antiga, que apenas os sacerdotes falavam , em bora m uitos hoj e não com preendam , eles próprios, o significado dos encantam entos antigos.
Puxou-m e para cim a e beij ou-m e em am bas as faces e na boca, apertando-m e num forte abraço, ao m esm o tem po que as suas unhas se cravavam na m inha pele, por cim a das costelas.
- Meu filho - disse ele -, ungi-te servo do Senhor dos Exércitos e instrum ento da sua vingança.
Em seguida cham ou o m eu pai e disse-lhe:
- Abençoado és entre os pais, pois o teu filho David é o escolhido do Senhor.
E quando entram os para com er, ele colocou-m e à sua direita, no lugar de honra, e encheu-m e de vinhos e da carne m ais saborosa.
- Vej o - disse ele - que o j ovem David é tão virtuoso quanto é belo, e por isso encontrou favor j unto do Senhor e de m im , Seu hum ilde m inistro.
Eu pensei, subitam ente horrorizado: « ele não m e selecionou para ser sacerdote, pois não?» Mas esse pensam ento passou, pois nesse exato m om ento tive consciência de que só os descendentes da tribo de Levi podiam ser sacerdotes-
Sam uel bebeu vinho e levou a m esm a taça aos m eus lábios, e o seu olhar pousou nas m inhas pernas, nuas sob a túnica curta. Passou a m ão pelas m inhas faces e eu senti-m e corar ao ver os m eus irm ãos Eliab e Abinaclab acotovelarem -se e soltarem um riso abafado ao presenciarem o com portam ento lânguido do hom em idoso para com igo.
Em seguida, o m eu pai, desculpando-se ao ver Sam uel afetado pelo vinho, cham ou-m e à parte e disse-m e que regressasse para j unto do m eu rebanho.
- Há coisas que aconteceram hoj e aqui que devem perm anecer secretas - disse ele.
Cham a escapou-se de casa com igo, e com eçam os a subir a m ontanha à m edida que a luz do dia desaparecia. Contei-lhe tudo o que se passara, e ele ficou em silêncio durante m uito tem po. Depois estendeu a m ão, tocou-m e a cabeça, correu os dedos pelo m eu cabelo e levou-os aos lábios, cheirando-os em seguida.
- O óleo santo do Senhor. David, tenho m edo por ti.
- Cham a - disse eu -, não te com preendo. Não com preendo nada do que aconteceu hoj e. Talvez não ouse com preender.
- Não há dúvida - disse ele. - Só pode querer dizer um a coisa. Vieram -m e à cabeça os risinhos abafados de Eliab e Abinadab. Tentei um gracej o.
- Os nossos irm ãos pareciam saber o que estava a acontecer.
- Eles são loucos. David - disse ele -, receio por ti. És o Ungido de Israel, ungido com óleo, tal com o o rei Saul foi ungido.
O Sol escorregava por detrás das m ontanhas.
- Saul é o rei - disse eu -, e ele tem filhos.
- É isso que faz com que eu tenha m edo - disse ele. Mandám os Gedeão em bora e contám os as ovelhas. Em seguida
Cham a adorm eceu. Mas eu estava deitado acordado, sob as estrelas, e, em bora trem esse, havia um a m úsica estranha no m eu coração. Passei os dedos pelo cabelo, e eles ainda cheiravam ao óleo santo de Israel.
A nossa história é escrita pelos sacerdotes, razão pela qual m e tenho dado ao trabalho de nunca os ofender. Sam uel era o sum o sacerdote e é, por isso, o seu herói, ou será. Mas foi m ais com plicado do que isso. A escolha do herói depende da pessoa que escolhe. Aquela visita de Sam uel determ inou a m inha vida. Devo o que sou ao fato de ter encontrado favor j unto dele, em bora por pouco não m e tivesse trazido a m orte. Não leva a lado nenhum especular sobre o que teria sido feito de m im se o Senhor não tivesse lançado o Seu olhar sobre m im , m as agora, quando tão pouca coisa im porta, vou contar com o tudo se passou.
