Sombras da Noite
Último Turno
James Robert Boone
2 de outubro de 1971.
1- Uma possível tradução para Jerusalem’s Lot seria “o destino de Jerusalém”. (N. da T.)
2- Pastor puritano envolvido no julgamento das bruxas de Salém em 1962. (N. da E.)
Último Turno1
Duas da manhã, sexta-feira.
Hall estava sentado no banco junto ao elevador, o único lugar no terceiro andar onde um peão podia fumar um pouquinho durante o expediente, quando Warwick apareceu. Ele não ficou feliz de ver o Warwick. Não era para o supervisor aparecer no terceiro andar durante o último turno; ele deveria ficar em seu escritório no subsolo tomando café da cafeteira que ficava no canto de sua mesa.
Além disso, fazia calor.
Era o mês de junho mais quente registrado em Gates Falls, e o termômetro de propaganda do Crush, que também ficava ao lado do elevador, tinha chegado aos 34
graus às três da manhã. Só Deus sabia que inferno era a fábrica durante o turno que ia das três às onze.
Hall operava a máquina desbastadora de fibras, uma engenhoca teimosa produzida em 1934 por uma firma falida de Cleveland. Ele só estava trabalhando na fábrica desde abril, o que significava que ainda ganhava o mínimo de $1.78 por hora, mas tudo bem. Não tinha mulher, namorada fixa, não pagava pensão alimentícia. Ele era um nômade, e
durante os últimos três anos tinha se mudado, pedindo carona, de Berkeley (estudante universitário) para Lake Tahoe (ajudante de garçom), Galveston (estivador), Miami (cozinheiro de lanchonetes), Wheeling (motorista de táxi e lavador de pratos) e Gates Falls, Maine (operador de calandra). Não pensava em se mudar outra vez antes de a neve cair. Era uma pessoa solitária e gostava das horas entre onze e sete, quando o fluxo sangüíneo da grande fábrica estava no momento mais fresco, para não falar da temperatura.
A única coisa de que ele não gostava eram os ratos.
O terceiro andar era comprido e abandonado, iluminado apenas pelo brilho intermitente das lâmpadas fluorescentes.
Ao contrário dos outros andares da fábrica, este era relativamente silencioso e desocupado — pelo menos por seres humanos. Os ratos eram outra história. A única máquina ali era a calandra; o resto do andar era um depósito para as sacas de 40 quilos de fibras que ainda tinham de ser separadas pela máquina e seus longos dentes. Estavam empilhados como lingüiças em longas fileiras, alguns deles (sobretudo as peças de lã fora de linha irregulares para os quais não havia pedidos) com vários anos de idade e a sujeira cinzenta do resíduo industrial.
Eram ótimos lugares para os ratos construírem seus ninhos, criaturas imensas, barrigudas, com olhos raivosos e corpos em que pululavam piolhos e vermes.
Hall desenvolvera o hábito de recolher um pequeno arsenal de latas de refrigerante nas latas de lixo durante o intervalo de descanso. Atirava-as nos ratos nos momentos em que o trabalho andava mais devagar, catando as latas mais tarde nas suas horas vagas. Só que dessa vez o Sr. Capataz o apanhara, subindo pelas escadas em vez de
usar o elevador como o f.d.p. furtivo que todo mundo dizia que ele era.
— O que você está fazendo, Hall?
— Os ratos — Hall disse, percebendo que devia soar como desculpa esfarrapada que os ratos tinham se esgueirado de volta para a segurança de suas tocas. — Jogo latas neles quando aparecem.
Warwick fez que sim uma vez, sucintamente. Era um homenzarrão robusto, com corte de cabelo militar. As mangas de sua camisa estavam enroladas e sua gravata, afrouxada. Olhou atentamente para Hall.
— Nós não te pagamos para jogar latas em ratos, rapaz.
Nem mesmo se você as pega depois.
— Faz vinte minutos que Harry não manda um pedido —
Hall respondeu, pensando: Diabos, você não podia ficar quieto no seu canto tomando o seu café? — Não posso usar a máquina sem receber pedidos.
Warwick fez que sim como se o assunto não o interessasse mais.
— Talvez eu deva dar uma volta para ir ver Wisconsky lá em cima — ele disse.
— Aposto cinco contra um que ele está lendo uma revista, enquanto a merda se acumula na caixa de pedidos.
Hall não disse nada.
Warwick de repente apontou.
— Ali está um! Acerte o desgraçado!
Hall disparou a lata de Nehi que estava segurando com um movimento rápido. O
rato, que os observava do alto de um dos sacos de tecido com seus brilhantes olhos como balas de chumbinho, fugiu com um guincho débil. Warwick atirou a cabeça para trás e soltou uma risada, enquanto Hall ia buscar a lata.
— Vim falar sobre outra coisa com você — disse Warwick.
— Ah, é?
— Semana que vem é a semana do Quatro de Julho — Hall fez que sim. A fábrica ficaria fechada de segunda a sábado: semana de folga para homens com pelo menos um ano de trabalho. Semana de demissão para homens com menos de um ano.
— Você quer trabalhar?
Hall deu de ombros.
— Fazendo o quê?
— Vamos limpar todo o porão. Ninguém mexe ali há 12
anos. Uma zona.
Vamos usar mangueiras.
— O comitê de zoneamento da cidade dando uma prensa na diretoria?
Warwick olhou firmemente para Hall.
— Você quer ou não? Dois dólares por hora, o dobro no dia 4. Vamos trabalhar no turno da madrugada, porque é mais fresco.
Hall fez os cálculos. Poderia tirar 75 paus, descontadas as taxas. Melhor que a joça alguma que ia ganhar ficando em casa.
— Tudo bem.
— Apresente-se à tinturaria na próxima segunda.
Hall ficou olhando enquanto ele retornava à escada.
Warwick parou no meio do caminho e se voltou de novo para ele.
— Você era estudante universitário, não era?
Hall fez que sim.
— Certo, universitário, vou me lembrar disso.
Foi embora. Hall se sentou e acendeu um outro cigarro, segurando uma lata de refrigerante numa das mãos e esperando pelos ratos. Podia imaginar exatamente como seria lá no subsolo — o sub-porão, na verdade, um andar abaixo da tinturaria. Úmido, escuro, cheio de aranhas e panos podres e limo do rio — e ratos. Talvez até morcegos, os aviadores da família dos roedores. Irgh.
Hall jogou a lata com força, depois sorriu de leve consigo mesmo ao ouvir o som distante da voz de Warwick, trazida pelos dutos no alto, dando uma dura em Harry Wisconsky.
Certo, universitário, vou me lembrar disso.
Parou abruptamente de sorrir e apagou o cigarro. Alguns instantes mais tarde, Wisconsky começou a enviar náilon bruto pelos dutos, e Hall se pôs a trabalhar. E após alguns instantes, os ratos saíram e se sentaram em cima dos sacos
da sala comprida, observando-o com seus olhos pretos, sem pestanejar. Eles pareciam um júri.
Onze da noite, segunda-feira.
Havia cerca de 36 homens sentados quando Warwick chegou, usando um jeans velho enfiado dentro de botas de borracha de cano alto. Hall escutara Harry Wisconsky, que era imensamente gordo, imensamente preguiçoso e imensamente melancólico.
— Vai ser uma zona — dizia Wisconsky quando o Sr.
Supervisor entrou. —
Espere para ver, vamos todos voltar para casa mais pretos do que breu.
— Muito bem! — disse Warwick. — Penduramos sessenta lâmpadas lá embaixo, de modo que deve estar claro o bastante para vocês verem o que estão fazendo.
Vocês aí — ele apontou para um grupo de homens encostados nas bobinas de secagem
—, quero que prendam as mangueiras ali, no encanamento principal de água junto da escada. Temos cerca de 70
metros para cada homem, o que deve ser suficiente. Não banquem os brincalhões mirando num dos colegas, ou vão mandá-lo para o hospital. A pressão tem um baita coice.
— Alguém vai se machucar — Wisconsky profetizou, mal-humorado. —
Espere para ver.
— Vocês outros aí — Warwick disse, apontando para o grupo de que Hall e Wisconsky faziam parte. — Vocês são a turma
do lixo esta noite. Vão aos pares com um carrinho elétrico para cada dupla. Lá tem mobília velha de escritório, sacos de tecido, pedaços de maquinaria quebrada, é só escolher.
Vamos empilhar tudo junto do duto de ventilação, na extremidade oeste. Alguém que não saiba como conduzir o carrinho?
Ninguém levantou a mão. Os carrinhos elétricos eram engenhocas movidas a bateria, feito caminhões basculantes em miniatura. Depois do uso contínuo, começavam a soltar um fedor nauseante que lembrava a Hall fios em curto-circuito.
— Muito bem — disse Warwick. — Dividimos o subsolo em duas seções, e lá pela quinta-feira já estará tudo terminado.
Na sexta, içamos o lixo para fora usando correntes.
Perguntas?
Não havia nenhuma. Hall estudou atentamente o rosto do capataz, e teve a súbita premonição de que alguma coisa estranha estava para acontecer. A idéia lhe agradou. Ele não gostava muito do Warwick.
— Ótimo — disse Warwick. — Vamos começar.
Duas da manhã, terça-feira.
Hall estava esgotado e muito cansado de ouvir a ladainha de reclamações e palavrões de Wisconsky. Imaginava se adiantaria dar um murro nele. Duvidava. Isso só lhe daria mais um motivo para ficar se queixando.
Hall sabia que seria difícil, mas aquilo era de matar. Em primeiro lugar, ele não previra o cheiro. O fedor poluído do rio, misturado ao odor de tecido em decomposição, alvenaria apodrecendo, matéria vegetal. No canto mais distante, onde haviam começado, Hall descobriu uma
colônia de imensos cogumelos brancos brotando por entre o cimento quebrado. Suas mãos tinham tocado neles quando puxava uma roda dentada enferrujada, e eram curiosamente mornos e fofos ao tato, como a pele de um homem afligido por um edema.
As lâmpadas não conseguiam banir a escuridão de 12 anos; só a faziam recuar um pouco e lançavam um pálido brilho amarelo sobre toda aquela bagunça. O lugar parecia a nave despedaçada de uma igreja profana, com seu teto alto e sua imensa maquinaria descartada que eles jamais conseguiriam tirar dali, suas paredes úmidas com manchas de limo amarelado, e o coro atonal formado pela água das mangueiras, correndo pela rede de canos de esgoto parcialmente entupidos que ao fim iam se esvaziar no rio, abaixo da cachoeira.
E os ratos — ratos imensos que faziam com que os do terceiro andar parecessem anões. Deus sabia o que eles andavam comendo lá embaixo. Derrubavam continuamente tábuas e sacos, revelando enormes ninhos de jornal rasgado, e observavam com nojo atávico, enquanto os filhotes fugiam para dentro das rachaduras e frestas, os olhos imensos e cegos devido à escuridão contínua.
— Vamos parar para um cigarrinho — Wisconsky disse. Ele parecia sem fôlego, mas Hall não tinha idéia do motivo; tinha feito corpo mole a noite inteira. Ainda assim, estava mesmo na hora, e no momento estavam fora da vista de qualquer outra pessoa.
— Tudo bem — ele se apoiou na beirada do carrinho e acendeu o cigarro.
— Eu nunca devia ter deixado O Warwick me convencer a fazer isso —
Wisconsky disse, melancolicamente. — Não é trabalho para um homem. Mas ele ficou uma fera na outra noite, quando me pegou sentado na privada, no quarto andar, só que de calças. Deus do céu, ele ficou uma fera.
Hall não disse nada. Estava pensando em Warwick e nos ratos. Era estranho como as duas coisas pareciam ter a ver.
Os ratos aparentemente tinham esquecido tudo a respeito dos homens em sua longa estada debaixo da fábrica; eram atrevidos e praticamente não tinham medo. Um deles sentara-se nas pernas traseiras como um esquilo até que Hall chegasse a ponto de chutar, então se lançara sobre sua bota, mordendo o couro. Centenas, talvez milhares. Ele se perguntava quantas variedades de doenças carregavam consigo naquele buraco escuro. E Warwick. Alguma coisa nele...
— Preciso do dinheiro — Wisconsky disse. — Mas Jesus Cristo, cara, isto aqui não é trabalho para um homem. Esses ratos — ele olhou ao redor apreensivo. — É
quase como se pudessem pensar. Já imaginou como seria se a gente fosse pequeno e eles fossem grandes...
— Ah, cala a boca — Hall disse.
Wisconsky olhou para ele, magoado.
— Olha, me desculpa, cara, é só que... — e deixou a frase morrer. — Jesus,
como este lugar fede! — exclamou. — Isto aqui não é trabalho para um homem! —
Uma aranha subiu pela lateral do carrinho e escalou seu braço. Ele espantou-a com um barulho engasgado de nojo.
