Serões da Província
As apreensões de uma mãe
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
CAPÍTULO I
Não me consta que tenha existido mãe tão extremosa, e talvez tão excessivamente indulgente, como era a Sra. D. Margarida, de Entre-Arroios, na época em que, voltando eu de uma pequena digressão pela província do Minho, tive a fortuna de ser recebido como hóspede em casa desta senhora, a meio caminho do Porto a Braga, um quarto de légua afastada da estrada principal.
Era uma época de crise para a fidalga, como por lá lhe chamavam todos os vizinhos, esta a que me refiro. Dias antes tinham as cortes decidido — e qual é a casa rica de província que não tem o seu pequeno parlamento? — que o menino Tomás, o qual então contava quinze anos feitos, seguisse estudos em Coimbra.
Discutia-se, porém, ainda acaloradamente a escolha da faculdade.
O abade, egresso do convento de Santo Tirso, jovial como uma anacreôntica, gordo como o primeiro prémio de uma exposição agrícola na secção — gado suíno — votava pela de teologia; o doutor, homem de emaranhados discursos recheados de cujos e supraditos e rábula por amor da arte, insistia na de jurisprudência; — e o médico, original de curtas falas, mas, em compensação, de bem compridas pernas, que dizia parada a ciência desde os seus bons tempos de Universidade e parecia querer-nos dar a entender que escutara então dela a última palavra, antevia um futuro brilhante para o jovem morgado na carreira clínica; mais generoso do que nenhum, apoiava este projeto de lei com a promessa da sua livraria, curioso museu de antiquário, coberto de uma camada de pó semi-secular, e na qual a traça imperturbável prosseguia lentamente todos os dias uma obra de destruição.
A faculdade de Matemática era a única não representada; e os três membros deste erudito congresso, em tudo tão divergentes, viam-se só unânimes ao reconhecer que ela não merecia, de facto, entrar em linha de conta.
— No nosso país, um matemático — dizia o doutor, concordavam o médico e o abade, e eu quase estive tentado a concordar também — não tem uma posição segura e definida. Os nossos governos encomendam as estradas aos enxurros, e as pontes fazem-se quando os ventos derrubam os trocos das árvores através das correntes dos ribeiros.
E o coro entoava um anátema às estradas, às pontes e ao governo.
Isto era em 185...
A Sra. D. Margarida, essa fazia dos matemáticos uma ideia horrorosa, pouco superior à que formava dos lobisomens, para que tomasse a peito defender a ciência de Newton e de Laplace da excomunhão lançada contra ela por este sapientíssimo triunvirato.
E todos os dias se reproduziam de parte a parte os mesmos argumentos; — todos os dias, como nos tribunais, a discussão percorria sucessivamente seus diferentes graus: começando pela argumentação pausada e agradável, passando à réplica tumultuosa, em seguida, confundindo-se em acaloradas vozerias, e terminando, enfim, pelas mais aguçadas alusões e as mais descompostas diatribes. Os contendores todos os dias se retiravam vermelhos, suando, resfolegando como touros no circo, a Sra. d. Margarida adiava a sessão para a noite imediata e o menino Tomás, causa inocente de tantas iras, continuava dormindo sossegadamente sob os tetos paternais, apesar dos quinze anos feitos.
Recomendado à dona da casa por um seu amigo íntimo de Braga, mereci a honra de ser imediatamente posto ao corrente da questão e, o que mais é, convidado para intervir nela. Quis recusar-me a esta lisonjeira prova de consideração, mas debalde o tentei; e afinal reconheci que bem necessária seria a minha intervenção, pois via os litigantes cada vez mais longe de se encaminharem a uni acordo.
Convocou-se portanto nova reunião para o dia seguinte ao da minha chegada, que se efetuara no fim da tarde de um magnífico dia de Julho, e depois de aturada conversa com a minha atenciosa hospedeira, na qual ela me pôs ao alcance de todas as suas tribulações domésticas, tais como: — a impertinência das criadas, o arejo das batatas, o vinho que se lhe azedara, um muro que tinha desabado — consegui, após várias tentativas infrutuosas, dar-lhe as boas-noites. Retirei-me para o quarto que me fora indicado, pensando comigo mesmo como tão depressa me achava envolvido num negócio de família, de não pequena gravidade, e árbitro dos destinos de uma criança, que nem sequer tinha ainda visto.
A janela do aposento onde pernoitei dava para um bem provido pomar, glória da Sra. D. Margarida, que se ufanava de possuir as mais deliciosas laranjas e os mais saborosos pêssegos de toda a província; e destes últimos, bem gratas recordações efetivamente me ficaram!
A noite estava belíssima. Era uma destas abafadas noites de estio em que somos, quase irresistivelmente, levados para a contemplação do espetáculo do céu, sem nuvens nem estrelas, e da terra inundada por um luar magnífico de reflexos surpreendentes.
Apaguei a luz, e, encostado ao peitoril, esqueci-me durante horas a olhar para o que via diante mim, e a pensar não sei em quê, se é que pensar se chama àquilo.
Desta contemplação fui afinal despertado por o ruído de uma janela que se abria cautelosamente. Movida assim a minha curiosidade, pus-me a observar o que se passava.
