Teatro Completo

Caio Fernando Abreu · Capítulo 8 de 9

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Teatro Completo

A Maldição do Vale Negro

 

Peça em 1 Ato

 

* Em colaboração com Luiz Arthur Nunes

 

PERSONAGENS

•NARRADOR

• AGHATA, uma velha governanta

• CONDE MAURÍCIO DE BELMONT, um velho nobre, muito doente

• ROSALINDA, uma donzela de 19 anos .

•MARQUES RAFAEL D’ALLENÇON, um jovem mancebo.

•CONDESSA URSULA DE BELMONT, irmã do conde e louca

• JEZEBEL, uma cigana .

•VASSILI, um cigano cego

 

CENA 1

NARRADOR — Na província de Castelfranc, estende-se um vale coberto por densa floresta de pinheiros e ciprestes, conhecido pelo nome de Vale Negro. No topo de uma das montanhas que dominam o vale, ergue-se, imponente, o castelo dos condes de Belmont, de antiqüíssima linhagem e senhores daquela região. A nossa história tem início na tarde de 15 de abril do ano da graça de 1834. Uma chuva miúda e fria cai sobre a terra, paralisando a formosa primavera, que já por toda a parte começava a ostentar os dons fecundos do seu rico e poético reino. Numa sala do castelo, o velho conde Maurício, último descendente da estirpe e que outrora, governara seus domínios com a mão de ferro, dorme um sono entrecortado de gemidos e sobressaltos. A governanta Agatha, que há muitos anos serve a família, pinga lentamente algumas gotas de uma tisana escura num cálice de cristal.

AGATHA — Uma... duas... três... quatro... cinco.., seis... sete... Acho que é o suficiente por hoje. (Observa Maurício.) Talvez mais uma ou duas... (pinga mais) ou três.

MAURÍCIO (Gemendo.) — Aghata... sinto-me dolorosamente mal, Agatha... Não vais dar-me a tisana?

AGATHA — Estava justamente a prepará-la para vós, senhor conde. Aqui está (serve-lhe).

MAURÍCIO — Arre, que sabor repugnante! E se ao menos adiantasse de alguma cousa! Parece-me, ao contrário, que estou cada vez pior, Agatha... Oh, Senhor, que cruéis provações ainda me reservará o destino?

AGATHA — Não vos preocupeis demasiado, senhor conde. Deus, na sua infinita bondade de misericórdia, saberá por certo apiedar-se de vossa desdita. Vamos, deveis beber a tisana toda. Mais um gole...

Assim.

MAURÍCIO — Agatha, onde está Rosalinda?

AGATHA — Ainda não a vi hoje, senhor. Deve andar pelos bosques colhendo frutos e flores silvestres, como é de seu feitio.

MAURÍCIO — Com este tempo chuvoso?

AGATHA — A chuva parou já faz mais de hora. Temos sol de novo. O senhor conde quer que eu descerre os reposteiros?

MAURÍCIO — Não, por favor. A luz me molesta. (Suspira.) Pobre Rosalinda! Deus permita que não descubra jamais o hediondo segredo que envolve as suas origens... Agatha, juras que, se eu morrer, jamais revelarás a verdade a Rosalinda?

AGATHA — Tranqüilizai-vos, senhor. Ela jamais saberá.

 

CENA 2

 

ROSALINDA (Entrando com um cesto de palha carregado de flores e frutos.) — Quem jamais saberá o que?

AGATHA (Friamente.) — Falávamos sobre os males que afligem vosso padrinho, Rosalinda.

MAURÍCIO — Aproxima-te, meu primaveril crisântemo. Que trafega estás. Então, andavas pelos bosques?

ROSALINDA — Sim, padrinho. Oh, quando raiou o sol, a natureza toda parecia explodir em cores inefáveis e perfumes inebriantes. Caminhava pelos montes, entre as cabras, e pensava em vós, abandonado aqui neste leito. Como deveis padecer, meu amado bem feitor!

MAURÍCIO (Amargo.) — Quiçá eu mereça todos estes abomináveis tormentos.

AGATHA (Seca.) — Deus sabe o que faz.

ROSALINDA — O que dizeis, Agatha? Todos os camponeses e mineiros do Vale Negro sabem que não existe fidalgo mais nobre, mais justo e magnânimo que meu amado padrinho, o conde Maurício de Belmont.

AGATHA — Caluda! (Escutando.) Ouvis? A cascata parou.

MAURÍCIO — (Agitado.) Não! (Ouvem-se gritos ao longe.)

AGATHA — Os gritos novamente.

ROSALINDA — Tenho tanto medo, padrinho. De que sofrida garganta brotam esses brados inumanos? E por que a cascata pára?

AGATHA (Lúgubre.) — A cascata costuma parar quando algo terrível está para acontecer. Esta é a maldição do Vale Negro.

MAURÍCIO — Cala-te, Agatha. Não atemorize nossa linda pequena. (A Rosalinda.) Não te assustes, minha rósea tulipa. E apenas um fenômeno natural, inexplicável pela ciência dos homens. (Ouvem-se latidos.) E quanto aos gritos...

AGATHA (Cortando.) — Os cães estão latindo. Deve ter chegado alguém. (Indo à janela.) Cérbero, Belzebu, Astaroth, Asmodeu, Belfegor, Lúcifer, quietos! (Cessam os latidos. Ouvem-se batidas de aldrava.) MAURÍCIO — Atende, Agatha. (Agatha sai.)

ROSALINDA — Quem poderá ser? Oh, padrinho, sinto um aperto no coração.

Tenho um pressentimento...

AGATHA (Anunciando.) — O marques Rafael d’Allençon.

