Serões da Província

Júlio Dinis · Capítulo 3 de 6 · parte 3/3

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Serões da Província

As apreensões de uma mãe

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

O caminho que seguíamos, estreito e orlado de silvas, conduziu-nos a um pequeno largo, coberto de relva, no centro do qual se elevava um cruzeiro de pedra. Frondosos carvalhos assombravam este lugar solitário e imprimiam-lhe um aspeto verdadeiramente pitoresco. Quando nos aproximávamos, pareceu-me divisar no pedestal da cruz um vulto, que a meia obscuridade, que se conservava ali, me não deixou reconhecer logo. Tomás, com os olhos abaixados, não atentara nele. Mais perto percebi esta forma mover-se, atraída, ao que parecia, pelo ruído dos nossos passos; ao ver-nos, ergueu-se subitamente e reconheci-a.

Era Paulina.

Se na véspera já admirara a figura graciosa da pequena leiteira, tingida com o rubor da modéstia, mais me surpreendeu desta vez a sua fisionomia, verdadeiramente bela, desmaiada pela palidez do sofrimento. Os cabelos soltos, as mãos juntas, nas faces vestígios de lágrimas recentes, assim naquele lugar e aos pés da cruz, recordava uma dessas virgens cuja fé e martírios valeram tantas páginas de verdadeira poesia aos anais da religião cristã.

Tomás, como se escutasse uma voz interior, elevou nesse momento a cabeça e contemplou com amor a aparição.

Paulina, rápida como o relâmpago, correu para ele e cingiu-o com os braços, cuja alvura, pouco vulgar no campo, mais realçava ainda sobre o escuro dos vestidos de luto.

A minha presença não reprimiu este acesso de violenta paixão.

— Sei tudo! — disse ela, sufocada pelo choro. — Sei tudo, Tomás! — Olha, até aqui amei-te com um amor de criança, mas agora — acrescentou, desviando-lhe da cara os cabelos com movimentos quase febris — agora, hei de amar-te como uma mulher, adorar-te... como escrava.

E, unindo os seus lábios aos dele, confirmou esta singela confissão por um ardente beijo.

— Paulina! — disse Tomás quase em delírio.

— Mas para que partes? — continuou Paulina em tom de voz repassada de meiga exprobração.

— Era vontade do meu pai.

— E eu, Tomás, que farei eu só aqui? — disse a pobre rapariga, afastando brandamente de si a cara do amante e olhando-o com expressão de saudade inquieta.

— Então, Paulina, queres tirar-me o ânimo de...

Estas palavras operaram súbita transformação em Paulina. Estremeceu, como se acordasse de um sonho importuno, ergueu a cabeça, enxugou os olhos com as mãos, e afastando para trás as negras tranças, disse com um sorriso forçado e a voz abafada e trémula:

— Não, parte, pane! — E, como receando comover-se de novo, desprendeu-se por gracioso movimento dos braços de Tomás, e desapareceu.

— Paulina! — exclamou Tomás, como tentando segui-la.

— Deixe-a partir! — disse-lhe eu — não tornará menos amarga a despedida, prolongando-a.

— Oh! meu amigo — murmurou Tomás, apertando-me a mão.

Era a primeira vez que me concedera este título que nunca depois me negou.

Dentro de alguns minutos partíamos silenciosos para o Porto, sentados um ao lado do outro num dos lugares da diligência da manhã.

CAPÍTULO VII

 

Tomás demorou-se pouco tempo no Porto. Indiferente a tudo, desde a sua partida de Entre Arroios, facilmente se resolveu a embarcar para Paris, quando, cumprindo a recomendação de D. Margarida, o animei a seguir ali um curso qualquer, demorando-se com esse fim os anos que lhe fossem necessários. Dentro de um mês, acompanhei-o a bordo de um navio que partia para o Havre de Grace.

Tomás parecia deixar em Portugal as esperanças de felicidade. Ao despedir-se de mim, o seu desalento era completo.

Escrevi à senhora de Entre Arroios a dar-lhe pane do acontecido, e relatando-lhe até à menor particularidade a partida do filho.

Recebi em resposta uma carta, na qual ela, depois de me agradecer exageradamente este pouco que eu tinha feito por Tomás, me dizia que, achando a casa de Entre Arroios insuportável, depois da partida do filho, resolvera fazer uma excursão durante a ausência dele, para iludir saudades. Não sabia ainda para onde iria, e que tempo demoraria na viagem, e por isso me avisava que não lhe escrevesse, antes de primeiro receber carta sua.

Esta carta nunca chegou. Negócios particulares me impediram de voltar a Entre Arroios, e as minhas próprias canseiras, reunidas à ação do tempo, foram combatendo em mim cada vez mais a memória das cenas que, no curto espaço de três dias, eu presenciara, e que me tinham feito participar dos sentimentos de uma família pouco antes para mim desconhecida.

De Tomás nada mais pude saber do que da sua mãe.

Depois de uma carta, ainda repassada de saudades, em que me noticiava sua chegada a Paris e a resolução que tomara de seguir o curso na faculdade de medicina, enchendo o resto a falar-me de Paulina, não soube mais notícias dele.

Alguns portugueses chegados de Paris, a quem interroguei, não o tinham visto, ou davam-me ao seu respeito informações inexatas.

Assim se passaram seis anos.

