Robur, o Conquistador

Jules Verne · Capítulo 12 de 18

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Robur, o Conquistador

Capitulo XII: De Como o Engenheiro Robur Procede, Como Se Quizesse Concorrer para um Premio Monthyon

CAPITULO XII

DE COMO O ENGENHEIRO ROBUR PROCEDE,

COMO SE QUIZESSE CONCORRER PARA UM

PREMIO MONTHYON

 

N’este ponto da viagem de circumaviação do Albatrós, é permittido fazer as seguintes perguntas:

Quem é afinal esse Robur, cujo nome se não conhece até agora? Passa a sua vida nos ares? A sua aeronave não descança nunca? Não tem um retiro em qualquer logar inaccessivel, onde, embora não precise de descançar, vá pelo menos abastecer-se? Seria espantoso se assim não fôsse. Os mais poderosos voadores teem sempre um abrigo ou um ninho em qualquer parte.

Além d’isso, o que pretendia o engenheiro fazer d’aquelles dois incommodos prisioneiros? Pretendia conserval-os em seu poder, condemnal-os á aviação perpetua? Ou então, depois de os haver passeado por sobre a Africa, a America, a Australia, o Oceano Indico, o Atlantico, o Pacifico, para os convencer de vez, mesmo a despeito d’elles, dar-lhes liberdade, dizendo:

—Agora, meus senhores, espero que se mostrarão menos incredulos com respeito ao “Mais pesado que o ar„!

Em todo o caso, o tal ninho, a ave Robur não se incommodou em o procurar na fronteira septentrional da Africa. Contentou-se com passar o fim d’aquelle dia por sobre a regencia de Tunis, desde o cabo Bon até o cabo Carthago, ora esvoaçando, ora pairando, á mercê de um capricho. Um pouco depois, dirigiu-se para o interior, e enfiou o admiravel vale da Medjerda, seguindo o seu caminho pardacento, perdido entre os arbustos de cactus e loureiros rosas. E que centos de papagaios elle não espantou, que pousados nos fios telegraphicos pareciam esperar pelos despachos, na sua passagem, para os levar nas suas azas!

Depois, tendo vindo a noite, o Albatrós balouçou sobre as fronteiras da Krumeria, e, se ainda restava um krumir, este não deixou decerto de se prostrar em terra, invocando Allah, á apparição d’aquella aguia gigantesca.

No dia seguinte de manhã era Bone, e as graciosas collinas dos arredores; era Philippeville, agora uma pequenina Argel, com os seus novos caes em arcadas, as suas admiraveis vinhas, cujas cepas eriçam todo aquelle campo, que parece recortado no campo bordelez, ou nos torrões da Borgonha.

Este passeio de quinhentos kilometros, por sobre a grande e pequena Kabylia, terminou ao meio dia á altura da Kasbah de Argel.

Que espectaculo para os passageiros da aeronave! o ancoradouro aberto entre o Cabo Matifú e a Ponta Pescada, esse littoral ornado de palacios, de marabuts, de casas de campo; esses valles caprichosos, revestidos nos seus mantos de vinhas; esse Mediterraneo, tão azul, sulcado pelos vapores transatlanticos, que parecem lanchas a vapor!

E foi assim até Oran, a pittoresca, cujos habitantes, mais retardatarios nos jardins da cidade, puderam vêr o Albatrós confundir-se com as primeiras estrellas da noite.

Se Uncle Prudent e Phil Evans perguntassem a si proprios a que phantasia obedecia o engenheiro Robur, ao passear a prisão volante por sobre a terra argelina,—essa continuação da França do outro lado do mar, que mereceu o nome de lago francez,—deviam ter pensado que a sua phantasia estava satisfeita, duas horas depois do pôr do sol.

Um movimento do leme acabava de encaminhar o Albatrós para o suéste, e no dia seguinte, depois de se ter desembaraçado da parte montanhosa do Tell, viu o astro do dia levantar-se sobre as areias do Sahará.

Eis o itinerario do dia 8 de julho. Vista da pequena aldeia de Geryville, creada, como Laghouat, sobre o limite extremo do deserto, para facilitar a conquista ulterior da Kabylia. Passagem do desfiladeiro do Stillen, com certa difficuldade, contra uma brisa violentissima. Travessia do deserto, ora lenta, por sobre verdejantes oasis ou ksars, ora com uma rapidez fogosa, que vencia o vôo das gypaétas. Muitas vezes mesmo, foi preciso fazer fogo contra temiveis aves, que, aos bandos de doze e de quinze, não receavam precipitar-se sobre a aeronave, com grande espanto de Fricollin.

