Sonetos Completos

Florbela Espanca · Apêndice

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SONETOS COMPLETOS

FLORBELA ESPANCA

Esta obra respeita as regras

do Novo Acordo Ortográfico

 

A presente obra encontra-se sob domínio público ao abrigo do art.º 31 do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (70 anos após a morte do autor) e é distribuída de modo a proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefício da sua leitura. Dessa forma, a venda deste e-book ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. Foi a generosidade que motivou a sua distribuição e, sob o mesmo princípio, é livre para a difundir. Para encontrar outras obras de domínio público em formato digital, visite-nos em: http://luso-livros.net/

Compêndio dos Poemas de Florbela Espanca publicados nas obras: “Livro de Mágoas” , “Livro de Sóror Saudade” , “Charneca em Flor” , “Reliquiae” e “O Livro DE

Ele”

ESTE LIVRO. .

Este livro é de mágoas. Desgraçados

Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!

Somente a vossa dor de Torturados

Pode, talvez, senti-lo. . e compreendê-lo.

Este livro é para vós. Abençoados

Os que o sentirem, sem ser bom nem belo! Bíblia de tristes... Ó Desventurados,

Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo! Livro de Mágoas.. Dores. . Ansiedades!

Livro de Sombras. . Névoas. . e Saudades! Vai pelo mundo.. (Trouxe-o no meu seio...) Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,

Chorai comigo a minha imensa mágoa,

Lendo o meu livro só de mágoas cheio!...

VAIDADE

Sonho que sou a Poetisa eleita,

Aquela que diz tudo e tudo sabe,

Que tem a inspiração pura e perfeita,

Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo! E que deleita

Mesmo aqueles que morrem de saudade! Mesmo os de alma profunda e insatisfeita! Sonho que sou Alguém cá neste mundo..

Aquela de saber vasto e profundo,

Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando,

Acordo do meu sonho.. E não sou nada!. . EU

Eu sou a que no mundo anda perdida,

Eu sou a que na vida não tem norte,

Sou a irmã do Sonho, e desta sorte

Sou a crucificada. . a dolorida..

Sombra de névoa ténue e esvaecida,

E que o destino amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida!. .

Sou aquela que passa e ninguém vê. .

Sou a que chamam triste sem o ser..

Sou a que chora sem saber por quê. .

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,

Alguém que veio ao mundo pra me ver

E que nunca na vida me encontrou!

CASTELÃ

Altiva e couraçada de desdém

Vivo sozinha em meu castelo, a Dor. .

Debruço-me às ameias ao sol-pôr

E ponho-me a cismar não sei em quem!

Castelã da Tristeza vês alguém?!. .

- E o meu olhar é interrogador. .

E rio e choro! É sempre o mesmo horror

E nunca, nunca vi passar ninguém!

- Castelã da Tristeza, porque choras,

Lendo toda de branco um livro de horas,

À sombra rendilhada dos vitrais?...

Castelã da Tristeza, é bem verdade,

Que a tragédia infinita é a Saudade!

Que a tragédia infinita é Nunca Mais!

CASTELÃ DA TRISTEZA

Altiva e couraçada de desdém,

Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!

Passa por ele a luz de todo o amor. .

E nunca em meu castelo entrou alguém!

Castelã da Tristeza, vês?. . A quem?...

- E o meu olhar é interrogador -

Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr. . Chora o silêncio... nada. . ninguém vem..

Castelã da Tristeza, por que choras

Lendo, toda de branco, um livro de horas, À sombra rendilhada dos vitrais?...

À noite, debruçada pelas ameias,

Por que rezas baixinho?... Por que anseias?... Que sonho afagam tuas mãos reais?..

TORTURA

Tirar dentro do peito a Emoção,

A lúcida Verdade, o Sentimento!

- E ser, depois de vir do coração,

Um punhado de cinza esparso ao vento!. . Sonhar um verso de alto pensamento,

E puro como um ritmo de oração!

- E ser, depois de vir do coração,

O pó, o nada, o sonho dum momento!. .

São assim ocos, rudes, os meus versos:

Rimas perdidas, vendavais dispersos,

Com que eu iludo os outros, com que minto! Quem me dera encontrar o verso puro,

O verso altivo e forte, estranho e duro,

Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

LÁGRIMAS OCULTAS

Se me ponho a cismar em outras eras

Em que ri e cantei, em que era querida,

Parece-me que foi noutras esferas,

Parece-me que foi numa outra vida. .

E a minha triste boca dolorida,

Que dantes tinha o rir das Primaveras,

Esbate as linhas graves e severas

E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...

Toma a brandura plácida dum lago

O meu rosto de monja de marfim..

E as lágrimas que choro, branca e calma, Ninguém as vê brotar dentro da alma!

Ninguém as vê cair dentro de mim!

TORRE DE NÉVOA

Subi ao alto, à minha Torre esguia,

Feita de fumo, névoas e luar,

E pus-me, comovida, a conversar

Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria

Dos versos que são meus, do meu sonhar, E todos os poetas, a chorar,

Responderam-me então: “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também

Tivemos ilusões, como ninguém,

E tudo nos fugiu, tudo morreu!. .”

Calaram-se os poetas, tristemente. .

E é desde então que eu choro amargamente Na minha Torre esguia junto ao Céu!..