— Vamos lá — Hall disse, tragando seu cigarro. — Quanto mais rápido, mais cedo a gente acaba.
— Acho que sim — Wisconsky disse, num tom miserável. —
Acho que sim.
Quatro da manhã, terça-feira.
Hora do lanche.
Hall e Wisconsky estavam sentados com três ou quatro outros homens, comendo seus sanduíches com mãos pretas que nem mesmo o detergente industrial conseguira limpar.
Hall comia olhando para o pequeno escritório envidraçado do capataz. Warwick estava tomando café e comendo hambúrgueres frios com grande satisfação.
— Ray Upson teve que ir embora — Charlie Brochu disse.
— Ele vomitou? — alguém perguntou. — Eu quase.
— Não. O Ray teria que comer merda de vaca para vomitar.
Um rato o mordeu.
Hall desviou pensativamente o olhar que antes examinava Warwick.
— É mesmo? — perguntou.
— É — Brochu balançou a cabeça. — Eu estava fazendo dupla com ele. A coisa mais medonha que eu já vi. Saltou de um buraco numa daquelas sacas velhas de tecido.
Devia ser do tamanho de um gato. Agarrou a mão dele e começou a roer.
— Je-sus — um dos homens disse, ficando verde de nojo.
— É — Brochu disse. — O Ray gritou como uma mulher, e eu não o culpo.
Sangrava como um porco. E você acha que a coisa largava?
Não, senhor. Tive que bater nela três ou quatro vezes com uma tábua para que largasse. O Ray quase endoidou.
Pisou no rato até que ele não passasse de uma massa de pêlo. A coisa mais medonha que já vi. O Warwick pôs um curativo nele e o mandou para casa. Disse para ir ao médico amanhã.
— Grande coisa, vindo daquele safado — alguém disse.
Como se tivesse ouvido, Warwick ficou de pé no escritório, se esticou e foi até a porta.
— Hora de voltar ao trabalho.
Os homens ficaram de pé devagar, gastando o maior tempo possível para guardar as marmitas, pegar bebidas geladas, comprar doces. Então começaram a descer, as solas dos sapatos ressoando desanimadamente na malha de aço dos degraus da escada.
Warwick passou por Hall, dando-lhe um tapinha no ombro.
— Como está indo, universitário?
Não esperou pela resposta.
— Vamos lá — Hall disse pacientemente a Wisconsky, que estava amarrando o sapato. Desceram.
Sete da manhã, terça-feira.
Hall e Wisconsky saíram juntos; Hall tinha a impressão de ter de algum modo herdado o gordo polaco. Wisconsky
estava sujo de um jeito quase cômico, seu rosto redondo abatido como o de um garotinho que acabasse de ter levado uma surra do
valentão da cidade.
Não houve nenhuma das brincadeiras rudes usuais por parte dos outros homens, as puxadas de camisa, as piadinhas sobre quem estava aquecendo a mulher do Tony entre uma e quatro da manhã. Nada além de silêncio e um ocasional som de pigarrear, quando alguém cuspia no chão sujo.
— Quer uma carona? — Wisconsky perguntou, hesitante.
— Obrigado.
Eles não conversaram enquanto seguiam por Mill Street e atravessavam a ponte.
Só trocaram palavras rápidas quando Wisconsky deixou-o em frente ao seu apartamento.
Hall foi direto para o chuveiro, ainda pensando no Warwick, tentando descobrir o que havia com o Sr. Supervisor capaz de atraí-lo, capaz de deixá-lo com aquela impressão de que de algum modo estavam agora unidos.
Dormiu assim que a cabeça encostou no travesseiro, mas seu sono foi entrecortado e inquieto: sonhou com ratos.
Uma da manhã, quarta-feira.
Usar as mangueiras era melhor.
Não podiam entrar até que o pessoal do lixo tivesse terminado uma seção, e com bastante freqüência
terminavam de usar as mangueiras antes que a próxima seção estivesse pronta — o que significava tempo para um cigarro. Hall manejava o esguicho de uma das longas mangueiras e Wisconsky andava para cima e para baixo, desenrolando pedaços da mangueira, ligando e desligando a água, removendo obstruções.
Warwick estava com o pavio curto, porque o trabalho caminhava devagar. Jamais terminariam na quinta-feira, pelo andar da carruagem.
Agora trabalhavam no meio de uma bagunça dos diabos, formada por equipamento de escritório do século XIX que tinha sido empilhado num canto —
escrivaninhas de tampo corrediço despedaçadas, livros-razões embolorados, resmas de faturas, cadeiras com assentos quebrados — e era o paraíso dos ratos. Dezenas deles guinchavam e corriam pelas escuras e desordenadas passagens que cortavam a pilha, e depois que dois homens foram mordidos, os outros se recusaram a trabalhar até que Warwick mandasse alguém lá para cima a fim de pegar grossas luvas de borracha, do tipo normalmente reservado para o pessoal da tinturaria, que tinha de trabalhar com ácidos.
Hall e Wisconsky estavam esperando para entrar com suas mangueiras quando um sujeito ruivo quase sem pescoço chamado Carmichael começou a xingar aos berros e recuar, batendo no peito com as mãos enluvadas.
Um rato imenso, com pêlo raiado de cinza e olhos feios e brilhantes, tinha mordido sua camisa e estava pendurado lá, guinchando e chutando a barriga do Carmichael com suas patas traseiras. Carmichael finalmente conseguiu socar o bicho para longe, mas sua camisa ficou com um buraco
imenso, e um fiapo de sangue escorria de uma ferida acima do mamilo. A raiva desapareceu de seu rosto. Ele se virou, com ânsias de vômito.
Hall ligou a mangueira na direção do rato, que era velho e se mexia devagar, um pedaço da camisa de Carmichael ainda preso entre os dentes. A pressão extraordinária atirou-o para trás, de encontro à parede, contra a qual ele se chocou, inerte.
Warwick apareceu, um sorriso estranho e forçado no rosto.
Bateu no ombro do
Hall.
— Bem melhor do que jogar latas nos danadinhos, não é, universitário?
— E que danadinho — disse Wisconsky. — Esse tem uns 30
centímetros.
— Virem essa mangueira para lá. — Warwick apontou para o monte de mobília.
— Vocês aí, saiam da frente!
— Com prazer — alguém murmurou.
Carmichael avançou na direção de Warwick, o rosto retorcido de raiva.
— Vou receber alguma compensação por isso! Vou...
— Claro — Warwick disse, sorrindo. — Você foi mordido no peitinho. Saia da frente antes que a água te derrube.
Hall apontou o bocal e liberou o fluxo, que atingiu o alvo com uma explosão branca de água, derrubando uma
escrivaninha e reduzindo duas cadeiras a lascas de madeira. Ratos correram para todo lado, maiores do que qualquer um que Hall jamais tivesse visto. Podia ouvir os homens gritando de asco e de horror enquanto eles fugiam, coisas com olhos imensos e corpos lustrosos e carnudos. Viu de relance um que parecia tão grande quanto um cachorrinho saudável de seis semanas. Continuou até que não conseguisse ver mais nada, então desligou a água.
— Muito bem! — gritou Warwick. — Vamos em frente!
— Não fui contratado como exterminador! — Cy Ippeston gritou, em tom de revolta. Hall bebera algumas com ele na semana anterior. Era um sujeito jovem e usava um boné de beisebol sujo de fuligem e uma camiseta de malha.
— Foi você, Ippeston? — Warwick perguntou, afavelmente.
Ippeston pareceu um pouco inseguro, mas deu um passo à frente.
— Fui eu. Não quero mais saber desses ratos. Fui contratado para fazer limpeza, não para correr o risco de pegar raiva ou febre tifóide ou algo desse tipo. Talvez seja melhor você não contar mais comigo.
Ouviu-se um murmúrio de concordância por parte dos outros. Wisconsky deu uma olhada rápida para o Hall, que estava, porém, examinando o bocal da mangueira em suas mãos. O buraco era como o de uma .45, e provavelmente poderia arremessar um homem a uns 6 metros de distância.
— Você tá dizendo que quer bater o ponto, Cy?
— Tô pensando nisso — Ippestone disse.
Warwick fez que sim.
— Tudo bem. Você e quem mais quiser. Mas esse lance aqui não é sindicalizado, nem nunca foi. Se você bater o ponto, não volta nunca mais. Eu mesmo vou garantir que não.
— Como você é um sujeito bacana. — murmurou Hall.
Warwick virou-se.
— Disse alguma coisa, universitário?
Hall encarou-o com calma.
— Só estou limpando a garganta, Sr. Supervisor.
Warwick sorriu.
— Alguma coisa está te desagradando?
Hall não disse nada.
— Muito bem, vamos em frente! — gritou Warwick.
Voltaram ao trabalho.
Duas das manhã, quinta-feira.
Hall e Wisconsky estavam trabalhando com os carrinhos elétricos outra vez, recolhendo o lixo. A pilha junto ao conduto de ar a oeste ganhara proporções assustadoras, mas eles ainda não tinham dado conta nem da metade.
— Feliz 4 de julho — Wisconsky disse, quando pararam para um cigarro.
Estavam trabalhando perto da parede ao norte, longe da escada. A luz era extremamente fraca, e a acústica fazia com que os outros homens parecessem estar a quilômetros de distância.
— Obrigado — Hall tragou o cigarro. — Não vi muitos ratos esta noite.
— Ninguém viu — Wisconsky disse. — Talvez eles agora estejam mais espertos.
Estavam de pé no final de um beco maluco, em ziguezague, formado por pilhas de antigos livros-razões e faturas, sacos de tecido mofados e dois vultos gigantescos e chatos de antigos teares.
— Bah — Wisconsky disse, cuspindo. — Esse Warwick...
— Para onde você acha que todos os ratos foram? —
perguntou Hall, quase para si mesmo. — Não entraram nas paredes... — ele olhou para o reboco úmido, que se desfazia, em torno das imensas pedras dos alicerces. — Iam se afogar. O rio saturou tudo.
Alguma coisa preta, batendo as asas, subitamente mergulhou na direção deles.
Wisconsky deu um grito e colocou as mãos acima da cabeça.
— Um morcego — Hall disse, observando o bicho, enquanto Wisconsky se endireitava.
— Um morcego! Um morcego! — berrou Wisconsky. — O que um morcego está fazendo no porão? Teoricamente, eles deveriam ficar nas árvores, e debaixo das calhas e...
— Era um dos grandes — Hall disse, em voz baixa. — E o que é um morcego senão um rato com asas?
— Jesus — gemeu Wisconsky. — Como é que ele...
— Entrou? Talvez da mesma forma como os ratos saíram.
— O que está acontecendo aí? — Warwick gritou de algum lugar atrás deles. —
Onde vocês estão?
— Não esquenta — Hall disse, a voz baixa. Seus olhos brilhavam no escuro.
— Foi você, universitário? — perguntou Warwick. Pelo som, parecia estar mais perto.
— Está tudo bem! — Hall gritou. — Só dei uma canelada!
A risada curta de Warwick, como um latido.
— Quer uma medalha por isso?
Wisconsky olhou para Hall.
— Por que você disse isso?
— Olhe. — Hall se ajoelhou e acendeu um fósforo. Havia um quadrado no meio do cimento úmido, que se desfazia. —
Bata aqui.
Wisconsky obedeceu.
— É madeira.
Hall fez que sim.
— É a parte de cima de um suporte. Já vi outras por aqui. Há um outro nível debaixo desta parte do subsolo.
— Meu Deus — Wisconsky disse, totalmente enojado.
Três e meia da manhã, quinta-feira.
Estavam na extremidade que ficava a nordeste, Ippeston e Brochu atrás deles com uma das mangueiras de alta pressão, quando Hall parou e apontou para o chão.
— Achei que a gente fosse encontrar isto aqui.
Havia um alçapão de madeira com uma cavilha antiga de ferro presa perto do centro.
Ele voltou para junto do Ippeston e disse:
— Desligue isso um minuto — quando o fluxo de água da mangueira foi reduzido a um gotejar, sua voz transformou-se num grito. — Ei! Ei, Warwick! Melhor vir aqui um instante!
Warwick apareceu, chapinhando na água, olhando para Hall com o mesmo sorriso duro nos olhos.
— Seu sapato desamarrou, universitário?
— Olhe — Hall disse. Bateu no alçapão com o pé. —
Subporão.
— E daí? — Warwick perguntou. — Ainda não está na hora do descanso, univer...
— É lá que estão os seus ratos — Hall disse. — Estão se multiplicando lá embaixo. Wisconsky e eu chegamos a ver um morcego, mais cedo.
