Relações étnico-raciais, de gênero e sexualidade: perspectivas contemporâneas

Introdução Aparecida de Jesus Ferreira

Introdução

 

Este livro tem como principal interesse apresentar o NUREGS – Núcleo de Relações Étnico-Raciais, de Gênero e Sexualidade para a comunidade acadêmica, pesquisadores, demais Núcleos que tratam de temas relacionados e interessados no tema, bem como divulgar pesquisas e reflexões sobre raça, gênero e sexualidade.

Os capítulos apresentados a seguir são de pesquisadores que fazem parte do NUREGS, de convidados e de quem colaborou com as atividades que o NUREGS vem promovendo desde 2010. Os pesquisadores que colaboraram com essa coletânea também estão envolvidos em programas de pós-graduação em diversas universidades no Brasil.

O livro se divide em três partes. A primeira traz resultados de pesquisas e reflexões sobre relações raciais e inicia com a proposta do capítulo escrito por Paulo Vinicius Baptista da Silva que discute as relações entre a literatura oral afro-brasileira e a educação. O capítulo propõe que valorizar as origens afro-brasileiras é importante para ressignificar o que é ser negro no Brasil e o que é significativo para os alunos negros, como via de identificação positiva de suas origens e construção da alteridade. As formas de narrativa da literatura oral afro-brasileira podem ser ponto de partida para a estruturação da alteridade. A análise dos aspectos formais e narrativas se relaciona com a “alfabetização da diáspora”, isto é, com o desenvolvimento de habilidades para a leitura de signos culturais relacionados à vida das crianças negras, sendo que os aspectos estéticos e lúdicos das histórias são elementos para afirmação da diversidade. O capítulo demonstra que a análise das histórias também foca na possibilidade dada aos alunos de elaborar uma noção de “branquidade” e estabelecer uma cidadania cultural que afirme a diferença e não categorize o outro como objeto de avaliação.

O capítulo escrito por Ione da Silva Jovino apresenta resultados de uma pesquisa formulada com base na necessidade de visibilizar a presença da criança negra no século XIX, buscando configurar a infância a partir desse recorte. A autora mostra de que maneira as crianças negras são vistas utilizando imagens produzidas no século XIX, tendo como ponto de partida as reflexões feitas a partir da análise de gravuras de Jean-Baptiste Debret e retratos de Militão Augusto de Azevedo. Ione busca estabelecer uma “discussão” com a história das crianças e da infância no Brasil, destacando a importância da imagem para a compreensão da construção histórica da infância dos negros brasileiros. Partindo de uma proposta de análise, pela qual não se buscou o que as imagens escondiam, mas o que revelavam das modalidades e possibilidades de existência da infância negra no século XIX, observou-se a literatura sobre escravidão para buscar nela a infância escrava que aparecia nas famosas pranchas de Debret. A autora também encontra outras imagens que mostram outros aspectos da infância negra, o que resultou na verificação dos retratos produzidos por Militão, que mostram crianças negras bem diferentes das retratadas nas primeiras imagens, pertencentes a famílias ou comunidades que recorreram ao recurso tecnológico da fotografia para guardar suas memórias por meio da perpetuação das imagens das crianças. As conclusões a que Ione chega dão visibilidade ao sentimento da infância negra, evidenciado pelos modos específicos de cuidar das crianças, preservados e recriados pelos negros no contexto escravista brasileiro.

A segunda parte do livro traz pesquisas e reflexões sobre as relações de gênero. O capítulo escrito por Édina Schimanski e Tereza Lopes Miranda tem como objeto de estudo as questões relacionadas ao gênero e suas contradições no contexto social a partir das relações estabelecidas entre homens e mulheres na sociedade. O texto é centrado na conceituação de gênero, buscando uma interlocução direta com o debate atual acerca do tema, portanto as autoras compreendem que falar sobre gênero implica a priori discorrer sobre identidade de gênero, a qual diz respeito à percepção subjetiva de ser masculino ou feminino, conforme os atributos, o comportamento e os papéis convencionalmente estabelecidos para homens e mulheres no contexto social.