Mas, se as gypaétas não podiam responder senão com gritos horrorosos, com bicadas e patadas, os indigenas não menos selvagens, não lhes pouparam tiros de espingarda, sobretudo quando passavam a montanha do sal, cujo arcabouço, verde e côr de violeta, transparecia sob o véo branco que a cobria.

Dominavam então o grande Sahará. Alli se viam os restos dos bivaques de Abdel-Kader. Alli o paiz é sempre perigoso para o viajante europeu, principalmente na confederação do Beni-Mzal.

O Albatrós teve então de subir ás zonas mais altas, afim de escapar a um assalto do simún que passeava uma lamina de areia avermelhada á superficie do solo, como faria um excesso de maré á superficie do Oceano. Em seguida, os planaltos desolados da Chebka espraiaram o balastro de lavas ennegrecidas até ao fresco e verde valle de Ain-Massin. Seria difficil imaginar a variedade d’aquelles territorios que o olhar podia abraçar no seu conjunto. Ás collinas cobertas de arvores e arbustos succediam-se longas ondulações pardacentas, ás pregas, como um albornoz arabe, cujos soberbos recortes accidentavam o solo. Ao longe viam-se as “oueds„ de aguas torrenciaes, bosques de palmeiras, grupos de pequenas cabanas sobre um monticulo, em volta de uma mesquita, e entre outras Metliti, onde vegeta um chefe religioso, o grande Marabut Sidi Chick.

Antes da noite, alguns centos de kilometros foram transpostos por sobre um territorio chatissimo, sulcado de grandes dunas. Se o Albatrós tivesse querido fazer alto, teria pousado em terra no fundo do oasis de Marglá, sob um immenso bosque de palmeiras. A cidade apresentou-se muito visivel com os seus tres quarteirões distinctos, o antigo palacio do sultão, especie de Kasbah fortificada, as suas casas construidas de tijolos que o sol se encarregou de cozer, e os seus poços artesianos, abertos no valle, onde a aeronave podia refazer a sua provisão liquida. Mas graças á sua extraordinaria velocidade, as aguas do Hydaspe, sugadas no valle de Cachemir, enchiam ainda os seus depositos, no meio dos desertos de Africa.

Teria o Albatrós sido visto pelos Arabes, Mozabitas, e negros que habitam o oasis de Marglá? Certamente que sim, porque foi saudado por alguns centos de tiros de espingarda, cujas balas voltaram á terra, sem o haverem alcançado.

Veiu depois a noite, essa noite silenciosa do deserto, cujos segredos Felicien David interpretou tão bem!

Durante as horas seguintes, desceram para o sudoéste, cortando os caminhos do El-Goléa, um dos quaes foi reconhecido em 1859, pelo intrepido viajante Francisco Duveyrier.

A escuridão era profunda. Nada puderam vêr do railway transsahariano em construcção, segundo o projecto Duponchel, longa fita de ferro que deve ligar Argel a Tombuctú por Laghuat, Gardaia, e alcançar mais tarde o golpho da Guiné.

O Albatrós entrou então na região equatorial, para além do tropico de Cancer. A mil kilometros da fronteira septentrional do Sahará, transpunha o caminho em que o major Lang encontrou a morte em 1846; cortava os caminhos das caravanas de Marrocos ao Sudão, e sobre essa porção de deserto que os Tuaregs espumam, ouvia o que se chama o “canto das areias„, murmurio dôce e plangente que parece surgir do solo.

Apenas se deu um incidente: uma nuvem de gafanhotos se ergueu no espaço, e cahiu uma tal carregação d’elles a bordo, que o navio aereo esteve prestes a sossobrar. Trataram porém de deitar fora o excesso da carga, menos alguns centos de que François Tapage fez provisão. E cozinhou-os de um modo tão succulento, que Fricollin esqueceu por momentos os seus transes perpetuos.

—Isto vale por camarões! dizia elle.

Estavam então a mil e oitocentos kilometros do oasis de Marglá, quasi no limite norte d’esse immenso reino do Sudão.

Pelas duas da tarde appareceu uma cidade no cotovello formado por um grande rio. Era o rio Niger. A cidade, Tombuctú.

