Sidarta
S a N S a R a
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Carinhosamente, olhou a torrente das águas, o verde transparente, as linhas cristalinas de seu desenho misterioso. Notou que do fundo subiam pérolas luminosas, que na superfície flutuavam silenciosas bolhas de ar, que o espelho refletia o azul do céu. Com milhares de olhos fitava-o o rio, olhos verdes, brancos, diáfanos, cerúleos. Corno ele adorava aquelas águas!
Estava encantado por elas. Sentia-se grato. Notava que no seu coração a voz tornava a falar. Despertada do sono, dizia-lhe:
"Ama as águas! Não te afastes delas! Aprende o que te ensinam!"
Ah, sim! ele queria aprender delas, queria escutar a sua men-sagem. Quem entendesse a água e seus arcanos —
assim lhe parecia — compreenderia muita outra coisa ainda, muitos mistérios, todos os mistérios.
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Nesse dia, porém, deparou-se-lhe apenas um único dentre os arcanos do rio, e este lhe abalou a alma. Viu que a água corria, corria, corria sempre e todavia estava lá, ininterruptamente, era sempre, a cada instante, a mesma e todavia se renovava sem cessar. Como explicar isso? Quem lhe dera desvendar esse mistério! Sidarta não o compreenderia, não encontrava a resposta.
Somente sentia que, no seu íntimo, vibravam intuições vagas, reminiscências distantes, divinas.
Pôs-se de pé. Os espasmos que a fome provocava nas suas entranhas tinham-se tornado insuportáveis. Num estado de en-levo, prosseguiu na sua caminhada, subindo a senda que acom-panhava a ribeira. Enquanto ia em direção contrária à corrente do rio, escutava os murmúrios das águas c os resmungos do seu ventre faminto.
Quando chegou ao trapiche, encontrou a embarcação à sua espera. Nela se achava o mesmo balseiro que outrora trans-portara o jovem samana através do rio.
Sidarta reconheceu-o, embora o homem também tivesse envelhecido consideravelmente.
— Queres levar-me ao outro lado? — perguntou.
O balseiro admirado de ver uma pessoa tão distinta andar sozinha e a pé, recebeu-o na embarcação e em seguida iniciou a travessia.
— É linda a vida que escolheste — disse o passageiro.
— Deve causar-te prazer viver sempre nas proximidades dessa água e navegá-la todos os dias.
O remador balançava-se, sorrindo:
— Dá prazer, realmente — respondeu. — É assim como dizes. Mas não são todas as vidas, todas as profissões igualmente lindas?
— Pode ser que sejam. Mas eu te invejo a tua.
— Ora, depois de pouco tempo te cansadas dela. Ela não serve para gente bem vestida.
Sidarta deu uma risada.
— Esta já é a segunda vez, no dia de hoje, que alguém repara nas minhas roupas e por causa delas me olha com descon fiança. Que tal, ó balseiro, não queres aceitá-las, de presente uma vez que elas se me tornaram odiosas?
Convém que saibas que não tenho dinheiro para pagar-te a passagem.
— Estás brincando, meu prezado senhor — disse o bal seiro, rindo-se gostosamente.
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— Não brinco, meu amigo. Olhe, em outra ocasião já me transportaste na tua balsa através desse rio e também o fizeste de graça- Faze-o mais uma vez hoje e recebe minhas roupas como recompensa!
— E tu continuadas a viagem sem roupas, meu mestre?
— Ora, eu até gostaria de nunca prosseguir na minha jornada. Para mim seria melhor que tu, ó balseiro, me desses uma tanga velha e me guardasses aqui, a teu lado, como teu ajudante, ou melhor: teu aprendiz. Pois, preciso ainda aprender como se maneja a embarcação.
Por muito tempo, o balseiro contemplou o estranho, pro-curando recordar-se.
— Agora te reconheço — disse finalmente. — Dormiste certa vez na minha cabana, faz muito tempo, talvez mais de viníe anos. Transpuseste o rio comigo, e despedimos-nos um do outro como bons amigos. Não eras um samana? Já não me lembro do teu nome,
— Chamo-me Sidarta. Era samana, quando me viste a última vez.
— Pois então, sé bem-vindo, ó Sidarta. Chamo-me Vasudeva. Espero que sejas meu hóspede também hoje.
Dormirás na minha choupana e, em seguida, hás de contar-me de onde vens e por que te desgostaste das tuas belas roupas.
Metade da travessia estava feita. Vasudeva remava com redobrado vigor, a fim de vencer a força da corrente.
Trabalhava com toda a calma, mexendo os braços musculosos e man-tendo o olhar fixo na extremidade da embarcação. Sidarta, sentado nas tábuas, observava-o.
Vinha-lhe à memória que naquele cutro dia, o último da sua fase de samana, também se seníim tomado de viva simpatia por aquele homem. Com sincera gratidão, aceitou o convite de Vasudeva. Quando atracaram, ajudou-o a amarrar a balsa nas estacas. A seguir, o balseiro pedin-Ihe que entrasse na cabana, onde lhe ofereceu pão e água.
Sidarta comeu com apetite e serviu-se com evidente prazer daS
mangas que Vasudeva lhe trazia.
Depois da refeição, ao pôr-do-sol, sentaram-se num tronco cie árvore, à beira do rio. Sidarta contou ao balseiro onde se criara e falou-lhe da sua vida, tal como se lhe deparara nesse mesmo dia, na hora do pior desespero. A narração prolongou-se até altas horas da noite.
