Sidarta
S a N S a R a
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Durante longas horas, conservara-se assirrt, à espera de algo que lhe fosse dado ouvir. Já não tinha visões-102
Mergulhava no vazio. Abandonava-se à queda, sem vislumbrar nenhum caminho. E, sempre que sentia a ardência da ferida, proferia silenciosamente o Om, irnbuía-se do Om. Os monges no jardim observavam-no, e quando ficara assim por muito tempo, quando o pó se acumulara na cabeleira grisalha, vinha um deles e depositava a seus pés duas bananas, Mas o ancião nem sequer o olhou.
Desse torpor despertou-o uma mão, a tocar-lhe o ombro.
Reconhecendo imediatamente aquele contato delicado, tímido, voltou a si e levantou-se para saudar a Vasudeva que lhe seguira os passos. E ao contemplar o rosto do amigo, as ruguinhas como que repletas de puro sorriso, os olhos joviais, também se pôs a sorrir. Nesse instante reparou nas bananas que jaziam à sua frente. Apanhou-as e deu uma ao balseiro, enquanto comia a outra. Em seguida, sem falar, voltou à floresta, em companhia de Vasudeva. Encaminharam-se à balsa. Nenhum dos dois mencionava o que se passara naquele dia. Não pronunciavam o nome do menino, Não aludiam à sua fuga. Não mexiam na ferida. Na cabana, Sidarta recolheu-se ao leito, e quando Vasudeva, alguns instantes depois, aproximou-se dele, a fim de oferecer lhe uma tigela de leite de coco, já o encontrou dormindo.
103
OM
j[ OR muito tempo ainda, a ferida continuou a arder.
Cabia a Sidarta transportar através do rio numerosos vian-dantes acompanhados de filhos ou filhas e cada vez que os observava, dáva-se conta de que tinha inveja deles, de que dizia de si paxá si: "Tanta gente, tantos milhares de pessoas gozam dessa felicidade, da mais doce de todas, e eu não! Por quê? Até os homens mais maldosos, até os ladrões e cs salteadores, têm filhos.
Amam-nos e são amados por eles. Unicamente eu não recebi o meu quinhão!" Tais eram as reflexões ingênuas, insensatas que nessas horas lhe passavam pela cabeça.
A tal ponto assemelhara-se aos homens tolos.
Era de modo diferente do de outrora que a essa altura pensava a respeito das criaturas humanas. Havia nos seus jul-gamentos menos intelecto, menos orgulho, mas em compensação, mais calor, mais curiosidade, mais simpatia, Quando conduzia passageiros ordinários, homens tolos, negociantes, guerreiros, mulherio, esses seres já não se lhe afiguravam estranhos. Ele os compreendia. Compreendia a sua existência jamais orientada
por
raciocínios
e
percepções,
senão
exclusivamente por instintos e desejos. Tomava parte dela. Sentia-se igual a eles. Ainda que tivesse chegado bem perto da perfeição e padecesse as dores 104
da derradeira das suas feridas, tinha a impressão de que aqueles homens tolos eram seus irmãos. A vaidade, a cupidez, o ridículo que os dominavam perdiam para ele a sua comicidade, encontravam explicação, tomavam-se até mesmo dignos de respeito.
O amor cego que uma mãe tributasse ao filho; o orgulho estúpido, obcecado, de que um pai presunçoso se enchesse em face do filhinho único; o desejo desvairado, furioso de possuir jóias, de ser admirada pelos homens, tal como o experimenta uma mocinha garrida — todos esses instintos, todas essas infan-íilidades, ambições e ânsias, impulsos simples, irracionais, porém invencíveis na sua desmedida força e na sua pujante vitalidade, cessavam de apresentar-se aos olhos de Sidarta como meras criancices. Chegava ele a entender que os seres humanos viviam em função dessa coisa e que justamente elas os capacitavam para proezas incríveis, permitindo-lhes fazerem guerras, empre-enderem viagens, suportarem tudo e resistirem a sofrimentos sem fim. Por isso, era possível que ele os amasse e que se lhe descortinasse a vida, o ânimo, o Indestrutível, o Brama, a manifestar-se em todos os atos e em todas as paixões dessas criaturas. Aquela gente, com sua lealdade cega, com seu vigor e sua tenacidade, mereciam carinho e admiração. Nada lhes faltava. O
sábio, o filósofo superava-os apenas num único e minúsculo pontinho., numa só coisinha de nada; a saber, a consciência que ele obtivera da unidade de toda a vida.
E mesmo assim houve momentos em que o próprio Sidarta duvidara do alto valor de tal sabedoria ou idéia e ventilasse a possibilidade de também ela não passar de uma infantilidade peculiar de homens-pensadores ou de criançolas pensantes. Em todos os demais assuntos, os homens
comuns
igualavam-se
aos
sábios
e,
freqüentemente, lhes eram bastante superiores, assim como os animais, na sua realização persistente, imperturbável, de tudo quanto for necessário, às vezes parecem capazes de ultrapassar os homens.
Lentamente desabrochava e amadurecia no espírito de Sidarta a percepção, o conhecimento daquilo que na verdade significava sabedoria e devia ser a meta das suas buscas pro-longadas. Nada era a não ser uma predisposição da alma, a faculdade, a arte secreta de conceber, a cada instante, em plena vida, a idéia da unidade, de sentir a unidade, de encher dela os pulmões.
Pouco a pouco, essa certeza crescia nele c seu 105
reflexo aparecia no rosto velho e todavia infantil, de Vasudeva, revelando harmonia, ciência da eterna perfeição do cosmo, sorriso, unidade.
