Suicida
Capítulo 6
A luz dos olhos alegra a alma; a boa reputação engorda os ossos.
Isto, bom ou mau, está assim, em osso, nas versões biblicas
portuguezas; porém, a illustrada e talvez religiosa dama, acudindo
pelo siso do poeta hebreu, arguiu de muito paraphrastica e cavillosa
a minha interpretação, e corrigiu-a nos seguintes termos:
...... La meilleure, la plus exacte, la plus élegante traduction de la
Bible c'est la traduction allemande de Martin Luther. Or voici, mot
pour mot, les versets que Mr. C. C. B. a cité:
La femme déligente est la couronne de son mari, la nonchalante
est l'ulcère de son corps[6].
Un bon c[oe]ur est la vie de la complexion (constitution du corps);
l'envie est l'ulcère des os.
Un c[oe]ur joyeux rend la vie agréable; mais une humeur sombre
desséche le corps.
Une visage amicale rejouit le c[oe]ur, une bonne renommée
engraisse le corps.
Le langage affectueux est du miel qui conforte l'âme et rafraichit le
corps.
Na verdade, o monge augustiniano, vertendo para corpo o que os
ossificaram desgraçiadamente, expungiu dos versiculos a
parte picaresca. Bom foi isso.
*
A demencia de Elisa Weimar manifestou-se n'um lance que, a não
ter a irresponsabilidade da loucura, seria o maximo desdouro--uma
catastrophe moral. Foi ella pessoalmente delatar á authoridade civil
que seu marido e outras pessoas conjuravam contra a dynastia e
elaboravam tramas sanguinolentos nos subterraneos da officina do
Nacional. O magistrado, como se a respiração da mentecapta o
contagiasse provisoriamente, lançou inculcas, adestrou espias,
afuroou certas luras onde os conspiradores poderiam alapardar-se.
Afinal relaxou-se um pouco, confiando a sorte da dynastia ás
fatalidades indeclinaveis do destino.
D'outra vez, a deploravel senhora, quando o meu querido amigo
José Cardoso Vieira de Castro era já fallecido em Loanda,
denunciou ao administrador do bairro de Cedofeita que, em casa de
seu marido, estava escondido Vieira de Castro, fugitivo de Angola,
onde, de accordo com as authoridades, dera morto por si. Esta
denuncia foi desprezada com bastante admiração minha. Varias
pessoas me disseram por esse tempo que Vieira de Castro
passeava vivissimo na America ingleza; não seria, pois, absurdo
fazel-o viajar até casa de Gonçalves Basto, na Ramada Alta.
N'esta visualidade de Elisa ha uma coincidencia memoravel. Na
casa que ella indicára como escondrijo do condemnado, hospedára-
se Vieira de Castro com sua senhora, quando chegaram a Portugal. Morava então alli seu irmão Antonio. No anno seguinte, foi habital-a
Gonçalves Basto, attrahido pela belleza do sitio e prazeres da
jardinagem em que se occupava todas as horas vagas dos seus
labores de escrivão de fazenda.
Aqui viveu tres alegres annos o fatigado lidador do jornalismo,
cultivando flôres, morangaes, parreiras, e fabricando elle mesmo, na
qualidade de lagareiro, o seu vinho, com que, no estio, deliciava os
hospedes.
N'esta innocencia de patriarcha, o assalteou um dia a esposa, ao
cabo de nove annos de divorcio, intimando-lhe que sahisse
d'aquella casa que era d'ella. O fleugmatico marido enfardelou
alguns objectos de primeira necessidade e mudou-se, como quem
foge. Tinha juizo. Aquella visão etherea de J. Janin, olorosa de
violetas, recendia agora á polvora e phosphoro dos rewolvers,
desde que o rapazio da Foz lhe pegou de apupar as abas amorphas
e infinitas de uns chapéos de palha mastreados de escumilhas
variegadas.
Magôa-me verdadeiramente desfazer algum tanto na
sentimentalidade com que, em alguns periodicos, se lastimou a
miseria de Elisa Weimar. Vi escripto que a suicida experimentára as
agonias da fome, da casa sem aconchego, do desamparo dos
indigentes. Não é exacto isto. Ha de haver quatorze annos que ella
foi a Paris instaurar um pleito sobre a herança de seu irmão. A
acção intentada terminou por conciliação, lucrando a irmã de Loeve-
Weimar uma pensão annual e vitalicia de 3:000 francos. Além d'isso,
recebia 18$000 reis mensaes que lhe dava o marido. 750$000 reis bastariam ao decente passadio de uma senhora com regular
entendimento para governar-se; porém, se os proprietarios dos
predios que ella habitava recorriam ao expediente das penhoras, é
porque M.me Elisa Weimar não pensava normalmente ácerca dos
senhorios; ou, no estado informe das suas idéas embaralhadas, não
podia conciliar as obrigações impostas pelo Codigo civil, no artigo
1608, que reza: O arrendatario é obrigado a satisfazer a renda, etc.
De mais a mais, esta senhora presumia-se muito rica e muito
perseguida pelos jesuitas--talvez reminiscencias delirantes da
familia do general Simon de E. Sue. Á volta do Porto, reputava
propriedades suas, rusticas e urbanas, as campinas mais ferteis e
os chalets mais imbrincados. Afóra isto, dava-se como directa
senhora e emphyteuta de terrenos na Foz e outros pontos
convidativos a edificação. De modo que, se lia no Primeiro de
Janeiro ou Commercio do Porto o annuncio d'uma propriedade á
venda, no dia seguinte contra-annunciava que a propriedade era
sua, ainda mesmo que a não tivesse arrolado no tombo imaginario
dos seus haveres litigiosos. Aqui ha mezes, um padre que se dizia
procurador do meu amigo Custodio Teixeira Pinto Basto, replicando
a um desses contra-annuncios, allegou, na imprensa, que a snr.ª D.
