Sombras da Noite

Stephen King · Capítulo 5 de 5 · parte 1/4

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Sombras da Noite

As Crianças do Milharal

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Às vezes é bom estar em companhia de alguém com quem você não esteja envolvido.

— Acho que é isso — ela fez uma pausa. — Quem é você, Ed, além de ser uma espécie de anjo da guarda? Quem é você, de verdade? — de repente, era importante para ela saber disso.

Ele deu de ombros.

— Ninguém importante. Apenas um daqueles caras com jeito engraçado que você vê se esgueirando pelo campus com um bocado de livros debaixo do braço...

— Ed, você não tem um jeito engraçado.

— Claro que tenho — ele disse, e sorriu. — Nunca cheguei a passar da fase da acne da adolescência, nunca fui procurado por uma fraternidade estudantil importante, nunca cheguei a causar algum impacto nas rodas sociais.

Sou um rato de dormitório que tira notas altas, só isso.

Quando as grandes empresas vierem fazer entrevistas no campus na próxima primavera, provavelmente assinarei contrato com uma delas, e então Ed Hamner terá desaparecido para sempre.

— Isso seria uma grande pena — ela disse, ternamente.

Ele sorriu, e foi um sorriso bastante peculiar. Quase amargo.

— E a sua família? — ela perguntou. — Onde você vive, o que gosta de fazer...

— Numa outra ocasião — ele disse. — Quero te levar de volta. Você tem um longo vôo amanhã, e um bocado de preocupações.

Aquela noite deixou-a relaxada pela primeira vez desde a morte de Tony, sem a sensação de que em algum lugar dentro dela havia uma mola mestra retesada quase a ponto de se romper. Achou que o sono viria facilmente, mas não veio.

Algumas questões a incomodavam.

Alice me contou... pobre Beth.

Mas Alice estava passando o verão em Kittery, a quase 130

quilômetros de distância de Skowhegan. Devia ter estado em Lakewood para assistir a uma peça de teatro.

O Corvette, último modelo. Caro. O emprego nos bastidores de um teatro em Lakewood não daria para pagar. Será que os pais dele eram ricos?

Ele pedira exatamente a comida que ela própria teria pedido. Talvez a única coisa do cardápio que ela teria comido o suficiente para descobrir que estava faminta.

Os cigarros mentolados, o jeito como ele lhe dera um beijo de boa-noite, exatamente com ela queria ser beijada. E...

Você tem um longo vôo amanhã.

Ele sabia que ela estava indo para casa porque ela lhe contara. Mas como sabia que ia de avião? Ou que o vôo era longo?

Isso a incomodava. Incomodava porque ela estava a meio caminho de se apaixonar por Ed Hamner.

Eu sei do que você precisa.

Como a voz do comandante de um submarino lendo as braças de profundidade, as palavras com que ele a cumprimentara pela primeira vez acompanharam-na ao submergir no sono.

Ele não foi ao pequenino aeroporto de Augusta despedir-se dela, e, enquanto esperava pelo avião, ela ficou surpresa com o próprio desapontamento. Estava pensando sobre como é possível passar quase que imperceptivelmente a depender de uma pessoa, à semelhança de um toxicômano e seu vício. O viciado se ilude afirmando que pode largar a droga na hora que quiser, quando na verdade...

— Elizabeth Rogan — anunciou o alto-falante. — Por favor, atenda o telefone branco de cortesia.

Ela correu para atender. E a voz de Ed disse:

— Beth?

— Ed! Que bom te ouvir. Achei que talvez...

— Que eu fosse te encontrar? — ele riu. — Você não precisa de mim para isso.

É uma garota crescida e forte. Bonita, também. Pode lidar com isso. Eu te vejo na faculdade?

— Eu... Sim, acho que sim.

— Ótimo.

Houve um momento de silêncio. E então ele disse:

— Porque eu te amo. Eu te amo desde a primeira vez que a vi.

Sua língua estava paralisada. Ela não conseguia falar. Mil pensamentos rodopiavam em sua mente.

Ele riu outra vez, com ternura.

— Não, não diga nada. Não agora. Eu vou te ver. Haverá tempo, então. Todo o tempo do mundo. Boa viagem, Beth.

Até mais.

E ele desligou, deixando-a com o telefone branco na mão e seus pensamentos e perguntas caóticos.

Setembro.

Elizabeth retomou a antiga rotina da universidade e das aulas como uma mulher que alguém interrompera no meio do seu tricô. Dividiu o quarto com Alice outra vez, é claro; eram companheiras desde a época de calouras, quando o computador do departamento de alojamento as colocara juntas. Sempre tinham se dado bem, apesar de interesses e personalidades diferentes. Alice era a estudiosa das duas, aluna do último ano de química com uma média de 3,6.

Elizabeth era mais sociável, menos apaixonada pelos livros, no último ano de pedagogia e matemática.

Ainda se davam bem, mas uma certa frieza parecia ter surgido entre as duas depois do verão. Elizabeth atribuía o fato à diferença de opiniões sobre a prova final de sociologia, e não a mencionava.

Os acontecimentos do verão começaram a tomar a aparência de um sonho. Às vezes parecia, de um modo engraçado, que Tony talvez fosse um garoto que ela conhecera durante a escola. Ainda era doloroso pensar nele,

e ela evitava tocar no assunto com Alice, mas a sensação era como o latejar de um velho machucado, e não a dor aguda de uma ferida aberta.

O que doía mais era Ed Hamner não lhe telefonar.

Uma semana se passou, depois duas, e então chegou outubro. Ela conseguiu uma lista telefônica dos alunos com a União e procurou pelo nome dele. Não adiantou; após seu nome, só o que havia eram as palavras “Mill St.”. E a rua Mill era realmente muito comprida. Assim sendo, ela esperou, e quando os rapazes a convidavam para sair — o que acontecia com freqüência — ela recusava. Alice alteava as sobrancelhas, mas não dizia nada; estava enterrada viva num projeto de bioquímica de seis semanas, e passava a maior parte do tempo na biblioteca. Elizabeth notou os compridos envelopes brancos que sua colega de quarto recebia uma ou duas vezes por semana pelo correio

— já que normalmente voltava das aulas primeiro —, mas não deu importância a eles. A agência de detetives particulares era discreta; não imprimia o endereço do remetente em seus envelopes.

Quando o interfone soou, Alice estava estudando.

— Você atende, Liz. De qualquer modo, deve ser mesmo para você.

Elizabeth foi até o interfone.

— Pois não?

— Um cavalheiro te procurando aqui na porta, Liz.

Ah, meu Deus.

— Quem é? — ela perguntou, aborrecida, passando mentalmente em revista seu estoque esfarrapado de desculpas. Enxaqueca. Ainda não tinha usado essa naquela semana.

A garota da recepção disse, achando graça:

— O nome dele é Edward Jackson Hamner Júnior, nada menos do que isso —

ela baixou a voz. — Está usando meias descombinadas.

A mão de Elizabeth voou para a gola do roupão.

— Ah, meu Deus. Diga a ele que já vou descer. Não, diga a ele que só vai levar um minuto. Não, uns dois minutos, tudo bem?

