Suicida

Camilo Castelo Branco · Capítulo 1 de 6

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Suicida

Capítulo 2

trem, uma berlinda de Erhler, ajaezada á Brune, e tirada por uma

parelha de enormes urcos inglezes, sahidos das cavallariças de

madame la Dauphine. Um espadaúdo cocheiro, e um alentado

hungaro de sete palmos de altura, afóra o pennacho, todo broslado

de galões de ouro, completavam a equipagem que parou de súbito á

porta do theatro. E, aberta logo pelo keiduque a portinhola, cahidos

estrondosamente os degraus da berlinda, vimos apear um elegante

moço.

 

«Não tinha ainda trinta annos; vestia com requintado esmero;

gravata branca e luvas amarellas; estatura corpulenta e

formosamente conformada; cabelleira clamistrada; bocca um tanto

grande, mas graciosa; olhar ardente, e altiva compostura no

aspecto. No braço do mancebo apoiava-se a leve mão de uma

senhora, juvenil como elle, anciosa de volitar por sobre o espaço

intermedio. Que linda ella estava com o seu vestido de primavera!

Violetas na mão, violetas como adorno no chapéo de palha,

ondulante faxa a tira-collo, calçada com extremada perfeição de

botinas gaspeadas de cinzento e escarlate. Formosa e esbelta a

mais não ser! A impaciencia tirava por ella; e o irmão caminhava a

passo mesurado, com aquelles ares de homem que em si escuta a

fada benigna da suprema fortuna. Exornavam o peito do cavalheiro

as mais variegadas côres da pedraria dos ornatos e condecorações.

Era barão em França, marquez em Hespanha[2], e socio do club dos

fidalgos florentinos. Contava-se--e era verdade--que o somenos

utensilio dos seus aposentos era de ouro: o seu lavatorio era de

ouro armoreado, e dourada a sua camara. E, todavia, creiam-me, se

quizerem: a sensação que nos causou foi a da admiração sympathica; inveja, não. N'esta França, attenta e alheada nos