Um dia, chegando a casa, recebi uma carta que me viera pelo paquete; trazia o carimbo de Saint-Nazaire.

Abri-a, ignorando quem me escrevia, tão remota, confesso-o, me andava já a ideia do pequeno Tomás, em quem me habituara quase a não pensar.

Contudo, a carta era dele, e concebida assim:

 

«Meu caro D...

Com razão me deve supor uma criatura bem desagradecida.

Nem eu sei como justificar-me do conceito. Contudo não me chame volúvel, não pense que os fulgores de Paris puderam ofuscar na minha memória as cenas da pátria, e principalmente as últimas, que num momento decidiram do futuro da minha vida inteira. Não julgue, se não quer ser injusto também. Ainda a saudade me fala delas, e a esperança me faz palpitar o coração, mostrando-me próxima a época de ver realizados aqueles meus antigos sonhos — sonhos que nunca me abandonaram, felizmente. Não lhe tenho escrito, não me pergunte porquê, que mal lho poderei dizer. Não me absolverá sem penitência? A esperança faz parte da bagagem do pecador; eu não desanimo.

Estou em Saint-Nazaire. Não me foi possível partir, como desejava, neste paquete, o que espero fazer para o seguinte.

Conto, pois, abraçá-lo dentro em pouco, convidando-o desde já a acompanhar-me a Entre Arroios, para assistir à inauguração da minha felicidade.

Paulina espera-me. A minha mãe tem-me escrito e informado, mês por mês, do viver de toda a minha gente em Entre Arroios. Os dias continuam a correr-lhe ali naquela santa placidez em que eu fui criado e onde só vejo a minha felicidade, se nisso não consiste a felicidade de todos.

Adeus; breve conversaremos mais.

P. S. — Que cabeça a minha! Ia-me esquecendo participar-lhe que me formei em Medicina. Satisfiz a vontade do meu pai. Pude relacionar-me com algumas das principais capacidades literárias e científicas de Paris, e acho-me um pouco pior de uma impertinente doença que daí trouxe — a poesia. Adeus, adeus; hei de falar-lhe com mais vagar das minhas viagens pela França, e de outras ainda mais do meu gosto, por um mundo menos real.

Seu afeiçoado,

Tomás de Avelar.»

 

Esta carta trouxe-me novamente à recordação todas as cenas passadas em Entre Arroios.

Seis anos tinham decorrido, os seis anos que D. Margarida marcara à ausência de Tomás. O que se passara durante esse tempo e o que se ia passar agora?

Tomás via eu, com verdadeiro prazer, que se não esquecera em Paris da sua desposada de Entre Arroios.

Mas o que sobretudo me maravilhou foi o ter D. Margarida escrito ao filho por todos os paquetes, descrevendo-lhe a vida de Entre Arroios, a qual correra, segundo me dizia Tomás, com a placidez costumada.

Logo não havia ela, como me tinha dito, abandonado a aldeia. porque não me escreveria então?

Por mais que pensasse, não me foi possível encontrar explicação satisfatória, e não pensei mais nisso.

Passado um mês, entrava Tomás no meu quarto e apertava-me nos braços com verdadeira alegria.

Algumas alterações sofrera nele a fisionomia durante os anos que vivêramos separados. O rosto perdera a expressão infantil que tinha ainda em Entre Arroios, quando pela primeira vez o conheci; era agora uma face mais varonil, mas tão nobre e inteligente como dantes.

— Então, mon cher docteur — disse-lhe eu — ei-lo de volta? e sem que toda a sua ciência, ao que parece, tenha conseguido curá-lo de uma doença de coração com que partiu.

— Venho pior, muito pior respondeu-me sorrindo.

— Deveras? Pois confesso que receei nos aparecesse curado. Receio bem pouco lisonjeiro para o meu carácter. Isto não é questão de carácter. São mistérios do coração que eu desculpo e respeito quase.

— Seja o que quiser. Agora vamos a saber: está disposto a acompanhar-me a Entre Arroios?

— Da melhor vontade.

— Partimos amanhã?

— Hoje que queira.

— Seja hoje.

Passámos o dia juntos. Contou-me a sua vida em Paris, vida exemplar para um rapaz daquela idade; seus felizes sucessos na Escola de Medicina, onde fora reputado entre os melhores, e as suas pequenas fortunas literárias, como afrancesadamente ele dizia.

Tomás voltava com uma instrução sólida, uma superioridade de vistas, um gosto apurado, que me fizeram lembrar dos receios da senhora de Entre Arroios.

Como poderia, de facto, esta inteligência satisfazer-se com o espírito inculto de uma rapariga aldeã, depois de saciados os primeiros ardores da paixão?

O plano de D. Margarida piorara a situação, ao que me parecia, exagerando a desigualdade.

Dei a entender isto mesmo a Tomás, ele sorriu:

— Sossegue — respondeu-me vi lá por fora muitas mulheres a quem o espírito havia estragado, alienando-as aos gozos de família para me inquietar por tão pouco.

Conquanto reconhecesse algum fundo de verdade nestas palavras, as minhas apreensões não se desvaneceram totalmente.

Estivemos à noite no teatro, onde pude admirar ainda melhor a extensão e variedade dos conhecimentos artísticos de Tomás.

Saindo do teatro, introduzimo-nos num coupé e por aquele mesmo caminho que, seis anos antes, seguíramos em direção oposta e com bem diversos sentimentos, dirigimo-nos para Entre Arroios.

