Serões da Província

Júlio Dinis · Capítulo 4 de 6 · parte 3/3

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Serões da Província

Os novelos da tia Filomena

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— É importante essa notícia, mas que pensa disso Palmerston?

— Palmerston escreveu uma nota ao embaixador em Paris, na qual lhe dizia: «My lord. A Inglaterra não corta as asas às legítimas aspirações dos povos, enquanto elas não espezinham os seus direitos de nação livre. Sede prudente e deixai marchar o progresso, Deus vos guarde.»

— E o embaixador em vista disso...

— Em vista disso, limitou-se a reclamar a anexação da Dinamarca, por causa do equilíbrio.

— E consegue-a?

— Decerto que sim. Eles não querem descontentar o velho lord. De uma vez, no conselho de ministros em Paris, houve quem dissesse, falando de Palmerston: Ora deixem lá o bom do homem; daquela idade só mete medo a crianças. E sabe o senhor o que disse o imperador?

— Eu não.

— As velhas raposas, meus senhores, são as mais ardilosas e atrevidas.

E comunicando-me esta profunda sentença de Napoleão III, que não sei porque via privativa lhe chegara ao conhecimento, o meu interlocutor, piscando os olhos, assumia um ar de completa aquiescência, que devia lisonjear Palmerston, se o tivesse observado.

Nisto interrompeu o discurso de polícia transcendente, para pesar meia onça de raspa de veado, e onça e meia de óleo de rícino, e depois continuou:

— Muito se há de ver em pouco tempo! O latim há de deixar de ser língua morta.

— Ah! pois ainda viremos a falar latim!

— Decerto. Isso depois é questão de anos. Em França já se estão organizando os estudos dos liceus nesse sentido.

— Não será então mau irmos desde já recordando o há muito abandonado Novo Método!

— Abandonado? Não por mim que nunca dei de mão ao estudo dos clássicos latinos.

Era esta outra corda sensível do pobre homem; supunha-se um profundo latinista, não obstante as continuadas silabadas com que deixava a escorrer sangue a língua de Cícero e de Virgílio. Desculpe-se-me a ambiguidade da expressão.

Depois passou a convencer-me dos erros de palmatória que tinha cometido o general Mac-Clelan nas campanhas da América; falando de Garibaldi, chamou-lhe um troca-tintas, e a respeito do México, disse-me, abanando a cabeça com ar ponderoso: Eles hão de pagar o que fizeram aos cristãos. — Como se vê, da latitude do México por diante começava a reinar grande cerração nas ideias do nosso diplomático.

Foi na instrutiva conversa deste ilustre pensador que passei algumas horas dos quinze dias chuvosos e escuros que sucederam ao da minha visita à bruxa do pinhal.

CAPÍTULO IX

 

Uma tarde, em que o aspeto do céu se mostrava já mais favorável, e uma extensa zona de púrpura, prenúncio certo de favoráveis reformas meteorológicas, tingia todo o Ocidente, onde o Sol acabava de mergulhar-se, dei maior latitude ao meu passeio, estendendo-o até o ponto principal de reunião das raparigas. Fui-as encontrar juntas em grupo, voltadas para o lado do monte e aparentemente empenhadas numa discussão, que prometia ser interessante.

Aproximei-me.

— Nada, nada — dizia uma, como em conclusão dos argumentos que extensamente acabara de expender — aquilo foi decerto coisa que lhe sucedeu.

— Esperem, esperem — exclamava outra, fazendo o gesto de quem procura alguma coisa na reminiscência — a última vez que eu a vi foi... foi... ora deixem ver... foi há seis dias, lá em baixo nas azenhas. Bem me lembra. Ia muito amarela e mal se podia arrastar. Pareceu-me até que gemia.

— E que lhe disseste? — perguntou Luisita, interessada com as palavras da companheira.

— Eu?! Se mais pudesse, mais corria. Arrenego tais encontros! Olhem os meus pecados!

— E há muito que eu não vejo a luzinha pelo monte.

— Nem eu.

— Nem eu.

Disseram, umas após outras, várias vozes.

— Há de haver oito dias que a mim me disse a ti Rosa do Aidro que a mulher tinha decerto a espinhela caída — acrescentou, com ar de quem comunica uma importante novidade, a mais trigueira das preopinantes.

— Aí temos outra! Bem sabe a ti Rosa também o que são espinhelas caídas! — disse com mau humor a primeira que falara.

— Não, não sabe; que ela não tem o primo endireita em Fiães, sim.

— E anda a outra sempre a encher os ouvidos à gente com o seu primo endireita. Nem que nunca se visse um endireita senão aquele!

— Olhem! olhem! Põe-te agora a dizer mal dele também!

— Grande endireita, que deixou ficar mouco o nosso António, depois de ganhar com ele um par de moedas.

— Sim? pois olha que nem os médicos da cidade têm que lhe dizer.

— Credo! credo! Santo nome de Jesus! Nem que fosse algum doutor de capelo!

Enquanto as duas continuavam discutindo a ciência ortopédica do primo da ti Rosa do Aidro, prosseguia o resto das circunstantes no assunto primitivo.

— O que eu posso dizer é que há muito não vejo sair fumo da casa dela.

— A mulher morreu decerto ou está para isso.

