Serões da Província
As apreensões de uma mãe
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Nem sequer falam em semelhante coisa, que eu saiba.
— Pois os poetas, minha senhora, são as flores da humanidade.
A senhora de Entre Arroios pareceu refletir nestas palavras, e respirou enfim como se se visse livre de um pesadelo.
— O senhor também é poeta?
Foi a pergunta que em seguida me fez.
— Não tenho essa fortuna, minha senhora.
— Mas entende de versos?
— Leio-os com prazer.
— Ora então espere.
E saiu da sala.
A Sr.ª D. Margarida apresentara-se-me agora sob um aspeto novo, em que não pude deixar de admirá-la.
Até ali vira nela encarnado o tipo, não direi ridículo, mas vulgar e prosaico da dona da casa, que eleva à altura de questões diplomáticas as pequeninas misérias de uma vida doméstica, deslizada das sete horas da manhã às dez da noite, sem nenhum acidente sério, que viesse alterar-lhe a monótona serenidade. Agora, porém, via-a transformada, purificada pelo amor de mãe, que lhe fazia vibrar o coração em harmonia com os mais delicados sentimentos, e dotava-lhe a inteligência de uma penetração superior à esfera acanhada das suas habituais ocupações e educação incompleta.
Como o sopro de vida que no seio da crisálida a faz, num momento dado, voar borboleta, o amor materno operava nesta criatura, que me parecera vulgar, uma metamorfose que às vezes a tornava num ser verdadeiramente superior.
A senhora de Entre Arroios voltou à sala, trazendo na mão um pequeno papel dobrado, que ao passar pelo doutor, o qual naquele momento começava a leitura de um segundo periódico, teve o cuidado de ocultar com uma espécie de temor quase infantil.
Chegando junto de mim passou-mo para as mãos, dizendo:
— Tomás esqueceu isso um dia de manhã sobre a mesa do quarto. Encontrei-o, quando o arrumava, li-o e não entendi bem. Como ele depois nunca pareceu dar pela falta, resolvi guardá-lo. Isto foi há perto de três meses, justamente pelo tempo, e é isto que me dá canseira, em que ele começou a ter aquelas dores de cabeça, que o perseguem tanto. Pois pode acreditar que de então para cá não passa uma noite sem que eu me ponha a ler este papel, e o caso é que nalguns pontos já pude entendê-lo melhor.
Eu desdobrei o papel e li as seguintes estâncias, escritas com uma letra rápida e como por uma mão convulsa, mas sem uma única emenda: adivinhava-se, ao vê-la, que fora escrita com rapidez num instante de inspiração:
Flor dos campos, flor singela,
Para quem guardas tuas cores?
Deus criou-te entre verdores
Só para os campos enfeitar?
Desconhecem-te a beleza
Outras flores que ta invejam.
E as brisas, se te bafejam,
Não o sabem revelar.
— Ora repare — disse, interrompendo-me a senhora de Entre Arroios — porque me parece que esta flor, de que aqui se fala, não é bem uma flor.
Sorri-me à observação, e continuei:
Há tanto que corro os prados
Por sobre viçosas relvas!
Tantas flores pelas selvas,
Tantas no monte encontrei!
Há tanto! e porque só hoje,
Alva cecém da campina,
Quis a minha ingrata sina
Que te encontrasse? Não sei.
— Vê, não lhe parece estranho? — ponderou de novo a senhora de Entre Arroios — mas leia, leia.
Não sei. O peito agitado
Os seus segredos não revela.
Se o ver-te foi minha estrela,
Se é sorte pensarem ti...
Pensarei, sim; tua imagem
Há de seguir-me incessante,
Em ti só, flor vicejante,
Pensarei, já que te vi.
Novo gesto de D. Margarida; eu continuei:
À noite nos árvoredos,
Onde formas vaporosas
Vagueiam misteriosas,
Irei procurar-te, a sós,
De manhã quando no oiteiro
Surja a chama matutina
Já o teu nome...
Havia aqui um espaço deixado em branco e completava a estância: Repetirá minha voz.
— Tenho-me matado para ver se adivinho o nome da flor, que aí falta, mas não vejo.
Eu que, como o leitor deve supor, não encontrei grande dificuldade em completar o verso, disse, sorrindo-me para a senhora de Entre Arroios:
— Preciso seria que primeiro assentássemos se, como Vossa Excelência disse há pouco, esta flor é bem uma flor — e preparava-me para continuar a leitura, quando se abriu a porta de par em par, e deu passagem à figura rubicunda e esférica do abade, que saudou a assembleia com o seu habitual:
— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
— Amém — respondeu a Sra. D. Margarida, enquanto que, apertando-me o braço com vivacidade, tacitamente me instava a esconder o fatal papel revelador do delito poético de Tomás.
Este sentimento de delicado pudor, que inspirava àquela mãe o ocultar dos olhos dos seus prosaicos convivas os devaneios literários de uma imaginação de quinze anos, devaneios cujo sentido, quase enigmático, ela própria mais adivinhara do que compreendera, tinha o que quer que era de tocante, que me comoveu.
Apressei-me pois a esconder o papel, como se partilhasse também dos mesmos tenores, e respondi ao abade, que me havia dirigido não sei que pergunta, que por insignificante me esqueceu já.
