Sonetos Completos

Florbela Espanca · Capítulo 1 de 5

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Sonetos Completos

A Minha Dor

A você

A minha Dor é um convento ideal

Cheio de claustros, sombras, arcarias,

Aonde a pedra em convulsões sombrias

Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias

Ao gemer, comovidos, o seu mal. .

E todos têm sons de funeral

Ao bater horas, no correr dos dias..

A minha Dor é um convento. Há lírios

Dum roxo macerado de martírios,

Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,

Noites e dias rezo e grito e choro!

E ninguém ouve. . ninguém vê... ninguém. . DIZERES ÍNTIMOS

É tão triste morrer na minha idade!

E vou ver os meus olhos, penitentes

Vestidinhos de roxo, como crentes Do soturno convento da Saudade!

E logo vou olhar (com que ansiedade!. .)

As minhas mãos esguias, languescentes, De brancos dedos, uns bebês doentes

Que hão de morrer em plena mocidade!

E ser-se novo é ter-se o Paraíso,

É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,

Aonde tudo é luz e graça e riso!

E os meus vinte e três anos... (Sou tão nova!) Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida!. .” Responde a minha Dor: “Que linda a cova!” AS MINHAS ILUSÕES

Hora sagrada dum entardecer

Deus Outono, à beira-mar, cor de safira,

Soa no ar uma invisível lira. .

O sol é um doente a enlanguescer. .

A vaga estende os braços a suster,

Numa dor de revolta cheia de ira,

A doirada cabeça que delira

Num último suspiro, a estremecer!

O sol morreu.. e veste luto o mar. .

E eu vejo a urna de oiro, a baloiçar,

À flor das ondas, num lençol de espuma!

As minhas Ilusões, doce tesoiro,

Também as vi levar em urna de oiro,

No Mar da Vida, assim... uma por uma...

NEURASTENIA

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!

Um sino dobra em mim Ave-Marias!

Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,

Faz na vidraça rendas de Veneza. .

O vento desgrenhado, chora e reza

Por alma dos que estão nas agonias!

E flocos de neve, aves brancas, frias,

Batem as asas pela Natureza...

Chuva. . tenho tristeza! Mas por quê?!

Vento. . tenho saudades! Mas de quê?!

Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!

Gritem ao mundo inteiro esta amargura, Digam isto que sinto que eu não posso!!.. PEQUENINA

À Maria Helena Falcão Risques

És pequenina e ris. . A boca breve

É um pequeno idílio cor-de-rosa...

Haste de lírio frágil e mimosa!

Cofre de beijos feito sonho e neve!

Doce quimera que a nossa alma deve

Ao Céu que assim te fez tão graciosa!

Que nesta vida amarga e tormentosa

Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem à gente. .

E cheira e sabe, a nossa boca, a flores

Quando o teu nome diz, suavemente..

Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,

Que ela afaste de ti aquelas dores

Que fizeram de mim isto que sou!

MAIOR TORTURA

Sou a sombra profunda dos espaços

Eu sou a dor dum pobre enlouquecido Ergo aos céus mudos meus braços

E o céu é sempre azul e sempre mudo.

À Terra não me prendem nenhuns laços

Perco-me em mim na dor de ter vivido!

E não tenho a doçura duns abraços

Que me façam sorrir de ter nascido!

Sou como tu um cardo desprezado,

A urze que se pisa sob os pés,

Sou como tu um riso desgraçado!

Mas a minha Tortura ainda é maior:

Não ser Poeta, assim como tu és

Para falar assim da minha Dor!

A MAIOR TORTURA

A um grande poeta de Portugal!

Na vida, para mim, não há deleite.

Ando a chorar convulsa noite e dia. .

E não tenho uma sombra fugidia

Onde poise a cabeça, onde me deite!

E nem flor de lilás tenho que enfeite

A minha atroz, imensa nostalgia!. .

A minha pobre Mãe tão branca e fria

Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!

Poeta, eu sou um cardo desprezado,

A urze que se pisa sob os pés.

Sou, como tu, um riso desgraçado!

Mas a minha tortura inda é maior:

Não ser poeta assim como tu és,

Para gritar num verso a minha Dor!. .