— Claro — disse a voz, num tom suspeito. — Não vá ter uma hemorragia.

Elizabeth tirou do armário um par de calças compridas.

Tirou uma minissaia de brim. Tocou nos rolinhos em seu cabelo e soltou um gemido. Começou a arrancá-los.

Alice observava tudo aquilo com calma, sem dizer nada, mas ficou olhando com interesse para a porta durante um bom tempo, depois que Elizabeth saiu.

Ele parecia exatamente o mesmo; não havia mudado nada.

Usava sua jaqueta militar verde, que ainda dava a impressão de ser pelo menos dois números acima do seu.

Uma das hastes de seus óculos com armação de tartaruga tinha sido consertada com fita isolante. Suas calças jeans pareciam novas e duras, a quilômetros de distância da aparência macia e desbotada que estava na moda e que

Tony conseguia sem fazer o menor esforço. Usava uma meia verde e outra marrom.

E ela soube que o amava.

— Por que você não me ligou antes? — ela perguntou, caminhando em sua direção.

Ele enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e sorriu timidamente.

— Pensei em te dar um tempo para sair um pouco.

Encontrar outros caras.

Descobrir o que você quer.

— Acho que eu já sei.

— Ótimo. Gostaria de ir ao cinema?

— O que você quiser — ela disse. — Qualquer coisa.

Conforme os dias se passaram, ocorreu a ela que nunca encontrara ninguém, do sexo masculino ou feminino, que parecesse compreender seus estados de espírito e necessidades tão completamente e sem precisar de palavras. Seus gostos coincidiam.

Enquanto Tony gostava de filmes violentos do tipo O

Poderoso Chefão, Ed parecia preferir as comédias ou os dramas não violentos. Levou-a ao circo certa noite, quando ela se sentia deprimida, e tiveram momentos hilariantes e maravilhosos. Encontros para estudo eram realmente encontros para estudo, não apenas uma desculpa para ficarem se agarrando no terceiro andar da União. Ele a levava para dançar e parecia particularmente bom nas danças de antigamente, que ela adorava. Ganharam um

troféu de danças dos anos 1950 num Baile de Nostalgia.

Mais importante do que isso, ele parecia compreender quando ela queria ser ardente. Não a forçava ou pressionava; ela nunca tinha a sensação que havia tido com alguns dos outros garotos com quem saíra — de que existia um cronograma interno para o sexo, começando com um beijo de boa-noite no Encontro nº 1 e terminando com uma noite no apartamento emprestado de algum amigo no Encontro nº 10. O apartamento na Mill Street era apenas de Ed, num terceiro andar sem elevador. Iam para lá com freqüência, e Elizabeth não tinha a sensação de que estava adentrando a alcova de algum Don Juan dos pobres. Ele não a pressionava. Parecia honestamente querer o que ela queria, e quando ela queria. E as coisas progrediam.

Quando as aulas recomeçaram, depois da pausa no meio do semestre, Alice parecia estranhamente preocupada. Várias vezes, naquela tarde, antes que Ed viesse buscá-la — iam jantar fora —, Elizabeth levantou os olhos e descobriu sua colega de quarto franzindo a testa para um grande envelope pardo sobre sua mesa. Numa das ocasiões, Elizabeth quase perguntou do que se tratava, depois decidiu não fazê-lo. Provavelmente, algum novo projeto.

Nevava forte quando Ed a trouxe de volta ao dormitório.

— Amanhã — ele perguntou. — Lá em casa?

— Claro. Vou fazer pipocas.

— Ótimo — ele disse, e beijou-a. — Eu te amo, Beth.

— Também te amo.

— Você quer dormir lá? — Ed perguntou, num tom tranqüilo.

— Amanhã à noite?

— Tudo bem, Ed — ela fitou-o nos olhos. — O que você quiser.

— Ótimo — ele disse, calmo. — Durma bem, mocinha.

— Você também.

Ela imaginava que Alice já estivesse dormindo, e entrou no quarto sem fazer barulho, mas Alice estava acordada, sentada diante de sua escrivaninha.

— Alice, tudo bem com você?

— Tenho que conversar com você, Liz. Sobre o Ed.

— O que exatamente?

Alice falou, com cautela:

— Acho que, quando eu terminar, nós duas não vamos mais ser amigas. Para mim, isso é abrir mão de uma coisa muito importante. Então, quero que você ouça com atenção.

— Nesse caso, talvez seja melhor você não dizer nada.

— Tenho que tentar.

Elizabeth sentiu sua curiosidade inicial transformar-se em raiva.

— Você andou espionando o Ed?

Alice apenas olhou para ela.

— Você estava com inveja da gente?

— Não. Se eu tivesse inveja de você e seus namorados, teria me mudado daqui dois anos atrás.

Elizabeth encarou-a, perplexa. Sabia que o que Alice estava dizendo era verdade.

E subitamente sentiu medo.

— Duas coisas me intrigaram sobre Ed Hamner — Alice disse. — Primeiro, você me escreveu falando da morte de Tony e de que fora muita sorte eu ter encontrado Ed no Teatro Lakewood... de como ele havia ido até Boothbay e te ajudado para valer.

Mas eu não me encontrei com ele, Liz. Eu não cheguei nem perto do Teatro Lakewood no verão passado.

— Mas...

— Mas como ele sabia que Tony tinha morrido? Não faço idéia. Só sei que não fui eu quem contou. A outra coisa foi aquela história de memória eidética. Meu Deus, Liz, ele não consegue nem mesmo se lembrar das meias que está usando!

— Isso é completamente diferente — Liz disse, severa. —

Isso...

— Ed Hamner estava em Las Vegas no verão passado —

Alice disse, a voz suave.

— Voltou em meados de julho e se hospedou num quarto de motel em Pemaquid. Isso fica bem em frente ao perímetro urbano de Boothbay Harbor. Quase como se ele estivesse esperando que você viesse a precisar dele.

— Isso é loucura! E como você ficou sabendo que Ed estava em Las Vegas?

— Encontrei Shirley D’Antonio pouco antes de as aulas começarem. Ela estava trabalhando no Restaurante Pines, que fica bem em frente ao teatro. Disse que nunca havia visto ninguém parecido com Ed Hamner. Então fiquei sabendo que ele tinha mentido para você sobre uma porção de coisas. Assim, fui procurar meu pai, expliquei tudo e ele me deu sinal verde.

— Para fazer o quê? — Elizabeth perguntou, aturdida.

— Para contratar uma agência de detetives particulares.

Elizabeth ficou de pé.

— Não diga mais nada, Alice. Já chega — ela tomaria o ônibus até a cidade, passaria a noite no apartamento de Ed.

Só estava mesmo esperando que ele a convidasse, de qualquer modo.

— Pelo menos saiba — Alice disse. — Depois tome sua decisão.

— Não preciso saber de nada além do fato de que ele é gentil e bom e...

— O amor é cego, não é? — Alice disse, e sorriu amargamente. — Bem, quem sabe talvez eu ame você um pouquinho, Liz. Você já pensou nisso?

Elizabeth se virou e olhou para ela por um longo instante.

— Se ama, tem um jeito engraçado de demonstrar — ela disse. — Vá em frente, então. Talvez você esteja certa.