A posição era favorável a esta inocente espionagem. Uma rápida descrição topográfica do lugar o mostrará claramente.
A casa de Entre Arroios, edificada nos princípios do século passado, conservava ainda, apesar das sucessivas mudanças que o espírito de reforma de D. Margarida lhe havia introduzido, o aspeto pesado e quase lúgubre das construções daquela época do nosso país.
A fachada principal ostentava, heraldicamente combinadas, as armas da família, tidas pela gente do lugar como uma das principais glórias da sua terra. Duas largas pilastras de granito corriam, livres de oca e de argamassa, ao longo desta fachada, desde a sólida cornija que sustentavam em floridos capitéis, até aos alicerces sobre que se apoiavam os pedestais enegrecidos. Para a parte posterior prolongavam-se os corpos laterais do edifício em alas paralelas, abrangendo por esta forma um espaço quadrangular, onde um dos ascendentes de D. Margarida plantara o pomar a que já me referi e que com tanta dignidade sustentava nos mercados a boa fama da horticultura minhota.
Subindo três degraus de pedra já meio gastos pelo uso e transpondo uma porta envidraçada, entrava-se do pomar, por o corpo central na casa, para a sala de jantar; no mesmo correr eram a cozinha e despensas e para outro lado o salão das receções solenes, ordinariamente fechado.
No andar superior eram os quartos de D. Margarida, os quais abriam para uma ampla varanda de bem torneados balaústres, onde vegetavam em vasos de louça as flores prediletas da senhora; era também aí a sala dos serões familiares, e finalmente o quarto de Tomás. Este ficava situado num dos ângulos do quadrilátero e imediato ao corpo lateral do edifício que fora destinado para capela. Durante as devastações que o país sofrera nas sucessivas guerras civis dos últimos períodos da nossa história, a casa de Entre Arroios não fora mais do que as outras respeitada, e os estragos que, no resto da habitação, tinham já sido cuidadosamente reparados, conservavam-se ainda visíveis no pequeno templo, onde havia muito se não exercia por isso o ofício divino.
As janelas que deste templo deitavam para o pomar, uma das quais ficava muito próxima e subjacente à do quarto de Tomás, mostravam ainda os grossos caixilhos de ferro despovoados de vidros, e já em parte atacados pela ação corrosiva do tempo.
Finalmente, do lado esquerdo, em simetria com a capela, prolongava-se um pequeno pavilhão, originariamente destinado para alojar os hóspedes, que, recebidos e gasalhados na casa de Entre Arroios com proverbial cordialidade, ficavam, contudo, como por um natural e delicado pudor de ménage, um tanto afastados do seio íntimo da família, não a constrangendo assim a alterar os hábitos domésticos, que, e na vida de província principalmente, nunca se sacrificam sem dolorosa violência.
Foi neste pavilhão que me prepararam aposento, e de lá, oculto pelas folhas de uma laranjeira ao alcance do meu braço e através delas, podia eu pois descobrir toda aquela parte da casa que, por mais vezes habitada, não era, como esta, tão oprimida pela exuberância da vegetação.
Foi pois desta situação vantajosa que me dispus a averiguar a causa do ruído, proveniente, ao que parecia, do lado exatamente oposto àquele que eu ocupava.
Não havia dúvida. Uma das vidraças do andar superior abria-se vagarosamente. Era a do quarto de Tomás.
Ora, segundo o que me tinham dito dele naquela noite, desculpando-lhe a ausência, Tomás achava-se algum tanto incomodado e deitara-se mais cedo do que o costume. Seria pois aquele movimento filho do delírio da febre?
Foi o meu primeiro pensamento e tive tentações de excitar o alarme; mas, ponderando melhor, resolvi-me a expectar.
Já então estava convencido, e depois tenho mil vezes confirmado a observação, que não há, de ordinário, gente mais importuna do que as pessoas chamadas serviçais.
Passado assim algum tempo, vi uma forma escura desenhar-se no vão da janela, crescer, crescer e, com grande terror meu, erguer-se sobre o parapeito como tentando precipitar-se.
Não sei como pude reprimir um grito de susto: a ideia de suicídio fez-me arrepiar os cabelos.
Cedo porém, e com uma presteza que deixava suspeitar não ser a primeira vez que executava a manobra, o vulto, firmando-se nos lavores salientes da ombreira e daí num cano de ferro que descia do telhado ao pátio, junto ao ângulo da parede, transportou-se para o jazente da janela do templo, que lhe ficava próxima mas em plano inferior ao do quarto.
Depois, segurando-se aos varões de ferro dos caixilhos vazios, deixou-se resvalar até encontrar com os pés uma fenda ou desigualdade, não sei se natural se artificialmente praticada na parede, e, enfim, por uma evolução, que a sombra projetada pelas árvores me não deixou perceber, cedo tocava a relva, com tanta felicidade e prontidão que, sem hesitar, abandonei a ideia primeiro sugerida, por me parecer tal ginástica muito aperfeiçoada para um sonâmbulo ou febricitante.
Aquela sombra, ou antes aquele corpo, desde que se viu em terra, parou como escutando se tivera sido pressentido; afastou-se alguns passos e voltou-se de novo, passando em revista todas as janelas com escrupulosa atenção; porém esquecendo-se neste exame exatamente da única, que o havia traído, a do meu quarto, o qual talvez julgava desabitado. Satisfeito, ao que parecia, com estas observações, entranhou-se no pomar e cedo se perdeu por entre as árvores.
