Sombras da Noite
O Bicho-Papão
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— A máquina tentou dobrar tudo — ele disse a Jackson, sentindo gosto de bile na garganta. — Mas uma pessoa não é um lençol, Mark. O que eu vi... o que restou dela...
— Como Stanner, o infeliz supervisor, ele não conseguiu terminar. — Tiraram-na de lá num cesto — ele disse, a voz baixa.
Jackson assobiou.
— Quem é que vai pagar por isso? A lavanderia ou os fiscais estaduais?
— Ainda não sei — disse Hunton. A imagem maligna ainda estava gravada no fundo de seus olhos, a imagem da máquina de passar chiando e batendo e assobiando, o sangue pingando pelas laterais esverdeadas do comprido gabinete, o fedor de queimado dela... — Depende de quem foi que deu o ok àquela maldita barra de segurança, e sob que circunstâncias.
— Se tiver sido a administração, será que eles conseguem escapar desta?
Hunton sorriu sem graça.
— A mulher morreu, Mark. Se Gartley e Stanner estavam economizando na manutenção da máquina de passar, vão para a cadeia. Não importa quem eles conhecem na Câmara Municipal.
— Você acha que eles estavam economizando?
Hunton pensou na Lavanderia Blue Ribbon, mal iluminada, o piso úmido e escorregadio, algumas das máquinas inacreditavelmente velhas e estalando.
— Acho que é provável — ele disse, em voz baixa.
Eles se levantaram ao mesmo tempo para entrar em casa.
— Conte-me o que for descoberto, Johnny — Jackson disse.
— Estou interessado.
Hunton estava errado a respeito da máquina de passar; não havia absolutamente nada de errado com ela.
Seis inspetores estaduais examinaram-na antes do inquérito judicial, peça por peça. O exame não relatou coisa alguma.
O veredicto do inquérito foi morte por acidente.
Hunton, aturdido, interpelou Roger Martin, um dos inspetores, após a
audiência. Martin era alto como um varapau, com óculos fundo de garrafa. Ele manuseava nervosamente uma caneta esferográfica diante das perguntas de Hunton.
— Nada? Absolutamente nada a ver com a máquina?
— Nada — Martin disse. — A barra de segurança, é claro, é o xis da questão.
Está perfeitamente em ordem. Você ouviu o depoimento daquela Sra. Gillian. A Sra.
Frawley deve ter colocado a mão longe demais. Ninguém viu, estavam acompanhando seu próprio trabalho. Ela começou a gritar. Sua mão já tinha entrado, e a máquina estava puxando seu braço. Tentaram puxá-la para fora em vez de desligar a máquina... puro pânico. Uma outra mulher, Sra. Keene, disse que tentou sim desligá-la, mas é provável que tenha apertado o botão de ligar em vez disso, no meio da confusão. A essa altura, já era tarde demais.
— Então a barra de segurança não funcionou direito —
Hunton disse, categoricamente. — A menos que ela tenha passado a mão por cima, em vez de por baixo.
— Não é possível. Há uma cobertura de aço inoxidável sobre a barra de segurança. E a própria barra não estava funcionando mal. Fica ligada à própria máquina.
Se quebra, a máquina desliga.
— Então como é que isso aconteceu, meu Deus do céu?
— Não sabemos. Meus colegas e eu somos de opinião que a única forma pela qual a máquina de passar poderia ter matado a Sra. Frawley era se ela tivesse caído lá dentro do alto. E ela estava com os dois pés no chão quando aconteceu. Uma dezena de testemunhas podem atestar isso.
— Você está descrevendo um acidente impossível — Hunton disse.
— Não. Apenas um acidente que não conseguimos entender.
Ele fez uma pausa, hesitou, e então falou:
— Vou lhe dizer uma coisa, Hunton, já que você parece estar particularmente interessado neste caso. Se mencionar isto a qualquer outra pessoa, vou negar que disse.
Mas eu não gostei daquela máquina. Ela parecia... quase estar debochando de nós.
Inspecionei mais de uma dezena de máquinas de passar roupa nos últimos cinco anos, regularmente. Algumas delas estão em tão mau estado que eu não deixaria um cachorro
solto perto delas... a lei estadual é lamentavelmente branda. Mas apesar disso tudo, eram apenas máquinas.
Esta, no entanto... é uma assombração. Não sei por que, mas é. Acho que se eu tivesse encontrado uma coisa que fosse, o menor detalhe técnico fora de ordem, teria ordenado que se desligasse a máquina. Uma maluquice, não é?
— Senti a mesma coisa — Hunton disse.
— Vou te contar uma coisa que aconteceu há dois anos em Milton — o inspetor disse. Tirou os óculos e começou a limpá-los devagar no colete. — Um sujeito tinha deixado uma velha geladeira no quintal dos fundos. A mulher que nos chamou disse que seu cachorro tinha ficado preso lá dentro e sufocado. Chamamos a polícia municipal para ir à área informar ao sujeito que a máquina tinha que ir para o depósito de lixo. O
sujeito era gente boa, lamentava pelo cachorro. Colocou a geladeira na picape e a levou ao depósito de lixo na manhã seguinte. Naquela tarde, uma mulher nas vizinhanças relatou que o filho tinha desaparecido.
— Meu Deus — Hunton disse.
— A geladeira estava no depósito de lixo e o garoto lá dentro, morto. Um garoto inteligente, de acordo com sua mãe. Ela disse que ele nunca brincaria com uma geladeira vazia, assim como não pegaria uma carona com um estranho. Bem, foi o que ele fez.
Arquivamos como acidente. Caso encerrado?
— Imagino que sim — Hunton disse.
— Não. O vigia no depósito de lixo foi lá fora no dia seguinte para tirar a porta da geladeira. Regulamento Municipal número 58 sobre a manutenção de depósitos de lixo públicos — Martin olhou para ele sem expressão no rosto. —
Encontrou seis pássaros mortos lá dentro. Gaivotas, pardais, um tordo. E disse que a porta fechou sobre seu braço quando ele os estava tirando. Deu-lhe um baita susto.
Aquela máquina de passar roupa na Blue Ribbon me dá a mesma impressão, Hunton. Não gosto dela.
Os dois se entreolharam sem nada dizer na sala de audiências vazia, a cerca de seis quarteirões de onde a Passadeira e Dobradeira Rápida Hadley-Watson Modelo-6 se encontrava, na lavanderia apinhada, fumegando vapor sobre seus lençóis.
O caso saiu de sua cabeça após uma semana, devido à urgência do trabalho policial mais comum. Só regressou quando ele e sua mulher passaram na casa de Mark Jackson para uma noite de bridge e cerveja.