Talvez eu te deva isso. Vá em frente.

— Você conheceu Ed há muito tempo.

— Eu... o quê?

— Escola Pública 119, Bridgeport, Connecticut.

Elizabeth ficou muda. Ela e os pais tinham morado em Bridgeport durante seis anos, mudando-se para sua atual casa no ano em que ela terminara a segunda série. Ela havia estudado na Escola Pública 119, mas...

— Alice, tem certeza?

— Você se lembra dele?

— Não, é claro que não! — mas ela se lembrava, sim, da sensação que tivera da primeira vez em que vira Ed, a sensação de déjà vu.

— As meninas bonitas nunca se lembram dos patinhos feios, eu acho. Talvez ele estivesse apaixonado por você. Você cursou a primeira série com ele, Liz. Talvez ele se sentasse no fundo da sala e apenas... te observasse. Ou no pátio.

Apenas um garoto insignificante que já usava óculos e provavelmente aparelho e você nem mesmo conseguia se lembrar dele, mas aposto que ele se lembra de você.

Elizabeth perguntou:

— O que mais?

— A agência o localizou através das impressões digitais tiradas da escola. Depois disso, foi só uma questão de encontrar as pessoas e falar com elas. O detetive designado para o caso disse que não conseguia entender algumas das informações que estava obtendo. Nem eu. Há coisas assustadoras.

— É melhor que haja mesmo — disse Elizabeth, carrancuda.

— Ed Hamner, o pai, era um jogador compulsivo. Trabalhava para uma das principais agências de publicidade de Nova York e então se mudou para Bridgeport meio que fugido. O

detetive disse que ele devia a quase todas as grandes mesas de pôquer e agentes de apostas da cidade.

Elizabeth fechou os olhos.

— Essas pessoas realmente garantiram que seu dinheiro compraria sujeira de primeira, não foi?

— Talvez. Seja como for, o pai de Ed se meteu em outra encrenca em Bridgeport. Jogou novamente, mas dessa vez ele se envolveu com um agiota dos grandes.

Arranjou uma perna e um braço quebrados, de algum modo.

O detetive disse que duvida ter sido acidente.

— Mais alguma coisa? — Elizabeth perguntou. —

Espancamento de crianças?

Estelionato?

— Ele arranjou um emprego numa agência de propaganda de segunda em Los Angeles, em 1961. Mas estava perto demais de Las Vegas. Começou a passar os fins de semana por lá, jogando alto... E perdendo. Então começou a levar Ed Júnior com ele. E

começou a ganhar.

— Você está inventando tudo isso. Só pode estar.

Alice deu um tapinha no relatório diante dela.

— Está tudo aqui, Liz. Algumas dessas coisas não serviriam como prova no tribunal, mas o detetive disse que nenhuma

das pessoas com quem falou teria motivo para mentir. O pai de Ed chamava o filho de “talismã da sorte”. A princípio, ninguém protestou contra a presença do garoto, mesmo que sua entrada nos cassinos fosse ilegal.

Seu pai era um pato. Mas então o pai começou a jogar só na roleta, apostando apenas ímpar-par e preto-e-vermelho. No final do ano, o menino estava proibido de entrar em todos os cassinos da região. E seu pai se interessou por um novo tipo de jogo.

— Qual?

— O mercado de ações. Quando os Hamner se mudaram para Los Angeles. Em meados de 1961, moravam num cubículo pelo qual pagava 90 dólares por mês, e o Sr.

Hamner dirigia um Chevrolet 52. No final de 1962, apenas 16 meses depois, ele largara o emprego, e a família vivia em sua própria casa, em San Jose. O Sr. Hamner dirigia um Thunderbird novinho em folha, e a Sra. Hamner tinha um Volkswagen. Como você sabe, é contra a lei receber um garotinho nos cassinos de Nevada, mas ninguém pode impedi-lo de ler a página do mercado de ações nos jornais.

— Você está querendo dizer que Ed... que ele era capaz de...

Alice, você está maluca!

— Não estou querendo dizer nada. A não ser apenas que ele talvez soubesse do que o seu pai precisava.

Eu sei do que você precisa.

Foi quase como se as palavras tivessem sido sussurradas em seu ouvido, e ela estremeceu.

— A Sra. Hamner passou os seis meses seguintes transitando por várias instituições mentais. Supostamente por distúrbios nervosos, mas um servente com quem o detetive conversou disse-lhe que ela era quase psicótica.

Alegava que seu filho era um capanga do diabo. Apunhalou-o com uma tesoura em 1964. Tentou matá-lo. Ela... Liz?

Liz, o que foi?

— A cicatriz — ela murmurou. — Fomos nadar na piscina da Universidade certa noite, há cerca de um mês. Ele tem uma cicatriz profunda no ombro... aqui — ela colocou a mão logo acima do seio esquerdo. — Ele disse... — uma onda de náusea tentou subir por sua garganta, e ela teve de esperar que retrocedesse antes de conseguir continuar. — Ele disse que caiu numa paliçada quando era criança.

— Quer que eu continue?

— Termine, por que não? Que mal pode me fazer, agora?

— A mãe dele teve alta de uma instituição mental bem luxuosa no Vale de San Joaquin, em 1968. Os três saíram de férias. Pararam num local de piquenique na Rota 101. O

garoto estava juntando lenha quando ela jogou o carro por cima da borda do penhasco, sobre o oceano, consigo mesma e com o marido dentro. Talvez tenha sido uma tentativa de atropelar Ed. Naquela época, ele estava com quase 18 anos. Seu pai lhe deixou uma carteira de ações de um milhão de dólares. Ed veio para o leste há um ano e meio, e se matriculou aqui. Este é o fim.

— Não há mais nenhum esqueleto escondido no armário?

— Liz, isso já não é suficiente?

Ela se levantou.

— Não é de se admirar que ele nunca queira mencionar a família. Mas você tinha que desenterrar o cadáver, não tinha?

— Você está cega — Alice falou. Elizabeth vestia o casaco.

— Suponho que vai procurá-lo.

— Correto.

— Porque o ama.

— Correto.

Alice atravessou o quarto e a segurou pelo braço.

— Será que dá para tirar essa expressão irritada e petulante da cara por um segundo e pensar? Ed Hamner consegue fazer coisas com as quais o restante de nós só pode sonhar.

Ganhou para o pai uma fortuna na roleta, e o fez ficar rico jogando no mercado de ações. Parece ser capaz de deliberadamente ganhar o que quiser. Talvez seja algum tipo de médium limitado. Talvez tenha o dom da precognição. Não sei. Existem pessoas que parecem ter um pouco disso. Liz, nunca te ocorreu que ele a forçou a amá-lo?

Liz virou-se para ela devagar.

— Nunca ouvi nada tão ridículo na minha vida.

— É mesmo? Ele te deu aquela prova de sociologia do mesmo modo como dava para o pai o resultado da roleta!

Ele nunca se matriculou em nenhum curso de sociologia! Eu verifiquei. Fez aquilo porque era a única maneira de fazer com que você o levasse a sério!

— Pare com isso! — Liz exclamou. Tapou os ouvidos com as mãos.