Vasudeva escutou-o com muita atenção. Tudo quanto se lhe dizia encontrava um eco na sua alma, a origem e a infância, as aprendizagens, as buscas, as alegrias, as tristezas. Entre as boas qualidades do balseiro, uma das maiores era saber escutar como mais ninguém. Sem que o outro quebrasse o seu silêncio, notava Sidarta que Vasudeva acolhia todas as suas palavras no seu íntimo, sempre se conservando atento, imóvel, receptivo, sem perder nenhuma frase, sem nunca Ímpacientar-se. O
balseiro limitava-se a ouvir o que lhe comunicava o seu interlocutor. Não lhe tributava elogios nem censuras, E
Sidarta sentia a benção que representa o ensejo de confessar-se a um ouvinte daquele quilate e de poder
abrigar num coração acolhedor a própria vida, com todas as ambições e todos os sofrimentos.
Mas, pelo fim da narrativa de Sidarta, quando este descre-via a árvore na ribeira, a queda profunda e o efeito do sagrado
Om, quando contava como, ao acordar do sono, sentira aquele caloroso apego ao rio, o balseiro ouviu-o com dupla atenção, conservando os olhos fechados e abandonando-se inteiramente às palavras de seu hóspede.
E, quando Sidarta se calou, houve um longo silêncio.
Finalmente disse Vasudeva:
— As coisas passaram-se exatamente como eu pensava.
O rio falou contigo. É teu amigo também. Dirige-se também a ti. Que bom que seja assim, que bom! Fica comigo, Sidarta, meu companheiro! Em outros tempos tive uma mulher. Seu leito achava-se ao lado do meu.
Mas, faz longos anos que ela faleceu.
Há muito que vivo sozinho. Daqui em diante, tu viverás aqui comigo. Há espaço e comida para nós dois.
—• Eu te agradeço — respondeu Sidarta. — Eu te agradeço e aceito o teu convite. E também te fico grato, ó Vasudeva, por teres escutado tão bem o que te contei.
São muito raros os homens que saibam escutar, e ainda não encontrei nenhum que dominasse essa arte com tamanha perfeição. Também nesse ponto serei teu aprendiz.
— Hás de aprender isso — replicou Vasudeva — porem não de mim. Quem me ensinou a escutar foi o rio e ele
será o teu mestre também. O rio sabe tudo e tudo podemos aprender dele. Olha, há mais uma coisa que a água já te mostrou: que é bom descer, abaixar-se, procurar as profundezas. O rico e nobre Sidarta converte-se num remador; o erudito brâmane Sidarta 86
torna-se balseiro. Também isso te sugeriu o rio. O resto, ele to ensinará ainda.
— Que é o resto, Vasudeva?
O balseiro levantou-se:
— Já é muito tarde — respondeu. — Vamos dormir.
Não te posso dizer o que é o resto, meu amigo. Um dia, hás de aprendê-lo, ou talvez já o saibas. Olha, eu não sou nenhum erudito. Não sei falar. Nem sequer sei pensar.
Apenas sei escutar e ser piedoso. Outra coisa não aprendi. Se me fosse dado explicá-lo e ensiná-lo, talvez me tivesse tornado um sábio, mas assim não passo de um balseiro, ao qual cabe transportar as pessoas através do rio. Muita gente fez a travessia comigo, milhares de homens, provavelmente, para todos eles o rio repre sentava apenas um estorvo, a atrasar a sua viagem.
Andavam
atrás
de
dinheiro
ou
de
negócios,
encaminhavam-se a casamentos, faziam peregrinações.
O rio opunha-se, a eles e o balseiro tinha a incumbência de ajudá-los a vencer c mais depressa possível o obstáculo. Mas houve alguns entre esses milhares, uns poucos, quatro ou cinco talvez, para os quais o rio cessou de ser um estorvo. Escutaram a sua voz, prestaram atenção ao que ele dizia, e o rio tornou-se-lhes sagrado, assim como chegou a ser para mim. E agora vamos recolher-nos, ó Sidarta.
Sidarta permaneceu na casa do balseiro. Aprendeu a ma-nejar a balsa e, quando faltava serviço, trabalhava no arrozal, ao lado de Vasudeva, ou juntava lenha, ou colhia as frutas das bananeiras. Aprendia como fabricar um remo, como consertar uma embarcação, como fazer um balaio e alegrava-se com todos esses conhecimentos novos. Rapidamente se escoavam dias e meses.
Mas muito mais do que Vasudeva pudesse ensinar-lhe ensinava-lhe o rio. Sem cessar, Sidarta aprendia dele.
Antes de mais nada, aperfeiçoava-se na arte de escutar, de prestar atenção, com o coração quieto, com a alma receptiva, aberta, sem paixão, sem desejo, sem preconceito, sem opinião.
Convivia com Vasudeva em estreita amizade. Às vezes, ambos trocavam palavras, poucas palavras ponderadas com bastante antecedência. Vasudeva não gostava de falar muito e somente em raras ocasiões deixa-se induzir a uma conversa.
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— Díze-me se o rio também te comunicou o misterioso fato de que o tempo não existe? — perguntou-]he Sidarta certa feita. O rosto de Vasudeva iluminou-se num vasto sorriso.
— Sim, Sidarta — respondeu. — Acho que te referes ao fato de que o rio se encontra ao mesmo tempo em toda a parte, na fonte tanto como na foz, nas cataratas e na balsa, nos estrei tos, no mar e na serra, em toda a parte, ao mesmo tempo; de que para ele há apenas o presente, mas nenhuma sombra de passado nem de futuro. Não é isso que queres dizer?
— Isso mesmo — tornou Sidarta, — E quando me veio essa percepção, contemplei a minha vida, e ela também era um rio, O menino Sidarta não estava separado do homem Sidarta e do ancião Sidarta, a não ser por sombras, porém, nunca por realidades. Nem tampouco eram passado os nascimentos ante riores de Sidarta, como não fazia parte do porvir a sua morte, com o retorno ao Bramc, Nada foi, nada será; tudo é, tudo tem existência e presente.