 

CENA 3

 

RAFAEL (Entrando.) — Maldição! Esses cães são verdadeiros demônios! (A Maurício.) Por que razão viveis cercado de feras? (Melífluo.) Acaso tendes medo que alguém vos roube esta gentil donzela?

MAURÍCIO — A maldade no coração dos homens é incalculável, caro marques. Mas não precisais temer. Os cães, durante o dia, permanecem acorrentados. Só são soltos ao anoitecer.

RAFAEL — Folgo em sabê-lo. Para não incorrer no erro de vir visitar-vos à noite. O que dificilmente aconteceria. (Olhando de soslaio a Rosalinda.) A não ser que...

AGATHA (Levemente irônica.) — Seria um erro fatal. São animais ferocíssimos, que só obedecem ao seu tratador, o velho feitor Bonifácio. Seriam capazes de trucidar qualquer um de nós.

Inclusive eu , que os alimento.

RAFAEL (Estremecendo.) — Brrrrrrr! Que conversa desagradável!

MAURÍCIO (Secamente.) — Abreviamo-la, pois, senhor marques. A que devo a honra de vossa presença aqui em meu tugúrio?

RAFAEL — Assunto particular, caríssimo conde.

MAURÍCIO — Agatha, retira-te. (A Rosalinda.) Bálsamo de minh’alma, necessito estar a sós com o marques.

ROSALINDA (De olhos baixos.) — Vós ordenais, meu padrinho. A mim cabe obedecer. Com vossa licença, senhor marques. (Sai com Agatha.)

 

CENA 4

RAFAEL — Não desejo roubar vosso precioso tempo, estimado conde. Outrossim, quero crer que já não vos resta muito. Devo confessar que pareceis já um cadáver. E em adiantado estado de putrefação.

MAURÍCIO — Deus, a virgem e o Espírito Santo são testemunhas de minha desventura. Ide logo ao cerne da questão. Não tolero vossa presença maligna.

RAFAEL (Lentamente.) — A hipoteca vence hoje.

MAURÍCIO — Que dizeis?

RAFAEL — A hipoteca vence hoje. Apenas isso.

MAURÍCIO (Agitado.) — Não é possível... Isso é um engodo... Conheço vossas diabólicas tramas... Por certo adulterastes os papéis...

RAFAEL — Os papéis cá estão em minha algibeira. Não há sombra de fraude neles. Podeis verificar. (Entrega-os.) Parece-me que vossa senil memória anda já a pregar-vos peça.

MAURÍCIO (Examinando os papéis.) — Tendes razão. Oh, senhor! Inesgotável é a taça de infortúnios que me fazeis sorver neste vale de lágrimas!

RAFAEL — Sois injusto com o bom Deus, senhor conde. Ao fim e ao cabo, sois vós o único responsável por vossas próprias desditas.

MAURÍCIO — Que quereis dizer com isso, biltre dos infernos.

RAFAEL — Ora, caro senhor, apesar de possuir a metade de vossa idade, conheço bastante bem vosso passado. Acaso esqueceste que vosso companheiro preferido das noitadas de esbórnia e deboche era, coincidentemente, o meu finado pai? (Compungido.) Que Deus o tenha!

MAURÍCIO (Amargo.) — Vosso pai...

RAFAEL — Sim, o velho marques d’Allençon, de quem, aliás, herdei muitas “virtudes”, como gosto pelos “prazeres” da vida: a boa mesa, o vinho, as mulheres, as canções...

MAURÍCIO — Ah, que acerbas recordações vindes me despertar!

RAFAEL — A concupiscência, a devassidão e o vício que levaram o meu progenitor à loucura e à morte são agora a causa de vossa ruína financeira, senhor Conde Maurício de Belmont. Ou porventura olvidais que foi sobre o pano verde que empenhaste toda vossa fortuna?

MAURÍCIO (Num arranque.) — Basta, basta de ressuscitar esses horrendos fantasmas do passado!

RAFAEL (Implacável.) — Não, não basta! Já fui assaz insultado por vós, e não vou perder a oportunidade de vos dar o merecido troco! Não, senhor conde, não podeis negar que estais colhendo hoje o amargo fruto de vossa desenfreada paixão pelo jogo!

MAURÍCIO — Aquela noute... aquela noute nefasta...

RAFAEL — Ah, vejo que vossa memória começa a reavivar-se. Sim, foi numa “noute nefasta”, como dizeis, há mais de dez anos que, sentado a uma mesa de truco, com meu pai, após já haver perdido vultosíssima quantia e já embotado pelos vapores etílicos...

MAURÍCIO (Cortando, no auge do desespero.) — Eu não podia, não conseguia parar! Era mais forte do que eu!

RAFAEL (Continuando, implacável.) — ...já embotado pelos vapores etílicos, Vossa Senhoria ofereceu como garantia de sua derradeira aposta, os títulos de suas propriedades. Todos os bens do ilustre clã dos Belmont hipotecados à não menos ilustre casa d’Aliençon!

MAURÍCIO — Ah, Deus de minh’alma! O que me resta fazer agora?

RAFAEL — Se vós tivésseis uma mente... digamos... mais atilada, poderíeis fazer bem mais do que imaginais em vosso próprio benefício.

MAURÍCIO — Falai logo, canalha! O que mais ainda quereis deste lamentável destroço humano?

RAFAEL (Direto.) — Não sou homem de meias palavras. Quero vossa afilhada.

MAURÍCIO (Tomado de cólera.) — Como vos atreveis? Ficai sabendo que não sois digno de lamber o chão onde roça a fímbria da saia de Rosalinda. (Tossindo violentamente.) O mais ignóbil dos répteis é mais nobre do que vós. Cederia a mão de Rosalinda ao mais imundo dos mineiros do Vale Negro, jamais a vós. Mil vezes a mais negra miséria!