— Ele sabia qual era a prova, e soube quando Tony morreu, e sabia que você ia para casa de avião! Sabia até mesmo qual o momento psicológico certo para entrar de novo em sua vida, em outubro passado.

Elizabeth soltou-se dela e abriu a porta.

— Por favor — Alice falou. — Por favor, Liz, escute. Não sei como ele consegue fazer essas coisas. Duvido até mesmo que ele saiba com certeza. Talvez não tenha a intenção de te causar nenhum mal, mas já causou. Fez com que você o amasse porque

sabia dos seus desejos e necessidades mais secretos, e isso não é amor em absoluto. É

violação.

Elizabeth bateu a porta e desceu a escada correndo.

Tomou o último ônibus da noite para a cidade. Nevava mais forte do que nunca, e o ônibus se arrastava sobre os montes de neve acumulados na estrada feito um besouro aleijado.

Elizabeth estava sentada no fundo, uma entre seis ou sete passageiros, com mil pensamentos na mente.

Os cigarros mentolados. A bolsa de valores. O modo como ele sabia que o apelido da mãe dela era Deedee. Um garotinho sentado no fundo de uma sala de aula do primeiro ano, olhando encantado para uma garotinha esperta e jovem demais para compreender que...

Eu sei do que você precisa.

Não. Não. Não. Eu o amo de verdade!

Amava mesmo? Ou estava apenas encantada em estar na companhia de alguém que sempre pedia a comida certa, levava-a para o filme certo, e não queria ir para qualquer lugar ou fazer qualquer coisa que ela não quisesse? Será que ele era apenas uma espécie de espelho psicológico, mostrando-lhe apenas o que ela queria ver? Os presentes que ele lhe dava eram sempre os presentes certos. Quando o tempo esfriou subitamente e ela queria muito um secador de cabelos, quem foi que lhe deu um de presente? Ed Hamner, é claro. Tinha visto um à venda na Day’s, por acaso, ele dissera. Ela ficara encantada, naturalmente.

Isso não é amor em absoluto. É violação.

O vento fustigou seu rosto quando ela desceu na esquina das ruas Main e Mill, e ela se encolheu, enquanto o ônibus se afastava com um suave ronco de motor a diesel. As lanternas traseiras reluziram brevemente na noite, em meio à neve, e desapareceram.

Ela nunca se sentira tão só em toda sua vida.

Ele não estava em casa.

Ela ficou parada diante de sua porta depois de bater por cinco minutos, desorientada. Ocorreu-lhe que não tinha a menor idéia do que Ed fazia ou quem ele via quando não estava com ela. O assunto nunca surgia.

Talvez ele esteja ganhando dinheiro numa mesa de pôquer para comprar outro secador de cabelos.

Com uma determinação súbita, ficou na ponta dos pés e tateou no alto do batente da porta, procurando a cópia da chave que ela sabia que ele guardava ali. Seus dedos esbarraram na chave, que caiu no chão com um ruído metálico.

Ela a apanhou e destrancou a porta.

O apartamento parecia diferente sem Ed — artificial, como um cenário de teatro.

Ela sempre achara divertida a idéia de que alguém tão pouco preocupado com sua aparência pessoal tivesse uma residência tão bem arrumada, digna de um mostruário.

Quase como se ele tivesse decorado o apartamento para ela, e não para si mesmo. Mas é claro que isso era loucura.

Não era?

Ocorreu-lhe novamente, como se fosse a primeira vez, o quanto gostava da poltrona em que se sentava quando estudavam ou viam TV. Era totalmente adequada, do modo como a cadeira do ursinho tinha sido para Cachinhos Dourados. Não era dura

demais, nem macia demais. Totalmente adequada. Como tudo o que ela associava a Ed.

Havia duas portas se abrindo para a sala. Uma dava para a cozinha, e a outra, para o quarto.

O vento assobiava lá fora, fazendo o velho prédio estalar vez por outra.

No quarto, ela contemplou a cama de metal. Não parecia dura nem macia demais, mas na medida certa. Uma voz insidiosa zombou: É quase perfeito demais, não é?

Ela foi até a estante de livros e correu os olhos aleatoriamente pelos títulos. Um deles lhe saltou aos olhos,

e ela o apanhou: Danças da Moda nos Anos 1950. O livro abriu-se naturalmente numa certa parte, a mais ou menos um quarto do fim. Um capítulo intitulado “O Stroll” tinha sido marcado fortemente com lápis de cera vermelho, e na margem a palavra BETH havia sido escrita em letras grandes, quase de forma acusatória.

Eu devia ir embora agora, ela disse a si mesma. Ainda posso salvar alguma coisa.

Se ele voltasse agora, jamais conseguiria encará-lo novamente, e Alice ganharia. O

dinheiro que gastou realmente lhe teria valido a pena.

Mas não podia parar, e sabia disso. As coisas tinham ido longe demais.

Foi até o armário e girou a maçaneta, mas a porta não se abriu. Trancada.

Pelo sim, pelo não, ficou na ponta dos pés outra vez e tateou por cima da porta.

Seus dedos tocaram numa chave. Ela a apanhou, e em algum lugar dentro dela uma voz disse, nitidamente: Não faça isso. Ela pensou na mulher do Barba Azul, e no que ela encontrara ao abrir a porta errada. Mas era mesmo tarde demais; se ela não seguisse adiante agora, ficaria eternamente na dúvida. Abriu o armário.

E teve a estranha sensação de que ali era o lugar onde o verdadeiro Ed Hamner Jr. estivera se escondendo todo o tempo.

O armário estava uma bagunça — um amontoado de roupas, livros, uma raquete de tênis sem as cordas, um par

de tênis surrados, velhas apostilas e relatórios espalhados a esmo, uma embalagem de fumo de cachimbo Borkum Riff meio entornado. Sua jaqueta militar verde estava atirada na outra extremidade.

Ela pegou um dos livros e piscou os olhos ao ler o título. O

Galho Dourado.

Outro. Ritos Antigos, Mistérios Modernos. Outro. Vodu Haitiano. E um último, encapado com couro velho e surrado, o título quase apagado da lombada pelo intenso manuseio, cheirando vagamente a peixe podre: Necronomicon. Ela o abriu a esmo, ofegou e o atirou para longe, a obscenidade ainda gravada em seus olhos.

Mais para recobrar a compostura do que qualquer outra coisa, estendeu a mão para pegar a jaqueta militar verde, sem admitir para si mesma que pretendia bisbilhotar nos bolsos. Mas quando a apanhou, viu uma outra coisa. Uma caixinha de metal...

Curiosa, ela revirou-a nas mãos, ouvindo objetos chacoalhar lá dentro. Era o tipo de caixa que um garoto talvez escolhesse para guardar seus tesouros. Impressas em alto relevo no fundo de lata estavam as palavras “Bridgeport Candy Co”. Ela a abriu.

A boneca estava por cima. A boneca Elizabeth.

Ela fitou-a e começou a tremer.