A sortida noturna deu-me que pensar. Sem dúvida, era este o herói de quem todos se ocupavam em Entre Arroios, e talvez mais herói do que me parecera quando a senhora D. Margarida me desenhou o seu retrato, com o defeito comum aos retratos feitos por todas as mães, que, desconhecendo geralmente as vantagens do claro-escuro, nos pintam seus filhos sem uma única sombra que lhes dê relevo às feições.
Aos quinze anos, uma excursão tão extravagante da casa materna tem já de ordinário uma causa, que não exige grande penetração, nem grandes esforços de inteligência para ser reconhecida.
Não me demorei por tanto tempo a desenvolver este problema, que resolvi pela fórmula geral. Mas o que me fez maior sensação foi que, por esta façanha, Tomás mostrava-se-me menos criança do que o queriam fazer aqueles que, sem o consultar, lhe andavam a discutir o futuro, destinando-lhe, um a cadeira abacial, outro a banca de advogado, outro a clássica mula de médico; e eu pensava comigo mesmo que muito bem poderia acontecer, chegada a ocasião de levar a efeito qualquer das resoluções em que assentavam, se tal hipótese era admissível, que todos fossem embaraçados por um obstáculo muito natural e não previsto, o da vontade de Tomás, a qual, a julgar pelo que vira, não se parecia dever ser demasiado maleável.
Jurei não deixar escapar esta observação e aproveitá-la para me conduzir no dia seguinte, visto a minha assistência ser reclamada pela assembleia, e conservei-me de atalaia, águardando o regresso do filho pródigo, o qual se efetuou pelas duas horas da noite e com a mesma agilidade e destreza que eu já admirara.
Contente com a minha involuntária descoberta, e mais adiantado talvez do que ninguém na vida íntima do protagonista desta história, abandonei o meu posto e deitei-me a dormir um sono agradável.
Pela manhã, acordei em sobressalto, sonhando que era obrigado a executar a manobra de ginástica que presenciara na véspera.
CAPÍTULO II
Quando abri a janela, ainda o Sol não havia despontado no horizonte. A manhã estava tão amena e tão belo panorama se ofereceu aos meus olhos, assim que os estendi ao longe pelos campos, que não pude vencer os desejos de explorar aqueles pitorescos lugares, apesar de ver ainda hermeticamente fechadas as janelas do quarto da senhora de Entre Arroios.
Servindo-me pois de uma saída particular, que havia no pavilhão, independente do resto da casa, desci ao pomar e aproveitando-me do momento em que o dragão deste novo jardim das Hespérides, um respeitável indivíduo da espécie Lineana: canis familiaris, saboreava as delícias do sono matutino, abri a porta da comprida gradaria, que formava o quarto lado da área consagrada a Pomona, e achei-me na quinta.
Os bens pertencentes à casa de Entre Arroios são extensíssimos, e naquela época uma exuberante vegetação dava aos campos tão agradável aspeto, tanta vida e frescura, que fazia realmente prazer entranhar-se a gente por aquelas extensas avenidas, e perder-se no meio das copadas devesas, ainda quando se corresse o risco de faltar a um almoço como costumavam sair das cozinhas de Entre Arroios. Depois de muito caminhar pude atingir enfim os limites da quinta e, verdadeiramente fatigado, sentei-me num pequeno muro tosco e coberto de hera, que ficava sobranceiro a uma destas tortuosas e estreitas ruas, que em mil direções atravessam as nossas aldeias e a cujo aspeto, monotonamente uniforme em todas elas, anda de ordinário mais ou menos ligada uma recordação da nossa vida passada.
Aí jogos, alegrias, perfumadas memórias de uma esquecida infância, nos reverdecem na imaginação, volteiam em tomo de nós, como um enxame de borboletas brancas ao agitarmos a balseira, onde pousavam embriagadas nos nectários das flores.
O nosso pensamento, à semelhança de um vaso metálico, ressoa por muito tempo, quando, embora de leve, percutido; como ondas sonoras, as nossas recordações, movidas por uma palavra, por um som, por uma flor, por um perfume, sucedem-se, dilatam-se cada vez mais vastas, cada vez mais suaves, até se desvanecerem numa confusa imagem do passado, de formas indefinidas e vagas, mas por isso mesmo mais belas, mais inebriantes ainda, num quase sonho, delicioso e grato como o murmúrio que termina o som, como o crepúsculo em que desmaia o dia, como o Outono que sucede à estação dos florescentes verdores.
E assim eu me deixava então enlevar pela reminiscência das passadas cenas, que tão profundamente me fazia esquecer tristezas e alegrias presentes.
Nós caminhamos sempre na vida entre duas visões; uma precede-nos esplêndida e brilhante, como a luminosa aparição que dirigia no deserto a marcha do povo hebreu; outra segue-nos, formosa e pálida, como as virgens ideias dos cantos escoceses. São a esperança e a saudade. Com os olhos naquela, quase chegamos a olvidar inteiramente a existência da última; mas que uma sombra extinga, obscureça sequer, a auréola que na primeira nos atrai e seduz, e a segunda surgirá, como surgem as estrelas, quando a chama do Sol desmaia no extremo ocidente.