RAFAEL (Sem se abalar.) — Então estais completamente arruinado. A escolha é vossa. Mas... como sou um homem magnânimo, tendes até amanhã, ao meio-dia, para vos retirardes do castelo.

MAURÍCIO (Tossindo muito agitadamente.) — Infâmia! Gozasse eu de alguma saúde e vos expulsaria daqui a chicotadas, vil cobarde!

ROSALINDA (Entrando com Agatha.) — Senhor, que tendes?

MAURÍCIO — Ajuda-me, Agatha, preciso repousar. (Agatha sai conduzindo Maurício,)

ROSALINDA (A Rafael) — O que fizeste a meu padrinho, arrogante mancebo?

CENA 5

 

RAFAEL — Vamos, minha pombinha. Nada fiz a vosso padrinho.

ROSALINDA — Mas então por que está ele neste deplorável estado?

RAFAEL — A vida desregrada que levou, minha flor das montanhas, os ágapes desenfreados, os muitos crimes que cometeu o corroem por dentro.

ROSALINDA — Crimes? De que falais? Meu padrinho nunca cometeu crime algum.

RAFAEL Como não? Então não sabeis que hipotecou todas as suas propriedades à casa d’Aliençon?

ROSALINDA — Sei-o. Mas isso não é crime. As propriedades pertencem a ele.

RAFAEL — Crime é deixar ao desabrigo uma donzela como vós.

A hipoteca vence justamente hoje.

ROSALINDA — Isso quer dizer que... que...

RAFAEL (Interrompendo.) — Que não tendes mais teto que vos abrigue, menina. Nem vós, nem vosso padrinho, nem a bruxa governanta, nem aqueles cães demoníacos.

ROSALINDA — Mas não podeis cometer essa vileza. O senhor conde está gravemente enfermo. Sua morte é questão de meses, como pudeste observar. Oh, senhor marquês, apiedai-vos de nossa desgraça!

Que tendes vós em lugar de coração? Uma taça de veneno?

RAFAEL — Tudo depende de vós, minha pequena...

ROSALINDA — De mim? Sabei que tudo faria para amenizar as derradeiras horas de meu benfeitor.

RAFAEL — Basta que sejais... complacente com este vosso admirador.

ROSALINDA — Complacente? Que insinuais? Não vos entendo. Falai claramente, por misericórdia.

RAFAEL (Incisivo.) — Sobre esse assunto não há necessidade de falar claramente. (Insinuante.) Não haverá lugar em vosso coração para um pouco de ternura?

ROSALINDA (Percebendo)- Oh, sim. Agora compreendo o que desejais. (Resoluta. persignando-se.) Está bem. Se isso pode salvar meu benfeitor da ruína, podeis dispor de meu corpo e de minh’alma como quiserdes, para a satisfação de vossos brutais prazeres. (Abre os braços resolutamente.)

RAFAEL (Abraçando-a.) — Sois mais ladina do que aparentais, pequena. Nos menores frascos repousam as mais puras essências.

 

CENA 6

 

NARRADOR — Alguns meses depois daquele dia em que Rosalinda levou a cabo o seu gesto de desprendimento e afeto filial, a situação modificou-se sensivelmente no castelo dos Belmont. O marquês d’Allençon, desistindo de protestar os títulos da hipoteca, a ameaça da ruína deixara de pender sobre a família. A atitude do marques, aliás, sofrera uma profunda transformação. Seu habitual cinismo e arrogância, como num passe de mágica, cederam lugar a uma solicitude. Rafael passou a visitar mais amiúde o castelo e, inclusive, participava das tertúlias e saraus familiares. Freqüentemente, ele e Rosalinda passavam as calorosas tardes estivais a percorrer os bosques e pradarias. Voltavam ao pôr do sol, carregando braçadas de antúrios, gerânios, crisântemos, hortências, magnólias, petúnias, begônias e miosótis. Entrementes, fatos mui estranhos continuavam a ocorrer nos sombrios aposentos da mansão dos Belmont.

Em semiobscuridade, o Conde Maurício está dormindo, recostado no sofá quando entra Ursula. Roupas rasgadas, desgrenhada, inteiramente louca. Traz uma boneca nos braços.

ÚRSULA (Fala para as paredes, às vezes para si mesma ou para a boneca.) — Como sói ser verde o campo quando o astro-rei principia a tombar no horizonte! Por um segundo, a natureza inteira se veste de dourado... Vês, filhinha? O verde dos campos sendo mansamente invadido por todo esse esplendor dourado que brota do arrebol. Que espetáculo redentor para a torturada visão dos homens! O ouro derramando-se sobre o verde, tingindo o azul do firmamento. (Estremecendo.) Até... até que os besouros começam a cair. Lentamente, despencam dos céus feito gotas negras de chuva. Vindos do infinito, qual aranhas viscosas e peçonhentas... E quando caem de costas — ah, quando um besouro cai de costas, não se levanta nunca mais. (Quase gritando.) Nunca, nunca mais! (Com o grito, Maurício agita-se e geme dormindo. Ùrsula volta-se para ele.) Vês, filhinha? E assim que são os poderosos. Desalmados, impiedosos. Dormem profundamente, confortáveis como se repousassem sobre um campo de ouro. Indiferentes à queda lenta dos besouros negros sobre o charco de sua alma manchada pelo sangue dos inocentes. Alheios à desventura dos oprimidos camponeses que labutam no fundo lamacento das minas para cobrir de ouro seu medonho latifúndio. (Vai-se aproximando de Maurício.) Mas se todos — ah, se todos unidos erguessem atrevidos suas sofridas cabeças para gritar não! ao opressor... Ah, filhinha: como tudo poderia ser diverso desta iniqüidade. Quão ditosa seria novamente a pobre corça dos pés quebrados! (Gritando.) Companheiros, uni-vos! Uni- vos para destroçar o maligno! (Segura Maurício e começa a sacudilo violentamente.) Este, que se traveste de benfeitor dos pobres e dos oprimidos! Uni-vos como 1ob famintos de justiça para destroçá-lo em pedaços sangrentos!

