Serões da Província

Júlio Dinis · Capítulo 4 de 6 · parte 2/3

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Serões da Província

Os novelos da tia Filomena

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Bati por isso à porta e conheci, vendo-a ceder, que não estava fechada.

Contudo não recebi resposta.

À segunda tentativa não obtive mais satisfatórios resultados.

Decidi-me a entreabri-la cautelosamente até que por uma estreita fresta pudesse observar o interior do aposento.

A primeira tentativa foi baldada, pela quase completa obscuridade que havia dentro. Afazendo porém a vista ao ténue clarão que ainda se espalhava do lar, pude enfim conseguir algum resultado.

A pequena área que compreendia o recinto e a simplicidade da mobília facilitaram-me o exame e cedo adquiri a certeza de que estava desabitado — a não ser que a inquilina, usando dos poderes sobrenaturais que lhe atribuíam, se tivesse metamorfoseado nalguma coisa invisível.

Como a chuva no entretanto redobrava, julguei conveniente aproveitar-me daquela porta aberta e entrar nos obscuros domínios da Sibila.

A sala assumia a múltipla função de quarto de dormir, casa de jantar, de trabalho, cozinha e estufa.

Aí se encontravam as insígnias deste complicado mester.

Via-se ao fundo, sobre carunchosos bancos de pinho, a miserável e esfarrapada enxerga, recoberta apenas de uma manta, cuja primitiva cor poderia ser objeto de longas discussões académicas; sobre o lar e rodeado de brasas amortecidas, um púcaro de barro negro, como o que se fabrica nos arredores do Porto, substituía, com algum desapontamento da minha pane, todas as imaginadas retortas, cadinhos e alambiques; caraira à cama, uma avantajada caixa de pinho assumia as importantes atribuições de mesa de jantar, segundo o fazia crer a boroa de milho negro meia partida, a toalha dobrada, a bilha de água e o serviço de louça, pela maior parte inválido, que a guarneciam.

Duas cadeiras mancas, de aspeto tristonho e, como um veterano mutilado, ricas talvez só de recordações passadas, uma roca ainda rodeada de estopa grosseira, um sarilho desguarnecido e, junto à porta, velhos e ferrugentos utensílios de folha de Flandres, onde vegetavam cidreiras, armadas, salva, erva da nossa Senhora e outros símplices de medicina caseira, completavam quase todo o inventário.

Junto do borralho dois pequenos pontos luminosos de fulgor fosfórico e sinistro me atraíram a atenção. Eram os olhos do gato negro, que, fitando-me, parecia espiar-me os movimentos com suspeitosa curiosidade.

No meio desta humilíssima e despretensiosa mobília, uma só coisa me impressionou.

Sobre o prateleiro — tosca tábua de pinho firmada em dois longos pregos introduzidos na parede e elevado por a tia Filomena à categoria de despensa e aparador — divisava-se, ao lado de alguns objetos indispensáveis ao seu limitado trato culinário, uma fileira de pequenos embrulhos, de dimensões quase uniformes e cujo papel acetinado contrastava tanto com o aspeto da miséria daquele recinto como um diamante que se pregasse nos andrajos esfarrapados de um mendigo.

Do exame desses volumes, uns já amarelados, outros conservando ainda toda a alvura e nitidez do papel de boa fabricação, coligia-se haverem sido ali dispostos em épocas sucessivas.

A minha curiosidade pôs-se a fermentar à vista deles.

Valor, pelo menos estimativo, devia o conteúdo, qualquer que fosse, ter para a possuidora, que tão cuidadosamente o resguardava com aparente solicitude, da qual nenhum objeto mais se lhe mostrava merecedor; mas por outro lado, aquela desassombrada negligência com que os deixava expostos às vistas, desafiando a curiosidade, que é tantas vezes prelúdio ao desejo da possessão, esta casa abandonada de noite, esta porta nem sequer cerrada, contrariavam as minhas conjeturas; a não ser que a tia Filomena confiasse demasiado na sua pouca popularidade e na repulsão que inspirava, para temer visitas importunas, sobretudo àquelas horas da noite.

O que seria e donde viera aquilo? — perguntava eu a mim próprio, sem de mim próprio receber resposta.

Evidentemente não fora da caixa da tia Filomena que tinham saído as belas folhas de papel velin que envolviam os misteriosos conteúdos.

Tive tentações de me aproximar, para os sujeitar a um exame mais minucioso; porém — confessarei aqui uma puerilidade minha — os olhos do gato fizeram-me recuar. Não sei que a sangue frio se possa cometer uma ação repreensível, quando um gato nos olha assim. Afinal de contas, é uma testemunha. Que importa que revele o segredo; mas sabe-o e sempre que vos vir, rosnará lá consigo — rosnar é o termo próprio — o que quer que seja pouco lisonjeiro ao vosso carácter.

Não deve ser um martírio horrível vermo-nos de tal forma compreendidos por um gato e quase na sua dependência?

A mim pelo menos aqueles dois olhos imóveis e observadores incutiram-me respeito, não tive forças para arrostar com eles.

Mas onde estaria a estas horas a tia Filomena?