Destas ideias, destes sonhos por onde me arrebatava a fantasia, evocou-me o ruído de uns passos ligeiros e leves, que de momento a momento se fazia mais distinto.
Nada de estranho poderia ter o facto, visto serem estas as horas em que de todos os lados da aldeia partiam os operários para o trabalho; contudo um inexplicável movimento de curiosidade me fez debruçar sobre o muro em que estivera sentado, águardando a chegada da pessoa que parecia avizinhar-se.
Não esperei muito tempo para conhecer a causa do ruído que me preocupava; cedo vi no princípio da estreita rua, que as árvores dos campos carairos guarneciam de um toldo de verdura, assomar uma gentil forma feminina com os trajes elegantes das lavradoras do Minho, e sustentando na cabeça, no mais perfeito equilíbrio, uma vasilha a trasbordar de leite mungido de pouco.
Era uma rapariga que parecia contar de treze para catorze anos. Os cabelos desatados saíam-lhe em madeixas abundantes por debaixo de um lenço escarlate, disposto em volta da cabeça com artístico e indescritível desleixo; outro da mesma cor se lhe cruzava no seio, cujas formas começavam a desenhar-se em curvas graciosas; a cintura tão delicada e flexível, que, ao vê-la, involuntariamente se imaginava a requebrar-se nas ondulações de uma valsa — era sem constrangimento apertada num estreito colete de fustão azul-escuro; a saia de pano preto descia-lhe até ao meio da perna; as mangas amplas e compridas da camisa de linho, alvo como a neve, vinham apertar-se-lhe nos punhos, ocultando aos olhos o puro contorno dos braços, que, não obstante, uma pequena e bem modelada mão deixava adivinhar. O fogo nos olhos, rosas nas faces, a alvura do leite no colo descoberto, onde realçava um fio de formosas coralinas, assim se adiantava esta risonha visão, que me vi tentado a tomar pela deusa da madrugada.
Com grande espanto meu, ela olhava-me de longe sorrindo e na aparência decidida a dirigir-me a palavra. Não tendo, como é de crer, motivos para me recear da aparição, conservei-me imóvel, absorvido agradavelmente a contemplá-la. Mas afirmando-se melhor em mim, quando a distância de me poder falar, a gentil rapariga fitou-me uns olhos espantados, baixou-os imediatamente, corou a ponto de rivalizar com a pequena rosa que trazia ao peito e apressando o passo, como ansiosa por fugir às minhas vistas, apenas murmurou, ao passar e sem erguer os olhos, a singela saudação, usada pela gente do campo: — muito bons-dias. Apesar da voz quase sumida, com que estas três palavras foram pronunciadas, afigurou-se-me de uma melodia encantadora. Respondi-lhe simplesmente ao cumprimento, abstendo-me, como de um sacrilégio, de acrescentar uma única frase, que se semelhasse a galanteio. Tal era a atmosfera de virginal castidade que me parecia envolver esta poética criatura.
Segui-a com a vista enquanto pude, até que a vi desaparecer numa das voltas do caminho, no mesmo momento em que aparecia o Sol, por detrás da colina caraira, dando-me a entender que era tempo de voltar a casa, para não ser logo no primeiro dia inexato à hora do almoço, que tão cuidadosamente me comunicara na véspera a senhora de Entre Arroios.
Abandonei pois este lugar, onde experimentara tão vivas impressões morais, para procurar aquela outra espécie de impressões, cuja fisiologia melhor que ninguém estudou, porque melhor que ninguém as experimentava, Brillat-Savarin, o médico-gastrónomo.
Na sala do almoço encontrei já a senhora de Entre Arroios, ocupando o trono, que, como chefe de família, de direito lhe pertencia. Era uma destas antigas cadeiras de couro lavrado, guarnecida de reluzentes tachas amarelas, a qual, atento o seu peso, só quase por antífrase se poderia chamar um dos móveis da casa; nossos avós as inventaram para se sentarem, assim como nós inventámos as modernas para fingir que nos sentamos.
Numerosas gerações da nobre família de Entre Arroios tinham conhecido e acatado esta cadeira histórica, que tivera já a honra, disse-me a Sra. d. Margarida com um movimento de justa vaidade, de ser ocupada um dia inteiro por um arcebispo de Braga, durante uma excursão pela diocese.
D. Margarida saudou-me com o mais amável dos seus sorrisos e dirigiu-me duas graças benevolamente maliciosas, sobre o meu passeio em jejum, terminando por me colocar à sua direita, em frente de um magnífico chocolate que deveras me deleitou.
Com a curiosidade, que é de prever, pedi notícias do bijou da família. O Tomasinho, disse-me a Sr.ª D. Margarida, passara mal a noite e exigira que ninguém lhe entrasse no quarto, por causa de uma intensa dor de cabeça, que lhe costumava dar muitas vezes.
— Ah! muitas vezes?
— A cada passo.
— E há muito que sofre dessas... dores de cabeça?
Há coisa de alguns meses a esta parte é que ele se começou a queixar. Isto há de ser do Sol...
— Também creio, minha senhora. O Sol faz muito mal e em certas idades sobretudo. E que diz a isso o doutor?
