Sonetos Completos
Mentiras
"Ai quem me dera uma feliz mentira,
Que fosse uma verdade para mim!"
J. Dantas
Tu julgas que eu não sei que tu me mentes Quando o teu doce olhar poisa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes? Qual a imagem que alberga o peito teu?
Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
O bom sonho da feroz realidade..
Não palpita de amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade! Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais,
O gelo do teu peito de granito...
Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!
OS MEUS VERSOS
Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste O encanto supremo que os ditou?
Acaso, quando os leste, imaginaste
Que era o teu esse olhar que os inspirou? Adivinhaste? Eu não posso acreditar
Que adivinhasses, vês? E até, sorrindo.
Tu disseste para ti: "Por um olhar
Somente, embora fosse assim tão lindo,
Ficar amando um homem!.. Que loucura!"- Pois foi o teu olhar; a noite escura,
- (Eu só a ti digo, e muito a medo. .)
Que inspirou esses versos! Teu olhar
Que eu trago dentro de alma a soluçar!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Aí não descubras nunca o meu segredo!
[sem título]
Meu fado, meu doce amigo
Meu grande consolador
Eu quero ouvir-te rezar,
Orações à minha dor!
Só no silêncio da noite Vibrando perturbador,
Quantas almas não consolas
Nessa toada de amor!
Cantando por uma voz pura
Eu quero ouvir-te também
Por uma voz que me recorde
A doce voz do meu bem!
Pela calada da noite
Quando o luar é dolente
Eu quero ouvir essa voz
Docemente.. docemente. .
AOS OLHOS DE ELE
Não acredito em nada. As minhas crenças Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança.
Fiquei então sem fé; e a toda a gente
Eu digo sempre. embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!
Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavíssima de dor. .
E grito então ao ver esses dois céus:
Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que me encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!
MISTÉRIO DE AMOR
Um mistério que trago dentro em mim
Ajuda-me, minha alma a descobrir..
É um mistério de sonho e de luar
Que ora me faz chorar, ora sorrir!
Viemos tanto tempo tão amigos!
E sem que o teu olhar puro toldasse
A pureza do meu. E sem que um beijo
As nossas bocas rubras desfolhasse!
Mas um dia, uma tarde.. houve um fulgor, Um olhar que brilhou.. e mansamente. .
Ai, dize ó meu encanto, meu amor:
Porque foi que somente nessa tarde
Nos olhamos assim tão docemente Num grande olhar de amor e de saudade?! ESCREVE-ME. .
Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto de açucenas!
Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos Ninguém nega uma frase de oração!
"Amo-te!" Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema de amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas? Olha, manda então.. brandas. . serenas. . Cinco pétalas roxas de saudade. .
O TEU SEGREDO
O mundo diz-te alegre porque o riso
Desabrocha em tua boca, docemente
Como uma flor de luz! Meigo sorriso Que na tua boca poisa alegremente!
Chama-te o mundo alegre. Ai, meu amor,
Só eu inda li bem nessa alegria!. .
Também parece alegre a triste cor
Do sol, à tarde, ao despedir-se o dia!. .
És triste; eu sei. Toda suavidade
Tão roxa, como é roxa uma saudade
É a tua alma, amor, cheia de mágoa.
Eu sei que és triste, sei. O meu olhar
Descobriu o segredo, que a cantar
Repoisa nos teus olhos rasos de água!
DOCE CERTEZA
Por essa vida fora hás de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas de oiro fulgindo em muita boca!
Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos de oiro e risos de mulher,
Muito beijo de amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim sequer!.
Hás de tecer uns sonhos delicados...
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos !
Mas nunca encontrarás pela vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo de amor que são meus versos! SONHO MORTO
Nosso sonho morreu. Devagarinho,
Rezemos uma prece doce e triste
Por alma desse sonho! Vá. . baixinho...
Por esse sonho, amor, que não existe!
Vamos encher-lhe o seu caixão dolente
De roxas violetas; triste cor!
Triste como ele, nascido ao sol poente,
O nosso sonho. . ai!. . reza baixo. . amor. . Foste tu que o mataste! E foi sorrindo,
Foi sorrindo e cantando alegremente,
Que tu mataste o nosso sonho lindo!
Nosso sonho morreu.. Reza mansinho..
Ai, talvez que rezando, docemente, O nosso sonho acorde.. mais baixinho...
SONHANDO. .
É noite pura e linda. Abro a minha janela
E olho suspirando o infinito céu,
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela Fico a pensar em ti e neste amor que é teu! DE olhos fechados sonho. A noite é uma elegia Cantando brandamente um sonho todo de alma E enquanto a lua branca o linho bom desfia Eu sinto almas passar na noite linda e calma. Lá vem a tua agora. . Numa carreira louca Tão perto que passou, tão perto à minha boca Nessa carreira doida, estranha e caprichosa Que a minha alma cativa estremece, esvoaça Para seguir a tua, como a folha de rosa
Segue a brisa que a beija. . e a tua alma passa!. . DESEJO
Quero-te ao pé de mim na hora de morrer. Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade, Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver Amortalhado sempre à luz duma saudade! Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco Se ungir da palidez sinistra do não ser,
E quero ainda, amor, no meu supremo arranco Sentir junto ao meu seio teu coração bater! Que seja a tua mão tão branda como a neve Que feche o meu olhar numa carícia leve
Em doce perpassar de pétala de lis...