Alguns dos outros homens tinham se reunido ao redor deles e estavam olhando para o alçapão.
— Não importa — Warwick disse. — O trabalho era no porão, e não...
— Você vai precisar mais ou menos de vinte exterminadores, e dos treinados —
continuou Hall. — Vai custar uma bela grana à direção. Que pena.
Alguém riu.
— É ruim, hein...
Warwick olhou para Hall como se ele fosse um inseto debaixo de uma lupa.
— Você é mesmo um caso sério, sabia? — ele disse, parecendo fascinado. —
Acha mesmo que eu dou a mínima para quantos ratos há lá embaixo?
— Estive na biblioteca hoje à tarde e ontem — Hall disse. —
Foi ótimo você ficar a toda hora me lembrando que eu era um universitário. Li as normas do zoneamento da cidade, Warwick, foram estabelecidas em 1911, antes que esta fábrica ficasse grande o suficiente para subornar a junta de zoneamento. Sabe o que eu descobri?
Os olhos do Warwick estavam frios.
— Cai fora, universitário. Está despedido.
— Descobri — Hall continuou, como se não tivesse ouvido —, descobri que há uma lei de zoneamento em Gates Falls sobre animais nocivos. Isso se escreve n-o-c-i-v-o-s, caso não saiba. Significa animais portadores de doenças, como morcegos, gambás, cachorros sem licença... e ratos.
Sobretudo ratos. Os ratos são mencionados 14 vezes em dois parágrafos, Sr. Supervisor. Então é bom colocar na sua
cabeça que no minuto em que eu bater meu ponto vou diretamente ao comissário municipal dizer qual é a situação por aqui.
Ele fez uma pausa, saboreando a expressão cheia de raiva do rosto de Warwick.
— Acho que eu, ele e o comitê da cidade juntos podemos fazer com que uma injunção seja aplicada por aqui. Vocês vão ficar fechados durante um tempo bem maior do que apenas o sábado, Sr. Supervisor. E eu tenho uma boa idéia do que o seu chefe vai dizer quando aparecer. Espero que seu seguro desemprego esteja em dia, Warwick.
As mãos de Warwick se fecharam como se fossem garras.
— Seu moleque de uma figa, eu devia... — ele olhou para baixo na direção do alçapão, e subitamente seu sorriso reapareceu. — Considere-se contratado outra vez, universitário.
— Achei que você acabaria vendo a luz.
Warwick fez que sim, o mesmo riso estranho no rosto.
— Você é tão esperto. Acho que talvez devesse ir lá embaixo, Hall, assim a gente teria alguém com educação superior para nos dar uma opinião instruída. Você e Wisconsky.
— Eu não! — Wisconsky exclamou. — Eu não, eu...
Warwick olhou para ele.
— Você o quê?
Wisconsky calou a boca.
— Ótimo — disse Hall, alegremente. — Vamos precisar de três lanternas. Acho que vi uma prateleira cheia daquelas que usam seis pilhas, no escritório principal, não vi?
— Quer levar mais alguém com você? — Warwick perguntou, apontando para os demais. — Claro, escolha o seu homem.
— Você — Hall disse, gentilmente. A estranha expressão voltara ao seu rosto. —
Afinal, devemos ter um representante da direção, não acha?
Para o caso do Wisconsky e eu não vermos tantos ratos assim lá embaixo?
Alguém (parecia ser Ippeston) riu alto.
Warwick olhou para os homens atentamente. Eles baixaram os olhos para a ponta dos sapatos. Finalmente ele apontou para Brochu.
— Brochu, vá até o escritório e traga três lanternas. Diga ao vigia que eu falei para te deixar entrar.
— Como foi que você me meteu nisso? — Wisconsky resmungou para Hall. —
Sabe como eu odeio esses...
— Não fui eu — Hall disse, e olhou para Warwick.
Warwick olhou de volta, e ambos sustentaram o olhar.
Quatro da manhã, quinta-feira.
Brochu voltou com as lanternas. Deu uma para Hall, uma para Wisconsky, uma para Warwick.
— Ippeston! Dê a mangueira para o Wisconsky.
Ippeston obedeceu. O bocal tremeu de leve entre as mãos do polonês.
— Muito bem — Warwick disse ao Wisconsky. — Você vai no meio. Se houver ratos, isso é para eles.
Claro, Hall pensou. E se houver ratos, Warwick não vai vê-los. E nem Wisconsky, depois que encontrar uma nota de dez a mais no envelope com o seu pagamento.
Warwick apontou para dois dos homens.
— Levantem.
Um deles se curvou sobre a cavilha e puxou. Por um instante, Hall duvidou que ela fosse ceder, mas então ela se abriu com um puxão, dando um estalo esquisito, como um rangido. O outro homem colocou os dedos na parte de baixo para ajudar a puxar, e então recuou com um grito. Suas mãos estavam cobertas de imensos besouros cegos.
Com um grunhido convulso, o homem com a cavilha puxou para trás o alçapão e o deixou cair. A parte de baixo estava preta com um fungo estranho que Hall nunca tinha visto antes. Os besouros caíram dentro da escuridão lá embaixo ou saíram correndo pelo chão, onde foram esmagados.
— Olhe — Hall disse.
Havia uma tranca enferrujada na parte de baixo, agora quebrada.
— Mas isso não devia estar por baixo — Warwick disse. —
Devia estar em cima. Por que...
— Uma porção de razões — Hall disse. — Talvez para que nada deste lado conseguisse abrir... pelo menos quando a tranca estava nova. Talvez para que nada deste lado conseguisse subir.
— Mas quem trancou? — Wisconsky perguntou.
— Ah — Hall disse, num tom de deboche, olhando para Warwick. — Um mistério.
— Escutem — sussurrou Brochu.
— Ah, meu Deus — Wisconsky choramingou. — Eu não vou lá para baixo!
Era um ruído suave, quase que de expectativa; os movimentos rápidos e os passos de milhares de patas, os guinchos de ratos.
— Talvez sejam rãs — disse Warwick.
Hall riu alto.
Warwick iluminou lá embaixo. Um lance pouco firme de degraus de madeira conduzia até as pedras negras do piso do andar inferior. Não havia um único rato à vista.
— Esta escada não vai suportar o nosso peso — Warwick disse, em tom decisivo.
Brochu deu dois passos para a frente e pulou no primeiro degrau, para baixo e para cima. Ela estalou, mas não mostrou sinais de que fosse ceder.
— Não te pedi para fazer isso — Warwick disse.
— Você não estava lá quando aquele rato mordeu o Ray —
disse Brochu, suavemente.
— Vamos lá — disse Hall.
Warwick lançou um último e sardônico olhar ao redor do círculo de homens, depois andou até a beirada com Hall.
Wisconsky se colocou relutante entre os dois.
Desceram um de cada vez. Hall, depois Wisconsky, e então Warwick. Os fachos de luz de suas lanternas dançavam sobre o chão, que era irregular e ondulava em centenas de colinas e vales inconstantes. A mangueira vinha-se arrastando pesadamente atrás deles como uma serpente desajeitada.
Quando chegaram lá embaixo, Warwick iluminou os arredores com a lanterna.
Viram algumas caixas apodrecendo, alguns barris, pouca coisa além disso. A água do rio, que se infiltrara, estava acumulada em poças que chegavam à altura do tornozelo em suas botas.
— Não estou mais ouvindo os bichos — Wisconsky sussurrou.
Caminharam devagar para longe do alçapão, arrastando os pés pelo limo. Hall
fez uma pausa e iluminou uma imensa caixa de madeira com letras brancas inscritas.
— Elias Varney, 1841 — leu. — A fábrica já existia nessa época?
— Não — disse Warwick. — Só foi construída em 1897. Que diferença isso faz?
Hall não respondeu. Voltaram a avançar. O andar abaixo do porão era maior do que deveria ser, aparentemente. O fedor era intenso, um cheiro de decomposição e podridão e coisas enterradas. E o único som ainda era o gotejar suave da água, como que dentro de uma caverna.
— O que é aquilo? — Hall perguntou, apontando a lanterna para uma saliência no concreto que se introduzia talvez por meio metro no porão. Para além dela, a escuridão continuava, e Hall teve a impressão de ouvir ruídos lá em cima, curiosamente furtivos.
Warwick espiou.
— É... não, não pode ser isso.
— A parede externa da fábrica, não é? E lá em cima...
— Vou voltar — Warwick disse, virando-se subitamente.
Hall agarrou-o bruscamente pelo pescoço.
— Você não vai a lugar algum, Sr. Supervisor.
Warwick levantou os olhos para ele, seu sorriso de cólera cortando a escuridão.
— Você é doido, universitário. Não é verdade? Doido varrido.
— Você não deveria provocar as pessoas, amigo. Continue andando.
Wisconsky gemeu.
— Hall...
— Me dá isso.
Hall apanhou a mangueira. Soltou o pescoço de Warwick e apontou a mangueira para sua cabeça. Wisconsky se virou abruptamente e saiu correndo na direção do alçapão. Hall sequer se voltou.
— Você primeiro, Sr. Supervisor.
Warwick deu um passo para a frente, caminhando sob o local onde a fábrica terminava, acima deles. Hall iluminou os arredores com a lanterna, e sentiu uma satisfação gelada — premonição confirmada. Os ratos tinham fechado o cerco em torno deles, silenciosos como a morte. Eram uma multidão, fileira sobre fileira. Milhares de olhos fitavam-no também, com uma expressão ávida. Em fileiras até a parede, alguns chegando à altura da canela de um homem.
Warwick viu-os um instante mais tarde e parou por completo.
— Estão por toda parte ao nosso redor, universitário — sua voz ainda estava calma, ainda sob controle, mas tinha um tom de inquietude.
— Isso mesmo — Hall disse. — Continue andando.
Seguiram adiante, arrastando a mangueira atrás de si. Hall olhou para trás uma vez e viu que os ratos tinham fechado a passagem atrás dele e estavam roendo a mangueira de lona grossa. Um levantou a cabeça e pareceu quase rir maldosamente em sua direção, antes de baixá-la outra vez.
Agora também podia ver os morcegos. Estavam empoleirados no teto mal-acabado, imensos, do tamanho de corvos ou gralhas.
— Olhe — disse Warwick, iluminando com a lanterna um local cerca de um metro e meio adiante.
Um crânio, verde de mofo, ria para eles. Mais adiante, Hall podia ver um cúbito,
um osso pélvico, parte de uma caixa torácica.
— Continue andando — Hall disse. Sentiu alguma coisa estourando em seu interior, alguma coisa ensandecida e de tons escuros. Você vai ceder antes de mim, Sr.
Supervisor, é o que peço a Deus.
Deixaram os ossos para trás. Os ratos não estavam se aproximando deles; a distância parecia constante. Adiante, Hall viu um deles atravessar seu caminho. As sombras o esconderam, mas ele viu rapidamente uma cauda cor-de-rosa contorcendo-se, grossa como um fio de telefone.
Adiante, o piso se elevava bastante, depois afundava. Hall podia ouvir um som como um farfalhar, um som forte.
Talvez alguma coisa que nenhum homem vivo jamais tivesse visto. Ocorreu a Hall que talvez estivesse procurando por alguma coisa como aquela ao longo de todos os seus dias de loucas andanças.
Os ratos se moviam, arrastando-se no chão e forçando-os a seguir em frente.
— Olhe — Warwick disse, friamente.
Hall viu. Algo tinha acontecido com os ratos ali, alguma mutação hedionda que jamais teria podido sobreviver sob o sol; a natureza teria proibido. Mas ali embaixo, a natureza assumira um outro rosto, que era medonho.
Os ratos eram gigantes, alguns chegavam a ter quase um metro de altura. Mas suas patas traseiras tinham desaparecido, e eles eram cegos como toupeiras, como
seus primos voadores. Arrastavam-se para a frente com uma ânsia pavorosa.
Warwick se virou e encarou Hall, um sorriso mantido por pura força de vontade. Hall realmente tinha de admirá-lo.
— Não podemos continuar, Hall. Você tem que reconhecer isso.
— Os ratos têm negócios a tratar com você, eu acho — Hall disse.
O autocontrole de Warwick titubeou.
— Por favor — ele disse. — Por favor.
Hall sorriu.
— Continue andando.
Warwick olhava por cima de seu ombro.
— Eles estão roendo a mangueira. Quando conseguirem, jamais voltaremos.
— Eu sei. Continue andando.
— Você é louco...
Um rato passou por cima do sapato de Warwick e ele deu um grito. Hall sorriu e fez um gesto com a lanterna.
Estavam em toda parte ao redor deles, o mais próximo a menos de meio metro de distância, agora.
Warwick começou a andar outra vez. Os ratos recuaram.
