Sonetos Completos
O Nosso Livro
Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.
Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor! Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!
Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente Dirá, fechando o livro docemente:
"Versos só nossos, só de nós os dois!..."
O QUE TU ÉS. .
És Aquela que tudo te entristece
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a Mágoa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece. Aquela que o sol claro entenebrece
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina e aquece!
Mar-Morto sem marés nem ondas largas,
A rastejar no chão como as mendigas,
Todo feito de lágrimas amargas!
És ano que não teve Primavera...
Ah! Não seres como as outras raparigas
Ó Princesa Encantada da Quimera!..
FANATISMO
Minha alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida. .
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!. .
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa. .
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!. ."
ALENTEJANO
À Buja
Deu agora meio-dia; o sol é quente
Beijando a urze triste dos outeiros.
Nas ravinas do monte andam ceifeiros,
Na faina, alegres, desde o sol nascente.
Cantam as raparigas meigamente.
Brilham os olhos negros, feiticeiros.
E há perfis delicados e trigueiros
Entre as altas espigas de oiro ardente.
A terra prende aos dedos sensuais
A cabeleira loira dos trigais
Sob a bênção dulcíssima dos céus.
Há gritos arrastados de cantigas...
E eu sou uma daquelas raparigas. .
E tu passas e dizes: "Salve-os Deus!"
QUE IMPORTA?. .
Eu era a desdenhosa, a indiferente.
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violências de paixão
Como bate no peito à outra gente.
Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de Desejo ou de emoção,
Enquanto a asa loira da ilusão
Dentro em mim se desdobra a um sol nascente. Minha alma, a pedra, transformou-se em fonte; Como nascida em carinhoso monte
Toda ela é riso, e é frescura, e graça!
Nela refresca a boca um só instante. .
Que importa?.. Se o cansado viandante
Bebe em todas as fontes. . quando passa?.. FUMO
Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas;
Longe de ti há noites silenciosas, Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas..
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces plenas de carinhos!
Os dias são Outonos: choram. . choram. . Há crisântemos roxos que descoram. .
Há murmúrios dolentes de segredos. .
Invoco o nosso sonho! Estendo os braços! E ele é, ó meu amor pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos... O MEU ORGULHO
Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera Não me lembrar! Em tardes dolorosas
Lembro-me que fui a Primavera
Que em muros velhos faz nascer as rosas! As minhas mãos outrora carinhosas
Pairavam como pombas. . Quem soubera Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros velhos não dão rosas!
O que eu mais amo é que mais me esquece. . E eu sonho: "Quem olvida não merece. .
E já não fico tão abandonada!
Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha,
E também é nobreza não ter nada!
OS VERSOS QUE TE FIZ
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolências de veludos caros,
São como sedas brancas a arder. .
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda. .
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto! E nunca te beijei..
E, nesse beijo, Amor, que eu te não dei Guardo os versos mais lindos que te fiz!
FRIEZA
Os teus olhos são frios como as espadas, E claros como os trágicos punhais,
Têm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lâminas geladas.
Vejo neles imagens retratadas
De abandonos cruéis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!
Mas não te invejo, Amor, essa indiferença, Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!
Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirás a soluçar:
"Ah, quem me dera, Irmã, amar assim!. .
MEU MAL
Ao meu irmão
Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda dum vitral,
Que fui cipreste, caravela, dor!
Fui tudo que no mundo há de maior:
Fui cisne, e lírio, e águia, e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou. um cínico riso de Chamfort..
Fui a heráldica flor de agrestes cardos,
Deram as minhas mãos aroma aos nardos. . Deu cor ao eloendro a minha boca...
Ah! de Boabdil fui lágrima na Espanha!
E foi de lá que eu trouxe esta ânsia estranha, Mágoa não sei de quê! Saudade louca!
A NOITE DESCE..
Como pálpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce.. Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem! Assim mãos de bondade me beijassem!
Assim me adormecessem! Caridosas
Em braçados de lírios, de mimosas, No crepúsculo que desce me enterrassem! A noite em sombra e fumo se desfaz. .
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe embriagada, louca!