Se até então não tinham tido que visitar essa Méka africana senão os viajantes do Mundo Antigo, os Batuta, os Khazan, os Imbert, os Mungo-Park, os Adams, os Laing, os Caillé, os Barth, os Lenz, n’esse dia, graças aos acasos da mais singular aventura, dois americanos podiam falar d’ella de visu, de auditu e de olfactu, no seu regresso á America, se lá regressassem de facto.

De visu, porque o seu olhar poude chegar a todos os pontos d’aquelle triangulo de cinco a seis kilometros, formado pela cidade; de auditu, porque esse dia era um dia de grande mercado, e faziam uma algazarra espantosa; de olfactu, porque o nervo olfactivo não podia ser muito agradavelmente affectado pelos odores da praça de Yubu-Kamo, onde está o mercado de carne, perto do palacio dos antigos reis So-mais.

Em todo o caso o engenheiro entendeu não dever deixar ignorar ao presidente e ao secretario do Weldon-Institute que elles tinham a felicidade extrema de contemplar a Rainha do Sudão, agora em poder dos Tuaregs de Taganet.

—Meus senhores, Tombuctú! lhes disse no mesmo tom em que dois dias antes lhes dissera:

“A India, meus senhores!„

Depois continuou:

—Tombuctú, aos 18 graus de latitude norte, e 5°,56´ de longitude a oéste do meridiano de Paris, com uma costa de duzentos e quarenta e cinco metros acima do nivel médio do mar. Importante cidade de doze a trese mil habitantes, outr’ora illustrada pela arte e pela sciencia! Talvez quizessem fazer alto alli durante alguns dias?

Uma tal proposta não podia ser feita senão por ironia, pelo engenheiro.

—Mas, continuou elle, seria perigoso para os extrangeiros, no meio dos negros, dos Berberes, dos Fullanes, e dos Arabes que a habitam, sobretudo se considerarmos que a nossa chegada em aeronave lhes poderia desagradar.

—Meu caro senhor, respondeu Phil Evans no mesmo tom, para termos o prazer de o deixar, arriscar-nos-hiamos de bom grado a sermos mal recebidos pelos indigenas. Prisão por prisão, mais vale Tombuctú que o Albatrós!

—É questão de gôsto, replicou o engenheiro. Em todo o caso, não tentarei a aventura, porque tenho de responder pela segurança dos hospedes que me fazem a honra de viajar commigo ...

—De maneira que, sr. engenheiro Robur,—disse Uncle Prudent, não podendo conter a indignação,—de maneira que, não se contenta com ser carcereiro? Ao attentado junta o insulto?

—Oh! a ironia unicamente!

—Não ha armas a bordo?

—Ha sim! um arsenal completo!

—Dois revolvers bastariam, se eu tivesse um e o senhor outro!

—Um duello! exclamou Robur, um duello, que poderia produzir a morte de um de nós!

—Que a produzia com certeza!

—Pois, meu caro presidente do Weldon-Institute, não pode ser. Prefiro conserval-o vivo.

—Para ter a certeza de viver tambem! É prudente!

—Prudente ou não, é isso que me convem. Fica-lhe a liberdade de pensar de outro modo e de se queixar a quem quizer, se o pode fazer.

—Já o fiz, engenheiro Robur!

—Serio?

—Pois era tão difficil, quando atravessavamos as regiões habitadas da Europa, deixar cair um documento ...

—E os senhores fizeram isso? disse Robur, arrebatado por um irresistivel movimento de colera.

—E se o tivessemos feito?

—Se o tivessem feito ... mereceriam ...

—Mereceriamos o que, sr. engenheiro?

—Ir fazer companhia ao documento, pela borda fora!

—Ora experimente lá! exclamou Uncle Prudent. Já o fizemos!

Robur avançou para os dois collegas. A um gesto seu Tom Turner e alguns dos seus camaradas tinham acudido. Sim! o engenheiro tivera um desejo furioso de pôr em execução a sua ameaça; mas sem duvida, no receio de succumbir, entrou precipitadamente no seu beliche.

—Ora bem! disse Phil Evans.

—E o que elle não se atreveu a fazer, respondeu Uncle Prudent, atrever-me-hei eu a fazel-o! sim, fal-o-hei!