Sidarta falava com entusiasmo, sentindo profunda felicidade em face dessa iluminação, Ah, sim! Todo o sofrimento pertencia ao tempo, da mesma forma que todos os receios e tormentos com que as pessoas se afligiam a si próprias. Todas e quaisquer dificuldades, tudo quanto houvesse de hostil no mundo, sumir-se-ia, cairia derrotado, logo que o homem triun-fasse sobre o tempo, logrando arredá-Io pelo pensamento. Sidarta falava, como que enlevado. Vasudeva, radiante, sorria para ele confirmando, às vezes, as palavras do companheiro com um sinal de cabeça, porém, conservando-se em silêncio. Apenas acariciava com a mão o ombro de Sidarta. Em seguida, voltou ao seu trabalho.
Em outra oportunidade, durante a época das chuvas, quando o rio estava chsio e rugia terrivelmente, disse Sidarta;
— O rio tem muitas vozes, um sem-número de vozes; não é, meu amigo? Não te parece que ele tem a voz de um rei e a de um guerreiro, a voz de um touro e a de uma ave noturna, a voz de uma parturiente e a de homem que suspira, e inúmeras outras ainda?
— Tens razão — respondeu o balseiro. — Na sua voz concentram-se as vozes de todas as criaturas.
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— E tu — continuou Sidarta — sabes identificar a palavra que ele dirige a ti, sempre que consegues ouvir simultaneamente todas as dezenas de milhares de suas vozes?
A fisionomia de Vasudeva irradiava satisfação.
Inclinando-se para o amigo, sussurrou-lhe no ouvido o sagrado Om. Era exatamente isso o que Sidarta ouvira também.
Dia a dia, o seu sorriso assemelhava-se mais ao do balseiro, chegando, quase, a irradiar a mesma luminosidade, a resplandecer de quase igual ventura, a luzir, tal e qual o do companheiro, através de milhares de ruguinhas; era o sorriso de uma criança e de um ancião também. Muitos viajores, ao avistarem os dois balseiros tomavam-nos por irmãos. Freqüentemente, Sidarta e Vasudeva permaneciam sentados no tronco da árvore, junto à ribeira. Calados, escutavam o que lhes segredava a água, a qual, para eles, não era apenas água, senão a voz da vida, a voz do que é, a voz do eterno Devir. E, de quando em quando, sucedia que um e outro, prestando atenção aos murmúrios do rio, pensavam na mesma coisa, num colóquio mantido dois dias antes, com um dos seus passageiros, cuja aparência ou cujo destino, por algum mctivo os preocupasse, na morte ou na infância, como também ocorria, sempre que o rio lhes con-fiava uma boa nova, entre olhavam-se ambos, com pensamentos idênticos, contentes de terem recebido a mesma resposta à mesma pergunta.
Da embarcação dos dois balseiros, partia algum fluido que certos viajantes notavam. Ocasiões havia em que um passageiro, após ter examinado o semblante de um dos remadores, começava a narrar os acontecimentos da sua vida, falando de suas tristezas ou confessando más ações. Ocasiões havia em que uma pessoa lhes pedia licença para ficar em sua companhia durante uma tarde, a fim de estudar o que o rio murmurava.
Em outras ocasiões ainda, aparecia gente curiosa que ouvira falar de dois sábios, ou bruxos, ou santos, que viviam numa choupana, nas proximidades da balsa. Os indiscretos faziam numerosas perguntas, sem receberem respostas, e não encontravam nem bruxos nem sábios, senão apenas dois vethotes bonachões, que pareciam mudos e um tanto esquisitos ou abo-bados. E os indiscretos, rindo-se, comentavam entre si com que leviandade e credulidade o povo espalhava boatos dessa espécie.
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Decorriam os anos, sem que ninguém os contasse. Cer o dia, porém, chegaram alguns monges peregrinos, adeptos do Buda e que desejavam atravessar o rio. Deles souberam os balseiros que o grupo ia ter, a toda pressa, com seu grande mestre, já que se espalhara a notícia de que o Augusto, acome-tido de doença fatal, corria perigo de morrer em breve a sua derradeira morte, para, em seguida, encontrar a redenção. Pouco depois, vinha outro grupo de monges, e ainda outro. Tanto os peregrinos como os demais viageiros e andarilhos só falavam de Gotama e da sua morte iminente. E assim como as pessoas acorrem de todos os lados, quais formigas, quando se trata de uma guerra ou da coroação de um rei. assim se encaminhava toda essa multidão, como que
atraída màgicamente, ao lugar onde o grande Buda aguardava a sua hora final, àquele lugar onde se produziria o tremendo acontecimento da glorificação do mais perfeito de todos os seres.
Nesses dias, SJdarta amiudadamente recordava o sábio moribundo, o grande mestre cuja voz exortara os povos e despertara centenas de milhares de homens, essa voz que ele mesmo ouvira em outra hora. Evocava o sagrado rosto
que
então
lhe
fora
dado
contemplar
reverentemente. Devotava ao Venerável pensamentos amistosos. Com um sorriso, trazia à memória as palavras que ele, quando moço, dirigira ao Sublime. Parecia-lhe que se tratara de palavras arrogantes, presunçosas, que nesse momento apenas o faziam sorrir. Havia muito que percebera que nada o separava de Gotama, cuja doutrina, contudo, não lhe fora possível aceitar. Não, o verdadeiro buscador, aquele que realmente se empenhasse em achar algo, jamais poderia subme-ter-se a nenhuma doutrina. Mas, quem tivesse encontrado alguma solução, seria capaz de aprovar toda e qualquer doutrina, todos os caminhos e objetivos, já que nada mais o distan-ciaria dos milhares de outros homens que viviam na Eternidade e impregnavam-se do Divino.