Jackson o saudou com:
— Já imaginou se aquela máquina de passar sobre a qual você me falou for assombrada, Johnny?
Hunton piscou os olhos, desconcertado.
— O quê?
— A máquina de passar roupa na Lavanderia Blue Ribbon, acho que desta vez não foi você que atendeu a chamada.
— Que chamada? — Huntou perguntou, interessado.
Jackson passou-lhe o jornal vespertino e apontou para a nota no pé da página dois. Dizia a nota que um tubo de
vapor se rompera na grande máquina de passar na Lavanderia Blue Ribbon, queimando três das seis mulheres que trabalhavam junto ao alimentador. O acidente ocorrera às 15h45 e fora atribuído a um aumento da pressão do vapor na caldeira da lavanderia. Uma das mulheres, Sra.
Annette Gillian, estava no City Receiving Hospital, com queimaduras de segundo grau.
— Curiosa coincidência — ele disse, mas a lembrança das palavras do inspetor Martin na sala de audiências vazia subitamente lhe voltou à cabeça: É uma assombração...
E a história sobre o cachorro e o garoto e os pássaros presos na geladeira jogada fora.
Ele jogou cartas muito mal naquela noite.
A Sra. Gillian estava sentada na cama lendo Screen Secrets quando Hunton entrou no quarto de hospital com quatro leitos. Um dos braços estava coberto por ataduras, bem como a lateral de seu pescoço. A outra ocupante do quarto, uma mulher jovem de rosto pálido, estava dormindo.
A Sra. Gillian piscou os olhos diante do uniforme azul e então sorriu hesitante.
— Se for para ver a Sra. Cherinikov, vai ter que voltar mais tarde. Eles acabaram de dar o remédio dela.
— Não, é para ver a senhora, Sra. Gillian — o sorriso dela esmaeceu ligeiramente. — Estou aqui extra-oficialmente, o que significa que estou curioso a respeito do acidente na lavanderia. John Hunton — ele estendeu a mão.
Foi o gesto acertado. O sorriso da Sra. Gillian tornou-se reluzente, e ela cumprimentou-o desajeitadamente, com a mão que não tinha sido queimada.
— Estou às suas ordens, Sr. Hunton. Meu Deus, achei que meu Andy estava tendo problemas na escola outra vez.
— O que aconteceu?
— A gente estava passando os lençóis, e a máquina simplesmente explodiu... pelo menos, foi o que pareceu.
Estava pensando em ir para casa e sair com os cachorros quando, de repente, ocorreu um grande estouro, feito uma bomba. Vapor em toda parte, e aquela espécie de assobio...
medonho — seu sorriso por pouco não se extinguiu. —
Era como se a máquina de passar estivesse bafejando. Igual a um dragão, sabe? E
Alberta... Alberta Keene... gritou que alguma coisa estava explodindo, de repente todo mundo corria e gritava e Ginny Jason começou a berrar que tinha se queimado.
Comecei a correr e caí. Não sabia que o pior tinha acontecido comigo até então. Graças a Deus que não foi ainda pior. Aquele vapor está a 150 graus.
— O jornal disse que um tubo de vapor se soltou. O que isso quer dizer?
— O cano que fica no alto desce numa espécie de tubo mais ou menos flexível que alimenta a máquina. George — o Sr.
Stanner — disse que deve ter ocorrido uma sobrecarga na caldeira, ou algo desse tipo. O tubo se abriu completamente.
Não ocorria a Hunton mais nada para perguntar. Estava se preparando para ir embora quando ela disse, pensativamente:
— Isso nunca costumava acontecer naquela máquina. Só ultimamente. O tubo de vapor se rompendo. Aquele acidente pavoroso com a Sra. Frawley, que Deus a tenha. E
outras coisinhas. Como no dia em que Essie ficou com um vestido preso numa das correntes de transmissão. Podia ter sido perigoso, se ela não tivesse rasgado o pedaço no mesmo instante. Parafusos e outras coisas ficam caindo. Ah, Herb Diment, ele é o homem que faz os consertos na lavanderia, passou um mau bocado com ela. Lençóis ficam presos no local onde deveriam ser dobrados. George diz que é porque estão usando muita água sanitária nas lava-roupas, mas isso não costumava acontecer. Agora as garotas detestam trabalhar com ela. Essie chega a dizer que ainda há pedacinhos da Adelle Frawley presos lá dentro, que isso é sacrilégio, ou algo desse tipo. Como se estivesse amaldiçoada. Tem sido assim desde que Sherry cortou a mão num dos grampos.
— Sherry? — Hunton perguntou.
— Sherry Ouelette. Uma mocinha bonita, acabou de sair da escola. Uma boa trabalhadora. Mas, às vezes, meio desajeitada. Sabe como as garotas são.
— Ela cortou a mão em alguma coisa?
— Não há nada de estranho nisso. Há grampos a ser apertados ao longo da esteira, sabe? Sherry estava ajustando esses grampos para que a gente pudesse colocar mais carga, e provavelmente sonhava com um garoto.
Cortou o dedo e o sangue se espalhou por toda parte — a Sra. Gillian parecia confusa. — Foi só depois disso que os parafusos começaram a cair. Adelle foi... o senhor sabe...
uma semana depois, mais ou menos. Como se a máquina
tivesse sentido o gosto do sangue e gostado. As mulheres não têm umas idéias engraçadas, às vezes, guarda Hinton?
— Hunton — ele disse, ausente, olhando acima da cabeça dela, para o nada.
Ironicamente, ele conhecera Mark Jacobs numa lavanderia no quarteirão que separava suas casas, e era ali que o policial e o professor de inglês ainda tinham suas conversas mais interessantes.
Agora estavam sentados lado a lado em cadeiras leves de plástico, suas roupas girando por trás das portinholas de vidro das lava-roupas operadas com moedas. A edição de bolso das obras reunidas de Milton pertencente a Jackson repousava esquecida ao seu lado, enquanto ele ouvia Hunton contar a história da Sra. Gillian.
Quando Hunton terminou, Jackson disse:
— Certa vez te perguntei se você achava que a máquina de passar roupa podia estar assombrada. Estava meio que brincando. Vou te perguntar outra vez agora.
— Não — Hunton disse, constrangido. — Não seja idiota.
Jackson observava pensativamente as roupas girando.
— Assombrada é uma palavra ruim. Digamos possuída. Há quase tantos encantamentos para invocar demônios quanto para expulsá-los. O Ramo Dourado de Frazier está cheio deles. O folclore druida e asteca contém outros. E há encantamentos ainda mais antigos, da época do Egito.