Chegaram ao topo daquela subida em miniatura e olharam para baixo. Warwick chegou ao alto primeiro, e Hall viu seu
rosto ficar branco feito papel. A saliva escorria pelo seu queixo.
— Ah, meu Deus. Meu Jesus Cristo.
E ele se virou para correr.
Hall abriu o bocal da mangueira e o fluxo de água, em alta pressão, atingiu Warwick bem no peito, arremessando-o para fora do alcance de sua visão. Ouviu-se um grito longo que se elevava acima do som da água. Sons de alguém se debatendo.
— Hall!
Grunhidos. Um imenso e tenebroso guincho que pareceu ocupar o espaço
inteiro.
— HALL, PELO AMOR DE DEUS...
Um repentino som úmido de algo se rasgando. Um outro grito, mais fraco.
Alguma coisa imensa se movia e se virava. Hall ouviu distintamente o estalo úmido que faz um osso quebrado.
Um rato sem patas, guiado por alguma forma degenerada de sonar, investiu contra ele, mordendo. Seu corpo era flácido e quente. Hall, quase ausente, ligou a mangueira em sua direção, atirando-o para longe. A mangueira agora já não tinha tanta pressão.
Hall andou até o topo da colina molhada e olhou para baixo.
O rato ocupava toda a vala na outra extremidade daquela tumba podre. Era uma forma imensa e cinzenta, pulsante,
sem olhos, completamente sem pernas. Quando a luz da lanterna de Hall o atingiu, soltou um guincho hediondo. A rainha deles, então, a magna mater. Uma criatura imensa e sem nome cuja prole talvez um dia desenvolvesse asas.
Parecia maior do que o que restava do Warwick, mas isso provavelmente era só ilusão. Era o choque de ver um rato do tamanho de um bezerro Holstein.
— Adeus, Warwick — disse Hall. A ratazana se curvou possessivamente sobre o Sr. Supervisor, rasgando um de seus braços pendentes.
Hall se virou e começou rapidamente a fazer o caminho de volta, detendo os ratos com sua mangueira, cuja potência diminuía cada vez mais. Alguns conseguiram passar e atacavam suas pernas acima da altura das botas, investindo com mordidas. Um ficou dependurado obstinadamente em sua coxa, rasgando o tecido de suas calças de veludo cotelê. Com um soco, Hall atirou-o para longe.
Tinha atravessado quase três quartos do caminho de volta quando o farfalhar gigante encheu a escuridão. Olhou para cima e o imenso vulto voador bateu contra o seu rosto.
Os morcegos mutantes ainda não tinham perdido a cauda.
O bicho enroscou a sua no pescoço de Hall, num abominável anel, que apertava enquanto seus dentes buscavam o ponto macio logo abaixo. Retorcia-se e batia as asas membranosas, agarrando-se aos farrapos de sua camisa para se apoiar.
Hall ergueu às cegas o bocal da mangueira e bateu com ela no corpo mole, repetidas vezes. O morcego caiu e Hall pisoteou-o, quase inconsciente do fato de que estava gritando. Os ratos corriam como uma onda sobre seus pés, subindo por suas pernas.
Ele começou a correr, titubeante, sacudindo alguns para longe. Os outros mordiam sua barriga, seu peito. Um correu para cima de seu ombro e enfiou o focinho farejante em sua orelha.
Hall colidiu com o segundo morcego, que se empoleirou em sua cabeça por um momento, guinchando, e depois arrancou um pedaço de seu escalpo.
Ele sentiu seu corpo começar a ficar entorpecido. Seus ouvidos foram inundados pelos guinchos e gritos de inúmeros ratos. Fez um último esforço para escapar, tropeçou em corpos peludos, caiu de joelhos. Começou a rir, uma risada alta e estridente.
Cinco da manhã, quinta-feira.
— É melhor alguém ir lá embaixo — disse Brochu, hesitante.
— Eu não — Wisconsky sussurrou. — Eu não.
— Não, você não, seu frouxo — disse Ippeston, com desprezo.
— Bem, vamos lá — disse Brogan, apanhando outra mangueira. — Eu, Ippeston, Dangerfield, Nedeau.
Stevenson, suba ao escritório e traga mais algumas lanternas.
Ippeston olhou para a escuridão lá embaixo, pensativo.
— Talvez eles tenham parado para fumar um cigarro —
disse. — Uns poucos ratinhos, que diabos.
Stevenson voltou com as lanternas; alguns instantes depois, começaram a descer.
1- No original, Graveyard shift, expressão que quer dizer
“último turno de trabalho”, mas que faz um trocadilho com as palavras graveyard, “cemitério”, e shift, que pode significar “mudança de lugar” ou “ardil, estratagema”, entre outras acepções. (N. da T.)
Ondas Noturnas
Depois que o cara já estava morto e o cheiro de sua carne queimada tinha sumido do ar, voltamos todos para a praia.
Corey estava com o rádio, um daqueles aparelhos a transistor do tamanho de uma pasta que usam cerca de quarenta pilhas e também gravam e tocam fitas. Não dá para dizer que a qualidade sonora da reprodução fosse grande coisa, mas com certeza era alta. Corey tinha sido rico antes da A6, mas coisa assim já não tinha importância.
Mesmo seu enorme radiogravador já não passava de um belo monte de lixo. Só havia duas estações no ar que conseguíamos sintonizar. Uma era a WKDM
de Portsmouth — algum DJ da roça que tinha se tornado um fanático religioso. Tocava um disco de Perry Como, dizia uma oração, vociferava, tocava um disco de Johnny Ray, lia alguma coisa dos Salmos (trechos completos com cada
“selá”, 1 exatamente como James Dean em Vidas Amargas), depois vociferava mais um pouco. Coisas desse gênero.
Um dia cantou “Bringing in the Sheaves” com uma voz chata, de taquara rachada, que quase matou de rir a Needles e a mim.
A estação de Massachusetts era melhor, mas só conseguíamos sintonizar à noite.
Um bando de garotos. Acho que tomaram conta do local de transmissão da WRKO ou da WBZ depois que todos por lá foram embora ou morreram. Eles só usavam siglas de
sacanagem, como wfumo ou xota ou WA6. Engraçado à beça, sabe — você morria de rir. Era essa a rádio que estávamos escutando durante o caminho de volta para a praia.
Eu estava de mãos dadas com Susie; Kelly e Joan estavam à nossa frente, e Needles já tinha passado pelo topo do promontório e estava fora de vista. Corey vinha por último, segurando o rádio. Os Stones estavam cantando “Angie”.
— Você me ama? — Susie perguntava. — É só isso que eu quero saber, você me ama? — Susie precisava de reafirmação constante. Eu era o seu ursinho de estimação.
— Não — eu disse. Ela estava engordando, e se vivesse por tempo suficiente, o que não era provável, ficaria realmente flácida. Fora que era tagarela.
— Você não presta — ela disse, colocando a mão no rosto.
Suas unhas pintadas brilhavam de leve à luz da meia-lua que nascera havia cerca de uma hora.
— Vai chorar de novo?
— Cala a boca! — pelo tom de voz, ela com certeza ia chorar de novo.
Passamos pelo topo e fiz uma pausa. Sempre tenho de fazer pausas. Antes da A6, esta era uma praia pública. Turistas, gente fazendo piquenique, crianças de nariz escorrendo e avós gordas e flácidas com cotovelos vermelhos do sol.
Papéis de bala e pauzinhos de pirulito na areia, todas aquelas pessoas bonitas se agarrando nas suas esteiras de praia, um fedor misturado de canos de descarga do estacionamento, algas marinhas e óleo Coppertone.
Mas agora toda a sujeira e todo o lixo haviam desaparecido.
O oceano devorara tudo, como você despreocupadamente acaba
com um punhado de Cracker Jacks2. Não havia gente para voltar e sujá-la outra vez. Só nós, e não éramos bastantes para fazer muita zona. Também amávamos a praia, acho — pois não tínhamos acabado de oferecer-lhe uma espécie de sacrifício? Até mesmo Susie, aquela piranhazinha da Susie, com sua bunda gorda e suas calças boca-de-sino cor de uva.
A areia era branca e formava dunas, marcada apenas pela linha da maré alta —
novelos de algas, imensas algas marrons, pedaços de madeira flutuante. O luar costurava sombras na forma de crescentes e com elas cobria tudo. A torre abandonada dos salva-vidas erguia-se branca, como um esqueleto, a uns 50
metros dos vestiários, apontando para o céu como o osso de um dedo descarnado.
E as ondas, as ondas noturnas, lançando grandes explosões de espuma, arrebentando sobre os promontórios até onde a nossa vista alcançava, em ataques intermináveis. Talvez aquela água estivesse a meio caminho da Inglaterra na noite anterior.
“‘Angie’, dos Stones”, a voz de taquara rachada no rádio de Corey disse. “Essa daí eu desenterrei, um hit do passado que é de deixar você ligado, um balanço saído da tumba, um disco sem risco. Sou Bobby. Esta deveria ser a noite de Fred, mas Fred pegou a gripe. Ele está todo inchado.” Susie deu então uma risadinha, com as primeiras lágrimas nos cílios. Comecei a andar na direção da praia um pouco mais rápido, para que ela ficasse quieta.
— Espera aí! — Corey gritou. — Bernie? Ei, Bernie, espera aí!
O cara no rádio estava lendo uns poeminhas sacanas, e uma garota lá no fundo perguntou-lhe onde tinha colocado a cerveja. Ele respondeu alguma coisa, mas a essa altura já estávamos na praia. Olhei para trás, para ver como Corey estava indo. Ele descia sentado, escorregando com a bunda, como o habitual, e parecia tão ridículo que tive pena dele.
— Vem correr comigo — eu disse a Susie.
— Por quê?
Dei um tapa no seu traseiro e ela soltou um gritinho agudo.
— Só porque é gostoso correr.
Corremos. Ela ficou para trás, ofegando como um cavalo e gritando para que eu fosse mais devagar, mas tirei-a da cabeça. O vento passava correndo pelos meus ouvidos e afastava o cabelo da minha testa. Pude sentir o cheiro do sol no mar, acre e penetrante.
A arrebentação batia forte. As ondas eram como espuma de vidro preto. Chutei para longe minhas sandálias de borracha e corri pela areia descalço, sem ligar para as espetadelas de uma ou outra concha pontuda. Meu sangue rugia nas veias.
E então lá estava o abrigo, com Neddles já dentro, e Kelly e Joan de pé ao lado, de mãos dadas e olhando para o mar.
Rolei para a frente, sentindo a areia descer pelas costas da minha camiseta, e esbarrei nas pernas de Kelly. Ela caiu por cima de mim e esfregou minha cara na areia enquanto Joan ria.
Levantamos e sorrimos uns para os outros. Susie tinha desistido de correr e vinha se arrastando em nossa direção.
Corey quase a alcançou.
— Bela fogueira — Kelly disse.
— Você acha que ele veio mesmo de Nova York, como disse?
— Joan perguntou.
— Não sei.
De qualquer modo, eu não achava que isso importasse.
Estava atrás da direção de um grande Lincoln quando o encontramos, semiconsciente e delirando. Sua cabeça estava inchada, do tamanho de uma bola de futebol americano, e seu
pescoço parecia um salsichão. Ele tinha Captain Trips3 e não
duraria muito, também. Então, nós o
levamos até o promontório que se projeta sobre a praia e o queimamos. Ele disse que seu nome era Alvin Sackheim.
Ficava o tempo todo chamando pela avó. Pensou que Susie era sua avó. Ela achou graça disso, Deus sabe por quê.
Susie acha graça das coisas mais estranhas.
Foi idéia de Corey queimá-lo, mas começou como uma brincadeira. Ele tinha lido todos aqueles livros sobre feitiçaria e magia negra na faculdade, e ficava nos olhando de esguelha, na escuridão, ao lado do Lincoln de Alvin Sackheim, e dizendo que se fizéssemos um sacrifício aos deuses negros, talvez os espíritos continuassem a nos proteger da A6.
É claro que nenhum de nós acreditava realmente naquela bobagem, mas a conversa foi ficando cada vez mais séria.
Era uma coisa nova a se fazer, e finalmente fomos em frente e fizemos. Amarramos o sujeito àquela espécie de telescópio lá em cima
— você coloca uma moeda e num dia claro consegue ver até o Farol de Portland.
Usamos nosssos cintos para amarrá-lo, depois começamos a remexer o chão ao redor em busca de arbustos secos e pedaços de madeira trazida pelo mar, feito crianças brincando de um novo tipo de esconde-esconde. Durante todo o tempo em que fizemos isso, Alvin Sackheim ficou largado no seu canto murmurando qualquer coisa para a avó.
Os olhos de Susie ficaram muito brilhantes, e ela respirava rápido. Aquilo realmente a estava deixando empolgada.