N’aquelle momento, a população do Tombuctú reunia-se nas praças, nas ruas, sobre os terraços construidos em amphitheatro. Nos ricos bairros de Sankore e de Sarahama, como nas miseraveis choças conicas do Ragnidi, os padres lançavam do alto dos minaretes as suas mais violentas maldições sobre o monstro aereo. Era mais inoffensivo isso que balas de espingarda.

Assim foi até o porto de Kabara, situado no cotovello formado pelo Niger, e onde o pessoal das flotilhas foi posto em movimento. Se o Albatrós tivesse pousado em terra, teria sido feito em pedaços.

Durante alguns kilometros, bandos atordoadores de cegonhas, de francolins, e de ibis o escoltaram, luctando em velocidade com elle; mas o seu vôo rapido em breve os poz a distancia.

Quando veiu a noite, foram os ares atordoados com o mugir de numerosos rebanhos de elephantes e bufalos, que percorriam aquelle territorio, cuja fecundidade é verdadeiramente maravilhosa.

Durante vinte e quatro horas, toda a região, encerrada entre o meridiano zero e o segundo grau no colchete do Niger, se desenrolou sob o Albatrós.

Na realidade, se algum geographo tivesse tido á sua disposição um tal apparelho, com que facilidade poderia proceder ao levantamento topographico d’aquelle paiz, obter as cotas da altitude, fixar o curso dos rios e dos seus affluentes, determinar a posição das cidades e das aldeias! E desappareceriam então dos mappas da Africa central esses claros a tintas pallidas, essas linhas a pontos, e essas designações vagas que constituem o desespero dos cartographos!

No dia 11, pela manhã, o Albatrós transpoz as montanhas da Guiné septentrional, apertada entre o Sudão e o golpho que usa o seu nome. No horisonte perfilavam-se confusamente os Montes Kong do reino de Dahomey.

Depois de haverem sahido de Tombuctú, Uncle Prudent e Phil Evans haviam podido notar que a direcção tinha sido sempre de norte a sul. D’ahi a conclusão de que, se a direcção se não modificasse, encontrariam, seis graus além, a linha equinoxial. Iria ainda o Albatrós abandonar os continentes e lançar-se, não sobre o mar de Behring, ou mar Caspio, ou mar do Norte, ou Mediterraneo, mas por sobre o Oceano Atlantico?

Esta perspectiva não era para tranquillisar os dois collegas, cujas probabilidades de fuga se tornavam então nullas.

Comtudo o Albatrós caminhava de vagar, como se hesitasse no acto de deixar a terra africana.

Quereria o engenheiro Robur voltar atraz? Não! Mas a sua attenção era particularmente atrahida por aquelle paiz que elle então atravessava.

Sabe-se, e elle sabia tambem, o que era o reino de Dahomey, um dos mais poderosos do littoral occidental da Africa. Apesar de assaz forte para poder luctar com o seu vizinho, o reino dos Achantis, os seus limites são comtudo restrictos, pois que não conta mais de cento e vinte leguas de sul a norte e sessenta de léste a oéste; mas a sua população comprehende de setecentos a oitocentos mil habitantes, depois que annexou a si os territorios independentes de Ardrah e de Wydah.

Apesar de não ser grande, aquelle reino de Dahomey, tem dado muitas vezes que falar de si. É celebre pelas cruezas horriveis que assignalam as suas festas annuaes, pelos seus sacrificios humanos, e hecatombes espantosas, destinadas a honrar o soberano que se fina e o que o substitue. É mesmo de boa cortezia que quando o rei de Dahomey recebe a visita de algum alto personagem ou de um embaixador extrangeiro, lhe faça a surpresa de alguma duzia de cabeças cortadas em sua honra, e cortadas pelo ministro da justiça, o “minghan„, que desempenha perfeitamente as suas funcções de carrasco.

Ora na épocha em que o Albatrós passava a fronteira do Dahomey, acabava de morrer o soberano Bahadú, e toda a população ía proceder á enthronisação do seu successor.

D’ahi um grande movimento em todo o paiz, movimento que não passára desapercebido a Robur.

Com effeito, longas filas de dahomeanos dos campos se dirigiam então para Abomey, capital do reino. Estradas bem tratadas, através vastas planicies cobertas de hervas gigantes, numerosos campos de mandioca, magnificos bosques de palmeiras, coqueiros, mimosas, laranjeiras, mangueiras, tal era o paiz, cujos perfumes subiam até o Albatrós, emquanto que, aos milhares, aos milheiros mesmo, papagaios e cardeaes erguiam vôo de todo aquelle conjunto de verdura.