— E se se fosse ver? Também para a deixar assim... — disse Luisita, como a aventurar uma opinião que não tinha firmes tenções de sustentar.

— Vá lá quem quiser, nanja eu — respondeu imediatamente uma mocetona de constituição atlética.

— Ir lá?! Fazer o quê? Então vocês julgam que se vai assim sem mais nem menos a uma casa daquelas?

— Perguntem ali ao senhor — dizia outra, designando-me com o gesto.

Estas palavras fizeram-me dar mais atenção à conversa.

— Quem lá entrasse tinha logo o gato preto a saltar-lhe ao pescoço.

A referência a esta evolução ginástica do gato preto acabou de me demonstrar que se tratava da tia Filomena.

— Então que há de novo? — perguntei, aproximando-me. — De quem falavam?

— É que pelos modos — respondeu-me uma das do grupo — andam agora os demónios no pinhal.

— Fazendo o quê?

— Para levarem a alma da bruxa.

— De qual bruxa?

— Da tia Filomena.

— Aí voltam as preocupações! Mas que sucedeu à tia Filomena?

— Há muito que não sai de casa e que se lhe não vê fumegar o telhado. Aquilo ou está morta ou para breve.

— E então ninguém tem ido ou mandado ver?

— Quem?

— Não que o que lá for não volta.

— Ora, sempre é levar muito longe a superstição! Visto isso, há de se deixar morrer assim uma pobre velha ao desamparo?

— Deixe lá; aquelas têm por si outros poderes. Não precisam do socorro da gente.

— Pelo que vejo não há aqui ninguém que queira ir ao pinhal saber da tia Filomena?

Ninguém respondeu.

— Pois bem, nesse caso vou eu.

— Olhe o que faz! — disseram algumas vozes, em tom de advertência.

— Ainda não escarmentou? — murmuravam outras.

Luisita chegou-se a mim e, apertando-me o braço:

— É demais! Isso é desafiar o Senhor.

— Ora adeus, Luisita.

— Não vê...

— Vamos. Quando for velha há de gostar que lhe chamem também bruxa e que a deixem morrer de fome e ao desamparo?

— Mas...

— Pois olhe, Luisita, se tem muito receio, reze por mim. Eu gosto de ser recomendado aos santos por uma boca tão bonita.

Luisita não deu palavra mas conheci-lhe no gesto que ficava agourando grandes desgraças da minha excursão ao pinhal.

CAPÍTULO X

 

 

Acompanhado dos responsos e comentários das circunstantes, pus-me pois a caminho da casa da tia Filomena, cuja sorte me estava profundamente inquietando.

A noite aproximava-se, e uma nebrina densa, levantando-se dos vales, ia, a pouco e pouco, circunscrevendo em volta de mim o horizonte e estreitando-me num círculo cada vez mais cerrado de espessos nevoeiros.

O grupo das raparigas, que me seguiam com a vista quando eu começava a subir a colina, cedo se me encobriu debaixo deste véu de vapores impenetrável; circunstância que devia mortificar profundamente todas aquelas curiosidades femininas, ansiosas por gozar de longe do espetáculo que, com grande risco do corpo e da alma, eu lhes proporcionara.

Depois de ter andado alguns minutos, e quando subia já por um pedregoso e alcantilado caminho de cabras, desenvolvendo todos os meus recursos ginásticos para não rolar com uma avalanche até ao fundo da ribanceira vizinha, pareceu-me perceber o ruído dos passos de alguém que, a pequena distância, me precedia.

Apressei-me para poder alcançar quem quer que fosse e concluir em companhia o resto da minha excursão. Em breve me foi dado consegui-lo.

A pessoa que assim caminhava adiante de mim era o pároco da freguesia, jovem sacerdote que eu mal conhecia ainda, mas cujas maneiras afáveis e delicadas e seriedade superior aos seus anos me tinham feito já simpatizar com ele. Vendo-me, parou a esperar-me.

— Por estes sítios! Agradam-lhe também os passeios dos montes?

— Não foi para passear que vim até aqui, mas para socorrer uma pobre mulher que a cega superstição desta gente ia talvez deixar morrer ao desamparo. E quem sabe se ainda chegarei a tempo.

O reitor olhou para mim, perguntando-me:

— Refere-se à tia Filomena?

— Exatamente, a ela mesma.

— Então ofereço-lhe companhia, eu também me dirijo para lá.

— Também?!

— É verdade. Todas as sextas-feiras essa pobre mulher me procurava. Faltou-me esta semana, esperei-a ontem debalde e por isso pus-me a caminho hoje, por igualmente recear alguma desgraça.

— Mas não é uma bárbara crença a deste povo?

— Então que quer? A ignorância é sempre supersticiosa.

— Mas... e perdoe-me dizer-lhe isto, senhor reitor; não poderiam algumas palavras da sua parte desvanecer essas abusões?

O reitor sorriu melancolicamente.