A FLOR DO SONHO

A Flor do Sonho alvíssima, divina,

Miraculosamente abriu em mim,

Como se uma magnólia de cetim

Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina. E não posso entender como é que, enfim, Essa tão rara flor abriu assim!..

Milagre. . fantasia. . ou, talvez, sina...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos, Que tem que sejam tristes os meus olhos Se eles são tristes pelo amor de ti?!. .

Desde que em mim nasceste em noite calma, Voou ao longe a asa da minha alma

E nunca, nunca mais eu me entendi..

NOITE DE SAUDADE

A Noite vem poisando devagar

Sobre a terra que inunda de amargura. .

E nem sequer a bênção do luar

A quis tornar divinamente pura. .

Ninguém vem atrás dela a acompanhar

A sua dor que é cheia de tortura. .

E eu oiço a Noite imensa soluçar!

E eu oiço soluçar a Noite escura!

Por que és assim tão escura, assim tão triste?! É que, talvez, ó Noite, em ti existe

Uma Saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem. .

Talvez de ti, ó Noite!. . Ou de ninguém!. .

Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho! ANGÚSTIA

Tortura do pensar! Triste lamento!

Quem nos dera calar a tua voz!

Quem nos dera cá dentro, muito a sós,

Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar!. . E o pensamento

Sempre a morder-nos bem, dentro de nós. . Querer apagar no Céu - Ó sonho atroz! -

O brilho duma estrela, com o vento!. .

E não se apaga, não. . nada se apaga!

Vem sempre rastejando como a vaga. .

Vem sempre perguntando: “O que te resta?. .” Ah! não ser mais que o vago, o infinito!

Ser pedaço de gelo, ser granito,

Ser rugido de tigre na floresta!

AMIGA

Deixa-me ser a tua amiga, Amor;

A tua amiga só, já que não queres

Que pelo teu amor seja a melhor

A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor

O que me importa a mim?! O que quiseres É sempre um sonho bom! Seja o que for,

Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...

Como se os dois nascêssemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho. . Beija-mas bem!. . Que fantasia louca

Guardar assim, fechados, nestas mãos

Os beijos que sonhei pra minha boca!. .

[sem título]

Eu queria ser o Mar ingente e forte

O mar enorme, a vastidão imensa. .

Eu queria ser a árvore que não pensa,

Que ri do mundo vão e até a morte. .

Eu queria ser o Sol, o irmão do Mar

O bem do que é humilde e pobrezinho...

Eu queria ser a pedra no caminho

Que não sofre a tortura do pensar..

Mas o Mar também chora de tristeza...

E a árvore também, como quem reza,

Levanta aos céus os braços como um crente! E o Sol cheio de mágoa ao fim de um dia, Tem lágrimas de sangue na agonia,

E as pedras, essas, pisa-as toda a gente. . DESEJOS VÃOS

Eu queria ser o Mar de altivo porte

Que ri e canta, a vastidão imensa!

Eu queria ser a pedra que não pensa,

A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o sol, a luz imensa,

O bem do que é humilde e não tem sorte! Eu queria ser a árvore tosca e densa

Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...

As Árvores também, como quem reza,

Abrem, aos Céus, os braços, como um crente! E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,

Tem lágrimas de sangue na agonia!

E as Pedras... essas. . pisa-as toda a gente!. . A UM LIVRO

No silêncio de cinzas do meu Ser Agita-se uma sombra de cipreste,

É uma sombra triste que ando a ler

No livro cheio de mágoa que me deste!

Estranho livro aquele que escreveste

Poeta da saudade e do sofrer

Estranho livro em que puseste

Tudo o que eu sinto sem poder dizer!

Parece que folheio toda a minha alma!

O livro que me deste, é meu e salva

As orações que choro e rio e canto!

Poeta igual a mim, ai quem me dera

Dizer o que tu dizes! Quem soubera

Velar a minha Dor desse teu manto!

PIOR VELHICE

Sou velha e triste. Nunca o alvorecer

Dum riso são andou na minha boca!

Gritando que me acudam, em voz rouca,

Eu, náufraga da Vida, ando a morrer!

A Vida, que ao nascer, enfeita e touca

DE alvas rosas a fronte da mulher, Na minha fronte mística de louca

Martírios só poisou a emurchecer!