Eu sempre gostei de ver os médicos explicarem certas coisas.
— O médico — respondeu-me D. Margarida — diz que aquilo é força de sangue, e até propôs uma sangria.
— Ah! e o seu filho minha senhora?
— Não quis ouvir falar em semelhante coisa.
— É que talvez então se achasse melhor.
— Efetivamente, passou algum tempo mais aliviado, mas depois voltou-lhe.
— E hoje?
Levantou-se pela manhã muito cedo e saiu. Diz que lhe fazem muito bem estes passeios.
— As dores de cabeça?
Sim; pois é toda a sua doença.
— Decerto que devem fazer.
Quando acabava de receber estas informações, para mim bastante significativas, a porta da sala abriu-se e o menino Tomás entrou em cena.
— «Falai no ruim, olhai para a porta» — foram as palavras com que a senhora de Entre Arroios saudou o recém-chegado, para quem lançava uns olhos a trasbordarem de amor maternal.
Tomás beijou com afeto a mão da mãe e inclinou-se cortesmente diante de mim, depois que a Sr.ª D. Margarida me apresentou com todas as formalidades.
Um primeiro olhar sobre Tomás me fez logo simpatizar com ele.
Era ainda imberbe, algum tanto pálido, com uns lânguidos olhos castanhos, que se pressentiam talhados para contemplações poéticas, os cabelos negros naturalmente anelados e compridos, a cara espaçosa, a boca de uma expressão melancólica; tudo naquela fisionomia revelava sentimentos nobres e generosos, elevados brios, talvez uma excessiva sensibilidade, e um espírito fácil em impressionar-se; graves defeitos para quem desejar viver em paz neste mundo.
Os vestidos singelos, mas elegantes, faziam sobressair-lhe a estatura airosa e bastante desenvolvida para a idade que ele tinha. Conhecia-se haver crescido e vigorado ao ar livre dos campos.
Enquanto eu prosseguia neste meu rápido exame, reparei por acaso num a rosa vermelha, que Tomás trazia descuidadamente na mão.
Era em tudo semelhante à que vira ao peito da pequena leiteira.
Seria uma coincidência? Que admirava?
Numa terra e numa estação em que as rosas nos surgem espontâneas debaixo dos pés, que significação podia ter o facto?
Contudo, o que eu já sabia de Tomás levava-me a conceder mais algum peso à pequena circunstância que observara.
Travei com ele uma conversa banal, sobre mil coisas em que se costumava falar, quando se não quer dizer nada.
No fim do almoço a senhora de Entre Arroios improvisou entre nós um passeio, ao qual lamentava não poder acompanhar-nos, porque não lho permitia o governo da casa, de uma exigência mais que despótica — frase dela.
— Vão, vão passear! Mas olha lá, Tomás, cautela com o Sol, e não vás para o lado dos lameiros: a humidade pode fazer-te mal. Olha, sabes? não seria mau ires mais enroupado; a manhã está fresca, e o que livra do frio, livra do calor.
E com estas e idênticas recomendações, das quais a muito custo Tomás conseguiu livrar-se, sujeitando-se a umas, iludindo outras conforme pôde, saímos ambos para observar o plano de divertimento que nos traçara a Sra. d. Margarida.
Durante o passeio, Tomás mostrou-se agradável, e às vezes jovial. Falámos em vários assuntos, e em todos pude reconhecer nele bastante cultura intelectual, contra o que era de esperar, atendendo à vida isolada que passava ali.
Quanto porém aos seus sentimentos, Tomás mostrava-se pouco comunicativo, e se às vezes eu tentava mais a fundo sondar aquele carácter, que me parecia, a muitos respeitos, digno de estudo, tornava-se subitamente mais reservado ainda, como se pressentisse as minhas intenções.
Afinal decidi-me a atacá-lo mais de perto.
— Sabe, Sr. Tomás — disse-lhe depois de uma hora de passeio — que admiro as suas compatrícias?
— Sim?! — foi a única resposta monossilábica que pude obter. Não desanimei contudo e prossegui:
— Esta manhã, pelo menos, vi uma que me pareceu um verdadeiro modelo de artista.
— Deveras? — respondeu-me no tom de voz mais indiferente que se pode conceber.
Deveras — continuei eu — e foi justamente daqui mesmo.
Havíamos de facto chegado ao sítio donde eu, como cortesão em antecâmara de monarca, águardara o despertar do Sol.
— Ah! daqui?
Pareceu-me descobrir mais algum interesse nesta interrogação de Tomás.
— Ao que pude julgar, era uma leiteira das imediações. Bonita rapariga, palavra de honra! — dizendo isto, fitava os olhos nos dele, que momentaneamente se abaixaram.
— Havia de ser a Paulina disse com um ar de indiferença mal representada; e mudando de conversa: — O senhor é do Porto?
Fiz-me desentendido.
— Paulina? é um nome poético. E da terra essa rapariga?
— Julgo que sim... É, mas...
Eu não o deixei continuar.
— Não a acha galante?
Esta pergunta visivelmente o contrariou. Um movimento quase impercetível dos lábios, uma ruga que mal se desenhou na cara, e o rubor desmaiado que por momentos lhe invadiu as faces mo denunciaram.
