Robur, o Conquistador
Capitulo XIV: De Como o “Albatrós„ Faz o que Nunca Poderia Talvez Ser Feito
CAPITULO XIV
DE COMO O “ALBATRÓS„ FAZ O QUE NUNCA
PODERIA TALVEZ SER FEITO
Estamos no dia seguinte ao 24 de julho. Ora o 24 de julho do hemispherio austral é o 24 de janeiro do hemispherio boreal. Além de que, o 56.° grau de latitude acabava de ficar atraz, e esse grau corresponde ao parallelo que, no norte da Europa, atravessa a Escocia, á altura de Edimburgo.
De modo que o thermometro se conservava constantemente n’uma média inferior a zero. Tinha sido portanto necessario pedir um certo calor artificial aos apparelhos destinados a aquecer os compartimentos da aeronave.
É claro que, se a duração dos dias tendia a augmentar depois do solsticio de 21 de junho do inverno austral, aquella duração diminuia n’uma proporção bem mais consideravel, pelo facto do Albatrós descer para as regiões polares.
Em consequencia d’isto, pouca claridade, por sobre aquella parte do Pacifico meridional que confina com o circulo antarctico. D’ahi pouca luz, e com a noite, um frio ás vezes intensissimo. Para resistir a elle, era necessario vestirem-se á maneira dos esquimáos, ou dos fuegios. Ora como estes arranjos não faltavam a bordo, os dois collegas, bem enroupados, puderam permanecer na plataforma, com a idéa no seu plano, e não buscando senão ensejo de o pôr em execução. De resto, elles viam pouco Robur, e, desde as ameaças trocadas de parte a parte, no paiz de Tombuctú, o engenheiro e elles não se falavam.
Quanto a Fricollin, não sahia da cozinha, onde François Tapage lhe concedia uma generosa hospitalidade, sob condição de que faria de ajudante de cozinheiro. Como isto tinha as suas vantagens, o negro tinha-o acceitado de muito boa vontade, com permissão de seu amo. Além d’isso, fechado d’aquelle modo, elle não via nada do que se passava lá fora, e podia reputar-se livre de perigo. Pois não se parecia elle com o abestruz, não só no physico, pelo seu prodigioso estomago, mas no moral pela sua rara estupidez?
Para que ponto do globo ia agora dirigir-se o Albatrós? Seria admissivel que, em pleno inverno, se aventurasse por sobre os mares austraes ou continentes do polo? N’aquella atmosphera glacial não correspondia isso á morte do pessoal, a uma horrivel morte pelo frio, admittindo mesmo que os agentes chimicos das pilhas pudessem resistir a uma tal congelação? Que Robur tentasse transpôr o polo durante a estação quente, vá! Mas no meio d’essa noite permanente do inverno antarctico, seria o acto de um louco!
Assim raciocinavam o presidente e o secretario do Weldon-Institute, agora levados ao extremo d’aquelle continente do Novo Mundo, que é ainda a America, mas não a dos Estados Unidos!
Sim! o que ía fazer esse intratavel Robur? Não teria chegado o momento de terminar a viagem destruindo o apparelho voador?
O certo é que durante aquelle dia de 24 de julho, o engenheiro teve frequentes entrevistas com o seu contramestre. Muitas vezes os dois consultaram o barometro, não para calcular d’esta vez a altura que haviam attingido, mas para tomar nota das indicações relativas ao tempo. Evidentemente, alguns symptomas se produziam que era necessario ter em consideração.
Uncle Prudent julgou tambem notar que Robur buscava inventariar o que lhe restava de provisões de toda a especie, tanto para entreter as machinas propulsivas e suspensivas da aeronave, como tambem as machinas humanas, cujo funccionamento não devia ser menos garantido a bordo.
Tudo isto parecia annunciar projectos de regresso.
—De regresso!... dizia Phil Evans. Mas para onde?
—Onde esse Robur se possa abastecer, respondeu Uncle Prudent.