Quando a gente estava lá embaixo na ravina, do outro lado da ponta de pedra, ela se inclinou na minha direção e me beijou. Estava usando batom demais e foi como beijar uma dentadura engordurada.
Afastei-a de mim, e foi então que ela começou a amarrar aquela tromba.
Voltamos lá para cima, todos nós, e empilhamos galhos secos e gravetos ao redor da cintura de Alvin Sackheim.
Needles ateou fogo à pira com seu Zippo, e as chamas se espalharam rápido. No final, logo antes de seu cabelo pegar fogo, o sujeito começou a gritar. O cheiro era igualzinho ao do porco agridoce chinês.
— Você tem um cigarro, Bernie? — Needles perguntou.
— Tem mais ou menos uns cinqüenta pacotes bem atrás de você.
Ele sorriu e matou com um tapa um mosquito que estava picando seu braço.
— Não quero me mexer.
Dei-lhe o cigarro e me sentei. Susie e eu encontramos Needles em Portland. Ele estava sentado no meio-fio em frente ao State Theater, tocando melodias do Leadbelly num velho violão Gibson, grandão, que havia roubado em algum lugar. O som ecoava pela Congress Street como se ele estivesse tocando numa casa de shows.
Susie parou diante de nós, ainda sem fôlego.
— Você não presta, Bernie.
— Vamos lá, Sue. Vira o disco. Esse lado já encheu.
— Seu canalha. Seu estúpido, seu insensível filho de uma puta. Cretino!
— Vá embora — eu disse —, ou vai ficar com um olho roxo, Susie. Não duvide.
Ela começou a chorar outra vez. Era realmente boa nisso.
Corey se aproximou e tentou colocar o braço ao redor de seus ombros. Ela lhe deu uma cotovelada no meio das pernas, e ele cuspiu em seu rosto.
— Eu te mato! — ela se atirou sobre ele, gritando e chorando, agitando as mãos.
Corey recuou, quase caiu, depois se virou e correu. Susie seguiu-o, berrando obscenidades histéricas. Needles jogou a cabeça para trás e riu. O som do rádio de Corey chegava bem fraco até nós por sobre as ondas da arrebentação.
Kelly e Joan tinham-se afastado. Eu podia vê-los na beira da água, caminhando com os braços ao redor da cintura um do outro. Pareciam uma propaganda na vitrine de uma agência
de viagens — Voe para a bela St. Lorca. Era legal. O lance deles era bacana.
— Bernie?
— O quê? — eu estava sentado fumando e pensando em Needles girando a parte de cima do seu Zippo, fazendo a pedra do isqueiro bater no metal, acendendo o fogo como um homem das cavernas.
— Eu peguei — Needles disse.
— É? — olhei para ele. — Tem certeza?
— Tenho sim. Minha cabeça está doendo. Meu estômago está doendo. Dói quando eu mijo.
— Vai ver que é só a gripe de Hong Kong. Susie teve a gripe de Hong Kong.
Ela queria uma Bíblia. — eu ri. Isso tinha acontecido quando ainda estávamos na Universidade, cerca de uma semana antes que fosse fechada para valer, um mês antes de começarem a levar os corpos em caminhões de lixo e enterrá-los em valas comuns com retroescavadeiras.
— Olhe — ele acendeu um fósforo e segurou-o no ângulo do queixo. Eu podia ver as primeiras manchas triangulares, os primeiros inchaços. Era a A6, sem dúvida.
— Certo — eu disse.
— Não me sinto tão mal assim — ele disse. — Na minha cabeça, quero dizer.
Mas você, você pensa nisso um bocado. Dá para ver.
— Não penso, não.
Mentira.
— Claro que pensa. Como aquele cara hoje à noite. Você também está pensando nisso. Provavelmente fizemos um favor a ele, se formos analisar a situação. Acho que ele nem sabia o que estava acontecendo.
— Ele sabia.
Ele deu de ombros e se virou de lado:
— Não importa.
Ficamos fumando, e eu observava as ondas indo e vindo.
Needles estava com a Captain Trips. Isso tornava tudo real outra vez. Já estávamos no final de agosto, e em algumas semanas o frio do outono começaria a se aproximar. Seria hora de irmos para dentro de algum lugar. Inverno. Mortos lá pelo Natal, talvez, todos nós. Na sala de estar de alguém com o radiogravador caro de Corey no alto de uma estante cheia de exemplares de Seleções e o sol fraco do inverno cobrindo o tapete com os padrões sem sentido das vidraças da janela.
A visão foi tão clara que me fez estremecer. Ninguém deveria pensar sobre o inverno em agosto. É como alguém caminhando sobre a sua sepultura.
Needles riu.
— Está vendo? Você pensa nisso sim.
O que eu podia dizer? Fiquei de pé.
— Vou procurar a Susie.
— Talvez nós sejamos as últimas pessoas na face da Terra, Bernie. Já pensou nisso?
Sob a luz fraca da lua, ele já parecia meio morto, com círculos sob os olhos e dedos pálidos, imóveis como lápis.
Desci até a arrebentação e olhei para o mar. Não havia nada para ver além das corcovas inquietas e móveis das ondas, cobertas por delicados cachos de espuma. O
estrondo da arrebentação era imenso ali embaixo, maior do que o mundo. Era como estar de pé dentro de uma tempestade de relâmpagos. Fechei os olhos e girei sobre meus pés descalços. A areia estava fria e úmida e compacta. E se fôssemos as últimas pessoas na face da Terra, e daí? Aquilo continuaria enquanto houvesse uma lua para atrair a água.
Susie e Corey estavam na praia. Susie estava montada nele como se ele fosse um potro selvagem, batendo com sua cabeça na água que ia e vinha, espumando. Corey chapinhava e batia os braços. Os dois estavam ensopados.
Fui até lá e empurrei-a com o pé. Corey saiu chapinhando de quatro, bufando e ofegando.
— Eu te odeio! — Susie gritou para mim. Sua boca, numa careta, era um crescente negro. Parecia a entrada de uma casa dos horrores. Quando eu era criança, minha mãe costumava nos levar ao Harrison State Park, e lá havia uma casa dos horrores com o rosto grandão de um palhaço na frente. A gente entrava pela boca.
— Vamos lá, Susie. De pé, Rex — estendi a mão. Ela segurou-a um pouco relutante e levantou-se. Havia areia molhada grudada na sua blusa e na sua pele.
— Você não precisava me empurrar, Bernie. Você nunca...
— Vamos lá — ela não era igual a uma jukebox; você nunca precisava colocar uma moeda e ela nunca desligava da tomada.
Caminhamos pela praia na direção da loja de conveniência.
O homem que dirigia aquele lugar tinha um pequeno apartamento no segundo andar. Havia uma cama ali. Na verdade, ela não merecia uma cama, mas Needles estava certo a respeito disso. Ninguém estava mais contando a pontuação no jogo.
A escada era na parte lateral da construção, e fiz uma pausa por apenas um minuto, a fim de olhar pela janela quebrada para as mercadorias empoeiradas lá dentro, que ninguém tinha se dado ao trabalho de saquear — prateleiras com casacos de moletom (“Anson Beach” e uma fotografia do céu e das ondas impressa na frente), pulseiras reluzentes que deixariam o pulso verde no segundo dia, brincos brilhantes que eram verdadeira sucata, bolas para jogar na praia, cartões com dizeres sacanas, madonas de cerâmica muito mal pintadas, vômito de plástico (Parece tão real!
Experimente com a sua mulher!), estrelinhas para uma festa de Quatro de Julho que nunca houve, toalhas de praia com uma garota voluptuosa de biquíni, de pé em meio aos nomes de centenas de balneários famosos, flâmulas (Lembrança de Anson Beach & Park), balões, roupa de banho. Havia uma lanchonete na frente, com um cartaz dizendo experimente a nossa torta especial de mexilhões.
Eu costumava vir um bocado a Anson Beach quando ainda estava na escola. Isso foi sete anos antes da A6, e eu saía com uma garota chamada Maureen. Ela era alta. Tinha um maiô cor-de-rosa de xadrez. Eu costumava dizer a ela que parecia uma toalha de mesa. Tínhamos caminhado pelo deque em frente àquela loja, descalços, as tábuas quentes e
cheias de areia sob nossos calcanhares. Nunca experimentamos a torta especial
de mexilhões.
— Para o que você está olhando?
— Nada. Venha.
Tive sonhos horríveis com Alvin Sackheim, que me fizeram suar. Ele estava atrás da direção do seu Lincoln amarelo reluzente, falando sobre a avó. Não passava de uma cabeça inchada e enegrecida, e um esqueleto carbonizado.
Cheirava a queimado. Falava sem parar, e depois de algum tempo eu já não conseguia mais distinguir uma única palavra. Acordei respirando com dificuldade.
Susie estava escarrapachada por cima das minhas coxas, pálida e inchada. Meu relógio marcava 3h50, mas tinha parado. Ainda estava escuro lá fora. As ondas da arrebentação golpeavam a areia, com um estrondo. Maré alta. Digamos que fossem 4h15. Luz em breve. Saí da cama e fui até a porta. Era agradável sentir a brisa do mar no meu corpo. Apesar de tudo, eu não queria morrer.
Fui até o canto e peguei uma cerveja. Havia três ou quatro caixas de Bud empilhadas junto à parede. Estava quente, porque não havia eletricidade. Mas não me incomodo em beber cerveja quente, como algumas pessoas. Só faz um pouco mais de espuma. Cerveja é cerveja. Saí para o patamar e me sentei, e abri a lata, e bebi.
Então ali estávamos nós, com toda a raça humana exterminada, não por armas atômicas ou biológicas ou poluição ou alguma coisa grandiosa desse tipo. Apenas a gripe. Eu gostaria de colocar uma placa imensa em algum lugar, no Bonneville Salt Flats, talvez. Bronze Square. Com
cinco quilômetros de comprimento. E em grandes letras em alto-relevo o aviso diria, para ajudar algum alienígena aterrissando por aqui: APENAS A GRIPE.
Joguei a lata de cerveja por cima do corrimão. Ela aterrissou com um retinir oco no caminho cimentado que contornava a construção.
O telhado era um triângulo preto na areia.
Imaginei se Needles estaria acordado. Imaginei se eu estaria.
— Bernie?
Ela estava de pé, na porta, usando uma das minhas camisetas. Odeio isso. Ela sua feito um porco.
— Você não gosta mais muito de mim, não é mesmo, Bernie?
Eu não disse nada. Havia momentos em que eu ainda conseguia lamentar tudo aquilo. Ela não me merecia, não mais do que eu a ela.
— Posso me sentar com você?
— Duvido que haja espaço suficiente para nós dois.
Ela fez um barulho de soluço sufocado e começou a voltar lá para dentro.
— Needles está com A6 — eu disse.
Ela parou e olhou para mim. Seu rosto estava imóvel.
— Sem piadas, Bernie.
Acendi um cigarro.
— Não é possível! Ele teve...
— É, ele teve A2. A gripe de Hong Kong. Assim como você e eu e Corey e Kelly e Joan.
— Mas isso significa que ele não é...
— Imune.
— É. Então nós poderíamos pegar.
— Talvez ele tenha mentido quando disse que tinha tido A2.
Para que a gente trouxesse ele conosco, daquela vez — eu disse.
O alívio se espalhou pelo seu rosto.
— Claro, foi isso. Eu teria mentido, no lugar dele. Ninguém gosta de ficar sozinho, não é? — ela hesitou. — Você vem para a cama?
— Agora não.
Ela entrou. Eu não precisava lhe dizer que a A2 não era uma garantia contra a A6. Ela sabia disso. Simplesmente preferira esquecer. Fiquei sentado olhando as ondas.
O mar estava mesmo forte. Anos atrás, Anson tinha sido o único lugar mais ou menos decente para o surfe no estado.
O promontório era uma corcova escura e saliente contra o céu. Eu tinha a impressão de ver o posto de observação erguendo-se verticalmente, mas provavelmente era só imaginação. Às vezes Kelly levava Joan até o topo do promontório.
Acho que eles não estavam ali naquela noite.
Coloquei o rosto nas mãos e o apertei, sentindo a pele, sua granulação e sua textura. Tudo estava se estreitando tão
depressa, e tudo era tão miserável — não havia dignidade naquilo.
As ondas se aproximando, se aproximando, se aproximando.
Sem limite. Limpas e profundas. Tínhamos vindo aqui no verão, Maureen e eu, no verão depois da escola, no verão antes da faculdade e da realidade e da A6 chegando do sudeste da Ásia e cobrindo o mundo como uma mortalha, julho, tínhamos comido pizza e ouvido o rádio dela, eu tinha passado óleo em suas costas, ela tinha passado óleo nas minhas, o ar estava quente, a areia brilhava, o sol era como um vidro em chamas.
