Rei Davi

Allan Massie · Capítulo 4 de 4 · parte 2/2

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Rei Davi

Livro Três

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

A verdade era m ais com plicada. Eu estava consciente de que o avançar dos anos trazia consigo um declínio do vigor físico e m ental, e receava que o fato de nom ear um sucessor pudesse fazer alguns pensar que estava na hora de eu ser substituído. Eu não duvidava do am or e da fidelidade de Absalão, m as não podia sentir tanta certeza em relação a alguns daqueles que o rodeavam . Por isso, preferi conservar tal nom eação em reserva, para que houvesse dois partidos rivais no Estado, cada um deles m ostrando incerteza em relação ao outro, e cada um deles ainda recorrendo a m im , à procura de segurança.

Mas para acalm ar Absalão, e para dem onstrar a confiança que depositava nele, fi-lo governador de Judá, a m inha terra natal onde a lealdade para com igo era, com o eu pensava - ó, com excesso de confiança -, absoluta.

E quando ele partiu para estabelecer residência em Hebron, com m uitas m anifestações de am or e gratidão, eu estava confiante de que agira sensatam ente.

Entretanto, eu m andara vir Tam ar para o palácio, e aloj ei-a lá com o era adequado à filha de um rei. Infelizm ente, ela entrou em declínio, e, pouco depois de Absalão ter partido para Hebron, recusou-se a com er e m orreu. Era lastim ável de ver.

O seu funeral foi celebrado com a m áxim a m agnificência, com um a exibição da dor popular. Betsabé continuou a dirigir-m e cartas de censura, repreendendo-m e pela m inha crueldade e, com o ela pensava, pela m inha desonestidade. Respondi que ela procurara colocar-m e contra Absalão, m eu filho am ado, que m e tentara para que eu praticasse um ato de grande perversidade, e que, se ela continuasse a im portunar-m e daquela m aneira, ordenaria que a acusassem de bruxaria. Em seguida ordenei que ela e Salom ão saíssem de Jerusalém , e que se estabelecessem em Silo, pois eu estava cansado deles.

E assim , eu preparava para m im próprio um a velhice confortável, na qual as preocupações da governação não pesassem sobre os m eus om bros, e eu cultivaria as artes, e prepararia a m inha alm a para ir ao encontro do Criador.

Estou certo de que Absalão m e am ava. No entanto, quando não se encontrava na m inha presença, dava ouvidos às palavras dos m eus inim igos. Alguns deles eram hom ens que m e deviam m uito, com o, na verdade, Israel inteiro. Entre eles, o principal era Aitofel, e os seus m otivos ainda m e deixam confuso. Tínham os trabalhado j untos, e eu sem pre o honrara. Adm irava a sua inteligência subtil, e dera-lhe um cargo elevado. Mas havia algo nele que se revoltava contra a m inha grandeza. O verm e do ressentim ento roía-lhe a alm a. Acostum ado durante toda a sua vida a considerar-se m ais inteligente do que todos os outros, e igualm ente habituado a insistir na sua inteligência para com pensar a sua total falta de valor m ilitar, ele há m uito que fingia desprezar os soldados, m esm o quando, na realidade, os invej ava. Joab e ele tinham vivido em perpétua inim izade, o que não m e desagradava. Mas Aitofel sentia-se confortável nessa inim izade, pois nunca duvidara da sua superioridade em relação a Joab. Isso era um a idiotice da sua parte, j á que, em certos aspectos, Joab era seu m estre. Mas observei m uitas vezes que aqueles que são dotados de m uita inteligência têm tam bém um a certa inclinação para a tolice. Apenas hom ens inteligentes, por exem plo, negam Deus, em bora os estúpidos O possam esquecer.

Aitofel sentia-se dim inuído por m im .

Betsabé tam bém sugerira que, em bora ele fosse seu avô, a razão que ele tinha para se opor ao nosso casam ento não era só, com o eu supunha, porque não fora ele próprio que o sugerira, ou m aquinara o esquem a; e não porque sentisse qualquer afeição por Urias, em bora fosse o protetor do hitita, m as, abj etam ente, porque nutria um a paixão incestuosa por ela.

- Ele não ousa confessá-lo - disse ela -, m as eu tenho visto os seus olhos a devorarem -m e. Despiram o vestido do m eu corpo, e regozij aram -se com a m inha nudez.

No entanto, em bora eu conhecesse os sentim entos de Aitofel, não fiquei ansioso quando m e trouxeram a notícia de que ele era um a visita constante da casa de Absalão. Eu confiava no am or do m eu filho, e sabia que ele podia aprender m uito com alguém com a experiência de Aitofel em questões de estado. Mesm o quando Joab se aproxim ou de m im e m e disse que, na sua opinião, estava a ser planeada um a traição, eu não fiquei alarm ado. « Joab» , pensei, « estava com ciúm es» .

Olhando para o passado, sinto com o se naquela altura tivesse os olhos cobertos de veludo negro, tão intensa era a escuridão em que m e m ovim entava. Em que, na verdade, eu optara por m e m ovim entar.

Há m om entos em que pergunto a m im próprio se não terei desej ado o que aconteceu.

Num a esplendorosa m anhã do princípio do Verão, tom ava eu banho, quando Jonadab m e irrom peu pelo quarto, gritando:

- As trom betas soaram em todo o Israel, e Absalão foi proclam ado rei em Hebron.

^ Era com o se a luz do Todo-Poderoso se tivesse extinguido. •^ Jonadab, parecendo recear que o m eu silêncio indicasse que eu não tinha com preendido, repetiu:

- Absalão foi proclam ado rei em Hebron, e Judá inteira está em revolta.

- Mas Judá é m inha - disse eu. -Judá é de Absalão, o coração de todos os j ovens está com ele.

Não respondi, m as cham ei os m eus escravos para que m e vestissem . Enquanto o faziam , e m e perfum avam a barba, tendo tudo sido feito com a lenta form alidade da corte, eu tentava concentrar-m e.

Prim eiro: isto era o fim ; o Senhor abandonara-m e.

Em seguida: Aitofel estava por detrás disto; estava a agir em nom e de Absalão. Eu disse a Jonadab:

- Manda alguém à presença de Absalão e pergunta-lhe em que term os ele aceitará a m inha subm issão. Poupar-m e-á ele a vida?

