Suicida

Camilo Castelo Branco · Capítulo 4 de 6

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Suicida

Capítulo 5

Acrescenta o biographo em phrases pouco funerarias: «A morte é

de crêr que o apanhasse com as madeixas encaracoladas em

papelotes; porquanto o seu trajar, o apontado da sua pessoa, e

mormente os esmeros que punha na sua cabelleira loura, lhe

haviam sido a constante preoccupação da vida. A tal respeito, se

conta que o primeiro dividendo que recebeu na empresa lyrica,

empregou-o na compra de um vestido completo de velludo escarlate

lavrado que lhe custou 25:000 francos. É o que faria, nem mais nem

menos, uma lorette! Não custa, pois, a crêr que elle, sempre

narcisando-se e sempre rapaz, acabasse, já em annos outoniços,

por esposar uma estrangeira rica. Luiz Filippe fizera-o barão. Um

dia, deu-lhe na veneta de abrir o seu brazão de fresca data em um

manto de arminho com a corôa de duque; fez-se, pois, enducalisar,

mediante dinheiro, pelo governo hespanhol. Afóra as obras já

referidas, deixou S , publicadas com o

pseudonymo de Comtesse de Chamilly. O livreiro Ladvocat tambem

imprimiu em 1840, sob o titulo homerico de N , uma

selecta de seus artigos de jornaes e revistas».

 

Um dos admiradores mais exaltados de Loeve-Weimar foi o

insigne Philarète Chasles, professor do Collegio de França, ha

pouco mais d'um anno fallecido, com reputação europêa. Nos seus

E A , publicados em 1861,

recorda-se de Loeve-Weimar, no capitulo intitulado Os tres magos

do norte. Um dos tres magos era o nacionalisador de Hoffmann.

 

São estas aproximadamente as palavras de Philarète Chasles:

«... Vêde-me este personagemzinho[5] franzino e louro, gracioso e

fino, melodioso e sardonico, taful, garrido, esbelto, refinadamente casquilho. Casou romanticamente. Assim se casavam quasi todos

os litteratos do nosso tempo. É Loeve-Weimar, aquelle que escreveu

o N , e collaborou na Revista dos dous mundos com o

doutor Véron, Charles Nodier e commigo. Acabou por ser em

Bassora ou Badgad não sei que sultão oriental bochechudo,

pantafaçudo, enojado, somnolento e amodorrado. Este pintalegrete,

este chasqueador, aliás amabilissimo, que foi o adail, o porta-

bandeira do motim litterario de 1815, não nascera para

contemplações absortas nem aventuras grandiosas. O salão do

seculo XVIII era a mais frizante moldura da sua vida e o theatro que

mais lhe quadrava à indole. Procedia de Champfort, de

Champcenetz e de Cazzotte. Tinha o desempeno social, o

conhecimento dos homens, a flexibilidade, a solercia. Como

Congrève, pavoneava-se de não ser homem de letras. Arreda! Não

que a tinta suja os dedos...

 

«Delatouche introduzira Hoffmann, e Loeve-Weimar nacionalisára-

o francez. Loeve arregaçou os punhos, adelgaçou-lhe as grosserias,

recobriu as côres dubias, encurtou as demasias, elidiu os

destemperos, amenisou as asperezas e recompoz, sob pretexto de

versão, um novo Hoffmann, que deu brado em Paris. Inventou-se

então uma palavra para tamanho exito: o fantastico... A França

morreu de amores por Hoffmann falsificado por Loeve e apregoado

por Koraff...»

 

*

 

Ahi está o que sei do irmão da suicida.

Esta senhora, quando eu a conheci em 1849, mostrava ainda uns

traços esmaecidos de belleza rara. Representava trinta e cinco

annos, tinha quarenta e quatro, e redigia uma folha em francez, cujo

titulo me esqueceu. Collaborava n'esse semanario ameno o consul

de França Mr. d'Estrées, que pereceu no naufragio do vapor Porto,

em 1852. Eram tres os seus filhos, lindos e louros como ella e como

o pai. Gonçalves Basto havia sido um homem gentilissimo. Dava

ares de inglez, e nascera em Cabeceiras de Basto, onde florece

uma raça de homens celtas esculpturaes, e de mulheres fortes, raça

callaica, ás quaes sobejam as exigencias musculosas da estatuaria.