— Assim — respondeu-me de um modo seco; e afastou-se alguns passos, ostensivamente para cortar uma vara de um castanheiro vizinho, mas na realidade com o fim de interromper a conversa, que lhe desagradava.
Pela minha parte, já sabia o que desejava; e como ainda ia perdendo terreno nas boas graças de Tomás, do que não tinha desejos, aceitei a diversão, fui ajudá-lo no ingénuo passatempo, em que ele fingia entreter-se, e assim nos divertimos durante alguns minutos.
Passado tempo, e a uma proposta sua, seguimos caminho para casa. Tive ocasião de lhe dirigir de novo a palavra.
— Que projetos forma relativos ao seu futuro?
— Projetos?
— Sim; a que carreira se destina?
— Ah! não sei bem. Dantes falavam em me mandarem para Coimbra. Talvez que essa ideia esquecesse.
— O que talvez estimaria.
Fitou-me com desconfiança, respondendo:
— Pode ser — e depois continuou: — Contudo era a vontade do meu pai e se a minhamãe o exigir... Sabe que nunca lhe pude desobedecer em coisa nenhuma?
Tinha na voz uma sensível comoção ao dizer isto; se o sentimento filial, se outro, o dominava então, não o pude saber.
— Pelo que ontem ouvi dizer a sua mãe e a alguém mais da companhia — continuei — julgo que esses projetos se discutem de novo atualmente.
— Deveras? porque não mo terão dito? — e calou-se preocupado por um pensamento que parecia mortificá-lo.
— Não há no Porto uma escola onde se estude também? — perguntou-me em seguida.
— Conforme. Para que estudos se inclina mais?
Encolheu os ombros em sinal de completa indiferença, e prosseguimos no nosso caminho silenciosamente.
Chegámos enfim à porta da gradaria que fechava o pomar, onde nos encontrámos com o médico, personagem esguio e descamado, que poderia servir de exemplar para estudos de osteologia seca. Uma mumificação progressiva quase lhe permitia já livre passagem através dos varões de ferro e inutilizava o uso da porta, que, apesar disso, Tomás se apressou em abrir-lhe, mais por delicadeza que por necessidade.
— Bons-dias, meu pequeno cliente — disse ele, dirigindo-se a Tomás e enviando-me ao mesmo tempo uma cerimoniática reverência.
Um sorriso de inofensiva zombaria se deslizou nos lábios de Tomás, ao contemplar o doutor.
— Então já de volta da sua excursão clínica, doutor Madrugada?, bem esforços faz por desmentir a vita brevis, que sempre traz na boca.
— É preceito higiénico que observo religiosamente; deito-me às oito horas para, às quatro, me levantar. Isto auxilia a boa distribuição dos humores e a cocção das matérias pecantes.
O aspeto do doutor não era muito lisonjeiro à teoria, ou tudo naquele corpo era matéria pecante: pois de facto dir-se-ia ter passado todo ele por uma cocção verdadeira.
— E as suas dores de cabeça? — acrescentou voltando-se para Tomas.
— Vão-me sendo infiéis e ameaçam deixar-me, as ingratas.
— Ruinzinho! Isso já podia estar fora. — E voltando-se para mim: — Ora diga, uma cefaleia com um fundo pletórico, devida evidentemente à confluência dos humores para a cabeça, coisa própria da idade, qual o tratamento racional que exige? Salta aos olhos dos leigos.
Apesar disso não saltou aos meus, o que me granjeou uma reputação duvidosa na mente do ilustre adversário das matérias pecantes, de cuja algaravia eu não pudera perceber palavra.
— Não há que ver — respondeu ele por mim, e com azedume — a sangria, a sangria e só a sangria.
Depois, dirigindo-se a Tomás:
— E como está a mamã?
— Vai ver — disse este, abrindo a porta da sala de jantar, onde havíamos já chegado.
Depois de uma luta de delicadezas e recíproca troca de zumbaias entre mim e o médico, consegui fazê-lo entrar adiante e penetrámos na sala.
Justamente naquele momento acabava a senhora de Entre Arroios de pregar aos criados o seu duodécimo recado, tarefa que, sob o nome de canseiras de casa, encetava pela manhã para terminar à noite.
CAPÍTULO III
À nossa chegada desanuviaram-se as feições contraídas da senhora de Entre Arroios; desceu uma oitava ao tom da voz e adiando para mais tarde a explosão das suas justas iras, justas deviam de ser, saudou o médico com o epíteto mais amável que lhe ocorreu, passando a informar-se, como alma caritativa que era afinal de contas, dos clientes mais pobres do Hipócrates campesino, os quais ela tantas vezes com cuidados, mais poderosos do que as drogas medicinais, lhe auxiliava a curar.
Eu no entretanto dirigia-me com Tomás para a janela, onde, para dizer alguma coisa, me pus a exaltar a paisagem, realmente bela, que se gozava dali.
Tomás parecia escutar-me com prazer; fez coro comigo e, com mais ardor do que eu, exprimia o seu entusiasmo por as belezas do campo.
— Pode acreditar — disse-lhe no discurso da conversa — que ontem, ainda que extenuado pelas fadigas da jornada, passei algumas horas absorvido na contemplação de toda esta cena fantasticamente iluminada pela claridade de um magnífico luar de Julho?