Quase todos eles podem ser reduzidos de modo surpreendente a denominadores comuns. O mais comum, é claro, é o sangue de uma virgem — ele olhou para Hunton.
— A Sra. Gillian disse que o problema começou depois que essa Sherry Ouelette acidentalmente se cortou.
— Ah, por favor — Hunton disse.
— Você tem que admitir que pela descrição ela é o tipo exato — Jackson disse.
— Vou imediatamente até a casa dela — Hunton disse, com um sorrisinho. —
Já posso até ver. “Srta. Oulette, sou o guarda John Hunton.
Estou investigando uma máquina de passar roupa com caso grave de possessão demoníaca e gostaria de saber se a senhorita é virgem.” Você acha que eu teria uma chance de dizer adeus a Sandra e às crianças antes que me levassem para o hospício?
— Sou capaz de apostar que você vai acabar dizendo algo desse tipo — Jackson disse, sem sorrir. — Estou falando sério, Johnny. Esta máquina me deixa apavorado, e eu nunca a vi.
— Apenas em nome da nossa conversa — Hunton disse —, quais são os outros supostos denominadores comuns?
Jackson deu de ombros.
— É difícil dizer sem estudar. A maioria dos feitiços anglo-saxônicos especificam terra de sepultura ou olho de sapo.
Encantos europeus mencionam com freqüência a mão da glória, que pode ser interpretada como a mão real de um morto ou um dos alucinógenos usados em associação com a Missa das Bruxas, normalmente beladona ou um derivado de psilocibina. Poderia haver outros.
— E você acha que todas essas coisas entraram na máquina de passar da Blue Ribbon? Meu Deus, Mark, aposto que não há beladona num raio de mil quilômetros.
Ou você acha que alguém cortou a mão do seu tio Fred e jogou-a na máquina?
— Se setecentos macacos datilografassem durante setecentos anos...
— Um deles ia acabar escrevendo a obra de Shakespeare —
Hunton completou, de mau humor. — Vá para o inferno. É
sua vez de ir até a farmácia e trocar dinheiro para as secadoras.
Foi muito engraçado como George Stanner perdeu o braço na máquina de passar roupa.
Às sete da manhã de segunda-feira, a lavanderia estava deserta, exceto pela presença de Stanner e Herb Diment, o homem da manutenção. Estavam lubrificando as chumaceiras da máquina, trabalho que executavam duas vezes por ano, antes que a
jornada normal da lavanderia começasse, às sete e meia.
Diment estava numa ponta, lubrificando as quatro chumaceiras secundárias e pensando em como essa máquina ultimamente o desagradava, quando subitamente ela se pôs a funcionar, num rugido.
Ele estava segurando quatro das esteiras de lona que saíam da máquina, a fim de alcançar o motor lá embaixo, e subitamente as esteiras estavam correndo em suas mãos, arrancando suas peles, arrastando-o junto.
Conseguiu se livrar com um puxão convulso, antes que as esteiras carregassem suas mãos para dentro do
compartimento que dobrava as roupas.
— Jesus Cristo, George, o que houve? — ele berrou. —
Desligue essa maldita máquina!
George Stanner começou a gritar.
Era um som alto, um lamento enlouquecido, que se ouvia por toda a lavanderia, ecoando nas faces de metal das lava-roupas, nas bocas escancaradas das prensas a vapor, nas órbitas vazias das secadoras industriais. Stanner tomou um grande gole de ar e gritou novamente:
— Meu Deus do céu eu estou preso EU ESTOU PRESO...
Os cilindros começaram a produzir vapor. A máquina rangia e trepidava. As chumaceiras e o motor pareciam soltar exclamações com uma vida própria, que ninguém jamais vira.
Diment correu até a outra ponta da máquina.
O primeiro cilindro já estava se tingindo de um vermelho sinistro. Diment soltou um gemido gutural, gorgolejante. A máquina de passar roupa gemia e trepidava e assobiava.
Um observador surdo poderia pensar, a princípio, que Stanner estava simplesmente inclinado sobre a máquina num ângulo esquisito. Então, mesmo um surdo teria visto o espasmo que era a expressão de seu rosto pálido, os olhos arregalados, a boca escancarada num berro contínuo. O
braço estava desaparecendo por baixo da barra de segurança e sob o primeiro cilindro; o tecido de sua camisa tinha-se rasgado, e a articulação do ombro e a parte superior do braço inchavam de forma grotesca, conforme o sangue era continuamente pressionado para trás.
— Desligue! — Stanner gritava. Houve um estalo quando seu cotovelo se quebrou.
Diment apertou com o polegar o botão de desligar.
A máquina de passar continuou zumbindo e rosnando e se movendo.
Incapaz de acreditar, ele acionou o botão repetidas vezes —
nada. A pele do braço de Stanner tinha se tornado reluzente e esticada. Em breve ia-se romper com a pressão que o cilindro estava exercendo; ainda assim, ele estava consciente e gritava.
Diment vislumbrou, como num pesadelo, a imagem de desenho animado de um homem achatado por um rolo compressor, deixando apenas uma sombra.
— Fusíveis... — Stanner deu um grito penetrante. Sua cabeça era puxada cada vez mais para baixo, conforme ele era arrastado para a frente.
Diment virou-se e correu em direção da sala onde ficava a caldeira, os gritos de Stanner perseguindo-o como fantasmas enlouquecidos. O fedor de sangue misturado com vapor se elevou no ar.
Na parede da esquerda havia três pesadas caixas cinzentas contendo todos os fusíveis usados na eletricidade da lavanderia. Diment abriu-as com um puxão e começou a arrancar os fusíveis compridos e cilíndricos feito um louco, atirando-os para trás, por cima dos ombros. As luzes no alto se apagaram; depois, o compressor de ar desligou; por fim, a própria caldeira, com um gemido imenso que aos poucos morria.
E a máquina de passar continuava funcionando. Os gritos de Stanner tinham-se reduzido a lamentos gorgolejantes.
Os olhos de Diment, bateram, por acaso, no machado contra incêndio, em seu compartimento de vidro. Agarrou-o com um curto som de lamento engasgado, e correu de volta. O braço de Stanner tinha desaparecido até quase a altura do ombro. Dentro de poucos segundos, seu pescoço retesado ia se partir contra a barra de segurança.
— Não posso — Diment balbuciou, entre soluços, segurando o machado. —
Meu Deus, George, não posso, não posso, não...