A boneca estava vestida com um trapo de náilon vermelho, parte de um lenço que ela perdera dois ou três meses antes. No cinema, com Ed. Os braços eram escovas de limpar cachimbo cobertas com um alguma coisa que parecia musgo azulado. Musgo apanhado num cemitério, talvez. Havia cabelo na cabeça da boneca, mas aquilo

estava errado. Era como finos fios de linho branco, presos com fita adesiva na cabeça feita de

borracha. Seu próprio cabelo era de um louro cor de areia, e mais grosso. Aquele se parecia mais com seu cabelo quando ela era...

Quando ela era uma garotinha.

Ela engoliu em seco sentindo um nó na garganta. Quando estavam na primeira série, não tinham todos eles recebido tesouras, tesouras pequeninas sem pontas, no tamanho adequado para a mão de uma criança? Teria aquele garotinho de outrora se esgueirado por trás dela, talvez na hora da sesta, e...

Elizabeth pôs a boneca de lado e voltou a olhar dentro da caixa. Havia uma ficha azul de pôquer e uma estranha figura de seis lados desenhada sobre ela, com tinta vermelha. Um surrado obituário de jornal — Sr. e Sra.

Edward Hamner. Os dois sorriam inexpressivamente na foto que acompanhava a notícia, e ela viu que a mesma figura de seis lados tinha sido desenhada ao redor de suas cabeças, dessa vez com tinta preta, como uma mortalha.

Duas outras bonecas, um homem e uma mulher. Sua semelhança com os rostos na fotografia do obituário era hedionda e inequívoca.

E uma outra coisa.

Ela a trouxe para fora, e seus dedos tremiam tanto que quase a deixou cair. De seus lábios escapou um gemido estrangulado.

Era um carrinho em miniatura, do tipo que os garotos pequenos compram nas lojas e depois montam usando cola de aeromodelagem. Aquele era um Fiat. Tinha sido pintado

de vermelho. E um pedaço do que parecia ser uma das camisas de Tony fora preso com fita adesiva na dianteira.

Ela virou o carrinho de cabeça para baixo. Alguém quebrara a parte inferior a marteladas.

— Então você encontrou, sua vadia ingrata.

Ela deu um grito e deixou cair o carrinho e a caixa. Os tesouros malévolos dele se espalharam pelo chão.

Ele estava de pé junto à porta, encarando-a. Ela jamais vira uma expressão tão intensa de ódio num rosto humano.

Disse:

— Você matou Tony.

Ele deu um sorriso desagradável.

— Acha que conseguiria provar?

— Não importa — ela disse, surpresa com a firmeza de sua própria voz. — Eu sei. E nunca mais quero voltar a te ver.

Nunca. E se você fizer... qualquer coisa... a qualquer outra pessoa, ficarei sabendo. E vou dar um jeito em você. De alguma maneira.

O rosto dele se contorceu.

— Esse é o agradecimento que eu recebo. Dei tudo o que você sempre quis.

Coisas que nenhum outro homem poderia ter dado. Admita.

Eu te fiz completamente feliz.

— Você matou Tony! — ela gritou.

Ele deu mais um passo para dentro do quarto.

— Sim, e fiz isso por você. E o que é você, Beth? Não sabe o que é o amor. Eu te amo desde a primeira vez em que te vi, há mais de 17 anos. Tony poderia dizer o mesmo? As coisas nunca foram difíceis para você. Você é bonita. Nunca teve de pensar naquilo que queria ou de que precisava, ou sobre estar solitária. Nunca precisou encontrar... outras maneiras de conseguir as coisas que precisava ter. Sempre havia um Tony para te dar essas coisas. Tudo o que você tinha de fazer era sorrir e dizer por favor

— a voz dele subiu um tom. — Eu nunca consegui o que queria desse jeito. Não acha que tentei? Não funcionou com meu pai. Ele só queria mais e mais. Nunca havia me dado sequer um beijo de boa-noite ou um abraço até eu deixá-lo rico. E minha mãe era a mesma coisa. Eu lhe dei de volta seu casamento, mas isso era suficiente para ela? Ela me odiava! Não chegava perto de mim! Dizia que eu não era normal! Dei a ela coisas boas, mas... Betty, não faça isso!

Não... nãããão...

Ela pisou na boneca Elizabeth e a esmagou, girando sobre ela o salto do sapato.

Algo em seu interior agonizou de dor aguda, e então desapareceu. Ela não estava com medo dele agora. Ele não passava de um garotinho franzino no corpo de um rapaz. E

suas meias não combinavam.

— Não acho que você seja capaz de fazer qualquer coisa contra mim agora, Ed

— ela lhe disse. — Não agora. Estou errada?

Ele lhe deu as costas.

— Vá embora — disse, a voz fraca. — Saia. Mas deixe a minha caixa. Pelo menos isso.

— Vou deixar a caixa. Mas não as coisas que estão dentro dela — Elizabeth passou por ele. Os ombros dele se contraíram, como se estivesse prestes a se virar e tentar agarrá-la, mas logo relaxaram outra vez.

Quando ela chegou ao patamar do segundo andar, ele foi até o alto da escada e gritou para ela, numa voz aguda:

— Vá em frente, então! Mas você não vai ficar satisfeita com nenhum homem depois de mim! E quando a sua boa aparência se acabar e os homens pararem de tentar te dar tudo o que você quer, vai ter saudade de mim! Vai pensar no que jogou fora!

Ela desceu a escada e saiu para a neve lá fora. O frio contra o seu rosto lhe dava uma sensação agradável. Era uma caminhada de mais de 3 quilômetros de volta ao campus, mas ela não se importava. Queria caminhar, queria o frio.

Queria que essas coisas a deixassem limpa.

De uma forma estranha e distorcida, sentia pena dele — um garotinho com um imenso poder esmagado dentro de um espírito medíocre. Um garotinho que tentava fazer os humanos se comportarem como soldadinhos de brinquedo, e depois pisava neles num acesso de raiva quando não obedeciam, ou quando descobriam.

E o que era ela? Abençoada com todas as coisas que ele não era, não por culpa dele ou por algum esforço da parte dela? Lembrou-se da forma como reagira a Alice, tentando cegamente e tomada pelos ciúmes agarrar-se a alguma

coisa que fosse fácil, embora não necessariamente boa, sem se importar, sem se importar.

Quando a sua boa aparência se acabar e os homens pararem de tentar te dar tudo o que você quer, vai ter saudades de mim!... Eu sei do que você precisa.

Mas será que ela era tão pequenina a ponto de precisar de tão pouco?

Por favor, meu bom Deus, não.

Na ponte entre o campus e a cidade, ela se deteve e jogou os objetos mágicos de Ed Hamner por sobre o parapeito, um a um. O carrinho vermelho Fiat foi o último, e caiu rodopiando em meio à neve até que ela o perdesse de vista.

E então ela continuou caminhando.

As Crianças do Milharal

Burt ligou o rádio alto demais e não diminuiu o volume porque estavam prestes a começar uma outra discussão, e ele não queria que isso acontecesse. Desejava desesperadamente que não acontecesse.

Vicky disse alguma coisa.

— O quê? — ele berrou.

— Abaixa isso! Quer estourar meus tímpanos?

Ele mordeu com força a resposta que provavelmente sairia de sua boca e baixou o volume.

Vicky se abanava com um lenço, embora o T-Bird tivesse ar-condicionado.