Jonadab não se m exeu. O corpo pareceu endurecer-lhe. Era com o se ele dissesse: « Não ouvi as tuas palavras, ó Rei.» Pensei: « que satisfeita ficará Betsabé? Eu disse:

- Que forças nos restam ?

- Assim está m elhor - respondeu Jonadab. - Não sei. vou descobrir.

- Não im porta. Estam os acabados. Estou acabado. A com édia acabou. <.;

- Meu senhor, m eu rei, não sabes o que dizes.

- Não, tens razão. Não sei. Ordenei-lhe que reunisse um conselho.

- Pelo m enos verem os quais os m eus generais e m inistros que não m e abandonaram .

Ao longo deste livro de m em órias, não disse nada a não ser a verdade. Quem m e dera agora tê-lo confiado a outro, ou tê-lo term inado m ais cedo, pois confrontar-m e com a verdade daquela m anhã é terrível.

Durante toda a m inha vida, sem pre o perigo m e estim ulou, m e acelerou o espírito e a inteligência. Mas, naquela altura, eu encontrava-m e com o que prostrado por um a paralisia da vontade.

E conheci o m edo. Perguntei-m e que m orte Aitofel m e destinara.

Recordei a form a com o o Senhor se virara contra m im e contra a m inha casa porque eu fora culpado da m orte de Urias.

- Ó Senhor - gritei -, não deixes que a cabeça grisalha do Teu servo desça à sepultura envolta em pesar.

Entrei na câm ara do conselho encostado ao om bro de Joab, e vi m edo em todos os rostos, exceto no de Joab.

Eu disse:

- Toda a vida servi Israel e o Senhor dos Exércitos, que m e abandonou na velhice.

Mergulhei num a cadeira, e fiz sinal a Joab, convidando-o a falar.

Mas eu m al podia seguir as suas palavras. Rolavam por cim a de m im com o o vento. Eu via apenas o rosto de Absalão, encantador e de olhos brilhantes, e um trem or abanou-m e a m ão. Falaram outros, e eu continuava sem conseguir forçar-m e a ouvir, nem a intervir, nem a ir-m e em bora. As discussões colidiam com o espadas por cim a da m inha cabeça baixa, e eu sentia o m edo no ar. Então Joab bateu na m esa com a palm a da m ão.

Basta! - gritou ele. - É com a força que se deve ir de encontro à revolta, im ediatam ente, antes que se espalhe. Por isso, reunirei a m inha- guarda, e m archarei decididam ente contra Hebron. Não tenho dúvidas de que reunirem os m ais tropas e reforços ao longo da nossa m archa, de que desbaratarem os os rebeldes e de que deixarem os os seus corpos a servirem de alim ento às aves do céu, os pássaros da m orte.

Ergui a cabeça.

- Não - disse eu. - Não - repeti. - Fugirem os. Abandonarem os Jerusalém .

- David - disse Joab, e distingui irritação na sua voz -, conheces a força das defesas da cidade. Eu deixarei um a guarnição suficiente, e se o m eu ataque for reprim ido, baterei em retirada para a cidade, que pode suportar um cerco m ais longo do que im agino que os rebeldes sej am capazes de m anter. ..,,- Não - disse eu, m as desta vez com decisão, pois as palavras de Joab tinham tido, pelo m enos, este resultado: tinham -m e trazido de volta a m im próprio. -Jerusalém é um a arm adilha - disse eu, novam ente. - Joab, estás com certeza lem brado de Queila, e da form a com o Saul ficou satisfeito quando acreditou que nos defenderíam os lá.

Era com o se as nuvens se tivessem dissolvido para revelarem a form a dura e nítida das m ontanhas. Eu não podia confiar em que Joab derrotaria as forças de Absalão, se m archasse contra elas - e, se ele falhasse, estávam os destruídos. Eu não podia confiar na lealdade do povo de Jerusalém , nem na sua prontidão para suportar as dificuldades de um cerco. Eu receava que a revolta se espalhasse às tribos do Norte, entre as quais havia m uitas que tinham aceitado o m eu reinado apenas por consentim ento tácito. Parecia-m e, por isso, que devia fortalecer a lealdade delas para com igo, e não havia m aneira m ais segura de o fazer do que j untar-m e a elas com o m eu exército.

E, assim , eu disse:

-<- Fugirem os e deixarem os Jerusalém a Absalão - em bora eu soubesse que os m eus m otivos seriam m al com preendidos, e que m uitos m e considerariam vítim a do m edo; e, na verdade, o m edo estava lá, alerta e inquietante.

Enviei um a m ensagem a Betsabé, que se encontrava em Silo, insistindo para que ela reunisse tropas e as m antivesse à m inha disposição.

Eu disse:

- Foste m ais sensata do que eu no teu j ulgam ento. Eram palavras am argas de escrever, m as necessárias.

Dei ordens a Joab para que se preparasse para m archar para fora da cidade, em direção ao norte.

Em seguida dissolvi o conselho, solicitando apenas a Huchai que perm anecesse com igo.

- Tenho um a tarefa difícil e perigosa para ti, m eu am igo.

- Estou às tuas ordens, m eu rei e senhor.

- Quero - disse eu - que fiques na cidade. Quando o j ovem Absalão entrar nela, irás ter com ele e prestar-lhe-ás hom enagem com o rei. Prom eterás servi-lo tão lealm ente com o m e tens servido a m im , e então usarás a tua sabedoria para confundir os conselhos de Aitofel. Desta form a, terei um am igo entre o inim igo, e encontrarem os um m eio de m e poderes inform ar do que eles pretendem .

Eu sabia que estava a colocar um grande peso sobre os om bros de Huchai, pois receava, com o ele próprio deve ter receado, que Aitofel suspeitasse das suas declarações, e persuadisse Absalão de que Huchai era um espião. No entanto, ele concordou sem hesitar. Foi um a das m ais nobres hom enagens que algum a vez m e prestaram .

Com binam os que ele descobriria um a m aneira de com unicar com igo através de Sadoc e Abiatar, os sacerdotes a quem eu tam bém ordenei que ficassem na cidade.

- A Arca da Aliança do Senhor - disse-lhes eu - deve perm anecer em Jerusalém , que é a cidade que eu dediquei ao Senhor.