A máquina agora era um abatedouro. O compartimento de dobrar roupas cuspia pedaços de camisa, fragmentos de pele, um dedo. Stanner deu um berro alucinado, e Diment ergueu o machado, baixando-o na penumbra cheia de sombras da lavanderia.
Duas vezes. Novamente.
Stanner caiu longe, inconsciente e azul, o sangue esguichando do toco logo abaixo do ombro. A máquina de passar sugou o que restava para o seu interior... e desligou.
Chorando, Diment tirou o cinto da calça e começou a fazer um torniquete.
Hunton falava ao telefone com Roger Martin, o inspetor.
Jackson o observava enquanto ele pacientemente rolava uma bola de um lado para o outro, para que Patty Hunton, de 3 anos de idade, fosse buscar.
— Ele arrancou todos os fusíveis? — Hunton perguntava. —
E o botão para desligar simplesmente não funcionou, é?... A
máquina de passar roupa foi desativada?...
Bom. Ótimo. O quê? Não, não oficial. — Hunton franziu a sobrancelha, depois olhou de soslaio para Jackson. — Isso ainda te lembra aquela geladeira, Roger?... Sim. A mim também. Até logo.
Ele desligou e olhou para Jackson.
— Vamos ver a garota, Mark.
Ela morava em seu próprio apartamento (a forma hesitante, mas com ares de proprietária, com que pediu que entrassem depois que Hunton tocou a campainha o fez suspeitar de que não estava ali fazia muito tempo), e sentou-se de forma desconfortável diante deles na sala de estar cuidadosamente decorada e minúscula.
— Sou o guarda Hunton, e este é o meu assistente, Sr.
Jackson. É a respeito do acidente na lavanderia — sentia-se imensamente desconfortável com aquela garota de beleza tímida e misteriosa.
— Horrível — Sherry Ouelette murmurou. — Foi o único local em que trabalhei. Sr. Gartley é meu tio. Gostava de lá porque podia ter este apartamento e meus próprios amigos.
Mas agora... Está tão fantasmagórico.
— O Conselho Estadual de Segurança desativou a máquina de passar roupa até que se faça uma investigação completa
— disse Hunton. — Você sabia disso?
— Claro — ela suspirou, inquieta. — Não sei o que vou fazer...
— Srta. Ouelette — Jackson interrompeu, — você teve um acidente com a máquina, não teve? Creio que cortou o dedo
num grampo?
— É, cortei o dedo — subitamente seu rosto se fechou. —
Essa foi a primeira
coisa que aconteceu — olhou para eles com um ar aflito. —
Às vezes sinto que as garotas de lá não gostam mais tanto de mim... como se eu tivesse culpa.
— Preciso lhe fazer uma pergunta difícil — Jackson disse, devagar. — Uma pergunta de que você não vai gostar.
Parece absurdamente pessoal e fora de propósito, mas só o que posso lhe dizer é que não é. Suas respostas nem mesmo vão ficar anotadas numa ficha ou num registro.
Ela pareceu amedrontada.
— E-eu fiz alguma coisa?
Jackson sorriu e negou com a cabeça; ela relaxou. Graças a Deus por Mark estar aqui, Hunton pensou.
— Mas vou acrescentar o seguinte: sua resposta pode ajudar você a manter seu belo apartamentinho aqui, conseguir seu emprego de volta e fazer com que as coisas na lavanderia fiquem do jeito que eram antes.
— Respondo qualquer coisa para conseguir isso — ela disse.
— Sherry, você é virgem?
Ela pareceu completamente pasma, completamente chocada, como se um padre lhe tivesse dado a comunhão e depois a esbofeteado. Então ergueu a cabeça, fez um gesto para o seu apartamento bem arrumado, como se perguntasse como poderiam achar que aquilo ali era um local para aventuras amorosas.
— Estou me guardando para o meu marido — foi tudo o que disse.
Hunton e Jackson se entreolharam calmamente, e naquele segundo Hunton soube que era tudo verdade: um demônio tinha se apossado do aço e das rodas dentadas e das engrenagens da máquina de passar roupa, transformando-a em algo dotado de vida própria.
— Obrigado — Jackson disse, em voz baixa.
— E agora? — Hunton perguntou, desolado, no carro, enquanto voltavam —
Encontramos um padre para exorcizar a máquina?
Jackson riu com desdém.
— Você ia ter que procurar muito para encontrar algum que não lhe desse as Escrituras para ler enquanto telefonasse para o hospício. Esse número é nosso, Johnny.
— Será que nós conseguimos?
— Talvez. O problema é o seguinte: sabemos que alguma coisa está dentro da máquina. Não sabemos o quê —
Hunton sentiu frio, como se tivesse sido tocado por um dedo descarnado. — Há muitos, muitos demônios. Será que este com que estamos lidando faz parte do círculo de Bubástis ou Pã? Baal? Ou da divindade católica que chamamos de Satã? Não sabemos. Se o demônio foi deliberadamente invocado, teremos mais chances. Mas este parece ser um caso de possessão aleatória.
Jackson passou os dedos pelo cabelo.
— O sangue de uma virgem, sim. Mas isso não define quase nada. Precisamos ter certeza, certeza absoluta.
— Por quê? — Hunton perguntou, bruscamente. — Por que nós simplesmente não juntamos um punhado de fórmulas de exorcismo e experimentamos?
O rosto de Jackson tornou-se frio.
— Isto não é polícia e ladrão, Johnny. Pelo amor de Deus, não pense que é. É
como fissão nuclear controlada, num certo sentido.
Poderíamos cometer um erro e
destruir a nós mesmos. O demônio está preso naquela máquina. Mas dê a ele uma chance e...
— Ele poderia sair?
— Ele adoraria sair — disse Jackson, de modo sinistro. — E
ele gosta de matar.
Quando Jackson o visitou, na noite seguinte, Hunton havia mandado a mulher e a filha para o cinema. Tinham a sala de estar à disposição, e isso deixava Hunton aliviado. Ainda mal podia acreditar no que tinha se envolvido.
— Cancelei minhas aulas — Jackson disse — e passei o dia com alguns dos livros mais hediondos que você possa imaginar. Esta tarde coloquei no computador mais de trinta receitas de invocar demônios. Descobri alguns elementos comuns.
Surpreendentemente poucos.
Mostrou a Hunton a lista: sangue de uma virgem, terra de sepultura, sangue de morcego, mão da glória, musgo noturno, casco de cavalo, olho de sapo.
Havia outros, todos marcados como sendo secundários.
— Casco de cavalo — Hunton disse, pensativo. —
Engraçado...