MAURÍCIO (Despertando, estonteado.) — Rosalinda, Rosalinda, que aconteceu, minha cornucópia de água-régia?

ÚRSULA (Possessa, aos uivos, tentando estrangular Maurício.) — Somente a morte do maldito poderá redimir o sangue dos oprimidos!

MAURÍCIO (Num espasmo.) — Úrsula, que fazes aqui?

ÚRSULA — Sim, assassino! Apesar dos pés quebrados, a corça ainda pode fugir.

MAURÍCIO (Tenta levantar-se, Úrsula o empurra. Ele está apavorado. Grita.) — Agatha! Agatha, tira esta louca daqui!

ÚRSULA — Tarde demais, corrupto! Como a ave peregrina que mais dia, menos dia, torna ao ninho — a justiça sempre chega.

AGATHA (Entrando, com um chicote.) — Para trás, animal! (Estalando o chicote.) Afasta- te, fera repelente! Ou te reduzirei a pó num estalar de dedos.

ÚRSULA (Encolhe-se, a boneca cai ao chão, ela tenta inutilmente apanhar.) — Por piedade, não! Minha filhinha! Mata-me, se quiseres. Mas por tudo que há de mais sagrado, peço-te: poupa o mais puro fruto de meu ventre!

AGATHA Besta imunda! (Vai chicoteando Úrsula para fora da sala.) Retira-te para teu infecto covil! Foste feita para o aconchego dos ratos, das lacraias e dos escorpiões — não para o convívio dos seres humanos. (Para Maurício, antes de sair.) Serenai-vos, senhor Conde. O velho Bonifácio saberá tratar desta lepra em forma de gente. (Vai saindo, chicoteando Ursula. Os cães latem furiosamente lá fora. Grande alarido. Depois, volta o silêncio. A boneca ficou caída ao chão, aos pés de Maurício.)

MAURÍCIO (Após demorado silêncio, apanha a boneca e começa a acariciá-la dorida mente.) — Haverá de ser tão inesgotável a bondade de Deus a ponto de, um dia, ser capaz de perdoar-me? Merecerei a graça suprema de sua doce mão pousada sobre este fervilhar de vermes no caldeirão de minha alma pútrida? (Grita, como numa tragédia grega.) Infeliz de mim! (Num frenesi, beija a boneca. Depois joga-a longe.) Agatha, Agatha! Tira este aborto daqui! Socorre-me que morro... (O Conde Maurício soluça, arquejante. Foco em Maurício e na boneca calva. A luz vai diminuindo em resistência, enquanto ele geme. Em off sobrepondo-se aos gemidos, vão crescendo a gargalhada de Agatha, os uivos de Ursula e os latidos dos cães enfurecidos.)

 

CENA 7

 

NARRADOR — Transcorridos mais alguns meses, a situação no castelo de Belmont em nada se modificara. Rafael d’Allençon soubera perfidamente ganhar a confiança de Rosalinda com juras de eterno amor e promessas de matrimônio. Pouco a pouco, as fibras do coração da donzela, passaram a vibrar no compasso da mais pura e devotada paixão. Porém, horas mais negras estavam por vir. Um dia, Rosalinda descobriu que ia ser mãe. Sem coragem de contar a Rafael, durante vários dias, amargou sozinha seu terrível segredo. Por casualidade, iniciara-se a temporada da caça à raposa, e Rafael passara uma semana sem visitá-la. Uma manhã, munindo-se de coragem, Rosalinda tomou da pena e verteu seu coração, transbordante de receios, numa longa missiva endereçada ao marquês.

Rafael aproxima-se por trás de Rosalinda, que não percebe sua presença, e atira-lhe a carta a seus pés.

RAFAEL (Agressivo.) — Qual a razão disto?

ROSALINDA — Ah, meu amado, és tu. Que susto me causaste!

RAFAEL (Seco.) — E então?

ROSALINDA — E então o que? Não te entendo. O que se passa contigo? Por que chegas assim, tão agastado, sem uma saudação sequer... nem ao menos um ósculo... um amplexo?

RAFAEL — Ora, Rosalinda, não me venhas de borzeguins ao leito! Quero saber o que significam as aleivosas insinuações contidas nessa missiva.

ROSALINDA (Ressentida.) — Amor meu, que duras palavras! Tu, que sempre me demonstraste tanto carinho, tanta afeição, tanto... ardor...

RAFAEL — Tratava-te assim porque eras dócil e cordata comigo. Porque te curvavas a todos os meus caprichos. Mas agora...

ROSALINDA — Mas eu não mudei! Eu continuo sendo tua escrava fiel e obediente! Sabes bem que meu antigo asco por ti transmutou-se na mais excelsa paixão!

RAFAEL — Chega de tergiversações! Exijo que me esclareças imediatamente o significado dessa carta!

ROSALINDA — Peço-te perdão, meu querido amigo. Foi quiçá por excesso de pundonor que não fiz mais cristalinas as minhas palavras. Mas como transmitir à fria brancura impassível do papel o turbilhão que me devasta o peito, desde que fui abençoada por este milagre... este augusto milagre...

RAFAEL — Que história é essa de milagre? Vamos, fala!

ROSALINDA (Em êxtase.) — O milagre da maternidade!

RAFAEL — O que? Um filho?!