E a noite vai descendo, sempre calma. .
Meu doce Amor tu beijas a minha alma
Beijando nesta hora a minha boca!
CARAVELAS
Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.
Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!
Se eu sempre fui assim este Mar-Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram.
Caravelas doiradas a bailar..
Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar! As que eu lancei à vida, e não voltaram!. . INCONSTÂNCIA
Procurei o amor que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava.
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer. .
Um sol a apagar-se e outro a acender
Nas brumas dos atalhos por onde ando...
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há de partir também.. nem eu sei quando. . O NOSSO MUNDO
Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Poisando em ti o meu amor eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos. .
Os meus sonhos agora são mais vagos... O teu olhar em mim, hoje, é mais terno...
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!
A vida, meu Amor, quer vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!
Que importa o mundo e as ilusões defuntas?. . Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?. . O mundo, Amor?.. As nossas bocas juntas!. . PRINCE CHARMANT
A Raul Proença
No lânguido esmaecer das amorosas
Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas
Das noites da minha alma tenebrosas!
Boca sangrando beijos, flor que sente. .
Olhos postos num sonho, humildemente. . Mãos cheias de violetas e de rosas. .
E nunca O encontrei!. . Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!
Ah! Toda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas...- Nunca se encontra Aquele que se espera!. . ANOITECER
A luz desmaia num fulgor de aurora,
Diz-nos adeus religiosamente. .
E eu, que não creio em nada, sou mais crente Do que em menina, um dia, o fui.. outrora. . Não sei o que em mim ri, o que em mim chora Tenho bênçãos de amor pra toda a gente! Como eu sou pequenina e tão dolente
No amargo infinito desta hora!
Horas tristes que são o meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Meu áspero e intérmino Calvário!
E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive. . ESFINGE
Sou filha da charneca erma e selvagem.
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos de oiro, pelos caminhos, Desta minha alma ardente são a imagem. Embalo em mim um sonho vão, miragem: Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos,
Fôssemos um pedaço de paisagem!
E à noite, à hora doce da ansiedade
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da saudade. .
E à tua espera, enquanto o mundo dorme, Ficaria, olhos quietos, a cismar. .
Esfinge olhando a planície enorme..
TARDE DEMAIS..
Quando chegaste enfim, para te ver Abriu-se a noite em mágico luar;
E pra o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar. .
Chegaste enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar;
E as pedras do caminho florescer!
Beijando a areia de oiro dos desertos
Procura-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!
E há cem anos que eu fui nova e linda!. .
E a minha boca morta grita ainda:
"Por que chegaste tarde, Ó meu Amor?!..." NOTURNO
Amor! Anda o luar todo bondade,
Beijando a terra, a desfazer-se em luz. .
Amor! São os pés brancos de Jesus
Que andam pisando as ruas da cidade!
E eu ponho-me a pensar. . Quanta saudade Das ilusões e risos que em ti pus!
Traçaste em mim os braços duma cruz,
Neles pregaste a minha mocidade!
Minha alma, que eu te dei, cheia de mágoas, E nesta noite o nenúfar dum lago
Estendendo as asas brancas sobre as águas! Poisa as mãos nos meus olhos com carinho, Fecha-os num beijo dolorido e vago...
E deixa-me chorar devagarinho...
CINZENTO
Poeiras de crepúsculos cinzentos,
Lindas rendas velhinhas, em pedaços,
Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços Como brancos fantasmas, sonolentos. .
Monges soturnos deslizando lentos,
Devagarinho, em misteriosos passos. .
Perde-se a luz em lânguidos cansaços. .
Ergue-se a minha cruz dos desalentos!
Poeiras de crepúsculos tristonhos,
Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos, A névoa das saudades que deixaste!
Hora em que o teu olhar me deslumbrou.. Hora em que a tua boca me beijou..
Hora em que fumo e névoa te tornaste..
MARIA DAS QUIMERAS
Maria das Quimeras me chamou
Alguém.. Pelos castelos que eu ergui
Pelas flores de oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.
Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minha alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi
Que da minha alma, Alguém, tudo levou!