Ao romper da manhã avistávamos os telhados das primeiras casas da aldeia.

O teto elevado de Entre Arroios, com a sua alta claraboia, não tardou também a despontar no horizonte.

O olhar de Tomás brilhava neste momento, o sangue afluía-lhe às faces, palpitava-lhe o coração com violência.

— Conheço-vos! conheço-vos dizia ele árvores da minha infância! Conheço-te, berço dos meus primeiros anos e que espero serás o descanso dos últimos. Nenhum monumento, nenhum espetáculo grandioso das capitais que percorri me fez esquecer de vós, testemunhas da minha ventura e dos meus primeiros sonhos de amor. Oh! meu amigo! continuou apertando-me a mão — sou verdadeiramente feliz. Parece-me que deixei aqui a minha vida, e que a adquiro de novo ao respirar estes ares conhecidos, estes perfumes férteis em memórias de outros tempos.

E emudeceu, caindo em lânguida contemplação.

Estas cenas também me recordavam o passado; e o passado mostra-se-nos sempre através de um véu de saudades.

A aldeia, como todas as aldeias, sofrera poucas mudanças no espaço de seis anos.

As mesmas árvores, as mesmas sebes, os mesmos ribeiros e pontes, tudo fazia reviver em Tomás a memória dos primeiros anos.

Apeámo-nos para melhor gozar destas cenas, que tanto nos impressionavam.

Ao chegarmos ao lugar onde Paulina ultimamente nos aparecera, Tomás parou a contemplar o humilde cruzeiro com um fervor quase religioso.

— Lembra-se? — disse-me, sorrindo.

— Como se fosse agora!

— Tem razão. Ao chegar aqui parece-me impossível que tenham já passado seis anos da minha vida! E como se acordara de um sonho de momentos.

Continuámos no nosso caminho até o portão da quinta de Entre Arroios; ao levantar o braço para tocar a sineta, as forças abandonaram-no e deixou-o pender como exausto por esforço prolongado.

A comoção dominara-o completamente.

Toquei eu. Respondeu-nos a voz conhecida dos mesmos cães. Seguiram-se-lhe os passos trôpegos de um velho criado, o mais antigo na casa de Tomás, e companheiro do pai nas tormentas do mar e na refrega dos combates. Hoje imitando Cincinato, deixara a espada pela enxada, que o bom homem pensava, com o poeta, ser:

Morgado e não pena dos filhos de Adão.

Ao encarar-nos, o velho hortelão fez um gesto de surpresa e levou a mão ao chapéu para nos cumprimentar; mas afirmando-se melhor em Tomás, reconheceu-o, e arrojando a incrível distância o chapéu que já empunhava, gritou abrindo os braços:

— Ai o Sr. Tomasinho!

E esquecendo toda a etiqueta, levantou-o ao ar, como lhe fazia em criança. Tomás correspondeu com efusão ao cumprimento.

— Minha senhora! minha senhora! — bradou o velho. — Aqui está o senhor...

A mão de Tomás interrompeu-lhe as palavras. Ele meditara uma surpresa.

Mas que era preciso para avisar o coração de mãe?

A porta da casa abriu-se e, com uma agilidade superior à sua idade, D. Margarida percorria num momento a avenida que a separava de nós e caía nos braços do filho.

Eu, que naturalmente nem fora ainda notado, vi então avançar-se não menos alvoroçada, porém mais tímida, a poética aparição do cruzeiro, Paulina. Vestida ainda à camponesa, porém com um gosto e elegância pouco vulgares, parecia-me uma dessas pastoras ideais que sonhava a poesia do século de Luís XIV, sonho tantas vezes contado em idílios, sonetos e madrigais.

Não direi que Paulina fosse mais bela do que quando a deixáramos, mas o que havia era um não sei que particular naquela fisionomia, que me impressionava, sem poder dar a razão disto.

O sangue dos vinte anos, que animava agora em mulher a criança de então, explicava muito, mas não me explicava tudo.

Em vez de saltar, como outrora, ao colo de Tomás com uma confiança toda infantil, parara interdita, trémula, contemplando-o com ar apaixonado, invejando talvez aqueles beijos que D. Margarida lhe roubava, mas não ousando disputar-lhos. Esta, porém, depois de dar expansão ao próprio júbilo, abriu o coração a sentimentos menos egoístas e pôs em prática o que eu considero como a décima quinta obra de misericórdia: reunir os que se amam. Assim, depois de um último beijo, a boa mãe tomou pela mão Paulina e impeliu-a para os braços de Tomás, dizendo simplesmente:

— Ei-la.

Tomás pareceu fascinado pela beleza da sua desposada. Talvez que experimentasse ao vê-la a mesma impressão que eu já sentira. Não foi com a antiga confiança, antes com um sentimento de respeito que a cingiu ao seio e a beijou na cara, beijo que, apesar de tudo, não deixou de a fazer corar excessivamente.

O resto desta cena adivinha-se, que eu sou tão incapaz de descrever as alegrias da volta como as tristezas da partida.

CAPÍTULO VIII

 

 

Satisfeitos os primeiros transportes do amor materno, D. Margarida concedeu-me atenção, e mostrou-se para comigo tão afetuosa como dantes.