— Muito comum. Na verdade...
— Será que essas coisas... qualquer uma delas... poderiam ser interpretadas livremente? — Hunton interrompeu.
— Se líquens recolhidos à noite poderiam ser substituídos por musgo noturno, por exemplo?
— Isso.
— É bem provável — Jackson disse. — Fórmulas mágicas são freqüentemente ambíguas e elásticas. As artes das trevas sempre deixaram bastante espaço para a criatividade.
— Substituir gelatina por casco de cavalo — Hunton disse.
— Muito popular em refeições entregues em domicílio. Notei uma caixinha sob a gaveta de lençóis da máquina de passar roupa no dia em que Frawley morreu. Gelatina é feita de casco de cavalo.
Jackson fez que sim com a cabeça.
— Mais alguma coisa?
— Sangue de morcego... bem, o local é grande. Vários cantos e frestas escuros.
É provável que haja morcegos, embora eu duvide que a gerência admitisse. Pode-se imaginar que um deles tenha ficado preso na máquina de passar.
Jackson inclinou a cabeça para trás e esfregou os olhos injetados.
— Isso se encaixa... tudo se encaixa.
— É mesmo?
— É. Podemos com segurança excluir a mão da glória, eu acho. Com certeza a mão de ninguém caiu dentro da máquina antes da morte da Sra. Frawley, e a beladona definitivamente não é nativa daquela área.
— Terra de sepultura?
— O que você acha?
— Seria uma enorme coincidência — Hunton disse. — O
cemitério mais próximo é Pleasant Hill, que fica a uns 8
quilômetros da Blue Ribbon.
— Muito bem — Jackson disse. — Consegui que o operador do computador, que pensou que eu estava me preparando para o Halloween, fizesse uma análise de todos os elementos primários e secundários da lista. Todas as combinações possíveis. Joguei fora umas duas dezenas que achei que eram completamente sem sentido. As outras se encaixam em categorias bem distintas. Os elementos que isolamos estão numa delas.
— Qual é?
Jackson riu, mostrando os dentes.
— Uma bem comum. A lenda é centrada na América do Sul, com ramificações no Caribe. Relacionadas com vodu. A literatura que consegui considera as divindades como bem chinfrins, se comparadas com alguns dos barra-pesada, como Saddath ou Aquele-Que-Não-Pode-Ser-Nomeado. A coisa que está naquela máquina vai dar o fora como o valentão do bairro.
— Como fazemos isso?
— Água benta e um fragmento da Santa Eucaristia devem ser suficientes. E
podemos ler um um trecho do Levítico. Magia branca cristã, estritamente falando.
— Tem certeza de que o caso não é pior?
— Não vejo como pode ser — Jackson disse, pensativamente. — Não me importo de lhe dizer que estava preocupado com aquela mão da glória. É uma magia das mais sombrias. Magia das fortes.
— A água benta não seria um antídoto suficiente?
— Um demônio invocado pela feitiçaria da mão da glória comeria uma pilha de Bíblias no café-da-manhã. Estaríamos em maus lençóis se nos metêssemos com algo desse tipo.
Seria melhor desmontar a máquina.
— Bem, você está cem por cento seguro...
— Não, mas bastante seguro. Tudo se encaixa bem demais.
— Quando?
— Quanto antes melhor — Jackson disse. — Como é que entramos?
Quebrando uma janela?
Hunton sorriu, colocou a mão no bolso e balançou uma chave diante do nariz de Jackson.
— Onde você conseguiu isso? Gartley?
— Não — Hunton disse. — Com um inspetor estadual chamado Martin.
— Ele sabe o que vamos fazer?
— Acho que suspeita. Me contou uma história curiosa há umas duas semanas.
— Sobre a máquina de passar roupa?
— Não — Hunton disse. — Sobre uma geladeira. Vamos.
Adelle Frawley estava morta; costurada por um agente funerário paciente, jazia em seu caixão. Mas algo de seu espírito talvez permanecesse na máquina, e, se isso fosse verdade, gritaria. Ela saberia, poderia tê-los advertido. Ela era propensa a má digestão, e para esse incômodo comum tomara um tablete estomacal comum chamado E-Z Gel, que pode ser encontrado no balcão de qualquer farmácia por 79
centavos. A caixa tem um aviso impresso em sua lateral: pessoas com glaucoma não devem tomar E-Z Gel, pois o ingrediente ativo causa um agravamento dessa condição.
Infelizmente, Adelle Frawley não apresentava essa condição.
Ela talvez se lembrasse do dia, logo antes que Sherry Ouelette cortou a mão, em que deixou cair acidentalmente uma caixa inteira de tabletes E-Z Gel dentro da máquina de passar roupa. Mas já estava morta, sem saber que o
ingrediente ativo que mitigava sua azia era um derivado químico da beladona, curiosamente
conhecido em alguns países europeus como a mão da glória.
Houve um súbito ruído medonho, como um arroto, no silêncio espectral da Lavanderia Blue Ribbon — um morcego bateu cegamente as asas rumo à sua toca na camada de isolamento acima das secadoras, onde fizera seu ninho, envolvendo com as asas seu rosto cego.
O ruído era quase uma risada de satisfação.
A máquina de passar roupa começou a funcionar com um rangido súbito —
esteiras deslizando velozmente na escuridão, rodas dentadas se encontrando e se encaixando e rodando, cilindros pesados e capazes de reduzir qualquer coisa a pó girando sem cessar.
Estava pronta para eles.
Quando Hunton parou no estacionamento, passava um pouco da meia-noite, e a lua estava oculta por trás do movimento de nuvens espessas. Ele pisou no freio e desligou os faróis com o mesmo movimento; a testa de Jackson quase bateu no painel acolchoado.
Desligou a ignição, e o trepidar e o assobiar contínuos tornaram-se mais altos.
— É a máquina de passar — ele disse, devagar. — É a máquina de passar.
Funcionando por conta própria. No meio da noite.
Ficaram sentados em silêncio por um momento, sentindo o medo subir por suas pernas.
Hunton disse:
— Muito bem. Vamos lá.
Saíram e andaram até a lavanderia, o som da máquina de passar cada vez mais forte. Quando Hunton introduziu a chave na fechadura da porta de serviço, pensou que, pelo som, a máquina parecia viva — como se estivesse respirando em grandes arquejos quentes e falando consigo mesma em sussurros sibilantes e sardônicos.
— De repente, sinto-me feliz por estar com um tira —
Jackson disse.