Certo dia, em meio a muitos outros peregrinos que rumavam em direção ao Buda agonizante, vinha também Kamala, que em tempos passados fora a mais bela de todas as cortesãs.
Havia muito que renunciara àquele tipo de vída. Dera o seu parque de presente aos monges de Gotama e procurara agasalho na doutrina do Augusto. Fazia parte das amigas e benfeitoras dos peregrinos. Ao receber a notícia da morte iminente do Buda, 90
vestira roupas simples c puscra-sc a caminho, acompanhada do menino Sidarta, seu filho. Junto com cie, chegara .ao rio.
A criança, cansada pela marcha, queria voltar parr- casa.
Pedia comida. Insistia em que repousassem. Teimava c choramingava.
Kamala via-se forçada a parar freqüentemente. O garoto estava acostumado a impor-lhe a sua vontade. Era preciso que ela lhe preparasse refeições, que o consolasse ou falhasse com ele. O
pequeno não compreendia por que a mãe o obrigara a empreender essa peregrinação laboriosa, melancólica, rumo a um Sugar desconhecido, para terem com um homem estranho., que era um santo e do qual se dizia que estava a ponto de morrer. Que então morresse de uma vez! Isso não tinha nenhuma importância para o menino.
Os romeiros já se encontravam nas proximidades da balsa de Vasudeva, quando a criança mais uma vez conseguiu que a mãe interrompesse a jornada para descansarem. A própria Kamala também sentia-se fatigada. Enquanto o filhinho masti-gava uma banana, a mulher acocorou-se no chão e fechando os olhos, repousou um pouquinho. Mas, de repente soltou uin grito doloroso. O garoto, que a olhou, assustado, notou que seu rosto estava pálido de terror. De sob o vestido de Kamala esca-pava uma cobrinha preta, que acabava de mordê-la.
Imediatamente, ambos correram pela estrada, a fim de pro-curarem quem lhes acudisse. Acercaram-se da balsa, em cujas proximidades Kamala caiu ao solo, incapaz de
prosseguir na caminhada. O menino pôs-se a chorar miseramcnte. Entre gritos, abraçava e beijava a mãe, que também pedia socorro a altos brados. Finalmente, o clamor chegou aos ouvidos de Vasudeva, que se achava perto do ancoradouro. Ele acorreu depressa.
Levantando a mulher, carregou-a até à balsa. O menino acompanhou-os e, pouco depois, todos alcançaram a choupana, onde Sidarta, junto ao braseiro, estava ocupado em acender o lume.
Ao erguer o rosto, deparou logo com o menino, que despertou nele reminiscências esquisitas, como que fazenda voltar um passado remoto. Em seguida, avistou Kamala. Reconheceu-a logo, ainda que ela tivesse desmaiado nos braços do balseiro.
Nesse instante percebeu que o garoto cuja fisionomia evocara nele apenas recordações intensas, era ^eu próprio filho e o coração começou a agitar-se no seu peito.
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Lavaram a ferida, mas esta já se tornara preta. O ventre de Kamala esta inchado. Deram-lhe uma poção, que fez com que recuperasse os sentidos. Achava-se deitada na cama de Sidarta, na cabana, e ele permanecia a seu lado, inclinando-se para a mulher que em outros tempos fora o seu grande amor.
Kamala tinha a impressão de que tudo aquilo era um sonho.
Sorrindo, fitava o rosto do amigo e apenas lentamente dava-se conta da sua situação. Ao lembrar-se da mordida da cobra, chamou ansiosamente o menino.
—• Ele está contigo. Não te preocupes — acalmou-a Sidarta.
Kamala contemplou-o. Começou a falar, cora a língua pesada pelo veneno:
— Envelheceste, meu caro — disse. — Ficaste grisalho.
Mas te pareces com o jovem samans, que certa vez entrou no meu jardim, sem roupas, com cs pés cobertos de poeira Hoje és muito mais semelhante a ê\s do que eras naquele dia em que abandonaste a mim e a Kamasvami. A semelhança está nos olhos, ó Sidaría. Ai de mim! Eu também envelheci. Fiquei velha. Dize-me se conseguiste reconhecer-me!
Sidarta sorriu:
— Reconheci-te logo, minha querida Kamala.
Ela aponte u para o menino.
—• Reconhecestc a ele também? É teu filho.
Sua vista turvou-se. Ela fechou os olhos. O menino chorava. Sidarta sentou-o no colo. Deixou que ele continuasse com as suas lamentações. Acariciou-lhe os cabelos e, enquanto mirava o rostinho infantil, veio-lhe à memória uma prece brâmane que ele mesmo aprendera outrora,
em
tempos
de
criança.
Cantarolando
devagarzínho, pôs-se a recitá-la. As palavras emergiam como que vindas do-passado e da infância.
Pelo efeito da cantiga monótona, o garoto sossegou.
Apenas dava, de vez em quando, um soluço. Finalmente adormeceu.
SÍda.rta deitou-o na cama de Vasudeva. O balseiro estava perto do braseiro, a cozinhar o arroz. Sídarta lançou-lhe um olhar, que o outro devolveu com um suave sorriso.
— Ela vai morrer — disse Sidarta baixinho.
Vasudeva fez que sim. O clarão do fogo iluminava-lhe a fisionomia bondosa.
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Mais uma vez Kamala voltou ao estado de consciência.
Seu rosto crispava-se de tanta dor. Os olhos de Sidarta liam o sofrimento nas comissuras da boca c nas faces lívidas. Liam-no silenciosamente, participando dos tormcntos. Kamala percebia-o, e seus olhos procuravam os do homem.