Desculpou-se, como pôde, de me não haver escrito e não tocou nosseus projetos de viagens, evitando habilmente falar-me nisso, quando eu para ali tentava dirigir as minhas investigações.

Tomás veio encontrar algumas mudanças nos hábitos da casa.

Faltava ali o abade, que havia um ano tinha morrido de ataque apoplético, consecutivo a uma indigestão de lagosta. Pobre homem! vivera para o estômago e o ingrato sacrificou-o! Era destino! Ele pertencera a um mosteiro de Beneditinos, célebres por um invento gastronómico.

Melhor que ninguém aprendera ali a preparar a decantada farinha de S. Bento, substancial gulodice, com que os bons monges de Santo Tirso aplacavam, segundo diz a lenda, as iras estomacais de um monarca português e, segundo o bom senso afirma, as iras, não menos temerosas, das suas próprias vísceras monásticas.

Seja-lhe mais leve a terra do que lhe foi o último banquete.

Notava-se também a falta do doutor Teófilo, que, desesperando de levar a efeito o consórcio com D. Margarida, dirigia atualmente as suas amáveis atenções a uma rica brasileira das proximidades, nutrindo o amor com mandioca e banana.

O médico era dos três o único presente e, se não receasse abusar da força da conceção do leitor, pedir-lhe-ia que o imaginasse mais magro ainda do que quando pela primeira vez lho apresentei. Empregava ele os maiores esforços para não falar diante de Tomás em assuntos de medicina. Renovava de algum modo a fábula do estatuário e ...

…on le vit frémir le premier

Et redouter son propre ouvrage

…que obra sua dizia ele ser a formatura de Tomás.

A aldeia não ficou pouco surpreendida quando, passados dias, se anunciou o próximo casamento de Tomás com Paulina...

Julgava-se já isso coisa esquecida. A nova estalou pois no meio do círculo como uma bomba, e conjuntamente, em frase vulgar, estalou uma castanha na boca a muitos pais e mães de família, produtores e expositores de jeunes filies à marier, nesta pequena exposição de Entre Arroios.

O médico, visivelmente contrariado, informou-se logo se Tomás tencionava persistir na aldeia, depois de tomar novo estado. Tomás respondeu que sim, porém, como para o acalmar, acrescentou que não estava disposto a exercer a clínica, a não ser gratuitamente aos pobres.

O nosso Esculápio não morria de amores por esta parte da clientela e por isso louvou excessivamente a caridade do novo doutor e esquecendo até o habitual laconismo, citou, no ardor do entusiasmo, Hipócrates recusando os presentes de Artaxerxes, facto da vida do médico de Cós que o bom homem, lá para com os seus botões, julgava redonda parvoíce.

A família de Entre Arroios passou a viver uma vida toda anterior e a gozar de uma serenidade que me deliciava.

Paulina mostrava-se terna, sensível e ingénua como dantes. Tomás parecia idolatrá-la. Ao serão, enquanto ela trabalhava em costura e a Sr.ª D. Margarida, cuja vista cansada já lhe não permitia essas folias, dobava medas com os movimentos regulados de um autómato, Tomás, sentado em frente delas, descrevia, até os mínimos pormenores, a sua vida em Paris. A mãe escutava-o encantada. Por vezes as duas mulheres suspendiam o trabalho, para seguirem a narração nos pontos mais interessantes; por vezes D. Margarida trocava com Paulina, a quem votava uma afeição verdadeiramente maternal, um olhar e um sorriso, cuja significação eu não podia decifrar.

Conservei-me nesta casa até o casamento de Tomás, que se efetuou passados quinze dias.

Foi um facto notável na aldeia.

Não se falou noutra coisa por muito tempo senão no jovem doutor, e na fidalga, conduzindo pela mão ao altar a Paulina, vestida ainda com os costumes do lugar, apenas mais artisticamente dispostos que os das outras raparigas, em quem esta particularidade, compensada pelas maneiras modestas da noiva, longe de lhe atrair invejas, antes parecia despertar simpatias.

A senhora de Entre Arroios andava nesse dia visivelmente satisfeita. — E os seus receios, minha senhora? — disse-lhe eu, num momento que estivemos sós.

— Cuida que os perdi já? — respondeu-me sorrindo.

— Pois acaso?...

— Receio como dantes.

— Então...

— Acabe.

— Mal compreendo a alegria de Va Exa neste momento, porque...

— Pareço-lhe uma mãe desnaturada; não é isso?

— Não digo tanto, mas...

— Com o tempo falaremos.

E riu-se.

Na tarde deste mesmo dia, que era um domingo, percebendo que havia alegria suficiente naquela casa para que a minha ausência pudesse ser muito sentida, despedi-me dos noivos e da senhora de Entre Arroios e montei a cavalo para o Porto.

Ao sair de uma encruzilhada ouvi atrás de mim passos de cavalgadura. Voltei-me; era a tradicional mula do médico, com o seu descarnado senhor, cujas pernas retesadas e divergentes lhe davam aparência de um ípsilon voltado.

— Então já de partida, meu caro? — exclamou de longe, ao avistar-me.

Esperei-o e caminhámos a par pela estrada.

E verdade. Deixei a felicidade a substituir-me. Espero que se não queixarão da troca.

— Então sempre casou o Tomasito? Eu não pude assistir; tive um recado com pressa. E então que me diz de toda esta história?