Com ecem os por Sam uel, o m enino do Tem plo de Silo, oferecido pela m ãe para servir o Senhor e Eli, o sum o sacerdote. Depressa se tornou o favorito de Eli entre os rapazes do tem plo, e confortava-o, dizem , com o Abisag m e conforta. Mas esse pode ser apenas um rum or m alicioso, do tipo que os sacerdotes atraem devido ao seu gosto pelo secretism o, e eu não sei se o j ovem Sam uel era o catam ito de Eli ou não. Os nossos sacerdotes não estão proibidos de ter m ulheres, com o acontece com os sacerdotes de algum as nações, m as Eli, diz-se, não se ligou a m ulher algum a após o nascim ento dos filhos Hofni e Fineias.
Certam ente que tam bém ele precisava de conforto, pois Hofni e Fineias pecavam contra o Senhor, e deitavam -se com prostitutas que freqüentavam o recinto do Tem plo, e com etiam abom inações variadas, sobej am ente condenadas.
Sej a com o for, o m ais preocupante era o seu fracasso no desem penho do prim eiro dever daqueles que governam um estado: m antê-lo em segurança, tal com o ao seu povo, contra os inim igos. Assim , no tem po de Eli, os filisteus andavam livrem ente por todo o território de Israel, e levaram consigo a Arca da Aliança, para vergonha de Eli e de todos os Filhos de Israel.
Será difícil para qualquer pessoa agora com preender até que ponto o nom e dos filisteus espalhou o terror em Israel, de tal form a eu os dom inei e subj uguei. Pela m inha parte, em bora tenha m orto tantos, nunca partilhei o preconceito com um contra este povo. Pelo contrário, vi que tínham os m uita coisa a aprender com eles. Eram exím ios nas artes em que éram os ignorantes, e eram incom paravelm ente m ais civilizados do que as rudes tribos de Israel da m inha j uventude. Contudo, um a vez que lhes faltava um deus ou deuses capazes de os proteger, recolheram um a colheita am arga às m inhas m ãos.
Sam ud agradou a Eli, não im porta com o, e sucedeu-lhe com o Juiz de Israel. Não contarei em porm enor os seus anos de governação; esses podem ser lidos, favoravelm ente apresentados, nos escritos dos sacerdotes, e devem , por isso, ser lidos com cuidado. Os filhos de Sam uel eram tão incom petentes e desprovidos de vergonha com o os de Eli tinham sido. Os sacerdotes reclam am grande sabedoria para si próprios, m as é espantoso quão raram ente os seus filhos trilham o cam inho do Senhor.
Assim , um a delegação dos chefes de cada tribo foi ter com Sam uel. Queixaram -se do fracasso dos filhos dele na defesa de Israel, e exigiram o fim do dom ínio do sacerdote. « Israel deve ter um rei, com o as outras nações» , disseram .
Este pedido sensato enfureceu Sam uel. Disse-lhes que um rei seria um tirano, e am eaçou com todo o tipo de fatalidades se as pessoas fossem tão im prudentes ao ponto de preferirem um rei ao governo santo de sacerdotes. Haveria propriedades confiscadas, e im postos, e sedução de filhas.
A sua eloqüência não os convenceu. A experiência, prim eiro dos filhos de Eli, e, em seguida, dos de Sam uel, fê-los pensar que nenhum rei poderia ser pior.
Assim , Sam uel cedeu, sabendo que, se não o fizesse, eles ignora-lo-iam e escolheriam eles próprios um rei. « Era m elhor» , pensou ele, « escolher um que ele pudesse controlar» .
Dem orou o m áxim o que pôde. Este candidato não era adequado, aquele fora rej eitado pelo Senhor, e assim por diante. Por fim selecionou Saul, filho de Quis, da tribo de Benj am im .Tenho ouvido m uitas opiniões sobre os m otivos que o levaram a escolher Saul, m as, tendo tom ado a sua decisão, ele insistiu em afirm ar que o Senhor o guiara. Mais tarde arrepender-se-ia de o ter dito, m as na altura, pareceu-lhe sensato. O Senhor falava através de Sam uel; Sam uel nom eara Saul. Por isso, era evidente, o rei estava subordinado ao sum o sacerdote.
Aquele é o tipo de argum ento que agrada aos sacerdotes, m as, é claro, sej am quais forem os seus aspectos positivos, pode levar a um a
conclusão que é ridícula e im praticável.
Saul, na sua j uventude, era m uito belo, alto e de estatura nobre, de cabelo preto com prido e encaracolado e tristes olhos castanhos. Falava
em voz baixa e os seus lábios eram verm elhos com o cerej as. Sam uel
ungiu-o com óleo, beij ou-o e disse-lhe que o Senhor fizera dele chefe
do Seu povo de Israel.