1- Palavra hebraica presente nos salmos que remete a uma pausa para a reflexão. (N. da E.)
2- Famoso lanche norte-americano feito de amendoins caramelizados. (N. da E.)
3- Vírus que assola o mundo no livro de Stephen King A dança da morte (1978). (N.
da E.)
Eu Sou o Portal
Richard e eu estávamos sentados na varanda, olhando para o Golfo, por sobre as dunas.
A fumaça do cigarro dele pairava suavemente no ar, mantendo os mosquitos a uma distância segura. A água estava clara, um tom de água-marinha suave, e o céu era de um azul mais escuro, mais intenso. Uma combinação agradável.
— Você é o portal — Richard repetiu, pensativo. — Tem certeza de que matou o garoto... não foi só um sonho?
— Não foi um sonho. E eu também não matei... eu te disse isso. Eles mataram.
Eu sou o portal.
Richard suspirou.
— Você o enterrou?
— Enterrei.
— Consegue se lembrar onde foi?
— Sim — levei a mão ao bolso da camisa e peguei um cigarro. Minhas mãos estavam desajeitadas cobertas de ataduras. Coçavam de uma forma insuportável. — Se você quiser ver, vai ter que pegar o bugre. Não dá para sair empurrando isto — indiquei minha cadeira de rodas — pela areia.
O bugre de Richard era um Volkswagen 59 tala larga. Com ele, Richard recolhia madeira flutuante. Desde que se aposentara no mercado imobiliário em Maryland, vivia em Key Caroline, construindo esculturas com madeira trazida pelo mar que vendia aos turistas de inverno a preços escandalosos.
Ele tragou o cigarro e olhou na direção do Golfo.
— Ainda não. Pode me contar mais uma vez?
Suspirei e tentei acender o cigarro. Ele afastou os fósforos de mim e acendeu ele mesmo. Traguei duas vezes, com força. A coceira em meus dedos era enlouquecedora.
— Tudo bem — eu disse. — Ontem à noite, às sete, lá estava eu, olhando para o Golfo e fumando, exatamente como
agora, e...
— Antes disso — ele sugeriu.
— Antes?
— Fale-me do vôo.
Balancei a cabeça.
— Richard, já falamos sobre isso várias vezes. Não há nada...
O rosto cheio de rugas e fissuras era tão enigmático quanto o de suas próprias esculturas em madeira.
— Talvez você se lembre — ele disse. — Agora talvez você se lembre.
— Você acha?
— É possível. E quando tiver terminado, podemos procurar o túmulo.
— O túmulo — eu disse.
O som era oco, horrível, mais escuro do que tudo, mais escuro mesmo do que aquele terrível oceano pelo qual Cory e eu tínhamos navegado, cinco anos atrás. Escuro, escuro, escuro.
Por trás das ataduras, meus novos olhos fitavam cegamente a escuridão que lhes era imposta pelas ataduras. Coçavam.
Cory e eu fomos colocados em órbita pelo Saturno 16, aquele que todos os comentaristas chamavam de foguete Empire State Building. Era mesmo um monstrengo.
Fazia com que o velho Saturno 1-B parecesse um brinquedo, e decolava de uma casamata com 60 metros de profundidade — tinha de ser assim, de modo a não levar consigo metade do Cabo Kennedy.
Circundamos a Terra, verificando todos os nossos sistemas, e então acionamos os propulsores. Em direção a Vênus.
Deixamos para trás uma briga do Senado a respeito de um projeto de orçamento para novas explorações do espaço e um punhado de gente da nasa rezando para que encontrássemos alguma coisa, qualquer coisa.
— Não importa o quê — Don Lovinger, o garoto prodígio particular do Projeto Zeus, gostava de ficar dizendo depois de tomar umas e outras. — Vocês têm todos os aparelhos, mais cinco câmeras de TV envenenadas e um telescópio bem bacaninha com um zilhão de lentes e filtros. Encontrem um pouco de ouro ou platina.
Melhor ainda, encontrem alguns homenzinhos azuis, bonzinhos e burros, para a gente explorar e se sentir superior. Qualquer coisa.
Até mesmo o fantasma de Howdy Doody1
seria um bom começo.
Cory e eu estávamos suficientemente ansiosos para atendê-lo, se pudéssemos.
Nada tinha funcionado para o programa espacial. Desde Borman, Anders e Lovell, que tinham feito a órbita da Lua em 68 e encontrado um mundo vazio e hostil, parecido com a areia suja de uma praia, até Markhan e Jacks, que pisaram em Marte 11 anos mais tarde, encontrando uma superfície deserta e árida de areia congelada e algum líquen tentando sobreviver, o programa espacial fora um caro fracasso. E
tinha havido vítimas
— Pedersen e Lederer, circundando eternamente o Sol quando de súbito nada mais funcionava no penúltimo vôo da Apollo. John Davis, cujo pequenino observatório orbital foi atingido por um meteoróide, o que tinha uma chance em mil de acontecer.
Não, o programa espacial não ia nada bem. Ao que tudo indicava, a órbita de Vênus talvez fosse nossa última chance de afirmar “nós dissemos”.
Estávamos no espaço havia 16 dias — comíamos um bocado de concentrados, jogávamos um bocado de buraco e trocávamos resfriados um com outro — e do ponto de vista técnico aquela era uma missão bem moleza. Perdemos um conversor de umidade no terceiro dia, ligamos o sobressalente e isso foi tudo, exceto por detalhes sem importância, até a reentrada. Observamos Vênus crescer de uma estrela a uma moedinha de 25 centavos e depois a uma bola de cristal leitosa, trocávamos piadas com o controle em Huntsville, ouvíamos fitas de Wagner e dos Beatles, cuidávamos dos experimentos automatizados que tratavam de tudo desde a medição do vento solar até a navegação do espaço. Fizemos duas correções do curso, ambas infinitesimais, e no nono dia de vôo Cory foi lá fora e bateu na Desa retrátil até que ela decidiu funcionar. Não havia nada fora do costumeiro até que...
— Desa — disse Richard. — O que é isso?
— Um experimento que não teve bom resultado. No jargão da Nasa,
significa Deep Space Antenna2. Estávamos
transmitindo impulsos de alta freqüência para quem estivesse a fim de ouvir — esfreguei os dedos na calça, mas não adiantou; na verdade, até piorou. — A mesma idéia do radiotelescópio em West Virginia. Você sabe, aquele que ouve as estrelas. Só que, em vez de ouvir, estávamos
transmitindo, sobretudo para os planetas mais afastados, Júpiter, Saturno e Urano. Se há vida inteligente por lá, estava tirando um cochilo.
— Só o Cory saiu da nave?
— Só. E se trouxe alguma praga interestelar, a telemetria não mostrou.
— Mesmo assim...
— Não importa — eu disse, irritado. — Só o aqui e o agora importam.
Mataram o garoto ontem à noite, Richard. Não foi uma coisa bonita de se ver... ou sentir. Sua cabeça... explodiu. Como se alguém tivesse tirado seu cérebro do crânio e colocado uma granada no lugar.
— Termine a história — ele disse.
Dei uma risada cínica.
— O que há para contar?
Entramos numa órbita excêntrica ao redor do planeta. Era radical e se deteriorava, 512
por cento e 12 quilômetros. Essa foi a primeira volta. Na segunda, nosso apogeu foi ainda mais alto, e o perigeu mais baixo. Tínhamos um máximo de quatro órbitas.
Fizemos todas as quatro. Demos uma boa olhada no planeta. E também tiramos mais de seiscentas fotografias e filmamos sabe Deus quantos metros de filme.
A cobertura de nuvens é composta por partes iguais de metano, amônia, poeira e lixo voador. O planeta inteiro se
parece com o Grand Canyon num túnel de vento. Cory estimou a velocidade do vento em cerca de 950 km/h perto da superfície. Nossa sonda bipou durante todo o trajeto até o solo, depois pifou. Não vimos vegetação ou sinais de vida.
O espectroscópio só indicava traços dos minerais valiosos. E
Vênus era isso aí.
Nada além de nada — a não ser o fato de que me deu medo. Foi como circundar uma casa mal-assombrada no meio do espaço. Sei que isso não soa nada científico, mas fiquei apavorado até que saíssemos da lá. Acho que se nossos foguetes não tivessem pifado, eu teria cortado a garganta na descida. Não é como a Lua. A Lua é desolada, mas de algum modo antisséptica. Aquele mundo que vimos era completamente diferente de qualquer coisa que alguém jamais tenha visto. Talvez a existência daquela nuvem sobre o planeta seja uma coisa boa. Era como um crânio cuja carne tivesse sido arrancada — é o mais próximo que consigo chegar.
Ao regressar, ouvimos que o Senado havia votado pela redução dos fundos de exploração espacial à metade. Cory disse alguma coisa como “parece que estamos de volta ao mercado dos satélites meteorológicos, Artie.” Mas eu estava quase feliz. Talvez lá em cima não seja o nosso lugar.
Doze dias mais tarde, Cory estava morto, e eu, aleijado para sempre. Os problemas aconteceram ao regressar. A descida foi um fracasso. Mais uma das pequeninas ironias da vida!
Tínhamos ficado no espaço por mais de um mês, ido mais longe do que qualquer ser humano, e tudo acabou do jeito que acabou porque algum cara estava com pressa para tomar um cafezinho e deixou que algumas linhas embaraçassem.
Batemos com força. Um sujeito que estava num dos helicópteros disse que parecia um bebê gigante caindo do céu, arrastando a placenta atrás de si. Perdi a consciência com a colisão.
Voltei a mim quando estavam me levando pelo convés do Portland. Não tiveram nem mesmo a chance de desenrolar o tapete vermelho em que teoricamente devíamos pisar. Eu estava sangrando. Sangrando e sendo levado às pressas para a enfermaria sobre um tapete vermelho que nem de longe parecia tão vermelho quanto eu...
— ...Fiquei em Bethesda por dois anos. Eles me deram a Medalha de Honra e um bocado de dinheiro e esta cadeira de rodas. Vim para cá no ano passado. Gosto de observar os foguetes decolando.
— Eu sei — Richard disse. Fez uma pausa. — Mostre-me suas mãos.
— Não — a resposta veio bem rápida e áspera. — Não posso deixar que eles vejam. Já te disse isso.
— Cinco anos se passaram — Richard disse. — Por que agora, Arthur? Pode me dizer?
— Não sei. Não sei! Talvez o que quer que seja tenha um longo período de gestação. Ou quem pode garantir que arranjei isso lá em cima? O que quer que fosse, pode ter entrado em mim em Fort Lauderdale. Ou exatamente aqui nesta varanda, pelo que sei.
Richard suspirou e olhou para a distância além da água, agora avermelhada com o sol do fim da tarde.
— Estou tentando. Arthur, não quero pensar que você está ficando biruta.
— Se eu tiver que te mostrar as minhas mãos, então mostro
— falei eu. Foi um esforço dizê-lo. — Mas só se eu tiver que mostrar.
Richard ficou de pé e pegou a bengala. Sua aparência era envelhecida e frágil.
— Vou pegar o bugre. Vamos procurar o garoto.
— Obrigado, Richard.
Ele caminhou na direção da estrada de terra esburacada que levava à sua cabana
— eu só conseguia ver o teto sobre a Grande Duna, aquela que tem quase toda a extensão de Key Caroline. Sobre a água, na direção do Cabo, o céu assumira uma cor feia de ameixa, e o som de trovões distantes chegou aos meus ouvidos.
Eu não sabia o nome do garoto, mas costumava vê-lo de vez em quando, caminhando pela praia ao pôr do sol, com sua peneira debaixo do braço. O sol o deixara quase negro, e sempre estava vestido apenas com um par de bermudas de brim. Na outra extremidade de Key Caroline há uma praia pública, e um jovem empreendedor pode tirar talvez uns 5
dólares num bom dia, peneirando pacientemente a areia em busca de moedas de 10 ou 25 centavos enterradas. De vez em quando eu acenava para ele, e ele acenava de volta, ambos estranhos que se evitavam e ainda assim irmãos, moradores permanentes diante de um mar de turistas gastando dinheiro, dirigindo Cadillacs e falando alto.
Imagino que ele vivesse no pequeno povoado que se aglomerava ao redor do correio, a cerca de uns 700 metros dali.
Quando passou, naquela tarde, eu já estava na varanda havia uma hora, imóvel, observando. Tinha tirado as ataduras mais cedo. A coceira ficara intolerável, e sempre era melhor quando eles podiam olhar com os próprios olhos.
Era uma sensação sem paralelo no mundo inteiro — como se eu fosse um portal ligeiramente entreaberto através do qual eles espiavam um mundo que odiavam e temiam.