Mas a ferida continuava a arder. Com saudade e amargura, Sidarta recordava o filho. No seu coração, conservava sentimentos carinhosos e ternos. Devorado pela dor, cometia todas as tolices de que um homem amoroso é capaz. E essa chama não se extinguia. Um dia, quando a ferida o torturava mais do que nunca, transpôs o rio, acossado pela angústia. Desembarcou com a firme intenção de ir à cidade e procurar o filho. As águas fluíam suave e silenciosamente. Era a época da seca. Mas a voz do rio tinha um som estranho: ela se ria!
Ria-se abertamente. O rio dava risada. Zombava inconfundivelmente do velho balseiro. Sidarta estacou.
Inclinou-se por cima da super-J
fície, a fim de escutar melhor aquela voz. Na água que avançava devagarzinho, via o seu rosto como num espelho e nessa imagem havia algo que lhe despertava recordações, algo de que sé esquecera e que lhe voltava à memória, quando refletia um pouco: esse rosto parecia-ss com o de outra pessoa que ele, Sidarta, em
tempos remotos, conhecera, adorara e também teme-ra.
Parecia-se com o rosto do brâmane, seu pai. E ele evocou aquele dia distante da sua adolescência em que coagira o pai a que o deixasse reunir-se com os ascetas. Reviveu a hora da despedida, quando se fora, para nunca mais voltar. Não pade-cera o pai as mesmas mágoas que nesse instante atormentavam a ele próprio, devido ao filho? Não morrera o pai, havia muito tempo, em plena solidão, sem jamais o ter revisto? E não aguardava ao próprio Sidarta esse mesmo destino? Tal repetição, taí corrida num círculo vicioso, que significavam elas a não ser* uma comédia, uma coisa tão esquisita quanto disparatada?
E o rio prosseguia soltando risadas. Realmente, era assim!
Tudo voltava, todos os sofrimentos que não tivessem encontrado uma solução final. Era preciso suportar sempre as mesmas aflições.
Sidarta, porém reembarcou na balsa. Ao regressar à cabana, recordava o pai, recordava o filho, escarnecido pelo rio, lutando com o próprio eu, à beira do desespero e, apesar díSSO, propenso a soltar gargalhadas, mofando de si e do mundo in-106
teiro, Ai dele! a ferida ainda não se transformara em flor.
O
coração continuava a rebelar-se contra a sua sina. O seu sofrimento ainda não chegara a irradiar serenidade e triunfo. Contudo, sentia-se esperançoso e, ao alcançar a choupana, tinha o irresistível desejo de abrir-se a Vasudeva, de mostrar-lhe o fundo da sua alma, de dizer tudo, tudo a esse mestre na arte de escutar.
Vasudeva estava sentado na cabana, a trançar uma cesta.
Já não dirigia a balsa. Sua vista começava a ficar fraca e não somente os olhos, como também os braços e as mãos enfra-queciam cada vez mais. Inalterados permaneciam somente a jovialidade e a plácida benevolência de sua fisionomia, Sidarta tomou assento ao lado do ancião. Em seguida, pôs-se a falar lentamente. Contou coisas que nunca haviam sido mencionadas entre eles. Tratou daquela caminhada que dera à cidade, outrora instigado pela ferida ardente, pela inveja que lhe causava a visão de pais felizes. Confessou saber que esses desejos eram tolos. Relatou as lutas que travara contra eles.
Não omitiu nada. Sentiu-se capaz de dizer tudo, inclusive os fatos mais penosos. Conuseguiu confessar quaisquer segredos, patentear o que quer que houvesse, narrar todos os pormenores.
E ele exibiu sua ferida. Revelando também a tentativa de escape que empreendera naquela mesma manhã, descreveu como atra-vessara as águas, qual criança que fugia do lar, e como o rio zombara da sua intenção de ir à cidade.
Enquanto ele falava sem parar e Vasudeva o escutava com o rosto impassível, Sidarta notava mais fortemente do que nunca o encanto dessa atenção do amigo.
Observava que suas dores, suas .angústias fluíam em direção ao outro, que suas mais arcanas esperanças tomavam o mesmo rumo e lhe eram devol-vidas pelo companheiro. Descobrir a sua ferida a uma pessoa que soubesse ouvir como só Vasudeva sabia fazê-lo era como se a lavasse no rio, até que cessasse de arder e se unisse
com a água. Enquanto que prosseguia falando, revelando mais e mais segredos, abrindo-se sem nenhuma restrição, Sidarta reconhecia com crescente clareza que aquele ente que o escutava, imóvel, já não era Vasudeva, já não era nenhum ser humano, pois que se impregnava da sua confissão como uma árvore absorve a chuva.
Sim, esse vulto imutável era o próprio rio, era Deus mesmo, era a Eternidade. E enquanto Sidarta cessava de pensar em si e 107
na sua ferida, apossava-se dele a certeza da transformação que se passara com Vasudeva. Quanto mais se convencia dela, tanto mais entrava no seu cerne, mais claramente via que tudo era natural, que tudo estava na mais perfeita ordem, que Vasudeva fora assim havia muito, desde sempre e sempre, talvez. Só ele, não se dera conta desse fato. Até podia ser que quase não existisse mais diferença alguma entre ele e o companheiro! Tinha então a sensação de encarar o velho Vasudeva assim como o povo encara as divindades e que esse estado de coisas não duraria muito mais tempo. No seu espírito, começava a despedir-se de Vasudeva. Não obstante, continuava a falar.