Eu tinha duas razões para esta decisão. Em prim eiro lugar, não desej ava que fôssem os sobrecarregados com a necessidade de proteger a Arca; em segundo lugar, eu sabia que a m inha ordem de que ela deveria perm anecer em Jerusalém im pressionaria os indecisos com a m inha certeza de que regressaria.

No entanto, à m edida que a nossa pequena cavalgada saía da cidade, quando as som bras do final da tarde caíam , e fom os inform ados de que a guarda de avanço de Absalão se encontrava a uns escassos cinco quilôm etros da porta sul, o m eu coração ficou pesado, e os m eus pensam entos am argos. De novo, a única coisa que m e faltava era ser dom inado pela lassidão, e a tentação de voltar para trás e de m e subm eter a Absalão, pedindo-lhe apenas que poupasse a vida dos m eus am igos e perm itisse que m e retirasse para um lugar santo, onde pudesse viver os m eus últim os dias ao serviço do Senhor, era poderosa. « Já m e basta de sangue» - o refrão ressoava nos m eus ouvidos. Virei-m e para trás e vi o Sol, verm elho, na m uralha ocidental da cidade, e olhei para o Norte e vi a im ensidão de um futuro incerto que se estendia à m inha frente, para lá das areias do tem po. E fiz tudo m enos chorar de pena.

Foi unicam ente a idéia do triunfo de Aitofel, e a im agem do seu rosto a regozij ar-se com a m inha hum ilhação, que m e im pediu de abandonar o j ogo.

Mas o fato de Absalão poder ter rendido a sua capacidade de j ulgam ento e o seu am or às palavras doces e de sedução de Aitofel era um duro golpe para o m eu coração. « Na verdade» , pensei, « as palavras do velho eram m ais suaves do que o azeite, e, contudo, eram , ao m esm o tem po, um a espada sem bainha» .

Avançávam os para além do Monte das Oliveiras, à m edida que a noite se fechava sobre nós. Mas eu não perm itiria que a nossa pequena força descansasse ali, em bora os m eus próprios m em bros estivessem cansados, e a agitação do dia m e tivesse tornado débil quase até às lágrim as. Em vez disso, ordenei a Joab, que estava sentado no seu cavalo com o um a rocha, som brio, que prosseguisse vigorosam ente, em bora eu próprio m e encontrasse agora tão fraco que necessitava de um a liteira.

Quando rom peram os prim eiros raios da aurora, descíam os para Baurim , por um cam inho que conduz a um vau que atravessa o Jordão. Então veio um grito das rochas, e, olhando para cim a, vi um a figura, um hom em idoso que reconheci com o sendo Chim ei, um inim igo m eu e prim o de Saul.

Chim ei gritou-m e:

- És tu, David, o inim igo da m inha casa, covardem ente em fuga do seu próprio filho? Foge, foge, hom em sanguinário e filho de Belial, pois vej o que o indigno filho de um pai indigno é o agente do Senhor, que hoj e te retribuiu por teres derram ado o sangue da casa de Saul. O Senhor entregou o reino nas m ãos do teu filho, do teu filho m ais am ado, Absalão. Foste apanhado na rede da tua própria perversidade, afogado no sangue que derram aste.

Em seguida soltou um a gargalhada ruidosa, própria do louco que era.

Abisai, que seguia a m eu lado, virou-se para m im com um rosto tão som brio com o naquela noite em que m e acom panhara à tenda de Saul e insistira para que eu m atasse o rei.

- Porque praguej a este cão contra o rei, e porque razão tolerará o rei tal coisa? Deixa-m e ir, suplico-te, acim a daquela rocha e separar-lhe-ei a cabeça dos om bros, para que todo o Israel aprenda que hom em algum pode insultar o rei com im punidade.

Estive tentado a perm itir, pois o ódio que Chim ei m e dirigiu despertou em m im um forte desej o de o ver m orto. Mas encontrávam o-nos agora na terra de Benj am im . Chim ei, por m ais louco que fosse, e vil com o certam ente era, tam bém pertencia à tribo de Benj am im , da fam ília de Saul, e tinha m uitas relações. Matá-lo seria um prazer, e poderia im pressionar alguns com a m inha determ inação. Mas poderia insurgir outros contra m im , que diriam que David anda pelo país a m atar toda a gente com o um lobo tresloucado; está na hora de o fazerm os parar.

Por isso, disse a Abisai:

- Deixa-o. O hom em é louco. Por isso m e am aldiçoa. As suas pragas são leves e fáceis de suportar num dia em que o m eu próprio filho se levantou contra m im e procura destruir-m e e m atar-m e. Deixa-o, e que praguej e à vontade, pois nada do que ele diga m e pode ferir m ais do que j á estou.

E assim continuám os a cavalo, perseguidos pelas suas pragas, e chegam os à m argem do Jordão. Tom ei algum vinho, à m edida que Joab dispunha os hom ens em fila para fazerem a travessia. Chegou a notícia de que Betsabé se aproxim ava com um a pequena força, e olhei para o Norte, donde ela vinha; m as no olho da m inha m ente eu só via Absalão com toda a sua beleza, e lutei para com preender com o é que ele se perm itira virar-se contra o pai que o am ava.

Absalão foi recebido em Jerusalém com todo o entusiasm o de que era capaz um a população instável e m al-agradecida. Esta notícia foi-m e enviada por Huchai, através de dois j ovens, Jónatas e Aim aás, filhos dos sacerdotes Sadoc e Abiatar.

Assim que m anifestou o seu apreço pelas boas-vindas que o esperavam , Absalão cham ou um a das concubinas que eu deixara no palácio, e apoderou-se dela, a conselho de Aitofel, à vista do povo, com o prova de que era rei em m eu lugar.- Além disso - sugeria Huchai -, Aitofel acredita que tal insulto público à tua pessoa será im perdoável, e tenta desse m odo tornar im possível a Absalão virar costas à revolta que, devo assegurar-te, é inteiram ente obra do seu perverso conselheiro.

Quão pouco Aitofel com preendia da profundidade do am or de um pai pelo filho errante!