Pascoalina Bailon de Oliveira Saleh analisa anúncios de carros veiculados na mídia impressa e televisiva, enfocando os mecanismos linguísticos, discursivos e textuais neles mobilizados a fim de explicitar o papel da linguagem nas configurações de identidade de gênero nessas propagandas. A linguagem é tomada na sua condição de prática social, a partir da qual as relações sociais se definem e, portanto, os sentidos e os sujeitos são constituídos. Dessa forma, Pascoalina percebe que o sentido não está na materialidade do texto em si, mas na relação que este mantém com quem o produz, com quem o lê ou escuta, com outros textos e com outros discursos possíveis. Isso significa tomar não só as circunstâncias de enunciação imediatas, mas também o contexto social, histórico e ideológico como constitutivos da linguagem e do próprio sujeito, entendendo-se a ideologia não como ocultação dos sentidos, mas como mecanismo que produz a naturalização dos sentidos (ORLANDI, 1996). Nessa perspectiva o anúncio publicitário é entendido como uma prática discursiva cujo objetivo é ofertar o produto, ou seja, apresentá-lo para que seja adquirido, conforme a ótica de mercado (CAROZZA, 2010). Com base na análise, a autora conclui que, embora os anúncios de carro projetem tanto uma identidade masculina quanto feminina, eles são predominantemente dirigidos aos homens, cabendo à mulher a posição de “carona”, tanto no momento de utilizá-lo quanto no momento de escolhê-lo.

O capítulo escrito por Marly Catarina Soares aborda as personagens femininas do romance A Hora da Estrela, de Clarice Lispector: Macabéa, as quatro Marias, Dona Carlota, a Tia e Glória. Todas apresentam características de quem vive em situação de marginalidade tanto no aspecto econômico, como no social e profissional. São mulheres que não estudaram, não têm profissão qualificada e não se casaram. Macabéa é uma datilógrafa medíocre, as Marias trabalham como balconistas, Glória é secretária, mas se utiliza de seus atributos físicos para atingir seus objetivos, e Dona Carlota é uma ex-prostituta que ganha a vida como cartomante. Todas procuram sobreviver num mundo hostil e não há qualquer indício de que o destino dessas mulheres possa mudar, tirando-as da mediocridade em que vivem. No filme de Suzana do Amaral, a situação das personagens femininas segue a mesma trajetória de mediocridade apresentada no romance. A autora promove uma discussão sobre a (des)construção da identidade feminina no romance e no filme de mesmo título.

Na terceira parte do livro, o artigo escrito por Alexandre Sebastião Ferrari Soares analisa as matérias jornalísticas da segunda metade das décadas de 1980 e 2000, mais especificamente entre os anos de 1985-1990 e 2005-2010, veiculados por meios de comunicação de circulação nacional, para, entre outros objetivos, compreender como os sujeitos homossexuais foram ou são construídos nestes meios de comunicação e para compreender os efeitos de sentido que são produzidos sobre esses sujeitos. Além disso, já que o autor analisa dois corpora distintos, produzidos com um intervalo de aproximadamente vinte anos, o autor pode perceber quais deslocamentos de sentido foram realizados sobre esses sujeitos. Para tanto ele usa como orientação teórica a análise de discurso francesa, cuja perspectiva é de que o sujeito e o sentido se constituem ao mesmo tempo, isto é, o sujeito se significa ao dar sentido.

Jamil Cabral Sierra apresenta em seu capítulo uma campanha publicitária de prevenção contra HIV/Aids entre homossexuais e tenta mostrar, a partir de Foucault, como os enunciados de prevenção do corpo articulam, na contemporaneidade, representações da homossexualidade que continuam sustentando o pavor ao que é considerado diferente e negando a multiplicidade sexual se ela estiver escapando à norma do padrão de consumo e da consciência burguesa. Desse modo, Jamil demonstra que esses enunciados de prevenção do corpo reforçam os processos normalizadores de nossa época, ajustando os corpos e as práticas sexuais/afetivo-amorosas às reconfigurações biopolíticas de gerenciamento da vida e de controle da subjetividade dos sujeitos.

O capítulo escrito por André Luiz Sena Mariano procura discutir, por meio de um levantamento bibliográfico, a inserção do multiculturalismo na pesquisa sobre formação de professores. O autor estabeleceu um recorte temporal entre os anos de 2000 e 2006 e elegeu como fonte de coleta de dados os trabalhos apresentados na ANPEd e no ENDIPE e artigos publicados em periódicos com foco na discussão do multiculturalismo. É possível apontar que há uma polissemia entre os estudos selecionados, como, por exemplo, nas perspectivas multicultural crítica, intercultural e pós-colonial. O autor constatou que os resultados dos textos selecionados revelam um tratamento mais próximo de uma acepção conservadora e encerra ressaltando a importância do multiculturalismo crítico, sobretudo do conceito de identidade de fronteira, bem como deve ser dado maior destaque às questões culturais na formação de professores, ao invés de restringir a preocupação às discussões alusivas às múltiplas acepções de multiculturalismo.

Os temas deste livro certamente possibilitam olhar para a escola e a sociedade tentando refletir e perceber possibilidades de entender o contexto em que estamos inseridos, atuando com um olhar questionador e propondo novas atuações para as questões de raça, gênero e sexualidade.

Aparecida de Jesus Ferreira

Professora Associada da UEPG