Maria das Quimeras, que fim deste
Às flores de oiro e azul que a sol bordaste, Aos sonhos tresloucados que fizeste?
Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?... Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?. .
SAUDADES
Saudades! Sim. talvez.. e por que não?. .
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!
Esquecer! Para quê?. . Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.
Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!
E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!
O QUE ALGUÉM DISSE
"Refugia-te na Arte" diz-me Alguém
"Eleva-te num voo espiritual,
Esquece o teu amor, ri do teu mal,
Olhando-te a ti própria com desdém.
Só é grande e perfeito o que nos vem
Do que em nós é Divino e imortal!
Cega de luz e tonta de ideal
Busca em ti a Verdade e em mais ninguém!" No poente doirado como a chama
Estas palavras morrem... E Naquele
Que é triste, como eu, fico a pensar. .
O poente tem alma: sente e ama!
E, porque o sol é cor dos olhos de Ele,
Eu fico olhando o sol, a soluçar. .
RUÍNAS
Se é sempre Outono o rir das Primaveras, Castelos, um a um, deixa-os cair..
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!
E deixa sobre as ruínas crescer heras,
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras!
Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais alto do que as águias pelo ar!
Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!. . Deixa-os tombar. . Deixa-os tombar. CREPÚSCULO
Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes
Batendo as asas leves, irisadas,
Poisam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes. .
E os lírios fecham.. Meu Amor, não sentes? Minha boca tem rosas desmaiadas,
E as minhas pobres mãos são maceradas Como vagas saudades de doentes...
O Silencio abre as mãos. . entorna rosas.. Andam no ar carícias vaporosas
Como pálidas sedas, arrastando. .
E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha
Um coração ardente palpitando..
ÓDIO?
A Aurora Aboim Ódio por Ele? Não. . Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto,
Que importa se mentiu? E se hoje o pranto Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Com um soturno e enorme Campo Santo! Nunca mais o amar já é bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!
Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda!
Ódio por Ele? Não. . não vale a pena...
RENÚNCIA
A minha mocidade há muito pus
No tranquilo convento da tristeza;
Lá passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mãos em cruz. .
Lá fora, a Noite, Satanás, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza. .
E como um beijo ardente a Natureza. .
A minha cela é como um rio de luz..
Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada! Empalidece mais! E, resignada,
Prende os teus braços a uma cruz maior!
Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a boca de cinzas e de terra
Ó minha mocidade toda em flor!
A VIDA
É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém O mesmo é que lançar flores ao vento!
Todos somos no mundo "Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo donde vem!
A mais nobre ilusão morre. . desfaz-se. .
Uma saudade morta em nós renasce Que no mesmo momento é já perdida. .
Amar-te a vida inteira eu não podia. .
A gente esquece sempre o bem dum dia.
Que queres, ó meu Amor, se é isto a Vida!. . HORAS RUBRAS
Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas. .
Oiço olaias em flor às gargalhadas..
Tombam astros em fogo, astros dementes, E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata pelas estradas. .
Os meus lábios são brancos como lagos. . Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...
Sou chama e neve e branca e misteriosa. . E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!
SUAVIDADE
Poisa a tua cabeça dolorida
Tão cheia de quimeras, de ideal
Sobre o regaço brando e maternal
Da tua doce Irmã compadecida.
Hás de contar-me nessa voz tão querida
Tua dor infantil e irreal,
E eu, pra te consolar, direi o mal
Que à minha alma profunda fez a Vida.
E hás de adormecer nos meus joelhos. .
E os meus dedos enrugados, velhos,
Hão de fazer-se leves e suaves. .
Hão de poisar-se num fervor de crente,
Rosas brancas tombando docemente
Sobre o teu rosto, como penas de aves. .
PRINCESA DESALENTO
Minha alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É revoltada, trágica, sombria,
Como galopes infernais de vento!
É frágil como o sonho dum momento, Soturna como preces de agonia,
Vive do riso duma boca fria!
Minha alma é a Princesa Desalento. .
Altas horas da noite ela vagueia...
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!
O luar ouve a minha alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz à tua porta. .