— Onde é que nós estamos, afinal?

— Nebraska.

Ela lançou-lhe um olhar frio e neutro.

— Sim, Burt. Eu sei que estamos em Nebraska, Burt. Mas onde diabos nós estamos?

— Você está com o guia de estradas. Procure nele. Ou será que não sabe ler?

— Como ele é espertinho. Foi por isso que saímos da rodovia. Para contemplar 500 quilômetros de milharal. E

desfrutar do bom humor e da sabedoria de Burt Robeson.

Ele agarrava o volante com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.

Decidiu agarrá-lo com toda aquela força porque, se afrouxasse, bem, uma daquelas mãos podia simplesmente voar e acertar a ex-Rainha do Baile Estudantil bem na fuça.

Vamos salvar o nosso casamento, ele disse a si mesmo.

Sim. Vamos fazer isso do mesmo modo como os soldados de infantaria americanos salvaram os povoados do Vietnã durante a guerra.

— Vicky? — ele disse, com cautela. — Dirigi 2.500

quilômetros nas rodovias principais desde que saímos de Boston. Dirigi sozinho, porque você se recusou a dirigir.

Então...

— Eu não me recusei! — disse Vicky, exaltada. — Só porque fico com enxaqueca quando dirijo por muito tempo...

— Então, quando te pedi para ser a navegadora em algumas das estradas secundárias, você disse claro, Burt.

Essas foram exatamente as suas palavras. Claro, Burt.

Então...

— Às vezes me pergunto como fui acabar casada com você.

— Dizendo uma única palavrinha.

Ela encarou-o durante um momento, os lábios pálidos, e depois pegou o guia de estradas. Virava as páginas com violência.

Tinha sido um erro deixar a estrada principal, Burt pensou, mal-humoradamente. E uma pena também, porque até então estavam se saindo bastante bem, tratando-se um ao outro quase como seres humanos. Às vezes dava a impressão de que aquela viagem para a costa, cujo objetivo aparente era visitar o irmão de Vicky e sua mulher, mas que era, na verdade, uma última tentativa de dar um jeito no seu próprio casamento, funcionaria.

Mas desde que saíram da rodovia principal, as coisas estavam ruins outra vez.

Ruins até que ponto? Bem, terríveis, na verdade.

— Saímos da rodovia em Hamburg, certo?

— Certo.

— Não há mais nada até Gatlin — ela disse. — Trinta e dois quilômetros. Um trecho bem comprido da estrada. Acha que podemos fazer uma parada por lá e comer alguma coisa?

Ou o seu cronograma todo-poderoso determina que a gente siga até as duas horas, como fizemos ontem?

Ele tirou os olhos da estrada e a encarou.

— Para mim já chega, Vicky. No que me diz respeito, podemos fazer a volta aqui mesmo e ir para casa ver aquele advogado com quem você queria falar. Porque isso não está funcionando de jeito...

Ela olhava outra vez para a frente, a expressão rígida como pedra. Subitamente, transformou-se em surpresa e medo.

— Burt preste atenção você vai...

Ele voltou a olhar para a estrada bem a tempo de ver alguma coisa desaparecer debaixo do pára-choque do T-Bird. Um instante mais tarde, quando mal começara a tirar o pé do acelerador para pisar no freio, sentiu um baque medonho sob as rodas dianteiras, e depois sob as traseiras.

Foram jogados para a frente quando o carro freou ao longo da faixa central da estrada, desacelerando de oitenta para zero com marcas negras de pneus.

— Um cachorro — ele disse. — Diga-me que foi um cachorro, Vicky.

O rosto dela estava branco, com uma cor de queijo cottage.

— Um garoto. Um garoto pequeno. Ele saiu correndo do meio do milharal e...

parabéns, gatão.

Ela abriu a porta do carro de forma estabanada, debruçou-se para fora, vomitou.

Burt estava sentado ereto ao volante do T-Bird, as mãos ainda agarrando-o sem força. Não teve consciência de coisa alguma durante um longo tempo, além do cheiro intenso e desagradável de fertilizante.

Então notou que Vicky saíra, e, quando olhou pelo retrovisor, viu que ela tropeçava desajeitadamente lá atrás, na direção de alguma coisa que parecia uma pilha de trapos. Ela normalmente era uma mulher graciosa, mas agora Vicky fora despojada de sua graça, que desaparecera.

É homicídio culposo. É como chamam. Desviei os olhos da estrada.

Desligou a ignição e saiu do carro. O vento farfalhava suavemente por entre o milho, da altura de um homem, fazendo um som estranho, como uma espécie de respiração. Vicky estava de pé junto à pilha de trapos agora, e ele podia ouvi-la soluçar.

Estava a meio caminho entre o carro e o lugar onde ela se encontrava, e alguma coisa chamou sua atenção à esquerda, uma berrante mancha vermelha no meio de todo aquele verde, tão intensa quanto a pintura de um celeiro.

Ele parou, olhando diretamente para o milharal. Descobriu-se pensando (qualquer coisa para desviar a mente daqueles trapos que não eram trapos) que devia ter sido uma estação maravilhosa para o milho. As plantas estavam crescidas e cerradas, quase prontas para frutificar. Você poderia mergulhar naquelas fileiras regulares e sombreadas e passar o dia inteiro tentando encontrar a saída. Mas a regularidade fora interrompida ali. Vários talos altos de milho tinham sido quebrados e dobrados para o lado. E o que era aquilo, mais adiante, em meio às sombras?

— Burt! — Vicky gritou para ele. — Não quer vir olhar? Para depois poder contar ao seus parceiros de pôquer o que você matou em Nebraska? Não quer... — mas o resto se perdeu em meio a novos soluços. A sombra dela contornava-lhe os pés. Era quase meio-dia.

As sombras se fecharam sobre ele, conforme penetrou no milharal. A tinta vermelha de celeiro era sangue. Havia um zumbido baixo e sonolento, enquanto as moscas pousavam, provavam e levantavam vôo outra vez... talvez para contar às outras.

Havia mais sangue nas folhas, mais para o interior. Mas o sangue não poderia ter respingado tão longe assim, certo? E

então ele estava de pé junto ao objeto que havia visto da estrada. Apanhou-o.

A regularidade das fileiras era interrompida ali. Vários talos pendiam em direções variadas, dois deles haviam sido quebrados de todo. A terra estava revolvida.

Havia sangue. O milho farfalhava. Com um ligeiro estremecimento, ele voltou para a estrada.

Vicky estava histérica, gritando palavras incompreensíveis para ele, chorando, rindo. Quem poderia imaginar que as coisas terminariam de forma tão melodramática?

Ele olhou para ela e viu que não estava tendo uma crise de identidade ou um momento difícil na vida ou qualquer um desses termos tão em voga. Odiava-a. Deu-lhe um tapa no rosto, com força. — Você vai para a cadeia, Burt — ela disse, solenemente.

— Acho que não — ele disse, e colocou aos pés dela a maleta que encontrara no milharal.

— O quê...?

— Não sei. Acho que pertencia a ele — apontou para o corpo que jazia na estrada, de bruços. Não passava dos 13

anos, pela aparência.