Quai do Sidarta terminou, Vasudeva lhe lançou um desses seus olhares bondosos, já um tanto infirmes. Não disse nada.
Limitou-se a irradiar em direção a Sidarta carinho e serenidade, compreensão e sabedoria. Agarrando a mão do amigo, conduziu-o até à ribeira. Lá, sentou-se ao seu lado. Sorrindo, contemplou o rio:
— Ouviste como ele se riu — disse. — Mas não ouviste tudo. Prestemos atenção. Logo ouvirás muito mais.
E ambos escutavam o murmúrio das ondas. Suavemente ressoava o canto das inúmeras vozes do rio. Sidarta olhava as águas e na corrente surgiam imagens: aparecia-lhe o pai solitário, a lamentar a perda do filho; aparecia ele mesmo, igualmente solitário, ligado ao filho distante pelas amarras da saudade; aparecia-lhe o filho, também ele solitário, a percorrer avidamente a pista abrasada dos seus desejos juvenis. Cada qual tinha os olhos fixos na sua meta; cada qual andava fanàtica-mente atrás do seu desígnio; cada qual sofria. O rio cantava com voz pjangente. Cantava saudades.
Angustiado, dirigia-se à sua foz, e sua voz soava melancólica.
— Estás ouvindo? — perguntou o olhar mudo de Vasu deva. Sidarta fez que sim.
— Escuta mais! — soprou-lhe Vasudeva.
Sidarta esforçou-se por aguçar os ouvidos. A imagem do pai, a sua própria imagem e a do filho, todas elas se confundiam. Também surgiam e diluíam-se em seguida as visões de Kamala, de Govinda, e muitas outras.
Entremesc]avam-se, tornavam-se rio e como tal fluíam em direção à meta, ávida, ansiosa, tristemente. E a voz do rio ressoava, cheia de saudade, 108
cheia de doloroso pesar, cheia de insaciável desejo. O rio rumava em direção à sua foz. Sídarta percebia a pressa daquela corrente formada por ele mesmo, pelos seus, por todos os homens que já se lhe haviam deparado. Todas essas ondas e águas, carregadas de sofrimentos, precipitavam-se em busca de suas metas, que eram muitas, as cataratas, o lago, o estreito, o mar e, uma a uma, as metas eram alcançadas, mas a cada quai seguia outra; da água formava-se bruma, que subia ao céu,
transformava-se em chuva, a cair das alturas, virava fonte, virava regato, virava rio e novamente iniciava a sua jornada, novamente fluía rumo à meta. Mas a voz sôfrega acabava de mudar. Ainda ressoava, plangente, inquiridora, porém se mis-turava com outras vozes, alegres e aflitas, boas e más, risonhas e entristecidas, centenas de vozes, milhares de vezes.
Sidarta escutava. Naquele momento, era todo ouvidos, en-tregando-se por inteiro à própria atenção, receptáculo totalmente vazio, prestes a encher-se. Sentia que àquela hora atingiria a derradeira perfeição na arte de escutar.
Quantas vezes não ouvira todos aqueles rumores, a multiplicidade das vozes que vinham do rio, mas naquele dia lhe pareciam novas. Já não era.
capaz de identificá-las. Não conseguia distinguir as vozes jubilosas das choronas, as infantis das másculas. Todas elas for-mavam uma só, a lamentação da nostalgia, a risada do ceticismo, o grito da cólera e o estertor da agonia. Tudo era uma e a mesma coisa, tudo se entretecia, enredava-se, emaranhava-se mil vezes.
E todo aquele conjunto, a soma das vozes, a totalidade das metas, das ânsias, dos sofrimentos, das delícias, todo o Bem e todo o Mal, esse conjunto era o mundo.
Esse conjunto era o rio dos destinos, era a música da vida. Mas, quando ele escutava atentamente o que cantava o rio, com seu coro de mil vozes, quando se abstinha de destilar dele o sofrimento ou o riso, quando cessava de ligar a alma a determinada voz e de penetrar nela com o seu espírito, quando, pelo contrário, ouvia todas elas, a soma, a unidade, acontecia que a grandiosa cantiga dos milhares de vozes se resumia numa só palavra, que era Om, a perfeição.
— Estás ouvindo? — tornou a indagar o olhar de Vasudeva.
Luminosamente resplandecia o sorriso do balseiro, pairando por cima das inúmeras rugas do semblante idoso, assim como o Om pairava por cima de todas as vozes do rio. Luminosamente 109 resplandecia o seu sorriso, enquanto fitava o amigo e com igual clareza luzia no rosto de Sidarta o mesmo sorriso. Sua ferida desabrochava como uma flor. Sua mágoa fulgia. Seu eu incor-porara-se na unidade.
Foi nessa hora que Sidarta cessou de lutar contra o Destino. Cessou de sofrer. No seu rosto florescia aquela serenidade do saber, à qual já não se opunha nenhuma vontade, que conhece a perfeição, que está de acordo com o rio dos acontecimentos e o curso da vida; a serenidade que torna suas as penas e as ditas de todos, entregue à corrente, pertencente à unidade.
Quando Vasudeva se levantou do seu assento, na ribeira, quando mirou os olhos de Sidarta e nele descobriu a serenidade do saber, tocou suavemente no ombro do companheiro, daquela maneira discreta, delicada, que lhe era peculiar, e disse:
— Esperei, meu caro, que esta hora viesse um dia. Agora que ela veio, deixa que me vá. Durante algum tempo ansiei por ela. Por longos anos tenho sido Vasudeva, o balseiro. Agora basta. Adeus, cabana! Adeus, rio! Adeus, Sidarta.