Fitando-o, disse então:
—. Agora noto que também os teus olhos mudaram.
Ficaram totalmente diferentes. E, contudo, reconheço que ainda és Sidarta. Por quê? Tu és e não és Sidarta.
£Ie conservou-se calado. Calmamente, seus olhos miravam os de Kamala.
— Alcançaste a tua meta? — perguntou ela. —
Encontraste a paz?
Ele lhe sorriu, pousando a mão na mão da amiga.
— Encontraste, sim. Vejo-o — disse ela. — Eu também a acharei.
— Já a achaste — murmurou Sidarta.
Kamala cravou os olhos no seu rosto. Lembrou-se de que tencionara ir em romaria até onde estivesse Gotama, a fim de ver o rosto de um ser perfeito, de imbuir-se na sua paz. Em vez do Buda, descobrira Sidarta, e nesse momento verificou que estava bem feito, e se tivesse chegado a ver aquele outro, não seria melhor. Queria dize-lo ao amigo, mas a língua já não obedecia à sua vontade. Olhou-o em silêncio e Sidarta observou que a vida nos olhos da amiga se apagava aos poucos. Quando o derradeiro espasmo os rcanimara por um instante, para, em seguida, extingui-los definitivamente, quando as últimas convulsões haviam cessado de sacudir-lhe os membros, o dedo de Sidarta fechou as pálpebras de Kamala.
Por muito tempo quedou-se sentado junto ao leito, contemplando o rosto da defunta. Por muito tempo mirou-lhe a boca, essa boca envelhecida, fatigada, com os lábios encolhidos. Lembrou-se de que, na primavera da sua vida, comparara-a a um figo recém-cortado. Por muito tempo permaneceu ali, a decifrar o que lhe revelava o semblante lívido, com as rugas traçadas pelo esgotamento. Imbuía-se daquela visão. Imaginava-se a si próprio, a jazer assim, igualmente exangu^, igualmente extinto, e ao mesmo tempo lhe voltavam à memória os dois rostos, o seu e o dela, ambos jovens, de lábios rubros, de olhos ardorosos.
Inteiramente o penetrava a sensação do presente e da simulta-neidade, a sensação da eternidade. Nessa hora, Sidarta percebeu claramente, com maior nitidez do que nunca, que toda a vida é indestrutível e cada instante, eterno.
Quando se levantou, encontrou o arroz que Vasudeva pre-parara para ê[e. Mas Sidarta não comeu nada. No
estábulo, onde guardavam a cabr:., os dois anciãos estenderam galha c Vasudeva recolheu-se. Sidarta, porém, saiu. Passou a noite em fre.ite da choupana, a escutar os murmúrios do rio, envolto pelo passado, e iodas as frases da sua vida rodeavam-no, desfilavam conjuntamente diante dele. Apenas se erguia, de vez em quando, a fim de aproximar-se da porta da cabana, para ver se o menino continuava dormindo.
De madrugada, ainda antes do nascer do sol, Vasudeva saiu do estábulo. Acercou-se do companheiro.
— Não pregasíe olho — disse.
•— Não, Vasudeva. Fiquei aqui, a escutar a voz do rio. Ele me contou muita coisa. Incutiu-me uma idéia saudável, a idéia' da unidade.
—- Ocorreu-te uma desgraça, mas vejo, ó Sidarta, que nenhuma tristeza entrou no teu coração.
— Não, meu caro, por que deveria eu estar triste? Eu que já andava rico e feliz, agora me tornei mais rico, mais feliz ainda. Meu filho me foi dado de presente.
—. Teu filho seja bem-vindo, da minha parte também.
Mas, Sidaría, temos que trabalhar. Vamos! Há muito que fazer.
Kamala morreu no mesmo leito, onde outrora morreu minha mulher, e na mesma colina onde incinerei o seu corpo, construi-remos a fogueira para Kamala.
Enquanto o garoto prosseguia dormindo, ambos empilharam as achas da fogueira.
O FILHO
TÍMIDO, com lágrimas nos olhos, o menino assistia aos funerais da mãe. Sombrio, arísco, ouvia as palavras de Sidaría, quando este o tratava de filho e lhe dava as boas-vindas na choupana de Vasudeva. Com o rosto pálido, o pequeno passava dias inteiros junto à sepultura da defunta. Recusava-se a comer.
Franzia o cenho. Mantinha o coração inacessível.
Obstinava-se, revoltado contra o Destino.
Sidarta não insistia com ele. Respeitava-lhe o luto e deixava-o fazer o que queria. Compreendia muito bem que o garoto não o conhecia e por isso não podia amá-lo como a um pai.
Pouco a pouco, porém dava-se conta de que aquele rapazinho de onze anos era uma criança mimada, apegada à mãe, criada-na opulência, acostumada a comer pratos finos, a dormir numa cama fofa e mandar nos serviçais. Via que uma pessoa entristecida, habituada ao luxo, simplesmente não podia conformar-se de um dia para o outro com a pobreza e com um ambiente estranho. Não lhe impunha os seus desejos.
Freqüentemente fazia o trabalho que cabia ao filho e sempre lhe oferecia os melhores bocados. Esperava conquistá-lo lentamente, pela paciência e pela gentileza.
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Qualificara-se a si mesmo de rico e feliz, quando o menino começara a morar em seu lar. Mas o tempo passava e o menino continuava sombrio e renitente, mostrando-se sempre teimoso e altivo, Não queria absolutamente trabalhar. Não demonstrava o menor respeito aos dois anciãos. Pilhava o pomar de Vasudeva.