O médico havia neste momento acabado de se pôr em dia com os acontecimentos europeus.
Depois de esvoaçar por todas as nações do mundo civilizado, aquele pensamento repousava agora, talvez, a ponderar nos destinos do Grão-Sultão e da Porta.
O abade odiava os jornais políticos, como odiava todas as coisas cujo uso não se remontasse ao antigo sistema governamental, de que era, e se confessava, aferrado partidário.
Entre ele e o médico, que militara no cerco do Porto, e fora ferido num ataque às linhas, ao saltar um muro para observar o espetáculo de mais de longe, ferida que provavelmente hoje lhe valerá uma pensão vitalícia, havia constantemente hostilidade súpita, que se traía nas mais pequenas coisas e que a menor faísca fazia rebentar em terríveis explosões, as quais só o ânimo pacificador de D. Margarida conseguia apaziguar.
— Quid curas, doctor? — disse o abade, aproximando-se do antagonista com afabilidade felina.
O doutor, com os olhos no chão, as pernas cruzadas e os beiços fazendo tromba, parecia calcular mentalmente a área do pavimento da sala; às palavras do abade levantou a cabeça.
— Oh! reverendíssimo! pensava agora numa importante medida, que atualmente se discute nas câmaras: é relativa aos morgados.
Uma tosse seca e significativa foi a resposta do reverendo egresso.
— As câmaras! — continuou, acentuando a palavra com ênfase — era de uma vez um dragão de cem cabeças... Não sabe o que diz a fábula?
— Sei só o que diz a história — respondeu o doutor, já um pouco desabrido.
— Que muitas vezes é fabulosa — redarguiu o abade, saboreando com delícia uma pitada.
D. Margarida, pressentindo a tempestade iminente, acudiu a interrompê-los.
— Sabe, Sr. Fr. Domingos, que temos hoje uns ovos de recheio, que espero há de apreciar?
— Ovos de recheio! Deveras? Oh! minha rica senhora D. Margarida; semper honos, nomenque tuum, laudesque manebunt, com mais razão do que a honra, o nome e os louvores de Dido, que afinal de contas... não se lembrou de apresentar a Eneias ovos de recheio. Ah! ah! ah! — acrescentou, rindo-se ainda mais pela promessa dos ovos, do que pela graça que dissera.
— E hoje, meus senhores — continuou D. Margarida — havemos de acabar de decidir a respeito do Tomasinho. Aqui está o Sr. D... que nos ajudará com o seu conselho.
O médico que naquele momento limpava os óculos, colocou-os de novo sobre o nariz e olhando para mim diretamente, como ainda até aqui o não tinha feito, perguntou-me:
— O senhor é formado? Tem algum curso?
— Não, senhor — respondi imediatamente.
Pareceu-me que no seu conceito desci cinquenta por cento, depois da resposta... Voltou-me as costas sem cerimónia, e, com a familiaridade que lhe dava uma convivência de longos anos, tirou do bufete um par de ameixas secas e foi saboreá-las para a janela.
O abade encarregou-se de continuar a inquirição começada.
— Mas vossa senhoria — disse-me ele com voz melífica — tem seguido alguns estudos?
— Possuo leves rudimentos de alguns.
— Cultiva a literatura?
— Aprecio-a imperfeitamente.
— Quem são os seus autores favoritos?
— Encontro sempre grande dificuldade em responder a uma interpelação desse género. Não sei. Admiro tanto Balzac, como Walter Scott, como Alfred de Vigny; extasio-me com uma das mais arrojadas estrofes de Byron, de Vítor Hugo ou Musset, tanto como me extasio com um dos sentimentais poemas de Lamartine.
Respondi com a maior ingenuidade e vi a estupefação desenhar-se no rosto do abade a cada um dos nomes que ia pronunciando, para ele mais indecifráveis que os do festim de Baltasar. Quando cheguei ao último carregou o sobrolho e preparou-se para falar. Escutei.
— Que disse? Lamartine? Não é um jacobino? Parece-me que tenho ideia de...
Não pude responder com receio de perder a gravidade.
Vendo o meu silêncio, continuou:
— Sim, não tem que ver, é o próprio; um dos vermelhos, um pedreiro-livre, dos tais senhores da égalité! — e acentuou sarcasticamente a sílaba final. — Com que então... admira isso?
Aqui abriu a caixa de rapé, fungou uma abundante pitada, assoou-se e, depois de soltar um suspiro ab imo pectore, voltou-me as costas, murmurando não sei que verso de Virgílio ou de Horácio, que provavelmente não me lisonjearia muito se fosse ouvido.
Neste momento a Sra. d. Margarida anunciou a chegada do terceiro conviva. Era o Dr. Teófilo, personagem exótico, cujos olhos pardacentos, como que envergonhados de se verem tão feios, fugiam um do outro, confinando-se no ângulo mais externo de umas escalavradas órbitas.
O Dr. Teófilo, acalentando de há muito as mais fagueiras esperanças na mão em segunda mão da senhora de Entre Arroios — trocadilho da sua lavra, muito festejado pelo autor — cada dia inventava novas finezas, sem nunca atinar com aquela que esperava lhe havia de valer a entrega da praça e da guarnição.
Desta vez trazia pendente da mão esquerda uma trouxa que prometia grande surpresa para o dessert, ocasião escolhida sempre por ele para as suas ofertas amorosamente ambiciosas.