 

N'aquelle tempo, ouvi dizer que a paz domestica do proprietario e

collaborador do Nacional não era invejavel. De feito, Gonçalves

Basto alimentava-se nos restaurantes, desculpando a irregularidade

insalubre e estouvanada d'este viver parisiense com a faina

jornalistica.

 

Elisa era mãi extremosa. Quando lhe morreu o terceiro genito, a

criança mais angelical que ainda vi--uma menina de nove annos,--a

mãi, n'um impeto de desvario, fugiu para a Foz com os outros dous

filhos, e alfaiou elegantemente uma casinha contigua ao cemiterio,

que então se andava construindo. Uma das primeiras lapides que

alli se assentaram cobriu o cadaver d'um dos dous filhos. Este

menino, se bem me recordo, era afilhado de Lamartine.

 

Visitei com frequencia esta senhora n'esse anno de luto e

desesperação. Era solidamente instruida. Lia os livros portuguezes

com rara intelligencia. Achava os romances peninsulares fastidiosos

como a C de Rodrigues Lobo. Dizia que nós apenas tinhamos um céo azul com uma bonita lua, e na terra muitas flôres e

ribeiros crystallinos que nos inspirassem; mas que o romancista

carece de sociedade viva, com as suas boas e ruins paixões. E

acrescentava que Portugal era geographicamente obrigado a ser um

alfobre de lyristas.

 

Mostrou-me o seu album de autographos. Os mais preciosos

dera-lh'os o irmão, que se carteára com parte dos seus

contemporaneos illustrados. Tinha-os de alto valor historico,

escriptos por Maria Antoinette, por Luiz XVI, por Chateaubriand, por

M.me de Staël, pelos estadistas das grandes tradições. A sua livraria

era pequena, e quasi toda ingleza. Não sabia o allemão; tencionava

porém estudal-o, quando serenasse a tempestade que ainda rugia á

volta da sua alma articulando-lhe os nomes dos filhos. Foi ella quem

me deu o A , romance de Benjamin Constant, e me disse:

«Leia-o em quanto lhe póde ser proveitoso». Li-o, e não aproveitei

nada; nem ella, que o lêra tres vezes, aproveitára muito. Os livros

nada ensinam na alçada do coração. A experiencia, sim; mas a lição

vem tarde. Quem ensina tudo é a velhice. Ainda bem, se nos salva

dos espectaculos do riso, e nos tira o pincel do bigode.

 

Henri de Weimar Basto, o filho primogenito, quando frequentava

distinctamente a escola polytechnica e auxiliava o pai traduzindo o

Times, morreu tisico aos dezoito annos de idade, nos arrabaldes de

Lisboa.

 

Fez-se então o crepusculo da noite infinita na razão de Elisa

Basto; a treva, todavia, condensou-se vagarosamente, porque a intelligencia reagiu com as suas poderosas energias á paixão que a

dementava.

 

Principiou a estudar o idioma germanico de tão phrenetico modo

que ahi mesmo denunciava o desconcerto do seu espirito.

Gonçalves Basto raras vezes a visitava. Depois da morte do ultimo

filho, deslaçaram-se de todo os frouxos vinculos que os ligavam.

Encontravam-se n'aquelle filho os dous amores dos corações

divorciados; era de ambos aquelle sêr querido e disputado á

competencia de caricias. Morreu o incentivo, apagou-se a luz que

ainda lhes mostrava ao longe a saudade na penumbra do passado

amor: a pedra que o cobriu abafou tudo o mais!--acabaram alli com

elle todas as recordações e esperanças. D'ahi em diante, cada qual

habitava sua casa; ella na Foz, e elle na rua 29 de Julho.

 

Entretanto, Elisa pernoitava sobre os lexicons allemães, e

decifrava a traducção biblica de Luthero. D'este afanoso estudo

tenho á vista a prova no fragmento d'uma carta que me ella

escreveu por esse tempo. Eu tinha publicado um folhetim de má

prosa ácerca dos P C . Dos P

extrahira eu estes periodos dos capitulos XII, XIV e XV:

 

A mulher diligente é a corôa de seu marido; e a que obra cousas

dignas de confusão far-lhe-ha apodrecer os ossos.

 

A saude do coração é a vida da carne, a inveja é a podridão dos

ossos.