Em seguida discutiram o curso da ação a em preender. De acordo com Huchai, Aitofel era claro nos conselhos que dava. O rei retirara-se da cidade, disse ele, m as não entregara o trono a Absalão. O rei era um a raposa velha, astuto em assuntos de guerra. Ao deixar Jerusalém , surpreendera-os, e Absalão não devia supor que a coragem faltou ao pai. Não, isso fazia parte de um plano. David retirara-se sim plesm ente para m obilizar as suas forças e recrutar novas, e para fortalecer o seu exército. Não se lhe devia dar tem po de o fazer. De outra form a, Absalão e os seus seguidores poderiam ver-se obrigados a entrar num a batalha num a altura escolhida por David e num lugar de defesa por ele selecionado.

 

- Nenhum hom em - disse Aitofel - teve algum a vez m elhor olho para o terreno do que David, nem m aior capacidade de defesa. E ele ainda tem consigo Joab, o hom em m ais experiente em guerra que Israel j á conheceu, assim com o o m elhor preparador que um exército pode ter.

Conseqüentem ente, Aitofel insistia para que não perdessem tem po, e que partissem em nossa perseguição com todas as forças que pudessem reunir, para, assim , esm agarem o nosso pequeno grupo, enquanto nos encontrávam os ainda desanim ados e m al preparados.

Huchai apercebeu-se im ediatam ente de que o conselho de Aitofel era bom , e que, se fosse seguido, seríam os destruídos (ele era sensato nessa sua leitura da situação). No entanto, Absalão, para sua alegria e alívio, hesitou, não sabia dizer porquê (agrada-m e pensar que, em bora Absalão tivesse sido arrastado até este ponto pelas perversas e desonestas artim anhas de Aitofel, ele ainda era dom inado pelo am or que sentia por m im , e não podia ver-se em barcar num plano que m e destruiria com pletam ente. Talvez, tam bém , ele ainda esperasse que eu m e rendesse. De qualquer m aneira, ele não era capaz de se obrigar a olhar a realidade de frente, com os seus fortes im perativos).

Huchai, vendo a hesitação de Absalão, pigarreou, e perguntou m odestam ente (segundo o seu relato) se poderia dar a sua opinião.

- Por m uito que eu respeite Aitofel, e sem pre estive acostum ado a subm eter-m e ao seu j ulgam ento - disse ele -, desta vez discordo. O seu conselho não é bom , pois perm itiu que o seu desej o m uito natural de levar as coisas a um final de êxito ditasse o seu pensam ento.

* Considerem os - continuou Huchai quando teve a certeza de que captara a atenção do grupo -os fatos do caso (eu podia im aginar Aitofel a franzir o sobrolho de irritação quando ouviu Huchai pronunciar esta frase suave m as enganadora). David e Joab eram os m aiores com andantes da época. A força que estava com eles podia ser pequena, m as era com posta de veteranos que tinham partilhado tantos triunfos, e que preferia m orrer agora até ao últim o hom em do que subm eter-se à derrota. ,..]•

- A batalha - disse Huchai - é um a coisa terrível e o seu resultado nunca é certo. - Em vez disso, ele aconselhava um a consolidação da posição deles.

Este relato trouxe-m e um sorriso am argo aos lábios. « Consolidação» é um a palavra que atrai sem pre os tím idos, e que conforta a sua

apreensão. Em vez de arriscar tudo num encontro incerto, Huchai sugeriu que

Absalão reunisse o seu apoio vindo das tribos do Norte, para que o rei fugitivo reconhecesse o desespero da sua posição, e o seu exército perdesse o ânim o.

Aitofel protestou, m as a opinião do conselho pendia a favor de Huchai, e Absalão aceitou a decisão da m aioria.

Agrada-m e pensar que ele ficou satisfeito em fazê-lo, pois não posso acreditar que ele realm ente desej asse atacar-m e num a batalha.

Quando estas notícias chegaram até nós, Joab bateu na parte lateral do seu sabre, e gritou que o Senhor ainda estava conosco.

- Grande é o Seu nom e - gritou ele -, pois Ele enlouqueceu o nosso inim igo.

E assim atravessam os o Jordão sem term os enfrentado qualquer oposição e estabelecem o-nos na floresta de Efraim .

Eu próprio retirei-m e então, com o coração cheio de m ágoa, para a cidade de Maanaim , donde enviei m ensagens a todos os chefes de Israel, até àqueles que tinham reconhecido Absalão com o rei, recordando-lhes o seu dever e a sua obediência. Eu tinha esperança de poder, assim , ser capaz de levar um núm ero suficiente deles a desertar Absalão, para que ele próprio reconhecesse a loucura da sua revolta, e se rendesse a m im . Em seguida enviei um a m ensagem a Huchai, através de um percurso secreto, dando-lhe instruções para que plantasse esta sem ente no coração do m eu filho. Mas, infelizm ente, ele achou que não o podia fazer sem se colocar em risco. E essa é a única censura que eu tenho a lançar a Huchai relativam ente à sua conduta nestes dias terríveis.

Fiquei igualm ente triste ao saber que o m eu sobrinho Am assa m e abandonara para se j untar ao prim o Absalão, e fiquei ainda m ais perturbado ao ser inform ado de que ele fora nom eado com andante do exército rebelde. Am assa era um j ovem que eu próprio ensinara na arte da guerra, e receava que ele se verificasse um bom aluno.

Entretanto, Joab dedicava-se a treinar o nosso exército para a guerra na floresta, com a qual os israelitas, em geral, não estão fam iliarizados. É que eu determ inara que deveríam os m anter-nos firm es em Efraim , e convidar o inim igo a atacar-nos.

Quanto a m im , sentia-m e dem asiado deprim ido para participar ativam ente nos preparativos. Em bora eu soubesse com o a ação é um bom rem édio para um coração ferido e um espírito prostrado, eu estava, no entanto, atorm entado por um a estranha lassidão, que m e fazia ficar m uito tem po deitado depois de o Sol ter nascido, e que enfraquecia a m inha capacidade de concentração.

Pensei, m uitas vezes: « esta é um a guerra que eu deveria ficar contente por perder» .

Considerei m uitas vezes a hipótese de abandonar a luta e de m e render a Absalão. Dizia para m im próprio: « ele é o teu filho am ado, o herdeiro do trono, o adorado de Israel. Porque não ceder-lhe e passar o serão dos teus dias num a paz indolente?» .

