Sombras da Noite
Primavera Vermelha
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Vinnie sorriu seu sorriso insolente, mas seus olhos estavam tão frios e mortos quanto cubos de gelo.
— O senhor deve ser o Sr. Norman. Oi, Norm.
Lawson e Garcia deram risadinhas zombeteiras.
— Sou o Sr. Norman — Jim disse, ignorando a mão que Vinnie lhe estendera.
— Você consegue se lembrar disso?
— Claro, consigo sim. Como vai seu irmão?
Jim ficou petrificado. Sentiu a bexiga relaxar, e como que de muito longe, do outro lado de um corredor em algum lugar dentro de seu crânio, ouviu uma voz fantasmagórica: Olha só, Vinnie, ele se mijou!
— O que você sabe sobre meu irmão? — perguntou, pronunciando as palavras com dificuldade.
— Nada — disse Vinnie. — Nada de mais — eles sorriram com seus sorrisos vazios e perigosos.
O sinal tocou e entraram na sala de aula.
Cabine telefônica da drogaria, dez horas daquela mesma noite.
— Telefonista, quero falar com a delegacia de polícia em Stratford, Connecticut.
Não, não sei o número.
Estalidos na linha. Conferências.
O policial havia sido o Sr. Nell. Naquela época, tinha cabelos brancos, talvez cinqüenta e poucos anos. É difícil dizer quando você ainda é criança. O pai deles havia morrido, e de algum modo o Sr. Nell sabia disso.
Podem me chamar de Sr. Nell, garotos.
Jim e seu irmão se encontravam na hora do almoço todos os dias, e iam à
Lanchonete Stratford comer o lanche da merendeira. A mãe dava a cada um uns trocados para comprar leite — isso
antes do início do programa de merenda escolar. E às vezes o Sr. Nell entrava, o cinto de couro estalando com o peso da barriga e o revólver calibre
.38, e comprava para cada um deles uma fatia de torta de maçã com sorvete.
Onde estava o senhor quando esfaquearam meu irmão, Sr.
Nell?
A ligação foi completada. O telefone tocou uma vez.
— Polícia de Stratford.
— Alô. Meu nome é James Norman, seu guarda. É uma chamada interurbana
— disse o nome da cidade. — Gostaria de saber se pode me dar alguma informação sobre um homem que pertenceu à polícia de Stratford mais ou menos em 1957.
— Aguarde na linha um momento, Sr. Norman.
Uma pausa, e em seguida uma outra voz.
— Sou o sargento Morton Livingston, Sr. Norman. Quem o senhor está tentando localizar?
— Bem, quando éramos garotos costumávamos chamá-lo de Sr. Nell. Por acaso...
— Claro que sim! Don Nell agora está aposentado. Deve ter uns 73 ou 74 anos.
— Ele ainda mora em Stratford?
— Mora, na Barnum Avenue. O senhor quer o endereço?
— E o telefone, se tiver.
— Tudo bem. O senhor conheceu Don?
— Ele costumava pagar uma torta de maçã com sorvete para mim e para meu irmão na Lanchonete de Stratford.
— Meu Deus, esse lugar já fechou faz dez anos. Espere um minuto.
Ele voltou ao telefone e leu um endereço e um número. Jim os anotou, agradeceu a Livingston e desligou.
Ligou novamente para a telefonista de interurbanos, forneceu o número e aguardou. Quando o telefone começou a tocar, sentiu-se invadir por uma súbita e violenta tensão, e se inclinou para a frente, afastando-se instintivamente do balcão da lanchonete, embora não houvesse ninguém ali além de uma adolescente gorducha lendo uma revista.
Atenderam o telefone e uma voz masculina bastante sonora, que não parecia em nada pertencer a um velho, disse:
— Alô?
Aquela simples palavra desencadeou uma empoeirada reação em cadeia de memórias e emoções, tão surpreendente quanto a reação pavloviana que pode ser provocada ao se ouvir um antigo disco pelo rádio.
— Sr. Nell? Donald Nell?
— Sim.
— Meu nome é James Norman, Sr. Nell. O senhor por acaso se lembra de mim?
— Sim — a voz respondeu imediatamente. — Torta de maçã com sorvete. Seu irmão foi morto... Esfaqueado. Uma vergonha. Era um garoto adorável.
Jim desmoronou sobre uma das paredes de vidro da cabine.
O súbito desaparecimento da tensão deixou-o tão fraco quanto um brinquedo de pano. Sentiu-se prestes a contar tudo de uma vez só, e refreou desesperadamente aquele impulso.
— Sr. Nell, nunca apanharam aqueles garotos.
— Não — disse Nell. — Tínhamos suspeitos. Pelo que me lembro, enfileiramos os suspeitos na delegacia de Bridgeport.
— Esses suspeitos foram identificados para mim pelo nome?
— Não. O procedimento nesses casos era dirigir-se aos participantes por número. Qual é o seu interesse nisso agora, Sr. Norman?
— Vou dizer ao senhor alguns nomes — propôs Jim. — Quero saber se remetem o senhor de algum modo ao caso.
— Filho, eu não seria capaz de...
— Talvez se lembre — Jim disse, começando a se sentir algo desesperado. —
Robert Lawson, David Garcia, Vincent Corey. Será que algum deles...
— Corey — o Sr. Nell disse, sem rodeios. — Eu me lembro dele. Vinnie, a Víbora. Sim, nós o detivemos para identificação por causa desse crime. Sua mãe lhe forneceu
um álibi. Robert Lawson não me diz nada. Pode ser o nome de qualquer um.
Mas Garcia... isso me fala à memória. Não sei exatamente por quê. Diabos. Estou velho
— ele parecia desgostoso.
— Sr. Nell, o senhor de algum modo poderia obter informações sobre esses garotos?
— Bem, é claro que já não são mais garotos.
Ah, é?
— Ouça, Jimmy. Por acaso um deles apareceu e começou a te incomodar?