SOMBRA
De olheiras roxas, roxas, quase pretas,
De olhos límpidos, doces, languescentes, Lagos em calma, pálidos, dormentes
Onde se debruçassem violetas...
De mãos esguias, finas hastes quietas,
Que o vento não baloiça em noites quentes. . Noturno de Chopin. . risos dolentes...
Versos tristes em sonhos de Poetas. .
Beijo doce de aromas perturbantes. .
Rosal bendito que dá rosas... Dantes Esta era Eu e Eu era a Idolatrada!. .
Ah, cinzas mortas! Ah, luz que se apaga!
Vou sendo, em ti, agora, a sombra vaga
DE alguém que dobra a curva duma estrada. . HORA QUE PASSA
Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!
Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minha alma triste, dolorida, escura,
Minha alma sem amor é cinza, é pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!
Que tragédia tão funda no meu peito!...
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!
Deus! Como é triste a hora quando morre. . O instante que foge, voa, e passa...
Fiozinho de água triste.. a vida corre. .
DA MINHA JANELA
Mar alto! Ondas quebradas e vencidas
Num soluçar aflito, murmurado..
Vôo de gaivotas, leve, imaculado,
Como neves nos píncaros nascidas!
Sol! Ave a tombar, asas já feridas,
Batendo ainda num arfar pausado...
Ó meu doce poente torturado
Rezo-te em mim, chorando, mãos erguidas! Meu verso de Samain cheio de graça,
Inda não és clarão já és luar
Como um branco lilás que se desfaça!
Amor! Teu coração traga-o no peito. .
Pulsa dentro de mim como este mar
Num beijo eterno, assim, nunca desfeito!. . SOL POENTE
Tardinha... "Ave-Maria, Mãe de Deus. ."
E reza a voz dos sinos e das noras...
O sol que morre tem clarões de auroras,
Águia que bate as asas pelo céu!
Horas que têm a cor dos olhos teus. .
Horas evocadoras doutras horas...
Lembranças de fantásticos outroras,
De sonhos que não tenho e que eram meus! Horas em que as saudades, pelas estradas, Inclinam as cabeças martirizadas
E ficam pensativas... meditando...
Morrem verbenas silenciosamente. .
E o rubro sol da tua boca ardente
Vai-me a pálida boca desfolhando. .
EXALTAÇÃO
Viver! Beber o vento e o sol! Erguer
Ao céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!
A chama, sempre rubra, ao alto a arder!
Asas sempre perdidas a pairar!
Mais alto até estrelas desprender!
A glória! A fama! Orgulho de criar!
Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas, Nos meus beijos estáticos, pagãos!
Trago na boca o coração dos cravos!
Boémios, vagabundos, e poetas,
Com eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!
CHARNECA EM FLOR
Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas. .
Sob as urzes queimadas nascem rosas..
Nos meus olhos as lágrimas apago. .
Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!
E nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Sóror Saudade..
Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!
VERSOS DE ORGULHO
O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém!
Porque o meu Reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clarões são todos meus!
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém! O mundo! O que é o mundo, ó meu amor?! O jardim dos meus versos todo em flor,
A seara dos teus beijos, pão bendito,
Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços... São os teus braços dentro dos meus braços: Via Láctea fechando o Infinito!...
RÚSTICA
Ser a moça mais linda do povoado.
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.
Um vestido de chita bem lavado, Cheirando a alfazema e a tomilho...
- Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho... Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à "terra da verdade"...
Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de Princesa,
E todos os meus Reinos de Ansiedade.
REALIDADE
Em ti o meu olhar fez-se alvorada,
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho,
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho.
Embriagou-me o teu beijo como um vinho Fulvo de Espanha, em taça cinzelada,
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho.
Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena, E para te encontrar foi que eu nasci. .
Tens sido vida fora o meu desejo,
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei, se te perdi. .
CONTO DE FADAS
Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.
Os meus gestos são ondas de Sorrento. . Trago no nome as letras de uma flor. .
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...
Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.
Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
- Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A Princesa do conto: “Era uma vez.. ”
A UM MORIBUNDO
Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente, Como, à tarde, uma pomba que tem sono. . A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono. .