Luisita havia-me falado de uns célebres passeios noturnos, em que ela se transformava em luminária; e numa noite daquelas, a falar a verdade, a coisa tinha pouco de natural e explicável pelas razões ordinárias que determinam os nossos actos. Não se poderia dizer que a tia Filomena não tivesse dado motivos justificatórios da reputação que havia granjeado.

Enquanto eu fazia estas considerações e completava o meu exame sobre o interior da habitação, onde já começava a penetrar em grossas gotas a chuva que lhe desabara no telhado, chegou-me aos ouvidos um ruído particular que vinha de fora.

Antes que eu tivesse tempo de meditar o plano de qualquer apresentação conveniente, a porta abriu-se... mas em vez da tia Filomena que eu esperava, entrou, juntamente com uma rajada de vento, que avivou a chama no lar, um homem todo embuçado num comprido gabão de saragoça, com longas botas de montar e chapéu de abas largas derrubado sobre a cara. O aspeto, celeridade de movimentos e repentina aparição deste homem tinham de facto alguma coisa extraordinária que logo me fez reconhecer nele o personagem suspeito, cujas visitas tão gravemente desacreditavam no conceito público a tia Filomena. Em todo ele se revelava certo ar de mistério e um quase receio de ser surpreendido que imediatamente me impressionou.

Como por instinto, recuei e, envolvendo-me nas sombras do mais escuro canto da sala, observei, sem ser observado.

O homem, sempre rápido e cauteloso, aproximou-se do prateleiro onde a longa fileira, dos tais embrulhos se .achava disposta e parou alguns instantes, como que a enumerá-los.

A ideia que neste momento me passou pelo espírito foi pouco lisonjeira para o misterioso personagem que de um modo tão inesperado se havia introduzido na mesma casa onde, também não pouco estranhamente, eu me encontrava àquelas horas.

Imaginei-o um ladrão e agourava mal do destino dos tais objetos assim deixados em absoluta indefensão pela possuidora.

Mas, no momento em que já estava meditando a maneira de intervir para me opor a esta repugnante infração das leis de propriedade, o homem, depois de sacudir lentamente a cabeça e encolher os ombros — sinal inequívoco de profundas reflexões mentais — tirou do bolso um volume em tudo igual aos já existentes e, pousando-o ao lado deles, saiu da sala com a mesma presteza com que o tinha visto entrar.

Isso acabou de me surpreender. Eu já não estava muito longe de crer piamente nas revelações de Luisita e abjurar, na presença desta cena misteriosa, a minha antiga incredulidade.

Os espíritos fortes sofrem em casos assim abalos formidáveis. Eu achava-me em tais disposições de ânimo que já imaginava encontrar o que quer que era sobrenatural nos sons que naquele momento produziam: o vento pelas fendas inumeráveis da casa, a água a ferver sobre o lar, o respirar ruidoso do gato, e o cair cadenciado da chuva, filtrada através do telhado.

CAPÍTULO VI

 

Momentos depois, novamente escutei o ruído de passos, mas desta vez vagarosos e trôpegos, e as minhas vistas, seguindo a direção da porta, encontraram, destacando-se no fundo escuro do limiar, a figura pálida e macilenta da tia Filomena. Trazia na mão direita um pequeno lampião, que era provavelmente ao que se reduzia a tão comentada luzinha do monte. Achava-me na presença da bruxa do pinhal!

A divindade descera enfim ao templo.

A posição que eu continuava ocupando, envolvendo-me numa quase completa escuridão, evitou que a tia Filomena me descobrisse logo ao entrar.

— Isto é um dilúvio! — dizia ela consigo, fechando a porta. — E agora a lenha assim molhada vai-me sufocar com o fumo.

E aproximando-se do lar, deixou cair do avental, que trazia sobraçado, um montão de lenha miúda, que provavelmente andara toda a noite apanhando no pinhal.

O gato, vendo a sua senhora próxima de si, soltou um grunhido surdo, e, curvando desmesuradamente o dorso, começou a espreguiçar-se com voluptuosa languidez.

— Olá, Fusco! — disse a tia Filomena, batendo-lhe amigavelmente na cabeça. — Então estás com frio, meu velho? Deixa que te vou acender uma fogueira que nem para um magusto.

E enquanto escolhia a mais seca lenha da regaçada que pudera obter nas suas explorações, a velha, com a tal voz de que eu já falei, pôs-se a cantar — cantar aquilo! — uma cantiga usada nos arredores e cuja letra extravagante e até burlesca, conhecida talvez de muitos dos meus leitores, dizia assim:

 

— Donde vens, ó velha?

— Venho do eirado.

— Que trazes na cesta?

— Bacalhau salgado.

— Ai, oh! ai, que eu morro,

Que estou para morrer,

Nos teus braços, linda,

Bem pudera ser,

Bem pudera ser,

Ó meu bem.

 

E este em prolongava-se numa nota indefinida, nasal, monótona, rouca, desafinada e melancólica, que nem eu posso descrever o efeito que me produzia.

A ária, a cantora, o lugar, as meias trevas que ali reinavam, o adiantado da noite, e a tempestade lá fora num crescendo furioso, tudo concorria para me impressionar desagradavelmente.