— Não sei. Coisas estranhas têm acontecido. Coisas ligadas ao esfaqueamento do meu irmão.
— Que coisas?
— Sr. Nell, não posso lhe dizer. O senhor pensaria que estou louco.
Sua resposta, rápida, firme, interessada:
— E está?
Jim fez uma pausa.
— Não — disse.
— Muito bem, posso procurar os nomes nos registros policiais de Stratford.
Como posso entrar em contato com você?
Jim lhe deu seu telefone.
— É mais fácil me encontrar nas noites de terça.
Ele estava em casa quase todas as noites, mas às terças Sally ia à aula de cerâmica.
— O que faz atualmente, Jimmy?
— Sou professor numa escola.
— Ótimo. Isso talvez leve alguns dias, você sabe. Agora estou aposentado.
— Sua voz continua a mesma.
— Ah, mas se você pudesse me ver! — ele deu uma risadinha. — Ainda gosta de comer um bom pedaço de torta de maçã com sorvete, Jimmy?
— Claro — Jim disse. Era mentira. Detestava torta de maçã com sorvete.
— Fico feliz em saber disso. Bem, se é tudo, vou...
— Há uma outra coisa. Por acaso há algum Colégio Milford em Stratford?
— Não que eu saiba.
— Foi o que eu...
— A única coisa com o nome de Milford por aqui é o Cemitério Milford, em Ash Heights Road. E ninguém nunca se diplomou lá — deu uma risada seca, que aos ouvidos de Jim soou como o súbito chacoalhar de ossos numa cova.
— Obrigado — ele ouviu a si mesmo dizer. — Até logo.
O Sr. Nell desligou. A telefonista pediu-lhe que depositasse 60 centavos, o que ele fez automaticamente. Virou-se, e deu de cara com um rosto horrendo, amassado de encontro ao vidro e emoldurado por duas mãos espalmadas, cujos dedos abertos estavam brancos devido à pressão, bem como a ponta do nariz.
Era Vinnie, sorrindo para ele.
Jim deu um berro.
Aula outra vez.
A turma Vivendo com a Literatura fazia uma redação, e quase todos os alunos debruçavam-se compenetrados sobre as folhas de papel, lutando para colocar seus pensamentos naquela página, como se rachassem lenha. Todos, exceto três. Robert Lawson, sentado no lugar de Billy Stearns, David Garcia, no de Kathy Slavin, Vinnie Corey, no de Chip Osway. Sentavam-se com as folhas em branco à sua frente, fitando o professor.
Um instante antes de o sinal tocar, Jim disse, em voz baixa:
— Quero falar com você por um minuto depois da aula, Sr.
Corey.
— Claro, Norm.
Lawson e Garcia riram ruidosamente, mas o resto da turma não. Quando o sinal tocou, entregaram os papéis e dispararam como raios pela porta. Lawson e Garcia ficaram para trás, e Jim sentiu um aperto na barriga.
Será que vai ser agora?
Então, Lawson fez que sim para Vinnie.
— Vejo você mais tarde.
— Falou.
Saíram. Lawson fechou a porta, e por trás do vidro fosco David Garcia subitamente gritou, a voz rouca:
— Norm é um bundão!
Vinnie olhou para a porta, e depois outra vez para Jim.
Sorria.
Disse:
— Eu estava me perguntando se algum dia você tocaria no assunto.
— É mesmo?
— Levou um susto outro dia na cabine telefônica, não foi, bicho?
— Ninguém mais diz bicho, Vinnie. Não é bacana. Como dizer bacana também não é mais bacana. Essa gíria já está tão morta quanto Buddy Holly.
— Falo do jeito que eu quiser — Vinnie disse.
— Onde está o outro? O garoto com aquele cabelo esquisito, avermelhado.
— A gente rompeu, cara — mas por baixo da sua estudada indiferença, Jim pressentiu o estado de alerta.
— Ele está vivo, não está? É por isso que não está aqui. Está vivo, com 32 ou 33
anos, a idade que você teria, se...
— O Desbotado sempre foi um chato. Ele é um zero à esquerda — Vinnie sentou-se atrás de sua carteira e colocou as mãos espalmadas sobre o tampo pichado.
Seus olhos brilhavam. — Cara, eu me lembro de você quando a polícia alinhou os
suspeitos. Você parecia prestes a mijar naquelas suas calças velhas de veludo cotelê. Eu te vi olhando para mim e para Davie. Roguei praga em você.
— Acho que rogou mesmo — Jim disse. — Você me trouxe 16 anos de pesadelos. Isso não foi suficiente. Por que agora? Por que eu?
Vinnie pareceu confuso, depois voltou a sorrir.
— Porque você é um negócio inacabado, cara. Tem que ser apagado.
— Onde vocês estavam? — Jim perguntou. — Antes?
Os lábios de Vinnie se estreitaram.
— Não vamos falar sobre isso. Sacou?
— Cavaram um buraco para você, não foi, Vinnie? Com sete palmos de profundidade. Lá no Cemitério Milford. Sete palmos de...
— Cala essa boca!
Ele se levantou. A carteira caiu para o lado.
— Não vai ser fácil — Jim disse. — Não vou tornar as coisas fáceis para vocês.
— Nós vamos te matar, bicho. Você vai saber tudo sobre aquele buraco.
— Saia daqui.
— Talvez aquela sua mulherzinha também.
— Seu moleque maldito, se você tocar nela... — ele avançou cegamente, sentindo-se violado e apavorado pela menção a Sally.
Vinnie sorriu e se encaminhou para a porta.
— Fica frio. Frio como um defunto — ele deu uma risadinha zombeteira.
— Se você tocar na minha mulher, eu te mato.
O sorriso de Vinnie se alargou.
— Você me mata? Cara, achei que você soubesse, já estou morto.
E saiu. Seus passos ecoaram no corredor por muito tempo.
— O que você está lendo, querido?
Jim mostrou a lombada do livro, Como Evocar Demônios, para que ela lesse.