ROSALINDA — Sim, um filho! Sublime fruto a coroar o nosso amor!

RAFAEL (Agarrando-a brutalmente.) — O que estás a dizer? Ficaste louca?

ROSALINDA — Rafael, Rafael, foste tu quem perdeu a razão! Não te reconheço.

Julgava que rebentarias de alegria ao saber...

RAFAEL (Cortando-a, possesso, e sacudindo-a pelos braços.) — Alegria? Alegria?!!!

ROSALINDA — Sim, amado. Agora só nos resta finalmente desvelar aos olhos do mundo a nossa união, realizar o nosso sonho dourado... Ah, meu príncipe, toda noite, em meu leito, contemplo-me, núbil, galgando ao lado teu o mármore dos degraus do altar...

RAFAEL (Empurrando-a.) — Casar contigo? Quem te pôs esta idéia ridícula na cabeça?

ROSALINDA (Chocada.) — Tu mesmo, Rafael! Tu mesmo quantas vezes juraste que um dia... que só precisávamos um pouco de paciência e ocultar por algum tempo o nosso amor, até conseguires convencer tua família...

RAFAEL (Cortando, irônico.) — ...que eu desposaria uma enjeitada? Uma bastarda?

Uma criatura sem nome, sem posição e sem fortuna? Porventura chegaste a acreditar um segundo que eu, um nobre, um aristocrata, um d’Allençon uniria meus destinos a uma qualquer? Alguém que não sabe sequer de onde veio nem quem são seus pais?

ROSALINDA (Com dolorosa compreensão.) — Então isto significa que estiveste a mentir-me esse tempo todo...

RAFAEL (Rindo a bandeiras despregadas.) — Que esperta és! Só agora percebes que eu estava tão somente...

ROSALINDA (Cortando.) — ...brincando comigo, iludindo meu pobre coração, fazendo-me crer que me querias, apenas para me seduzir, me conquistar, desfrutar-me como mero objeto de tua lascívia, de teus instintos libidinosos...

RAFAEL (Às gargalhadas.) — E tu caíste na esparrela, franguinha! E com que facilidade! A tua estultícia, menina, é realmente espantosa!

ROSALINDA — Oh, Virgem Santíssima! Oh, Senhora protetora dos aflitos! Valei- me nesta sombria encruzilhada do destino!

RAFAEL — Isso! Reza, reza, pois vais precisar muito da misericórdia divina.

Porque de mim, minha cara, não tens mais nada a esperar. Apaga meu nome de tua memória! Esquece para sempre que eu existo!

Nunca mais, ouviste bem?

Nunca mais pretendo voltar a ver-te!

ROSALINDA (Reagindo como uma loba ferida.) — Rafael, Rafael, não tens o direito de fazer isso comigo! E cruel, é monstruoso demais! O que será de minha honra ultrajada?

RAFAEL (Irônico.) — Naquelas noites ardentes, quando gemias, deleitada, em meus braços, qual uma gata no cio, não pensavas em tua honra. Porque se não a entregasses a mim, te-la-ias entregue ao primeiro que passasse! Pois fica tu sabendo, insensata, que doravante não há mais nada entre nós! Nada!

ROSALINDA (Numa última e desesperada tentativa, agarrandose a ele.) — Rafael, meu dilacerado amor!

RAFAEL(Desvencilhando-se.) — Basta! Só tenho uma única e derradeira palavra a dizer-te!

ROSALINDA (Abrindo os braços, com renovada esperança.) — Dize, meu anjo e meu algoz! Que palavra é essa?

RAFAEL (Cuspindo a palavra.) — Marafona! (Sai a passos largos.)

ROSALINDA — Ah, por piedade! (Rosalinda, soluçando, em seu desespero, apodera-se da carta esquecida, despedaça-a com fúria e esfrega freneticamente os pedaços pelo rosto e pelo corpo.)

 

CENA 8

 

NARRADOR — Depois desse trágico desfecho, Rosalinda chorou, dias inteiros, lárimas grossas como punhos. Fundas olheiras ensombreceram seu semblante angelical. Só deixava a solidão dos seus aposentos para ir à capela atirar-se aos pés da Virgem. Com freqüência, deixava-se adormecer sobre as frias lajes do oratório, até ser despertada, muitas horas depois, pela mão da governanta Agatha. Deste modo, a pérfida serviçal terminou descobrindo o segredo que torturava o coração de Rosalinda. Insidiosamente, conseguiu conquistar a confiança da rapariga, dizendo-se sua amiga e protetora. Finalmente, quando Rosalinda não podia mais esconder o seu estado, a perversa Agatha aconselhou que revelasse toda a verdade ao conde.

MAURÍCIO — Bons dias, minha querida. (Observando-a.) Mas por que estás assim, cabisbaixa e meditabunda? Pareces infeliz... Teu semblante, onde sempre luziam os arrebóis da alegria, agora está turvo de uma névoa de tristeza...

ROSALINDA — Padrinho...

MAURÍCIO — Sim, dize... Conta-me a razão de tuas penas.

ROSALINDA (Hesitante.) — Padrinho querido.., eu...

MAURÍCIO — Vamos, fala. Não confias em teu velho amigo?

ROSALINDA — Padrinho, há mais um anjinho aos pés da Virgem Maria...

MAURÍCIO — Não entendo o sentido de tuas palavras, Rosalinda. Podes ser mais precisa?

ROSALINDA — Padrinho, uma nova flor começa a desabrochar para a vida...

MAURÍCIO — Que flor tão rara é essa, que floresce em tempo de inverno? Onde está ela?

ROSALINDA (Baixando os olhos.) — Aqui, padrinho. E meu ventre.