— Já era retardatário ao que veio — exclamou o doutor, ao encarar com os outros dois frequentadores dos jantares de Entre Arroios.
— A justiça é sempre a última a chegar — resmungou o médico, explorando de novo, e com igual sucesso, o bufete, que exercia sobre ele uma manifesta atração.
O Dr. Teófilo, imperturbável por índole e por cálculo profissional, respondeu amavelmente:
— Onde a ciência e a religião existem, não se faz esperar a justiça.
O doutor era uma espécie de mediador plástico, perdoem-me os filósofos se rebaixo o termo, entre os dois elementos heterogéneos do abade e do médico.
A Sra. d. Margarida, à imitação dos fabricantes de instrumentos de física, que entremeiam o ouro entre a prata e a platina, na construção de certas lâminas, para podê-las sujeitar à ação do calor, servia-se do doutor para que a soldadura do abade e do médico não rompesse também no calor da discussão.
Era a vez do advogado se dirigir a mim.
— E como vai o hóspede?
— Belíssimo! — disse o doutor, pronunciando esta palavra portuguesa como se tivesse necessidade de ser italiana.
D. Margarida, no ânimo de quem eu havia conquistado terreno, depois da nossa rápida conversa, encetou ao meu respeito uma apologia, que a modéstia me obriga a calar, e que teve um efeito exatamente contrário ao que talvez a boa senhora esperava. De facto o doutor, ao notar o fogo com que a D. Margarida fazia o meu panegírico, mostrou-se inquieto: olhou para mim de um modo particular, depois para ela, depois de novo para mim, e, como sem consciência do que fazia, aproximou-se da mesa e bebeu até à última gota um copo de água que encontrou à mão. Caso realmente extraordinário na sua vida, porquanto o doutor nunca pudera concordar com Píndaro a respeito das excelências da água.
Percebi que o ciúme aguilhoava o coração do erudito intérprete do Digesto.
Que popularidade! Em poucos minutos conseguira tornar-me antipático aos três comensais de D. Margarida!
Mas o meio-dia chegara enfim, hora consagrada desde tempos imemoriais em Entre Arroios à solenidade gastronómica a que se dá o nome de jantar.
No campo o meio-dia adivinha-se independente de relógios. Um silêncio mais profundo, um não sei que particular na luz do Sol, uma cor uniforme que parece tingir a paisagem, no-lo anunciam. Depois temos a voz do estômago, esta poderosa voz mais real do que a do sangue, a qual os romancistas contudo admitem como facto incontroverso. O estômago quer aos seus hábitos, como víscera burguesa que é; uma vez afeito a comer ao meio-dia, exaspera-se quando lhe tardam e agitando-se no abdómen dá a conhecer à economia as suas necessidades imperiosas.
Foi a razão pela qual o abade, escutando o apetite, este irmão mais novo da fome, jovial como criança, mas cujo humor se azeda com a idade, se aproximou da janela, contemplou os ares, e, voltando-se, soltou estas palavras, que vieram dar a razão dos bocejos continuados do médico, das suas frequentes visitas ao bufete e dos suspiros, melodiosamente melancólicos, do doutor:
— Isto deve ser meio-dia.
— Há de ser — disse D. Margarida — vou mandar tirar o jantar; Tomás provavelmente janta mais tarde.
Estas palavras foram acolhidas com geral satisfação.
E o jantar veio para a mesa; rompeu a agradável orquestra de garfos e facas, para muito boa gente mais harmoniosas do que as melhores partituras de Bellini ou Donizetti; e todos empreendemos, como aliados, uma batalha cujos destinos não podiam ser duvidosos.
O médico e o abade esqueceram por um pouco a recíproca antipatia; contudo esta afabilidade diminuía na razão direta do apetite. À sopa, eram quase amigos, ao cozido tolerantes apenas; mas quando chegou o prato de meio, já os primeiros assomos de hostilidade começavam a transparecer. Um frango guisado foi o pomo da discórdia.
Eis o caso:
A entrada triunfal da ave de Marte fora saudada com verdadeiro entusiasmo, e, depois de a admirar em globo, cada um em detalhe a admirava no prato.
— Excelente molho! — disse o abade, embebendo nele enormes fatias de pão-trigo, galicismo gastronómico que, seja dito de passagem, causa delícias a muitos severos puritanos.
— Eu sou partidário dos molhos — exclamou o doutor, seguindo o exemplo dado pelo vizinho.
O médico, para contradizer, disse-os anti-higiénicos; mas não ficava atrás dos antagonistas na gloriosa cruzada contra este inimigo dos estômagos humanos.
— A história dos molhos — acrescentava o abade, limpando ao guardanapo os beiços besuntados — anda a par da civilização. Os heróis de Homero desconheciam o verdadeiro molho; Virgílio fala-nos da carne assada no espeto, veribus que trementia figunt; scilicet viscera, mas nunca em molhos. Anacreonte...
— O abade podia muito bem empreender uma obra em que provasse...
— Os molhos? É a obra que estou empreendendo. Eh! eh! eh!
— Não; porém que a florescência dos estados prendia nos aperfeiçoamentos dos molhos — terminou o médico, sorrindo.
O doutor, que previu tempestade, tomou a palavra:
— Mas de facto, há aqui uma fusão de substâncias, que formam um todo delicioso.