— Nossa — ela se virou outra vez para o espelho, ajeitando o cabelo.
— Vai voltar de táxi? — ele perguntou.
— São só quatro quarteirões. Além disso, andar faz bem para manter a forma.
— Alguém agarrou uma de minhas alunas em Summer Street — ele mentiu. —
Ela acha que o objetivo era estupro.
— Mesmo? Quem?
— Dianne Snow — ele disse, inventando um nome qualquer.
— Ela é uma garota ajuizada. Tome um táxi, está bem?
— Está bem — ela disse. Parou diante da cadeira dele, ajoelhou-se, colocou as mãos em seu rosto e encarou seus olhos. — Qual é o problema, Jim?
— Nada.
— Mentira. Houve alguma coisa.
— Nada que eu não possa resolver.
— É alguma coisa... relacionada ao seu irmão?
O terror soprou sobre ele, como se uma porta interna tivesse sido aberta.
— Por que está dizendo isso?
— Essa noite você estava murmurando o nome dele enquanto dormia. Wayne, Wayne, você dizia. Corra, Wayne.
— Não é nada.
Mas era. Ambos sabiam. Ele observou-a sair.
O Sr. Nell telefonou às 8h15.
— Não precisa se preocupar com aqueles garotos — disse.
— Estão todos mortos.
— É mesmo? — ele marcava a página em que parara no Como Evocar Demônios com o dedo indicador enquanto falava.
— Acidente de carro. Seis meses depois que seu irmão morreu. Um policial os perseguia. Um policial chamado Frank Simon, aliás.
Agora trabalha em Sikorsky.
Provavelmente ganha bem melhor.
— E eles bateram?
— O carro saiu da estrada a mais de 160 por hora e bateu num poste de alta-tensão. Quando finalmente conseguiram desligar a eletricidade e arrastá-los para fora do carro, pareciam carne bem-passada.
Jim fechou os olhos.
— O senhor leu o relatório?
— Pessoalmente.
— Alguma coisa a respeito do carro?
— Era um carrão envenenado.
— Havia a descrição?
— Um Ford preto 1954 com as palavras “Olhos de Cobra”
escritas na lateral.
Bem apropriado. Eles se arrebentaram.
— Tinham um amigo, Sr. Nell. Não sei o nome dele, mas o apelido era Desbotado.
— Deve ser Charlie Sponder — o Sr. Nell disse, sem hesitar.
— Ele descoloriu os cabelos com Clorox certa vez. Lembro-me disso. Ficou com mechas brancas, ele tentou tingir de preto. As mechas ficaram cor de laranja.
— Sabe o que ele faz atualmente?
— Seguiu a carreira militar. Alistou-se em 58 ou 59, depois de engravidar uma garota daqui.
— Será que eu conseguiria entrar em contato com ele?
— Sua mãe vive em Stratford. Ela deve saber.
— Pode me dar seu endereço?
— Não, Jimmy. A menos que você me diga o que está te incomodando.
— Não posso, Sr. Nell. O senhor acharia que fiquei maluco.
— Experimente.
— Não posso.
— Muito bem, filho.
— Será que o senhor... — mas ele já havia desligado.
— Desgraçado — Jim disse, e colocou o telefone de volta no gancho. O
aparelho tocou em sua mão e ele o largou com um sobressalto, como se de repente o tivesse queimado. Olhou para o telefone, a respiração pesada. A campainha soou três, quatro vezes. Ele atendeu. Escutou. Fechou os olhos.
Um policial o deteve quando estava a caminho do hospital, depois seguiu à sua frente, a sirene ligada. Havia um jovem médico de bigode escovinha na sala de emergência. Olhou para Jim com olhos sombrios, desprovidos de emoção.
— Com licença, sou James Norman e...
— Sinto muito, Sr. Norman. Ela morreu às 9h40.
Ele ia desmaiar. O mundo foi girando para muito longe, e havia um zumbido alto em seus ouvidos. Seus olhos vagavam sem se deter em nenhum objeto, vendo paredes de azulejo verdes, uma maca de rodas reluzindo sob as lâmpadas fluorescentes no teto, uma enfermeira com a touca virada para o lado. Hora de descansar, querida. Um servente estava recostado na parede do lado de fora da Sala de Emergências nº 1. Usando um uniforme branco e sujo, com alguns respingos de sangue coagulado na frente.
Limpando as unhas com uma faca. O servente levantou os olhos e sorriu para Jim. O
servente era David Garcia.
Jim desmaiou.
Funeral. Como um balé em três atos. A casa. A capela mortuária. O cemitério.
Rostos saindo do nada, rodopiando até chegar perto, afastando-se em novo rodopio para a escuridão. A mãe de Sally, os olhos derramando lágrimas por trás de um véu negro.
Seu pai, a expressão chocada e envelhecida. Simmons.
Outros. Apresentavam-se e apertavam sua mão. Ele fazia
que sim com a cabeça, sem se lembrar de seus nomes.
Algumas das mulheres trouxeram comida, e uma senhora trouxe uma torta de maçã, e alguém comeu um pedaço e, quando ele foi até a cozinha, viu-a sobre o balcão, aberta e escorrendo caldo sobre o prato como sangue cor de âmbar, e pensou: Devia ter uma bela colher de sorvete de baunilha por cima.
Sentiu suas mãos e pernas tremendo, com vontade de ir até ao balcão e jogar a torta na parede.
Então todos estavam indo embora, e ele assistia a si mesmo, do modo como as pessoas assistem a si mesmas num filme caseiro, apertando mãos e fazendo que sim e dizendo: Obrigado... Sim, eu irei... Obrigado... Com certeza ela está... Obrigado...
Depois que se foram, a casa era sua novamente. Foi até o aparador da lareira.