- És a Espada do Senhor, a espada de Israel, tal com o eu sou o seu Juiz e intérprete da Sua vontade.
O pobre Saul ficou horrorizado. Viera ter com Sam uel apenas para procurar a sua aj uda para recuperar alguns j um entos que eram propriedade do pai e que se tinham perdido ou tinham sido roubados. A últim a coisa que queria era ser feito rei.
- A tribo de Benj am im - protestou ele - é a m ais pequena das tribos, som os pessoas hum ildes das colinas, e o m eu pai nem sequer é um dos chefes da tribo.
Sam uel sorriu. E que tem isso, dizia o seu sorriso, quando eu, Sam uel, o instrum ento do Senhor, te nom eei rei?
- É a vontade do Senhor - disse ele, e, assim , Saul não teve alternativa senão fazer o que lhe pediam . Não se apercebeu de que a insignificância da sua fam ília e da sua tribo era um a das razões para a escolha.
Passados anos, o seu filho, o m eu querido am igo Jónatas, de quem eu soube da consternação de Saul, disse-m e que a m ãe de Saul chorara quando soube que este fora nom eado rei.
- Nenhum bem daí virá - disse ela; um a profecia que se gravou na m ente de Jónatas e que o fez acreditar que estava destinado que ele próprio m orreria j ovem .
Pouco depois, no entanto, a idéia de ser rei entusiasm ou Saul. De qualquer m aneira, após ter sido ungido, não se poderia saber o que Sam uel, enfurecido, faria caso Saul recusasse a honra.
Contudo, disse Jónatas, Saul, após a sua elevação, andou m uito tem po infeliz. Não sabia o que se esperava dele - nem , suponho eu, sabia - e tinha grande receio de Sam uel, que raram ente o deixava sozinho, ora a passar-lhe a m ão pela face e dizendo-lhe que era o favorito do Senhor, ora fixando-o com os seus olhos azuis m uito protuberantes e tratando-o com o um a criança ignorante e que não sabe o que faz.
Os problem as posteriores de Saul foram conseqüência desta prim eira incerteza. Faltava-lhe autoconfiança e passou de um extrem o ao outro. Apesar dos seus grandes talentos, nunca acreditou com pletam ente no seu direito a ser rei. Sabia que Sam uel se sentia ressentido com a necessidade daquela nom eação, m esm o enquanto o tratava com o seu criado ou com o um brinquedo.
No entanto, surgiu um a coisa com que Sam uel não contava. Saul revelou-se um chefe de hom ens natural e um general com raro olho para o país e um a boa com preensão dos princípios da guerra. Gostaria de afirm ar aqui que, em bora o m eu próprio renom e m ilitar houvesse de ultrapassar largam ente o de Saul, foi com ele que aprendi grande parte da m inha arte. Nos seus prim eiros tem pos de rei, antes de se lhe ter nublado a m ente e de o j uízo se lhe ter enfraquecido, ele era um m estre da arte da guerra. Isso confundia Sam uel, e irritava-o, por m ais satisfatórios que os resultados pudessem ser para Israel, porque via que Saul escapava à sua tutela. A verdade é que o velho sacerdote estava consum ido pela invej a.
Isto depressa se tornou evidente da pior m aneira possível. Em guerra contra os filisteus, Saul conduziu o seu exército até um desfiladeiro onde seriam obrigados a lutar em circunstâncias desfavoráveis. Saul então m andou buscar Sam uel para que oferecesse sacrifícios ao Senhor. Sam uel não deu resposta. Saul dem orava-se. O exército estava im paciente. Alguns diziam que o Senhor não favorecia a em presa; outros m anifestaram as suas dúvidas escapando-se para casa. Saul m andou novam ente buscar Sam uel; o hom em idoso não respondeu novam ente. Assim , perdendo a paciência, e receando o efeito que um a m aior dem ora teria, Saul conduziu ousadam ente o serviço e foi ele próprio quem ofereceu os sacrifícios.