—Deve ser alguma ilha perdida no Oceano Pacifico, com uma colonia de scelerados, dignos do seu chefe.
—É tambem a minha opinião, Phil Evans. Parece-me, com effeito, que elle pretende dirigir-se para o oéste, e, com a velocidade de que dispõe, terá alcançado rapidamente o seu fim.
—Mas não poderemos pôr os nossos projectos em execução ... se elle lá chega ...
—Não chegará, Phil Evans!
Evidentemente, os dois collegas tinham em parte adivinhado os planos do engenheiro. Durante aquelle dia, era fora de duvida que o Albatrós, depois de ter avançado para os limites do Mar Atlantico, ía definitivamente retrogradar. Quando os gelos tivessem invadido aquellas paragens até o cabo Horn, todas as baixas regiões do Pacifico seriam cobertas de icefields e de icebergs. A grande massa de gelo formaria então uma barreira impenetravel aos mais solidos navios, como aos mais intrepidos navegadores.
É certo que, batendo mais rapidamente o vôo, o Albatrós poderia transpôr as montanhas de gelo, accumuladas sobre o Oceano, depois as montanhas de terra, erguidas sobre o continente do polo, se é um continente que forma a calote austral. Mas aventurar-se-hia a affrontar, no meio da noite polar, uma atmosphera que pode esfriar até sessenta graus abaixo de zero? Não, decerto!
De modo que depois de ter avançado uns cem kilometros ao sul, o Albatrós obliquou para o oéste, de maneira a tomar a direcção de alguma ilha desconhecida dos grupos do Pacifico.
Por baixo d’elles extendia-se a planicie liquida, lançada entre a terra americana e a terra asiatica. N’aquelle momento, as aguas tinham tomado essa côr singular que lhes faz dar o nome de “mar de leite„. Na meia sombra que não conseguiam dissipar os raios enfraquecidos do sol, toda a superficie do Pacifico era de um branco leitoso. Dir-se-hia um vasto campo de neve, cujas ondulações não eram sensiveis, vistas d’aquella altura. Tivesse aquella porção de mar sido solidificada pelo frio, e convertida n’um immenso icefield, e o seu aspecto não seria outro.
Como se sabe, são myriades de particulas luminosas, de corpusculos phosphorecentes que produzem aquelle curiosissimo phenomeno. O que podia surprehender era que se encontrasse aquelle conjunto opalescente fora das aguas do Oceano Indico.
De subito o barometro, depois de se ter mantido assaz alto durante as primeiras horas do dia, cahiu bruscamente. Havia evidentemente symptomas com que um navio se poderia preoccupar, mas que a aeronave desprezava. Comtudo, como era de suppôr, alguma formidavel tempestade tinha recentemente abalado as aguas do Pacifico.
Era uma hora depois do meio dia quando Tom Turner, approximando-se do engenheiro, lhe disse:
—Master Robur, repare n’aquelle ponto negro do horisonte!... Acolá ... perfeitamente ao norte de nós!... Não poderá ser um rochedo?
—Não, Tom, não ha terras d’aquelle lado.
—N’esse caso deve ser um navio ou pelo menos um barco.
Uncle Prudent e Phil Evans, que tinham ido para a frente, olhavam o ponto indicado por Tom Turner.
Robur pediu o seu oculo de mar, e poz-se a observar attentamente o objecto apontado.
—É um barco, disse elle, e iria affirmar que traz homens a bordo.
—Naufragos? exclamou Tom.
—Sim! naufragos, que terão sido forçados a abandonar o seu navio, continuou Robur; infelizes, que não sabem bem onde é a terra, e que morrem talvez de fome e de sêde. Pois bem! não se dirá que o Albatrós não procurou ir em auxilio d’elles!
Foi dada uma ordem ao machinista e aos seus dois ajudantes. A aeronave começou a baixar lentamente. A cem metros parou, e os seus propulsores impelliram-n’a rapidamente para o norte.