Estava coberto de lembranças de seu casamento. Um cachorro de pano com olhos de cristal que ela ganhara em Coney Island, durante a lua-de-mel. Duas molduras de couro
— o diploma dele, da Universidade de Boston, e dela, da Universidade de Massachusetts. Um par gigante de dados de espuma que ela lhe dera, de brincadeira, depois que ele perdera 16 dólares no jogo de pôquer de Pinky Silverstein, cerca de um ano atrás. Uma fina xícara de porcelana que ela comprara num brechó em Cleveland, no ano passado.
No meio do aparador, seu retrato de casamento. Ele o virou para a parede e sentou-se em sua cadeira e olhou para a televisão desligada. Uma idéia começou a se formar em sua mente.
Uma hora mais tarde, o telefone tocou, despertando-o de um leve cochilo. Tateou à sua procura.
— Você é o próximo, Norm.
— Vinnie?
— Cara, ela parecia um daqueles pássaros de argila numa barraca de tiro. Foi acertar, e estilhaços por todo lado.
— Estarei na escola hoje, Vinnie. Sala 33. Vou deixar as luzes apagadas. Vai ser exatamente como na passarela, naquele dia. Acho que posso até providenciar um trem.
— Quer acabar com a história logo de uma vez, não é?
— Isso mesmo — Jim disse. — Esteja lá.
— Talvez.
— Você vai estar lá — Jim disse, e desligou.
Estava quase escuro quando chegou à escola. Estacionou na vaga habitual, abriu a porta dos fundos com a chave-mestra e foi primeiro ao gabinete do Departamento de Inglês, no segundo andar. Entrou, abriu o armário de discos e começou a correr rapidamente os dedos por eles. Parou mais ou menos no meio da pilha e retirou um disco chamado Efeitos de Som em Hi-fi. Virou-o. A terceira faixa do lado A era
“Trem de Carga: 3h04”. Colocou o álbum em cima do toca-discos portátil do departamento e tirou Como Evocar Demônios do bolso do sobretudo. Procurou um trecho marcado, leu alguma coisa e fez que sim com a cabeça.
Apagou as luzes.
Sala 33.
Instalou a aparelhagem de som, colocando as caixas o mais afastadas possível uma da outra, e então pôs para tocar a faixa do trem de carga. O som veio crescendo do nada até ocupar toda a sala com o estridente barulho de motores a diesel e aço sobre aço.
De olhos fechados, quase podia crer que estava sob a passarela de Broad Street, caído de joelhos, observando enquanto o pequeno drama selvagem caminhava para sua conclusão inevitável...
Abriu os olhos, fez parar o disco e depois recolocou-o.
Sentou-se atrás de sua mesa e abriu Como Evocar Demônios num capítulo intitulado “Espíritos maléficos e como invocá-los”. Seus lábios se moviam conforme ele lia, e fazia pausas a intervalos para tirar certos objetos dos bolso e colocá-los sobre a mesa.
Primeiro, a velha e amarrotada fotografia dele e do irmão, de pé no gramado em frente ao prédio onde moravam, em Broad Street. Os dois tinham cortes militares idênticos, e os dois sorriam timidamente para a câmera. Segundo, uma garrafinha de sangue. Tinha apanhado um gato de rua e lhe rasgara a garganta com o canivete.
Terceiro, o próprio canivete. Por último, o protetor contra suor arrancado de um velho boné de beisebol da Liga Mirim.
O boné de Wayne. Fora guardado por Jim, na secreta esperança de que algum dia ele e Sally tivessem um filho para usá-lo.
Levantou-se, foi até a janela e olhou para fora. O
estacionamento estava vazio.
Começou a empurrar as carteiras para a parede, deixando um círculo irregular no centro da sala. Quando acabou, pegou giz na gaveta da mesa e, seguindo com exatidão o
diagrama do livro e usando um metro, desenhou um pentagrama no chão.
Sua respiração estava ficando mais pesada. Apagou as luzes, juntou seus objetos numa das mãos e começou a recitar.
— Pai da Escuridão, escute-me em nome da minha alma.
Sou alguém que promete sacrifícios. Sou alguém que roga uma dádiva sombria para o sacrifício. Sou alguém que busca a vingança da mão esquerda. Trago sangue na promessa de sacrifício.
Tirou a tampa do pote, que originalmente guardara pasta de amendoim, e espalhou o sangue no meio do pentagrama.
Algo aconteceu na sala de aula escura. Não era possível dizer exatamente o que, mas o ar se tornou mais pesado.
Havia nele uma densidade que parecia encher a garganta e o estômago com aço cinzento. O profundo silêncio aumentou, inchado por alguma coisa invisível.
Ele procedeu como os velhos rituais orientavam.
Então, sentiu algo no ar que lhe recordou o tempo em que levara uma turma para visitar uma imensa central elétrica
— uma sensação de que o próprio ar estava carregado de eletricidade, e que vibrava. E então uma voz, curiosamente baixa e desagradável, lhe falou:
— O que deseja?
Ele não saberia dizer se a ouvia de fato ou se apenas pensava ouvir. Disse duas frases.
— É uma dádiva pequena. O que oferece?
Jim disse duas palavras.
— Ambos — disse a voz. — Direito e esquerdo. Concorda?
— Sim.
— Então me dê o que é meu.
Ele abriu o canivete, virou-se para a mesa, espalmou a mão direita e decepou o indicador com quatro golpes violentos.
O sangue se espalhou sobre o papel absorvente em padrões escuros. Não doeu nem um pouco. Ele empurrou o dedo para o lado e trocou o canivete de mão. Cortar o dedo da mão esquerda foi mais difícil. Sua mão direita estava desajeitada e estranha sem o dedo indicador, e a faca ficava escorregando.
Por fim, com um grunhido impaciente, ele atirou para longe o canivete, quebrou o osso e arrancou o dedo. Pegou ambos como se fossem palitinhos de biscoito e jogou-os no pentagrama. Houve um clarão brilhante de luz, como o flash de um fotógrafo das antigas. Nenhuma fumaça, ele notou.
Nenhum cheiro de enxofre.