— É o gosto do cravo, da pimenta, do açafrão, da salsa, do alho; tudo e não é nada disto — parafraseou o abade.
— E um verdadeiro sistema constitucional — disse o médico, que tomava posse do seu temperamento; e acrescentou: — O absolutismo, a predominância de um elemento único é sempre mau em molhos, como em política. — Grave imprudência!
O abade tremeu.
O doutor concedeu uma risada de aprovação à burlesca comparação do médico.
Isto acabou de transtornar o egresso:
— Bem me parecia, doutor, que vós outros avaliais as coisas em política pelas leis de gastronomia! Bom é tudo aquilo que satisfaz o estômago.
— Sem causar indigestão — respondeu o médico, com imperturbável sangue-frio.
A cólera do abade subia ao seu auge. Estava fulo.
— O vosso sistema de molhos em política, doutor, tem só o inconveniente de encher o governo de nódoas.
O abade, superior à sua época, manejava já então o calembourg, em que muito pouco se falava ainda por cá.
Como ninguém se rira do gracejo, acompanhou-o ele de uma gargalhada fradesca, de grau superior à homérica.
D. Margarida, inquieta pela ausência prolongada de Tomás, não dava fé da tempestade, que se aglomerava sombria, nem pensava em intervenção.
Ensaiou-a o doutor e, enchendo os copos:
— Vá — exclamou — à saúde da fusão dos partidos e dos...
O abade não deixou de concluir.
— Também o doutor!
Isto fez-me lembrar o tu quoque de César.
O doutor sentou-se desanimado.
Frei Domingos perdera de todo a cabeça; os olhos injetados caíram sobre mim; não lhe escapei, inocente vítima que era!
— Falta o senhor lá, o que me disse que preferia aos poetas antigos as poesias de... Robespierre ou não sei que outro herói.
D. Margarida compreendeu enfim a necessidade de intervir e não lhe foi difícil.
— Abade, eis os ovos de recheio.
Foi água que caiu na fervura.
Tudo serenou e cedo os ovos foram, no rigor da palavra, absorvidos.
O resto do jantar correu sem outra novidade, a não ser a saudação geral que vitoriou a surpresa do doutor, a qual, desta vez, consistiu num a dúzia das decantadas frigideiras de Braga, a mais apetitosa conceção dos pasteleiros da augusta cidade Cesária.
CAPÍTULO V
Acabado o jantar e dita a oração de graças, a senhora de Entre Arroios, depois de nos dar as boas-tardes do estilo, chamou a atenção dos circunstantes, pedindo que se passasse a discutir o futuro de Tomasinho.
O médico, depois de fazer uma última provisão de ameixas secas, que ele sustentava serem estomacais, deu o assentimento; imitou-o, em ambas as coisas, o abade, apesar da mútua animadversão, e contentando-se o doutor de se prover de palitos, passámos todos para o salão contíguo, que era o lugar de honra da casa e escolhido pela Sra. d. Margarida de propósito para aumentar a solenidade do acto.
A senhora de Entre Arroios tomou a cadeira da presidência; todos se sentaram, só eu, que, preocupado pela súbita doença do pai de Paulina, tinha pouca vontade de entrar na discussão, me conservei um pouco de lado, sem que ninguém se lembrasse de me chamar, nem a senhora de Entre Arroios, a qual provavelmente me quis facilitar a oportunidade de terminar a leitura da poesia de Tomás.
O aposento em que nos achávamos era uma vasta sala retangular, forrada por um papel de cor escura que, absorvendo os raios luminosos, lhe dava um aspeto sombrio e triste, apesar das duas amplas janelas de peitoril, que abriam sobre o pomar; por cima do fogão de lousa artisticamente cinzelado, pendia um espelho de moldura dourada, mas já em parte enegrecida pelo tempo; toda a mobília era pesada e antiga; o tapete que forrava o pavimento revelava longos anos de serviço nas cores, meio desbotadas e no fio da urdidura já nalgumas partes descoberto. Numa das paredes laterais, caraira à porta por onde entráramos, notava-se, em caixilho cuidadosamente conservado, um retrato a óleo de grandeza natural e de correto desenho.
Representava um velho de nobre fisionomia, vestido com a farda da marinha portuguesa e em cujo peito se divisava, distintivo de lealdade e valor, uma pequena fita azul em fivela de prata.
Era o retrato do pai de Tomás, velho militar, que havia combatido sob o comando de Napier, e voltara à terra onde nascera coberto de anos e de cicatrizes honrosas, para procurar no seio da família uma morte sossegada.
A pintura era de um discípulo de Vieira portuense, amigo íntimo do velho marinheiro e o seu hóspede durante uma viagem que fizera pelo Minho. Não quisera o artista perder a ocasião de reproduzir com o pincel um desses tipos de soldado do mar, que de dia para dia mais se vão perdendo na nossa terra, outrora berço e escola de navegadores.
D. Margarida tinha para com este retrato uma veneração quase supersticiosa. Amara extremamente o marido; porém, como de ordinário acontece entre caracteres de força desigual, este amor fora nela misturado com um sentimento de respeito, que ainda conservava pela memória dele.
Aquele olhar grave e severo, tão perfeitamente reproduzido na tela, parecia ainda exercer sobre a senhora de Entre Arroios a mesma influência que exercera em vida.
