Sonetos Completos

Florbela Espanca · Capítulo 3 de 5

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Sonetos Completos

Capítulo I

Gosto de ti apaixonadamente,

De ti que és a vitória, a salvação,

De ti que me trouxeste pela mão

Até ao brilho desta chama quente.

A tua linda voz de água corrente

Ensinou-me a cantar.. e essa canção

Foi ritmo nos meus versos de paixão,

Foi graça no meu peito de descrente.

Bordão a amparar minha cegueira,

Da noite negra o mágico farol,

Cravos rubros a arder numa fogueira!

E eu, que era neste mundo uma vencida,

Ergo a cabeça ao alto, encaro o sol!

- Águia real, apontas-me a subida!

É um não querer mais que bem querer. (Camões)

II

Meu Amor, meu Amado, vê. . repara:

Poisa os teus lindos olhos de oiro em mim,- Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara Para nunca os contares até ao fim.

Meus olhos têm tons de pedra rara,

E só para teu bem que os tenho assim

-E as minhas mãos são fontes de água clara A cantar sobre a sede dum jardim.

Sou triste como a folha ao abandono

Num parque solitário, pelo Outono,

Sobre um lago onde vogam nenúfares...

Deus fez-me atravessar o teu caminho...

- Que contas dás a Deus indo sozinho,

Passando junto a mim, sem me encontrares? – É um não querer mais que bem querer; (Camões)

III

Frémito do meu corpo a procurar-te,

Febre das minhas mãos na tua pele

Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,

Doido anseio dos meus braços a abraçar-te, Olhos buscando os teus por toda a parte,

Sede de beijos, amargor de fel,

Estonteante fome, áspera e cruel,

Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma

Junto da minha, uma lagoa calma,

A dizer-me, a cantar que me não amas. .

E o meu coração que tu não sentes,

Vai boiando ao acaso das correntes,

Esquife negro sobre um mar de chamas... É um não querer mais que bem querer; (Camões)

IV

És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!

Oiço de novo o riso dos teus passos!

És tu que eu vejo a estender-me os braços Que Deus criou pra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim.

Foram-se os desalentos, os cansaços.

O mundo não é mundo: é um jardim!

Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!

Que vês tu em redor? Não há ninguém!

A terra? - Um astro morto que flutua. .

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente Tudo o que é vida e vibra eternamente

É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!

É um não querer mais que bem querer; (Camões)

V

Diz-me, Amor, como te sou querida,

Conta-me a glória do teu sonho eleito,

Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,

Arranca-me dos pântanos da vida.

Embriagada numa estranha lida,

Trago nas mãos o coração desfeito,

Mostra-me a luz, ensina-me o preceito

Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo.

Sem quimeras, sem crenças, sem ternura, Agonia sem fé dum moribundo,

Grito o teu nome numa sede estranha,

Como se fosse, Amor, toda a frescura

Das cristalinas águas da montanha!

É um não querer mais que bem querer; (Camões)

VI

Falo de ti às pedras das estradas,

E ao sol que é loiro como o teu olhar,

Falo ao rio, que desdobra a faiscar,

Vestidos de Princesas e de Fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,

Lembrando lenços brancos a acenar,

E aos mastros que apunhalam o luar

Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos

Donde a tua alma, tonta de vitória

Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço, Sobre os brocados fúlgidos da glória,

São astros que me tombam do regaço!

É um não querer mais que bem querer; (Camões) VII São mortos os que nunca acreditaram

Que esta vida é somente uma passagem, Um atalho sombrio, uma paisagem Onde os nossos sentidos se poisaram.

São mortos os que nunca alevantaram

Dentre escombros a Torre de Menagem

Dos seus sonhos de orgulho e de coragem, E os que não riram e os que não choraram. Que Deus faça de mim, quando eu morrer, Quando eu partir para o País da Luz,

A sombra calma dum entardecer,

Tombando, em doces pregas de mortalha, Sobre o teu corpo heroico, posto em cruz, Na solidão dum campo de batalha!

É um não querer mais que bem querer; (Camões)