E dizem que sou nova. . A mocidade

Estará só, então, na nossa idade,

Ou está em nós e em nosso peito mora?!

Tenho a pior velhice, a que é mais triste,

Aquela onde nem sequer existe

Lembrança de ter sido nova. . outrora. .

ALMA PERDIDA

Toda esta noite o rouxinol chorou,

Gemeu, rezou, gritou perdidamente!

Alma de rouxinol, alma da gente,

Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,

Que se fundiu na Dor, suavemente..

Talvez sejas a alma, a alma doente

DE alguém que quis amar e nunca amou! Toda a noite choraste.. e eu chorei

Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei

Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,

Que eu pensei que tu eras a minha alma

Que chorasse perdida em tua voz!. .

ORAÇÃO DE JOELHOS

Bendita seja a mãe que te gerou!

Bendito o leite que te fez crescer!

Bendito o berço aonde te embalou

A tua ama pra te adormecer!

Bendito seja o brilho do luar

Da noite em que nasceste tão suave,

Que deu essa candura ao teu olhar

E à tua voz esse gorjeio de ave!

Benditos sejam todos que te amarem!

Os que em volta de ti ajoelharem

Numa grande paixão, fervente, louca!

E se mais que eu, um dia te quiser

Alguém, bendita seja essa mulher,

Bendito seja o beijo dessa boca!

LANGUIDEZ

Tardes da minha terra, doce encanto, Tardes duma pureza de açucenas,

Tardes de sonho, as tardes de novenas,

Tardes de Portugal, as tardes de Anto,

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!. . Horas benditas, leves como penas,

Horas de fumo e cinza, horas serenas,

Minhas horas de dor em que eu sou santo! Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,

Que poisam sobre duas violetas,

Asas leves cansadas de voar. .

E a minha boca tem uns beijos mudos. .

E as minhas mãos, uns pálidos veludos,

Traçam gestos de sonho pelo ar..

PARA QUÊ?!

Tudo é vaidade neste mundo vão...

Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!

E mal desponta em nós a madrugada,

Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção

Que o nosso peito ri à gargalhada, Flor que é nascida e logo desfolhada,

Pétalas que se pisam pelo chão!. .

Beijos de amor! Pra quê?!. . Tristes vaidades! Sonhos que logo são realidades,

Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!

Beijos de amor que vão de boca em boca, Como pobres que vão de porta em porta!. . AO VENTO

O vento passa a rir, torna a passar,

Em gargalhadas ásperas de demente;

E esta minha alma trágica e doente

Não sabe se há de rir; se há de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,

Vento que ris de mim sempre a troçar,

Vento que ris do mundo e do amar,

A tua voz tortura toda a gente!. .

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!

Desabafa essa dor a sós comigo,

E não rias assim !.. Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário Do nosso peito ser como um Calvário,

e a gente andar a rir pela vida fora! . .

TÉDIO

Passo pálida e triste. Oiço dizer

“Que branca que ela é! Parece morta!”

E eu que vou sonhando, vaga, absorta,

Não tenho um gesto, ou um olhar sequer.. Que diga o mundo e a gente o que quiser!- O que é que isso me faz?.. O que me importa?. . O frio que trago dentro gela e corta

Tudo que é sonho e graça na mulher!

O que é que isso me importa?! Essa tristeza É menos dor intensa que frieza,

É um tédio profundo de viver!

E é tudo sempre o mesmo, eternamente.. O mesmo lago plácido, dormente..

E os dias, sempre os mesmos, a correr. .

DESALENTO

Ao grande e estranho poeta A. Durão Às vezes oiço rir, é uma agonia

Queima-me a alma como estranha brasa

Tenho ódio à luz e tenho raiva ao dia

Que me põe na alma o fogo que me abrasa! Tenho sede de amar a humanidade. .

Eu ando embriagada. . entontecida..

O roxo de meus lábios é saudade

Duns beijos que me deram noutra vida!

Ei não gosto do Sol, eu tenho medo

Que me vejam nos olhos o segredo

De só saber chorar, de ser assim. .

Gosto da Noite, imensa, triste, preta,

Como esta estranha e doida borboleta

Que eu sinto sempre a voltejar em mim!