E no entretanto estava dando tratos à imaginação para descobrir a maneira mais conveniente de fazer junto da tia Filomena a minha apresentação em forma.

A cantora continuava sempre na mesma toada e estribilho.

Depois levantou-se para avivar com os dedos a luz do lampião, que suspendera num prego da parede. Quando de novo ia entregar-se ao trabalho interrompido, deu de repente com os olhos em mim e involuntariamente recuou por um movimento de surpresa.

Fui por isso constrangido a apresentar-me.

— Tia Filomena — disse adiantando-me — a noite surpreendeu-me no pinheiral e com a noite a trovoada; passei por aqui, vi a porta aberta, umas brasas no lar e não pude resistir-lhes. Peço desculpa...

Enquanto eu falava, a tia Filomena medira-me com os olhos de alto a baixo e imediatamente se lhe desvaneceu no rosto a primeira expressão de espanto, que se manifestara ao ver-me.

Foi já com a voz cheia de segurança e de completa impassibilidade que me respondeu:

— Fez bem; era uma imprudência meter-se assim ao caminho. Aquilo nas azenhas está um mar. E para quem não conhece os sítios, tanto pior. O que eu sinto é ter tão má casa para o receber.

Em seguida, foi a um canto procurar a menos manca das duas únicas cadeiras que possuía, estendeu-lhe em cima uma velha, mas lavada toalha de linho, e, oferecendo-ma, acrescentou:

— Faça o favor de se sentar e perdoe.

— Obrigado, tia Filomena, não se incomode pela minha causa. Continue no seu trabalho. Estava a escolher a lenha, peço-lhe que continue.

— Então, se me dá licença... E que, vê o senhor? — prosseguiu ela, deitando-se de novo ao serviço — esta lenha assim húmida levanta um fumo que sufoca a gente. É preciso primeiro chegá-la ao ar do lume para a secar. Não tem dúvida, que por hoje pouca me é precisa já. Sabe o senhor? Cá a gente prepara depressa os seus cozinhados, não temos vagar para temperos. Uma fervura faz um caldo, um cinzeiro coze um ovo, um tijolo quente assa uma sardinha ou uma febra de bacalhau. Eh! eh! eh! É que nós também não tínhamos tempo para mais. Não se vive para cozinhar, cozinha-se para viver. Não é assim? Lá os senhores foram criados noutra educação, não admira. A desgraça está quando se nasce pobre e se tem gostos e vaidade de rico. É a perda da criatura.

E, fazendo esta reflexão, a velha, que aliás não mostrava primar em laconismo, calou-se por algum tempo, parecendo absorvida por um pensamento doloroso.

— Mas, tia Filomena, o seu sistema de fazer provisão de lenha é que me não parece dos melhores — disse-lhe eu passado tempo. — Não lhe era preferível para isso a luz do Sol à desse lampião que nada ilumina?

A tia Filomena meneou a cabeça ao ouvir-me.

— O senhor diz bem. Mas não sabe que de dia estão todos estes caminhos por aí cheios de rapaziada, que me não deixa em sossego. Crianças, coitadas! Mas quando se tem sessenta e quatro anos, como eu, a paciência vai fugindo e nem sempre se ouvem com a humildade que Deus manda as injúrias, mesmo que venham da boca das crianças. Melhor é fazer por não ouvi-las. De noite deixam-me ao menos em paz. Se todos têm medo de mim! Vê o senhor? Por coisa nenhuma do mundo, pessoa destes arredores quereria entrar, como o senhor entrou, na casa da tia Filomena, e então a que horas! Logo que vi aqui gente, conheci que era de fora da terra.

— E donde provém esse medo?

— Ora! pois não sabe que me chamam a bruxa do pinhal? Eh! eh!

Havia neste riso um fundo de tristeza, que me compungiu.

— Contudo, tia Filomena, faz mal em deixar assim desamparada esta casa; da mesma maneira que eu entrei, outros o podem fazer...

— Que entrem; não serei eu que lhes feche a minha porta. Nunca a fechei em tempos mais felizes, quando me podia recear dos maus; hoje, seria uma loucura.

— Mas olhe, tia Filomena: vou dizer-lhe uma coisa.

— Diga.

— Quando eu me aproximava, pareceu-me ver sair daqui alguém que, pela figura, mostrava ser um homem corpulento e de aspeto suspeitoso — disse eu, não querendo revelar ainda de todo a cena que presenciara.

Ao ouvir estas palavras, a tia Filomena desviou os olhos na direção do prateleiro e fixou-os por algum tempo na fileira dos pequenos embrulhos que me tinham já por vezes atraído a atenção.

— Ah! mais outro! — disse ela a meia voz, ao passo que se lhe desenhava nos lábios um sorriso amargo e quase sarcástico — continuam! eles se cansarão. — E voltando-se para mim: — Viu sair há muito esse homem?

— Haverá alguns minutos.