Estas palavras, pronunciadas sem intenção, produziram em Tomás um efeito, que, antes de as concluir, eu já notava e que me não foi difícil explicar.
Vi-o estremecer e olhando-me de um modo especial:
— Ontem? a que horas? — perguntou-me, com não disfarçada curiosidade.
Mentir não me era fácil.
— Depois da ceia... Das onze horas para a meia-noite.
— E donde? de que janela?
— Dacolá! — e apontei para o pavilhão.
Os olhos de Tomás seguiram essa direção, daí voltaram-se na do seu quarto e, depois de curta reflexão mental, fitou-me um olhar tão fixo, que, sem saber bem porquê, desviei o meu. Traí-me.
Ele também me havia sondado.
Corou um pouco e depois, como se abraçasse uma súbita resolução, perguntou-me com notável vivacidade:
— E que viu?
Adivinhei logo o sentido da pergunta, mas fingi ignorá-lo, respondendo:
— Todos estes mil efeitos, que nos surpreendem e que não sei descrever; contrastes admiráveis de sombra e luz...
— Só?
— Pois que mais?
Eu achava-me num a posição falsa, e que não poderia sustentar por muito tempo, pois confesso não serem grandes os meus talentos para dissimular.
— Então, além disso, não viu mais nada? — insistia Tomás — nem acolá? — e apontava para a janela do quarto.
A interpelação era muito direta desta vez, para lhe resistir; desde que o vi lançar assim as canas na mesa, julguei melhor imitá-lo.
— Alguma coisa, é verdade, mas... também viu? — acrescentei a meia voz.
— Se era eu mesmo.
— Ah!
Soube então quanto nos vale esta interjeição em casos apertados. Ganha-se tempo com ela, sem arriscar um passo que possa comprometer-nos.
— É verdade; que quer? — continuou Tomás, como se tivesse pressa de me explicar o seu procedimento. Eu também amo a natureza. Extasio-me ao respirar de noite o ar embalsamado dos bosques, sob um teto de verdura, através do qual se descobrem, se escondem, cintilam e resplandecem as estrelas, parecendo refletir-se na terra nesses milhares de insetos que das asas luminosas despedem fogos, tão fugitivos como os pensamentos a essa hora nos atravessam o espírito. Às vezes, acredite, chego a imaginar que de todos os lados me surgem as formas vagas e vaporosas que idealiza a poética imaginação do nosso povo e que imprimem nas singelas narrações dos campos, nas canções entoadas à hora das ceifas, ou junto do lar, um encanto indefinível. Talvez me julgue criança se lhe disser que um dos meus maiores prazeres nesta vida é, num a noite como a de ontem, na espessura das devesas, donde escute o murmurar de um ribeiro vizinho e veja desenhar-se no chão, em formas fantásticas e movediças, a folhagem que os raios da lua a custo podem atravessar, numa noite assim ouvir contar uma dessas histórias de fadas, que em pequeno tanto me entretinham e ainda hoje me deleitam, e mais já tenho perto de dezasseis anos!
— Mas contadas por quem, essas histórias? — perguntei, talvez impertinentemente.
Tomás hesitou em responder e murmurou não sei que palavras ininteligíveis, terminando por estas:
— Pouco importa. É uma questão secundária essa.
— Perdão; mas não penso eu assim — acrescentei, decidido a não me contentar com uma resposta tão evasiva. — Compreendo que possa encontrar nisso grande prazer e até, para lhe falar verdade, era esse um passatempo que me não desagradaria de todo, concordo; mas exigiria que os narradores fossem de duas classes apenas; ou uma destas velhas, que parece terem sido criadas só para narrarem contos e que o tempo respeita já com o fim de transmitir suas memórias às gerações que surgem; ou então, e melhor ainda, uns lábios femininos, uma voz com o timbre dos quinze ou vinte anos, que muita vez chegue a fazer-nos esquecer do conto para só nos lembrarmos da contadora.
Os mesmos sinais de impaciência, que por mais de uma vez havia oferecido a fisionomia de Tomás, de novo se lhe manifestaram, mais profundamente que nunca, e, como se me tivesse compreendido, continuou, dizendo:
— Eu não tenho contudo a liberdade de satisfazer estes desejos, a não ser da maneira que viu ontem.
— Um tanto arriscada.
— Pode ser. Mas o receio exagerado que a minha mãe tem ao ar da noite — e acentuou estas palavras sorrindo — fez-me perder a esperança de obter a sua permissão para satisfazer em mim este capricho, se não é uma verdadeira necessidade; mas capricho ou necessidade em todo caso incompreensível para ela. Eis o motivo porque me sirvo de um estratagema, um tanto singular e talvez ridículo.
— Diga antes perigoso.
— Ora! parece-lhe?
Se o que me dizia Tomás era verdade, não era contudo ainda a verdade inteira; — pressentia-o. Dei, apesar disso, à minha fisionomia um ar de convencimento, que me pareceu tranquilizá-lo.
Apressou-se em tomar a questão em tom jovial, rindo-se das suas próprias façanhas acrobáticas e esforçando-se por se mostrar mais criança do que era efetivamente, para tirar toda a importância à cena da véspera.