Sidarta curvou-se profundamente diante do amigo que se despedia.
— Eu sabia disso — murmurou. — Tu te dirigirás à selva?
— Dirijo-me à selva. Busco a unidade — respondeu Vasu deva, radiante.
E radiante se foi. Sidarta acompanhou-o com o olhar, e nos seus olhos havia infinita alegria, infinita gravidade, enquanto observava o andar calmo, a cabeça aureolada, o vulto envolvido em luz.
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GOVINDA
cERTA feita, Govinda repousava em companhia de outros monges naquele parque que a cortesã Kamala dera de presente aos discípulos de Gotama. Foi lá que ouviu falar de um balseiro idoso, que morava junto ao rio, a uma jornada de distância e ao qual o povo considerava um sábio. Prosseguindo no seu caminho, Govinda escolheu a estrada que o conduzisse até à balsa. Estava curioso de conhecer esse velho. Pois, muito embora tivesse passado toda a sua vida em obediência aos regulamentos e os monges mais jovens lhe tributassem o respeito que mereciam a sua idade e a sua modéstia, jamais se tinham extinguido na sua alma a inquietação e o afã da pesquisa.
Chegado ao rio, pediu ao ancião que o levasse ao outro lado. Ao desembarcarem, disse-lhe:
— Sempre te mostras jnuito gentil para com os monges e os peregrinos. Já transportaste através do rio grande número dos nossos. Mas dize-me, ó balseiro, não serás também tu daqueles que procuram o caminho certo?
Respondeu Sidarta, com um sorriso a iluminar-lhe os olhos cansados:
111
— Mas como, ó venerável? Ainda andas em busca do ca minho? Ora, estás de idade provecta e usas os trajes dos dis cípulos de Gotama.
— É verdade que sou velho — admitiu Govinda. — Mas nunca cessei de pesquisar. Parece que será meu destino jamais abandonar a busca. Tenho a impressão de que também tu procuraste a senda. Não me queres revelar algo a esse respeito, meu prezado amigo?
Ao que replicou Sidarta:
— Que poderia eu dizer-te, ó reverendo? Só, talvez, que procuras demais, que de tanta busca não tens tempo para en-ccntrar coisa alguma.
— Por quê? — perguntou Govinda.
— Quando alguém procura muito — explicou Sidarta —
pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclu sivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacessível a tudo e a qualquer coisa porque sempre só pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente. Procurar significa: ter uma meta, Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma. Pode ser que tu, ó venerável, sejas realmente um buí.cador, já que, no afã de te aproximares da tua meta, não enxergas certas coisas que se encontram bem perto dos teus olhos.
— Ainda não te compreendo inteiramente — insistiu Go-vicda. — Que queres dizer com isso?
E Sidarta respondeu:
—• Em outra época, ó venerável, há muitos anos, já estívesíe aqui, à beira deste rio. Junto à riba, viste um homem que dormia. Sentaste-te a seu lado, a fim de velares pelo seu sono.
E todavia ó Govinda, não reconheces aquele homem.
Pasmo, como que enfeitiçado, o monge fitou o .rosto do balseiro.
— Serás mesmo Sidarta? — perguntou em voz balbuciante.
—• Também desta vez não te teria reconhecido. Saúdo-te de todo coração, ó Sidarta. Sinto-me realmente feliz por ver-te mais uma vez! Mudaste bastante, meu amigo., .
Pois então, ficaste balseiro?
Sidarta riu-se jovialmente.
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—. Sim, sou balseíro. Há pessoas, ó Govinda, que neces-sitam transfomar-se freqüentemente e usar fantasias de toda espécie. Sou uma dessas pessoas. Sé bem-vindo,, meu caro. Passa a noite na minha cabana!
Govinda pernoitou na casinha de Sidarta. Dormiu no leito outrora ocupado por Vasudeva. Dirigiu inúmeras perguntas ao amigo de infância. Sidarta teve de contar-lhe muita coisa da sua vida.
Quando, na manhã seguinte chegou a hora de continuar a romaria, Govinda disse, depois de alguma hesitação:
— Antes de eu prosseguir na minha jornada, permite-me mais uma pergunta, ó Sidarta: tens alguma doutrina?
Algum credo? Algum conhecimento que te oriente e te ajude a viver; praticando o Bem?
— Ora, meu caro amigo, — tornou Sidarta — tu sabes muito bem que já na minha mocidade, naqueles dias que
passa mos na floresta, em companhia dos ascetas, cheguei a desconfiar de doutrinas e ds professores, a tal ponto que lhes virei as costas.
E assim me conservei. Desde então, porém, tive numerosos mestres. Uma formosa cortesã serviu-me de instrutora durante longos anos. Um comerciante abastado ministrou-me ensina mentos. Alguns jogadores de dados deram-me aulas. Certa feita, um peregrino, discípulo do Buda, foi meu mestre, quando per maneceu sentado perto ds mim, enquanto eu dormia na selva, por ocasião de uma romaria. Também a ele devo certas noções e lhe fico grato por isso, muito grato. Mas a maior parte do que aprendi veio-me do rio e de meu predecessor, o balseiro Vasu deva. Foi um homem simples, esse Vasudeva. Nenhum filósofo.
Mas sabia o necessário, tão bem quanto Gotama.
