Suicida

Camilo Castelo Branco · Capítulo 3 de 6

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Suicida

Capítulo 4

Gonçalves Basto, decorridos dous annos de esposo e pai, foi

vencido na lucta com imprevistas calamidades commerciaes.

Empobreceu. Sahiu de Inglaterra, e repatriou-se com a sua familia.

De repente, e o mais logicamente que o puderam fazer, os amigos

desampararam-o, desobrigando-se da divida, esquecendo o credor.

Permaneceu, com tudo, leal no infortunio um que se mantivera

desprendido na prosperidade: era José Vieira de Carvalho, moço

portuense abastado, instruido e bom. Deliberára Vieira fundar um

jornal de parceria com Antonio Bernardo Ferreira, e com o actual

deputado e integerrimo caracter, o snr. Joaquim Ribeiro de Faria

Guimarães[4]. Fundaram a Coalisão, cuja redacção e

responsabilidade aceitou Gonçalves Basto. Os proprietarios, porém,

a pouco e pouco se desligaram de compromissos, declinando sobre

o redactor o encargo de sustentar intellectual e materialmente o

jornal. Gonçalves Basto, extincta a Coalisão, fundou o Nacional, faz

hoje dezoito annos.

 

Entretanto, José Vieira, rico e celibatario, antevendo o proximo

termo da vida, annuncia que a sorte dos filhos de Gonçalves Basto

está segura nos seus haveres. Morre em Paris, e o testamento é

roubado em beneficio de parentes remotos.

 

Na contra-revolução de 1846, Gonçalves Basto, ao serviço da

Junta do Porto, foi nomeado commandante d'um batalhão de

artistas. Reprime a indisciplina, e dá no campo o exemplo da

coragem um tanto insubordinada, porque espingardeava os

hespanhoes que transpunham as fronteiras do norte, quando a

Junta lhe ordenára que respeitasse a intervenção. E, n'este

entretanto, a familia do jornalista, esposa e tres filhos, bellissimas e adoraveis crianças, viviam da gratificação mensal do commandante:

Dez mil reis............

 

*

 

José Joaquim Gonçalves Basto envelheceu cortado de

lancinantes dôres; porém, duas vezes tão sómente lhe vi o rosto

lavado de lagrimas: foi ao resvalarem-lhe dos braços á sepultura

dous filhos. A pobreza cerra-o de perto ha quinze annos; e elle

como que tem minas de diamantes na mais risonha philosophia que

ainda vi! É sempre com um sorriso que vos elle diz: «Não tenho

nada». A desgraça tem d'estes sorrisos que são, a dentro do peito,

unhas de ferro.

 

E ella, a «formosa das violetas,» de 1836, a irmã do barão em

França, do fidalgo em Florença e do marquez em Hespanha? Elisa

Loeve-Weimar vai, algumas vezes, ao cemiterio da Foz, onde

vicejam umas flôres plantadas por sua mão sobre a sepultura de um

dos seus filhos. Alli, de certo lhe esquecem as pompas e as

vaidades de sua brilhante mocidade. Aquelle cômoro de terra

separa esta mãi das gloriosas presumpçoes da irmã do fastuoso

litterato, da formosa que o principe dos folhetinistas francezes

recordava vinte e sete annos depois com as calorosas expressões

d'uma saudade que parece o reflexo do amor. Que tem que vêr no

cemiterio da Foz aquella Nióbe com a sua belleza preconisada em

Paris? Ai! formosura! flôr d'um dia, queimada pelo gear de uma

noite! E tu, talento! flamma esplendente que mais nos cerras a

escuridão, quando nos não alumias a vereda por onde o infortunio

nos assalta! Ó santa de todas as dôres de mulher que é mãi! quem saberá contar as cruzes do teu calvario? quaes almas, sequer, se

inquietam, pensando o que foste, o que és, e que paragem final te

assignalou o destino!