Eu dizia para m im próprio: «é a vontade do Senhor. Um a geração m orre, e outra geração cam inha atrás dela, m as a terra vive eternam ente. Realizei grandes feitos, e procurei sabedoria, e é com o o crepitar do espinheiro debaixo de um caldeiro: tudo é vaidade e torm ento» .

Betsabé enviou-m e Salom ão, seu filho, e foi com o se o seu olho m e tirasse as m edidas da m ortalha.

- Bem - disse-lhe eu -, e queres ir para o exército?

- Não, pai - respondeu ele. - Tens soldados para lutarem por ti. Com preendes, pai, que o m eu irm ão Absalão tem de m orrer?

- O que dizes?

- Digo o que qualquer hom em sensato sabe. Digo o que qualquer verdadeiro am igo teu pensa.

- Essas são as palavras da tua m ãe - disse eu, e m andei-o em bora. E, depois de ele ter partido, gritei ao Senhor com o a m inha rocha e

a m inha salvação.

- Tira-m e desta rede com que os m eus inim igos secretam ente m e envolveram . - Eu rezava; m as não podia determ inar quem eram os m eus inim igos.

À noite, sob as estrelas, dirigi o olhar por cim a dos terraços, na direção de Jerusalém , onde vivia o j ovem Absalão - dom inado por que pensam entos?

E eu não tinha Betsabé a m eu lado, e, assim , tom ei um a concubina, a filha de um taberneiro da cidade, e deitei-m e com ela, para silenciar os pensam entos. Mas quando ela dorm ia, os pensam entos regressaram . E, à m edida que eu m ergulhava, insensivelm ente, nos breves períodos de sono que m e eram concedidos, era o rosto de Absalão que eu via, eram os olhos de Absalão que estavam fixos em m im com um olhar no qual eu lia j ulgam ento, condenação e piedade. E então eu acordava novam ente, a chorar.

O dia chegou quando um a m ensagem foi enviada por Huchai para dizer que Absalão e Am assa estavam a ordenar as suas forças, e que agora se propunham m archar contra nós.

- Não é m ais possível segurá-lo - dizia ele.

- Ótim o - disse Joab --, os hom ens estão prontos para lutar. Ele delineou a disposição das suas forças.

- Sim - disse eu -, tenho a certeza de que fizeste tudo, de que tudo está a postos.

- David - disse ele -, e continuou a expor o seu plano.

- Sim - disse eu -, o fruto daquela figueira ali está m aduro para ser apanhado e tenho a certeza de que o farás.

- Esta noite cearem os em Jerusalém - disse ele.

-Joab - disse eu -, deves providenciar para que não aconteça qualquer m al ao j ovem Absalão.

É estranho perm anecer-se num a cidade a um a hora de m archa de um exército que trava um a batalha, e não saber de nada. Olhei em direção à floresta, e havia silêncio no calor do dia. Insistiam para que eu com esse e bebesse, m as eu afastava essas insistências com a m ão, e não tirava os olhos da floresta, na escuridão distante. A som bra das m uralhas da cidade agigantava-se à m inha frente, à m edida que o Sol m ergulhava, e não chegavam notícias. Senti atrás de m im , dentro da cidade, o trem or do m edo. Durante m uito tem po, ninguém se aproxim ou de m im , e ninguém falou.

Então um grito ergueu-se, vindo das portas da cidade, e alguém veio ter com igo e disse que se via um a figura a cam inhar na nossa direção. ,;

- Um hom em ? Um hom em sozinho? Nesse caso é um m ensageiro, e não um fugitivo da batalha.

Pouco depois vieram novam ente e disseram que fora avistada um a segunda figura, a algum a distância da outra.

- Se tam bém vier sozinho, é outro m ensageiro, e a vitória é nossa.

Ouvi um m urm úrio de alívio erguer-se das ruas apinhadas, à m edida que se espalhava a palavra de que o rei falara, e que estava tudo bem . Em seguida rebentaram vivas, e o m eu nom e foi louvado em voz alta por aqueles que se tinham m antido afastados da revolta apenas devido ao m edo ocasionado pela m inha presença e pela presença do exército. Ter-m e-iam enforcado às portas da cidade e dado a m inha carne às aves do céu com o alim ento, se um a nuvem de pó tivesse revelado os nossos soldados em fuga.

Assim , sabendo que os m eus hom ens tinham vencido um a batalha que eu gostaria tam bém de ter perdido - se a derrota m e tivesse podido garantir descanso - retirei-m e para o interior da casa que tom ara com o m inha habitação, e ordenei que o m ensageiro m e fosse lá levado.

Disse para m im próprio: « não há vitória que possa expulsar da m inha m ente a m em ória da m inha fuga de Jerusalém , e o que então descobri sobre o ódio com que os hom ens m e olham » . E pensei: « não expurgarei esse ódio com o sangue derram ado em doce vingança?» . Mas outra voz soou na m inha m ente cansada: « A vingança é m inha» , disse o Senhor.

Quando o m ensageiro se aproxim ou, reconheci-o. Era Aim aás, filho do Sacerdote Abiatar, e que, vindo de Jerusalém , servira de m ensageiro de Huchai. Prostrou-se no chão perante m im , o rosto agradável a escorrer suor, e gritou:

- Abençoado sej a o Senhor Deus de Israel que entregou os inim igos do rei na tua m ão e tirou Israel da escuridão.

Agradeci-lhe, com o era adequado, e m andei que transm itissem a notícia à cidade.

- Está tudo bem com o j ovem Absalão? - inquiri. * Aim aás baixou a cabeça, e falou em voz baixa.

- Senhor, m eu rei, quando Joab enviou este servo do rei para trazer a notícia da vitória do rei, havia um grande tum ulto em volta dele, m as não sei o que era...

Nesse m om ento, o segundo m ensageiro foi conduzido ao interior da câm ara, à m inha presença. Reconheci-o. Era um escravo etíope que pertencia à casa de Joab. ;

- Está tudo bem com o j ovem Absalão?

- Os inim igos do m eu rei e senhor e todos os que se levantam em guerra contra ele, que estej am com o esse j ovem está.

Retirei-m e para um a sala m ais interior, e rendi-m e à dor.

Oh, Absalão, m eu filho, m eu filho, porque não m orri em teu lugar, Absalão, m eu filho, m eu filho! A partir deste dia há apenas escuridão, e a alegria é banida até do topo das m ontanhas. Passado m uito tem po m andei cham ar o etíope e ordenei-lhe que m e contasse com o Absalão m orrera.