Reputo-o, um ser perfeito, um santo.
— Parece-me — disse Govinda — que ainda gostas de uma pontada de ironia, amigo Sidarta. Acredito no que dizes. Sei que não seguiste nenhum mestre, Mas, supondo que não tenhas descoberto doutrina alguma pelo teu próprio esforço, não achastc pelo menos certas idéias e percepções que sejam tuas e te facili tem a existência? Se me comunicasses algo a respeito delas, ale-grarias o meu coração.
— Nada verdade me vieram algumas idéias — respondeu Sidarta — e de quando em quando tive percepções.
Ocorreu-me as vezes sentir, por uma hora e mesmo durante um dia inteiro, 113
a presença do saber DO meu íntimo, assim como sentimos o pulso da vida no nosso coração. Certamente
refleti sobre muita coisa, mas seria difícil para mim transmitir-te os meus pensamentos. Olha, meu querido Govinda, entre as idéias que se me descortinaram encontra-se esta: A sabedoria nSo pode ser comunicada.
A sabedoria que um sábío quiser transmitir sempre chei-rará a tolice,
— Estás bricando? — perguntou Govinda.
— Não brinco, não. Digo apenas o que percebi. Os conhe cimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Po demos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la. Esse fato, já o vislumbrei às vezes na minha juventude. Foi ele que me afastou dos meus mestres.
Uma percepção me veio, ó Govinda, que talvez se te afigure novamente como uma brincadeira ou uma bobagem.
Reza ela: "O oposto de cada verdade é igualmente verdade."
Isso significa: uma verdade só poderá ser comunicada e formu lada por meio de palavras, quando for unilateral.
Ora, unilateral é tudo quanto possamos apanhar pelo pensamento e exprimir pela palavra. Tudo aquilo é apenas um lado das coisas, não passa de parte, carece de totalidade, está incompleto, não tem unidade. Sempre que o augusto Gotaraa nas suas aulas nos falava do mundo, era preciso que o subdividisse em Sansara e Nirvana, em ilusão e verdade, em sofrimento e redenção.
Não se pode proceder de outra forma. Não há outro caminho para quem quiser ensinar. Mas o próprio mundo, o ser que nos rodeia e existe no nosso íntimo, não é nunca unilateral. Nenhuma criatura humana, nenhuma
ação é inteiramente Sansara nem inteiramente Nirvana.
Homem algum é totalmente santo ou totalmente pe cador. Uma vez que facilmente nos equivocamos, temos a im pressão de que o tempo seja algo real. Não, Govinda, o tempo não é real, como verifiquei em muitas ocasiões. E se o tempo não é real, não passa tampouco de ilusão aquele lapso que nos parece estender-se entre o mundo e a etenidade, entre o tormento e a bem-aven tu rança, entre o Bem e o Mal.
— Mas como? — perguntou Govinda, angustiado.
— Presta atenção, meu querido, muita atenção! O
pecador que eu sou, e que tu és, é pecador, mas um dia voltará a ser Brama. Em determinado momento alcançará o Nirvana e será 114
o Buda. Mas, olha bem: esse "um dia" é apenas um ilusão, um termo convencional. O pecador não se encontra a caminho do estado de Buda; não está em plena evolução, muito embora o nosso cérebro seja incapaz de imaginar as coisas de outro modo.
Pelo contrário, no pecador já se acha contido, hoje, agora mesmo, o futuro Buda. Todo o seu porvir já está presente. Tu deves respeitar na pessoa desse pecador, na tua própria pessoa, na de qualquer homem, o Buda em botão, o Buda possível, o Buda oculto, O mundo, amigo Govinda, não é imperfeito e não se encaminha lentamente rumo à perfeição. Não! A cada instante é perfeito. Todo e qualquer pecado já traz em si a graça.
Em todas as criancinhas já existe o ancião. Nos lactentes já se esconde a morte, como em todos os moribundos há vida eterna.
A homem algum é dado perceber até que ponto o seu próximo já avançou na senda que lhe coube. No salteador e no jogador, o Buda espera a sua hora, e no brâmane, o salteador. Na meditação profunda oferece-se-nos a possibilidade de aniquilarmos o tempo, de contemplarmos, simultaneamente, toda a vida passada, presente e futura. Então tudo fica bem; tudo, perfeito; tudo, Brama. Por isso, o que existe me parece bom. A morte, para mim, é igual à vida; o pecado, igual à santidade; a inteligência, igual à tolice. Tudo deve ser como é. Unicamente o meu con-senso, a minha vontade, a minha compreenção carinhosa são necessários para que todas as coisas sejam boas, a ponto de somente me trazerem vantagens, sem nunca me prejudicarem.
No meu corpo e na minha alma fiz a experiência de quanto carecia do pecado, da volúpia, da cobiça de bens materiais, da vaidade, de quanto precisava até do mais abjeto desespero, para que aprendesse a desistir da minha obstinação, a querer bem ao mundo, a cessar de compará-lo a qualquer outro mundo imaginário, que correspondesse aos meus desejos, a algum tipo de perfeição brotado do meu cérebro e para que, deixando-o tal como é, me limitasse a amá-lo e a gostar de fazer parte dele.. , Ora, Govinda, esse são alguns dos pensamentos que me vieram.
Baixando-se, Sidarta apanhou uma pedra. Enquanto a sopesava com a mão, disse displicentemente:
— Isto é uma pedra, mas daqui a algum tempo talvez seja terra, e da terra se transformará numa planta, ou num animal, ou ainda num homem. Em outra época, quem sabe, eu teria dito-: 115
"Essa pedra é apenas uma pedra. Não tem nenhum valor.