Que seja a tua boca rubra como o sangue Que feche a minha boca, a minha boca exangue!.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Ah, venha a morte já que eu morrerei feliz!. . CONFISSÃO
Aborreço-te muito. Em ti há qualquer cousa De frio e de gelado, de pérfido e cruel,
Como um orvalho frio no tampo duma lousa, Como em doirada taça algum amargo fel. Odeio-te também. O teu olhar ideal
O teu perfil suave, a tua boca linda,
São belas expressões de todo o humano mal Que inunda o mar e o céu e toda a terra infinda. Desprezo-te também. Quando te ris e falas, Eu fico-me a pensar no mal que tu calas
Dizendo que me queres em íntimo fervor! Odeio-te e desprezo-te. Aqui toda a minha alma Confessa-to a rir, muito serena e calma!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Ah, como eu te adoro, como eu te quero, amor!. . AONDE?. .
Ando a chamar por ti, demente, alucinada, Aonde estás, amor? Aonde.. aonde.. aonde?.. O eco ao pé de mim segreda. . desgraçada... E só a voz do eco, irónica, responde!
Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda! O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar; Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantando como um rio banhado de luar!
Eu grito a minha dor, a minha dor intensa! Esta saudade enorme, esta saudade imensa! E Só a voz do eco à minha voz responde..
Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu: Aonde estás, amor? Aonde.. aonde.. aonde?.. QUEM SABE?!...
Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino: Beber o fel amargo em luminosa taça,
Chorar amargamente um beijo teu, divino, E rir olhando o vulto altivo da desgraça!
Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito; Por mais que fujas sempre, um sonho há de alcançar-te Se um sonho pode andar por todo o infinito, De que serve fugir se um sonho há de encontrar-te?! Demais, nem eu talvez, perceba se o amor É este perseguir de raiva, de furor,
Com que eu te sigo assim como os rafeiros leais. Ou se é então a fuga eterna, misteriosa,
Com que me foges sempre, ó noite tenebrosa! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Por me fugires, sim, talvez me queiras mais! HUMILDADE
Toda a terra que pisas, eu queria, ajoelhada, Beijar terna e humilde em lânguido fervor; Queria poisar fervente a boca apaixonada Em cada passo teu, ó meu bendito amor!
De cada beijo meu, havia de nascer
Uma sangrenta flor! Ébria de luz, ardente! No colo purpurino havia de trazer
Desfeito no perfume o misterioso Oriente! Queria depois colher essas flores reais,
Essas flores de sonho, estranhas, sensuais, E lançar-tas aos pés em perfumados molhos. Bem paga ficaria, ó meu cruel amante!
Se, sobre elas, eu visse apenas um instante Cair como um orvalho os teus divinos olhos! ORAÇÃO DE JOELHOS
Bendita seja a mãe que te gerou!
Bendito o leite que te fez crescer!
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama pra te adormecer!
Bendito seja o brilho do luar Da noite em que nasceste tão suave,
Que deu essa candura ao teu olhar
E à tua voz esse gorjeio de ave!
Benditos sejam todos que te amarem!
Os que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão, fervente, louca!
E se mais, que eu, um dia te quiser
Alguém, bendita seja essa mulher!
Bendito seja o beijo dessa boca!
AOS OLHOS DE ELE
É noite de luar casto e divino.
Tudo é brancura, tudo é castidade. .
Parece que Jesus, doce bambino,
Anda pisando as ruas da cidade. .
E eu que penso na suavidade
Do tempo que não volta, que não passa,
Olho o luar, chorando de saudade
De teus olhos claros cheios de graça!..
Oceanos de luz que procurando
O seu leito de amor, andam sonhando Por esta noite linda de luar..
Talvez o perfumado, o brando leito
Que procurais, ó olhos, no meu peito
Esteja à vossa espera a soluçar..
DESDÉM
Andas dum lado pro outro
Pela rua passeando;
Finges que não queres ver
Mas sempre me vais olhando.
É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante..
É esse rasto bendito
Que atraiçoa o teu olhar,
Pois é tão leve e fugaz
Que eu nem o sinto passar!
Quem tem uns olhos assim
E quer fingir o desdém,
Não pode nem um instante Olhar os olhos de alguém..
Por isso vai caminhando. .
E se queres a muita gente
Demonstrar que me desprezas
Olha os meus olhos de frente!. .
RÚSTICA
Eu queria ser camponesa;
Ir esperar-te à tardinha
Quando é doce a Natureza
No silêncio da devesa,
E só voltar à noitinha..