Era effectivamente um barco. A véla batia sobre o mastro. Á falta de vento não sabia andar, e decerto que a bordo ninguem tinha fôrças para pegar n’um remo.
No fundo estavam cinco homens, adormecidos ou immobilisados pela fadiga, a não ser que estivessem mortos.
O Albatrós chegou acima d’elles e desceu lentamente.
Atraz d’aquella embarcação, puderam ler então o nome do navio a que ella pertencia; a era Jeannette, de Nantes, navio francez, que a sua tripulação teria naturalmente tido que abandonar.
—Eh! gritou Tom Turner.
E deviam tel-o ouvido, porque a embarcação não estava oitenta pés acima d’elles.
Nada de resposta.
—Um tiro! disse Robur.
A ordem foi executada, e a detonação propagou-se longamente á superficie das aguas.
Viram então um dos naufragos erguer-se difficultosamente, com os olhos esgazeados, um verdadeiro rosto de esqueleto.
Dando com o Albatrós teve primeiramente um gesto de espanto.
—Nada receie! gritou Robur em francez. Vimos em vosso soccorro! Quem sois?
—Marinheiros da Jeannette, barca de que eu era o immediato, respondeu o homem. Ha quinze dias que a deixámos ... na occasião de sossobrar!... Não temos nem agua nem viveres!...
Os outros quatro naufragos tinham-se levantado a pouco e pouco. Lividos, exhaustos, n’um horroroso estado de magreza, levantavam as mãos para a aeronave.
—Attenção! gritou Robur.
Uma corda se desenrolou da plataforma, e uma celha, contendo agua dôce, foi arreada até á embarcação.
Os desgraçados lançaram-se a ella e beberam com uma avidez que incommodava vêr.
—Pão!... pão!... gritaram elles.
Immediatamente, um cabaz contendo alguns viveres, alimentos de conserva, um frasco de brandy, e boa porção de café, desceu até elles. O immediato viu-se grego para os conter no mitigamento da fome.
E elles perguntaram depois:
—Onde estamos?
—A cincoenta milhas da costa do Chili, e do archipelago dos Chonas, respondeu Robur.
—Muito obrigado. Mas falta-nos o vento e ...
—Vamos dar-vos reboque!
—Quem sois?
—Gente que se sente feliz por vos ter vindo em auxilio, respondeu apenas Robur.
O immediato comprehendeu que havia um incognito a respeitar. E quanto á machina volante, seria possivel que ella tivesse fôrça bastante para os rebocar?
Sim! e a embarcação, presa a um cabo de uns cem pés de comprimento, foi arrastada para o léste por um poderoso apparelho.
Ás dez da noite, a terra estava á vista, ou antes viam-se brilhar as luzes que indicavam a sua situação. Viera a tempo aquelle auxilio do céo, para os naufragos da Jeannette, e estes tinham bem de que pensar que na sua salvação havia o quer que fôsse de miraculoso.
Depois, tendo-os conduzido á entrada das passagens das ilhas Chonas, Robur gritou-lhes para largarem o reboque, o que elles fizeram abençoando os seus salvadores, e o Albatrós retomou o seu amplo vôo.
Decididamente tinha muito de bom essa aeronave, que assim podia vir em auxilio de marinheiros perdidos no alto mar. Qual o balão, por mais aperfeiçoado que elle fôsse, que seria capaz de prestar aquelle serviço? E de si para si Uncle Prudent e Phil Evans tiveram de concordar n’isto, apesar de estarem na disposição de espirito de negar a propria evidencia.
O mar sempre mau. Symptomas assustadores. O barometro desceu ainda alguns millimetros. Rabanadas terriveis de vento, que silvava violentamente nos engenhos helicoptericos do Albatrós, e que parava n’um momento.