Mal o fez, assim um toque de trom betas anunciou a chegada de Sam uel. O hom em idoso olhou os anim ais m ortos, cuj o sangue ainda corria, e olhou Saul. O rei não se m ostrava hesitante. Isso enfureceu ainda m ais o sacerdote, pois via que Saul escapara à sua autoridade. Levantou as m ãos ao alto e am aldiçoou Saul pela sua im paciência e im piedade. O Senhor, disse ele, que tencionara estabelecer o reino de Saul sobre Israel para sem pre, deplorava agora a irreverência do rei, Ele retirara o Seu favor a Saul, tal com o um a nuvem pode obscurecer o Sol.
Saul tentou explicar. Não serviu de nada. O Senhor, disse-lhe Sam uel, prezava m ais a obediência do que a gordura de ovelhas.
No entanto, quando a batalha eclodiu, Saul saiu vitorioso. As pessoas com eçaram a perguntar-se se Sam uel sabia de fato interpretar corretam ente a vontade do Senhor.
Sem dúvida que estes m urm úrios chegaram aos ouvidos do idoso sacerdote, tendo contribuído para intensificar o ódio que sentia por Saul. Eu com preendo os seus sentim entos; há poucas coisas que sej am m ais am argas do que um am or que m orreu. Sam uel am ara Saul quando pensava que ele era seu instrum ento. Agora que Saul lhe tinha escapado, Sam uel censurava-se pelo am or que sentira.
É claro que tudo isto eu sei porque m e contaram , m as não tenho dúvidas, daquilo que conheço tanto de Saul com o de Sam uel, do ponto em que as coisas estavam entre eles. Saul ficou consternado Venerara Sam uel e regalava-se com o seu favor. O afastam ento daquele afligia-o. Acreditava que agira sensatam ente; no entanto, o receio do Senhor era forte nele, e nunca duvidou (com o outros faziam ) de que Sam uel era o porta-voz do Senhor. E, todavia, Saul não via com o poderia ter agido de outra form a.
O últim o encontro entre am bos foi ainda m ais am argo. Os am alecitas aliados aos quenitas, pressionavam fortem ente as fronteiras a sul de Israel. Apesar da sua experiência anterior, Saul voltou a procurar a bênção de Sam uel. Foi-lhe dada, m as com a seguinte recom endação: « Vai, pois, agora, fere Am alec - disse Sam uel -, e destrói com pletam ente tudo o que eles têm , todos os hom ens, m ulheres e crianças, todos os seus rebanhos e m anadas» .
Não é clara a form a com o Saul entendeu esta m ensagem . Na m inha opinião, pensou que se tratava de retórica típica de sacerdotes. De qualquer m aneira, quando ele alcançou a vitória, após ter tom ado a sensata precaução de subornar o rei dos quenitas para que desertassem o seu aliado, ficou satisfeito com um êxito esm agador, e não fez qualquer tentativa para seguir as instruções de Sam uel. que entendia, tal com o eu sem pre fiz, que as m edidas extrem as são adequadas apenas num caso extrem o. Ele desej ava, suponho eu, pacificar a fronteira sul, de form a a não levantar hostilidades eternas para com Israel. Sam uel chegou ao acam pam ento de Guilgal. Pediu a Saul que lhe explicasse os m ugidos dos bois e os balidos das ovelhas em torno do acam pam ento.
- Não são esses os rebanhos e as m anadas dos am alecitas, que o Senhor ordenou que fossem destruídos?
Saul adm itiu que eram , e, ainda a tentar apaziguar Sam uel, disse ao sacerdote que podia escolher os m elhores para sacrificar ao Senhor esta foi um a generosidade da sua parte, um a vez que a carne de anim ais oferecidos em sacrifício é pertença dos sacerdotes. Sam uel não se apaziguou. Saul desafiara-o dem asiadas vezes; ele colocara o seu próprio j ulgam ento acim a do do Senhor. Por isso o Senhor rej eitara Saul com o rei de Israel.
Saul deve ter suspirado ao ouvir isto, m as deu a im pressão (disseram -m e) de ter ficado im passível. Afinal, fosse qual fosse o prestígio de Sam uel, o de Saul era agora m aior, devido às suas vitórias. Ele sabia perfeitam ente que o exército o seguiria e lhe obedeceria, a ele, e não a Sam uel. Os soldados raram ente têm os sacerdotes em grande consideração, e, em bora o exército de Saul fosse constituído, na sua m aior parte, por recrutas e voluntários a m eio tem po, ele, por esta altura, j á form ara o núcleo de um a força profissional da Guarda Real, dedicada à sua própria pessoa. Fosse qual fosse o efeito m oral das m aldições de Sam uel, as conseqüências práticas im ediatas devem ter parecido insignificantes.