— Que objetos você trouxe?
— Uma fotografia. Um pedaço de pano que foi embebido no suor dele.
— O suor é precioso — a voz observou, num tom de fria cobiça que fez Jim estremecer. — Entregue-os a mim.
Jim jogou os objetos no pentagrama. O clarão reluziu.
— Assim está bom — a voz disse.
— Se eles vierem — Jim falou.
Não houve resposta. A voz desapareceu — se é que em algum momento estivera lá. Ele se debruçou mais perto do pentagrama. O desenho ainda estava lá, mas escurecido e chamuscado. A tira do boné desaparecera.
Da rua chegou um barulho, discreto a princípio, depois aumentando. Um carrão envenenado equipado com silenciosos cromados, primeiro dobrando a esquina de Davis Street, depois se aproximando. Jim se sentou, ouvindo com atenção para verificar se passaria direto ou se entraria na escola.
Entrou.
Passos na escada, ecoando.
A risadinha aguda de Robert Lawson, e então alguém fazendo “Shhhhh!” e outra vez a risadinha de Lawson. Os passos se aproximaram, perderam o eco, e em seguida a porta de vidro no alto da escada se abriu com um estrondo.
— U-huuu, Normie! — chamou David Garcia, num falsete.
— Você está aí, Normie? — sussurrou Lawson, e depois deu uma risada. —
Essstáss aí, Cholly?
Vinnie não falou, mas conforme avançavam pelo corredor, Jim pôde ver suas sombras. Vinnie era o mais alto, e segurava um objeto comprido numa das mãos. Houve um ligeiro estalido e o objeto comprido se tornou ainda maior.
Estavam de pé junto à porta, Vinnie no meio. Todos os três seguravam canivetes.
— Aqui vamos nós, cara — Vinnie disse, baixinho. — Aqui vamos nós te pegar.
Jim ligou o toca-discos.
— Jesus! — exclamou Garcia, num sobressalto. — O que é isso?
O trem de carga se aproximava. Você quase podia sentir as paredes vibrando.
O som já não parecia estar saindo das caixas, mas vindo pelo corredor, de trilhos situados em algum lugar muito longe no tempo e no espaço.
— Não estou gostando disso, cara — Lawson disse.
— É tarde demais — Vinnie disse. Deu um passo à frente e gesticulou com o canivete. — Passa o dinheiro, bicho.
...deixem a gente ir...
Garcia recuou.
— Que diabos...
Mas Vinnie não hesitou. Fez sinal para que os outros se espalhassem, e a expressão em seus olhos talvez fosse de alívio.
— Vamos lá, moleque, quanto é que você tem aí? — Garcia perguntou, de repente.
— Quatro centavos — Jim disse. Era verdade. Ele os apanhara no pote de moedas em seu quarto. A mais recente datava de 1956.
— Seu mentiroso de merda.
...deixem ele em paz...
Lawson espiou por cima do ombro e arregalou os olhos. As paredes haviam se tornado nebulosas, insubstanciais. O
trem de carga apitou. A luz que vinha dos postes do estacionamento estava agora avermelhada, como o letreiro em neon da Burrets Building Company, piscando contra o céu crepuscular.
Alguma coisa saía do pentagrama, alguma coisa com o rosto de um garoto pequeno, de talvez 12 anos de idade.
Um garoto com cabelo militar.
Garcia avançou como um raio e esmurrou Jim na boca. Ele pôde sentir em seu hálito uma mistura de alho e pepperoni.
Tudo foi muito lento e indolor.
Jim sentiu um peso repentino, como chumbo, na virilha, e sua bexiga relaxou.
Ele olhou para baixo e viu uma mancha escura aparecer e se espalhar por suas calças.
— Olha só, Vinnie, ele se mijou! — Lawson exclamou. O tom estava certo, mas a expressão em seu rosto era de terror, a expressão de uma marionete que ganha vida apenas para descobrir que cordas a manipulam.
— Deixem ele em paz — disse a coisa, que se parecia com Wayne, mas a voz não era a de Wayne, era a voz fria e cobiçosa da coisa no pentagrama. — Corra, Jimmy!
Corra! Corra! Corra!
Jim caiu de joelhos e alguém lhe deu um tapa nas costas, tentando agarrá-lo, mas não conseguiu.
Ele ergueu os olhos e viu Vinnie, o rosto transformado numa caricatura do ódio, enfiar o canivete na coisa que se parecia com Wayne, logo abaixo do esterno... e então gritar, o rosto se desmanchando, carbonizado, enegrecido, cada vez mais medonho.
E então sumiu.
Garcia e Lawson golpearam um instante depois, retorceram-se, ficaram carbonizados e desapareceram.
Jim estava caído no chão, a respiração pesada. O som do trem de carga foi
morrendo até sumir.
Seu irmão olhava para ele.
— Wayne? — ele arquejou.
E o rosto mudou. Pareceu derreter e escorrer. Os olhos se tornaram amarelos, e uma malignidade horrível fitou-o, num sorriso.
— Eu voltarei, Jim — a voz fria sussurrou.
E se foi.
Ele se levantou e desligou o toca-discos com a mão mutilada. Tocou a boca.
Sangrava, com o murro de Garcia. Atravessou a sala e acendeu as luzes. A sala estava vazia. Olhou para o estacionamento, que também estava vazio, exceto pela calota de um automóvel, que refletia a lua numa mímica idiota. O ar na sala de aula tinha um cheiro velho e estragado — a atmosfera dos túmulos. Ele apagou o
pentagrama do chão e então começou a arrumar as carteiras para o substituto, no dia seguinte. Seus dedos doíam muito — que dedos? Teria de ir ver um médico.
Fechou a porta e desceu devagar, segurando as mãos junto ao peito. No meio do caminho, alguma coisa — uma sombra, ou talvez apenas uma intuição — fez com que se virasse.
Algo invisível pareceu recuar com um salto.