Pertence ao mundo da Mai&. Como, no entanto, pode acontecer que, no decorrer do siclo das metamorfoses, ela se converta num ser humano e adquira espírito, presto certa atenção a ela.' Eis o que, provavelmente, eu teria pensado naqueles tempos. Hoje, porém, raciocino assim: "Esta pedra é pedra, mas é também animal, é também Deus, é Buda." Não lhe tributo reverência ou amor, porque ela um dia talvez possa se tornar isso ou aquilo, senão porque é tudo isso, desde sempre e sempre. E precisamente por ser ela uma pedra, por apresentar-se-me como tal, hoje, neste momento, amo-a e percebo o valor, o significado, que existe em qualquer uma das suas veias e cavidades, nos amarelos e nos cinzas da sua coloração, na sua dureza, no som que lhe ex-traio ao bater nela, na aridez ou na umidade da sua superfície. Há pedras que, ao tato, dão-nos a impressão de tocarmos em sabão ou óleo. Outras são como folhas ou como areia. Cada qual é diferente t profere o Om à sua maneira peculiar. Todas elas são Brama, mas, simultânea e especialmente, são pedras, quer possam ser oleosas ou viscosas. Justamente isso me agrada.
Parece-me maravilhoso, realmente digno de veneração. .
. Não me obrigues, porém, a falar mais. As palavras deturpam sempre o sentido arcano. Todas as coisas alteram-se, logo que lhes pronunciamos o nome. Então se tornam levemente falsas e ridículas... Pois é.
Mas, olha, até isso acho bem feito. Aprovo inteiramente e com o maior prazer o fato de que aquilo que para uma pessoa é um tesouro e urna grande sabedoria represente para os demais homens, rematada tolice.
Govinda ouviu-o em silêncio.
Após uma pausa, perguntou timidamente:
— Por que me falaste da pedra?
— Foi sem intenção. Ou talvez quisesse dizer que amo de fato a pedra e o rio e todas essas coisas que contemplamos e das quais muito podemos aprender. Sei amar uma pedra, ó Govinda, e também uma árvore ou um pedacinho de sua casca.
São coisas, e coisas podem ser amadas, Mas não posso amar palavras. Por isso não me servem as doutrinas. Não têm nem dureza nem maciez, não têm cores nem arestas, nem cheiro nem sabor. Não têm nada a não ser palavras. Talvez seja esta a razão por que não encontres a paz: o excesso de palavras. Pois, Govinda, também a redenção e a virtude, o Sansara e o Nirvana são meras palavras. Não existe coisa alguma que seja Nirvana.
O que existe é apenas a palavras Nirvana.
Respondeu Govinda:
— Não, não meu amigo, Nirvana não é apenas uma pala vra. É uma idéia.
Mas Sidarta prosseguiu:
— Uma idéia. Pois não. Confesso-te, meu caro, que não faço muita distinção entre palavras e idéias. Para falar com toda a franqueza: não ligo grande importância às próprias idéias.
As coisas têm para mim muito maior significado. Nessa balsa aí, para dar-te um exemplo, houve um homem, meu predecessor e meu mestre, que durante logos anos, à sua maneira singela, cria no rio e em nada mais.
Percebera que a voz do rio se dirigia a ele. Dela aprendia.
Ela educava-o e instruía-o. O
rio parecia-Jhe um deus. Por muito tempo ignorava esse ho mem que qualquer aragem, qualquer nuvem, ou ave, ou besouro, são igualmente divinos e sabem tanto, podem ensinar-nos tanto quanto aquele adorado rio. Ora, quando esse santo se encaminhou à selva, sabia tudo, sabia mais do que tu e eu, sem professor, sem livros, unicamente por ter acreditado no rio.
Replicou Govinda:
— Mas, dize-me: aquilo que chamas de coisas 6 mesmo algo real, algo essencial? Não será apenas uma ilusão da Maici, simples miragem, pura aparência? Essa tua pedra, tua árvore, teu rio, são ou não são realidades?
— Esse problema — disse Sidarta — não me preocupa tampouco. Quanto a mim, as coisas podem ser mera aparência, uma vez que, neste caso, também eu sou aparência, e assim serão elas sempre meus iguais. Eis o que as torna para mim tão caras e venerandas: são como eu. Por isso posso amá-las.
E com isso te comunico uma doutrina que te fará rir, ó Go vinda: tenho para mim que o amor é o que há de mais importante no mundo. Analisar o mundo, explicá-lo, menosprezá-lo, talvez caiba aos grandes pensadores.
Mas a mim me interessa exclu sivamente que eu seja capaz de amar o mundo, de não sentir desprezo por ele, de não odiar nem a ele nem a mim mesmo, de contemplar a ele, a mim, a todas as criaturas com amor, admi ração e reverência.
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—• Compreendo — dísse Govinda, — E, no entanto, é precisamente isso o que o Augusto qualificava de ilusão.
Ele proclamou a benevolência, a tolerância, a compaixão,
o come-dimento, mas nunca o amor. Pelo contrário, proibiu-nos ligar-mos o nosso coração amorosamente às coisas terrenas,
— Sei disso — tornou Sidarta, cujo sorriso resplandecia como ouro, — Sei disso, ó Govinda. Imagina só: neste instanle já nos enredamos na confusão das opiniões.
Estamos em plena discussão a propósito de palavras.