Se, por acaso e involuntariamente, fazia chorar o pequeno Tomás, já não ousava erguer os olhos na presença deste retrato, como se temesse encontrar-lhe mais severidade na expressão: mas se, pelo contrário, alguma coisa acontecia que fizesse sorrir o filho — se as carícias lhe estancavam as lágrimas, olhava-o, esperando quase vê-lo sorrir também. De pequeno costumara Tomás a vir todas as manhãs saudar a imagem do pai; e dir-se-ia estranhar que este lhe não retribuísse a saudação em bênçãos.
Neste momento a mãe carinhosa parecia invocar a memória daquele que lhe fora tão caro para que velasse pelo interesse do filho; na presença deste retrato, sob os olhares melancólicos daquela nobre figura, que se dissera contemplá-la ainda com amor, a pobre senhora achava-se mais forte; era este o templo onde a sacerdotisa recebia a inspiração que lhe iluminava o espírito: fora deste recinto a senhora de Entre Arroios sentia-se apeada do pedestal, e despojada de não sei que auréola que a circundava ali.
Desde que nos viu todos dispostos a escutá-la, disse-nos que enfim se achava decidida, ainda que com o coração despedaçado, a cumprir a vontade do marido, o qual sempre revelara desejos de que Tomás seguisse os estudos; que julgava ser a idade a que chegara o filho aquela em que convinha pensar na realização deste projeto, e que por isso pedia aos seus amigos, os quais folgava ver ali reunidos, que assentassem por uma vez qual das carreiras conviria ao Tomasinho e quando se deveria marcar o dia da partida. E, ao dizer isto, a voz trémula e lacrimosa da pobre mãe revelava uma profunda comoção.
Houve silêncio na sala.
— Então? — continuou ela, conseguindo dominar o sentimento — que decidem? O que deve estudar o Tomasinho?
— A medicina.
— A jurisprudência.
— A teologia.
Bradaram a um tempo o médico, o advogado e o abade.
— Jesus, Maria! mas... concordem numa coisa. Ele não há de estudar tudo isso. A sua opinião, dada por essa forma, de nada me vale. Decidam-se por uma.
— Pela jurisprudência.
— Pela medicina.
— Pela teologia.
Repetia o coro.
— Valha-me Deus — dizia a senhora de Entre Arroios, toda aflita. O advogado continuou:
— A jurisprudência, Sr.ª D. Margarida, é o sustentáculo da sociedade!
— A medicina, minha senhora — replicou o médico — é a âncora da humanidade!
— A teologia é o esteio da religião! — disse pela sua vez o abade, em tom de oráculo.
— E disso tudo que é que se tira? — exclamou a mãe desesperada.
— O que se tira? — balbuciou o abade.
— Pois que se há de tirar? — redarguiu o médico.
E ambos pareciam repetir silenciosamente a si mesmos a pergunta, sem atinarem com a resposta desejada.
— Tira-se, minha senhora — respondeu enfim o advogado, que era homem para estes apertos — que a jurisprudência é a mais nobre das profissões, a ciência mais útil, o mais valioso conhecimento. O jurisconsulto é um benemérito da pátria e da humanidade, cuja o devera glorificar e render-lhe preito; — quem mais útil do que ele, já, quando instituindo leis que devam regular os povos, já, quando...
Eu estava resolvido a conservar-me mudo espectador deste conciliábulo, que tinha muito de soberanamente ridículo; porém a perspetiva das legiões de já quandos que antevira no discurso do orador, e um olhar expressivo da senhora de Entre Arroios fez-me mudar de resolução, e decidi-me a intervir.
— Dá-me licença?
O doutor parou, visivelmente contrariado.
O humor dos outros membros do conselho não me foi, ao que pude julgar, mais favorável; para eles era um intruso e atrevido.
— Não sabemos se... foram as palavras que acolheram a minha intervenção, ao passo que, olhando para D. Margarida, os três pareciam emprazá-la tacitamente a conter a minha ousadia. A senhora de Entre Arroios mostrou porém desta vez uma firmeza nela pouco vulgar e que espantou os eloquentes oradores além de toda a medida.
— O Sr. D... — disse ela — é um homem de bem e digno de toda a minha confiança. Julgo que a opinião dele merece ser escutada, visto que há tanto tempo os senhores discutem esta matéria sem que ainda fosse possível aproximá-los de um acordo, que desejo, e a que, de qualquer maneira que seja, hoje é preciso chegar. Fale, Sr. D.... a qual das opiniões se inclina?
— A nenhuma, minha senhora.
Sensação na assembleia: eu não cedi a palavra. — E peço a V Ex — continuei — que de maneira nenhuma suponha que intervenho com o intuito de me pronunciar a respeito de uma carreira que possa convir a Tomasinho. Conhecendo-lhe as inclinações, pela natural penetração de mãe, melhor do que nós o poderá V Ex decidir. Mas nem eu penso que se trate aqui de uma criança incapaz de julgar por si das próprias conveniências e aptidões. O filho de V Ex tem quase dezasseis anos, e é ainda uma inteligência adulta; parece-me por isso extravagante que se esteja agora aqui talhando um futuro, talvez já concebido bem diferente pela principal pessoa interessada. Eu voto que, em vez de nos consultar, consulte V Ex diretamente a Tomasinho.