Levar o cântaro à fonte
Deixá-lo devagarinho,
E correndo pela ponte
Que fica detrás do monte
Ir encontrar-te sozinho..
E depois quando o luar
Andasse pelas estradas,
DE olhos cheios do teu olhar
Eu voltaria a sonhar, Pelos caminhos de mãos dadas.
E depois se toda a gente
Perguntasse: "Que encarnada,
Rapariga! Estás doente?"
Eu diria: "É do poente,
Que assim me fez encarnada!"
E fitando ao longe a ponte,
Com meu olhar cheio do teu,
Diria a sorrir pro monte:
"O cântaro ficou na fonte
Mas os beijos trouxe-os eu. .
?!
Se as tuas mãos divinas folhearem
As páginas de luto uma por uma
Deste meu livro humilde; se poisarem
Esses teus claros olhos como espuma
Nos meus versos de amor, se docemente Tua boca os beijar, lendo-os, um dia;
Se o teu sorrir pairar suavemente
Nessas palavras minhas de agonia, Repara e vê! Sob essas mãos benditas,
Sob esses olhos teus, sob essa boca,
Hão de pairar carícias infinitas!
Eu atirei minha alma como um rito
Às trevas desse livro, assim, ó louca!
A noite atira sóis ao infinito!..
SÚPLICA
A prece que eu murmuro, a soluçar
Ao Deus todo bondade e todo amor,
É rezada de rastos no altar
Onde a tristeza reza com a dor!
A minha boca reza-a comovida,
Chora-a meus olhos, beija-a o meu peito
Sonha-a minha alma sempre enternecida
Ao ver-te rir, ó meu Amor Perfeito..
Que o Deus do céu atenda a minha prece, Embora eu saiba nesta desventura
Que Deus só ouve aquele que o merece!
Mas vou pedindo ao Deus de piedade,
Que te conceda anos de ventura, Como dias a mim de infelicidade!. .
ESCUTA..
À Beatriz Carvalho
Escuta, amor, escuta a voz que ao teu ouvido Te canta uma canção na rua em que morei, Essa soturna voz há de contar-te, amigo
Por essa rua minha os sonhos que sonhei! Fala de amor a voz em tom enternecido,
Escuta-a com bondade. O muito que te amei Anda pairando aí em sonho comovido
A envolver-te em oiro!. . Assim se envolve um rei! Num nimbo de saudade e doce como a asa Recorta-se no céu a minha humilde casa
Onde ficou minha alma assim como penada A arrastar grilhões como um fantasma triste. É dela a voz que fala, é dela a voz que existe Na rua em que morei. . Anda crucificada!
A ESTA HORA..
A esta hora branda de amargura,
A esta hora triste em que o luar Anda chorando, Ó minha desventura
Onde estás tu? Onde anda o teu olhar?
A noite é calma e triste.. a murmurar
Anda o vento, de leve, na doçura
Ideal do aveludado ar
Onde estrelas palpitam... Noite escura
Diz-me onde ele está o meu amor,
Onde o vosso luar o vai beijar,
Onde as vossas estrelas com fulgor
Do seu brilho de fogo o vão cobrir!
Diz-me onde ele está!. . Talvez a olhar
A mesma noite linda a refulgir..
SOL POSTO
Sol posto. O sino ao longe dá Trindades
Nas ravinas do monte andam cantando
As cigarras dolentes. . E saudades
Nos atalhos parecem dormitando..
É esta a hora em que a suave imagem
Do bem que já foi nosso nos tortura
O coração no peito, em que a paisagem Nos faz chorar de dor e de amargura. .
É a hora também em que cantando
As andorinhas vão pelo meio das ruas
Para os ninhos, contentes, chilreando...
Quem me dera também, amor, que fosse
Esta a hora de todas a mais doce
Em que eu unisse as minhas mãos às tuas!. . ESTRELA CADENTE
Traço de luz.. lá vai! Lá vai! Morreu.
Do nosso amor me lembra a suavidade. .
Da estrela não ficou nada no céu
Do nosso sonho em ti nem a saudade!
Pra onde iria a estrela? Flor fugida
Ao ramalhete atado no infinito...
Que ilusão seguiria entontecida
A linda estrela de fulgir bendito?. .
Aonde iria, aonde iria a flor?
(Talvez, quem sabe?... ai quem soubesse, amor!) Se tu o vires minha bendita estrela
Alguma noite.. Deves conhecê-lo!
Falo-te tanto nele!. . Pois ao vê-lo
Diz-lhe assim: "Por que não pensas nela?" VERSOS
Versos! Versos! Sei lá o que são versos... Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz. cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma.
Versos!. . Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!. . Sei eu lá também que são. . Sei lá! Sei lá!.. Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez. .
Versos! Versos! Sei lá o que são versos..
Meus soluços de dor que andam dispersos Por este grande amor em que não crês!...
Você terminou Sonetos Completos
Florbela Espanca