— Digo que Tomás fez a sua felicidade.

— Ora não me venha com isso. A rapariga não tem nada do seu, e aquele rapaz podia aspirar a um bom casamento.

— Bom em que sentido?

— Essa é boa! Olhe que isto de casar é uma coisa séria.

— Não duvido e nem julgo que o Tomás o fizesse a rir. O doutor sabe tão bem como eu os pormenores deste casamento...

— Romances! O que me admira é a D. Margarida! Nunca esperei dela...

— Ora, meu caro senhor, isso não é assim. A mãe e o filho tiveram muito tempo para pensar nisto. Não foi um passo inconsiderado.

— Mas se eu lhe digo que D. Margarida não tem a cabeça no seu lugar!

— Ah! não sabia!

— Pois é facto. Não me dirá o senhor o que ela fez durante cinco anos?

— O que ela fez?

— Sim; debalde penso nisto. Quebro a cabeça e não acho nada!

Sorri-me da ingenuidade da confissão.

— Então não acha nada?

— Nada.

— E quebra a cabeça?

— É verdade.

— É mau sinal — não pude deixar de observar a meia voz.

— Mas o senhor não me diz o que fez D. Margarida? — teimava ele.

— Mas o que havia ela de fazer? O que dantes fazia.

— E aquela viagem!

— Que viagem?

— Uma viagem de cinco anos.

— Ah! pois D. Margarida...

— Um mês depois do pequeno partir, saiu também da terra com a Paulinita e lá andaram cinco anos... sabe Deus por onde.

— É singular! mas ela disse-nos que...

— Se eu lhe afianço que ela não tem o juízo no seu lugar!

Nisto chegámos ao ponto onde nos devíamos separar. O doutor despediu-se de mim, firmemente convencido de que a família Entre Arroios não era forte em senso comum, e que aliás abundava nele.

Conquanto eu não adotasse absolutamente esta opinião, nem numa nem na outra parte, não podia deixar de refletir no carácter excêntrico da senhora de Entre Arroios e na causa deste segredo, que ela parecia querer manter a respeito da sua viagem; segredo que só a sua muita tática e o isolamento em que vivia a família lhe poderia assegurar por muito tempo.

Cheguei ao Porto com as melhores disposições, e em breve deixei de pensar no carácter e mistérios da senhora de Entre Arroios, os quais me satisfiz em explicar por um dos muitos caprichos de mulher; explicação que, à semelhança de muitas teorias em ciência, deixava o facto na mesma obscuridade.

Tomás, todo absorvido pela sua felicidade, não me escreveu por muito tempo. Nem tive, durante um longo período, notícias de Entre Arroios.

Um dia apareceu-me finalmente uma carta de Tomás, na qual ele se dizia extremamente venturoso; só lamentava não me ver ao seu lado e pediu-me que o visitasse em breve.

Não me foi possível aceder então ao convite.

Pouco tempo depois recebi segunda carta. Os mesmos protestos de felicidade e lastimava que não houvesse nas imediações ninguém com quem se conviver. Havia aí um parágrafo que me deu que pensar; era assim:

«...e agora o Inverno aproxima-se. Já mo andam a anunciar estas pesadas nuvens de mau agouro, que obscurecem a cada passo a limpidez do céu. Confesso-lhe que me assusta um pouco esta perspetiva. Com o Inverno vêm as noites compridas. Não me dirá no que as hei de passar aqui?»

— Noites compridas? — disse eu comigo ao ler, e lembraram-me as apreensões da senhora de Entre Arroios.

A estas seguiram-se outras cartas, nas quais Tomás me falava largamente de assuntos de literatura, de artes e de ciências. Eram verdadeiras expansões de um homem de talento que de ordinário se vê obrigado a sufocá-las.

Na última deixava-se entrever vagamente a ideia de uma próxima viagem ao Porto.

Estes sintomas começaram a inquietar-me, quando passados dois meses recebi uma pequena carta de D. Margarida, que continha estas palavras apenas:

«Meu caro Sr. D...

Olhe que os meus receios começaram a realizar-se. Convido-o a que venha examinar o meu doente e talvez a presenciar a cura.

Sua dedicada, Margarida de Avelar.»

 

Esta carta, quase enigmática, excitou a minha curiosidade e foi com o mais vivo interesse que nessa mesma tarde tomei bilhete nas diligências e parti para Entre Arroios.

A primeira pessoa que encontrei foi Tomás, passeando numa alameda vizinha com um livro na mão.

Ao ver-me deu quase um grito de surpresa e abraçou-me com efusão. A minha presença parecia satisfazer nele uma necessidade.

Apresentou-me logo à mãe, que, ao cumprimentar-me, sorriu e me fez sinal de não falar a Tomás na carta que eu recebera dela.

Paulina também me acolheu com agrado e, contra o que eu receava, pareceu-me intimamente satisfeita.

Era bela como sempre. Tomás mostrava-se em extremo afetuoso para com ela. As vezes contemplava-a numa tácita adoração e quase em êxtase, mas um suspiro vinha quase sempre terminar esta contemplação silenciosa.

Seria Prometeu ambicionando o fogo do céu para animar a estátua? A senhora de Entre Arroios, nestes momentos, olhava-me com um sorriso, como de vaidade satisfeita.