Pois bem, não posso negar que as palavras que proferi a respeito do amor estão em desa-cordo com os ensinamentos de Gotama. Justamente por isso desconfio tanto de quaisquer palavras, porquanto sei que essa divergência é apenas Üusão. Tenho certeza de estar concorde com Gotama. Como seria possível que Ele desconhecesse o amor; Ele que reconhecia a efemeridade e a fraqueza de toda a natureza humana e todavia amava os homens a ponto de devotar a sua longa e laboriosa existência à única tarefa de ajudá-los e ensiná-los. Também com relação a ele, teu grande mestre, as coisas têm, a meu ver, mais valor do que as palavras.
O gesto da sua mão me importa mais do que as suas opiniões.
Não é nos seus discursos e nas suas idéias que se me depara a sua grandeza, senão unicamente nos seus atos e na sua vida.
Por muito tempo, os dois velhos permaneceram calados.
A seguir, Govinda inclinou-se para despedir-se.
—• Fico-te muito grato, ó Sidaría — disse — por teres-me revelado um pouco dos teus pensamentos. É bem verdade que alguns deles, são bastante estranhos. Não
consegui compreender todos eles de uma vez. Mas, seja como for, agradeço-te e desejo-te dias tranqüilos.
(Secretamente, porém, no fundo do seu coração, ponderava:
"Esse Sidarta é um homem esquisito. Prefere idéias curiosas.
Sua doutrina parece tola. Como são diferentes os ensinamentos do Sublime! Parecem mais claros, mais puros, mais acessíveis.
Neles, nada é excêntrico, disparatado, ridículo. E, no entanto, acho que há uma grande diferença entre as idéias de Sidarta, de um lado, e suas mãos, seus pés, seus olhos, sua testa, seu modo de respirar, de sorrir, de andar, de saudar-me do outro.
Nunca, desde o dia em que o nosso augusto Goíama entrou no Nirvana, nunca mais vi pessoa alguma em face da qual sentisse logo: esse aí é um santo! Isso somente me ocorreu agora, na 118
presença de Sidarta. Pode ser que a sua doutrina seja surpreendente, que suas palavras soem pasmosas. Mas seu olhar, sua mão, sua pele, seu cabelo — tudo isso irradia tamanha calma, doçura e santidade como jamais encontrei em nenhum outro homem, desde a última morte do nosso excelso Mestre,") Enquanto falava assim de si para si, com o coração agitado por sentimentos contraditórios, aproximou-se mais uma vez de Sidarta como que atraído pela afeição. Em seguida, curvou-se profundamente diante do amigo que se conservava sentado, imóvel.
— Sidarta — disse então —• ficamos velhos. É pouco provável que nos tornemos a ver sob esta forma da nossa existência. Vejo, meu querido, que encontraste a paz. Confesso que eu não consegui localizá-la. Dize-mc mais uma palavra, ó Venerando. Dá-me algo que eu possa levar comigo, alguma coisa que me seja possível entender e assimilar durante a minha jornada. Olha, Sidarta, esse meu caminho é às vezes bastante laborioso e sombrio.
Sidarta permaneceu calado. Limitou-se a fitar o outro com aquele seu sorriso plácido. Govinda cravou os olhos no rosto do amigo. No seu olhar, liam-se angústia, saudade, sofrimento, tanto como contínua busca, contínuo desencontro.
Sidarta percebeu-o e sorriu:
—• Acerca-te de mim! — soprou ao ouvido de Govinda.
— Inclina-te mais! Mais ainda. Chega-te para bem perto de mim! E agora me dá um beijo na testa, ó Govinda!
Govinda pasmou-se, mas, atraído por sua grande afeição e por algum pressentimento, obedeceu ao desejo de Sidarta.
Achegando-se a ele, imprimiu-lhe os lábios na fronte. E
nesse instante aconteceu-lhe qualquer coisa singular.
Enquanto os seus pensamentos ainda se detinham nas palavras estranhas, proferidas por Sidarta; enquanto seu espírito se esforçava, relutante e im-proficuamente, por eliminar o tempo e por representar-se a unidade de Nirvana e Sartsara; enquanto no seu íntimo certo desdém pelas opiniões do amigo se debatiam com irrestrita ternura e reverência, deu-se com ele o seguinte fenômeno: Govinda já não enxergava o semblante de
Sidarta, seu companheiro. Em vez dele via outros rostos, inúmeros, toda uma fila, uma torrente de rostos, centenas, milhares, que todos eles apareciam, sumiam e todavia davam a impressão de estar presen-119
tes simultaneamente, rostos esses que a cada instante se modifi-cavam e renovavam e, contudo, eram sempre Sidarta. Via a cabeça de um peixe, uma carpa, com a boca semi-aberta em infinita dor, peixe agonizante, de olhos vidrados. Via o rostinho de uma criança recém-nascida, vermelho, enrugado, a ponto de chorar, Vía a fisionomia de um assassino, no momento em que varava com a faca o corpo de sua vítima e, ao mesmo tempo, via esse criminoso a ajoelhar-se, algemado, para que o algoz o decapitasse com um só golpe de terçado. Via Os corpos des-nudos de homens e mulheres, entrelaçados em posições e embates de desvairado amor. Vía cadáveres prostrados, imóveis, gélidos, vazios. Via cabeças de animais, de javalis, crocodilos, elefantes, touros, aves. Via divindades, Crisna, Agni... Via todos esses vultos e rostos ligados entre si por milhares de relações, cada qual a acudir o outro, a amá-lo, a odiá-lo, a destruí-lo, a pari-lo de novo. Cada qual expressava o desejo de moarer, era apaixo-nada e dolorosa a profissão de efemeridade e, no entanto, não morria, apenas se modificava, renascia uma e outra vez, tomava aspectos sempre diversos, sem que o tempo se intercalasse entre uma e outra configuração. E todos esses rostos repousavam, flutuavam, geravam-se mutuamente, esvaíam-se e confundiam-se.