Passou a sacola marrom que levava de um braço para o outro. Lá dentro havia um pequeno vidro de geléia cheio de água benta, embrulhado em papel impermeável, e uma
Bíblia de Gideon. 2
Entraram, e Hunton ligou os interruptores de luz junto à porta. As lâmpadas fluorescentes piscaram, incertas, e acenderam seu brilho frio. No mesmo instante, a máquina de passar parou de funcionar.
Uma membrana de vapor pairava sobre os cilindros. A máquina esperava por eles num novo e agourento silêncio.
— Meu Deus, ela é bem feia — Jackson sussurrou.
— Vamos logo — disse Hunton —, antes que percamos a coragem.
Caminharam até ela. A barra de segurança estava em sua posição inferior, sobre a esteira que alimentava a máquina.
Hunton estendeu a mão.
— Já estou perto o bastante, Mark. Me dê as coisas e me diga o que fazer.
— Mas...
— Sem discussão.
Jackson lhe entregou a sacola e Hunton colocou-a na mesa destinada aos lençóis em frente à máquina. Ele deu a Jackson a Bíblia.
— Vou ler — Jackson disse. — Quando apontar para você, salpique a água
benta sobre a máquina com os dedos. Diga: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, saia-te deste lugar, vosso espírito imundo. Entendeu?
— Entendi.
— Na segunda vez em que eu apontar, parta a hóstia e repita o encantamento.
— Como vamos saber se está funcionando?
— Você saberá. Provavelmente a coisa vai quebrar todas as janelas deste lugar ao sair. Se não funcionar da primeira vez, continuamos repetindo até que funcione.
— Estou apavorado — Hunton disse.
— Para dizer a verdade, eu também.
— Se estivermos errados sobre a mão da glória...
— Não estamos — Jackson disse. — Lá vamos nós.
Ele começou. Sua voz ressoava por toda a lavanderia vazia com ecos espectrais.
— Não vos volteis para os ídolos, nem façais para vós deuses fundidos. Eu sou o Senhor vosso Deus... — As palavras caíram como pedras num silêncio que subitamente se enchera de um frio arrepiante, sepulcral.
A máquina de passar roupa permanecia imóvel e silenciosa sob as lâmpadas fluorescentes, e para Hunton ainda parecia rir mostrando os dentes.
— ...todas essas execrações cometeram os que foram antes de vós habitantes desta terra, e a contaminaram. Vede, pois, não suceda que, assim como ela vomitou a gente que aqui estava antes de vós, vos vomite também a vós, se fizerdes outro tanto — Jackson ergueu os olhos, o rosto tenso, e apontou.
Hunton espargiu água benta sobre a esteira que alimentava a máquina.
Ouviu-se um súbito grito de metal torturado, como um ranger de dentes. Vapor ergueu-se das esteiras de lona, nos locais em que a água benta havia caído e assumido formas retorcidas, tingidas de vermelho. Com um solavanco, a máquina subitamente se pôs a funcionar.
— Conseguimos! — Jackson gritou sobre o estrépito crescente. — Está fugindo!
Ele voltou a ler, sua voz se erguendo sobre o barulho da maquinaria. Ele apontou outra vez para Hunton, e Hunton polvilhou um pouco da hóstia. Quando o fez, foi subitamente invadido por um terror de gelar os ossos, uma súbita e nítida sensação de que tinha dado errado, de que a máquina os desmascarara — e era mais forte do que eles.
A voz de Jackson elevava-se novamente, aproximando-se do clímax.
Faíscas começaram a saltar pelo arco entre o motor principal e o secundário; o odor do ozônio encheu o ar, como o cheiro de cobre de sangue quente. Agora saía fumaça do motor principal; a máquina estava funcionando a uma velocidade insana, inacreditável: um dedo tocando a esteira principal faria com que todo o corpo fosse tragado e transformado num trapo sanguinolento no intervalo de cinco segundos. O
concreto sob seus pés tremia e trepidava.
Uma das chumaceiras principais explodiu, com um clarão púrpura, espalhando pelo ar frio um cheiro de tempestade elétrica, e mesmo assim a máquina de passar roupa ainda funcionava, cada vez mais rápido, esteiras e cilindros e engrenagens dentadas numa velocidade que fazia com que parecessem se misturar e se fundir, mudar, derreter, transmutar-se...
Hunton, que estivera parado, quase hipnotizado, subitamente deu um passo para
trás.
— Afaste-se! — ele gritou, por cima do barulho ensurdecedor.
— Já estamos quase conseguindo! — Jackson respondeu, num grito. — Por quê...
Houve um repentino e indescritível barulho de algo se partindo, e uma rachadura no piso de concreto subitamente correu na direção deles, sem se deter, cada vez mais larga.
Fragmentos do cimento antigo voaram numa explosão.
Jackson olhou para a máquina de passar roupa e gritou.
Ela estava tentando se soltar do concreto, como um dinossauro tentando escapar de um poço de piche. E já não era mais exatamente uma máquina de passar. Ainda estava se modificando, derretendo. O cabo de 550 volts caiu, cuspindo fogo azul, entre os cilindros, e foi esmagado. Por um instante, duas bolas de fogo fitaram-nos como dois olhos tremulantes, olhos cheios de uma fome imensa e fria.
Uma outra rachadura surgiu. A máquina de passar roupa inclinava-se na direção deles, num esforço para se libertar dos grilhões de concreto que a seguravam. Fitava-os com malícia; a barra de segurança tinha sido bruscamente atirada para o alto, e o que Hunton via era uma boca escancarada e faminta, soltando vapor.
Viraram-se para correr e uma outra rachadura se abriu sob seus pés. Atrás deles, um rugido ensurdecedor se ouviu quando a coisa se soltou. Hunton saltou sobre a rachadura, mas Jackson tropeçou e caiu estatelado.
Hunton voltou-se para ajudar e uma sombra imensa, amorfa, projetou-se sobre ele, bloqueando as luzes fluorescentes.
Estava sobre Jackson, caído de costas, olhando para cima numa silenciosa careta de terror — o sacrifício perfeito.
Hunton teve apenas a impressão confusa de alguma coisa negra que se movia e se erguia a uma altura tremenda acima dos dois, alguma coisa com olhos elétricos do tamanho de bolas de futebol, e uma boca aberta com uma língua de lona que se agitava.
Ele correu; o grito de Jackson morrendo seguiu-o.
Quando Roger Martin finalmente saiu da cama para atender a campainha, ainda estava só um terço acordado; mas quando Hunton entrou cambaleando, o choque trouxe-o por completo de volta ao mundo, como uma rude bofetada.