Ela via naquele suspiro realizada a sua profecia; mas eu avaliava muito bem a boa índole desta excelente senhora e a grandeza do seu amor maternal, para acreditar que isto lhe causasse o menor prazer, se ela não tivesse algum meio, meio que em vão tentei descobrir, para evitar-lhe as consequências.

Tomás saiu comigo, a instâncias da mãe e de Paulina, que ambas mostravam bastante empenho em que empreendêssemos este passeio.

Só com Tomás, que se despediu da sua mulher com um beijo afetuoso, eu tentei sondar a profundidade da doença, como lhe chamava a senhora de Entre Arroios.

— Vejo que se realizaram todos os seus votos; pode enfim dizer-se feliz.

— Sim: extremamente feliz.

— Não tem nada que o penalize?

— Nada. — Respondeu, em tom mais baixo e suspirando.

— Seja franco. Tem alguma coisa?

— Por que diz isso?

— Porque o acho preocupado. Triste quase.

— Oh! É engano.

— E quer que lhe diga o que o preocupa?

— Mas...

— Ouça e fale depois.

— Pois diga.

— Há de permitir-me a franqueza.

— Exijo-a.

— Um pouco rude.

— Não lhe admito outra.

— Não tem direito para tanto, porque também a não usa comigo.

— Prometo-lha depois de ouvi-lo.

— Seja, e aí vai o que eu penso; se vou cometer uma indiscriminação, perdoe-ma. O senhor casou por paixão e paixão violenta, que se não desvaneceu em seis anos de ausência. A sua mulher é bela, como poucas, extremosa e afável; possui um coração formado para simpatizar com o seu; saberá consolá-lo nas penas, exultar com as suas alegrias, receber e compreender as efusões de sentimento, mas...

— Mas? — interrogou Tomás, com olhar de inquietação.

— Mas uma alma como a sua, Tomás, é mais exigente.

— Não, não e.

— Ouça. Há momentos em que isso lhe basta, em que essa reciprocidade, essa harmonia de sentimentos lhe parece a suprema ventura; bem sei. Mas há outros em que a inteligência aspira a encontrar-se com uma inteligência que o aprecie; ambiciona voar, engrandecer-se, elevar-se e não quereria achar-se só no espaço, desejaria outra para marcharem unidas, e essa outra não pode ser a de Paulina.

— Podia, se...

— Se se dessem circunstâncias que se não realizaram.

— Há um fundo de verdade nisso que diz — respondeu Tomás — mas creia ainda assim que sou menos merecedor de exprobração do que lhe parece talvez. Sim, é certo; lamento às vezes que Paulina não tivesse recebido uma educação superior, não por ambicionar quem possa satisfazer-me a vaidade de ser compreendido, apreciado, como diz; de estranhos pouco me importaria isso, mas por desejar ser em tudo compreendido por ela, tornar mais íntima esta identificação das nossas existências. Não lhe parece menos egoísta este sentimento assim?

— Por certo.

— E depois, sabe o que me consola? É que esta necessidade de efusões é fictícia; as únicas verdadeiras e irresistíveis são as do coração. Eu creio que ele sobrevive à inteligência. Alguns médicos chamaram-lhe o ultimum moriens; assim o considero também referindo-lhe a vida dos afetos. Com a idade as exigências do coração duram ainda, enquanto as da fantasia amortecem e acabam por se extinguir. Isto em mim é uma crise que há de passar; Paulina é a única mulher que podia realizar neste mundo a minha felicidade.

— Acredito, mas isso não tira que a desejasse animada pela luz da educação.

Tomás ficou um pouco pensativo.

— Prometi ser franco — disse suspirando — hei de sê-lo. E uma verdade.

— Bem dizia a sua mãe. A cabeça domina agora o coração.

— Minha mãe!

— Há seis anos que previra isto mesmo.

— Ela? E verdade que certas palavras vagas, certos olhares me davam a entender... e contudo eu próprio o duvidava ainda.

— Ânimo! É preciso vencer esse sentimento.

— Hei de vencê-lo custe o que custar. Mas quando penso que aquela voz se perdeu para a música, aquela inteligência para a poesia! ... que aquele gosto, naturalmente delicado, se não exerce em lides dignas dela!... quando me lembra de que aquele espírito, criado para voar, se não eleva por falta de asas...

— Agora recordo-lhe o que me disse quando chegou a França, lembra-se? — o espírito aliena às vezes a mulher da vida de família. — Oh! mas Paulina... — e interrompendo-se subitamente. — Vamos para casa. É pecar contra Deus ser tão exigente, quando se é tão feliz.

Caminhámos muito tempo silenciosos e quase tristes.

Ao aproximarmo-nos do pomar, uma vaga harmonia chegou aos nossos ouvidos; eram os sons de um piano.

D. Margarida introduzira esta inovação em Entre Arroios depois que Tomás voltara de França, apesar de que só ele em casa tirava o instrumento do silêncio em que dias inteiros se conservava, encostado à parede da sala principal, onde eu já uma vez me encontrei com o leitor.

Ao ouvir os primeiros sons do piano, Tomás mostrou-se impaciente.

— Ao que me parece, minha mãe recebeu visitas durante a nossa ausência. Que impertinência!

Mas, à medida que nos aproximávamos, as notas do instrumento tornavam-se mais distintas. A execução revelava uma mão conhecedora. Tomás parou a escutá-las.