MAURÍCIO (Surpresíssimo.) — Que dizes, Rosalinda? Não me atormentes com enigmas e despautérios! Recuso-me a aceitar a terrível verdade que se esconde por detrás de tuas palavras!

ROSALINDA — Está bem, padrinho. Sei que haveis de compreender e perdoar- me. (Pausa.) Vou ter um filho.

MAURÍCIO (Reagindo com violência.) — Um rebento? Um bastardo? Mas quem te desonrou? (Esbofeteando-a.) — Vamos, fala, maldita!

ROSALINDA (A os prantos.) — O marquês Rafael d’Aliençon é o culpado da minha desventura.

MAURÍCIO — Ah, aquele réptil nauseabundo! (Tossindo, agitado.) Desgraçada, não vês que apressas a minha morte? Atraiçoaste toda a cega confiança que durante esses 19 anos depositei em ti. Retirate daqui, vamos! Enxovalhaste o nome do conde Maurício de Belmont!

ROSALINDA — Perdão, padrinho, perdão! Eu juro que...

MAURÍCIO (Cortando.) — Perjura! Jamais te perdoarei! (Chamando.) Agatha, socorre-me que morro... (Agatha acorre e o ampara.) Todos, todos me atraiçoaram... Pobre idiota! De onde supunha que só pudessem vir flores e sorrisos, surge inesperadamente a lâmina que me estraçalha o peito.

ROSALINDA — Foi para salvar vossos bens que cometi essa iniqüidade, padrinho.

MAURÍCIO — Não me chames mais de padrinho, não tens esse direito! E retira- te imediatamente daqui! Não pertences mais a este lar. Não passas de uma reles meretriz, como o foi tua mãe. (Agatha vai conduzindo-o para fora.) Hás de pagar amargamente, criatura ingrata e sem pudor! O demônio tomou conta de tua alma. Hás de rolar na lama e te arrastar no vício, noite após noite, ébria e solitária, à margem de qualquer dignidade, clamando inutilmente por misericórdia!

 

CENA 9

ROSALINDA (Sozinha.) — Infeliz de mim! Deus é testemunha de que agi com a melhor das intenções. Agora nada mais me resta a fazer aqui. Oh, Senhor, o que será desta pobre órfã com um filho a germinarlhe no seio? Abandonada por todos, por todos desprezada. Jamais pensei que minh’alma pudesse abrigar tamanha dor! O fel da desilusão inunda-me o peito! (Recobrando-se.)Tenho de ir-me. (Olhando ao redor.) Jamais olvidarei estes salões, estas paredes, estes móveis... Aqui passei os melhores anos de minha desditosa existência. (Detendo-se diante de um objeto, comovida.) Ah, o velho cofre de charão... Nunca me foi permitido abri-lo. Deve conter antigos segredos de família. Mas, que vejo? Alguém haverá esquecido a chave na fechadura... Sei que não devo abri-lo mas a curiosidade me espicaça... Sinto os dedos a queimar... (Abre o cofre.) Velhos papéis... e... oh! um daguerreótipo! Que belo! (Examina o medalhão enquanto fecha a tampa do cofre.) Quem será esta dama de melancólico semblante? Que formosa! Mas... oh, Senhor! Como se parece comigo! Dir-se-ia minha irmã... ou minha.., minha... (Neste instante entra Agatha, segurando uma capa. Num ato reflexo, Rosalinda esconde o daguerreótipo no seio.)

AGATHA — Ainda estais aí? Que fazeis aí parada, minha pequena? Tão assustadiça. Pareceis uma lebre surpreendida pelo caçador...

ROSALINDA — Estava apenas a despedir-me do cenário que emoldurou minha juventude. Já estou a ir-me, Agatha. Enfrentarei com bravura a escuridão dos meus caminhos.

AGATHA — Não deveis ter medo. O mundo é vasto, pequena. (Para si.) E cheio de prazeres inauditos... (Voltando-se à jovem.) Deveis procurar um velho cavalheiro que compreenda a vossa desventura...

ROSALINDA (Sem compreender.) — Que dizeis?

AGATHA — Que a vida pode ser vivida de muitas maneiras. Algumas, bem divertidas. E não será difícil para uma rapariga encantadora como vós... (tocando-a) com esse porte de amazona, esses cachos de Pandora...

ROSALINDA — Não vos entendo, Agatha. E por que me tocais com tal ardor?

AGATHA — Porque sois tenra como um faisão natalino. Opípara... rubicunda e capitosa (largando-a) Mas entendereis com o tempo minhas palavras. Agora ide sem mais delongas. Se vosso padrinho vos surpreender...

ROSALINDA — Tendes razão.

AGATHA — Levai isto para proteger-vos da intempérie. (Dá-lhe o manto.)

ROSALINDA — Como sois bondosa, Agatha! (Vestindo a capa e acariciando-a.)

Essa velha capa... Lembro-me dela. Meu padrinho me contou que pertencera a minha mãe.

AGATHA — Vossa mãe vos trazia envolvida nela quando veio estrebuchar nas escadarias do castelo numa gélida noite de inverno há 19 anos atrás.

ROSALINDA — Pobre genitora! Como há de ter padecido! Devo partir agora.

Adeus, minha boa Agatha. (Abraçam-se. Rosalinda sai.)

AGATHA — Finalmente os fados estão a meu favor! Com o afastamento da pequena, torno-me a única herdeira do conde Maurício de Belmont. Serei a mulher mais poderosa de todo o Vale Negro. Agatha, a reles governanta, a bruxa intratável, a corcunda repugnante, a harpia selvagem! Ah, os camponeses pagarão caro o seu desprezo, a sua maledicência. Resta apressar a morte do conde. (Apanha a tisana.) Algumas gotas a mais hoje, outras amanhã, e eu em breve estarei completamente sozinha no castelo. (Conta as gotas.) Uma... duas... três... quatro...