Mesm o assim , ele ainda pensava que era m elhor tentar restabelecer as boas relações com Sam uel. Por isso, quando o sacerdote ordenou que o rei dos am alecitas fosse trazido à sua presença, Saul m andou alguém à sua própria tenda, onde o aloj ara. Não sei o que ele esperava que acontecesse. Não sei o que eu, no seu lugar, teria esperado. Provavelm ente pensava que o sacerdote se enfureceria e o am aldiçoaria da form a que Saul tão bem conhecia e de que j á estava cansado. Sej a com o for, ele não podia ter esperado que Sam uel pegasse num a espada e cortasse o pescoço ao infeliz rei Agag. Saul, de um salto, interveio e tirou a espada da m ão do ancião. Disse-lhe que saísse do acam pam ento e que se desse por feliz por lhe ser perm itido fazê-lo. Quando, passados alguns dias, Agag sucum biu aos ferim entos que lhe foram infligidos, a rainha dos am alecitas exigiu que Sam uel fosse j ulgado por assassínio. Saul recusou. Teria sido tudo m uito em baraçoso. Em vez disso, deu à rainha um dos seus filhos - não m e lem bro agora qual - com o m arido.
Saul lidara com um a situação difícil com um a destreza que eu só posso adm irar. Sam uel, no entanto, ficou ainda m ais furioso ao saber que devia a vida ao bom senso e à dem ência de Saul.
Retirou-se para Ram a, a sua cidade, onde se sentia seguro. Contudo, porque form ara a intenção de destruir Saul, não acreditava, apesar das provas em contrário, que Saul não alim entasse a m esm a intenção em relação a ele. Assim , durante alguns m eses, não se atreveu a sair de Ram a. À m edida que cism ava no que acontecera, a sua am argura aum entava, pois via que não havia hipótese de suplantar Saul num futuro próxim o, tão grandes eram a fam a e a popularidade do rei.
Não tenho dúvidas de que Sam uel acreditava realm ente que o Senhor falava através dele, e de que sabia precisam ente o que ia na m ente do Senhor; por isso ficou confuso, durante m uito tem po, devido à sua im potência. Era intolerável saber que o Senhor rej eitara Saul, e, todavia, ver Saul ainda a prosperar.
Mas a vingança é um prato para ser servido frio. Sam uel disse a si próprio que poderia m orrer feliz, se soubesse que preparara o cam inho para a destruição de Saul.
Assim , consultou secretam ente sacerdotes em todo o país, e com ungou com o Senhor durante as horas de vigília. Então, tendo ponderado bem sobre o assunto, fez a viagem para a casa de m eu pai, em Belém , com os resultados que j á descrevi.
Passaram dois anos. Não havia notícias de Sam uel, no entanto eu sabia que Cham á tivera razão ao opinar sobre a im portância do que acontecera. Ao longo desse tem po, tive m uitos m om entos de im paciência, m as, na globalidade, eu estava contente por esperar. Eu estava num a idade em que o m om ento presente parece eterno. Deliciava-m e com a m inha vida diária. Havia guerras e rum ores de guerras, m as não nos incom odavam . Quando a erva crescia, eu levava os rebanhos para as pastagens de Verão, nas m ontanhas. A cada dia que passava, o m eu corpo e a m inha m ente tornavam -se m ais poderosos, e, ao final da tarde, eu cantava, acom panhado pela m inha harpa, a glória de Deus e as m aravilhas do m undo que m e rodeava. Os m eus irm ãos vinham e iam para as guerras, e traziam de lá histórias da grandeza de Saul e das façanhas do seu filho Jónatas, e de Abner, prim o de Saul e grande com andante, todos descendentes da sua própria tribo de Benj am im . Os m eus irm ãos pareciam ter esquecido a visita de Sam uel, em bora Eliab, quando estava irritado, m e cham asse « o rapaz do sacerdote» . Um a vez que eu sabia que isso era ridículo, perm anecia em silêncio. Só Cham a m e olhava de m aneira diferente.