O que há depois? Depois?... O azul dos céus? Um outro mundo? O eterno nada? Deus? Um abismo? Um castigo? Uma guarida?
Que importa? Que te importa, ó moribundo?- Seja o que for, será melhor que o mundo! Tudo será melhor do que esta vida!. .
EU
Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.
Mas que eu não era Eu não o sabia mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim. . e não me via!
Andava a procurar-me - pobre louca!-
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!
E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!
PASSEIO AO CAMPO
Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!
Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina. .
Pele doirada de alabastro antigo..
Frágeis mãos de madona florentina...
- Vamos correr e rir por entre o trigo! –
Há rendas de gramíneas pelos montes...
Papoilas rubras nos trigais maduros. .
Água azulada a cintilar nas fontes. .
E à volta, Amor. . tornemos, nas alfombras Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras!. . TARDE NO MAR
A tarde é de oiro rútilo: esbraseia
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,
Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue ao seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia. Desenha mãos sangrentas de assassino!
Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar. .
E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...
SE TU VIESSES VER-ME..
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços. .
Quando me lembra: esse sabor que tinha A tua boca. . o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte. . os teus abraços. .
Os teus beijos. . a tua mão na minha..
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca... Quando os olhos se me cerram de desejo. . E os meus braços se estendem para ti. .
MISTÉRIO
Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.
Dos teus pálidos dedos delicados Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende
Murmúrios por caminhos desolados.
Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas. .
Talvez um dia entenda o teu mistério. .
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!
O MEU CONDÃO
Quis Deus dar-me o condão de ser sensível Como o diamante à luz que o alumia,
Dar-me uma alma fantástica, impossível:
- Um bailado de cor e fantasia!
Quis Deus fazer de ti a ambrósia
Desta paixão estranha, ardente, incrível!
Erguer em mim o facho inextinguível,
Como um cinzel vincando uma agonia!
Quis Deus fazer-me tua. . para nada!
- Vãos, os meus braços de crucificada, Inúteis, esses beijos que te dei!
Anda! Caminha! Aonde?... Mas por onde?. . Se a um gesto dos teus a sombra esconde O caminho de estrelas que tracei..
AS MINHAS MÃOS
As minhas mãos magritas, afiladas,
Tão brancas como a água da nascente,
Lembram pálidas rosas entornadas
Dum regaço de Infanta do Oriente.
Mãos de ninfa, de fada, de vidente,
Pobrezinhas em sedas enroladas,
Virgens mortas em luz amortalhadas
Pelas próprias mãos de oiro do sol-poente. Magras e brancas. . Foram assim feitas. . Mãos de enjeitada porque tu me enjeitas... Tão doces que elas são! Tão a meu gosto! Pra que as quero eu - Deus! - Pra que as quero eu?! Ó minhas mãos, aonde está o céu?
. .Aonde estão as linhas do teu rosto?
NOITINHA
A noite sobre nós se debruçou..
Minha alma ajoelha, põe as mãos e ora!
O luar, pelas colinas, nesta hora,
É água dum gomil que se entornou..
Não sei quem tanta pérola espalhou!
Murmura alguém pelas quebradas fora. .
Flores do campo, humildes, mesmo agora. A noite, os olhos brandos, lhes fechou. .
Fumo beijando o colmo dos casais..
Serenidade idílica de fontes,
E a voz dos rouxinóis nos salgueirais. .
Tranquilidade. . calma. . anoitecer..
Num êxtase, eu escuto pelos montes
O coração das pedras a bater..
LEMBRANÇA
Fui Essa que nas ruas esmolou
E fui a que habitou Paços Reais;
No mármore de curvas ogivais
Fui Essa que as mãos pálidas poisou. .
Tanto poeta em versos me cantou!
Fiei o linho à porta dos casais. .
Fui descobrir a Índia e nunca mais
Voltei! Fui essa nau que não voltou..
Tenho o perfil moreno, lusitano,
E os olhos verdes, cor do verde Oceano,
Sereia que nasceu de navegantes. .