A maleta era velha. O couro marrom estava surrado e arranhado. Dois pedaços de corda de varal tinham sido passados em volta dela e amarrados com laços grandes, rústicos. Vicky inclinou-se para desatar um deles, viu o sangue que recobria o nó e recuou.

Burt se ajoelhou e virou o corpo com delicadeza.

— Não quero ver — Vicky disse, sem conseguir tirar os olhos do cadáver. E

quando o rosto de olhos fixos e sem vida virou-se na direção deles, ela gritou outra vez.

O rosto do garoto estava sujo, e sua expressão era uma careta de terror. Sua garganta fora cortada.

Burt se levantou e envolveu Vicky com os braços, quando ela começou a cair.

— Não desmaie — ele disse, baixinho. — Está me ouvindo, Vicky? Não desmaie.

Repetiu aquelas palavras várias vezes, e por fim ela começou a se recuperar, agarrando-se com força a ele.

Parecia que estavam dançando, ali no meio daquela estrada castigada pelo sol do meio-dia, com o cadáver do garoto aos seus pés.

— Vicky?

— O quê? — sua voz saiu abafada de encontro à camisa dele.

— Volte para o carro e coloque as chaves no bolso. Pegue o cobertor do assento traseiro e o meu rifle. Traga-os para cá.

— O rifle?

— Alguém cortou a garganta dele. Talvez esse alguém esteja observando a gente.

Ela esticou a cabeça, e seus olhos arregalados se fixaram no milharal. Ele se estendia até onde os olhos podiam ver, ondulando de acordo com os declives e elevações do terreno.

— Acho que ele deve ter ido embora. Mas por que correr o risco? Vamos lá.

Faça o que eu disse.

Ela andou com o corpo rígido de volta ao carro, seguida por sua sombra, um mascote escuro que a acompanhava bem de perto, àquela hora do dia. Quando se inclinou sobre o assento traseiro, Burt agachou-se junto ao menino. Branco, do sexo masculino, sem qualquer marca notável.

Atropelado, sim, mas o T-Bird não tinha cortado a garganta do garoto. Aquele corte era irregular, ineficiente — nenhum sargento do exército havia ensinado ao assassino os métodos mais refinados da luta corpo-a-corpo

— mas o efeito final fora mortífero. Ele correra ou havia sido empurrado pelos últimos 10 metros do milharal, morto ou mortalmente ferido. E Burt Robeson o atropelara. Se o garoto ainda estivesse vivo quando o carro o atingiu, sua vida fora encurtada em no máximo trinta segundos.

Vicky deu-lhe um tapinha no ombro e ele pulou.

Ela estava ali de pé com o cobertor marrom do exército sobre o braço esquerdo e a espingarda de caça, ainda dentro do estojo, na mão direita, desviando o rosto. Ele pegou o cobertor e o estendeu na estrada. Rolou o cadáver

para cima. Vicky deixou escapar um pequeno gemido de desespero.

— Você está bem? — ele ergueu os olhos para ela. — Vicky?

— Tudo bem — ela disse, numa voz estrangulada.

Ele dobrou as bordas do cobertor por cima do cadáver e o ergueu nos braços, sentindo aversão pelo peso morto e intenso. O volume tentou desenhar um U entre seus braços e escorregar por ali. Ele o agarrou com mais força e se encaminharam de volta ao T-Bird.

— Abra o porta-malas — ele grunhiu.

O porta-malas estava cheio de coisas de viagem, maletas e souvenires. Vicky transferiu a maior parte para o banco traseiro, e Burt deixou o cadáver deslizar para o espaço que se abriu ali, fechando com força a tampa do porta-malas.

Um suspiro de alívio lhe escapou.

Vicky estava de pé junto à porta do motorista, ainda segurando o rifle dentro do estojo.

— Coloque isso aí atrás e entre.

Ele olhou para o relógio e viu que apenas 15 minutos haviam se passado.

Pareciam horas.

— E quanto à maleta? — ela perguntou.

Ele voltou pela estrada até o local onde estava a maleta, sobre a faixa branca, como o centro de uma pintura impressionista. Pegou-a pela alça gasta e se deteve por um

instante. Teve a forte sensação de estar sendo observado.

Era uma sensação sobre a qual ele já lera em livros, em sua maioria ficção de segunda, e sempre duvidara de que pudesse ser real. Agora não duvidava. Era como se houvesse pessoas no milharal, talvez muitas pessoas, avaliando friamente se a mulher conseguiria tirar a arma do estojo e usá-la antes que conseguissem agarrá-lo, arrastá-lo para as fileiras sombrias de milho, cortar sua garganta...

O coração aos saltos, ele correu de volta ao carro, tirou as chaves da tranca do porta-malas e entrou.

Vicky chorava novamente. Burt deu partida no carro, e antes que um minuto se passasse já não conseguia mais ver na estrada, pelo espelho retrovisor, o local onde tudo acontecera.

— Qual você disse que era a próxima cidade? — ele perguntou.

— Ah — ela se debruçou outra vez sobre o guia de estradas.

— Gatlin.

Devemos chegar lá dentro de dez minutos.

— Acha que é grande o suficiente para ter uma delegacia de polícia?

— Não. É apenas um pontinho no mapa.

— Talvez haja um policial.

Dirigiram em silêncio por algum tempo. Passaram por um silo à esquerda da estrada. Não havia mais nada além de milho. Não cruzavam com outros veículos vindo na direção oposta, nem mesmo o caminhão de algum fazendeiro.

— Passamos por alguma coisa desde que saímos da rodovia principal, Vicky?

Ela refletiu.

— Um carro e um trator. Naquele cruzamento.

— Não. Desde que estamos nesta estrada. Rota 17.

— Não. Acho que não.

Antes, isso poderia ter sido o prefácio de alguma observação engraçadinha.

Agora ela se limitava a olhar fixamente por sua metade do pára-brisa para a estrada que se estendia à sua frente e a interminável faixa tracejada no centro.

— Vicky? Pode abrir a maleta?

— Acha que vai adiantar alguma coisa?

— Não sei. Talvez.

Enquanto ela desatava os nós (o rosto com um aspecto peculiar — sem qualquer expressão, mas com os lábios apertados — que Burt se lembrava de ter visto na mãe dela, enquanto ela tirava as vísceras da galinha do almoço de domingo), Burt ligou outra vez o rádio.

A estação de música pop que antes estavam ouvindo estava quase obliterada pela estática, e Burt girou o botão de sintonia, deslizando o marcador vermelho lentamente pelo seletor. Noticiário rural. Buck Owens. Tammy Wynette. Tudo distante, quase distorcido e transformado em tagarelice.

Então, perto do fim do seletor, uma única palavra saiu num berro pelo alto-falante, tão alta e nítida que os lábios que a pronunciaram pareciam estar junto à caixa de som do painel.

— EXPIAÇÃO! — berrou a voz.

Burt soltou um grunhido de surpresa. Vicky deu um pulo.

— SOMENTE PELO SANGUE DO CORDEIRO SEREMOS

SALVOS! —

rugiu a voz, e Burt rapidamente baixou o som. Aquela transmissão vinha de muito perto, sem dúvida. Tão perto que... sim, ali estava ela. Sobressaindo do milharal, no horizonte,

um tripé vermelho semelhante a uma teia de aranha contra o azul do céu. A torre de rádio.