Surgiram , então, outras histórias: que Saul fora atacado por um a estranha doença que lhe afetava a m ente e que o atirava para a m elancolia, que estava próxim a do desespero. Quando as pessoas falavam do estado do rei, lem bravam -se da form a com o Sam uel o am aldiçoara, e diziam que o Senhor retirara o Seu favor a Saul, e que esta era a causa da sua loucura. Em tais m om entos, Cham á colocava a m ão sobre m im para m e obrigar a perm anecer em silêncio. Mas eu não m e sentia tentado a falar. Se nós estivéssem os certos e se o Senhor, de fato, m e escolhera, por interm édio de Sam uel, o Senhor, na devida altura, providenciaria os m eios que tornariam a Sua escolha conhecida de Israel.
Eu prezava m uito a m inha castidade naqueles dias. Parecia-m e que um a virtude qualquer m e abandonaria, se eu cedesse às tentações que agora vej o que são norm ais. Muitas vezes, em noites escuras, eu lutava com o m eu desej o, im aginando a sua satisfação; m as nem sequer Raquel, a filha do chefe da nossa tribo, um a rapariga um ano m ais velha do que eu e que seguia os m eus m ovim entos pelo pátio com olhos de corça, escuros e adm iradores, m e conseguia tentar a quebrar o voto que eu fizera sob as estrelas. Em contrapartida, eu abria o m eu coração na poesia, e a beleza e a m elodia das m inhas canções traziam -m e celebridade e novos adm iradores.
Chegou, finalm ente, o dia em que m e foram novam ente cham ar às m ontanhas. Encontrei o m eu pai na com panhia de um j ovem m oreno, talvez uns sete anos m ais velho do que eu. Era alto e m agro, com um a barba preta e cheirosa e um nariz com prido e torcido à ponta.
- Ele tresanda a ovelhas e a cabras - disse o hom em .
O olho esquerdo do hom em não fitava a direito, e olhava-m e por cim a daquele nariz com prido.
- No entanto, isso pode rem ediar-se - disse ele -, quando chegarm os a Guibeá.
- David - disse o m eu pai -, este é Joab, filho de tua irm ã, que veio para te levar para j unto do rei. Saul está doente, tem a m ente perturbada, e os físicos recom endaram que a m úsica pode acalm ar-lhe o espírito. Assim , vai buscar a tua harpa, pois deveis partir o m ais depressa possível e aproveitar a noite para viaj ar.
Eu conhecia Joab de ouvir os m eus irm ãos falarem nele. A m ãe dele era filha da prim eira m ulher de m eu pai, e Joab era da idade deles, na verdade um pouco m ais novo do que o m ais velho, m as j á os ultrapassara largam ente em renom e. Falavam dele com ciúm es, m as com um a adm iração relutante.
- É um a grande honra teres sido escolhido - disse o m eu pai; m as eu podia adivinhar que ele estava confuso e ansioso.
- Eu próprio sou o responsável - disse Joab. - A m inha m ãe tem falado m uitas vezes nos dons m usicais do rapaz. - Fungou. Não é um a coisa de que eu perceba ou por que m e interesse. No entanto, quando eles procuravam um m úsico, lem brei-m e do que ela dissera, e pus o nom e dele à frente. Ficarei agradecido se o rapaz não m e deixar ficar m al.
O m eu pai j á ordenara aos servos que preparassem presentes para o rei. Eram coisas caseiras: pão da m elhor qualidade, um par de cabritos e um a ânfora de vinho da colheita do ano anterior. Joab m ostrou sinais de im paciência e eu apressei-m e a ir buscar a m inha harpa, em brulhando-a em folhas de lírios selvagens para a proteger do frio da noite e do calor do Sol m atinal. Os m eus sentim entos estavam m isturados. Sentia-m e encantado por ver o m undo abrir-se à m inha frente. Por outro lado, nunca esperara entrar nele com o tocador de harpa.
Partim os em silêncio, e o silêncio m anteve-se durante a prim eira parte da viagem . Eu estava consciente de que o j um ento que eu m ontava fazia um a fraca figura ao lado da m ula de Joab, e de que o nariz com prido cuj a silhueta eu via no fundo do céu da noite parecia insistir na m inha inferioridade em relação ao seu possuidor. Contudo, eu recusava ser subj ugado. Havia alegria no m ovim ento dos cascos e no tinido da arm adura da guarda de Joab. A Lua erguia-se por cim a das m ontanhas, o ar arrefecia e a noite caía, à m edida que escolhíam os o cam inho ao longo do trilho irregular que rodeava os m ontes.