N’estas circumstancias, um navio de véla teria já dois rizes no mastro da gavea, e um na mesena. Tudo indicava que o vento ia saltar para o noroéste. O tubo do storm-glass começava a perturbar-se de um modo inquietador.
Á uma da manhã, o vento fixou-se com uma extrema violencia. Comtudo, apesar de vir de frente, a aeronave, movida pelos seus propulsores, poude ainda vencel-o, e subir, na razão de quatro a cinco leguas por hora. Mas não se lhe podia exigir mais.
Evidentemente preparava-se um cyclone, o que é raro n’aquellas latitudes. Chamem-lhe furacão no Atlantico, tufão nos mares da China, simún no Sahará, redemoinho na costa occidental, é sempre uma tempestade em vortice, e temivel. Sim! temivel para todo o navio, apanhado por esse movimento giratorio, que cresce da circumferencia ao centro e não deixa senão um unico logar calmo, no meio d’esse Maelström dos ares.
Sabia-o Robur. Sabia tambem que era prudente fugir a um cyclone, sahindo da sua zona de attracção por uma ascensão até as camadas superiores. Até então tinha-se sahido sempre bem. Mas não havia hora a perder, nem um minuto talvez!
Com effeito, a violencia do vento crescia sensivelmente. As ondas, descoroadas nas suas cristas, faziam correr uma poeira branca á superficie do mar. Era claro tambem que o cyclone, deslocando-se, ia cair nas regiões do polo com uma velocidade horrivel.
—Para cima! disse Robur.
—Para cima! respondeu Turner.
Um extremo poder ascencional foi communicado á aeronave, e ella subiu obliquamente, como se seguisse um plano que se tivesse inclinado para o sudoéste. N’aquelle momento o barometro baixou mais ainda, uma quéda rapida da columna de mercurio de oito e depois de doze millimetros. De subito o Albatrós parou no seu movimento ascencional.
A que causa era devida aquella paragem? Evidentemente a um pêso de ar, a uma formidavel corrente, que, propagando-se de alto abaixo, diminuia a resistencia do ponto de apoio.
Quando um vapor sobe um rio, o seu helice produz um trabalho menos util quanto a corrente tende a fugir sob as suas azas.
O recuo é então consideravel, e pode mesmo tornar-se egual á corrente. Assim acontecia ao Albatrós n’aquelle momento.
Comtudo Robur não abandonou a partida. Os seus setenta e quatro helices, actuando n’uma simultaneidade perfeita, foram levados ao seu maximo de rotação. Mas, irresistivelmente attrahido pelo cyclone, o apparelho não se lhe podia escapar. Durante curtas calmarias, retomava o seu movimento ascencional. Depois o grande pêso fazia-o arrastar de novo, e ía abaixo como um navio que vae ao fundo. E não era isso afundar-se n’esse mar aereo, no meio de uma noite onde os pharoes da aeronave não rompiam a escuridão senão n’um raio muito restricto?
Evidentemente, se a violencia do cyclone crescesse, o Albatrós não seria mais que um feixe de palha, sem direcção, levado n’um d’esses turbilhões que arrancam arvores pelas raizes, lançam pelos ares os tectos e derruem muralhas.
Robur e Tom não podiam falar senão por signaes. Uncle Prudent e Phil Evans, agarrados ao parapeito, perguntavam a si proprios se o meteoro lhes não iria fazer a vontade destruindo a aeronave, e com elle o inventor e todo o segredo da sua invenção. Mas já que o Albatrós não conseguia desembaraçar-se verticalmente d’aquelle cyclone, parecia que havia apenas uma cousa a fazer: alcançar o centro, relativamente socegado, onde seria mais senhor das suas manobras. Sim! mas para o conseguir, seria preciso romper aquellas correntes circulares que o arrastavam á peripheria.
Possuia elle sufficiente fôrça mechanica para se deslocar?
De subito a parte superior da nuvem desfez-se. Os vapores condensaram-se em torrentes de chuva.