— E pensa que as não tenho dito? Há apenas dois anos que vim para esta abadia. O meu predecessor era, pelo que pude saber dele, um santo homem, esmoler e honrado, mas de uma superstição grosseira, eivado de erros e de preconceitos que a falta de instrução e nenhuma cultura de espírito tinham feito pulular. Era ele o primeiro a acreditar em todas as tradições de duendes e de almas penadas e a usar de esconjuros, amuletos e ervas contra feitiços. Na residência deparou-se-me uma abundante coleção desses objetos, com que o bom do homem julgava prudente munir-se contra os ataques dos maus espíritos e das feiticeiras. Faça ideia de como devia andar a imaginação desta gente quando um pároco, que residia aqui havia perto de dezoito anos, lhe dava tais exemplos. Nos primeiros dias em que assumi as funções paroquiais, percorrendo os papéis do meu antecessor, encontrei entre outros documentos não pouco curiosos, nos quais ele registava várias observações criticas a respeito dos seus paroquianos, um que mais que todos me interessou. O conteúdo era, pondo agora de parte a ortografia muito sua, pouco mais ou menos o seguinte:

«Em Agosto de 50 veio residir para esta minha paróquia, escrevera ele, uma velha mulher que diz chamar-se Filomena — nome pouco de gente cristã e batizada. Vinha miseravelmente vestida e foi viver para uma pequena casa do Pinhal. Ainda não procurou sacramentos e é de poucas falas. Logo que ela aqui chegou, começaram a morrer crianças de um modo nunca visto. Ficavam roxas e chupadinhas que fazia dó. Depois deu a mortandade nos carneiros, que caíam nos campos, como tordos. Bem se vê que a mulher é suspeita. Pelos modos, ouve-se por altas horas em casa dela gritos agudos, e de noite corre fadário nos montes feita numa luzinha. De vez em quando, vem visitá-la um homem de má catadura. Tudo faz crer ser ela bruxa refinada. Há tempo, falando-lhe, ouvi-lhe palavras sacrílegas. E ovelha que já não espero salvar.»

Assim terminava o original apontamento do pobre cura, o qual, como é de crer, me excitou mais interesse ainda do que simples curiosidade. Indaguei de várias pessoas relativamente a Filomena e pude então reconhecer como se tinham já arreigado nestas imaginações incultas as ideias supersticiosas do pároco. As informações que me foi possível colher representavam-me de facto Filomena como um ente sobrenatural, em relação íntima com os espíritos maléficos e dotada de poderes extraordinários para evocar as almas dos mortos em pecado e outros absurdos semelhantes.

Quis desvanecer esses preconceitos, combati-os como pude; consegui apenas ser daí por diante olhado com suspeita pelo povo, que via na minha incredulidade uma espécie de heresia. Decidi-me a procurar a tão falada tia Filomena. O que fui encontrar, procurando-a, deve supô-lo o senhor, que, pelo que vejo, mostra conhecê-la também. Uma desgraçada e nada mais. — Filomena veio de longe para aqui. O motivo desta emigração foi uma desgraça de família, que ela me revelou sob o sigilo da confissão. Quando chegou a esta terra, trazia a pobre mulher no coração o desespero, e nos lábios a blasfémia que o delírio lhe arrancava.

Se não tivesse encontrado um pároco sem preconceitos, que compreendesse as causas daquele estado doloroso, que tentasse sanar as feridas, ainda gotejantes de sangue, daquele coração aflito, a cura seria fácil. Mas o desprezo de que se viu rodeada exacerbou-lhe os padecimentos e, cada vez mais entregue ao infortúnio, ia perdendo até os sentimentos religiosos, que por tanto tempo tinham sido seu único e eficaz auxílio. Uma epidemia de garrotilho que fez mil vítimas nas crianças e não sei que moléstia que por aqueles tempos grassou no gado, chegando a sacrificar rebanhos inteiros, vieram concorrer para arreigar estas superstições, que tão amarga tornaram a sorte, já mal-aventurada, da pobre Filomena. Quando pela primeira vez lhe falei, senti-me desanimar; confesso a verdade, tão desesperada a vi, que julguei ter chegado tarde: pareceu-me que seriam baldados todos os esforços para chamar de novo à comunhão das ideias cristãs aquela pobre alma abatida pelo infortúnio. Enganei-me todavia; consegui-o em pouco tempo e hoje é uma das mais religiosas criaturas da minha freguesia.

— O que não evita continuar a ser olhada pelo povo como bruxa e cruelmente odiada.

O reitor notou, sorrindo:

— E o melhor da história é que nem todos me poupam também; aqui onde me vê, tenho adquirido a minha reputaçãozinha de feiticeiro ou coisa parecida.

À verdade desta observação servia de testemunho a conversa que eu ouvira dias antes às raparigas do lugar a respeito do reitor.

Tínhamos enfim chegado à porta da humilde habitação da imaginária bruxa, quando perguntei ao meu companheiro o que ele conjeturava dos pequenos embrulhos de papel a que Luisita chamara os novelos da tia Filomena.

Ouvindo esta pergunta, o jovem reitor olhou para mim tristemente e, com uma voz reveladora de verdadeira comoção, respondeu-me:

— Isso resume quase toda a história desta mulher. E um ente singular e tão digno de respeito e estima como de compaixão.

Foi o único esclarecimento que obtive.

Entrámos enfim no quarto da tia Filomena.