Eis que Sídarta começou a compreender que o filho não lhe trouxera ventura e paz, senão mágoas e preocupações. E, todavia, o amava. Preferia mágoas e carinhosas preocupações à felicidade e às alegrias que gozara antes da chegada do garoto.
Desde que o jovem Sidarta convivia com eles na cabana, os velhos haviam distribuído entre si as fainas cotidianas.
Vasudeva tornara a tomar conta da balsa, sozinho, ao passo que Sidarta se dedicava ao trabalho nos campos e às lides domés-ticas, a fim de ficar perto do filho.
Durante muito tempo, meses a fio, Sidarta prosseguiu es-perando que o menino o compreendesse, que aceitasse o seu amor, que talvez o retribuísse. Meses a fio, Vasudeva nutria a mesma esperança. Aguardava em silêncio, observando o pai e o filho. Certa feita, quando o menino Sídarta mais uma vez ma-goara o pai com sua obstinação e seus caprichos, chegando a quebrar propositadamente duas tigelas de arroz, Vasudeva apro-veitou a noite para falar com o amigo em separado.
— Não me leves a mal — disse — que eu trate dessas coisas. Faço-o como teu amigo. Vejo como te atormentas.
Noto que andas tristonho. Meu caro, teu filho te preocupa, e a mim, me preocupa também. Aquele passarinho está acostumado a viver outra vida, num ninho diferente. Não abandonou a riqueza e a cidade por tédio e nojo, como tu o fizeste. Teve de largar tudo isso a contragosto. Olha, meu amigo, já consultei o rio.
Consultei-o muitas vezes. Mas o rio limita-se a rir, rir de mim, de mim e de ti também, dá gargalhadas em face da nossa tolice. A água corre para a água. A juventude procura a juven tude. Teu filho não se encontra no lugar que lhe convém. Seria bom se tu também consultasses o rio. Faze o que ele te sugerir.
Emocionado, Sidarta examinou o rosto do amigo, esse rosto em cujas inúmeras rugas se escondia inalterável serenidade.
— Mas, serei capaz de separar-me dele? — respondeu em voz baixa. — Concede-me mais um pouco de tempo, meu caro!
Estás vendo como luto, como me esforço por conquistar 96
o coração do menino, pelo carinho, pela paciência, pela doçura, É assim que quero aliciá-lo. Tomara que o rio um dia dirija a sua palavra também a ele. Esse menino tem a mesma vocação que nós.
O sorriso de Vasudeva tornou-se ainda mais caloroso.
— Ah, sim! Também ele tem vocação. Também ele é parte da vida eterna. Mas que sabemos nós, tu e eu, do destino que o aguarda, do caminho que lhe caberá trilhar, das ações que ele deverá realizar e dos sofrimentos que o acometerão? Os des gostos que lhe estão reservados não serão pequenos, uma vez que o
coração desse rapaz é duro e altivo. Pessoas da sua espécie têm de padecer muitas amarguras, já que erram freqüentemente, cometem graves pecados e carregam muita culpa na sua cons ciência. Dize-me uma coisa, meu amigo: não dás nenhuma edu cação a teu filho? Não lhe impões a tua vontade? Não o surras nunca? Não o castigas?
—. Não, Vasudeva, não faço nada disso.
— Pois é! Não o obrigas a nada; não bates nele; não lhe dás nenhuma ordem, porque sabes que a meiguice é mais forte do que a dureza e a água mais forte do que o rochedo. Muito bem! Aprovo a tua conduta. Mas não te enganas a ti mesmo, quando pensas que não exerces coação alguma sobre ele e não lhe infliges nenhum castigo? Não o agrilhoas pelo teu carinho?
Não o humilhas todos os dias e ainda Ihs amarguras a vida, graças à tua bondade e paciência? Não obrigas esse menino soberbo, mimado, a viver numa cabana junto com dois velhos comedores de bananas, para os quais o arroz já representa um quitute e cujo coração gasto, sereno, pulsa em outro ritmo que o dele? Não resulta tudo isso em constrangimento e punição?
Consternado, Sidarta baixou os olhos.
Em seguida murmurou:
— Que achas que devo fazer?
E Vasudeva tornou:
— Leva-o à cidade. Deixa-o na casa que pertencia à mãe.
Ali haverá ainda alguns criados aos quais poderás entregá-lo.
E^ se não houver mais ninguém, procura um professor para ele, não por causa do ensino, mas para que a criança possa conviver com outros garotos, e com as meninas, num ambiente que lhe convier. Nunca pensaste nesta solução?
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— Espiaste o fundo do meu coração — respondeu Sidarta melancòlicamente. — Muitas vezes pensei nisso. Mas olha!
Como posso abandonar ao mundo esse menino, em cuja alma não há nenhuma ternura? Não se tornará ele um presunçoso?
Não se perderá em prazeres e ambições de poder? Não repetirá todos os erros do pai? Não se extraviará irremediavelmente no Sansara?
O rosto do balseiro iluminou-se num sorriso radiante.
Acariciou delicadamente o braço de Sidarta e disse:
— Consulta o rio a esse respeito, meu amigo! Não estás ouvindo como ele se ri? Achas realmente que cometesíe as tuas tolices, a fim de poupá-las a teu filho? Julgas-te capaz de pro teger o pequeno contra o Sansara? De que modo? Por meio de ensinamentos, de preces, de admoestações? Ora, meu querido, esqueceste por completo uma história que me contaste aqui mesmo, em outra ocasião; a edificante história de um filho de brâmane que se chamava Sidarta? Quem resguardou esse Sidarta do Sansara, do pecado, da avareza, da insensatez? A piedade do pai, as exortações dos mestres, a própria erudição, as pesquisas que ele fazia — nada disso conseguiu servír-lhe de esteio. Que pai, que mestre poderia evitar que Sidarta vivesse a sua vida sujando-se com ela, caindo em culpa e bebendo sozinho a poção amarga, antes de descobrir o seu caminho pelas suas próprias forças? Pensas, meu caro, que alguém possa escapar à busca desse caminho? Talvez teu filhinho, porque o amas e desejas isentá-lo de mágoas, dores e desilusões? Mas, mesmo que morras por ele dez vezes, não lograrás alterar nenhuma parcela do des tino que o aguarda!