Mas por cima deles, sem exceção, estendia-se uma camada fininha, irreal e todavia existente, qual tênue chapa de vidro ou de gelo, camada transparente, casca, molde, máscara de água.
Pois, essa máscara morria, e essa máscara era o rosto risonho de Sidarta, que ele, Govinda, nesse momento, tocava com os lábios.
E Govinda percebeu que esse sorriso da máscara, o sorriso da unidade acima do fluxo das aparências, o sorriso da símulta-neidade muito além do sem-número de nascimentos e mortes, o sorriso de Sidarta, era idêntico àquele sorriso calmo, delicado, indevassável, talvez bondoso talvez irônico, de Gotama, o Buda, tal como ele próprio o observara centenas de vezes com profundo respeito. Era assim — Govinda o sabia — que sorriam os seres perfeitos,
Tendo perdido a noção do tempo, já não sabendo se aquela visão durava um segundo ou um século, ignorando se já existiam Sidarta, Gotama, o eu e o tu, com as entranhas como que atra-vessadas por uma seta divina, cuja ferida tivesse doce sabor, com a alma enfeitiçada e confusa, detinha-se Govinda por mais alguns instantes. Inclinava-se por sobre o rosto plácido de 120
Sidarta, no qual vinha de depositar um beijo, e que acabava de ser o cenário de todas aquelas formas, evoluções e existências.
O semblante não se modificara, depois que, sob a sua superfície, tomara a fechar-se o abismo da infinita multiplicidade. Sorria silenciosamente, suavemente, ternamente, talvez com bondade, talvez com ironia, assim como outrora sorrira o Sublime.
Govinda curvou-se em genuína reverência. Lágrimas de que não se dava conta corriam-lhe pelas faces idosas. No seu coração ardia, qual fogo, o sentimento de caloroso
amor e de submissa veneração. Profundamente, até ao chão, inclinou-se Govinda diante de Sidarta, que se conservava sentado, imóvel, e cujo sorriso chamava à memória do amigo tudo quanto ele amara no curso da sua vida, tudo quanto já se lhe afigurara precioso e sagrado.
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seminário, não agüentando a rígida disciplina. No ginásio revoltou-se contra o ensino nacionalista. Fugiu para a Suíça, onde se empregou numa livraria e pu-blicou os primeiros livros. Depois do sucesso de Peter Camenzind, casou com a filha de ricos burgueses suíços: parecia a vitória na vida. Mas fugiu do conforto, nessa jaula dourada, para uma existência solitária na Natureza, da qual só o expulsou o começo da Primeira Guerra Mundial.
E logo mais uma fuga: Hesse desistiu da cidadania alemã, vivendo na Suíça perseguido pela contra-espionagem alemã. Tinha-se declarado contra o nacionalismo bélico do Kaiser e dos alemães.
Toda a vida de Hesse, até o último dia, foi uma série de fugas. E cada uma dessas fugas foi uma revolta: contra a casa paterna; contra o cristianismo; contra a escola; contra a vida burguesa; contra a guerra e contra o nacionalismo. Hesse sempre foi e sempre ficou um
rebelde contra os poderes deste mundo, temporais e espirituais. Sua vida confirma-lhe a vocação de grande poeta, de altiva independência.
As estações nesse caminho são as grandes obras de Hesse. Marcam as soluções em que o rebelde encontrou, por momentos, a paz, acreditando viver em harmonia consigo mesmo. Para tanto, o poeta percor-reu espiritualmente o mundo, em busca de credos mais autênticos que os abusados do Ocidente, e uma dessas peregrinações o levou, também, fisicamente, para a índia.
O budismo de Hesse não é quietista nem evasio-nista; seu livro Viagem ao Oriente (Die Morgenland-fahrt) é mesmo um dos mais rebeldes que escreveu.
Tampouco tem pontos de contato com o budismo ginástico que foi descoberto petos beatniks americanos,
"rebeldes sem causa". A rebelião de Hesse tem causa: é a paz do mundo, a externa e a interior. Seu budismo não c o Zen japonês, mas o indiano, o autêntico. A vida de Sidarta parece-se com a do próprio Buda. Mas também se parece com a do próprio Hesse, que experi-mentou todas as possibilidades da existência humana até reconhecer a profunda doutrina da identidade de tudo que é vivo: idênticos são o pecado e a santidade, a sabedoria e a loucura e, enfim, a vida e a morte.
Hermann Hesse foi um grande poeta. Também foi um grande sábio.
OTTO MARIA CARPEAUX
A busca da Paz
e da Serenidade
num romance
de
HERMANN HESSE
Obra famosa de autor consagrado pelo Prêmio Nobel, SIDARTA é um extraordinário livro que aborda, no plano da ficção, os grandes e eternos temas do homem e no qual o autor reconhece a profunda identidade de tudo o que é vivo: idênticos são o pecado e a santidade, a sabedoria e a loucura, a vida e a morte.
Narrativa fascinante, de rara beleza poética, SIDARTA conta a maravilhosa história de um espírito rebelde que busca a paz do mundo.
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