CAPÍTULO XI

 

 

Era já noite fechada; a última claridade do dia desmaiara a pouco e pouco no ocidente, apenas agora tingido de uma uniforme cor de violeta. Do lado oriental, começava a surgir a Lua por detrás dos pinheiros, que se desenhavam em negro sobre o fundo de nuvens em que o astro difundira um colorido inimitável. A única porta da habitação da tia Filomena ficava voltada para este lado e os raios do luar, penetrando por ela, davam a todo o recinto um aspeto indefinível de tristeza e de pavor.

Parámos no limiar escutando se algum ruído nos advertia da presença da solitária velha, cuja vida tão desfavoravelmente comentada estava sendo em toda a aldeia e os seus arredores.

Reinava o mais completo silêncio.

— Saiu talvez — disse eu, enquanto que outra coisa bem diversa me pressagiava o coração.

— Saiu ou... quem sabe? — respondeu-me o reitor, expressando nesta hesitação o mesmo triste pressentimento que eu tivera.

Demos alguns passos dentro da sala. — O mesmo silêncio.

— Tia Filomena! — exclamei então, erguendo a voz.

Ninguém me respondeu.

Guiados pelo luar, chegámos ao fundo do quarto, onde sabíamos estar situado o leito da pobre mulher.

Então pudemos distinguir uma forma alvacenta, como de corpo inanimado, que involuntariamente nos fez recuar de terror.

Vencemos porém este primeiro movimento de repulsão e aproximámo-nos.

Era ela! a tia Filomena regelada, hirta, com os braços pendidos fora do leito, os olhos abertos, a vista fixa, imóveis e contraídos os lábios, e as faces mais emaciadas e pálidas que nunca!

— Que desgraça! — exclamou o jovem reitor, juntando as mãos. — Pobre mulher, morta, morta assim!

Palpando-lhe o peito, julguei sentir ainda bater-lhe frouxo e compassado o coração.

— Morta ainda não — disse ao reitor, comunicando-lhe a minha descoberta — parece-me perceberem-se-lhe ainda uns restos de vida prestes talvez a abandoná-la de todo.

Como para confirmar a verdade das minhas palavras, a mísera fez um movimento e, com voz sumida, perguntou:

— Quem é que está aqui?

— E o senhor reitor — respondi-lhe, curvando-me sobre o leito.

— Ah! pois veio?! — disse a pobre mulher, em cujo rosto percebi desenhar-se uma expressão de suprema felicidade. — Ainda bem, ainda bem! Onde está ele?

— Estou aqui — disse o reitor com a voz presa pela comoção que experimentava.

Filomena agarrou-se-lhe à mão.

— Como foi bom em vir! Não me deixe, enquanto não estiver morta, não? Tenho tido medo de me ver só. Como é triste ver-se a gente morrer só, só!... sem amigos, sem ninguém que chore, sem ninguém que console! Nunca pensei que chegaria a isto, meu Deus!

— Sossegue. Aqui nos tem. Mas não há de morrer ainda.

— Morro, morro, eu sinto que morro e ainda bem que assim é. Viver como tenho vivido há anos é pior, muito pior. Eles pensavam que a feiticeira... como sempre me chamavam, coitados! não sofria por se ver assim aborrecida e desprezada; ai, se sofria! se soubessem a minha vida toda! ... — E depois, interrompendo-se, apertou com violência a mão do reitor, bradando como sufocada: — Senhor reitor, ai, senhor reitor, a sua bênção depressa, eu sinto que vou morrer. Sinto, sinto!

E erguia-se com a contração enérgica da última agonia.

O reitor, após uma fervorosa oração, elevou os olhos ao céu e abençoou a moribunda, que na aparência se diria já cadáver.

De repente ainda meia erguida e sustentada por nós ambos, e com olhar vago, as mãos juntas e os lábios desmaiados e trémulos, ela começou murmurando uma prece, cujas palavras não pude perceber. O reitor observava-lhe os movimentos com um gesto de compaixão e em voz baixa rezava também as orações da agonia.

A meia claridade que reinava no aposento, refletindo-se naquele triste grupo, aumentava-lhe o aspeto lúgubre e melancólico, e infundia no ânimo não sei que íntimo e religioso pavor.

Passados alguns instantes, em que eu só podia ouvir o respirar ansiado da agonizante e o murmurar das orações do reitor, aquela elevou a voz e interrompendo-se a cada passo, extenuada pelo esforço, começou dizendo como em delírio:

— Era o meu dever; não era, senhor reitor? Olhe, ele aí está todo. — E apontava para os objetos do prateleiro. — Não lhes toquei... Se vier... diga-lhe... que eu cumpri o meu juramento... mas que lhe perdoei... Já agora...

Calou-se por algum tempo; depois com a voz cada vez mais sumida, acrescentou com aquela carinhosa meiguice só das crianças e dos doentes conhecida:

— Deitam-me para baixo? deitam?

Ajudámo-la a deitar.

— Assim — continuou ela — obrigada. Ai, sinto-me tão fraca... parece-me que vou dormir. Se me apagassem aquela tocha? Não sei para que a acenderam.

Coloquei-me diante da porta, para encobrir aos seus olhos a claridade da Lua, que parecia incomodá-la.

— Ora agora, não façam ruído, porque tenho sono e bem conheço que vou dormir... bem conheço...

Fechou os olhos por algum tempo, abrindo-os logo depois angustiada.

— Ai, não estou bem! Por quem são, virem-me, virem-me para o outro lado.

