Robur, o Conquistador

Jules Verne · Capítulo 5 de 18

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Robur, o Conquistador

Capitulo V: De Como Foi Concedida uma Suspensão de Hostilidades Entre o Presidente e o Secretario do Weldon-Institute

CAPITULO V

 

DE COMO FOI CONCEDIDA UMA SUSPENSÃO

DE HOSTILIDADES ENTRE O PRESIDENTE E O

SECRETARIO DO WELDON-INSTITUTE

 

Com uma venda nos olhos, uma mordaça na bôcca, os pés e as mãos ligados com uma corda, era impossivel verem, falarem, moverem-se. Não era portanto cousa que tornasse acceitavel a situação de Uncle Prudent, de Phil Evans e do creado Fricollin. Além d’isso, não saber quem eram os auctores de um tal rapto, nem para onde os haviam atirado como meros fardos n’um comboio de bagagens; ignorar onde estavam, a que destino estavam reservados, era caso para desesperar o mais paciente da especie ovina, e sabemos que os membros do Weldon-Institute não eram precisamente carneiros na paciencia. Dada a sua violencia de caracter, imagina-se facilmente em que estado devia achar-se Uncle Prudent.

Em todo o caso Phil Evans e elle deviam pensar que lhes seria difficil tomar assento no dia seguinte á mesa da presidencia do club.

Quanto a Fricollin, com os olhos vendados, a bôcca tapada, era-lhe impossivel pensar fôsse no que fôsse. Estava mais morto do que vivo.

Durante uma hora, não se modificou a situação dos prisioneiros! Ninguem os veiu visitar nem dar-lhes a liberdade de movimento e de palavra, de que tanto necessitavam. Estavam reduzidos a suspiros abafados, a exclamações soltas através as mordaças, a sobresaltos de peixes fora d’agua. O que isto indicava de colera muda, de furor concentrado, ou, para melhor dizer, reprimido, é facil de comprehender. Após estes infructiferos esforços, permaneceram algum tempo inertes. E então como lhes faltasse o sentido da vista, procuraram deduzir pelo sentido do ouvido algum indicio do que fôsse esse estado inquietador de cousas. Em vão procuravam, porém, surprehender outro ruido além do interminavel e inexplicavel frrr, que parecia envolvel-os n’uma atmosphera arrepiante.

Comtudo deu-se o seguinte: Phil Evans, procedendo com serenidade, conseguiu alargar a corda que lhe prendia os pulsos. Depois desatou a pouco e pouco o nó; os dedos escorregaram uns por sobre os outros, as mãos tomaram o seu natural desembaraço.

Esfregando-as fortemente, restabeleceu-se a circulação impedida pelos ligamentos. Um instante depois, Phil Evans tinha tirado a venda dos olhos, arrancado a mordaça da bôcca, cortado as cordas com a fina lamina do seu “bowie-knife„. Um americano que não traga sempre na algibeira o seu bowie-knife, não é americano.

Além de que, se Phil Evans conseguira poder mover-se e falar, não conseguira mais nada. Não via cousa alguma, pelo menos n’aquelle instante. A escuridão era completa. Comtudo uma certa claridade filtrava por entre uma especie de setteira aberta na parede, a uns seis ou sete pés de altura.

Houvesse o que houvesse, a verdade é que Phil Evans não hesitou um instante em libertar o seu rival. Alguns golpes de bowie-knife, bastaram para cortar os nós que lhe atavam os pés e as mãos. Immediatamente Uncle Prudent, que estava já meio enraivecido, erguendo-se sobre os joelhos, arrancou a venda e a mordaça, e depois, com voz estrangulada:

—Obrigado! disse.

—Não!... Não ha motivo para agradecimentos, respondeu o outro.

—Phil Evans?

—Uncle Prudent?

—Aqui já não ha o presidente e o secretario do Weldon-Institute; já não ha adversarios.

—Tem razão, respondeu Phil Evans. Estão apenas dois homens que teem de se vingar de um terceiro, cujo attentado exige severas represalias. E esse terceiro ...

—É Robur!...

—É Robur!

Foi um ponto em que os dois ex-concorrentes se acharam no mais completo accôrdo. A este respeito não havia a receiar nenhuma controversia.

—E o seu creado? observou Phil Evans, indicando Fricollin, que soprava como uma phoca. Temos de o desprender.