Eram duas da manhã. O barometro, oscillando com deslocamentos de doze millimetros, cahira então a 709, o que, na realidade, devia ser diminuido da baixa devida á altura alcançada pela aeronave por sobre o nivel do mar.
Phenomeno rarissimo: aquelle cyclone formára-se fora das zonas que elle mais habitualmente percorre, isto é, entre o 30.° parallelo norte e o 26.° parallelo sul. Talvez isto explique como aquella tempestade girante se transformou subitamente n’uma tempestade rectilinea. Mas que furacão!
Tom Turner puzera-se ao leme. Era necessaria toda a sua destreza para não dar guinadas de um lado para o outro.
Nas primeiras horas do dia,—se assim se pode chamar áquelles vagos tons do horisonte,—o Albatrós tinha galgado quinze graus desde o cabo Horn, isto é, mais de quatrocentas leguas, e passára o limite do circulo polar.
Alli, no mez de julho, a noite dura ainda dezenove horas e meia. O disco do sol sem calor, sem luz, não apparecia sobre o horisonte senão para desapparecer quasi immediatamente. No polo, aquella noite prolonga-se durante cento e setenta e nove horas. Tudo indicava que o Albatrós ia afundar-se n’ella como n’um abysmo.
N’esse dia, se uma observação fôsse possivel, teria dado 66° 40´ de latitude austral. A aeronave não estava pois mais longe mil e quatrocentas milhas do polo antarctico.
Irresistivelmente arrastada para aquelle inaccessivel ponto do globo, a sua velocidade “comia„ por assim dizer, a sua gravidade, apesar d’esta ser um pouco mais forte, então, em consequencia da chateza da terra no polo. Quanto aos seus helices suspensivos, parecia que podia passar sem elles. De subito, a violencia do furacão tornou-se tal, que Robur julgou dever reduzir os propulsores ao minimo de voltas, afim de evitar algumas graves avarias, e de modo a poder governar, conservando o menos possivel da velocidade propria.
No meio d’estes perigos, o engenheiro commandava com sangue frio, e o pessoal obedecia como se a alma do seu chefe estivesse n’elle.
Uncle Prudent e Phil Evans não deixaram um instante a plataforma. Tambem podia-se estar alli sem inconveniente. O ar não resistia, ou resistia muito fracamente. A aeronave estava alli como um aerostato que caminha com a massa fluida em que está immerso.
O dominio do polo austral comprehende, segundo dizem, quatro milhões, quinhentos mil metros quadrados de superficie. É um continente? É um archipelago? é um mar paleocrystico, cujos gelos não se derretem mesmo durante o longo periodo de verão? Não se sabe. Mas o que é sabido, é que esse polo austral é mais frio que o polo boreal, phenomeno devido á posição da terra sobre a sua orbita, durante o inverno das regiões antarcticas.
Durante aquelle dia nada indicou que a tempestade fôsse diminuir. Era pelo 75.° grau meridiano, a oéste, que o Albatrós ia alcançar a região circumpolar. Por que meridiano sahiria, se sahisse?
Em todo o caso, á medida que descia mais ao sul, a duração do dia diminuia. Antes de pouco, estaria mergulhado n’aquella noite permanente que não se illumina senão á claridade da lua ou aos pallidos clarões das auroras austraes. Mas era lua nova então, e os companheiros de Robur arriscavam-se a não vêr nada d’aquellas regiões, cujo segredo escapava ainda á curiosidade humana.
Muito provavelmente o Albatrós passou por cima de alguns pontos já reconhecidos, um pouco antes do circulo polar, no oéste da terra de Graham, descoberta por Biscoe em 1832, e da terra Luiz Filippe, descoberta em 1838 por Dumont d’Urville, ultimos limites alcançados sobre o continente desconhecido.
Comtudo a bordo não se soffria muito com a temperatura, muito menos baixa então do que era para receiar. Parecia que aquelle furacão era uma especie de Gulf Stream aereo que levava comsigo um certo calor.