Voltámo-la como ela desejava.

— Ah! — disse depois, suspirando profundamente. — Agora sim... estou bem!

Estava morta.

O reitor caiu de joelhos junto daquele pobre leito abandonado de todos.

Deste recinto que os boatos da aldeia faziam habitado por espíritos malignos, acabava de subir ao Céu a alma de uma santa criatura.

A impressão que me causou toda esta cena manteve-me imóvel e silencioso, fitos os olhos naquela mulher que se finara e no sacerdote que murmurava ao lado dela, e quase soluçando, as orações mortuárias.

Pouco a pouco um tumulto de vozes e passos apressados, que havia já alguns instantes me chegava confusamente aos ouvidos, veio distrair-me a atenção. Por as frestas da porta, que o vento tinha cerrado, percebia-se um clarão avermelhado, que, projetando-se na parede caraira e no leito onde jazia o cadáver, dava ainda, se era possível, à cena mais sinistra aparência.

O sussurro ia-se de momento para momento fazendo mais distinto. Era evidente que procuravam a casa da tia Filomena.

Receoso de que as ideias supersticiosas do povo e a aversão que lhe inspirava a suposta bruxa o conduzissem a algum acto de violência, ao qual a minha demora, decerto interpretada para mal, servisse de pretexto, corri para a porta com o fim de evitar, se fosse possível ainda, a profanação de umas cinzas.

Nesse mesmo instante porém reconheci a voz de Luisita, exclamando:

— E aí.

E imediatamente a porta abriu-se com violência, penetrando logo no interior o clarão de muitos archotes acesos, sustentados por criados de libré, cuja figura e trajo não eram conhecidos na aldeia.

Ainda eu não voltara a mim da surpresa que o inesperado da cena me produzira, quando vi sair dentre a multidão, que parecia afastar-se com respeito para lhe dar passagem, uma mulher elegante, distintamente vestida e que pelas formas e vivacidade de movimentos supus ser ainda jovem. Encobria-lhe as feições um comprido véu de cor escura, mas não tão discretamente que lhe não denunciasse a beleza ainda que deixando muito a adivinhar.

Entrou na sala com passos rápidos e agitada; e, encontrando-se de frente comigo, disse-me, juntando as mãos e com um gesto em que se reconhecia uma não simulada ansiedade.

— Ainda vive?

— Está morta — respondeu o reitor, em pé junto à cabeceira do leito; e na inflexão de voz com que pronunciou estas palavras julguei reconhecer não sei que tom de severidade, que me impressionou.

Esta notícia pareceu fulminar a desconhecida.

Levou as mãos ao seio e soltou um gemido, tão profundamente expressivo de dolorosa angústia, que me fez subir as lágrimas aos olhos.

Depois, como cedendo a atração irresistível, correu ao leito, apoderou-se de uma das mãos regeladas da morta e, pousando-lhe os lábios, caiu de joelhos, bradando entre soluços, que lhe sufocavam a voz:

— Minha mãe! oh! minha pobre mãe!

O meu espanto era completo. Olhei para o reitor. Vi-o imóvel e mudo, presenciando com gesto austero e impassível esta cena comovente.

Quem era pois esta mulher, a chorar assim junto do cadáver da infeliz que tão esquecida vivera, mais aborrecida do que estimada, e tanto ao desamparo vira aproximar-se-lhe a hora da agonia final?

— Minha mãe — continuava a pobre senhora ainda de joelhos — agora que eu vinha receber as suas bênçãos, agora que eu me julgava feliz, que esperava enxugar-lhe as lágrimas e obter o seu perdão... para que me castiga assim, morrendo sem me perdoar?

— Perdoou-lhe! — disse o reitor com voz firme e austera.

A recém-chegada ergueu os olhos para ele, mas, como se compreendesse a severidade daquele olhar, que parecia desafiar o seu, baixou-os imediatamente, perguntando lacrimosa e trémula:

— Viu-a morrer?

— Assisti-lhe até ao último suspiro.

— E ela... falou-lhe de mim?

— Havia-me contado a sua história.

— Disse-lhe...

— Tudo.

— E perdoou-me?

— De todo o coração.

— Mas ignorava que eu havia enfim conseguido merecer-lho, esse perdão que tantas vezes lhe implorei.

— Mais grato será a Deus.

— Ó minha mãe! pobre mãe! Se eu te escutasse ao menos as últimas palavras. Quero vê-la. Como aqui está escuro! Uma luz, uma luz.

Um dos criados aproximou-se com o archote. A jovem senhora desviou então o véu que a encobria até ali, patenteando o rosto, verdadeiramente deslumbrante de beleza, e naquele momento as lágrimas mais faziam realçar.

Fitando os olhos no aspeto macilento e decomposto da mãe, soltou um grito dilacerante, e, cobrindo o rosto com as mãos, desatou em soluços que comoviam o coração de quantos os escutavam.

— Jesus, meu Deus! O que fizeram seis anos de infortúnio! Oh, desgraçada de mim! Pobre mãe! — continuou ela, cobrindo de beijos aquelas faces já frias. — Como não sofreste para assim envelhecer em seis anos! Seis anos! Aqui, só, neste monte, nesta casa, tão mal abrigada, tão mal vestida! Mas... Jesus, meu Deus... acaso... — e pôs-se a olhar em volta de si com a vista perturbada.