Estas palavras levantaram uma celeuma tal na assembleia, que me não foi possível ouvir a resposta de D. Margarida.
— Que extravagância!
— Que singular opinião!
— Pois um menor...
— O senhor é tão criança como ele.
— Onde se ouviu semelhante coisa?
— Quae te dementia cepit!
Esta era do abade.
— São doutrinas perigosas.
— Subversivas.
— Anti-sociais.
— Republicanas.
Outra do reverendo.
— Mostra ignorância do código.
— Uma criança senhora sua!
E a vozearia era já tal, que fazia estremecer a sala.
Em vão tentava defender-me, em vão D. Margarida se esforçava a pedir silêncio; a irritação fazia bramir os três argumentadores, ligados excecionalmente contra o inimigo comum, que, por graça especial, tinham encarnado na minha pessoa.
Durava e prometia perpetuar-se esta algazarra infernal, quando a porta do salão se abriu violentamente e Tomás apareceu no limiar, fazendo de súbito, e como por encanto, cessar todo o ruído.
A cena era de um efeito teatral.
Tomás, mais que nunca excessivamente pálido, com os lábios trémulos, e os olhos como pisados de chorar, parou por algum tempo à entrada da sala e correu com a vista os circunstantes, que todos permaneceram mudos debaixo do olhar daquele que momentos antes tratavam de criança. Naquela fisionomia enérgica tinham pela primeira vez reconhecido o homem.
A expressão do pai acentuava-se profundamente nas feições do filho. A senhora de Entre Arroios, vendo-o, juntou as mãos e elevou os olhos ao retrato do marido. Dir-se-ia que acreditava num a aparição.
Tomás entrou para a sala.
— Sei do que se trata; — disse com voz alterada — agradeço o incómodo que têm tomado pela minha causa, meus senhores; porém dispenso tal intervenção.
E voltando-se para a mãe:
— Minha mãe, o meu destino está nas suas mãos. A mãe sabe que tudo quanto de si me vier eu o receberei, como costumo receber as suas bênçãos, de joelhos e com gratidão. — E ajoelhando diante dela beijou-lhe afetuosamente a mão.
As lágrimas saltavam pelas faces da pobre senhora.
Tomás ergueu-se e, enxugando os olhos também, continuou:
— Mas não falemos por agora nisto. De uma coisa mais grave lhe vinha falar, mãe.
Eu quis deixar o quarto e consegui que os outros fingissem imitar-me.
— Não, não, fiquem — exclamou Tomás, detendo-nos com um gesto — o que eu tenho a dizer a minha mãe não me envergonha; antes estimo tê-los por testemunhas.
— Jesus, meu filho! que tens tu, que me assustas?
— Não é nada — disse Tomás cada vez mais dominado por uma comoção desconhecida; e depois continuou: — É que o seu doente, doutor, acaba de me expirar nos braços. Paulina está órfã.
Passado um momento de silenciosa hesitação, acrescentou com voz lenta e firme:
— E Paulina é desde hoje minha desposada.
CAPÍTULO VI
Não sei de coisa alguma que pudesse determinar nesta ocasião um espanto igual ao que produziram as palavras de Tomás. A mais viva surpresa se desenhava no rosto dos circunstantes. Eu mesmo, que tinha motivos para menos do que os outros me maravilhar, não pude reprimir um gesto de admiração, ao ouvir aquelas poucas palavras pronunciadas com voz tão segura, que bem denunciava a resolução inabalável que as ditara.
A senhora de Entre Arroios olhava para o filho, como se ainda lhe parecesse um sonho o que tinha ouvido, e desejasse assegurar-se da realidade.
— E uma dívida sagrada, minha mãe — continuou Tomás — contraí-a junto do leito de um moribundo, e sobre a cabeça de uma órfã; contraí-a invocando o nome daquele que parece dacolá olhar-me e compreender-me — e apontava para o retrato do pai; depois continuou mais baixo: — Contraí-a inspirado pelo amor.
Estas últimas palavras explicaram melhor a D. Margarida o acontecido; mas a revelação assustava-a, sem talvez bem saber porquê. A pobre senhora escondeu a cabeça entre as mãos, murmurando com voz sumida:
— Jesus, meu Deus! — E assim se conservou alguns minutos.
Tomás não despregava os olhos da mãe, como se das primeiras palavras que ela pronunciasse lhe dependesse a vida.
O resto das personagens desta cena, entre as quais me incluo também, não se sentia à vontade.
Tudo se devia decidir entre a mãe e o filho. Há nas famílias acontecimentos em que toda a intervenção de um estranho é inconveniente.
Nenhum de nós ousava falar e conservávamos a imobilidade de um quadro vivo.
No fim de alguns minutos, D. Margarida ergueu a cabeça. Impressionou-me o ar de nobreza e de resolução que se lhe lia no gesto. Era uma nova metamorfose desta mulher singular.
— E promessa sagrada, meu filho — disse ela — há de cumprir-se.
E fitou os olhos no retrato do marido, como se daí lhe viera a inspiração.
— Ó minha mãe! — exclamou Tomás, ajoelhando diante dela.
D. Margarida susteve-o com a mão.
— Não sejamos todos crianças, Tomás. Escuta, que não consinto sem condições.