— Só eu o não hei de ver um dia? queria dizer-lhe... — E de repente, como fugindo à corrente de pensamentos que a arrebatava, continuou em tom muito diverso: — Sempre está um tempo! Louvado seja Deus! Parece que arrebentou alguma nuvem. O senhor há de vir muito molhado. — E, acto contínuo, apalpando-me a roupa, acrescentou com uma exclamação de surpresa pouco melodiosa: — Santo nome de Jesus! vem num lago! chegue-se aqui mais para junto do lume!

— Deixe, tia Filomena, deixe; isto não me faz mal nenhum.

— Que diz? Há lá coisa como a roupa molhada no corpo? — E um reumatismo certo. A água é inimiga dos ossos — acrescentou ela em tom aforístico. Eu observei-lhe:

— Pois olhe, tia Filomena, hoje usam os médicos lá por a cidade mandar tomar aos doentes banhos de chuva, até para moléstias dos ossos, se me não engano.

A tia Filomena encolheu os ombros.

— Isso... os médicos de hoje! Olhe, senhor — continuou ela, avivando pelo meu respeito a labareda no lar — eu bem sei que sou uma ignorante; mas toda a minha vida vi tratar as bexigas com agasalho e chás para fazer suar; porque, vê o senhor? com o suor saem cá para fora todos os maus humores e o veneno que anda na massa do sangue. Pois, senhores, não mandou o médico da minha terra, o Senhor lhe perdoe, abrir as janelas e arejar o quarto de um pobrezinho que estava com bexigas! Em termos de elas se assanharem, que foi afinal o que aconteceu. Por isso dizem... Eu cá, olhe, vê aquelas panelas? Aí está a minha medicina. A gente há de morrer quando tiver os seus dias contados e os médicos não servem senão para fazer uma pessoa gastar dinheiro.

Este ceticismo médico da tia Filomena era talvez o único ponto pelo qual ela se podia dizer uma pessoa da sua época. Ainda assim, com uma diferença importante, é que nela esta descrença sobreviveria ao menos, creio eu, aos prelúdios da mais insignificante indisposição.

— Mas, tia Filomena — disse-lhe eu aproximando-me do fogo — Deus manda-nos olhar pela nossa saúde e então...

— É fazer por não estar doente, é fazer por não estar doente, porque depois o remédio é entregarmo-nos nas mãos do Senhor. Sai para acolá, Fusco — acrescentou ela, desviando o gato, que se lhe viera roçar voluptuosamente pelo vestido; e daí a pouco:

— Quer o senhor um chá de cidreira?

— Agradecido, tia Filomena.

— Olhe que ainda tem que ir para longe.

— Pois sabe onde eu moro?

— O senhor é o hóspede que chegou há dias à quinta do senhor beneficiado; não é?

— Exatamente.

— Logo me pareceu. Não sei como se meteu ao caminho com uma noite destas.

— Fui à caça e...

A velha pôs-se a olhar em roda significativamente e fez-me compreender que tinha dito uma tolice. Andar à caça com uma simples vara de castanho, um longo capote e àquelas horas, era de facto uma esquisitice inexplicável. Emendei o melhor que pude o desacerto, acrescentando:

— Enviei a arma para casa por o criado e, persuadindo-me que conhecia melhor os caminhos, perdi-me.

— A caça é um mau divertimento — disse a tia Filomena, dispondo o braseiro para a operação culinária. — Já têm sucedido muitas desgraças por causa dela. Um tio meu, que Deus tenha em glória, aliás muito bom cristão e temente a Deus, ia fazendo uma morte por via da caça. Muitas vezes lho ouvi eu contar, quando era pequena. Andava caçando ele e um primo, que depois foi para o Brasil, e lá casou — e por sinal que não encontrou a felicidade que esperava; era já quase noite, e tinham-se separado um do outro, quando meu tio, ao atravessar uns campos, julgou ouvir o rumorejar de folhas nuns silvados vizinhos e, suspeitando ser caça escondida, preparou a espingarda e aproximou-se; mais perto, pareceu-lhe ver por entre as folhas bulir uma coisa escura, e ainda que pelo adiantado da hora não pudesse bem afirmar-se, não teve dúvida que seria alguma ave e, fazendo pontaria, preparava-se já para disparar: quando viu sair detrás do silvado, onde se escondera para lhe meta um susto, o primo que lhe gritou: — Ai, João, que me matas! — O meu tio deixou cair logo a arma e ficou como morto. Pois desde então nunca mais o viram caçar. E muitas vezes dizia, ainda me lembro bem, que nem com armas vazias era prudente brincar; porque o demo é capaz até de carregar uma tranca.

Passado algum tempo de meditativo silêncio, a velha acrescentou:

— E depois que mal nos fazem os passarinhos do Senhor? — E dizendo isto, estendia na pedra quente do lar duas sardinhas que deviam constituir a parte principal da refeição da noite.

— A tia Filomena tem razão; mas também que mal nos faziam as pobres sardinhas que se vão agora tostar nesse brasido e que já exalam daí um cheiro que me faz crescer água na boca?

— Apetecem-lhe?

— Convidam.

— Estão às suas ordens.

— Agradeço, mas a tia Filomena tem-nas para a ceia e eu não quero...