—Ainda não, respondeu Uncle Prudent. Massar-nos-ha com as suas jeremiadas, e temos mais que fazer do que queixar-nos.

—O que é, Uncle Prudent?

—Libertarmo-nos, se fôr possivel.

—E mesmo que o não seja.

—Tem razão, Phil Evans; mesmo que o não seja!

Quanto a duvidar um instante que esse rapto devesse ser attribuido ao tal extranho Robur, isso não podia passar pela idéa do presidente e do seu collega. Com effeito, se fôssem simples e honrados ladrões, depois de lhes ter roubado relogios, joias, carteiras, bolsas de dinheiro, tel-os-hiam atirado ao fundo do Scheylkill-river, com uma punhalada na garganta, em vez de os encerrar no fundo de ... De que?—Grave questão, na realidade, que convinha illucidar, antes de começar os preparativos de uma evasão com algumas probabilidades de exito.

—Phil Evans, continuou Uncle Prudent, quando sahimos d’aquella sessão, em vez de trocarmos amabilidades, de que não falâmos mais, teria sido melhor não sermos tão distrahidos. Se tivessemos ficado nas ruas de Philadelphia, nada d’isto teria acontecido. Evidentemente esse Robur imaginára o que se ia passar no club; previu a colera que a sua attitude provocante ia levantar; tinha collocado á porta alguns d’esses bandidos, para lhe prestarem auxilio.

Quando deixámos a rua Walnut, aquelles esbirros espiaram-nos, seguiram-nos, e quando nos viram imprudentemente mettidos pelas avenidas de Fairmont-Park, fizeram-nos esta partida.

—De accôrdo, respondeu Phil Evans. Sim, fizemos muito mal em não irmos directamente para as nossas casas.

—Anda-se sempre mal em não andar bem! respondeu Uncle Prudent.

N’esse momento, um longo suspiro se ouviu no canto mais obscuro da cellula.

—O que é? perguntou Phil Evans.

—Nada! Fricollin que sonha.

E Uncle Prudent continuou:

—Entre o momento em que fomos agarrados, a alguns passos da clareira, e o momento em que nos metteram n’este reducto, não decorreram mais de dois minutos. E’ portanto evidente que elles nos não arrastaram para além de Fairmont-Park ...

—E se o tivessem feito, teriamos sentido um movimento de translação.

—De accôrdo, respondeu Uncle Prudent; portanto é fora de duvida que estamos mettidos dentro de um vehiculo,—talvez uma d’essas grandes carroças do campo, ou um carro de saltimbancos ...

—Evidentemente! Se fôsse um barco amarrado ás margens da Schuylkill-river, conhecer-se-hia pelos balanços produzidos pela corrente.

—De accôrdo, completamente de accôrdo, repetiu Uncle Prudent; e entendo que, já que estamos ainda na clareira, é agora o momento preciso de fugirmos, esperando encontrar mais tarde esse Robur ...

—E fazer-lhe pagar caro este attentado á liberdade de dois cidadãos dos Estados Unidos da America!

—Caro ... muito caro!

—Mas quem é esse homem? D’onde veiu? É um inglez, um allemão, um francez?...

—É um miseravel, e tanto basta! respondeu Uncle Prudent. E agora mãos á obra!

E os dois, de mãos extendidas, os dedos abertos, apalparam então as paredes do compartimento, a vêr se encontravam uma juncção ou uma fenda. Nada! Tambem nada a respeito da porta! Estava hermeticamente fechada e seria impossivel arrombar a fechadura. Seria preciso fazer um buraco e safarem-se por elle.

Restava saber se os bowie-knifes poderiam furar as paredes, se as suas folhas não se embotariam ou se partiriam n’aquelle trabalho.

—Mas d’onde vem este fremito que passa? perguntou Phil Evans, muito surprehendido com aquelle frrr continuo.

—De certo que é o vento, respondeu Uncle Prudent.

—O vento? Pareceu-me que até á meia noite estivera tudo tranquillo.

—Evidentemente, Phil Evans. Não sendo o vento, o que queria que fôsse?

Phil Evans, abrindo o melhor ferro do seu canivete, procurou furar a parede, junto da porta. Talvez não fôsse preciso mais do que um buraco, para a abrirem por fora, se a porta estivesse apenas no fecho, ou se a chave tivesse ficado na fechadura.