A MINHA TRAGÉDIA

Tenho ódio à luz e raiva à claridade

Do sol, alegre, quente, na subida.

Parece que a minha alma é perseguida

Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade, Trazes-me embriagada, entontecida!. .

Duns beijos que me deste noutra vida,

Trago em meus lábios roxos, a saudade!. . Eu não gosto do sol, eu tenho medo

Que me leiam nos olhos o segredo

De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,

Como esta estranha e doida borboleta

Que eu sinto sempre a voltejar em mim!. . SEM REMÉDIO

Aqueles que me têm muito amor

Não sabem o que sinto e o que sou..

Não sabem que passou, um dia, a Dor,

À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor;

Este frio que anda em mim, e que gelou

O que de bom me deu Nosso Senhor!

Se eu nem sei por onde ando e onde vou!! Sinto os passos da Dor, essa cadência

Que é já tortura infinda, que é demência!

Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio, A mesma angústia funda, sem remédio,

Andando atrás de mim, sem me largar!. .

MAIS TRISTE

É triste, diz a gente, a vastidão

Do Mar imenso! E aquela voz fatal

Com que ele fala, agita o nosso mal!

E a Noite é triste como a Extrema-Unção. É triste e dilacera o coração

Um poente do nosso Portugal!

E não veem que eu sou... eu... afinal,

A coisa mais magoada das que o são!

Poentes de agonia tenho-os eu

Dentro de mim e tudo quanto é meu

É um triste poente de amargura!

E a vastidão do Mar, toda essa água

Trago-a dentro de mim num Mar de Mágoa! E a Noite sou eu própria, a Noite escura!

VELHINHA

Se os que me viram já cheia de graça

Olharem bem de frente para mim,

Talvez, cheios de dor, digam assim:

“Já ela é velha! Como o tempo passa!. .”

Não sei rir e cantar por mais que faça!

Ó minhas mãos talhadas em marfim,

Deixem esse fio de oiro que esvoaça!

Deixem correr a vida até o fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!

Tenho cabelos brancos e sou crente..

Já murmuro orações... falo sozinha...

E o bando cor-de-rosa dos carinhos

Que tu me fazes, olho-os indulgente,

Como se fosse um bando de netinhos. .

EM BUSCA DO AMOR

O meu Destino disse-me a chorar:

“Pela estrada da Vida vai andando,

E, aos que vires passar, interrogando

Acerca do Amor, que hás de encontrar.”

Fui pela estrada a rir e a cantar, As contas do meu sonho desfilando. .

E noite e dia, à chuva e ao luar,

Fui sempre caminhando e perguntando. .

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho, Viste o Amor acaso em teu caminho?”

E o velho estremeceu.. olhou. . e riu. .

Agora pela estrada, já cansados

Voltam todos pra trás, desanimados...

E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!.. ” IMPOSSÍVEL

Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste: “Parece Sexta-Feira de Paixão.

Sempre a cismar, cismar de olhos no chão, Sempre a pensar na dor que não existe..

O que é que tem?! Tão nova e sempre triste! Faça por estar contente! Pois então?!. .”

Quando se sofre, o que se diz é vão. .

Meu coração, tudo, calado ouviste. .

Os meus males ninguém mos adivinha. .

A minha Dor não fala, anda sozinha..

Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!. . Os males de Anto toda a gente os sabe!

Os meus.. ninguém. . A minha Dor não cabe Nos cem milhões de versos que eu fizera!. . "SÓROR SAUDADE"

A Américo Durão

Irmã, Sóror Saudade me chamaste. .

E na minha alma o nome iluminou-se

Como um vitral ao sol, como se fosse

A luz do próprio sonho que sonhaste.

Numa tarde de Outono o murmuraste,

Toda a mágoa do Outono ele me trouxe,

Jamais me hão de chamar outro mais doce. Com ele bem mais triste me tornaste..

E baixinho, na alma da minha alma,

Como bênção de sol que afaga e acalma, Nas horas más de febre e de ansiedade,

Como se fossem pétalas caindo

Digo as palavras desse nome lindo

Que tu me deste: "Irmã, Sóror Saudade.. "