— Graças a Deus que ainda ali estão mais. — E, sem esperar nova observação da minha parte, estendeu ao lado das duas já meio assadas outras curvas e azuladas, que pareciam, segundo a frase das vareiras, ainda a saltar vivas.

E dentro de alguns minutos achava-me eu ao lado da tia Filomena, participando da sua mais que sóbria refeição.

Não há nada para aumentar a intimidade entre duas pessoas como um repasto em comum.

O estômago é um grande conciliador; tem um poder persuasivo tal que poucos corações lhe resistem, quando ele prega a concórdia — o que sempre faz estando satisfeito. Cedendo pois à familiaridade que pouco a pouco entre nós se estabelecera, perguntei à tia Filomena pormenores do seu modo de viver atual.

— A minha vida conta-se como um Padre-Nosso rezado. Fio, apanho lenha e farrapos e com isso vou vivendo. Não é preciso muito para uma mulher da minha idade se sustentar, e por isso...

— E está há muito nesta terra?

— Há cinco anos.

— Até aí onde residia?

Em vez de me responder, pôs-se a olhar para mim daquela maneira particular às pessoas abstratas, que nos dá a conhecer, sem ilusão possível, a nenhuma atenção que prestaram à pergunta.

— Veio de longe para aqui? — insisti eu.

— De muito longe.

— Admira como nessa idade ainda se resolveu a mudar de terra. De ordinário há raízes a prenderem-nos aos lugares onde nascemos e onde passámos os nossos primeiros anos, e é sempre doloroso cortar pelas raízes.

— E, é, mas...

Há reticências que são mais definitivas do que um ponto final. Tudo está em lhes dar cena modulação, como aquela que eu ouvi neste momento à tia Filomena.

Percebi que por esse lado se me fechara a porta a indicações ulteriores e tomei outra direção.

— Então é esta toda a sua morada?

— Como vê. Aqui durmo, aqui janto, aqui trabalho e aqui hei de morrer.

— Quem sabe?

— Sim, quem sabe: diz bem o senhor. Mal pensaria eu há seis anos que tão longes terras me tinham de guardar os ossos.

A melancolia da observação conseguira até disfarçar aos meus ouvidos o timbre desagradável daquela voz.

Pus-me a olhar para esta mulher por algum tempo em silêncio. Suspeitava que ela devia ter sofrido no passado, mas havia naqueles lábios uma espécie de enérgica constrição, que me tirava a esperança de poder extrair de lá o menor segredo, se segredo houvesse.

Levantei-me e comecei a passear no quarto. Ela conservou-se sentada, de braços cruzados, balanceando o corpo com vagaroso movimento e como sem consciência da minha presença ali. Parei, com intenção, diante do prateleiro que tanto me excitava ainda a curiosidade.

Esta tática da minha parte não me valeu porém mais satisfatórios sucessos.

— Tia Filomena! — exclamei enfim ex abrupto, impacientado já com tanta indiferença.

— Senhor?

— Este papel vem de longe?

— Que papel?

— O destes pequenos volumes.

— Ah!

Pareceu-me alguma coisa embaraçada com a pergunta e respondeu, suspirando:

— Nem eu sei...

— São por certo objetos da cidade; encomendas, não!

— Talvez...

Olhei para ela, fingindo uma surpresa que estas hesitações e respostas ambíguas me tivessem causado; ela acrescentou:

— Da cidade vêm, mas... não encomendados.

Na maneira porque pronunciou aquele — encomendados — adivinhava-se um pensamento oculto, que não pude porém determinar.

— Aí tens, Fusco — disse ela em seguida, dando ao gato os restos da nossa modesta refeição. — Vá, hoje podes regalar-te.

Depois, chegando à porta, continuou:

— Felizmente que já lá vai o mau tempo. O vento virou ao norte. Maneira muito delicada de dar a entender que iam sendo horas de terminar a minha visita.

Aceitei a advertência.

— Tia Filomena — disse-lhe eu — é tempo de me retirar; mas não posso consentir que a minha visita lhe fique sendo pesada. As suas posses não são grandes, consinta-me por isso que eu remunere...

A tia Filomena fez um gesto com a cabeça, respondendo:

— Eu sou de uma família pobre, mas na qual se ensinava às crianças a não vender a hospitalidade. — E depois, sorrindo, acrescentou: — São costumes de soberba que trouxe para a desgraça. Muito boas-noites, meu senhor, e Deus o guie.

— Mas, tia Filomena...

— Adeus, adeus. E olhe se vai cair, tenha cautela.

Não havia que lutar da minha parte; correspondi-lhe às boas-noites e pus-me a caminho de casa.

CAPÍTULO VII

 

Bonito! — dizia eu comigo mesmo enquanto ia vencendo o K melhor que podia as sucessivas dificuldades que parecia de momento para momento surgirem-me debaixo dos pés. — Passo uma hora na presença desta mulher enigmática, suspeito-lhe um segredo, vejo que há na existência dela um mistério, e retiro-me sem ter penetrado este carácter, sem haver decifrado este enigma. Quando hei de eu ser observador?