Nunca na vida, Vasudeva falara tanto. Sidarta agradeceu-lhe calorosamente, Acahrunhado, entrou na cabana. Por muito tempo, não conciliou o sono. Vasudeva não lhe dissera nada que ele mesmo não soubesse, que não lhe tivesse preocupado o espírito uma e outra vez. Mas o que esse saber lhe aconselhava era inexeqüível. Mais forte do que o saber era o amor ao menino, era a ternura paterna, o medo de largar o filho. Jamais lhe ocorrera perder-se a tal ponto por alguma coisa, dedicar tamanho amor a criatura alguma, entregar-se tão cegamente, tão dolorosa, tão inutilmente e, apesar disso, com tanta alegria!
Sidarta era incapaz de seguir o conselho do amigo. Não podia separar-se do filho. Permitia que este lhe desse ordens.
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Suportava-lhe o desdém. Permanecia calado, a esperar.
Diariamente reiniciava a silenciosa luta da gentileza, a guerra
surda
da
paciência.
Também
Vasudeva
conservava-se mudo, limi-tando-se a observá-los com
bondade, prudência e tolerância. Em matéria de paciência, os dois anciãos eram mestres.
Certa feita, quando a fisionomia do rapaz lhe recordava mais do que nunca a de Kamala, Sidarta lembrou-se subitamente de uma frase que ela lhe dissera, havia muito tempo, nos dias da sua mocidade: "Tu não sabes amar" — afirmara ela, e Sidarta lhe dera razão. Então se comparara a si com um astro e qualificara os homens tolos de folhas mortas. E, todavia, sentira que aquela frase continha uni quê de censura. Realmente, nunca lhe fora possível abandonar-se, entregar-se por inteiro a outra criatura, a ponto de esquecer-se de si mesmo e de cometer bobagens por amor de outrem. Nunca, nunca pudera agir dessa forma e como lhe parecia naquele instante, era essa a grande diferença que o apartava dos homens tolos. Mas, desde que surgira o filho, também ele, Sidarta, transformara-se num homem tolo, que sofria por causa de outra pessoa, que se agarrava a um ente querido, que andava perdido de amor, que, devido a essa afeição, se convertera num imbecil. A essa altura, acometia-o, embora tardiamente, pela primeira vez na vida, aquela paixão, a mais forte, a mais estranha de todas, fazendo-o sofrer, sofrer miseramente e, mesmo assim, deixando-o sumamente feliz, dando-lhe a impressão de estar renovado e enriquecido.
Certamente, percebia Sidarta, esse amor, esse abandono cego ao filho, não passava de uma paixão, que havia nela algo muito humano, que era Sansara, fonte turva, água sombria. Mas, ao mesmo tempo sabia muito bem que aquilo tinha valor, era necessário, emanava do seu próprio ser. Cabia-lhe expiar também essa delícia, saborear também esses tormentos, cometer também essas tolices.
O filho, por sua vez, permitia que o pai se comportasse estüpidamente. Tolerava que o velho se empenhasse em conquistá-lo. Humilhava-o diariamente pelos seus caprichos. Aquele pai não tinha nada que o encantasse e ainda menos que lhe inspirasse temor. Era um homem bondoso, o tal pai, um bonachào meigo e brando. Podia ser que fosse um homem muito piedoso, talvez um santo. Mas nenhuma dessas qualidades era suscetível de atrair um menino. Enfadonho, sim, parecia-lhe 99
aquele pai, que o mantinha preso àquela mísera cabana.
Sidarta entediava-o, e o fato de ele retribuir a traquinice pelo sorriso, o insulto pela gentileza, a maldade pelo carinho era precisamente o que se afigurava ao menino corno o cúmulo da odiosa aslúcia peculiar de um ancião hipócrita. O filho teria preferido míl vezes ser ameaçado ou maltratado pelo pai.
O dia chegou em que se evidenciou a antipatia. Em furiosa
explosão,
o
jovem
Sidarta
revoltou-se
abertamente contra o velho. Este acabava de dar-lhe uma ordem. Mandara-o ajun-tar gravetos. Mas o garoto não saiu da cabana. Recalcitrante e irado, conservava-se onde estava, batendo o pé, cerrando os punhos e terminando por lançar na cara do pai um verdadeiro jato de abominação e desprezo.
— Vai buscar teus gravetos sozinho! — gritou escumando de raiva. — Não sou teu escravo. Sei muito bem que tu, com a tua piedade e indulgência, apenas tencionas castigar-me e amesquinhar-me. Queres que me torne igual a ti, tão devoto, tão meigo e também tão sábio. Mas escuta: só para magoar-te, quero antes ser assassino e salteador de esírada! Melhor ir ao Inferno do que ser como tu! Detesto-te. Tu não és meu pai, mesmo que tenhas dormido dez vezes com minha mãe!
Transbordando de cólera e desgosto, investiu contra o pai com centenas de palavras confusas e maldosas. Em seguida, afastou-se, correndo e somente voltou de tardezinha.
Na manhã seguinte, porém, desapareceu. Junto com ele sumiu uma cestinha trançada ás víme colorido, na qual os balseiros costumavam guardar as moedas de prata ou cobre, que haviam recebido dos passageiros. Logo depois, os velhos verifi-caram a falta da embarcação.