O reitor, que pareceu compreender aquela interrogação muda, segurou-lhe no braço e, encaminhando-a para junto do prateleiro, onde se divisavam os misteriosos volumes de que tenho falado, disse-lhe, apontando para eles:

— Olhe. A sua infeliz mãe morreu pobre e desamparada.

A aflita senhora, olhando para os objetos que lhe designava o reitor, fez-se pálida e pareceu prestes desfalecer.

— Meu Deus! Ai, meu Deus! — bradou, torcendo as mãos — a minha culpa foi pois tamanha que merecesse este castigo?

O reitor mostrou-se comovido, ouvindo este grito de não fingido desespero, e pela primeira vez se desarmou da fria insensibilidade, que eu até então estranhara nele.

— Perdoou-lhe, senhora. Sossegue. E se o que ela havia tanto desejava para lhe estender os braços de mãe se realizou enfim, confie que do Céu, onde está, o saberá, como o poderia saber na terra, que para sempre deixou.

A filha da tia Filomena, depois de mais uma vez abraçar o cadáver da mãe, chamou os criados, que entraram no aposento. Junto com eles vinha Luisita, cuja curiosidade pudera enfim abafar os supersticiosos terrores.

— Procurem pousada na aldeia — disse-lhe a senhora, dominando ainda a custo a comoção — e mandem-me alguma mulher que queira ficar hoje comigo aqui.

Espanto entre a criadagem.

A senhora continuou:

— Aqui, junto do corpo da minha querida mãe.

E, dizendo isto, corriam-lhe as lágrimas pelo rosto abaixo.

— Fico eu, senhora — disse Luisita, adiantando-se e chorando também.

D. Margarida — que tal era, como depois soube, o nome da senhora — viu estas lágrimas, e recompensou-lhas com um beijo afetuoso!

O bom coração de Luisita ganhara neste momento uma grande vitória sobre a sua má cabeça.

Os criados voltaram à aldeia, comentando cada qual ao seu modo o sucedido.

Eu vim para casa só. O reitor ia retirar-se comigo, quando D. Margarida lhe disse com voz triste:

— Quer ouvir o resto da minha história, senhor reitor? Preciso da sua absolvição e dos seus conselhos.

O reitor anuiu.

CAPÍTULO XII

 

Eram seis horas da manhã do dia seguinte, quando me vieram acordar, dizendo-me que era procurado.

— Por quem?

— Por o senhor reitor.

Apressei-me a descer à sala, onde efetivamente o reitor me estava esperando.

— A que devo a felicidade desta visita?

— Reclamo os seus serviços.

— Estou à sua disposição.

— Trata-se de umas exéquias solenes à tia Filomena; coisa, a falar a verdade, tão rara na aldeia, que me vejo embaraçado para lhe dar expediente. Não tenho conhecimentos na cidade e portanto...

— Deixe isso ao meu cuidado. Escrevo a um amigo meu, muito visto nestas coisas e que espero que sairá bem do negócio.

— Então acompanha-me à residência para alguns esclarecimentos e mais almoçará comigo?

— Às ordens.

Vesti-me e segui o reitor.

A residência não ficava distante; demos aviamento ao necessário. De lá mesmo escrevi uma carta a um amigo do Porto, encomendando-lhe os aprestes para as exéquias, e após subi para o quarto do reitor, quarto modestamente mobilado, sem trastes de luxo, mas com uma simplicidade que revelava bom gosto.

Numa só coisa desdizia este quarto dos hábitos singelos de vida do jovem sacerdote; era na livraria, bastante fornecida e seleta e que, pela desordem em que a vi, conjeturei não gozar de prolongados remansos.

Junto à cabeceira do leito e ao lado do velador encontrei, ainda aberto, o Génio do Cristianismo. Outros livros porém, menos ortodoxos, cobriam a mesa, as cadeiras e até o pavimento. Fácil me foi descobrir a um lado o Jocelyn, mencionado pela cúria no Index librorum prohibitorum junto dele, o Eurico, de igual imoralidade; mais além, os Lusíadas — não obstante o seu escandaloso amálgama de religiões; sobre o Paradise lost, o pagão do Homero; ao lado dos Mártires, a Eneida; de envolta com a Crónica de S. Domingos e a Vida do Arcebispo, a História dos Girondinos; a Guerra dos trinta anos, em contacto íntimo com os Anais da propagação da fé; o Memorial de Santa Helena, ao pé da Imitação de Jesus Cristo, e o Teatro de Vítor Hugo, de Schiller e de Garrett, não muito longe dos Sermões de Vieira, das obras de Fénelon e da Nova Floresta de Bernardes.

O reitor, vendo-me a examinar a biblioteca, corou e disse-me com certo enleio:

«-Ainda me não pude desfazer de antigos hábitos. Leituras dos meus primeiros anos e dos tempos de rapaz, pouco próprias talvez hoje. À batina só fica bem o breviário.

— Não se justifique para comigo, porque não lhe admito a culpa. O breviário de per si nem sempre é bom conselheiro. Haja vista o seu predecessor, que pelos modos não tinha cometido esse pecado que parece estar a pesar-lhe na consciência.