A balda dos rapazes naquele tempo eram estas aspirações a profundos conhecedores do coração humano. Deus perdoe a Balzac, que foi o autor involuntário dessa mania, que afinal de contas não passava de impertinente. Todo o adolescente imberbe se considerava talhado a molde para analista do coração, e colocava-se diante de qualquer pessoa com o sobrecenho contraído, o olhar fixo e o ar gravemente sisudo que caracteriza o observador pur sang.

Dessa época data o uso imoderado das lunetas, não reclamadas por defeitos visuais, mas como emblema de espírito analítico e investigador.

Um suposto estudo de caracteres era o que mais tempo absorvia aos rapazes nas universidades e nas academias. Pospunham-se, com grande desespero dos professores, os Laplaces, os Savignys, os Says, os Richerands e os Hufelands, ao Balzac, George Sand e a todos os romancistas da escola filosófica.

Eu andava um pouco imbuído do mal da época; para que hei de negá-lo? Não obstante nunca ter sido dos mais crentes nesses tais olhares, com privilégio de estiletes, que vos vão direitos ao coração, para desalojar debaixo da mais impercetível prega onde se aninhara o vosso sentimento predominante, a mola oculta do vosso carácter; adotara contudo também as minhas teorias a tal respeito, tão boas como outras que ouvia expender nas mesas de mármore e no seio da atmosfera asfixiante dos nossos botequins. Por vezes até cheguei a querer realizá-las na prática.

Aí porém é que me esperavam grandes desilusões, que foram pouco a pouco abalando o aparatoso edifício da minha ciência do coração humano.

De cada vez que ensaiava o poder perscrutador do meu olhar nas menos dissimuladas criaturas do Senhor, chegava a resultados realmente pouco de animar, verdadeiros disparates que devera registar aqui para instrução e experiência dos leitores. Porque sabido é que os disparates também encerram instrução.

Uma das minhas derrotas mais completas acabava de experimentá-la na presença da tia Filomena; e o mau humor que resultara daí seguira-me até casa, onde cheguei depois da meia-noite.

Deitei-me descontente comigo e incapaz de tudo que não fosse adormecer. Quando porém me dispunha a realizar esta única aptidão racional que sentia naquele momento, uma visita me impediu.

Junto do meu quarto dormia o filho morgado da hospitaleira família que me acolhera em casa; este rapaz, meu antigo condiscípulo e em quem a tal bossa da análise do coração humano possuía também um desenvolvimento extraordinário, era ainda a mais sujeito a insónias; e por isso, percebendo-me no quarto, vestiu à pressa o robe-de-chambre e veio visitar-me.

— Então ainda agora?! — disse ao entrar e com maneira de admirado. — Que diabo fizeste tu até estas horas numa terra selvagem como é o meu pátrio ninho? Aposto que os olhos de alguma patrícia...

— Adivinhaste. A causa da minha demora foi uma patrícia tua — de adoção pelos menos.

— Ainda Luisita?

— Não; e desde já te previno que te não dês ao trabalho de querer adivinhar, porque nada consegues.

— Porque nada consigo! Mas se eu me sinto habilitado para te fazer inventário completo de todas as mulheres em circunstâncias de se apanhar por causa delas um reumatismo para o resto da vida?

— Ainda assim.

— É singular!

— Olha, não quero abusar da minha posição. A mulher por quem me sujeitei aos rigores desta endiabrada noite foi a tia Filomena.

— Quem é a tia Filomena?

— A bruxa do pinhal.

— Estás a gozar?

— Venho de casa dela, onde ceei.

— E que diabo foste lá fazer?

— Estudá-la.

— Ah! e então? — disse o meu amigo com um tom de voz que mostrava achar de sobra justificada a minha excentricidade por um motivo daqueles.

— O resultado da empresa fez-me lembrar de quando dantes, nos nossos tempos de estudante, me sentava à banca com firmes tenções de me pôr ao facto da lição do dia seguinte, e afinal, sem bem saber como, ia-me deitar, deixando a pobre intacta, como a procurara.

— Pois olha, eu já estudei essa mulher e tenho o meu juízo formado a respeito dela.

— Ora pois, vamos lá a ver isso. Mal sabes como eu estimo sabê-lo. Começa.

O meu amigo acendeu um charuto, recostou-se na cadeira, elevou os pés à altura do fogão e expôs-me assim o resultado do seu estudo:

— O coração do homem...

— Perdão — disse eu interrompendo-o — poupa-me a dissertação sobre o coração do homem em geral e limita-te ao da tia Filomena em particular, que já é bastante.

— Seja. A tia Filomena — continuou ele — ficou definida por mim depois de alguns momentos de observação. Regra geral, quando às aparências da miséria vires associadas as precauções da riqueza, a desconfiança que acompanha a possessão, a reserva do egoísmo, acredita que uma única solução pode ter o problema do carácter do indivíduo em quem se observa esta, deixa-me assim chamar-lhe, antinomia de manifestações.

— Chama-lhe o que quiseres e continua — disse eu bocejando.