Alguns minutos de trabalho não tiveram outro resultado além de fazer bôccas na folha, partir-lhe a ponta, e transformal-a em serra de mil dentes.

—Não entra, Phil Evans?

—Não.

—Estaremos nós, por acaso, n’uma cellula de folha de ferro?

—Nada, Uncle Prudent. Estas paredes, quando se lhes bate, não produzem nenhum som metallico.

—N’esse caso é madeira rija?

—Nem ferro, nem madeira.

—Então o que é?

—É impossivel dizel-o; mas, em todo o caso, é uma substancia em que o aço não pode entrar.

Uncle Prudent, n’um impeto de colera, fez juras, bateu com o pé no sobrado sonoro, emquanto com as mãos procurava estrangular um Robur imaginario.

—Tranquillise-se, Uncle Prudent, tranquillise-se! Tente agora pela sua vez.

Uncle Prudent tentou, mas o bowie-knife não poude entrar na parede, que mal conseguiu riscar com as suas melhores laminas, como se ella fôsse de crystal.

Portanto toda a fuga tornava-se impraticavel, admittindo mesmo que pudesse ter sido tentada, aberta que fôsse a porta.

Tiveram de se resignar, por momentos, o que não é para um temperamento yankee, e de esperar tudo do acaso, o que naturalmente repugna a espiritos eminentemente praticos.

Mas não o fizeram sem objurgatorias, palavrões e invectivas violentas contra Robur, o qual não devia ser homem que se commovesse, a deduzir do pouco que elle de si tinha revelado em presença do Weldon-Institute.

Comtudo Fricollin começou por dar demonstrações nada equivocas do seu mal estar. Porque sentisse ou dôres no estomago, ou caimbras no corpo, estorcia-se de um modo lastimoso.

Uncle Prudent julgou dever acabar com aquella gymnastica, cortando as cordas que ligavam o negro.

Talvez se arrependesse; porque foi immediatamente uma lamentação interminavel, em que os esgares do espanto se misturavam com os soffrimentos da fome. Fricollin não soffria mais pelo cerebro do que pelo estomago. Era difficil dizer a qual d’estas duas visceras devia mais o negro o que estava padecendo.

—Fricollin! exclamou Uncle Prudent.

—Master Uncle!... Master Uncle!... respondeu o negro entre dois lugubres gemidos.

—É possivel que estejamos condemnados a morrer de fome n’esta prisão. Mas estamos resolvidos a não succumbir senão quando tivermos exgottado todos os meios de alimentação, capazes de prolongar a nossa vida ...

—Comer-me? exclamou Fricollin.

—Como se faz sempre a um negro em taes circumstancias!... Portanto Fricollin, trata de te fazeres esquecer ...

—Ou então, Fricollin, fazemos-te em fricassé, accrescentou Phil Evans.

E, muito a serio, Fricollin teve medo de ser utilisado para a prolongação de duas existencias, bem mais preciosas que a sua. E limitou-se a gemer in petto.

Comtudo o tempo ía decorrendo, e toda a tentativa para forçar a porta ou a parede tornára-se infructifera. De que era essa parede, impossivel fôra reconhecer. Não era metal, não era madeira, não era pedra. Além d’isso, o sobrado da cellula parecia feito da mesma substancia. Batendo-se com o pé, tinha um som particular, que Uncle Prudent não poude classificar entre os sons conhecidos. Outra observação: por baixo, aquelle sobrado parecia soar no vacuo, como se não estivesse em contacto directo com o chão da clareira. Sim! o inexplicavel frrr parecia acariciar-lhe a face superior. Tudo isso não era tranquillisador.

—Uncle Prudent? disse Phil Evans.

—Phil Evans? respondeu Uncle Prudent.

—Parece-lhe que a nossa cellula tenha mudado de sitio?

—Nada! não me parece!

—Comtudo, por occasião de sermos encarcerados, e nos primeiros momentos, pude notar distinctamente o fresco cheiro da herva e o olor rezinoso das arvores do parque. Agora, por mais que eu aspire o ar, parece-me que todos aquelles cheiros desappareceram ...

—De facto ...

—Como explica isso?

—Expliquemol-o da maneira que quizermos, Phil Evans, excepto pela hypothese de que a nossa prisão tenha mudado de sitio. Repito, se estivessemos dentro de um carro ou de um barco a deslisar sobre as aguas, tel-o-hiamos sentido.