 

*

 

Meu caro Basto, releva ao teu amigo de dezeseis annos o vir elle

dizer dos teus infortunios em face d'uma gente que os ha de lêr por

ser isto em folhetim e ageitado á guisa de romance. Quando entrei

n'esta vida dolorosa das letras, achei-me comtigo. Encontrei-te

n'este tormento de Sisypho e ahi te vejo ainda agora a rolar o

penedo. Se ás vezes paras um instante na ladeira, é para

contemplares como a estupidez e a infamia trazem avassallados os

fiscaes da republica, e como elles galgam arreiados de placas e

fitas, em quanto tu vaes descendo á margem do rio da morte,

olhando em ti, e antevendo próximo o dia em que não terás um pão

para repartir com tua familia. Ha trinta annos que esperas e

trabalhas por affecto á patria e por forçada violencia de operario

d'esta galé. Deves ter desmaios de angustia quando em ti reparas e

não vês homem que possa dizer-te: «Soffri e lidei tanto como tu, e

recebi dos governos do meu paiz a retribuição de igual desprezo».

Lucta, meu amigo; e, quando mais não puderes, vinga-te morrendo

como o soldado do padre Vieira, e vai saber nos segredos da divina

Providencia que mal devias fazer à patria e aos teus concidadãos

para que elles te beneficiassem».

 

*

 

Algum tempo depois, José Joaquim Gonçalves Basto, quando o

circulo de ferro da penuria se apertava, encontrou a mão poderosa de um ministro que lh'o partiu. A salvadora chamava-se a Justiça, e

o ministro era o snr. Fontes Pereira de Mello.

 

*

 

Ora, como em 30 de setembro d'este anno se suicidasse, no

Porto, com um tiro, a minha «formosa das violetas», pareceu-me

apropositada a ampliação e complemento do meu folhetim de 1863.

 

Elisa Weimar nasceu em Paris em 1805. O barão Nemi Loeve-

Weimar, seu pai, era allemão, oriundo de israelitas. Exercera

funcções importantes na côrte de Luiz XVIII. Em 1814, quando o

exercito prussiano infestou o territorio francez, a familia Loeve-

Weimar retirou para Hamburgo. O futuro nacionalisador de

Hoffmann seguiu alguns annos a carreira commercial; depois,

apostatou do judaismo, converteu-se á fé catholica, e regressou a

Paris, ao mesmo tempo que M.elle Elisa foi completar em Londres a

sua educação litteraria.

 

Conhecedor dos idiomas e litteraturas do norte, o moço escriptor

alistou-se vantajosamente de par com os litteratos de mais voga.

Entrou seguidamente na redacção do Album, da Revue

encyclopedique e do Figaro. Muitos livros allemães desconhecidos

em França trasladou-os elle com estylo seductor; e da litteratura

d'além-Rheno publicou em 1826 um compendio. Traduziu depois,

com excellente exito, romances de Vander-Velde, C de

Zschokke, de que auferiu renome e dinheiro a granel. Na Revista de

Paris, cujo fundador foi, publicou novellas e artigos de esthetica. Em

1830 substituiu no Tempo o celebrado Imbert na redacção dos

folhetins theatraes, e excedeu-o na graça mordente e na dicacidade engenhosa. A pujança do critico era tal que um empresario e

director da opera lhe deu sociedade nos lucros do theatro, a fim de o

amaciar e polir com o attrito do ouro. «É inutil acrescentar, diz um

biographo, que, no conceito do folhetinista, o modo como era

dirigida a scena lyrica não deixava nada a desejar».

 

Volvido um anno, solicitou-o a Revista dos dous mundos para

escrever a «chronica politica». N'esta ardua missão houve-se com

rara fortuna e dexteridade, flagellando os personagens mais

graduados. Os ministros galardoaram-lhe a satyra, enviando-o

diplomaticamente á Russia com uma missão temporaria e especial

ao imperador Nicolau.

 

Esta enviatura acresceu ás despezas dos negocios estrangeiros

60:000 francos annuaes: era cara a mordaça. Regressando a Paris,

foi nomeado consul de França em Bagdad.

 

A revolução de 1848 esbulhou da brilhante posição o apostata da

republica mal rebuçada; quando porém Loeve-Weimar chegou

demittido a Paris, já a reacção vingou repôl-o na diplomacia,

indemnisando-o da injustiça com o consulado geral de Caracas

(America do Sul). Chegado á capital da republica de Venezuela,

Loeve-Weimar, receando a febre amarella, pediu licença, e veio a

Paris requerer a transferencia para o consulado geral de Lima, que

lhe foi dado.

 

Preparava-se para a viagem quando a morte o arrebatou em Paris

no dia 7 de novembro de 1854.