— O sentimento que nele predomina — continuou o meu amigo — deve ser de natureza a bastar a si mesmo para a sua satisfação total, a tirar de si os meios de a realizar. Não aspira a irradiar-se; pelo contrário, tende à concentração; não é o farol que transmite em roda de si a luz a distâncias longínquas, é o revérbero que reflete os raios do foco para o foco donde partiram. O orgulho deleita-se em observar com o olhar de águia tudo quanto lhe fica inferior; a glória folga de ver o reflexo do seu esplendor nos rostos extasiados; o amor é um som que reclama um eco... mas há um sentimento que dispensa o concurso, que busca a solidão, que intencionalmente semeia em volta de si as aversões — é a avareza...

Eu nesta passagem adormeci e não sei por isso até que ponto o meu amigo levou à evidência aquela suposta qualidade da tia Filomena.

Sinto-o por não poder registar aqui uma bem elaborada dissertação metafísica, que só poderia pecar em exatidão e mais nada.

CAPÍTULO VIII

 

Não foi porém impunemente que arrostei na véspera com a intempérie de uma noite ultra-romântica.

Na manhã do dia seguinte acordei rouco, a ponto de julgar prudente não sair de casa.

Ao meio-dia encontrei-me com Luisita, por aquele tempo empregada em não sei que serviço campestre na quinta onde eu residia.

— Bons-dias, Luisita, — disse-lhe eu — vê o resultado da feitiçaria? Estou rouco. O bruxedo atacou-me a garganta.

— Que quer dizer?

— Que visitei ontem à noite a tia Filomena...

— Ora!

— Palavra de honra, e até me deu de cear com a melhor vontade deste mundo.

— É impossível que se atrevesse...

— Posso jurar-lhe.

— E que viu lá? — perguntou a rapariga, fitando-me aterrada.

— Ora o que vi? A casa de uma pobre mulher que vive a mais santa vida deste mundo, ela e o seu gato, animal de hábitos caseiros, muito amigo do borralho e que para diabo me parecia bem morigerado.

— Então não viu o cabo da vassoura?

— A falar verdade, tanto não reparei; mas também, se isso é prova de feitiçaria, aposto que nem a Luisita se salva?

Ela riu-se.

— Olhe: quer então que lhe diga o único objeto menos natural que descobri em casa da tia Filomena?

— Foram as cartas?

— Não. Ela não costuma dar partidas.

— Foram...

— Foram uns embrulhos de papel fino e do mais fino, postos em carreira sobre um pobre prateleiro de pinho. Eram, pode dizer-se, a única riqueza da casa.

— Ah! pois não sabe o que isso é?!

— Eu não.

— São os novelos!

— Os novelos?

A expressão da fisionomia com que Luisita acompanhou aquela palavra foi tal que, não obstante eu não lhe compreender bem a verdadeira significação, não pude deixar de pela minha parte manifestar quase igual estupefação.

— Mas que novelos?

— Que novelos? Os dela. Pois não sabe que as bruxas têm todas uns novelos?

— Ah! não sabia. E para que querem elas isso?

— É que todo o seu poder está ali e quando morrem...

— Ah! então as bruxas também morrem?

— Morrem, sim, que dúvida.

— E então que fazem elas quando morrem?

— Deixam os novelos às pessoas que mais estimam.

— E é boa ou má a herança?

— Deus nos livre dela.

— E por quê? morre-se também?

— Nada, não senhor.

— Então?

— Fica-se sendo feiticeiro e...

— E acha isso mau?

— Está a brincar?

— Eu pela minha parte não se me dava e Deus queira que a tia Filomena se lembre de mim no testamento.

— Que diz, que diz; não repara que está dizendo um pecado?

— É ver como a tia Filomena lhes quer, aos tais novelos, que tão resguardados os traz.

— Se neles está todo o seu condão.

— Mas, por outro lado, sai de noite e deixa-os assim tanto à vista que tentam os mais escrupulosos. Eu confesso que se não fosse o gato...

— Quem se atreveria a tocar-lhes? Não que só a vista deles faz tremer.

— Eu não tremi.

— Ora! se os senhores são hereges!

Esta reflexão tapou-me a boca.

Luisita deixou-me para ir contar às amigas que a tia Filomena tinha uns novelos, que eu os vira e que só de os ver ficara sem fala, a ponto de ainda me achar rouco; e à semelhança das vizinhas de que fala o La Fontaine, as ouvintes divulgaram a história de maneira que, pouco tempo depois, me voltou aos ouvidos debaixo da seguinte versão e tão transfigurada, que me custou a reconhecê-la.

A tia Filomena tinha uns novelos — isso era ponto incontestado. Uma noite, passeando eu pelos campos, fora atraído para casa dela por um cantar de sereias e por uma corça da alvura da neve; a corça andava, andava, e eu, cego com tanta beleza ia-a seguindo por montes e vales, por abismos e ribanceiras, como se tudo fora planície, até que à entrada da casa o canto das sereias transformou-se de repente numa surriada infernal e num frenético bater de palmas, que atordoava; a corça metamorfoseou-se ao mesmo tempo num gato preto que me saltou ao gasnete e logo um bando de feiticeiras começou a dançar em volta de mim uma valsa diabólica. Eu caí logo a dormir, já se sabe, e elas então a envolverem-me com o fio dos tais novelos e com uma pressa que metia medo. Era porque antes da meia-noite devia a tarefa ficar pronta e eu todo envolvido no fio, e a servir de núcleo àquela espécie de monelho. Então seria a morte certa, e elas poderiam à vontade sugar-me o sangue, do qual, pelos modos, tinham grande apetência.