 

CENA 10

 

NARRADOR — Enquanto a pérfida governanta regozijava-se com o golpe do destino que viera ajudar seus planos diabólicos, a desgraçada Rosalinda, com o peito dilacerado pela dor, deixava o castelo de Belmont, onde vivera os anos mais floridos da sua existência. E em meio à tempestade que rugia com fúria, embrenhou-se na floresta e caminhou durante três dias e três noites, só parando para repousar num monte de feno quando lhe faltavam totalmente as forças. Deixavase então cair ao pé de uma árvore e, com as roupas estraçalhadas pelas urzes e espinhos e os pés ensangüentados pelas pedras do caminho, adormecia exausta, escutando ao longe os uivos ameaçadores dos lobos e as lúgubres vozes das aves noturnas. Enquanto isso, perto dali, numa clareira da floresta, uma tribo de ciganos havia montado acampamento e dedicava-se a seus afazeres habituais.

Jezebel põe as cartas do Tarot, enquanto Vassili toca seu violino.

JEZEBEL — Hay algo que vuelve del pasado... Cofio, no consigo ver claramente! El pasado se pone otra vez como presente y también como futuro Una muchacha... y que hermosa es! Un viejo senõr... y una mujer muy mala... Muchos conflict... la Muerte.. Pero, al final, la Justicia vencerá

VASSILI — Que cosas estás a refunfufiar, Jezebel?

JEZEBEL — Nada, carifio. Son los Arcanos del Tarot de los Bohemios que hoy solo me dicen incongruencias. Devo estar loca, carajo! Pero toca, por favor, toca más... El sonido de tu violín tiene la virtud de acalentar mi alma como el más dulce de los vinos...

VASSILI (Toca mais um pouco, depois para abruptamente.) — Jezebel, hay álguien entre los árboles.

JEZEBEL — No hay nadie, Vassili. Algun conejito perdido, alguna serpiente.

Vamos, toca.

VASSILI — No, Jezebel. Yo conozco muy bien los sonidos de los animales y de las personas. Son muy distintos. Tu sabes que desde que he perdido la visión, mi audición se ha aguzado mucho.

JEZEBEL — Si, si, claro. Confio en tu oído, pero no confio en tus temores, carajo! Por piedad, dejame ver la suerte en paz... (Invocando.) Fuerzas ocultas dei más alto Astral, orientad mis manos para desvendar el secreto. (Ruido. Rosalinda entra e coloca-se atrás de uma árvore.) Pero, que es esto? Hay a1guien aqui?

VASSILI — Te lo dije, Jezebel. Mira, aqui, por la derecha...

JEZEBEL (Erguendo-se.) — Quién está ay? (Saca do punhal.) Vamos, coso, que no estoy para chistes!

ROSALINDA (Aparecendo.) — Sou eu, senhora. Apenas uma pobre órfâ.

JEZEBEL — Acercate. (Rosalinda aproxima-se.) Con mil demonios, una muchacha! Y toda mojada. Que pasó, nina?

ROSALINDA — Não tenho para onde ir. Perdi-me pela floresta e cheguei até aqui orientada pelo som mavioso de um violino.

JEZEBEL — Es el violín de Vassili. (Para Vassili.) Tenías razón, carifio, es una pobre muchacha perdida en la tempestad.

VASSILI (Caminhando para Rosalinda.) — Esta voz.., por Diós, esta voz... Puedo tocar en tu rostro, carino?

ROSALINDA (Hesitando.) — Não sei... que quereis vós de mim?

VASSILI — Es que me acuerdo de... de una mujer que he conocido en tiempos más dichosos. (Passando os dedos no rosto de Rosalinda.) Si, si, por Dios, no es possible, no lo puedo creer, no es verdad la piel, los ojos, la nariz, las cejas, los párpados... es lo mismo, exactamente lo mismo... Todo, todo es igual...

JEZEBEL — Acalmate, Vassili. La muchacha está assustada. Acercate hasta el fuego, toma un poco de vino. Como te llamas?

ROSALINDA — Rosalinda, senhora. Mas por que ele está tão agitado?

JEZEBEL — Es su imaginación muy exacerbada. Se cree que te pareces a alguien que conoció. Vamos, dame tu mantilla. Está toda mojada. (Examina-a.) Que raro trabajo. Estrano! Pareceme que ya he visto algo semejante... hace mucho tiempo... Donde encontraste este manto, nina?

ROSALINDA — Agatha me lo deu.

JEZEBEL E VASSILI (Muito espantados.) — Agatha!

ROSALINDA — Sim, a governanta do castelo do Vale Negro. (Nova reação dos ciganos.) Pertenceu a minha mãe. Gostai? Tomai.

(Entrega o manto a Jezebel , o daguerreótipo fica visível.)

JEZEBEL — Pero que es esto? Eres tu?

ROSALINDA — Não. É um velho daguerreótipo. Encontrei-o por acaso...

JEZEBEL — Pero ia semejanza es imprensionante!

VASSILI — (Agitadíssimo.) Quien es la mujer del retrato?

ROSALINDA — Não sei, como posso saber? Mas imagino que seja...

JEZEBEL E VASSILI — Quien?

ROSALINDA — Minha mãe... que eu não conheci...

VASSILI (Muito emocionado.) — Tu madre? Jezebel... mira el daguerreótipo y habla toda ia verdad... es... es... es Ursula?

JEZEBEL — Si, es Úrsula.

VASSILI (Abraça Rosalinda, chorando.) — Hija mia... hermosura, miei de mi corazón, que tortuosos caminos fue necessario cruzar hasta encontrarte...