O engenheiro, curvado sobre o parapeito, absorto nas suas reflexões, poucas palavras trocava com Tom Turner.

Não parecia tambem que o Albatrós tivesse o privilegio de attrahir a attenção d’aquellas massas movediças, as mais das vezes invisiveis sob a abobada impenetravel das arvores. Isso provinha, decerto, de elle se conservar a uma grande altura no meio de ligeiras nuvens.

Pelas onze da manhã appareceu a capital, no seu cinto de muralhas, defendida por um fosso medindo doze milhas em volta, ruas largas e regularmente traçadas sobre um solo chato, grande praça cujo lado norte é occupado pelo palacio do rei.

Este vasto conjunto de construcções é dominado por um terraço, a pequena distancia da casa dos sacrificios. Durante os dias de festa, é do alto d’este terraço que se lançam ao povo prisioneiros mettidos em cestos de junco, e pode-se bem imaginar, infelizmente, a furia com que esses infelizes são feitos em pedaços.

N’uma parte dos pateos que dividem o palacio do soberano, estão alojados quatro mil guerreiros, um dos contingentes do exercito real, dos mais corajosos.

Se é ponto contestavel que haja amazonas no rio d’este nome, não acontece o mesmo no Dahomey. Umas trazem camisa azul, facha azul e vermelha, calção branco raiado de azul, barrete branco redondo, cartucheira presa ao cinto; outras, caçadoras de elephantes, estão armadas com uma pesada carabina, um punhal de lamina curta, e duas pontas de antilope presas á cabeça por um circulo de ferro; umas, as artilheiras, usam tunica parte azul parte vermelha, e por arma um bacamarte, com velhos canos de ferro fundido; outras, finalmente, o batalhão de raparigas, usam tunicas azues, e calções brancos, e são verdadeiras vestaes, puras como Diana, e como ella, armadas de arco e flecha.

Junte-se a estas amazonas cinco a seis mil homens em calças, em camisas de algodão, com um panno em roda da cintura, e temos passado em revista o exercito dahomeano.

Abomey estava n’esse dia absolutamente deserta. O soberano, o pessoal regio, o exercito masculino e feminino, a população, tinha tudo deixado a capital para invadir, a algumas milhas de lá, uma vasta planicie cercada de bosques magnificos.

Era sobre essa planicie que se devia realisar o reconhecimento do novo rei. Era alli que milhares de prisioneiros, feitos nas ultimas razzias, íam ser immolados em sua honra.

Eram cêrca de duas horas quando o Albatrós, chegando á altura d’essa planicie, começou a descer no meio de alguns vapores que o occultavam á vista dos dahomeanos.

Eram uns sessenta mil, vindos de todos os pontos do reino, de Widah, de Kerapay, de Ardrah, de Pombory, das aldeias mais afastadas.

O novo rei, um vigoroso rapagão, chamado Bou-Nadi, da edade de vinte e cinco annos, occupava um morro ensombrado por um grupo de arvores, de amplas ramagens. Em volta d’elle a sua nova côrte, o seu exercito masculino, as suas amazonas, todo o seu povo.

Na base do monticulo, uns cincoenta musicos tocando instrumentos barbaros, dentes de elephantes produzindo sons roufenhos, tambores de pelle de gamo, cabaças, guitarras, campainhas vibradas com um badalo de ferro, flautas de bambu, cujo som agudo dominava todo o conjunto. Depois, a cada instante, descargas de peças, cujos reparos estremeciam, com risco de esmagar os artilheiros; finalmente uma algazarra geral e clamores tão intensos, que dominavam os tiros de polvora.

N’um angulo da planicie, sob a guarda dos soldados, estavam reunidos os captivos encarregados de acompanhar no outro mundo o rei defunto, a quem a morte não deve fazer perder os privilegios de soberania. Nas exequias de Glozo, pae de Bahadú, seu filho enviára-lhe tres mil captivos. Bou-Nadi não podia fazer menos pelo seu antecessor. Pois não eram precisos numerosos mensageiros para reunir não só os Espiritos, mas todos os hospedes do céo, convidados a formar o cortejo do monarcha divinisado?

Durante uma hora não houve mais do que discursos, rengas, phrases cortadas pelas dansas executadas não só pelas bailadeiras de officio, mas tambem pelas amazonas, que n’ellas desenvolvem uma graça toda bellica.