Tudo em cinzentas brumas se dilui..
Ah, quem me dera ser Essas que eu fui,
As que me lembro de ter sido. . dantes!. .
A NOSSA CASA
A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!
Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
Sonho. . que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos Duma terra de rosas, num jardim,
Num país de ilusão que nunca vi. .
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim. .
MENDIGA
Na vida nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas...
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou!
Tinha o manto do sol.. quem mo roubou?! Quem pisou minhas rosas desfolhadas?!
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de oiro espedaçou?!
Agora vou andando e mendigando,
Sem que um olhar dos mundos infinitos
Veja passar o verme, rastejando...
Ah, quem me dera ser como os chacais
Uivando os brados, rouquejando os gritos Na solidão dos ermos matagais!. .
SUPREMO ENLEIO
Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa? Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!
Erva do chão que a mão de Deus levanta, Folhas murchas de rojo à tua porta. .
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!
Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!
E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás de encontrar ainda. . TOLEDO
Diluído numa taça de oiro a arder
Toledo é um rubi. E hoje é só nosso!
O sol a rir.. Vivalma. . Não esboço
Um gesto que me não sinta esvaecer..
As tuas mãos tateiam-me a tremer..
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço É como um jasmineiro em alvoroço
Ébrio de sol, de aroma, de prazer!
Cerro um pouco o olhar onde subsiste
Um romântico apelo vago e mudo,
- Um grande amor é sempre grave e triste. Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo. . Uma torre ergue ao céu um grito agudo. .
Tua boca desfolha-me num beijo...
OUTONAL
Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio... Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago...
Veludos a ondear. . Mistério mago. .
Encantamento. . A hora que não esquece, A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago. . Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!
Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor. .
SER POETA
Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim. . É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente..
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!
ALVORECER
A noite empalidece. Alvorecer. .
Ouve-se mais o gargalhar da fonte..
Sobre a cidade muda, o horizonte
É uma orquídea estranha a florescer.
Há andorinhas prontas a dizer
A missa de alva, mal o sol desponte.
Gritos de galos soam monte em monte
Numa intensa alegria de viver.
Passos ao longe.. um vulto que se esvai. . Em cada sombra Colombina trai..
Anda o silêncio em volta a quer falar. .
E o luar que desmaia, macerado,
Lembra, pálido, tonto, esfarrapado,
Um Pierrot, todo branco, a soluçar..
MOCIDADE
A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa.
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho dum diamante;
Essa que fez de mim Judeu Errante Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!
No meu sangue rubis correm dispersos:
- Chamas subindo ao alto nos meus versos, Papoilas nos meus lábios a florir!
Ama-me doida, estonteadoramente,
O meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir..
AMAR!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além..
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente. . Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!. .
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida, Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder.. pra me encontrar. . NOSTALGIA
Nesse País de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as joias que pelas aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!
Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi. . Mostrem-me esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta! O meu País de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra, É feita de mentira ou de verdade!
Quero voltar! Não sei por onde vim. .
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra Por entre tanta sombra igual a mim!
AMBICIOSA
Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram O vôo dum gesto para os alcançar..
Se as minhas mãos em garra se cravaram Sobre um amor em sangue a palpitar..
- Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!
Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus!
O amor dum homem? - Terra tão pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada. .
Um homem? - Quando eu sonho o amor dum deus!. . CRUCIFICADA
Amiga... noiva. . irmã. . o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei de merecê-las, Ao beijar a esmola que me deres.
Podes amar até outras mulheres!
- Hei de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!
Crucificada em mim, sobre os meus braços, Hei de poisar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém.
E depois.. Ah! depois de dores tamanhas, Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra Mãe!
ESPERA. .
Não me digas adeus, ó sombra amiga,
Abranda mais o ritmo dos teus passos;
Sente o perfume da paixão antiga,
Dos nossos bons e cândidos abraços!
Sou a dona dos místicos cansaços,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços... Não vás ainda embora, ó sombra amiga!
Teu amor fez de mim um lago triste:
Quantas ondas a rir que não lhe ouviste, Quanta canção de ondinas lá no fundo!