O reitor sorriu.

Sentámo-nos à mesa para almoçar, e no entretanto disse-me o reitor com expressão de sentida melancolia:

— Vai saber a história da Filomena. Quer ouvi-la?

Fiz-lhe sinal de que o desejava.

— É muito curta. Esta desgraçada mulher vivia a oito léguas daqui com uma filha única, que lhe ficara da idade de seis anos, quando o marido, morto numa dessas lutas civis que assolaram o reino, a deixou na mais triste e indefesa viuvez. Os sacrifícios que fez a pobre mãe para evitar a miséria, que temia menos por si do que por a tenra criança de quem era o único amparo, foram imensos e só talvez bem compreendidos por quem, como nós outros párocos, vive em contacto com esta infortunada gente, para a qual cada dia, cada instante de vida é uma vitória ganha sobre a adversidade. Trabalhava de noite e de dia; à luz do Sol, como à luz da lâmpada; nas longas e frias noites de Inverno, como nas formosas noites de Estio; sempre curvada à mesa do trabalho, sempre vergada sob o peso de tão dolorosa cruz! Assim passaram muitos anos daquela existência de amor e de abnegação, assim se exauriram as forças e o vigor daquela mãe extremosa; e o resto de vida que lhe não absorvia o trabalho, consumia-lho a maternidade, difundia-se nos mil desvelos e carícias com que rodeava o berço da inocente; — com os adornos de afetos, já que lhe escasseavam os da riqueza, que para ela só invejara. A filha crescia, sorrindo no meio da miséria e desconhecendo-a; ignorância feliz dos primeiros anos, comparável à da flor, que desabrocha à borda do abismo. Vivia dos sacrifícios e abnegação da mãe, e de tão pequena vivera deles, que desaprendera a apreciá-los, por essa involuntária ingratidão dos filhos, que mais parece uma lei a que obedecem os afetos humanos. Crescia em idade e em formosura a ponto de ser o enlevo dos habitantes do lugar. Aos dezoito anos, fascinava; falava-se dela léguas ao redor. Foi a desgraça da mãe, que então se revia ainda em tanta beleza, à semelhança dessas crianças imprudentes que se debruçam na corrente, fascinadas pela limpidez que lhes reflete o céu.

O filho de uma rica família das proximidades viu a inexperiente rapariga, apaixonou-se por ela, confessou-lhe o seu amor, soube fazer-se correspondido e um dia... Margarida desaparecia de casa. Espalhou-se a nova na aldeia; a mãe esteve quase louca, muito tempo correu como perdida por todos os lugares, encontravam-na de noite e de dia; às vezes adormecida de cansaço nos marcos das estradas; até que depois a perderam de vista na aldeia e disseram-na morta.

Foi então que veio para aqui com o desespero no coração, alucinada a ponto de blasfemar; por isso o velho reitor, como já lhe disse, a julgou possessa. A crença espalhou-se, a coincidência de certos sucessos parecia justificá-la; e esta desgraçada mãe, só digna de compaixão, viu-se repelida, odiada e desprezada de todos!

No entretanto a filha, que cedera à sedução, inquieta pela sorte da mãe, procurava-a. Soube do seu desaparecimento da aldeia, enviou emissários para averiguarem o lugar da sua nova residência, se é que ela ainda existia. Foi feliz em tais pesquisas. Vieram da parte da filha procurar Filomena, trazendo-lhe cartas dela; a pobre mãe, cujo coração todo se alvoroçava só de vê-las, rejeitou-as sem sequer as ler, dizendo: — que nunca essa malfadada voltasse para junto de si enquanto não tivesse purificado pelas bênçãos da Igreja o erro da sua juventude. — Esta obstinada recusa, fundada num arreigado sentimento de honra e decoro, dilacerava o coração das duas!

O amante de Margarida era de nobres e generosos sentimentos; mas, sujeito à vontade de uma família cheia de preconceitos de nobreza e das distinções hierárquicas, nem ao menos ousava falar-lhe num a união, que ele também cordialmente desejava.

Margarida quis acudir à miséria da mãe enviando-lhe algumas somas de dinheiro. Filomena rejeitou-lhas, dizendo que antes quereria morrer de fome do que viver de vergonha. A filha propôs-lhe abandonar o amante, voltar para junto dela e trabalhar para lhe sustentar a velhice; repeliu igualmente a oferta, com a mesma pertinaz firmeza com que tinha rejeitado as outras.

Isto há de lhe parecer talvez um mal entendido rigor, mas verá que se baseava no afeto profundo que alimentava o coração.

Margarida recorreu então a um piedoso expediente. Sabendo que Filomena saía a miúdo e que nunca se dava ao trabalho de fechar a porta da pobre casa, mandava todos os meses um criado de confiança a espiar o momento em que ela estivesse fora, para lhe remeter os socorros pecuniários. Era quase sempre de noite que isto se efetuava, pois Filomena, para evitar os insultos com que a perseguiam, raras vezes saía de dia. Este homem entrava-lhe então em casa, pousava o dinheiro de Margarida sobre um prateleiro que havia na sala: eram os embrulhos de que me falava ontem.

— Os novelos da tia Filomena, como me dizia Luisita. Adiante.