- Preso num carvalho e trespassado por Joab.

Dei-lhe ouro porque ele m e trouxera a notícia am arga que eu receava e ansiava ouvir. Poderia igualm ente tê-lo m andado m atar, m as havia m ais desdém num presente de ouro. Em seguida ordenei que não houvesse alegria na cidade, m as respeito pela dor do rei

A noite caiu, e o sono era-m e negado. Mandei em bora a m inha concubina, que pensara poder confortar-m e, e fiquei sentado no frio da escuridão, e convidei o Senhor a m ostrar-m e o pecado pelo qual Ele m e infligira este castigo.

Pensei: « nenhum hom em alcançou m ais glória em Israel do que eu; nenhum hom em realizou m aiores feitos; de tribos em luta, form ei um a nação perante o Senhor; e agora, na velhice, provo o fruto da am argura» .

E pensei tam bém em Saul, e com o o Senhor o abandonara da m esm a m aneira, e o levara ao extrem o da razão, até para lá deste, com o se vê do fato de ele se ter ligado àqueles que praticavam bruxaria, enquanto procurava conforto no seu com pleto desespero.

Nessa altura a cortina atrás da qual eu m e escondia dos olhos dos hom ens foi em purrada para o lado, e Joab encontrava-se à m inha frente, m anchado da suj idade da batalha, e trazia, na m ão direita, a espada com que m atara o m eu filho.

- Estás de luto pelos hom ens coraj osos que m orreram por ti hoj e, David? Alcançám os um a poderosa vitória sobre os teus inim igos, e eu cheguei triunfante, esperando ver-te festej ar e receber os teus agradecim entos. E que encontro eu? O rei a chorar com o um a m ulher, e toda a cidade m e diz que é por causa do teu filho, o traidor que se levantou contra ti e que teria tom ado a tua vida e o trono, se eu, Joab, não o tivesse evitado. Será que o rei, indigno desse nom e neste seu choro de m ulher, teria preferido que o seu coraj oso e fiel exército tivesse sido destruído para que o seu indigno filho vivesse? Se assim é, David, eu não teria arriscado a m inha vida por tua causa, nem os hom ens coraj osos que lutaram por ti. Devíam os ter todos ficado nos nossos leitos, e deixado que o rei fosse levado, com o obj eto de desdém e troça. Terias preferido que isso tivesse acontecido? Há m ulheres nesta cidade esta noite que têm razão para chorar. São as m ães, as esposas e as am adas de hom ens coraj osos que m orreram para que possas ainda ser rei. O rei conforta-as? Não, ele chora pelo canalha que foi a causa das suas m ortes.

David, durante toda a tua vida tens provocado largam ente a m inha paciência; no entanto, nenhum hom em algum a vez esteve m ais fiel a teu lado. Mas há um lim ite para toda a lealdade, até para a m inha. O que dirão os teus destem idos soldados quando souberem que preferias que eles tivessem m orrido, para que a vida de Absalão tivesse sido poupada? Será que não gritarão: ’David rej eitou-nos, a nós, que lutam os por ele. Assim , porque não rej eitarm os tam bém David com o rei? Bem , não é dem asiado tarde para evitar isso. Eles com preenderão que lam entas a m orte de teu filho, m esm o que não haj a no exército um único hom em que não se regozij e com ela, um único hom em que não se sinta grato pelo fato de o Senhor ter lutado hoj e a nosso lado e por Absalão j á não perturbar m ais a paz de Israel. Mas só o farão se apareceres perante eles am anhã, e expressares a tua gratidão para com o exército, e proclam ares um festival de ação de graças por nos term os libertado da revolta e da guerra civil.»

Subm eti-m e à sua razão brutal, em bora a sua presença m e enchesse de am argura.

Joab, no entanto, foi prem aturo ao supor que a revolta chegara ao fim . Am assa, num a dem onstração daquela capacidade m ilitar precoce que fizera com que eu o m arcasse com o um futuro general de Israel, ainda quando m e serviu pela prim eira vez com o aj udante-de-cam po, m aquinou para reagrupar e restabelecer o exército derrotado, de form a a perm itir que este retirasse bem ordenado para Jerusalém .

Joab estava disposto a atacar im ediatam ente a cidade, e a tom ar de assalto as suas m uralhas. Mas eu disse:

-Já houve derram am ento de sangue suficiente, e, além disso, as fortificações de Jerusalém que eu construí são fortes, e o exército que se encontrar no seu interior desesperará e não se renderá prontam ente. - Assim , proibi-o e senti prazer em fazê-lo.

Em vez disso, enviei por Aim aás um a m ensagem para seu pai, Abiatar, e para Sadoc, os sum o sacerdotes, que ainda se encontravam em Jerusalém a guardar a Arca da Aliança, com o eu lhes ordenara, e instruí-os para que falassem com Am assa, e oferecessem um perdão a todos os que estavam envolvidos na revolta, se depusessem arm as e se rendessem a m im . E acrescentei:

- Direis ao j ovem que terei um cuidado especial com ele, um a vez que era am igo do prim o, do m eu filho Absalão, cuj a m orte m e deixou desolado e lam ento a todas as horas do dia.

Am assa com preendeu a sensatez do que eu oferecia, e apresentou-se a m im pessoalm ente para m e entregar a sua espada e im plorar o m eu perdão. Quando eu o recebera publicam ente, eu disse que desej ava falar com ele em privado.

Com eçam os por falar de Absalão, que am bos tínham os am ado, e choram os e abraçam o-nos e confortam o-nos um ao outro no nosso pesar.

Então eu disse:

- Há apenas um a outra condição, m eu caro. Deves fazer com que Aitofel se renda a m im , para que eu o castigue pelo m al que fez ao seduzir o m eu filho e ao conduzi-lo à destruição.

Am assa afastou para trás os seus caracóis acetinados, e abanou lentam ente a cabeça.

- Aitofel escapou-se-te. Quando chegou a notícia da nossa derrota, dirigiu-se a cavalo para sul de Jerusalém , em direção às suas próprias terras, à sua própria casa, e aí, tendo colocado os seus assuntos em ordem , atirou um a corda por cim a de um a viga, fez um nó e enforcou-se.