Os olhos de Hunton saltavam alucinadamente do rosto, e suas mãos eram como garras ao arranhar o robe de Martin pela frente. O sangue brotava de um pequeno corte em sua face, que estava toda salpicada de pó de cimento cinza.
Seu cabelo tinha ficado totalmente branco.
— Ajude-me... pelo amor de Deus, ajude-me. Mark está morto. Jackson está morto.
— Fale mais devagar — Martin disse. — Venha para a sala.
Hunton seguiu-o, e de sua garganta vinha um lamento agudo, como o ganido de um cachorro.
Martin serviu-o de uma dose de Jim Beam, e Hunton segurou o copo com as duas mãos, engolindo o uísque puro com um ruído sufocado. O copo caiu no carpete sem que ele parecesse notar, e suas mãos, como fantasmas errantes, foram buscar outra vez a lapela de Martin.
— A máquina de passar roupa matou Mark Jackson. Ela...
ela... ah, meu Deus,
ela pode sair! Nós não podemos deixá-la sair! Nós não podemos... nós... ah!... — ele começou a gritar, um berro alucinado que aumentava e diminuía em ciclos irregulares.
Martin tentou lhe servir um outro drinque, mas Hunton derrubou-o com um safanão.
— Precisamos queimá-la — ele disse. — Queimá-la antes que consiga sair. Ah, e se sair? Ah, meu Deus, e se... — seus olhos subitamente brilharam, ficaram vítreos, rolaram para cima, e ele caiu no carpete feito uma pedra, desmaiado.
A Sra. Martin estava na porta, segurando o robe na altura do pescoço.
— Quem é ele, Rog? Está louco? Eu pensei... — ela estremeceu.
— Não acho que ele esteja louco. — Ela ficou subitamente assustada com a sombra aflita de medo no rosto de seu marido. — Meu Deus, espero que ele tenha vindo rápido o bastante.
Voltou-se para o telefone, tirou-o do gancho, imobilizou-se.
Havia um ruído distante, que se avolumava, vindo da direção a este da casa, do lado em que Hunton aparecera.
Um clangor contínuo, estridente, cada vez mais forte. A janela da sala estava parcialmente aberta, e Martin então sentiu um cheiro tenebroso na brisa. Um cheiro de ozônio...
ou sangue.
Ficou, com a mão no telefone inútil, enquanto o som ficava mais alto, mais alto, rilhando, fumegando, alguma coisa pelas ruas que era quente e soltava vapor. O fedor de sangue encheu toda a sala.
Largou o telefone.
A máquina já tinha saído.
1- No original, the mangler, o título do conto. O verbo to mangle significa passar roupa, mas também “lacerar”,
“mutilar”, “retalhar”. (N. da T.)
2- Bíblia distribuída de graça pela organização evangélica Gideon. (N. da E.)
O Bicho-Papão
— Vim vê-lo porque quero contar minha história — dizia o homem no divã do Dr.
Harper.
O homem era Lester Billings, de Waterbury, Connecticut. De acordo com o histórico anotado pela enfermeira Vickers, tinha 28 anos, trabalhava numa firma industrial em Nova York, era divorciado e pai de três filhos. Todos falecidos.
— Não posso procurar um padre porque não sou católico.
Não posso procurar um advogado porque nada do que eu fiz justificaria uma consulta. Tudo o que fiz foi matar meus filhos. Um de cada vez. Matei todos.
O Dr. Harper ligou o gravador.
Billings estava deitado duro como uma régua no divã, cada centímetro do corpo tenso. Seus pés sobravam para fora do divã, rígidos. O retrato de um homem que se submetia a uma humilhação necessária. Suas mãos estavam unidas sobre o peito como as de um cadáver. A expressão de seu rosto estava cuidadosamente equilibrada. Ele olhava para o teto branco como se visse cenas e fotografias estampadas lá.
— Está querendo dizer que os matou mesmo, ou...
— Não — um gesto impaciente da mão. — Mas fui responsável. Denny em 1967. Shirl em 1971. E Andy este ano. Quero falar com o senhor sobre isso.
O Dr. Harper nada disse. Pensou que Billings parecia abatido e envelhecido. Seu cabelo escasseava, ele estava pálido.
Seus olhos encerravam todos os miseráveis segredos do uísque.
— Eles foram assassinados, compreende? Só que ninguém acredita nisso. Se eles acreditassem, estaria tudo bem.
— E por quê?
— Porque...
Billings interrompeu-se e ergueu-se subitamente nos cotovelos, olhando fixamente para a outra extremidade da sala.
— O que é aquilo? — ele vociferou. Seus olhos tinham-se tornado duas fendas pretas.
— O que é o quê?
— Aquela porta.
— O armário — disse o Dr. Harper. — É onde penduro meu casaco e deixo minhas galochas.
— Abra. Quero ver.
O Dr. Harper se levantou, em silêncio, cruzou a sala e abriu o armário. Lá dentro, uma capa de chuva ocupava um dos quatro cabides. Abaixo havia um par de galochas brilhantes.
O New York Times tinha sido cuidadosamente enfiado dentro de
uma delas. Era tudo.
— Tudo bem? — perguntou o Dr. Harper.
— Tudo bem.
Billings relaxou os braços e voltou à sua posição prévia.
— Você dizia — o Dr. Harper falou, enquanto voltava à sua cadeira — que se o assassinato dos seus três filhos pudesse ser provado, todos os seus problemas terminariam. Por quê?
— Eu iria para a cadeia — Billings disse, imediatamente. —
Para o resto da vida.
E você pode olhar dentro de todos os cômodos de uma cadeia. Todos os cômodos —
ele sorriu para ninguém.
— Como seus filhos foram assassinados?
— Não tente arrancar isso de mim à força!
Billings se virou e olhou fixa e malignamente para Harper.
— Vou lhe dizer, não se preocupe. Não sou um dos seus malucos gaguejando por aí fingindo ser Napoleão ou explicando que eu me viciei em heroína porque minha mãe não me amava. Sei que o senhor não vai acreditar em mim.
Não ligo. Não tem importância. O simples fato de contar já vai ser suficiente.
— Muito bem — o Dr. Harper pegou o cachimbo.
— Eu me casei com Rita em 1965... eu tinha 21 anos, e ela, 18. Estava grávida.
De Denny — seus lábios se contorceram numa careta elástica, assustadora, que desapareceu num piscar de olhos. — Tive que largar a faculdade e arranjar um
emprego, mas não me incomodei. Eu amava os dois.
Éramos muito felizes.