Jim lembrou-se da advertência em Como Evocar Demônios
— o perigo envolvido. Você podia talvez evocá-los, talvez fazer com que trabalhassem para você.
Podia até mesmo se livrar deles.
Mas, às vezes, eles voltam.
Ele continuou a descer a escada, perguntando-se se o pesadelo teria realmente terminado.
1- Agência de empregos criada para atender os desempregados pela Grande Depressão.
(N. da T.)
2- Programa estudantil focado em itens como liderança, serviço e inclusão sociais. (N. da T.)
Primavera Vermelha
Jack Salto-de-Molas...
Vi essas palavras no jornal hoje pela manhã, e meu Deus, como elas me levam de volta ao passado! Tudo aconteceu há oito anos quase exatos. Certa vez, durante o episódio, eu
me vi na tevê, em cadeia nacional — o noticiário de Walter Cronkite.
Apenas um rosto passando depressa no fundo indistinto atrás do repórter, mas minha família me identificou de imediato. Fizeram um interurbano. Meu pai queria saber qual a minha análise da situação; estava muito cordial e entusiasmado e falando naquele clima de conversa de homem para homem. Minha mãe só queria que eu voltasse para casa. Mas eu não queria voltar para casa. Estava encantado.
Encantado por aquela sombria e enevoada primavera vermelha, e pela sombra de morte violenta que perambulava por ela, naquelas noites de oito anos atrás. A sombra de Jack Salto-de-Molas.
Na Nova Inglaterra chamam-na de primavera vermelha.
Ninguém sabe por quê; é apenas uma expressão que os mais velhos usam. Dizem que acontece uma vez a cada dez anos. O que aconteceu no New Sharon Teacher’s College naquela específica primavera vermelha... talvez também haja um ciclo para isso, mas se alguém sabe qual é, nunca disse.
No New Sharon, a primavera vermelha começou no dia 16
de março de 1968. O
inverno mais frio dos últimos vinte anos terminou naquele dia. Chovia, e era possível sentir o cheiro do mar a 30
quilômetros a oeste da praia. A neve, que em alguns locais chegara a quase 90 centímetros de profundidade, começou a derreter, e as alamedas do campus ficaram cobertas de lama de neve derretida. As esculturas de neve do Carnaval de Inverno, que durante dois meses ficaram nítidas e bem delineadas pelas temperaturas abaixo de zero, por fim
começaram a derreter e perder a consistência. A caricatura de Lyndon Johnson diante da sede da fraternidade Tep chorava lágrimas de gelo derretido.
A pomba diante do Prashner Hall perdeu suas penas congeladas, e seu esqueleto de compensado se deixava ver tristemente em alguns lugares.
E quando a noite veio, trouxe consigo o nevoeiro, movendo-se silencioso e branco ao longo das estreitas vias e avenidas da faculdade. Os pinheiros na alameda furavam a neblina como dedos apontados para cima e ela pairava, lenta como a fumaça de um cigarro, sob a pequena ponte junto aos canhões da Guerra Civil. Fazia com que as coisas parecessem esquisitas, fantasmagóricas, mágicas. O
viajante desavisado sairia do Grinder, em toda sua confusão radiantemente iluminada e vibrante com o som da jukebox, esperando ver um inverno de céu límpido e estrelado... e em vez disso encontrava-se de repente num mundo silencioso e abafado feito de névoa branca, deslizando lentamente, em que o único som era o de seus próprios passos e o gotejar
suave da água caindo de antigas calhas. Você meio que esperava ver Gollum ou Frodo ou Sam passando às pressas, ou virar-se e descobrir que o Grinder desaparecera, sumira, substituído por um panorama enevoado de pântanos e teixos e talvez um círculo druida ou uma cintilante reunião de fadas.
A jukebox tocava “Love is blue” naquele ano. Tocava “Hey, Jude”
incessantemente. Tocava “Scarborough Fair”.
E às 11h10, naquela noite, um aluno do penúltimo ano chamado John Dancey, a caminho de seu dormitório,
começou a gritar no meio da neblina, deixando cair seus livros sobre e entre as pernas abertas da garota que jazia morta num canto sombrio do estacionamento do setor de zoologia, a garganta cortada de orelha a orelha, mas os olhos abertos e parecendo quase brilhar, como se ela acabasse de contar com sucesso a piada mais engraçada de sua jovem vida — Dancey, que se formava em pedagogia e oratória, gritou e gritou e gritou.
O dia seguinte estava nublado e ameaçador, e fomos para nossas aulas com perguntas ansiosas na ponta da língua —
Quem? Por quê? Quando você acha que vão pegá-lo? E
sempre a pergunta final, arrebatada: Você a conhecia? Você a conhecia?
Sim, fiz um curso de arte com ela.
Sim, um amigo do meu colega de dormitório saiu com ela no período passado.
Sim, ela me pediu fogo certa vez no Grinder. Estava na mesa ao lado.
Sim,
Sim, eu
Sim... sim... ah, sim, eu
Todos nós a conhecíamos. Seu nome era Gale Cerman (pronunciava-se Querr-man), e estudava arte. Usava óculos de velha e tinha um belo corpo. Gostavam muito dela, mas suas colegas de dormitório a odiavam. Não saía muito, mesmo sendo uma das garotas mais promíscuas do campus. Era feia, mas engraçadinha. Era uma garota cheia de vida, que falava pouco e raramente sorria. Estava grávida e tinha leucemia. Era uma lésbica que havia sido
assassinada pelo namorado. Aquela era a primavera vermelha, e na manhã do dia 17 de março todos nós conhecíamos Gale Cerman.
Meia dúzia de carros da polícia chegaram vagarosos ao campus, e a maioria estacionou em frente ao Judith Franklin Hall, onde a garota antes morava. Ao passar por eles, dirigindo-me à minha aula das dez horas, pediram-me que mostrasse minha carteira de estudante. Fui esperto.
Mostrei-lhes uma sem as presas.