Eu disse:

- Teria preferido que ele não m e tivesse escapado. Era um hom em perverso. As suas palavras eram m ais suaves do que o m ais fino azeite, e, contudo, sacavam espadas das bainhas. Agora -continuei -, desej o, m eu caro, restabelecer a paz em Israel. Tu ainda com andas os hom ens de Judá, e, após o relato que fizeste da retirada de Efraim , e de acordo com a tua capacidade guerreira, decidi que a m elhor m aneira de levar a efeito a necessária reconciliação, será colocar-te no com ando do exército de todo o Israel. O que dizes?

Ele ficou confuso. Apesar das garantias que Abiatar e Sadoc lhe tinham dado, ele apresentara-se a m im com m edo e ansiedade, pois não podia acreditar que a m inha m agnanim idade fosse ao ponto de poupar a vida de alguém que desem penhara um papel tão proem inente na revolta. Eu sentira a sua apreensão, m esm o quando o abraçava, ao chorarm os Absalão. E, por essa razão, ainda m e senti m ais próxim o dele, adm irando a coragem com que ele tentara esconder o m edo.

Mas agora ele levantava a obj eção que era natural. . - E Joab? - quis ele saber.

Eu respondi:

-Joab, com o sem pre, subm eter-se-á à m inha vontade.

Para o convencer, eu disse:

-Joab sabe que eu nunca esqueci o fato de ele ter assassinado Abner, e sabe que está em m eu poder levá-lo a j ulgam ento e m andá-lo m atar por esse crim e. E ele tam bém sabe que não resta nada que m e im peça de o fazer, um a vez que ele m atou Absalão contra a m inha ordem expressa.

Enquanto falava, eu não sabia o que, m ais tarde, am argam ente descobri: que a autoridade deserta um rei m oribundo. À prim eira oportunidade, Joab, agindo com a m esm a crueldade que sem pre dem onstrara, assassinou Am assa, trespassando-o, tal com o trespassara Abner e Absalão, com a sua própria espada.

Quando m e trouxeram a notícia de que Am assa fora assassinado, eu não senti nada, não era capaz de chorar.

Pensei: « Tenho servido o Senhor todos os m eus dias, e nos últim os, quando estou fraco, Ele visita-m e com torm entos.»

Um a voz soou-m e ao ouvido: « Am aldiçoa Deus e m orre.»

E perguntei-m e porque é que eu não o deveria fazer, j á que todos conspiravam para m e enganarem e m e trazerem sofrim ento: Absalão, que eu am ava m ais do que a glória, e que procurou m atar-m e; Am assa, que eu escolhera para ser o m eu apoio nos m eus últim os dias, fora brutalm ente arrancado de m im , por Joab, que eu há m uito odiava, e que - eu via agora - retribuía esse ódio com um a m edida acrescentada.

Pensei nas horas de am or com Betsabé, e agora a m inha carne cheirava m al.

Recordei as palavras de Chim ei, à m edida que eu fugia à frente de Absalão: « Foste apanhado na tua própria perversidade e afogas-te no sangue que derram aste.»

E, no entanto, eu não fiz senão o que tinha a fazer.

- Jonadab veio à m inha presença, m eneando o traseiro, contorcendo-se de prazer, com o o portador de m ás notícias. Falou-m e de traição, da form a com o surpreendera Abisag com o m eu filho Adonias.

Eu disse:

- Eles são j ovens, e eu sou velho. É natural.

Quando a rapariga se apresentou perante m im , não a repreendi, e coloquei a boca entre os seus seios.

- Conforta-m e - disse eu. - Não tenho refúgio senão em ti. Eu tinha frio e ela aqueceu-m e.

- Sei que não m e am as - disse eu.

Salom ão entrou no m eu quarto. •&

- Não - disse eu -, ainda não estou m orto. Tens de esperar um pouco m ais. Lam ento decepcionar-te.

Ele fez um a vênia, educadam ente. Trata-m e com um a reverência intolerável.

Pensei: « porque não deverá Adonias suceder-m e, em vez de Salom ão? Porque não deverá ele casar-se com Abisag após a m inha m orte?» .

Salom ão leu-m e os pensam entos. Em palideceu. Lançou-m e um olhar em que, pela prim eira vez, eu li algo de hum ano: estava im pregnado de m alícia. Em seguida a farsa prosseguiu. Fingiu que não sabia o que eu estava a pensar. Falava solicitam ente. Mas, por um m om ento, perguntou-se se deveria pegar na alm ofada que estava atrás da m inha cabeça e asfixiar-m e.

Serão as m inhas noites um antegosto da m orte? Não estou nem a dorm ir nem acordado. Será esse o estado dos m ortos, apanhados e condenados a viverem num m undo crepuscular, no qual os m ovim entos da carne são tristes e cansadas recordações, tristes porque j á não são possíveis de alcançar, cansadas devido à sua persistência? Neste m eio m undo, eu flutuo, das noites frias e solitárias das m ontanhas de Judá, onde os lobos uivam , e o pêlo áspero dos m eus cães se com prim e contra os m eus m em bros, ao doce bem -estar que se seguia aos m om entos de am or com Jónatas. Mical revela a sua nudez e nega-m e que a possua. Betsabé rende-se com pletam ente a m im , para que eu m e torne seu prisioneiro. E Absalão, que eu am ei m ais do que a qual quer outro ser, vira para m im as facas aguçadas do seu olhar e diz, na voz calina da realidade inegável: « o filho m atará o pai, pois assim está escrito.”

Abisag, nos m eus braços ressequidos, é todos aqueles que eu am ei, e nenhum deles.

Laís aperta-se contra m im , e m urm ura: « Se não tivesses sido rei, David, que felizes poderíam os ter sido!» , e a cabeça ensangüentada de Am assa, bela com o todas as coisas quebradas, vira para m im olhos de censura, m as não encontra palavras para dizer.

Ouvi um grande grito vindo da cidade, um grito de aclam ação, um grito daqueles que m uitas vezes conheci. Mas não sabia se era na cidade, ou se era com o as m inhas outras vozes.

Por isso, deixei-m e ficar deitado, com o um a criança pequena que receia o terror da noite.

Quando Jonadab surgiu perante m im , não ousei perguntar-lhe o que era o grito, com receio de que não tivesse havido nenhum .