Espera... espera. . ó minha sombra amada. . Vê que pra além de mim já não há nada
E nunca mais me encontras neste mundo!. . INTERROGAÇÃO
A Guido Batelli
Neste tormento inútil, neste empenho
De tornar em silêncio o que em mim canta, Sobem-me roucos brados à garganta
Num clamor de loucura que contenho.
Ó alma de charneca sacrossanta,
Irmã da alma rútila que eu tenho,
Dize pra onde vou, donde é que venho
Nesta dor que me exalta e me alevanta!
Visões de mundos novos, de infinitos,
Cadências de soluços e de gritos,
Fogueira a esbrasear que me consome!
Diz que mão é esta que me arrasta?
Nódoa de sangue que palpita e alastra. .
Diz de que é que eu tenho sede e fome?!
VOLÚPIA
No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade..
A nuvem que arrastou o vento norte..
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos Felinamente, em voluptuosas danças. .
FILTRO
Meu Amor, não é nada: - Sons marinhos
Numa concha vazia, choro errante. .
Ah, olhos que não choram! Pobrezinhos..
Não há luz neste mundo que os levante!
Eu andarei por ti os maus caminhos
E as minhas mãos, abertas a diamante,
Hão de crucificar-se nos espinhos
Quando o meu peito for o teu mirante!
Para que corpos vis te não desejem,
Hei de dar-te o meu corpo, e a boca minha Pra que bocas impuras te não beijem!
Como quem roça um lago que sonhou,
Minhas cansadas asas de andorinha
Hão de prender-te todo num só vôo. .
MAIS ALTO
Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem
O mundo não conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!
Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível!
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
A rutilante luz dum impossível!
Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!
NERVOS DE OIRO
Meus nervos, guizos de oiro a tilintar
Cantam-me na alma a estranha sinfonia
Da volúpia, da mágoa e da alegria,
Que me faz rir e que me faz chorar!
Em meu corpo fremente, sem cessar,
Agito os guizos de oiro da folia!
A Quimera, a Loucura, a Fantasia,
Num rubro turbilhão sinto-As passar!
O coração, numa imperial oferta.
Ergo-o ao alto! E, sobre a minha mão,
É uma rosa de púrpura, entreaberta!
E em mim, dentro de mim, vibram dispersos, Meus nervos de oiro, esplêndidos, que são Toda a Arte suprema dos meus versos!
A VOZ DA TÍLIA
Diz-me a tília a cantar: "Eu sou sincera,
Eu sou isto que vês: o sonho, a graça,
Deu ao meu corpo, o vento, quando passa, Este ar escultural de bayadera...
E de manhã o sol é uma cratera,
Uma serpente de oiro que me enlaça. .
Trago nas mãos as mãos da Primavera. .
E é para mim que em noites de desgraça
Toca o vento Mozart, triste e solene,
E à minha alma vibrante, posta a nu,
Diz a chuva sonetos de Verlaine.. "
E, ao ver-me triste, a tília murmurou:
"Já fui um dia poeta como tu..
Ainda hás de ser tília como eu sou.. "
NÃO SER
Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, sãs, inanimadas,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
- Mantos rotos de estátuas mutiladas!
Ah! arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas! Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!
Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de oiro duma flor aberta!. .
Quem fez ao sapo o leito carmesim
De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?
Quem cinzelou estrelas no jasmim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?
Quem fez os homens e deu vida aos lobos? Santa Teresa em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?
Quem nos deu asas para andar de rastros? Quem nos deu olhos para ver os astros
- Sem nos dar braços para os alcançar?!. . IN MEMORIAM
Ao meu morto querido
Na cidade de Assis, "Il Poverello"
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,
Tudo quanto há de vil, quanto há de belo, Tudo era nosso irmão! - E assim sonhando, Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!
"Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água. ." Ah, Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa
Batida por furiosos vendavais!
Eu fui na vida a irmã dum só Irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais!
ÁRVORES DO ALENTEJO
Ao Prof Guido Battelli
Horas mortas. . Curvada aos pés do Monte A planície é um brasido.. e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!