Mas a pior parte era que, de certa forma, eu também podia ver. Imagine sua mente transportada para o corpo de uma mosca doméstica, uma mosca olhando para o seu próprio rosto com mil olhos. Então talvez você comece a entender por que eu mantinha as ataduras nas minhas mãos mesmo quando não havia ninguém por perto para vê-las.
Começou em Miami. Eu tinha uns assuntos por lá com um homem chamado Cresswell, um investigador do Departamento da Marinha. Ele me analisa uma vez por ano
— durante algum tempo, eu estive mais perto do que qualquer outra pessoa jamais esteve daqueles assuntos confidenciais que o nosso programa espacial tem. Não sei o que ele busca; um brilho traidor em meus olhos, talvez, ou talvez uma letra escarlate em minha testa. Deus sabe por quê. Minha pensão é alta o suficiente para ser quase vergonhosa.
Cresswell e eu estávamos sentados na varanda de seu quarto de hotel, bebericando drinques e discutindo o futuro do programa espacial americano. Era por volta das 3h15.
Meus dedos começaram a coçar. Não foi nem um pouco gradual. Foi acionado, como uma corrente elétrica.
Mencionei-o a Cresswell.
— Então você pegou alguma hera venenosa naquela ilhota tuberculosa — ele disse, rindo.
— A única vegetação de Key Caroline é um arbustinho de palmito — eu disse.
— Talvez seja a coceira do sétimo ano.
Baixei os olhos para minhas mãos. Mãos absolutamente comuns. Mas que coçavam.
No final da tarde, assinei o mesmo velho papel (“Juro solenemente não ter recebido ou fornecido e divulgado informações que poderiam...”) e dirigi de volta a Key.
Tenho um velho Ford, equipado com freio e acelerador operados manualmente. Adoro esse carro — ele faz com que eu me sinta auto-suficiente.
O caminho de volta é demorado, pela Rota 1, e quando saí da grande rodovia, pegando o desvio para Key Caroline, já estava quase enlouquecendo. Minhas mãos coçavam insuportavelmente. Se você já passou pela cicatrização de um corte profundo ou de uma incisão cirúrgica, talvez tenha alguma idéia do tipo de coceira a que estou me referindo.
Coisas vivas pareciam estar rastejando e escavando dentro da minha pele.
O sol já tinha quase se posto e observei cuidadosamente minhas mãos à luz do painel. As pontas agora estavam vermelhas, vermelhas em pequeninos círculos perfeitos, logo acima da parte macia em que ficam as impressões digitais, naquele lugar em que se formam calos quando você toca violão. Também havia círculos vermelhos de infecção no espaço entre a primeira e segunda junta de cada polegar e cada dedo, e na pele entre a segunda junta e o nó dos dedos. Apertei os dedos da mão direita contra os lábios e os retirei rapidamente, com uma súbita repulsa. Um sentimento de absoluto horror subira pela minha garganta, rouco e abafado. A pele onde os pontos vermelhos tinham
aparecido estava quente, febril, e a carne estava mole e gélida, como o miolo de uma maçã apodrecida.
Dirigi o resto do caminho tentando persuadir-me de que de fato colocara a mão numa hera venenosa, de algum modo.
Mas no fundo da minha mente havia um outro pensamento, bem desagradável. Eu tinha uma tia, na infância, que passou os últimos dez anos de vida encarcerada longe do mundo num quarto, no andar de cima. Minha mãe levava-lhe suas refeições, e seu nome era assunto proibido.
Mais tarde descobri que ela tinha hanseníase — lepra.
Quando cheguei em casa, liguei para o Dr. Flanders, no continente. Falei com seu serviço de atendimento. O Dr.
Flanders tinha embarcado num cruzeiro de pesca, mas se fosse urgente, o Dr. Ballanger...
— Quando é que o Dr. Flanders vai voltar?
— Amanhã de tarde, no máximo. Isso seria...
— Claro.
Desliguei devagar, e então liguei para o Richard. Deixei tocar uma dezena de vezes antes de desligar. Em seguida, fiquei sentado, indeciso, durante algum tempo. A coceira tinha aumentado. Parecia emanar da própria carne.
Rolei com a cadeira de rodas até a estante de livros, e puxei a enciclopédia médica já bastante usada que eu tinha havia anos. O livro era insuportavelmente vago. Podia ser qualquer coisa, ou nada.
Reclinei e fechei os olhos. Podia ouvir o tique-taque do velho relógio de navio na prateleira, do outro lado da sala. Havia o
zumbido fraco e distante de um jato, a caminho de Miami.
Havia o murmúrio suave de minha própria respiração.
Eu ainda olhava para o livro.
A noção foi chegando de mansinho, até que bateu com uma rapidez assustadora.
Meus olhos estavam fechados, mas eu ainda olhava para o livro. O que via era algo manchado e monstruoso, a duplicata distorcida e em quatro dimensões de um livro, inconfundível apesar de tudo isso.
E eu não era o único a observar.
Abri de uma vez os olhos, sentindo o aperto em meu coração. A sensação passou um pouco, mas não inteiramente. Eu olhava para o livro, via a página impressa e os diagramas com meus próprios olhos, uma experiência cotidiana perfeitamente normal, e também via de um ângulo diferente, mais baixo, com outros olhos. Via não um livro, mas um objeto alienígena, algo com uma forma monstruosa e intenções ameaçadoras.
Levei as mãos devagar até o rosto, vendo a imagem assustadora da transformação de minha sala de estar em uma casa dos horrores.
Gritei.
Havia olhos me espiando através de fendas na carne dos meus dedos. E mesmo no instante em que eu observava, a pele se dilatava, se recolhia, conforme eles abriam um insano caminho até a superfície.
Mas não foi isso o que me fez gritar. Eu tinha olhado para o meu próprio rosto e visto um monstro.
O bugre avançou por sobre o alto da colina e Richard parou junto à varanda. O
motor acelerava e pipocava. Desci rolando minha cadeira de rodas pelo plano inclinado até ficar à direita dos degraus normais, e Richard me ajudou a entrar.
— Muito bem, Arthur — ele disse. — A festa é sua. Para onde vamos?
Apontei na direção da água, onde a Grande Duna finalmente começa aos poucos a sumir. Richard fez que sim com a cabeça. As rodas traseiras derraparam, cuspindo areia, e partimos. Eu normalmente encontrava tempo para zombar de Richard na direção, mas naquela noite não me dei ao trabalho. Havia muito mais em que pensar — e muito mais para sentir: eles não queriam a escuridão, podia senti-los esforçando-se para ver através das ataduras, obrigando-me a arrancá-las.
O bugre quicava e roncava pela areia, na direção da água, parecendo quase levantar vôo do alto das pequenas dunas.
À esquerda, o sol descia num esplendor vermelho como sangue. Bem à nossa frente, do outro lado da água, as nuvens tempestuosas avançavam em nossa direção. Raios bifurcavam-se sobre a superfície.
— É para a sua direita — eu disse. — Ao lado daquele abrigo. Richard freou o bugre, jogando areia para o ar, ao lado dos restos apodrecidos do abrigo, virou-se para o banco de trás e de lá tirou uma pá. Estremeci quando a vi.
— Onde? — Richard perguntou, sem expressão no rosto.
— Bem aqui — apontei para o local.
Ele saiu e caminhou devagar pela areia até o ponto, hesitou por um segundo, depois afundou a pá na areia. Pareceu cavar durante muito tempo. A areia que lançava por cima do ombro parecia úmida. As nuvens de chuva estavam mais escuras, mais altas, a água parecia raivosa e implacável sob suas sombras e o brilho refletido do pôr do sol.
Eu sabia, bem antes que ele parasse de cavar, que não encontraria o garoto. Eles o haviam tirado dali. Não tinha enfaixado minhas mãos na noite passada, de modo que eles podiam ver — e agir. Se tinham conseguido me usar para matar o garoto, podiam me usar para mudá-lo de lugar, mesmo enquanto dormia.
— Não há nenhum garoto, Arthur — ele atirou a pá suja dentro do bugre e sentou-se cansado no assento.
A tempestade que se aproximava lançava sobre a areia sombras em forma de crescente, que aumentavam pouco a pouco. A brisa cada vez mais intensa jogava areia sobre o corpo enferrujado do bugre. Meus dedos coçavam.
— Eles me usaram para mudá-lo de lugar — eu disse, desanimadamente. —
Estão assumindo o controle, Richard. Estão forçando o portal a se abrir aos poucos.
Uma centena de vezes por dia, eu me encontro de pé diante de algum objeto perfeitamente familiar, uma espátula, uma fotografia, até mesmo uma lata de feijões, sem a menor idéia de como fui parar ali, com as mãos esticadas, mostrando o objeto para eles, vendo-o como eles vêem, como uma obscenidade, algo deformado e grotesco...
— Arthur — ele disse. — Arthur, não. Não — sob a luz decrescente, seu rosto estava pálido de compaixão. — De
pé diante de algo, você disse. Mudando de lugar o corpo do rapaz, você disse. Mas você não pode andar, Arthur. Você está morto da cintura para baixo.
Toquei o painel do bugre.
— Isto aqui também está morto. Mas quando você entra nele, pode fazer com que se mova. Poderia fazer com que matasse. Não poderia deter você, mesmo que quisesse. —
Eu podia ouvir minha voz se elevando histericamente. — Eu sou o portal, você não entende isso? Eles mataram o garoto, Richard! Eles mudaram o corpo de lugar!
— Acho que é melhor você procurar um médico — ele disse, em voz baixa. —
Vamos voltar. Vamos...
— Pergunte! Pergunte sobre o garoto! Descubra...
— Você disse que nem sabia o nome dele.
— Devia ser do povoado. É um povoado pequeno.
Pergunte...
— Falei com Maud Harrington no telefone quando fui pegar o bugre. Se existe alguém mais fofoqueira do que ela no estado, ainda não conheci. Perguntei se tinha ouvido falar de alguém cujo filho não tivesse voltado para casa ontem à noite. Ela disse que não.
— Mas ele é daqui! Tem que ser!
Ele estendeu a mão para girar a chave na ignição, mas eu o detive. Voltou-se para olhar para mim, e comecei a tirar as ataduras das minhas mãos.
No golfo, os trovões ressoavam e rosnavam.
Não fui ao médico e não voltei a ligar para o Richard. Passei três semanas com minhas mãos enfaixadas a cada vez que saía. Três semanas apenas desejando, numa esperança cega, que aquilo simplesmente passasse. Não foi uma atitude racional; admito. Se eu fosse um homem são, que não precisasse de uma cadeira de rodas para as pernas e que tivesse tido uma vida normal numa profissão normal, poderia ter procurado o Dr.
Flanders ou o Richard. Ainda poderia, se não fosse pela memória da minha tia, afastada de tudo, virtualmente uma prisioneira, sendo devorada viva por sua própria carne que caía. Então, mantive um silêncio desesperado e rezei para acordar numa bela manhã e descobrir que fora tudo um sonho.
E aos poucos eu os sentia. Eles. Uma inteligência anônima.
Nunca me perguntei realmente qual era o seu aspecto, ou de onde tinham vindo. Era irrelevante. Eu era seu portal, e sua janela para o mundo. Havia entre nós comunicação suficiente para que eu sentisse sua repulsa e seu horror, para que soubesse que nosso mundo era bastante diferente do seu. Comunicação suficiente para que eu sentisse seu ódio cego. Mas ainda assim eles observavam. Sua carne estava encravada na minha. Comecei a me dar conta de que estavam me usando, até mesmo me manipulando.
Quando o garoto passou, acenando em seu cumprimento evasivo habitual, eu havia acabado de decidir que entraria em contato com Cresswell através de seu telefone no Departamento da Marinha. Richard estava certo sobre uma coisa — eu tinha certeza de que o quer quer que tivesse se apoderado de mim tinha feito isso no espaço ou naquela estranha órbita ao redor de Vênus. A Marinha me estudaria,
mas não ia me transformar num monstro. Eu não teria mais de acordar no meio da escuridão cheia de ruídos e sufocar um grito enquanto sentia-os a observar, observar, observar.
Minhas mãos se estenderam na direção do garoto e eu me dei conta de que não as havia enfaixado. Podia ver os olhos no crepúsculo, observando silenciosamente.
Estavam grandes, dilatados, irisados de dourado. Eu havia cutucado um deles com a ponta de um lápis, certa vez, e sentira uma dor excruciante subir pelo meu braço. O olho parecia olhar para mim com um ódio acorrentado que era pior do que a dor física. Não voltei a cutucá-los.
E agora eles observavam o garoto. Senti minha mente derrapar. Um instante mais tarde, havia perdido o controle.