- Porque choras, m eu rei e senhor? Mas eu não disse nada.

- O rei ouviu um grande clam or vindo da cidade? E o rei não está ansioso por saber o que era?

Pensei: « esta criatura é m inha. No entanto, há troça na sua voz» .

- O m eu rei e senhor não ouviu?

- Sam uel falou-m e - disse eu. - Ele fez de m im servo do Senhor . e instrum ento da Sua vingança.

Mas talvez eu não tenha pronunciado estas palavras, pois Jonadab continuava com o se eu não tivesse dito nada.

- Adonias - disse ele - estava a preparar-se para se aclam ar rei. Quando Betsabé, a rainha, soube disso, ordenou que trouxessem Salom ão para o local em frente da Arca da Aliança, e, a ordem sua, os sacerdotes anunciaram que tu, sendo avançado em anos, tinhas nom eado Salom ão para reinar em teu lugar, e para ser rei de todo o Israel e de Judá.

- E Adonias?

- Fugiu para um refúgio, ninguém sabe onde.

Assim , disse eu - ou será que pensei? - Salom ão não tem necessidade de m e m atar agora.

Eu disse:

- Não tenho dúvidas de que servirás Salom ão com o m e serviste a m im .

- O rei tem algum a ordem a dar ao seu servo?

- Quem sou eu para dar ordens?

« Certam ente» , pensei, « que todo o hom em cam inha num espetáculo vão. Acum ula tesouros e riquezas e não sabe quem os colherá» .

E agora, Senhor, Senhor, por que espero?

Sou um hóspede aqui, com o todos os m eus antepassados foram , e estou pronto para a longa noite e para a escuridão que tudo cobre...

 

Epílogo

São estas as palavras de Aim aás, filho de Abiatar, o sacerdote:

O nobre rei David, servo do Senhor, morreu após ter reinado quarenta anos em Israel, sete em Hebron e trinta e três em Jerusalém.

E todo o povo chorou a sua morte, e quem mais chorou pareceu ser o rei Salomão.

Salomão reinou em seu lugar, e os homens acreditavam que era por vontade de David e, assim, aceitaram-no. E ninguém questionou a sua autoridade, nem sequer aqueles que pensavam de outra forma.

Quando Adonias, irmão do rei, que David amava, procurou a mão da concubina do pai, Abisag, a sunamita, Salomão sentiu ciúmes e ordenou que o irmão fosse condenado à morte, e assim foi imediatamente feito, pela mão ; de Benaías, filho de Joiadá, um homem sanguinário. E Salomão tomou Abisag, violou-a e atirou-a para as ruas como uma prostituta comum.

Então Salomão virou-se para o meu pai, Abiatar, o sacerdote, que servira David desde que este escapara à raiva de Saul, e enviou-o para o exílio. Não ousou matá-lo, porque ele trouxera a Arca da Aliança para Jerusalém, mas exilou-o porque ele era amigo do príncipe Adonias, declarando, no entanto, que o fazia para cumprir a palavra do Senhor em relação à casa de Eli, que é a casa de meu pai, em Silo. Mas tal não era verdade.

Em seguida Salomão matou Chimei, que amaldiçoara seu pai naqueles dias negros da revolta de Absalão contra ele, e declarou que o fizera para vingar o insulto proferido contra David; e que David lhe ordenara que o fizesse, pois David jurara poupá-lo enquanto ele próprio vivesse.

237

Salom ão receava, creio, sentiu um hom em tím ido. que a tribo de Benj am im o odiasse pela m orte de Chim ei, e, por isso, atribuiu a culpa a seu pai David.

Então Salom ão enviou Benaías, filho de j oiadá, contra Joab, o general do exército. E Joab fugiu à sua frente para o tabernáculo do Senhor e agarrou-se à arm ação do altar, m as Benaías m atou-o aí m esm o.

E Salom ão voltou a declarar que, ao ordenar tal coisa, estava a obedecer à vontade do pai, David, porque Joab assassinara Abner e Am assa, e não estava certo que esta cabeça grisalha descesse à sepultura em paz.

Mas não sei se David ordenara tal coisa, nem se Salom ão dizia a verdade sobre este assunto. Se o fez, não disse toda a verdade, um a vez que, aos olhos de David, o m aior crim e que Joab com eteu foi o assassínio de Absalão, seu filho am ado; e Salom ão não m encionou tal.

Assim , parece-m e que, neste aspecto, Salom ão tam bém m entiu.

Salom ão virou-se igualm ente contra sua m ãe, Betsabé, e ordenou-lhe que se retirasse do palácio e se lim itasse à sua própria casa, porque ela insistira com ele a favor do casam ento de Adonias com Abisag. Ela irrom peu em fúria e j urou que ele era filho do pecado, porque ela e David tinham enganado Urias, o hitita, seu prim eiro m arido.

Então Salom ão declarou que o Senhor lhe prom etera grande prosperidade e riquezas acim a das que nenhum hom em em Israel gozava, e que lhe assegurara sabedoria acim a de todos os outros, e que, por isso, ele construiria um tem plo ao Senhor, que fosse agradável aos olhos do Senhor, e que David fora proibido de construir, por ser um hom em sanguinário.

E assim o tem plo do Senhor, com o toda a glória de Salom ão, foi fundado sobre um a m entira.

Eu, Aim aás, filho de Abiatar, o sacerdote, escrevo estas palavras no Egito, para onde fugi da vingança de Salom ão, em bora os agentes de Benaías m e tivessem perseguido até aqui, e m e tivessem m atado, não fosse a proteção do Senhor Deus de Israel, e de outros deuses, nos quais necessito confiar enquanto residir nesta terra estrangeira, para que todos saibam através de m im que Salom ão é um sepulcro caiado, e que, pela sua hipocrisia, o Senhor destruirá a sua casa, apesar dos grandes e virtuosos serviços prestados por seu pai David, cuj o testam ento salvei dele, para que todos conheçam Salom ão por aquilo que é, e David por aquilo que foi.

E escrevi estas palavras livre de qualquer perversidade, e sim plesm ente para honrar o Senhor dos Exércitos, cuj o nom e sej a abençoado, dando testem unho da Sua verdade, que sobrevive às palavras dos hom ens.

Fim

Título do original em inglês: King David

Você terminou Rei Davi

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