Mas approximava-se o momento da hecatombe. Robur, que conhecia os sanguinarios costumes de Dahomey, não perdia de vista os captivos, homens, mulheres, creanças, reservados para a carnificina.

O minghan estava de pé sobre o outeiro; brandia o sabre de executor, de lamina curva, encimado por uma ave de metal, cujo pêso torna mais certeiro o golpe.

D’esta vez não estava só. Seria insufficiente para a matança. Junto d’elle estavam agrupados uns cem carrascos, destros em decepar cabeças de um só golpe.

No entretanto, o Albatrós approximava-se a pouco e pouco, obliquamente, moderando os seus helices suspensivos e propulsivos. Breve sahiu da camada de nuvens que o occultava a menos de cem metros da terra, e, pela primeira vez, appareceu.

Ao contrario do que succedia habitualmente, os ferozes indigenas não viram n’elle mais do que um ser celeste, descido expressamente para prestar homenagem ao rei Bahadú.

Enthusiasmo indescriptivel, chamamentos interminaveis, supplicas ruidosas, preces geraes, dirigidas a esse sobrenatural hippogrifo que vinha decerto receber o corpo do finado rei para o transportar ás alturas do céo dahomeano.

N’esse momento a primeira cabeça voava sob a espada do minghan. Depois, outros prisioneiros foram trazidos aos centos, deante dos seus horriveis carrascos.

De subito um tiro partiu do Albatrós. O ministro da justiça cahiu, dando com o rosto em terra.

—Boa pontaria, Tom! disse Robur.

—Pás!... Para o monte! respondeu o contramestre.

Os seus camaradas, armados como elle, estavam prestes ao primeiro signal do engenheiro.

Mas, fizera-se um reviramento na multidão. Havia comprehendido. Aquelle monstro alado, não era um Espirito bemfazejo, mas um Espirito hostil a esse bom povo de Dahomey. De modo que em seguida á quéda do minghan, gritos de vingança se ergueram de toda a parte. Quasi immediatamente, rompia uma fusilaria sobre a planicie.

Aquellas ameaças não impediram o Albatrós de descer audaciosamente a menos de cento e cincoenta pés do solo. Uncle Prudent e Phil Evans, fôssem quaes fôssem os seus sentimentos para com Robur, não podiam deixar de se associar a uma obra tão humanitaria.

—Sim! livremos os prisioneiros! exclamaram elles.

—É essa a minha tenção! respondeu o engenheiro.

E as espingardas de repetição do Albatrós, nas mãos dos dois collegas, como tambem nas mãos da tripulação, começaram um fogo tal, que nenhuma bala se perdeu no meio d’aquella massa humana. E mesmo a pequena peça de artilharia de bordo, assentada no angulo mais apertado, enviou a proposito algumas caixas de metralha, que fizeram maravilhas!

Immediatamente os prisioneiros, sem comprehenderem nada d’esse soccorro que lhes vinha do alto, cortaram as prisões, emquanto os soldados respondiam ao fogo da aeronave. O helice anterior foi atravessado por uma bala, emquanto que alguns outros projectis lhe batiam em pleno casco. Até Fricollin, escondido no fundo do seu beliche, esteve para ser alcançado por uma bala através a parede do compartimento.

—Ah! querem experimentar! exclamou Tom Turner.

E descendo ao deposito de munições, voltou com uma duzia de cartuchos de dynamite, que distribuiu pelos seus collegas. A um signal de Robur, aquelles cartuchos foram atirados para cima do outeiro, e, cahindo no solo, rebentaram como pequenas granadas.

Que enorme derrota do rei, da côrte, do exercito, do povo, tomados de um espanto bem justificavel por uma tal intervenção! Todos haviam buscado refugio debaixo das arvores, emquanto que os prisioneiros fugiam, sem ninguem pensar em os perseguir.

Assim foram perturbadas as festas em honra do novo rei de Dahomey. Assim Uncle Prudent e Phil Evans tiveram de reconhecer de que fôrça dispunha um tal apparelho e que serviços elle podia prestar á humanidade.

Em seguida o Albatrós subiu tranquillamente na zona média; passou por cima do Wydah e tinha perdido em breve de vista aquella costa selvagem que os ventos do sudoéste envolveram n’uma ressaca inaccessivel.

Pairava sobre o Atlantico.