— Não preciso sabê-las para me sujeitar a elas.
— O Sr. D... — continuou D. Margarida, olhando para mim — disse-me ter de partir amanhã já para o Porto; hás de acompanhá-lo; e daí tu próprio escolherás a carreira que mais te agradar seguir.
— Amanhã? já!
— É preciso. A vontade do teu pai é tão sagrada como a tua promessa, filho. É tempo de a cumprir: e há mais que o devera ter feito.
— Seja... mas...
Tomás hesitou ao continuar; a mãe porém adivinhou o resto; atraiu-o a si, estreitou-o nos braços, e, beijando-lhe a cara com o maior carinho, disse-lhe a meia voz:
— Descansa; ela será minha filha.
Estas palavras fizeram rebentar as lágrimas a Tomás.
— Oh! obrigado; o coração dizia-me que a mãe me não havia de querer mal por isto.
— Querer-te mal, filho! — E depois, afastando-o:
— Não é verdade, Sr. D.... que nos fará o obséquio de acompanhar Tomás?
— Tudo em que a puder servir, minha senhora.
E de novo recaímos em silêncio.
Os convidados apressaram-se em abandonar esta casa, onde respiravam uma atmosfera de constrangimento.
À noite todos na aldeia sabiam do ocorrido, e cada qual comentava ao seu modo a criancice de Tomás, como eles diziam, e a leviandade da mãe. Outros viam na resolução de D. Margarida, em mandar viajar o filho, um meio de desfazer as dificuldades; porque era impossível que esta paixão despropositada, pensavam eles, resistisse a uma ausência de anos.
De mim não sei que disseram, mas é de crer, atendendo a que os propaladores dos boatos eram os três meus afeiçoados, que não fosse muito cristãmente tratado.
Ficando sós, a mãe, o filho e eu, não rompemos o silêncio, que se manteve durante horas; todos talvez pensando no ocorrido, e todos à porfia evitando a menor alusão que pudesse recordá-lo.
Tomás despediu-se às nove horas da mãe, que o beijou com o afeto costumado. Dispunha-me também a deixar a sala, quando um sinal da senhora de Entre Arroios me obrigou a ficar.
Tudo revelava nela uma serenidade de espírito que me fazia pensar. Depois de assegurar-se de que ninguém escutava, D. Margarida sentou-se junto de mim e perguntou-me:
— Então que lhe parece tudo isto?
— Para lhe falar a verdade, minha senhora, conquanto receie que este acontecimento seja talvez funesto ao futuro do seu filho, não posso deixar de admirar-lhe a nobreza de carácter.
— Está como eu. Pode crê-lo? Isto que a outra mãe traria a desesperação talvez, quase que me dá júbilo. Contudo reconheço que é um passo grave, e preciso impedir que tenha graves consequências.
— Eu julgo ter compreendido os projetos de V Ex.
— Talvez não — disse ela, quase sorrindo.
— Uma ausência demorada amortece certos sentimentos, e faz esquecer promessas que num momento de exaltação...
— Não o espero, e se por acaso meu filho se esquecesse, cumpriria a mim lembrar-lho; e eu lho lembraria, acredite. Se foi loucura, tanto pior, que tem de ser escravo dela.
— Mas Paulina mesma, talvez...
— Esquecer Tomás!
Havia tanta candura neste brado de vaidade maternal, que não tive coração para continuar a exprimir-lhe as minhas dúvidas.
— Não, não; o meu desígnio é outro — continuou ela — mas por enquanto é secreto. O que lhe peço é que use de toda a sua influência com Tomás para o decidir a partir para o estrangeiro. Que vá estudar a França, à Inglaterra, à Alemanha, onde quiser e o que quiser, mas que saia do reino e se demore por fora. Quatro, cinco a seis anos. E essencial.
— Não posso compreender com que vistas...
— E o meu segredo — disse ela, sorrindo. — Promete?
— Tudo quanto desejar, minha senhora. Reconheço em V Ex uma superioridade...
— Nada de lisonjas, se não quer perder a minha confiança.
— V Ex deve ter notado que é a primeira vez que lhe falo assim; é porque há pouco ainda comecei a compreendê-la e a admirá-la.
— Bem; façamos aliança. Mas, antes, quero perguntar-lhe uma coisa: que me diga o que lhe parece mais para recear nesta resolução de Tomás?
— Receio que aquela paixão seja nele uma das muitas ilusões de uma idade tão tenra como a sua; e que cedo...
A senhora de Entre Arroios interrompeu-me com um gesto de impaciência e negação.
— Cedo não; tarde, tarde, que é pior! Olhe, aí vai o que eu penso: Tomás ama sinceramente Paulina, acredito-o. Esta paixão, longe dela, aumentará talvez. As cenas que a santificaram, numa alma como a dele, deixam vestígios que o tempo não desfaz. O meu filho, verá, há de voltar-nos tanto ou mais amante do que partiu. Mas depois? Paulina pode satisfazer-lhe ao coração, e enquanto o coração reinar, Tomás será feliz. Porém, quando chegar a vez da inteligência? e olhe que há de chegar também; como poderá a pobre rapariga bastar àquela cabeça, que eu já suspeitava, e agora vejo claramente ser toda de fogo? Creia-me, Sr. D.... a infelicidade destas ligações desiguais está toda aqui.