— Meu Deus! — exclamou surpreendido — quem pode tocar tão divinamente!

De facto, quanto mais perto, mais sensível se tomava a mestria com que as teclas, ordinariamente mudas, eram movidas então, produzindo verdadeiros milagres de execução.

Uma voz feminina cedo acompanhou as harmonias do instrumento; cantava uma destas toadas melancólicas que nos comovem até o fundo da alma.

Tomás apertou-me violentamente o braço, em que se apoiava.

— Escute! — e depois acrescentou a meia voz, e como para si mesmo:

— Paulina, se cantasse, devia cantar assim! Entremos.

Eu tive um sentimento de tristeza ao obedecer a este convite. Esta mulher, quem quer que fosse, ia talvez exercer na imaginação de Tomás uma influência funesta para Paulina. De facto, reparando para ele, ao abrir a porta do salão, vi-o excessivamente agitado.

Entrámos.

A sala estava muito escura. Os últimos raios de um sol de Janeiro a custo podiam já atravessar as cortinas de fina garça que guarneciam as janelas.

Apenas me foi possível reconhecer D. Margarida, sentada ao lado do piano e parecendo não dar pela nossa chegada, absorvida como estava na contemplação da cantora.

Esta, voltada com as costas para nós, mostrava ser ainda jovem. As tranças negras, artisticamente penteadas, realçavam sobre o vestido branco, em que se viam realizados os mil caprichos da moda. A música parecia enlevá-la. Mostrava-se dominada pelos sentimentos que a canção exprimia. Cantando tristezas, a voz tinha modulações que revelavam lágrimas, e para o desespero era o grito partido do coração; para saudades dir-se-iam as notas maviosas da ave do crepúsculo, para esperanças o trinado das que anunciam alegres a madrugada.

A voz desta mulher fascinava!

Parámos à porta, a ouvi-la; a canção não se interrompeu e a letra tornou-se-nos inteligível. Fora semanas antes escrita por Tomás, num dos seus momentos de exaltação, e em breve esquecida depois, como a tantas outras acontecia. Ao ouvir assim exprimir pensamentos que concebera, e palavras que havia escrito, Tomás adiantou-se pouco a pouco para a cantora. As pernas vacilavam-lhe, a palidez aumentava, parecia sob a influência de uma fascinação poderosa.

Eu fiquei imóvel e inquieto por ele e por Paulina, cuja felicidade futura antevia ameaçada.

Tomás chegou junto desta cantora desconhecida, justamente quando ela acabava de entoar, com uma comoção mais profunda do que até aí e que se lhe denunciava no ligeiro tremor de voz, os últimos versos da canção, que diziam assim:

 

Mais vida! Meu Deus, mais vida!

Que a chama ainda arde violenta!

E a alma, de viver sedenta,

Outros sonhos concebeu.

 

Ainda as derradeiras notas vibravam no espaço, já um grito de surpresa, um grito inexprimível lhe interrompia as harmonias, e Tomás recuava, exclamando:

— Paulina!

A cantora, que efetivamente não era outra senão Paulina, afastou violentamente a cadeira em que estivera sentada e lançou-se nos braços de Tomás.

A senhora de Entre Arroios chorava de comovida.

— Paulina, sim, Paulina — dizia a gentil menina, cobrindo o marido de beijos. Paulina, que te compreende, que sempre te compreendeu, meu pobre poeta, meu quase mártir! Aspiravas dar expansão à tua inteligência e receavas fascinar-me; mas tu não sabes que é à chama do teu espírito que eu me alento? Querias elevar-te às regiões onde a fantasia te chamava, e receavas despenhar-me da altura, mas ignoras que há muito eu te sigo aí, que estou contigo onde te julgavas solitário? Pois sabe-o agora, quero dizer-to assim, com os meus lábios unidos aos teus, quero gravar-to no peito, quero... ser digna de ti. Os versos que de noite confiavas às brisas, os cantos que a paixão te inspirava, recolhia-os eu no coração, repetia-os de manhã como a oração matinal; a melodia que encantasse teus ouvidos guardava-a na memória, para a reproduzir mais tarde, para a extrair em notas sonoras deste piano, companheiro inseparável dos meus sonhos de felicidade, confidente das minhas esperanças no futuro; as paisagens que te agradavam pedia ao craião que as reproduzisse; os livros que de preferência escolhias lia-os e meditava-os na tua ausência, para me encontrar contigo também nas regiões do pensamento, para neles descobrir o caminho do teu espírito, como há tanto conheço o do teu coração, para um dia, entre beijos, te dizer como hoje, como agora te digo: Tomás, os teus pensamentos são os meus, as tuas aspirações são as minhas! Em qualquer direção que elas te apontem, eu te acompanharei. Partamos!

E o entusiasmo animava as feições de Paulina, que parecia inspirada.

— Isto é um milagre do Céu! — disse Tomás, dominado pela comoção.

— Não, não, Tomás. É um milagre de uma santa, é o milagre de tua... da nossa mãe!

— Da minha mãe!

— Não, meu filho — disse, banhada em lágrimas de alegria, a senhora de Entre Arroios, apontando para Paulina — é o milagre da inteligência dela.

— Minha mãe! Paulina! Oh! isto é de enlouquecer!

Eu aproximara-me da senhora de Entre Arroios com um movimento de admiração. Compreendera enfim o mistério.