Elisa Loewe-Weimar estava enganada; pois que os predios, quintas
e chãos que ella reputava seus, eram indisputavelmente do seu
constituinte o snr. Pinto Basto. Em resultado d'este desmentido,
assignado por um padre, me escreveu M.me Elisa confirmando-me
na guerra que os jesuitas lhe moviam, confederados em espolial-a
porque era protestante e estrangeira desprotegida das authoridades
portuguezas. Em virtude do que me rogava que sahisse em sua
defeza e lhe communicasse os alvitres a seguir mediante cartas que, a uma hora determinada, eu devia introduzir pela fresta d'uma
das suas janellas ao rez do chão, visto que a sua correspondencia
lhe era subtrahida no correio pela Companhia de Jesus.
Ás vezes, parava na rua, e detinha-se a examinar a frontaria d'um
predio. A final, recordava-se que era um dos seus, entrava no pateo,
sacudia rijamente a campainha, e fazia saber ao morador que
estava alli a senhoria para vêr se eram precisas obras na sua casa.
Era inoffensiva; mas não deixava de ser incommoda esta maneira
de doudice.
Ha quatro annos ainda, vestia-se singularmente. Quando a saia
era azul com requifes encarnados, o corpete era branco, e verde o
filó do chapéo. Gostava muito do vestido de velludo preto e botinas
brancas. Os transeuntes paravam descaridosamente a rir, e ella
passava, triste e solemne como o symbolo da desgraça n'um baile
de carnaval. N'estes dous annos derradeiros, trajava menos que
modesta, pobremente, um capotilho côr de castanha, apresilhado na
cintura, e um chapéo campestre de palha côr de bronze. Não erguia
os olhos, nem correspondia aos cortejos, quando algum raro
encontradiço com memoria e coração reconhecia, n'aquella mulher
encanecida e trôpega, a esbelta e irrequieta franceza de ha trinta
annos, e machinalmente se descobria como se faz a um esquife
coberto de crepe e assignalado por uma cruz amarella.
*
José Joaquim Gonçalves Basto, no fim do anno passado, alegrou
a minha mesa com a sua jovialidade, com as suas épicas
faculdades digestivas. Estava comnosco Placido de Freitas Costa, um galhardo espirito com todas as graças petulantes dos rapazes
de 1850. Não tem ainda trinta annos, e protesta contra o marasmo
dos homens da sua geração--uma gente que tem o coração em
modôrra e a alma anhelante no dominio de quatro inscripções.
Não havia ahi distinguir entre os dous na competencia de festivas
rapazices. Alta noite, sahiram de braço dado, percorreram os
theatros e passearam as ruas até ao romper da aurora. Gonçalves
Basto perfizera setenta annos n'esse mez. Ao outro dia, Placido de
Freitas dava um jantar ao decano da imprensa portuense no Hotel
do Louvre. Os commensaes eram todos rapazes e alguns
estrangeiros. Gonçalves Basto brindava-os nas suas linguas, e as
risadas estrondeavam quando elle salgava os discursos com as
facecias que se usam lá fóra nos lautos banquetes britannicos em
que o corpo, mais debil que o espirito, resvala para debaixo da
mesa, e todo homem se fica então parecendo com Horacio ou
Numentano a resonar no triclinio.
Dous mezes depois, estando eu enfermo, disseram-me que José
Joaquim Gonçalves Basto adoecera, pela primeira vez na sua vida.
Ao outro dia, mandei saber como passára a noite. Tinha morrido ás
cinco horas da manhã.
*
A viuva, participando-me que seu marido era defunto, relatava o
caso tão glacialmente como se historiasse o trespasse do seu quinto
avô. Todavia, tinha magoados toques o seu estylo quando o arguia
de haver deixado hypothecadas fraudulentamente as propriedades
em beneficio de varias mancebas.
A falta do marido, que para ella representava quatro libras
mensaes, verdadeiramente não authorisa a hypothese da pobreza.
Os numerosos e extensos annuncios que publicava, em resalva das
suas propriedades, eram pagos. Visitava as livrarias e comprava
livros. Tinha uma casa decentemente trastejada, e servia-se com
criados a quem pagava talvez, não os confundindo com os
senhorios.
Quando o proprietario da casa lhe enviou mandado de despejo e
sequestro no dia ultimo de setembro, Elisa Weimar fez trancar as
avenidas. N'esse momento, a sua alma aterrada pelo estrondo dos
esbirros que arrombavam as portas, estremeceu, e... acordou. Eis o
momento da lucidez! Ao cabo de seis annos de demencia,
relampagueou-lhe na razão o fulgor d'um corisco; e então, vendo-se
desgraçada e ridicula, matou-se.
*
Adeus, minha «formosa das violetas»! O teu Julio Janin, o teu
cantor, quantos te amaram e admiraram são já mortos, desde Henri
Heine até Philarète Chasles. Como devias ter morrido antes da
velhice, a tua alma sempre juvenil desamparou-te; e emquanto ella
gemia nos cyprestaes do Père-la-Chaise a cada sahimento dos teus
amigos da mocidade, o teu corpo inerte e estupido immergia no
pesadêlo das sonhadas riquezas! Ias ser baldeada aos apódos das
turbas, e levada pela policia á caverna das doudas, quando a tua
alma regressou nas suas azas de luz, radiou por sobre a área negra
da tua suprema desgraça, e ahi te alumiou o suave reclinatorio da
sepultura. Era a hora bemdita ou maldita da morte. Abraçaste-a. Descansas. Em uma das tuas cartas me escreveste ha vinte annos,