O portal estava aberto. Eu cambaleava pela areia em sua direção, as pernas fracas se cruzando por tanto tempo sem uso. Meus próprios olhos pareceram se fechar, e eu só enxergava com aqueles os olhos alienígenas — vi um mar branco, monstruoso, encimado por um céu que era como uma imensa estrada púrpura, vi um barracão inclinado, corroído, que poderia ser a carcaça de alguma criatura desconhecida e carnívora, vi uma criatura abominável que se movia e respirava e carregava um aparelho de madeira e arame debaixo do braço, um aparelho construído com ângulos retos geometricamente impossíveis.
Pergunto-me o que ele pensou, aquele infeliz garoto sem nome, com a peneira debaixo do braço e os bolsos inchados por um acúmulo bizarro de moedas de turistas, cheias de areia, o que ele pensou quando me viu cambaleando em sua direção como um
maestro cego regendo uma orquestra lunática, o que ele pensou quando a última luz do dia caiu sobre minhas mãos, vermelhas e abertas e brilhando com todos aqueles olhos, o que ele pensou quando as mãos fizeram aquele gesto súbito no ar, imediatamente antes de sua cabeça explodir.
Sei o que eu pensei.
Pensei que havia espiado por sobre a beira do universo e visto o fogo do próprio inferno.
O vento soprava nas ataduras e as transformava em bandeirolas finas, agitadas, enquanto eu as desatava. As nuvens haviam borrado os restos vermelhos do pôr do sol, e as dunas estavam escuras, tomadas pelas sombras. As nuvens corriam velozes acima de nós.
— Você tem que me prometer uma coisa, Richard — eu disse, por cima do ruído do vento, que aumentava. — Você deve correr se parecer que talvez eu tente... te machucar.
Está entendendo?
— Estou. — Sua camisa aberta no pescoço se agitava e ondulava com o vento.
Seu rosto estava imóvel, e seus olhos quase não passavam de duas órbitas, no crepúsculo.
A última das ataduras se foi.
Eu olhava para o Richard, e eles olhavam para o Richard. Eu via um rosto que conhecia havia cinco anos e que passara a amar. Eles viam um monolito vivo e distorcido.
— Você está vendo — eu disse, a voz rouca. — Agora você está vendo.
Ele deu um passo involuntário para trás. Seu rosto se deformou com um súbito e incrédulo terror. Relâmpagos iluminaram o céu. Trovões atravessavam as nuvens e a água tinha ficado tão preta quanto o rio Estige.
— Arthur...
Como ele era medonho! Como eu podia ter vivido perto dele, falado com ele?
Ele não era uma criatura, mas uma pestilência muda. Ele era...
— Corra! Corra, Richard!
E ele correu. Correu dando saltos imensos. Transformou-se num andaime contra o céu gigantesco. Minhas mãos ergueram-se, ergueram-se por cima de minha cabeça num gesto gritante, estranho, os dedos apelando para a única coisa familiar naquele mundo de pesadelo — apelando para as nuvens.
E as nuvens responderam.
Surgiu a imensa listra branco-azulada de um raio, que se parecia com o fim do mundo. Atingiu Richard, envolveu-o. A última coisa de que me lembro é o fedor elétrico de ozônio e carne queimada.
Quando acordei, estava sentado calmamente em minha varanda, olhando na direção da Grande Duna. A tempestade havia passado, e o ar estava agradavelmente fresco. A lua era uma pequenina fenda prateada. A areia era virginal —
não havia sinal de Richard ou do bugre.
Baixei os olhos para minhas próprias mãos. Os olhos estavam abertos, mas vítreos. Tinham-se exaurido. Estavam cochilando.
Eu sabia muito bem o que tinha de ser feito. Antes que o portal se abrisse ainda mais, tinha de ser trancado. Para sempre. Eu já podia notar os primeiros sinais de mudanças estruturais nas próprias mãos. Os dedos estavam começando a encurtar... e a se modificar. Havia uma pequena lareira na sala de estar, e naquela estação eu tinha o hábito de
acender o fogo para me proteger do frio úmido da Flórida.
Acendi-o agora, agindo com pressa. Não tinha idéia de quando poderiam acordar e notar o que eu estava fazendo.
Quando o fogo já queimava com intensidade, saí e fui até o tambor de querosene, mergulhando as duas mãos. Eles acordaram imediatamente, gritando de dor. Quase não consegui voltar à sala de estar, e à lareira.
Mas consegui.
Tudo isso aconteceu há sete anos.
Ainda estou aqui, ainda observo os foguetes decolando. Tem havido mais foguetes, ultimamente. Esta é uma administração que se preocupa com o espaço. Já chegaram até a falar sobre mais uma série de sondas tripuladas para Vênus.
Descobri o nome do garoto, não que isso importe. Ele era do povoado, exatamente como pensei. Mas sua mãe imaginava que ia ficar com um amigo no continente naquela noite, e o alarme não foi dado até a segunda-feira seguinte. Richard
— bem, todo mundo pensava que Richard era um cara esquisitão, de qualquer modo.
Suspeitam que tenha voltado para Maryland ou caído de amores por alguma mulher.
Quanto a mim, sou tolerado, embora eu mesmo tenha uma boa reputação por excentricidade. Afinal de contas, quantos ex-astronautas escrevem regularmente aos seus representantes eleitos, em Washington, defendendo a idéia de que o dinheiro destinado à exploração espacial poderia ser melhor gasto em outro lugar?
Eu me viro muito bem com estes ganchos. Houve uma dor terrível durante o primeiro ano, mais ou menos, mas o corpo humano pode se ajustar a praticamente qualquer coisa.
Barbeio-me com eles e até dou os laços dos meus próprios sapatos. E
como você pode ver, datilografo bem. Não imagino que vá encontrar dificuldades em colocar a escopeta dentro da boca, ou puxar o gatilho. Começou outra vez há três semanas, sabe.
Há um círculo perfeito de 12 olhos dourados no meu peito.
1- Marionete que estrelava um programa televisivo para crianças entre 1947 e 1960, nos EUA. (N. da E.)
2- Antena de grande alcance projetada para funcionar na profundezas do espaço. (N. da T.)
A Máquina de Passar Roupa
O guarda Hunton chegou à lavanderia no exato momento em que a ambulância partia —
devagar, sem sirene ou luzes. Sinistro. Lá dentro, o escritório estava cheio de pessoas silenciosas, andando a esmo, algumas das quais choravam. O local das máquinas
em si estava vazio; as grandes lava-roupas automáticas na outra extremidade não haviam sido sequer desligadas. Isso deixou Hunton bastante desconfiado. Aquele monte de gente devia estar no local do acidente, e não no escritório.
Era assim que as coisas funcionavam — o animal humano tinha um desejo intrínseco de ver os restos mortais. Então era porque tinha sido grave. Hunton sentiu o estômago se contrair, como sempre acontecia quando o acidente era feio. Catorze anos limpando lixo humano de estradas e ruas e calçadas embaixo de prédios muito altos não tinham sido capazes de eliminar aquele nó na barriga, como se alguma coisa maligna tivesse se coagulado ali.
Um homem numa camisa branca viu Hunton e caminhou em sua direção com relutância. Era um homem que mais parecia um búfalo, com a cabeça projetada para frente por entre os ombros, e o nariz e as bochechas cheios de veias, ou devido à pressão alta, ou a muitas conversas com a garrafa. Tentava escolher as palavras, mas após duas tentativas Hunton interrompeu-o bruscamente:
— O senhor é o proprietário? Sr. Gartley?
— Não... Não. Sou Stanner. O supervisor. Meu Deus, isto...
Hunton pegou o bloco.
— Por favor, mostre-me o local do acidente, Sr. Stanner, e me diga o que aconteceu.
Stanner pareceu ficar mais branco ainda; as manchas em seu nariz e bochechas ressaltaram como se fossem marcas de nascença.
— E-eu preciso mesmo?
Hunton ergueu as sobrancelhas.
— Sinto muito, mas precisa. A ligação que recebi disse que era sério.
— Sério... — Stanner parecia estar travando uma luta com a garganta; por um instante seu pomo-de-adão subiu e desceu como um macaco num galho. — A Sra.
Frawley morreu. Jesus, eu gostaria que Bill Gartley estivesse aqui.
— O que aconteceu?
Stanner disse:
— É melhor vir até aqui.
Levou Hunton por uma fileira de máquinas de passar manuais, uma máquina de dobrar camisas, e então parou junto de uma marcadora mecânica. Passou a mão trêmula pela testa.
— O senhor vai ter que continuar sozinho, seu guarda. Não consigo olhar de
novo. Aquilo me deixa... Não consigo. Desculpe-me.
Hunton circundou a marcadora mecânica com um certo sentimento de desprezo pelo homem. Eles dirigem um negócio desleixado, fazem economia porca, usam canos soldados em casa para o vapor quente, trabalham com perigosos produtos químicos de limpeza sem a proteção adequada e, por fim, alguém se machuca. Ou morre. Então eles não conseguem olhar. Não conseguem...
Hunton viu.
A máquina ainda estava funcionando. Ninguém a desligara.
A máquina que mais tarde ele viria a conhecer intimamente: a Passadeira e Dobradeira Rápida Hadley-Watson Modelo-6.
Um nome comprido e deselegante. As pessoas que trabalhavam ali em meio ao vapor e à umidade tinham um nome melhor para ela: A
máquina de passar roupa. 1
Hunton olhou demoradamente, imóvel, e em seguida fez algo que em 14 anos como agente da lei não fizera: virou-se de costas, levou a mão trêmula à boca e vomitou.
— Você não comeu muita coisa — disse Jackson.
As mulheres estavam lá dentro, lavando os pratos e falando sobre os bebês, enquanto John Hunton e Mark Jackson sentavam-se nas cadeiras de jardim perto do churrasco que cheirava bem. Hunton sorriu de leve diante daquele eufemismo. Ele não havia comido nada.
— Hoje houve um dos feios — ele disse. — O pior.
— Batida de carro?
— Não. Industrial.
— Barra-pesada?
Hunton não respondeu de imediato, mas seu rosto se contorceu involuntariamente. Ele tirou uma cerveja do isopor entre eles, abriu-a, e esvaziou a metade.
— Imagino que vocês, professores universitários, não sabem nada a respeito de lavanderias industriais?
Jackson deu um risinho.
— Este aqui sabe. Passei um verão trabalhando numa, antes de me formar.
— Então você conhece a máquina que eles chamam de passadeira rápida?
Jackson fez que sim.
— Claro. Fazem peças grandes e úmidas deslizar por dentro dela, sobretudo lençóis e toalhas. Uma máquina grande, comprida.
— É essa — Hunton disse. — Uma mulher chamada Adelle Frawley ficou presa numa na Lavanderia Blue Ribbon, do outro lado da cidade. A máquina sugou-a lá para dentro.
Jackson pareceu subitamente enjoado.
— Mas... mas isso não pode acontecer, Johnny. Há uma barra de segurança. Se uma das mulheres que alimenta a máquina acidentalmente fica com a mão por baixo, a barra avança e faz a máquina parar. Pelo menos é disso que eu me lembro.
Hunton fez que sim.
— É uma lei estadual. Mas aconteceu.
Hunton fechou os olhos e na escuridão podia ver outra vez a máquina de passar Hadley-Watson, como vira aquela tarde.
Tinha o formato de uma caixa comprida e retangular, com 9
metros por 1,8 metro. Ao fim do alimentador, uma esteira móvel de
lona passava por baixo da barra de segurança, subia, num ângulo suave, depois descia novamente. A esteira levava os lençóis amassados, secos no vapor, num ciclo contínuo por
cima e por baixo de 16 imensos cilindros giratórios, que constituíam a parte principal da máquina. Oito cilindros por cima e oito por baixo, e os lençóis comprimidos no meio como finas fatias de presunto entre pedaços superaquecidos de pão. O calor do vapor nos cilindros podia ser ajustado a até 150 graus, para a secagem máxima. A pressão sobre os lençóis que deslizavam sobre a esteira móvel de lona era ajustada para mais de 700 quilos por metro quadrado, para alisar cada ruga.
E a Sra. Frawley, de algum modo, tinha sido pega e arrastada para dentro. Os cilindros de aço, recobertos de amianto, estavam vermelhos como tinta usada para pintar celeiros, e o vapor que subia da máquina levava o fedor enojante de sangue quente.
Pedaços de sua blusa branca e suas calças azuis, até mesmo fragmentos rasgados do seu sutiã e de suas calcinhas tinham sido arrancados e ejetados pela extremidade da máquina quase 10 metros adiante, os maiores pedaços de roupa manchados de sangue e dobrados com uma perfeição grotesca pela máquina automática de dobrar. Mas nem isso chegava a ser o pior.