— Você anda com uma faca? — o policial perguntou, perspicaz.
— Isso é a respeito de Gale Cerman? — perguntei, após dizer a ele que o objeto mais letal que carregava era um chaveiro de pata de coelho.
— Por que pergunta? — ele disparou.
Cheguei cinco minutos atrasado à aula.
Era a primavera vermelha, e ninguém andou sozinho pelo campus metade acadêmico e metade fantástico naquela noite. O nevoeiro voltara, com cheiro de mar, silencioso e profundo.
Por volta das nove horas, meu colega de dormitório irrompeu em nosso quarto, onde eu estava queimando as pestanas num ensaio sobre Milton desde as sete.
— Pegaram o sujeito — ele disse. — Ouvi dizer lá no Grinder.
— Quem foi que disse?
— Sei lá. Um cara qualquer. Foi o namorado dela. Ele se chama Carl Amalara.
Recostei-me na cadeira, aliviado e desapontado. Com um nome daqueles, tinha de ser verdade. Um crime passional, sórdido e letal.
— Certo — eu disse. — Que bom.
Ele saiu do quarto para espalhar a notícia pelo corredor. Reli meu ensaio sobre Milton, e como não consegui entender o que eu próprio tentara dizer, rasguei o papel e recomecei.
Estava nos jornais no dia seguinte. Havia um retrato incongruamente bacana de Amalara — provavelmente o retrato de sua formatura, na escola —, que mostrava um garoto de ar bem tristonho, moreno, de olhos escuros e marcas de varíola no nariz. O
garoto ainda não havia confessado, mas as provas contra ele eram fortes. Ele e Gale Cerman tinham andado discutindo um bocado durante o último mês ou coisa assim, e tinham rompido na semana anterior. O colega de dormitório de Amalara disse que ele ficara “melancólico”.
Num baú embaixo da sua cama, a polícia encontrara uma faca de caça da L. L. Beans, de 16 centímetros, e uma foto da garota, aparentemente cortada com uma tesoura.
Ao lado do retrato de Amalara havia um de Gale Cerman.
Desfocada, mostrava um cachorro, uma estátua de flamingo de jardim e uma tímida garota loura de óculos.
Um sorriso desconfortável puxara-lhe os lábios para cima, e seus olhos estavam semicerrados. Uma das mãos estava sobre a cabeça do cachorro. Era verdade, então.
Tinha de ser verdade.
O nevoeiro voltou naquela noite, não aos poucos, com os passos de um gatinho, mas esparramando-se silencioso e
de forma inconveniente. Naquela noite, saí para andar.
Estava com dor de cabeça e queria respirar ar puro, sentindo o cheiro úmido e enevoado da primavera que aos poucos derretia a neve relutante, deixando pontos da grama sem vida do ano passado a nu, descobertos, como a cabeça de uma avó idosa e dada a suspiros.
Por mim, foi uma das noites mais bonitas de que me lembro.
As pessoas com as quais eu cruzava sob os postes de luz envoltos por halos eram sombras murmurantes, e todas elas pareciam casais apaixonados, andando de mãos dadas e de olhos uns nos outros. A neve derretida pingava e escorria, pingava e escorria, de cada bueiro escuro elevava-se o barulho do mar, um sombrio mar de inverno agora em plena vazante.
Caminhei até perto da meia-noite, até ficar coberto de umidade, e passei por muitas sombras, ouvi muitos passos ecoando sonhadoramente pelas aléias sinuosas.
Quem pode dizer que uma daquelas sombras não era o homem ou a coisa que veio a ser conhecida como Jack Salto-de-Molas? Eu não, pois passei por muitas sombras no nevoeiro, mas não vi rosto algum.
Na manhã seguinte, fui acordado por um alvoroço no corredor. Saí do quarto aos tropeços para ver quem havia sido convocado para o serviço militar, ajeitando com as mãos o cabelo e passando pelo céu da boca, muito seco, a lagarta peluda que espertamente substituíra minha língua.
— Ele pegou mais uma — alguém me disse, o rosto pálido de excitação. —
Tiveram que soltá-lo.
— Soltar quem?
— Amalara! — outra pessoa disse, satisfeita. — Ele estava na cadeia quando aconteceu.
— Quando o que aconteceu? — perguntei, pacientemente.
Mais cedo ou mais tarde eu entenderia. Tinha certeza disso.
— O sujeito matou outra pessoa ontem à noite. E agora estão procurando por toda parte.
— Procurando o quê?
O rosto pálido surgiu outra vez diante de mim.
— A cabeça da garota. A pessoa que a matou levou a cabeça consigo.
New Sharon não é uma universidade grande hoje em dia, e era ainda menor naquela época — o tipo de instituição a que o pessoal das relações públicas amigavelmente chama de “universidade comunitária”. E era realmente igual a uma pequena comunidade, pelo menos naquela época; entre você e seus amigos, você provavelmente conhecia de vista todas as outras pessoas e os amigos delas. Gale Cerman era o tipo de garota que você apenas cumprimentava com um gesto de cabeça, vagamente consciente de que a havia visto em algum lugar por ali.
Todos nós conhecíamos Ann Bray. Tinha sido a segunda colocada no concurso de Miss Nova Inglaterra no ano anterior, em que sua demonstração de talento havia consistido em girar uma baliza em chamas ao som de “Hey, Look Me Over”. Também era inteligente; até a data de sua morte, havia sido editora do jornal da escola (um pasquim semanal com um monte de charges políticas e cartas bombásticas), membro da sociedade de teatro estudantil e
presidente da National Service Sorority, Seção de New Sharon. Na efervescência quente e feroz da minha época de calouro, eu apresentara ao jornal uma idéia para uma coluna e convidara-a para sair — tive rejeitadas ambas as propostas.
E agora ela estava morta... pior do que morta.
Andei até minhas aulas da tarde como todo mundo, acenando com a cabeça para as pessoas que conhecia e dizendo oi com um pouco mais de ênfase do que o habitual, como se isso compensasse a atenção com que examinava seus rostos. A mesma atenção com que estudavam o meu.