Fricollin soltou então um longo gemido, que poderia ter passado pelo seu ultimo suspiro, se não se lhe seguissem outros.

—Quero acreditar que esse Robur não deixará de nos mandar em breve comparecer á sua presença, continuou Phil Evans.

—Assim o espero! exclamou Uncle Prudent. E hei de então dizer-lhe ...

—O que?

—Que depois de ter começado como um insolente, acabou como um cobarde.

N’esse momento Phil Evans observou que o dia principiava a despontar. Um clarão, embora vago, filtrava-se através a estreita setteira, aberta na parte superior da parede, do outro lado da porta. Deviam pois ser proximamente quatro da manhã, porque é a essa hora que no mez de junho e n’aquella latitude o horisonte de Philadelphia se esclarece com os primeiros raios da manhã.

Comtudo, quando Uncle Prudent fez soar o seu relogio de repetição,—obra prima que provinha da propria officina do seu collega,—elle não indicou mais de tres e um quarto, apesar do relogio não ter parado.

—Curioso! disse Phil Evans. Ás tres e um quarto devia ainda ser noite.

—Talvez então o meu relogio se tivesse atrazado ... respondeu Uncle Prudent.

—Um relogio da Walton Watch Company! exclamou Phil Evans.

Fôsse como fôsse, era de facto o dia que despontava. A pouco e pouco a setteira ía-se destacando em claro na escuridade da cellula. Comtudo, se a aurora surgia mais cedo do que permittia o 41.º parallelo, que é de Philadelphia, não vinha com essa rapidez nas latitudes baixas.

Nova observação de Uncle Prudent a esse respeito, novo phenomeno inexplicavel.

—Podiamos talvez trepar até á setteira, observou Phil Evans, e procurar vêr onde estamos?

—Talvez, respondeu Uncle Prudent.

E dirigindo-se a Fricollin:

—Vamos, Fricollin, arriba!

O negro levantou-se.

—Põe-te de costas contra essa parede, continuou Uncle Prudent, e, Phil Evans, queira subir ás costas d’esse rapaz, emquanto eu o seguro, para que elle não furte o corpo.

—De muito bom grado, respondeu Phil Evans.

Um instante depois, com os pés em cima dos hombros de Fricollin, tinha os olhos á altura da setteira.

A setteira estava fechada, não com um vidro lenticular, como o de uma vigia de navio, mas com um vidro simples. Apesar de não ser muito espesso, não deixava vêr nada a Phil Evans, cujo raio visual estava excessivamente limitado.

—Pois parta o vidro, que talvez possa assim vêr melhor.

Phil Evans deu uma forte pancada com o cabo do seu bowie-knife sobre o vidro, que produziu um som argentino, mas não se partiu.

Segunda pancada, ainda mais violenta. O mesmo resultado.

—Bem! exclamou Phil Evans. Vidro que se não parte!

Com effeito, era preciso que aquelle vidro fôsse de um que é temperado pelos processos do inventor Siemens, pois, apesar de golpes repetidos, permaneceu intacto.

O espaço porém já então estava assaz esclarecido para que o olhar pudesse extender-se para fora, pelo menos no limite do campo de visão cortado pela moldura da setteira.

—O que vê? perguntou Uncle Prudent.

—Nada.

—Pois nem um macisso de arvoredos?

—Não.

—Nem a copa dos arvoredos?

—Nem isso.

—Não estamos portanto no centro da clareira?

—Nem na clareira, nem no parque.

—Divisa pelo menos tectos de casas, ou o cimo dos monumentos? disse Uncle Prudent, cujo desapontamento, mesclado de furor, ía crescendo.

—Nem tectos nem cimos.

—Pois então, nem um pau de bandeira, nem o campanario de uma egreja, nem a chaminé de uma officina?

—Nada mais do que o espaço!

N’esse mesmo momento abria-se a porta da cellula, e apparecia um homem.

Era Robur.

—Honrados balonistas, disse elle, com voz grave, tendes agora a liberdade de ir para onde quizerdes ...

—Livres! exclamou Uncle Prudent.

—Sim ... dentro dos limites do Albatrós!

Uncle Prudent e Phil Evans precipitaram-se para fora da cellula.

E o que viram?

A duzentos ou tresentos metros abaixo d’elles, a superficie de um paiz que elles em vão procuravam reconhecer!