Quanto foi então para lastimar que aquella região estivesse immersa n’uma obscuridade profunda! É necessario comtudo notar que, mesmo que a lua allumiasse o espaço, a parte das observações seria muito reduzida. N’essa épocha do anno, uma immensa rede de neve, uma crusta de gelo, cobre toda a superficie polar. Não se nota mesmo aquelle “blink„ de gelos, tintura esbranquiçada cujo reverbero falta aos horisontes obscuros.
N’estas condições, como distinguir a forma das terras, a extensão dos mares, a disposição das ilhas? A sua propria configuração orographica, como marcal-a, desde as collinas onde as montanhas se confundem com os ice-berg, e os montões de gelo?
Um pouco antes da meia noite, uma aurora boreal illuminou aquellas trevas. Com as suas franjas prateadas, as suas laminasinhas que irradiavam através do espaço, aquelle meteoro apresentava a forma de um immenso leque, aberto sobre uma metade do céo. As suas extremas effluencias electricas vinham perder-se no Cruzeiro do Sul, cujas quatro estrellas brilhavam no zenith. O phenomeno foi de uma magnificencia incomparavel, e a sua claridade bastou para mostrar o aspecto d’aquella região confundida n’uma brancura immensa.
Escusado é dizer que, n’aquellas regiões proximas do polo magnetico austral, a agulha da bussola, constantemente endoidada, não podia dar indicação alguma precisa com respeito á direcção que se levava. Mas a sua inclinação foi tal n’um certo momento, que Robur poude ter como certo que passára por sobre esse polo magnetico, situado pouco mais ou menos sobre o 78.° parallelo.
E mais tarde, pela uma da manhã, calculando o angulo que essa agulha fazia com a vertical, elle exclamou:
—Temos a nossos pés o polo austral!
Uma convexidade branca appareceu, mas sem deixar vêr nada do que se escondia sob os seus gelos.
A aurora boreal apagou-se pouco depois, e aquelle ponto ideal, onde vinham cruzar-se todos os meridianos do globo, está ainda por ser conhecido.
Evidentemente, se Uncle Prudent e Phil Evans queriam sepultar na mais mysteriosa das solidões a aeronave e os que ella conduzia através do espaço, a occasião era propicia. Se o não fizeram, foi decerto porque o instrumento de que necessitavam lhes faltava ainda.
No entretanto o furacão continuava a desencadear-se com uma violencia tal, que, se o Albatrós tivesse encontrado alguma montanha no caminho, ter-se-hia alli esmagado como um navio que dá á costa.
Com effeito, não só não podia dirigir-se horisontalmente, mas nem sequer era senhor do seu deslocamento em altura.
E comtudo alguns pincaros de montanhas se erguiam n’aquellas terras antarcticas. A cada instante um choque seria possivel e teria produzido a destruição do apparelho.
Aquella catastrophe era tanto mais para receiar quanto o vento inclinára para léste, passando o meridiano zero. Dois pontos luminosos se apresentaram a uns cem kilometros á frente do Albatrós.
Eram os dois vulcões que fazem parte do vasto systema dos Montes Ross, o Erebus e o Terror.
Iria pois o Albatrós queimar-se nas suas chammas, como uma borboleta gigante?
Houve uma hora palpitante. Um dos vulcões, o Erebus, parecia precipitar-se sobre a aeronave, que parecia não se poder desviar do leito do furacão. Os pennachos de chamma cresciam a olhos vistos. Uma rede de fogo tomava o caminho. Intensos clarões enchiam agora o espaço. As figuras, vivamente illuminadas a bordo, tomaram um aspecto infernal. Todos, immoveis, sem um grito, sem um gesto, esperavam o horroroso minuto, em que aquella terrivel fornalha os envolveria nas suas chammas.