E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!
Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram Em vão remédio para tanta mágoa!
Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
QUEM SABE?...
Ao Ângelo
Queria tanto saber por que sou Eu!
Quem me enjeitou neste caminho escuro? Queria tanto saber por que seguro
Nas minhas mãos o bem que não é meu!
Quem me dirá se, lá no alto, o céu
Também é para o mau, para o perjuro?
Para onde vai a alma que morreu?
Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!
A estrada de Damasco, o meu caminho,
O meu bordão de estrelas de ceguinho,
Água da fonte de que estou sedenta!
Quem sabe se este anseio de Eternidade, A tropeçar na sombra, é a Verdade,
É já a mão de Deus que me acalenta?
A MINHA PIEDADE
A Bourbon e Meneses
Tenho pena de tudo quanto lida
Neste mundo, de tudo quanto sente,
Daquele a quem mentiram, de quem mente, Dos que andam pés descalços pela vida,
Da rocha altiva, sobre o monte erguida,
Olhando os céus ignotos frente a frente, Dos que não são iguais à outra gente,
E dos que se ensanguentam na subida!
Tenho pena de mim.. pena de ti..
De não beijar o riso duma estrela. .
Pena dessa má hora em que nasci. .
De não ter asas para ir ver o céu...
De não ser Esta. . a Outra. . e mais Aquela... De ter vivido e não ter sido Eu..
SOU EU!
À minha ilustre camarada Laura Haves
Pelos campos em fora, pelos combros,
Pelos montes que embalam a manhã,
Largo os meus rubros sonhos de pagã,
Enquanto as aves poisam nos meus ombros. . Em vão me sepultaram entre escombros
De catedrais duma escultura vã!
Olha-me o loiro sol tonto de assombros,
as nuvens, a chorar, chamam-me irmã!
Ecos longínquos de ondas. . de universos. Ecos dum Mundo. . dum distante Além, Donde eu trouxe a magia dos meus versos! Sou eu! Sou eu! A que nas mãos ansiosas Prendeu da vida, assim como ninguém,
Os maus espinhos sem tocar nas rosas!
PANTEÍSMO
Tarde de brasa a arder, sol de verão
Cingindo, voluptuoso, o horizonte. .
Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão
Dum verso triunfal de Anacreonte!
Vejo-me asa no ar, erva no chão,
Oiço-me gota de água a rir, na fonte,
E a curva altiva e dura do Marão
É o meu corpo transformado em monte!
E de bruços na terra penso e cismo
Que, neste meu ardente panteísmo
Nos meus sentidos postos e absortos
Nas coisas luminosas deste mundo,
A minha alma é o túmulo profundo
Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos! MINHA TERRA
Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar
Onde tenho o meu pão e a minha casa. .
Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha. . a dormitar..
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!
Minha terra onde meu irmão nasceu. .
Aonde a mãe que eu tive e que morreu,
Foi moça e loira, amou e foi amada. .
Truz... truz.. truz. . Eu não tenho onde me acoite, Sou um pobre de longe, é quase noite..
Terra, quero dormir.. dá-me pousada!
A UMA RAPARIGA
À Nice
Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes! Por sobre lamaçais alteia pontes
Com tuas mãos preciosas de menina.
Nessa estrada da vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes! Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!
Trata por tu a mais longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!
Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir à luz a haste duma flor!. .
MINHA CULPA
Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem. . Sou um reflexo. . um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém..
Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem Sou?! Sei lá! Sou a roupagem Dum doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!. .
Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro. .
Uma chaga sangrenta do Senhor..
Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados, Num mundo de vaidades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador. . TEUS OLHOS
Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados! Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis. minhas rendas, meus brocados. Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros Que trouxe de Além-Mundos ignorados!
Olhos do meu Amor! Fontes. . cisternas..
Enigmáticas campas medievais. .
Jardins de Espanha. . catedrais eternas..
Berço vinde do céu à minha porta. .
Ó meu leite de núpcias irreais!. .
Meu sumptuoso túmulo de morta!. .
É um não querer mais que bem querer; (Camões)