Perto do despontar da aurora, avistam os Jerusalém do outro lado do vale. A cidade, é talvez necessário dizê-lo, era ainda, naqueles dias, a fortaleza dos j ebuseus, um a tribo que nunca reconhecera a suprem acia de Israel.
- Porque é que - perguntei a Joab - sofrem os o fato de os inim igos do Senhor ocuparem um lugar tão bonito?
- A cidade está bem fortificada - esclareceu Joab. - O que é que tu, m eu fedelho, sugerias para que nós a tom ássem os?
Senti-m e ofendido com o seu tom de voz, m as estava decidido a não m ostrar os m eus sentim entos. Por isso, sorri, sim plesm ente, e disse, num tom tão am igável quanto m e foi possível conseguir, que é claro que eu hesitaria em avançar qualquer sugestão, não tendo experiência em tais assuntos, e sabendo perfeitam ente que nada do que eu dissesse poderia interessar a alguém que alcançara o que o m eu prim o alcançara (ele era, na verdade, m eu sobrinho, m as eu achei que seria m ais prudente cham ar-lhe prim o). No entanto, eu tinha o m aior interesse em ouvir com o é que ele lidaria com aquele problem a, pois estava ansioso por aprender, e, nesse sentido, não desej aria perder a oportunidade que esta viagem tão inesperadam ente m e oferecia. À m edida que eu falava, sentia Joab a ficar à vontade. Sem pre achei que a lisonj a quebra as defesas estabelecidas pelo orgulho. Sabia-o por instinto, e o m eu instinto era agora confirm ado pela experiência, pois Joab lançou-se im ediatam ente num a análise detalhada dos problem as m ilitares que a m inha pergunta levantava, e, quando acabou de falar, eu sabia que tinha subido na sua consideração. Geralm ente as pessoas sentem -se m uito m ais felizes por darem a sua opinião do que por ouvirem os pontos de vista de outros, e Joab não era exceção. Nada dá aos grandes hom ens um a m elhor noção da inteligência de outros do que serem alvo de perguntas que encerrem adm iração. Quando Joab term inou a sua exposição, que foi, posso dizê-lo, lúcida e interessante, ele j á tinha alterado a tal ponto a sua opinião sobre m im que m e disse que eu ainda podia dar um bom soldado. E, na realidade, eu não dissera nada que o fizesse pensar isso; eu só lhe dera rédea solta.
Joab deixou-m e num a antecâm ara do palácio. Eu estava feliz por ficar livre da sua presença, e penso que ele sentia o m esm o. Os m odos dele tinham m oderado no decorrer da viagem , m as agora que tínham os chegado, ele estava, im agino eu, em baraçado. Era um hom em rígido, convencional, e em bora ele possa, tal com o ele disse, ter sugerido que eu poderia ser a pessoa ideal para aj udar ou para curar o rei, ele pode tam bém ter sentido que um cantor e um tocador de harpa não traria grande crédito à fam ília. Não sei. Toda a vida conheci Joab, m as nunca tive a certeza de que lhe poderia ler a m ente. Sem pre houve qualquer coisa nele que m e escapa. Ele sente o m esm o a m eu respeito, e, em bora poucos m e tenham servido m elhor, nenhum o fez com tão pouca boa vontade. A vida j ungiu-nos, um ao outro, com o um par de bois nos cam pos, m as isso é o m áxim o que se pode dizer.
Agora eu esperava, esperava. Estava nervoso, pois tudo m e era estranho. E, sim ultaneam ente, tudo era do m áxim o interesse. Era o m eu prim eiro olhar ao m undo a que sabia que m e adequava, e im pressionava-m e que, em todas aquelas idas e vindas, ninguém reparasse no rapaz que estava sentado ao canto com a sua harpa aos pés.
Um a j ovem serva trouxe-m e bolos e vinho, e olhou-m e com o se gostasse que falássem os. Mas eu era incapaz de participar nos gracej os da conversa banal. Nem era capaz de com er nem de beber. Sentia-m e oco; havia um grande vazio à espera de ser cheio, m as nada de m aterial o poderia encher. Por fim , um j ovem robusto encontrava-se à m inha frente e disse que Abner desej ava ver-m e. Eu sabia quem era Abner, é claro: a sua fam a corria por todo o Israel. O hom em falou-m e com o se eu fosse um criado. Peguei na m inha harpa e segui-o.