— Filomena suspeitava a procedência da remessa e por isso nem lhe tocou. Quatro anos sucessivos, mês por mês, se renovou a oferta; enfileiravam-se os pequenos rolos de dinheiro que o mensageiro religiosamente depunha no lugar costumado e Filomena nem ao menos sabia a quanto montava já a soma assim acumulada. O criado, que estranhara esta abstenção da velha, comunicou tudo ao amo. Este porém, para não afligir Margarida, recomendou-lhe segredo e ordenou-lhe que continuasse de igual forma a cumprir a sua missão. As somas sucediam-se e Filomena, que tantas vezes lutava com a necessidade, deixava-as no mesmo sítio em que as encontrara.

Quando a conheci, contou-me tudo. Os instintos religiosos, renascendo nela, aumentavam-lhe mais ainda os escrúpulos e firmavam-na nas suas resoluções. Se alguma vez eu lhe falava em perdoar à filha, a pobre mulher respondia-me, soluçando:

— Isso me diz há muito o coração, senhor reitor, mas, se eu o fizesse, a infeliz vinha-se-me lançar nos braços e esse homem, que a ama ainda, esquecê-la-ia em breve e com ela as promessas que lhe jurou. Ele não é mau. E se, para que eu perdoe, souber necessária a reparação, tarde ou cedo lha dará.

Eu não confiava muito nisso, mas como teria alma de tirá-la desta crença?

Os socorros que recusara à filha recebia-os com humildade das minhas mãos. Sabia da repugnância que lhe tinham na aldeia, e nunca por isso de dia ali desceu mais. Quis obrigá-la a ir à missa, não o pude conseguir. Havia no carácter desta mulher um misto de firmeza e timidez notável! — Essa gente, coitadinha — dizia ela muitas vezes — não assistiria com fervor à missa se me vissem ao seu lado. — E contudo afligia-se por ser privada de assistir ao santo sacrifício.

Lancei mão de um expediente. Há aí por detrás do monte uma pequena capela abandonada há muito. Um dia na semana lá ia eu celebrar missa só para a pobre mulher. O meu ajudante, que era o sacristão, é talvez o único homem na aldeia que não participa já da opinião do público a respeito da tia Filomena. Coitada! não pôde ver na terra realizado o seu mais ardente desejo! Quando expirava, corria a filha aos seus braços a dar-lhe alvoroçada a notícia de que as orações de tantos anos tinham sido ouvidas. Fora enfim recebida como esposa pelo homem que motivara estas desgraças. Por morte do pai e atingindo a maioridade, ele não quis retardar muito tempo a realização do desejo de ambos.

O fim já o não ignora. A filha inconsolável quer satisfazer para com a mãe a dívida contraída, por meio de umas exéquias solenes na igreja paroquial. O dinheiro acumulado e intacto das sucessivas mesadas, que enviou a Filomena e que monta à quantia de novecentos mil réis, vai ser distribuído pelos pobres da freguesia, sendo eu o encarregado da distribuição.

Aí tem a história da tia Filomena, de cujo sigilo fui remido por a filha, que, divulgando-a, pretende justificar a memória da mãe, tão caluniada em vida. — E, erguendo-se da mesa do almoço, o reitor acrescentou:

— Era uma santa!

CAPÍTULO XIII

 

Esta história divulgou-se: mas não fui eu que a contei. Luisita, cuja crença nos feitiços da tia Filomena ficara muito abalada depois da triste cena a que assistira, foi, como já disse, a única que ousou passar a noite com a filha da defunta. Como é de crer, não era para dormir que aí se achavam as duas. Conversaram, e D. Margarida, simpatizando com a sua jovem companheira, contou-lhe toda a história. No dia seguinte Luisita, um pouco por vontade de falar, um pouco com o desejo de desvanecer as más opiniões da aldeia a respeito da tia Filomena, pôs-se à obra, e dentro em pouco era o facto de todos sabido.

Fez-se justiça, ainda que tardia, a Filomena, e já corriam todos para a casinha do pinhal, como para uma ermida de Senhora aparecida. Duas velhas beatas disputaram, quase a murro, a posse do gato, que no resto da vida se tornou o mais benquisto da aldeia. A fantasia popular, tão fecunda em inventar lendas milagrosas como traças de Satanás e dos seus adeptos, referia agora virtudes da tia Filomena que deixavam a perder de vista as antigas façanhas de feitiçaria que lhe atribuíam.

Também me ri muito com o meu amigo da sua espantosa ciência do coração humano.

Aquela monumental dissertação era de uma solidez de alicerces formidável, só tinha o pequeno defeito de ser completamente inexata.

Oito dias depois faziam-se esplêndidas exéquias à tia Filomena; assistiu toda a gente do lugar. Foi coisa ali nunca vista.

Após, fez o reitor a distribuição das esmolas, colhendo as bênçãos dos pobres, que choravam de alegria.

À porta da igreja encontrei Luisita a limpar os olhos, comovida pelo facto edificante que presenciara.

— Então, Luisita — disse-lhe eu aproximando-me — e os novelos da tia Filomena?

A engraçada rapariga levantou para mim os olhos mal enxutos, sorriu melancolicamente e não deu resposta.

— Abençoados novelos — acrescentei eu — que deram para tecer tantas camisas aos pobres!