Os cinco anos de ausência de D. Margarida estavam explicados.

Tomás parecia duvidar ainda da realidade do que se passava neste momento. Temia ainda um desengano depois da alucinação.

— Tu és Paulina?!... — dizia ele, contemplando a sua mulher.

A dúvida era fundada.

Paulina, a gentil camponesa, oferecia agora sob novos trajes, cuja elegância e gosto mostravam que não desprezara o estudo da toilette enquanto cultivara os dotes naturais do espírito, novo aspeto à sua beleza.

Vendo-a, todos a diriam criada de pequena num desses mimosos ninhos de rendas onde vivem a infância as mais delicadas mulheres, que surgem depois borboletas, fracas em vigor, mas fortes pela fascinação que exercem.

Tomás caía de surpresa em surpresa. Paulina levou-o ao seu pequeno gabinete de estudo, no lugar mais remoto da casa, elegante santuário por ignorado até então. Aí tudo o extasiou. A história dos seus poéticos amores ali renascia inteira; já em versos, que perdera ou deixara incompletos, já em mimosos desenhos, onde o lápis reproduzira os sítios mais queridos dos dois, todos aqueles onde se prendia uma recordação e uma saudade; em flores, em retratos, em mil pequenos nadas, com que se escreve a história de uns amores e que de futuro no-la recordam fielmente.

Enquanto Tomás e Paulina se esqueciam assim em amenas recordações, eu ouvia da senhora de Entre Arroios uma mais exata explicação do milagre.

Logo depois da partida de Tomás, D. Margarida, obedecendo ao pensamento que tivera desde que lhe fora manifesta a paixão do filho, chamou Paulina para junto de si e fez-lhe compreender a necessidade de se elevar pela educação até à altura de Tomás, para assegurar a felicidade do seu porvir. A inteligência de Paulina, esclarecida pelo amor, compreendeu e aceitou com efusão o oferecimento da senhora de Entre Arroios.

Foram viver para Lisboa, sem o comunicarem a Tomás, que pela astúcia de D. Margarida continuou a receber cartas, pouco verdadeiras, datadas de Entre Arroios.

D. Margarida não se poupou a despesas para tomar Paulina perfeita nas artes e nas línguas. A inteligência natural da pobre menina, o ardor com que se votava ao estudo excederam toda a expectativa e surpreenderam os mestres. Em Lisboa corria-se com avidez para as soirées, aliás raras, onde Paulina cantava.

A tarefa que D. Margarida começara, tendo só em vista a felicidade do filho, completou-a com todo o amor do artista que se revê na sua obra.

Dentro em cinco anos Paulina era digna de Tomas.

A senhora de Entre Arroios não quis revelar a metamorfose da pequena leiteira, que para todos se conservou mistério. Era um bem desculpável amor-próprio, que desejava fazer sentir assim mais a necessidade da sua obra.

— E ainda, quem sabe? — dizia ela, e eu admirava ainda neste ponto a sua penetração — quem sabe se Tomás sentiria então a mesma alegria que sentiu agora? Ele amava Paulina tal como lhe aparecera havia seis anos; se a visse outra, se a visse mudada, talvez interiormente sentisse certo desgosto. Hoje era outra coisa. Viu como ele aceitou a transformação? E depois, aqui para nós — continuava a boa mãe com um sorriso espirituoso — de vez em quando não são de todo más estas metamorfoses entre casados. Avivam a luz, que se amortece. Espero que não seja esta a última de Paulina, e a seguinte há de ser ainda mais poderosa. Verá.

— Outro mistério, Sr.ª D. Margarida? De que última quer falar?

— Não temos mistério nenhum, homem. A última é a que é de esperar. A metamorfose da esposa em mãe.

Nisto entravam na sala a nova Paulina, como lhe chamava a senhora de Entre Arroios, e Tomás, o qual se mostrou esta noite mais espirituoso que nunca.

Ele tinha razão. A inteligência de Paulina só precisava de asas para voar ao lado da sua. Era um espetáculo interessante vê-los agora librarem-se no espaço e pairarem nas mais elevadas regiões, e D. Margarida, permita-se uma comparação que então me ocorreu, como o inventor dos primeiros aeróstatos, vendo-os cá debaixo subir, orgulhosa da sua obra.

Passei alguns dias ainda com esta família, regenerada quase, e, ao partir, trazia mais saudades do que nunca.

Tomás é feliz ainda hoje. Agora escreve-me poucas vezes, e não se lembra de que são compridas as noites de Inverno.

Paulina satisfaz-lhe às ambições de glória, como às ambições de amor. Se às vezes aspira a um espaço mais vasto para escrever seu nome, algumas páginas dos seus escritos inéditos aparecem nas colunas dos jornais da época e são geralmente admiradas. Mas cedo se desengana, que esta glória é menos real do que a primeira, e volta contente à sua feliz obscuridade.

D. Margarida é venturosa; descansa hoje a inteligência de seis anos de esforços. É nas crises que toda a grandeza do seu carácter se revela; agora entretém-se já um pouco a apoquentar os criados e encarrega-me de dar parte às leitoras do nascimento de um menino, que ela sustenta ser a cara do pai.

Eu, pela minha parte, quando nos embates continuados da vida me sinto desanimar, vou passar oito dias com a família de Entre Arroios e venho curado.