Mas o furacão que arrastava o Albatrós, salvou-o d’aquella espantosa catastrophe. As chammas do Erebus, lançadas pela tempestade, abriram-lhe passagem. Foi no meio de uma chuva de substancias lavicas, repellidas felizmente pela acção centrifuga dos helices suspensivos, que elle transpoz a cratéra em plena erupção.
Uma hora depois, o horisonte deixava vêr as duas tochas colossaes que allumiavam os confins do mundo durante a longa noite polar.
Ás duas da manhã, passaram a ilha Ballery no extremo da costa da Descoberta, sem que a pudessem reconhecer, visto estar soldada ás terras arcticas por um cimento de gelo.
E então, a partir do circulo polar que o Albatrós cortou sobre o 75.° meridiano, o furacão levou-o para sobre os bancos de gelo, para sobre os icebergs, contra os quaes esteve cem vezes no risco de se despedaçar. Não ia já nas mãos do seu timoneiro, mas nas mãos de Deus ... Deus é um excellente piloto.
A aeronave caminhava para o meridiano de Paris, que faz um angulo de cento e cinco graus com o que ella havia seguido para galgar o circulo do mundo antarctico.
Afinal, para além do parallelo 60.°, o furacão mostrou uma tendencia a quebrar. A sua violencia diminuiu sensivelmente. O Albatrós começou a tornar-se senhor de si. Depois,—o que foi um verdadeiro allivio,—entrou nas regiões illuminadas do globo, e o dia tornou a apparecer pelas oito horas da manhã.
Robur e os seus, depois de haverem escapado ao cyclone do cabo Horn, estavam agora livres do furacão. Tinham sido levados para o Pacifico por sobre toda a região polar, depois de haver galgado sete mil kilometros em dezenove horas,—isto é, mais de uma legua por minuto—velocidade dupla da que podia obter o Albatrós sob a acção dos seus propulsores nas circumstancias ordinarias.
Mas Robur não sabia já onde estava, em consequencia das perturbações da agulha nas proximidades do polo magnetico. Era necessario esperar que o sol se mostrasse em condicções sufficientes de se fazer uma observação. Infelizmente grossas nuvens carregavam o céo n’aquelle dia, e o sol não appareceu.
Foi um desapontamento tanto mais sensivel, quanto os dois helices propulsivos haviam tido certas avarias durante a tormenta.
Robur, contrariadissimo com este accidente, não poude seguir, durante este dia, senão com uma velocidade relativamente moderada. Quando passou por sobre os antipodas de Paris, não o fez senão a razão de seis leguas por hora.
Era necessario, além d’isso, tomar bem sentido em não aggravar as avarias. Se os seus dois propulsores fôssem postos fora das condições de funccionar, a situação da aeronave por sobre esses vastos mares do Pacifico estaria muito compromettida. Assim o engenheiro perguntava a si proprio se não deveria proceder ás reparações alli, de modo a assegurar a continuação da viagem.
No dia seguinte pelas sete da manhã, foi avistada uma terra ao norte. Reconheceu-se logo que era uma ilha. Mas qual d’essas milhares de ilhas de que está semeado o Pacifico?
Comtudo Robur resolveu parar alli, sem vir a terra. Segundo elle, bastaria o dia para reparar as avarias, e partiria n’essa mesma noite.
O vento tinha serenado de todo, circumstancia favoravel para a manobra que se tratava de executar. Pelo menos, visto que ficára estacionario, o Albatrós não seria arrastado sem se saber para onde.
Um longo cabo de cento e cincoenta pés, com uma ancora na extremidade, foi lançado pela borda fora. A aeronave chegava ao extremo da ilha, a ancora tocou de raspão nos primeiros escolhos, e depois prendeu-se solidamente entre dois rochedos. O cabo destendeu-se sob a acção dos helices suspensivos, e o Albatrós ficou immovel, como um navio prêso da praia com uma ancora.
Era a primeira vez que se ligava á terra, desde a sua partida de Philadelphia.