— Estou inteiramente de acordo, minha senhora, e admiro tanta penetração.
E dizia a verdade. Esta mulher, como as aparições de certos contos de fadas, de momento para momento assumia aos meus olhos maiores proporções. Ela, que na véspera me parecera vulgar no meio de quase ridículas tribulações da vida doméstica, que já momentos antes admirara quando, incitada pelo amor maternal, se esforçava em penetrar o sentido das expressões vagas e figuradas de uma poesia amorosa; agora surpreendia-me pela profundeza de vistas com que antevia no futuro os sentimentos do filho; a mãe, cujos dotes vinham todos do coração, previra que a inteligência não se satisfaz só com sentimentos e, na desigualdade de educação de Tomás e Paulina, encontrava a causa da futura infelicidade de ambos.
E que tentava ela para evitar o mal? E o que não pude saber então, baldados os esforços que fiz para o adivinhar.
Depois de mais algumas palavras, trocadas entre ambos, a senhora de Entre Arroios levantou-se, e, estendendo-me a mão afetuosamente, disse com um sorriso:
— Vá dormir, Sr. D.... que eu vou pensar no futuro do meu filho.
Não me foi muito fácil conciliar o sono. O ânimo, sobressaltado pelas cenas que tinha presenciado, mal me permitia o repouso.
No dia seguinte levantei-me cedo. Desci à sala, onde já encontrei D. Margarida fazendo preparativos para a partida de Tomás.
Exigências, a que não podia faltar, me obrigavam de facto a partir naquela manhã para o Porto, bem mais depressa do que contava, e, direi até, do que desejava.
A senhora de Entre Arroios mostrava-se preocupada, mas não aflita. A despeito das leves rugas que lhe sulcavam a cara, entrevia-se-lhe um fundo de serenidade na fisionomia, que me fez julgar que a noite fora fiel desta vez à sua fama de boa conselheira. Ao ver-me, D. Margarida exclamou:
— Que pressa de nos deixar Sr. D.... são seis horas e já erguido!
— E porque não há de antes dizer Va Exa que foi para gozar por mais tempo da sua companhia que assim madruguei?
— Por que é tão lisonjeiro que me custa a acreditar. Passou bem a noite?
— Otimamente. Va Exa é que, se me não engano, dormiu pouco.
— Não dormi nada.
— E aproveitou ao menos a vigília?
— Espero que sim.
Tomás juntou-se connosco. As faces abatidas, os olhos vermelhos, as feições decompostas, denunciavam que ele também não havia dormido.
À vista dos preparativos da partida não pôde reprimir um suspiro. Depois de cumprimentar a mãe, dirigiu-se à janela para ocultar as lágrimas que lhe vieram aos olhos.
D. Margarida saiu igualmente comovida.
Eu reuni-me a ele.
— Deve-lhe ser custosa esta separação?
Abanou a cabeça afirmativamente. A comoção impedia-lhe o falar.
— São alguns anos de provação — continuei — para depois apreciar melhor a ventura.
— Alguns anos! Como diz isso! E que hei de eu fazer durante esse tempo?
— O estudo o distrairá.
— O estudo! Pois julga que, assim como estou, poderei entregar-me a algum estudo sério?
— E porque não?
— Se soubesse... Pano com o desespero no coração.
— Não diga desespero; pois não tem a esperança no futuro?
A senhora D. Margarida terminara enfim os preparativos de jornada, sem que a menor omissão se pudesse notar à sua previdência maternal. E quanta resignação lhe não fora precisa!
Passámos à sala do almoço e cada vez a tristeza a tornar-se maior! Fazia lembrar um destes dias de Inverno em que a escuridade cresce, cresce cada vez mais, até rebentar a chuva.
A mãe e o filho surpreendiam-se por vezes, olhando um para o outro, com os olhos arrasados de lágrimas.
Enfim o momento chegou.
Tive eu de anunciá-lo; de outro modo quando chegaria?
— Vamos? vi-me forçado a dizer.
Um olhar, dolorosamente expressivo, trocado entre os dois, seguiu-se a esta palavra.
— Adeus, meu filho! — disse a senhora de Entre Arroios, desfalecendo-lhe a voz.
O resto imaginai-o como a experiência vo-lo terá mostrado, se não sois privilegiados do destino.
Um abraço prolongado, em que mãe e filho se cobriram de lágrimas e beijos, anunciou aquela primeira separação.
— Então, então, Tomás, mostra-te homem — dizia a senhora de Entre Arroios, sufocada em choro — isto é uma criancice. Dentro em poucos anos voltarás e... hás de ser feliz, prometo-te.
— Adeus, mãe, adeus. Pense em mim e lembre-se de... de Paulina.
— E qual é a mãe que se não lembra dos seus filhos?
Tomás desprendeu-se-lhe afinal dos braços e dirigiu-se comigo, que não partia também sem saudades, para a próxima estação das diligências do Porto.
Da casa de Entre Arroios avistava-se, numa grande extensão, o caminho que seguíamos ambos, e assim, a cada passo, parávamos na carreira para que Tomás lançasse mais uma vez um olhar de despedida àquelas janelas, com as quais tantas recordações deixava, e donde a mãe lhe enviava o último adeus.
Perdemo-las enfim de vista e por largo tempo caminhámos silenciosamente ao lado um do outro.