— Rita engravidou pouco depois de Denny ter nascido, e Shirl nasceu em dezembro de 1966. Andy nasceu no verão de 1969, e a essa altura Danny já estava morto. Andy foi um acidente. Foi o que Rita disse. Ela disse que às vezes os anticoncepcionais não funcionam. Acho que foi mais do que um acidente. Filhos tolhem a liberdade do homem, o senhor sabe. As mulheres gostam disso, especialmente quando o homem é mais brilhante do que elas. Não acha que isso é verdade?
Harper deu um grunhido evasivo.
— Mas não importa. Eu o amava, mesmo assim — disse isso quase que de maneira vingativa, como se amasse o filho para contrariar a mulher.
— Quem matou as crianças?
— O bicho-papão — Lester Billings respondeu imediatamente. — O bicho-papão matou as três.
Simplesmente saiu do armário e as matou — ele se virou e sorriu, com os dentes à mostra. — O senhor acha que eu sou louco, com certeza. Está escrito no seu rosto. Mas não me importo. Tudo o que eu quero é lhe contar e me mandar daqui.
— Estou ouvindo — Harper disse.
— Começou quando Denny estava com quase 2 anos e Shirl ainda era apenas um bebê. Ele começava a chorar quando Rita o colocava na cama. Morávamos num dois quartos, entende? Shirl dormia num berço no nosso quarto. Primeiro achei que ele chorava porque já não tinha mais uma mamadeira para levar para a cama. Rita disse não crie caso
por causa disso, deixe, dê a ele uma mamadeira e ele acaba largando sozinho.
Mas é assim que as crianças começam a crescer da maneira errada. Você se torna permissivo com elas, acaba mimando-as. Elas o magoam. Engravidam uma garota, o senhor sabe, ou começam a se drogar. Ou viram bichas. Já pensou, o senhor acordar
certa manhã e descobrir que seu garoto... seu filho... é uma bicha?
“Depois de algum tempo, porém, já que ele não parava, comecei a colocá-lo na cama eu mesmo. E se ele não parasse de chorar, eu lhe dava uma palmada. Então Rita contou que ele estava repetindo ‘luz’ sem parar. Bem, eu não sabia. Com crianças tão pequenas, como você pode saber o que estão dizendo. Só a mãe sabe.
“Rita queria colocar uma luz noturna. Uma daquelas coisas para se ligar na tomada com o Mickey Mouse ou o Dom Pixote ou algo do gênero. Eu não deixei. Se uma criança não consegue superar o medo do escuro quando é pequena, jamais conseguirá.
“De qualquer modo, ele morreu no verão seguinte ao nascimento de Shirl.
Coloquei-o na cama naquela noite e ele começou a chorar imediatamente. Entendi o que disse, dessa vez. Apontou diretamente para o armário quando falou. ‘Bicho-papão’, disse o garoto. ‘Bicho-papão, pai.’
“Apaguei a luz e fui para o nosso quarto e perguntei a Rita por que ensinar ao garoto uma palavra como aquela. Fiquei tentado a lhe dar uns tabefes, mas não dei. Ela disse que
nunca tinha ensinado aquela palavra a ele. Eu disse que ela era uma maldita de uma mentirosa.
“Foi um verão ruim para mim, sabe. O único emprego que consegui arrumar foi carregar caminhões de Pepsi-Cola no depósito, e estava cansado o tempo todo. Shirl acordava e chorava todas as noites, e Rita a pegava para niná-la. Vou dizer ao senhor, às vezes eu sentia vontade de jogar as duas pela janela. Meu Deus, filhos às vezes deixam a gente louco. Eu seria capaz de matá-las.
“Bem, a garota me acordou às três da manhã, no horário certinho. Fui ao banheiro, só 25 por cento acordado, o senhor sabe, e Rita me pediu para ver se estava tudo bem com Denny. Disse-lhe que fizesse isso ela mesma, e voltei para a cama. Estava quase dormindo quando ela começou a gritar.
“Levantei-me e fui até lá. O garoto estava deitado de costas, morto. Branco feito farinha, exceto nos lugares onde o sangue havia... havia molhado. Na parte de trás das pernas, na cabeça, na b... nas nádegas. Seus olhos estavam abertos. Isso era o pior, sabe?
Olhos arregalados e vidrados, como os olhos de uma cabeça de alce que algum sujeito pendurou sobre sua lareira. Como fotografias que a gente vê dessas crianças do Vietnã.
Mas um garoto americano não devia ter esse aspecto.
Deitado de costas, morto. Usando fraldas e calça de plástico porque tinha voltado a molhar a cama nas duas últimas semanas. Terrível, eu amava aquele garoto.”
Billings meneou a cabeça devagar, depois fez de novo aquela careta elástica, assustadora.
— Rita gritava até não poder mais. Tentou pegar Denny no colo e embalá-lo, mas eu não deixei. Os tiras não gostam que você toque nas provas. Eu sei disso...
— Você sabia que era o bicho-papão, então? — Harper perguntou, em voz baixa.
— Ah, não. Naquela época não. Mas vi uma coisa. Não significou nada na época, mas minha mente registrou.
— E o que foi?
— A porta do armário estava aberta. Não muito. Só uma fresta. Mas eu sei que tinha deixado fechada, entende? Há sacos de lixo lá dentro. Se uma criança brinca com um desses sacos, já era. Asfixia. Sabia disso?
— Sim. E o que aconteceu, então?
Billings deu de ombros.
— Nós o sepultamos — ele lançou um olhar mórbido para as próprias mãos, que tinham jogado terra sobre três caixões pequeninos.
— Houve um inquérito?
— Claro — os olhos de Billings reluziram com um brilho sardônico. — Um caipira idiota com um estetoscópio e uma maleta preta cheia de balas Junior Mints e um diploma de alguma faculdade provinciana. Morte no berço, foi o que ele disse! Já ouviu uma besteira maior do que essa? O garoto tinha 3 anos de idade!
— A morte no berço é mais comum durante o primeiro ano
— Harper disse, cuidadosamente —, mas esse diagnóstico já
apareceu em atestados de óbito de crianças de até 5 anos de idade, em falta de um melhor...
— Uma ova! — Billings disse, com violência.
Harper reacendeu o cachimbo.
— Transferimos Shirl para o antigo quarto de Denny um mês depois do funeral. Rita lutou contra isso com unhas e dentes, mas dei a última palavra. É claro que isso doeu.
Jesus, eu adorava ter a garota conosco. Mas você não pode ser superprotetor.
Estraga a criança desse jeito. Quando eu era garoto, minha mãe costumava me levar à praia e gritar até ficar rouca.