Houve enfim uma pausa na nossa conversa, que permitiu nos chegasse aos ouvidos o fim do diálogo travado entre D. Margarida e o doutor, o qual até ali nos passara desapercebido.
— Pobre homem! — dizia a senhora de Entre Arroios, profundamente compungida — e deu-lhe assim de repente?
— De um momento para o outro. Ainda esta manhã, quando a filha partiu para a vila, estava ele de perfeita saúde.
— E não dá esperanças?
— Hum! aquele... Receio que em poucas horas entroixe e parta.
— Pobre Paulina!
Estas palavras exerceram em Tomás, distraído até então, um efeito mágico.
Ainda bem não tinham saído dos lábios de D. Margarida, já ele, abandonando subitamente o lugar onde nos achávamos ambos, estava no meio dos dois, sobremaneira inquieto, e podendo a custo perguntar à mãe:
— Que é? que aconteceu?
Se ainda fosse mistério para mim o segredo de Tomás, ser-me-ia neste momento revelado, tal era a expressão da sua fisionomia. A minha atenção achava-se naturalmente atraída para a cena.
— Olha, não sabes, Tomás? — respondia D. Margarida, suspirando — o pai da Paulina, a leiteirita dos Casais, conheces?
Tomás não pôde reprimir um movimento de impaciência, que o denunciava.
— Sim, sim, e depois?
— Diz agora o doutor que, quando vinha, o encontrou expirando, com um mal que lhe deu de repente.
— É possível?!
— Infelizmente.
— E... a filha?
— Julgo que ainda o ignora, pois tinha já partido para a vila, como costuma todas as manhãs.
Tomás olhou para o doutor, que, lendo uma folha do Porto, abanou silenciosamente a cabeça, em sinal de confirmação.
— É preciso lá ir — foram as primeiras palavras de Tomás, depois de um instante de reflexão.
Por única resposta a Sr.ª D. Margarida dirigiu-se para o gabinete. Tomás deteve-a.
— A mãe não espera hoje ninguém para jantar?
— Sim, mas...
— Irá logo então; agora deixe-me ir só.
E, sem esperar outra resposta, encaminhou-se rapidamente para a porta e saiu da sala.
Ao passar por baixo da janela onde eu ainda me conservava, presenciando toda esta cena, o nome de Paulina, saindo-lhe dos lábios, chegou-me distintamente aos ouvidos.
CAPÍTULO IV
A senhora de Entre Arroios viu-o sair, sem tentar impedi-lo e, abanando lentamente a cabeça, murmurou comovida:
— Pobre filho! tem o coração de um anjo!
O médico, sem despegar os olhos da folha, fez ouvir um ininteligente monossílabo com pretensões a partícula afirmativa.
D. Margarida conhecia o doutor e por via de regra não o procurava em momentos de expansão e de sentimentalismo; por isso preferiu dirigir-se a mim e recostando-se ao parapeito da janela, donde eu observava ainda Tomás, que já se perdia por entre os desvios das avenidas, continuou:
— Não faz ideia, Sr. D... como aquela alma sensível se aflige, quando algum infortúnio sucede que ele não possa remediar.
— O seu filho tem nobres sentimentos, minha senhora; pude-o avaliar agora e suspeitava-o, desde que trocámos as primeiras palavras esta manhã.
— Meu pobre Tomás! E lembrar-me que, talvez bem cedo, tenha de me separar dele!
— Uma ausência momentânea é compensada de sobra pela alegria da volta!
— Da volta! mas quando entre nós e essa volta estão ainda anos e quando se tem uma saúde tão delicada como a de Tomás!
— Oh! minha senhora, isso são temores de mãe. A constituição do Tomasinho é até vigorosa, e senão o doutor que o diga.
— Pois sim! e aquela melancolia?
— Eu achei-o jovial.
— Ai, enganou-se. Está assim um momento e ele aí começa a entristecer, a entristecer, a entristecer, que me corta o coração só em olhar para ele.
— Que quer, minha senhora? São coisas dos quinze anos. As recordações de Va Exa não lhe dizem nada a este respeito?
— Sei ao que se quer referir: mas não vejo fundamentos... Vivemos aqui isolados...
— Por isso mesmo, minha senhora. Há coisas que o coração nos ensina, ainda quando longe dos objetos que lhas possam fazer lembrar. Quanto mais...
— E quer saber? — acrescentou em tom de mistério a senhora de Entre Arroios, inclinando-se ao meu ouvido — vou confiar-lhe um segredo, que a ninguém ainda disse e que espero a ninguém há de dizer também.
— Pode crê-lo, minha senhora.
— Tomás é poeta! — continuou ela, baixando ainda mais a voz e quase com uma expressão de terror.
— Ah! não vejo nisso grande mal; e até, para lhe falar a verdade, minha senhora, eu já o suspeitava.
— Sim? e pensa...
— Penso, minha senhora, que os poetas são almas privilegiadas, que Deus criou para entoar seus louvores, quer os cantos se lhe elevem nos templos como o incenso dos turíbulos, quer se derramem, como o perfume das flores, por toda a natureza.
— Mas aqui todos me dizem que os poetas são uns loucos, extravagantes, e que o seu fim nunca é bom!
— Vossa Excelência gosta de flores?
— Muito!
— E que lhe dizem delas também essas pessoas?