— Expiação é a palavra, irmãos e irmãs — a voz lhes disse, assumindo um tom mais coloquial. Ao fundo, mais longe do microfone, vozes murmuraram amém. —

Alguns acham que está tudo bem em sair por aí, como se fosse possível trabalhar e caminhar pelo mundo sem ser maculado por ele. Ora, é isso que a palavra de Deus nos ensina?

Longe do microfone, mas ainda assim alto:

— Não!

— SAGRADO JESUS! — o evangelista berrou, e em seguida as palavras vieram numa cadência forte e bem marcada, quase tão arrebatadora quanto a vigorosa batida de um rock’n’roll. — Quando é que vão perceber que esse caminho é a morte? Quando é que vão perceber que a dívida deste mundo é paga no outro? Hã? Hã? O Senhor disse que há

muitas moradas em Sua casa. Mas não há lugar para o fornicador. Não há lugar para o avarento. Não há lugar para aquele que profana o milho. Não há lugar para o homossexual. Não há lugar para... Vicky desligou o rádio com um safanão.

— Esse locutor está me dando nojo.

— O que foi que ele disse? — Burt perguntou. — O que foi que ele disse sobre o milho?

— Não ouvi — ela estava desatando o segundo nó de corda de varal.

— Ele disse alguma coisa sobre o milho. Sei que disse.

— Consegui! — Vicky disse, e a maleta se abriu sobre seu colo. Estavam passando por uma placa que dizia: gatlin 8

km. dirija com cuidado proteja nossas crianças. A placa fora

colocada pelos Elks.1 Havia nela buracos de pistola calibre

.22.

— Meias — Vicky disse. — Duas calças... uma camisa... um cinto... uma gravata com um... — ela suspendeu-a, mostrando a ele o prendedor descascado. — Quem é este?

Burt deu uma olhada.

— Hopalong Cassidy,2 acho.

— Oh — ela a colocou de volta. Estava chorando outra vez.

Depois de um instante, Burt disse:

— Não achou nada de estranho naquele sermão do rádio?

— Não. Quando era criança, ouvi o suficiente daquela baboseira para o resto da vida. Já te contei.

— Não acha que pela voz ele parecia bem jovem? O pregador?

Vicky deu uma risada sem humor.

— Um adolescente, talvez, mas e daí? É isso que é tão monstruoso nesse negócio. Eles gostam de tomar conta da mente dos outros quando ainda são fáceis de se moldar.

Sabem como usar todos os contrapesos emocionais. Você devia ver as reuniões religiosas a que os meus pais me arrastavam... em algumas delas eu fui “salva”.

“Vejamos. Havia Baby Hortense, a Cantora Prodígio. Tinha 8

anos. Vinha para cantar ‘Amparados pelos Braços Eternos’, enquanto seu pai passava o saco de esmolas, dizendo a todos ‘sejam generosos, não vamos decepcionar essa filhinha de Deus’. E havia Norman Staunton. Ele costumava pregar sobre o fogo do

inferno e o enxofre com seu conjuntinho Little Lord Fauntleroy, 3 de

calças curtas. Tinha só 7 anos.”

Ela sacudiu afirmativamente a cabeça, diante da expressão de incredulidade dele.

— E não eram só os dois. Havia muitos no circuito. Eram bons atrativos — ela cuspiu a palavra. — Ruby Stampnell.

Ela era uma curandeira de 10 anos de idade. As Irmãs Grace. Costumavam sair com pequenos halos feitos de zinco em torno da cabeça e... oh!

— O que foi? — ele esticou a cabeça, olhando para ela e para o que tinha nas mãos. Vicky olhava para o objeto, arrebatada por ele. Suas mãos, remexendo no fundo da

maleta, o haviam encontrado e tirado de lá enquanto ela falava. Burt parou o carro para poder dar uma olhada melhor. Ela entregou-o a ele sem dizer uma palavra.

Era um crucifixo que tinha sido feito de tranças de palha de milho, outrora verdes, agora secas. Preso ali estava um sabugo anão. A maior parte dos grãos havia sido removida, provavelmente arrancados um a um com um canivete. Os grãos restantes formavam uma tosca figura cruciforme no baixo-relevo amarelado. Olhos de grãos de milho, cada um deles cortado longitudinalmente para sugerir pupilas.

Braços esticados de grãos de milho, as pernas unidas, terminando numa rude representação de pés descalços. Em cima, quatro letras também desenhadas sobre o sabugo branco: I N R I.

— É uma peça fantástica de artesanato — ele disse.

— É medonho — ela disse, numa voz sem entonação, tensa.

— Jogue fora.

— Vicky, talvez a polícia queira ver.

— Por quê?

— Bem, não sei por quê. Talvez...

— Jogue fora. Pode, por favor, fazer isso por mim? Não quero isso no carro.

— Vou colocar lá atrás. Assim que encontrarmos a polícia, a gente se livra dele, de um jeito ou de outro. Prometo. Tudo bem?

— Ah, faça o que você quiser! — ela gritou. — É sempre assim, não é?

Perturbado, ele jogou o objeto no banco de trás, onde aterrissou sobre uma pilha de roupas. Os olhos de grãos de milho encaravam arrebatados a luz do teto do T-Bird. Ele deu novamente a partida, os pneus jogando o cascalho para o alto.

— Vamos entregar o cadáver e tudo o que estava na maleta para a polícia — ele prometeu. — E então estamos livres disso.

Vicky não respondeu. Olhava para as próprias mãos.

Um quilômetro e meio adiante, o milharal interminável se afastava da estrada, revelando casas de fazenda e construções anexas. Num dos quintais, eles viram galinhas sujas ciscando desanimadas o chão. Havia anúncios desbotados de Coca-cola e fumo de mascar nos telhados dos celeiros. Passaram por um grande cartaz que dizia: só jesus salva. Passaram por um café com uma bomba de gasolina Conoco, mas Burt decidiu ir até o centro da cidade, se é que havia algum. Se não houvesse, poderiam voltar ao café. Só depois que passaram, ocorreu-lhe que o estacionamento estava vazio, à exceção de uma picape velha e suja que parecia ter dois pneus furados.

Vicky de repente começou a rir, um riso alto e tolo que pareceu a Burt perigosamente próximo da histeria.

— O que é tão engraçado?

— As placas — ela disse, arquejando e soluçando. — Você não está lendo?

Quando chamaram este lugar de Cinturão Bíblico, não estavam brincando. Oh, meu Deus, lá vêm outras — mais um acesso de riso histérico escapou-lhe, e ela tapou a boca com as duas mãos.

Cada placa tinha apenas uma palavra. Estavam apoiadas em estacas caiadas que haviam sido cravadas no acostamento arenoso, pelo visto fazia muito tempo; o caiamento estava descamado e desbotado. Aproximavam-se com intervalos de 20 metros, e Burt leu: uma... nuvem...

de... dia... uma... coluna... de... fogo... à... noite...

— Só se esqueceram de uma coisa — Vicky disse, ainda rindo incontrolavelmente.

Continuar: parte 2 de 4