Sidarta viu que ela se encontrava nas proximidades da outra ribeira. O menino fugira.
— Preciso ir atrás dele — disse Sidarta, que desde a cena do dia anterior tremia de emoção e tristeza. — Não é possível que uma criança assim ande sozinha pela selva.
O menino há de perecer ali. Construamos uma jangada, ó Vasudeva, para atravessarmos o rio.
— Pois não, vamos construir uma jangada — respondeu Vasudeva. — Assim recuperaremos a balsa que o garoto surri-piou. Mas, quanto a ele mesmo, meu amigo, melhor seria que o deixasses escapulir. £le já não é criança.
Sabe defender-se.
Procura o caminho que o conduza à cidade e faz muito bem; não 100
te esqueças disso! Apenas faz o que te omitíste fazer.
Cuida de ti mesmo. Segue a tua própria rota. Ah, Sidarta, vejo como sofres. E, todavia padeces dores que merecem ser metidas a ridículo. Tu mesmo te rirás delas daqui a pouco.
Sidarta permaneceu calado. Já tinha nas mãos o machado e se punha a armar uma jangada de bambu.
Vasudeva ajudou-o a atar os troncos com cordas de
junco. Em seguida, passaram-se ao outro lado. A corrente levou-os para longe. Quando alcançaram a ribeira, tiveram de sirgar a jangada rio acima.
— Por que trouxeste o machado? — perguntou Sidarta.
Respondeu Vasudeva:
—- Pode ser que o remo de nossa balsa se tenha extraviado, Mas Sidarta não ignorava o que pensava o amigo. Vasudeva queria dar a entender que o menino talvez tivesse quebrado ou jogado fora o remo, a fim de vingar-se ou de impedir que o seguisse. E, realmente, na balsa não se encontrava remo algum. Vasudeva apontou para ela, olhando o companheiro com um leve sorriso, como se quisesse dizer: "Não estás compreen-dendo que teu filho te pede que não o sigas?" No entanto, não enunciou tal pensamento por palavras expressas. Em vez disso, começou a fabricar outro remo. Sidarta porém, despediu-se dele, a fim de ir à procura do filho. Vasudeva não se opôs tampouco a essa tentativa.
Depois de ter errado por muito tempo pela selva, Sidarta percebeu que suas buscas eram improfícuas. Ou — assim racio-cinava — o menino já chegou à cidade, ou, se ainda estivesse a caminho, esconder-se-ia do seu perseguidor.
Ao refletir mais maduramente, deu-se conta de que, no fundo, não se preocupava pelo filho, uma vez que no âmago do seu coração tinha certeza de que este nem pereceria nem tampouco corria perigo na floresta.
Mesmo assim, caminhava sem cessar e já não o fazia na intenção de salvar o garoto, senão exclusivamente para, quiçá, revê-lo pela última vez. Assim avançou passo por passo até às portas da cidade. Quando se achava na larga avenida de entrada, estacou, junto à grade do belo parque que antes pertencera a Kamala.
Era o mesmo lugar onde, outrora, a vira pela primeira vez, naquela suntuosa liteira. No seu espírito ressuscitava o passado.
Voltou-lhe a visão de si mesmo, do jovem samana hirsuto, des-nudo, com a cabeleira coberta de poeira. Por muito tempo, 101
quedou-se contemplando o jardim, através do portão aberto e observando os monges, de batinas amarelas, a passearem à sombra das be]as árvores.
Horas a fio, ficava assim, a meditar, a evocar imagens, a escutar a história da sua vida. Horas a fio, conservava-se imóvel espiando os religiosos. Em lugar deles, a imaginação fazia surgir à sua mente o jovem Sidarta e a jovem Kamala, a perambularem sob as árvores altas.
Nitidamente lhe vinha à memória aquela hora em que Kamala o acolhera na sua casa, em que ele recebera o primeiro beijo. Recordava-se claramente da altivez e do desdém com que então considerara a sua posição de brâmane e da ambição soberba com que iniciara a sua existência mundana.
Visionava a Kamasvami e à criadagem; rememorava os festins, os jogos de dados, os músicos; revia o passarinho de Kamala na gaiola; tornava a viver todas aquelas experiências, impregnando-se de Sansara, voltando a ser velho e cansado, provando mais uma vez a amargura do asco, sentindo de novo o desejo de extinguir-se a si mesmo e, finalmente' reencontrando a cura graças ao sagrado Om.
Depois de ter-se demorado longamente nas proximidades do portão do parque, percebia a tolice da ânsia que o arrastara até aquele lugar. Compreendia que não podia ser útil ao filho e não devia apegar-se a ele. No fundo do coração doía-lhe o amor ao fugitivo, feito ferida. Mas, ao mesmo tempo notava que essa ferida lhe fora aplicada, não para que ele a alargasse, senão para que a transformasse numa flor a abrir-se magnifí-camente.
Entristecia-o a circunstância de que a essa hora a carola ainda não tivesse desabrochado em todo. o seu esplendor, No lugar da almejada meta que o atraíra até àquele sítio, em busca do filho, encontrava-se apenas o vazio. Melancòlicamente, acocorou-se no chão. Sentia que, no seu coração, algo estava mor-rendo. Divisava o vácuo. Já não enxergava nem alegria nem objetivo.
Mantinha-se absorto na meditação, entregue à espera.
Era isso, essa única coisa que aprendera do rio: a faculdade de aguardar, de ter paciência, de escutar. E
assim prosseguia escutando, agachado, na poeira da estrada. Espreitava o ritmo do seu coração, como pulsava, tristonho, fatigado. Ansiava por uma voz.