Havia algo sombrio entre nós, tão sombrio quanto as alamedas que serpenteavam pelo passeio público ou passavam sinuosas por entre os carvalhos centenários no espaço atrás do ginásio. Tão sombrio quanto os canhões da Guerra Civil vistos atrás de uma membrana movediça de nevoeiro. Olhávamos para os rostos uns dos outros e tentávamos ver a escuridão por trás de cada um.
Desta vez a polícia não prendeu ninguém. Os Fuscas azuis patrulharam incessantemente o campus nas noites enevoadas de primavera dos dias 18, 19 e 20, e os holofotes vasculhavam os recantos sombrios com um entusiasmo errático. A administração impôs o toque de recolher às nove horas. Um casal imprudente, surpreendido namorando em meio aos arbustos bem podados ao norte do Prédio de Alunos Tate, foi levado para a delegacia de New Sharon e impiedosamente interrogado durante três horas.
Houve um histérico alarme falso no dia 20, quando um garoto foi encontrado inconsciente no mesmo estacionamento em que o corpo de Gale Cerman havia sido achado. Um guarda do campus, afobado, levou-o para o banco traseiro do carro e cobriu seu rosto com um mapa do
condado sem se lembrar de tomar-lhe o pulso, e seguiu para o hospital local, a sirene gritando pelo campus deserto
como um bando de banshees. 1
No meio do caminho, o cadáver no banco de trás se levantou, perguntando, atordoado:
— Onde diabos eu estou?
O guarda deu um grito esganiçado e saiu da estrada. O
cadáver se revelou ser um aluno do penúltimo ano chamado Donald Morris, que tinha estado de cama durante os dois últimos dias com uma gripe bastante forte — era a gripe asiática, naquele ano? Não me lembro. De qualquer modo, ele desmaiou no estacionamento, a caminho do Grinder para tomar um prato de sopa com torradas.
Os dias continuavam nublados e com temperaturas medianas. As pessoas se reuniam em pequenos grupos que tinham a tendência de se dissolver e se recompor com uma rapidez surpreendente. Olhar para o mesmo conjunto de rostos por um tempo mais longo fazia nascer idéias estranhas sobre alguns deles. E a rapidez com que os boatos se espalhavam de uma extremidade a outra do campus começou se aproximar da velocidade da luz; ouviram um estimado professor de história rindo e chorando ao mesmo tempo junto à pequena ponte; Gale Cerman deixara uma mensagem cifrada de duas palavras escrita com seu próprio sangue no asfalto, no estacionamento da ala de zoologia; os dois assassinatos eram na verdade crimes políticos, mortes rituais levadas a cabo por uma
ramificação da SDS2 em protesto contra a guerra. Isso era bastante risível. A SDS de New Sharon tinha sete membros.
Uma ramificação significativa seria o equivalente do fim da organização. Esse fato suscitou uma invenção ainda mais sinistra por parte dos direitistas do campus: agitadores de
fora. Assim sendo, ao longo daqueles estranhos e tépidos dias, todos nos mantínhamos atentos a eles.
A imprensa, sempre volúvel, ignorava a enorme semelhança entre o nosso assassino e Jack, o Estripador, e remontou a uma época ainda mais distante — foi vasculhar no ano de 1819. Ann Bray fora encontrada num úmido caminho de terra a cerca de 4 metros da calçada mais próxima, e ainda assim não havia pegadas, nem mesmo as dela. Um empreendedor jornalista de New Hampshire, com uma paixão pelas coisas do passado distante, batizou o matador de Jack Salto-de-Molas, inspirado no infame Dr.
John Hawkins, de Bristol, que acabara com a vida de cinco de suas mulheres usando estranhos preparados farmacêuticos. E o nome pegou, provavelmente por causa daquele chão enlameado e ainda assim intacto.
No dia 21, choveu outra vez, e o passeio público e o pátio se transformaram em atoleiros. A polícia anunciou que espalharia por ali agentes à paisana, tanto homens quanto mulheres, e retirou metade dos carros-patrulha.
O jornal do campus publicou um editorial bastante indignado, ainda que algo incoerente, protestando contra a medida. A essência de seus argumentos parecia ser que com todos os policiais disfarçados de estudantes ficaria difícil distinguir um verdadeiro agitador vindo de fora de um falso.
Veio o crepúsculo, e com ele a neblina, subindo pelas avenidas arborizadas devagar, quase pensativamente, borrando um a um os contornos dos prédios. Era uma névoa suave, insubstancial, mas de algum modo implacável e assustadora. Jack Salto-de-Molas era um homem, ninguém parecia duvidar disso, mas a neblina era sua cúmplice, e era
feminina... ou pelo menos assim me parecia. Era como se a nossa pequena escola estivesse encurralada entre os dois, esmagada no meio de um ensandecido abraço de amantes, parte de um casamento que fora consumado com sangue.
Eu me sentei e fiquei fumando e observando as luzes se acenderem na escuridão crescente, perguntando-me se tudo já estaria terminado. Meu colega de quarto entrou e fechou silenciosamente a porta atrás de si.
— Vai nevar em breve — ele disse.
Virei-me para encará-lo.
— O rádio disse isso?
— Não — ele respondeu. — Quem precisa de alguém para fazer a previsão do tempo? Você já ouviu falar da primavera vermelha?
— Talvez — eu disse. — Há muito tempo. É uma coisa de que as avós falam, não é?
Ele ficou de pé ao meu lado, olhando lá para fora, para a escuridão cada vez mais densa.
— A primavera vermelha é como o verão indiano — ele disse —, só que muito mais rara. Nesta parte do país, o verão indiano acontece a cada dois ou três anos. Um tipo de clima como o que estamos tendo, teoricamente ocorre a cada oito ou dez. É uma primavera falsa, uma primavera mentirosa, como o verão indiano é um falso verão.