Mas, por felicidade minha, no momento em que davam uma volta ao fio — alguém dizia até ser a penúltima — soou a meia-noite e o encanto terminou. O fio partiu com um estampido que parecia de uma bomba, houve o fumo e cheiro de enxofre do estilo, o gato preto fugiu por a trapeira, as feiticeiras desapareceram feitas em morcegos, a tia Filomena caiu redonda no chão e eu achei-me num pântano, metido em água até ao pescoço e sem fala!

Um pobre homem que passava tirou-me do atoleiro, mas quase em perigo de vida. O que ninguém dizia era quem tinha sido esse pobre homem que passava; razão pela qual não pude manifestar-lhe o meu eterno reconhecimento, como fora do meu dever. Alguns acrescentavam ainda, à laia de moralidade, que o motivo destas minhas desventuras fora a incredulidade que professara na véspera a respeito de bruxas e feitiços. À pessoa de cuja boca recebi esta edição, correta e aumentada, da minha aventura noturna, tentei debalde fazer compreender toda a escandalosa falsidade dela. Quando negava, respondiam-me, sorrindo, que a memória não conserva estas coisas, sem que por isso elas deixem de ter existido. Contra tal modo de argumentar, não valiam objeções.

Cumpria-me pois resignar com o papel que me tinham distribuído naquela espécie de mágica de grande aparato e revestir-me das romanescas aparências de Roberto de Normandia, de endemoninhada memória.

Não era feio e tornava-me no herói da terra; porém custou-me haver assim involuntariamente concorrido para aumentar a má reputação de que havia muito gozava a tia Filomena, a qual desde então ficou sendo universalmente odiada em todas aquelas freguesias circunvizinhas.

Passaram-se quase duas semanas de continuado inverno, durante as quais raras vezes saí, e essas apenas para casa do boticário, onde me divertia a ouvir da boca dele, como novidades, coisas que tinham já envelhecido antes de eu partir da cidade; bem como profundas considerações suas sobre o destino das nações europeias. Este boticário era um decidido amante da ordem, e professava por os perturbadores do equilíbrio político um ódio francamente cordial. Eram dignas de se ouvir as expressões virulentas e as frases acerbas de que se servia então.

Em matéria de revoluções pensava que as piores eram as que procediam de baixo para cima. À de França chamava-lhe um escândalo de sangue e de horrores; em relação ao poder temporal do Papa dizia: que o melhor era não bulir no que está quieto; lá os seus homens eram Palmerston, Palmela e o general Concha, este — por acabar com a patuleia — palavras suas. Falava vagamente na dificultosa questão do Oriente, a qual, segundo ele, se poderia resolver por um plano que nunca pude conseguir que me revelasse; a respeito da Polónia, muitas vezes lhe ouvi dizer: assim o quiseram, assim o tenham, frase sibilina que igualmente nunca desenvolveu.

Meses depois dos sucessos que vou narrando, indo visitá-lo, encontrei-o muito entusiasmado com o engrandecimento das raças latinas, ao qual, à semelhança de grandes capacidades políticas, filia ainda hoje todos os acontecimentos e que, segundo ele, é o pensamento reservado de Napoleão. Palmerston, que para este seu entusiasta ainda vive, promete sério apoio, sem o qual nada se faria, impondo só, como condição, a anexação da Dinamarca à Inglaterra.

Esta última novidade, cujo interesse político os leitores devem apreciar, e na qual o homem depositava a mais fervorosa crença, viera-lhe, disse-me, de origem fidedigna.

Não sei se me será fiel a memória para poder reproduzir aqui na íntegra o substancioso diálogo travado desta vez entre mim e este sábio diplomata.

— Verá! verá! — dizia-me o homem, aviando dez réis de farinha de linhaça a um freguês. — O ponto está que eles queiram. As raças latinas hão de tomar o lugar que lhes compete.

— Não duvido.

— É certo. Napoleão III disse que havia de deixar assinalado o seu império por essa grande obra.

— Mas como entende o senhor o engrandecimento das raças latinas?

— É que tudo isto há de vir a formar três grandes impérios: a França com a Bélgica e a Holanda; a Itália governada toda pelo Papa; e Portugal, ao qual se há de dar a Espanha e restituir o Brasil.

— Bonita combinação! E para quando será isso?

— Não sei; mas fala-se em que Napoleão disse ao seu ministro: Meu duque...

— Que duque era esse?

— Um dos ministros...

— Adiante.

O meu interlocutor pelos modos fazia duques natos a todos os ministros.

— Meu duque, o ano que vem há de presenciar grandes acontecimentos. — Real Senhor! — respondeu o ministro — saiba vossa majestade que aqui estamos nós para cumprir as suas ordens. E então o imperador, batendo-lhe no ombro, disse-lhe: — Conto convosco!

Continuar: parte 3 de 3