Um hom em alto encontrava-se de costas para m im . O j ovem robusto falou e deixou-nos. Esperei. Um fio de suor correu-m e pela coxa. Estava m uito calor e a fragrância das flores quase tom ou conta de m im . Rezei ao Senhor para que m e desse força.
Abner virou-se e avançou para m im . Colocou a m ão sob o m eu queixo, com o Sam uel fizera, e ergueu-o, de form a a que eu fosse obrigado a olhá-lo nos olhos. Era tudo o que eu podia fazer para não m e virar, m as ele segurava-m e com firm eza e olhava o m eu rosto com o se tentasse tirar-m e a essência da alm a. Não era nada daquilo que eu estava à espera.
- O Senhor sabe - disse ele -, o Senhor sabe se tu servirás. Com preendes? - perguntou ele. - Joab disse-te o que se espera de ti?
Eu fiz um gesto em direção à m inha harpa, m as não consegui encontrar palavras.
- Não - disse Abner. - Suponho que não. Ele deverá ter preferido deixar isso com igo. Ele é assim . Muito bem - libertou-m e o queixo ->-, m uito bem , então, j ovem David, o rei perdeu o j uízo. Num a palavra, que tu j urarás não transm itir a ninguém , se desej ares ver o Sol nascer am anhã, ele está louco. Mergulhou num silêncio som brio, e trem e de terrores que não ousa, ou não pode, m encionar. Percebes algum a coisa disso?
- Eu conheci o m edo - disse eu. - À noite, nas m ontanhas, sozinho, senti a nudez da m inha alm a.
- Huum m - disse ele. - Não sei o que isso significa. Estás com m edo agora?
- Sim - disse eu -, m as confio no Senhor.
- Tam bém não sei nada disso - disse ele -, m as terem os de tentar. Ele pode ser violento, aviso-te, m as os seus físicos parecem pensar que a m úsica o pode acalm ar. É por isso que estás aqui.
Serviu a si próprio um a caneca de vinho e bebeu.
- O rei é um grande hom em - disse ele. - Lem bra-te disso, em bora ele te pareça um a concha oca.
O quarto era com o um a caverna e a única lam parina de azeite derram ava um a m agra luz, que deixava a m aior parte da câm ara na som bra. Havia um poderoso odor a ervas queim adas (m ais tarde vim a saber que os físicos do rei acreditavam que isso poderia aliviar as suas dores de cabeça). Por um m om ento parecia estar deserto. Em seguida apercebi-m e de um a form a enroscada no chão, com as costas para a parede, j unto à m esa em cim a da qual se encontrava a lam parina. Levantou a cabeça e, à m edida que os m eus olhos se acostum avam à obscuridade, encontraram os do rei, indiferentes, com o se não vissem nada, e, no entanto, firm es, com o se m e penetrassem a alm a. Os olhos do rei perm aneceram fixos em m im enquanto eu m e inclinei e com ecei a tocar harpa. Mantive o m eu próprio olhar afastado, m as não conseguia escapar à consciência daquele olhar som brio.
Abner avisara-m e de que não haveria conversa, e, assim , eu tocava as cordas da harpa e com ecei a cantar.
Estava acostum ado a cantar sozinho, sob o céu noturno, para m im próprio, para afirm ar a beleza da criação; e cantara m uitas vezes na nossa aldeia, ao serão, enquanto as j ovens serviçais se am ontoavam à m inha volta e trauteavam o estribilho e m e olhavam com um a adm iração que m e obrigava a m odular o tom , m udando de ardor para tristeza m elancólica, o que provocava nelas lágrim as e profundos suspiros. Nessa altura descobri que dom inava não só a m úsica, m as tam bém todos os que a ouviam . Mas agora, quando com ecei a cantar para Saul, sentia a garganta seca, a voz fraca, e toquei três notas erradas na prim eira balada. Mas ele não se m exeu. Cantei sobre Abraão e a aurora da nossa raça, sobre José e a sua grandeza no Egito, sobre Moisés e a travessia do m ar Verm elho e os anos passados no deserto, sobre Josué e o som das trom betas, que deitou abaixo as m uralhas de Jericó; e Saul não se m exeu.