ROSALINDA (Assustada.) — Que está acontecendo? Não sou vossa filha, sou apenas uma pobre órfã recolhida pela bondade do Senhor Conde Maurício de Belmont.

JEZEBEL — Maurício de Belmont! Maldición! Quieres decir que este perro todavia vive?

ROSALINDA — Sim, mas por pouco tempo. Padece de grave enfermidade. (Chorando.) Expulsou-me do castelo, lançando-me os mais terríveis vitupérios.

VASSILI — Perro de los infiernos! Voy a matarlo con mis propias manos.

ROSALINDA — Não entendo o que dizeis. Porque quereis matar meu padrinho?

JEZEBEL — No hay tiempo a perder. Tenemos que ir imediatamente al castillo. Nel camino te explicaremos todo. Ahora vamonos. (Saem.)

 

CENA 11

 

NARRADOR — Um turbilhão agitava a mente de Rosalinda, ainda incrédula, diante de tão inesperadas revelações. Sua intuição, porém, aconselhava-a a obedecer ao espírito forte e decidido da cigana Jezebel e a confiar na doçura do rosto e da voz de Vassili, que calava fundo em sua alma de órfâ desamparada. Sem perda de tempo, Jezebel preparou uma carroça e os três puseram-se a caminho. Quando chegaram ao castelo, já era noite fechada. A lua escondera-se atrás de plúmbeas nuvens prenunciadoras de tempestade. A astuta cigana havia preparado um narcótico para os cães que guardavam os portões, e assim eles puderam penetrar na propriedade.

JEZEBEL (Entrando com Vassili e Rosalinda.)...y fue eso lo que sucedió.

ROSALINDA — Quer dizer que meus verdadeiros pais são...

JEZEBEL — El gitano Vassili y Úrsula, la hermana del conde

Maurício de Belmont. Los dos se enamoraram locamente, hace anos, por supuesto. Maurício no podia admitir que una Belmont desposara un gitano. Estava tan poseso que queria mandar matar a toda la tribu. Ursula entonces abondonó el castilio y ocultóse com los gitanos em la montanas. Allá se celebró el casamiento.

ROSALINDA — Mas meu padrinho.., meu tio descobriu tudo...

VASSILI — Agatha, que se hacia pasar por confidente de Úrsula, la atraicionó, contando toda la verdad a Maurício.

ROSALINDA — Posso imaginar o resto. Meu tio mandou seus esbirros invadirem o acampamento cigano.

JEZEBEL — El mismo comando el ataque. Y con su propria mano cegó a Vassili con una chibatada.

ROSALINDA — Pobre, querido papai. (Toca-o com ternura.)

VASSILI — Angel mio. (Subitamente.) Oigo un ruído. Vamos escondemos.

ROSALINDA — Aqui... atrás deste reposteiro... (Vassili e Jezebel escondem-se.)

AGATHA (Entrando, surpresa.) — Vós por aqui novamente? Não bastaram as maldições que vosso padrinho vos lançou? Que quereis? Uma esmola? Uma côdea de pão?

ROSALINDA — Quero apenas o que me é de direito. Não preciso de vossa piedade!

AGATHA — Não vos entendo. Que quereis dizer com isso? Não tendes direito algum, não passais de uma pobre enjeitada.

ROSALINDA — Enjeitada, eu? Como, se meu pai está aqui próximo?

AGATHA — Vosso pai? Porventura delirais? Vosso pai há muito não pertence ao reino dos vivos.

ROSALINDA (Puxando o reposteiro.) — Como não?

AGATHA (Recuando.) — O cigano Vassili! Jezebel! Que desejais?

VASSILI — Solo la verdad, Agatha. Nada más que la verdad.

JEZEBEL (Ameaçando-a com o punhal.) — Vamos, mujer.

Donde está Úrsula?

AGATHA — Não sei, não sei...

VASSILI (Torcendo-lhe o braço.) — Vamos, confiesa antes que te mate como a un perro.

AGATHA — Por piedade, eu conto. (Recompõe-se.) Úrsula foi encarcerada na cripta subterrânea embaixo da cascata.

ROSALINDA — A cascata... Quer dizer que aqueles uivos dilacerados que se ouvem quando cascata para pertencem à... à minha mãe?

AGATHA —, Sim. Ela perdeu a razão quando vós nascestes.

Vosso tio então encerrou-a lá.

VASSILI — Mi pobre Úrsula.

JEZEBEL — Y donde están las llaves de la cripta?

AGATHA — Aqui. (Estendendo-lhe um molho de chaves.)

VASSILI — Precisamos libertar mi amada Úrsula. Vamonos todos a la cripta. Y tu, Agatha, vienes con nosotros para mostramos el camino.

JEZEBEL — Vamos.

AGATHA — A cascata parou novamente. (Ouvem-se gritos ao longe.)

 

CENA 12

 

NARRADOR — Desse modo, através de uma passagem secreta, conhecida somente por Agatha, os quatro penetraram nos subterrâneos do castelo de Belmont. Desceram por uma íngreme escada em caracol e embrenharam-se num labirinto de lúgubres corredores e estreitas galerias escavadas na rocha. Os gritos misteriosos haviam cessado, e o sepulcral silêncio era apenas perturbado pelo eco surdo dos seus passos e peio ocasional bater de asas de um morcego. Finalmente, desembocaram numa cripta úmida e infecta, que dir-se-ia habitada apenas por ratazanas e aranhas, não fosse aquela estranha voz entoando uma canção que parecia vir de além-túmulo.

ROSALINDA — Por Deus! Está tão escuro aqui. Não consigo ver nada.

JEZEBEL (Tomando a vela das mãos de Agatha.) — Pronto. Asi es mejor. (Olhando em volta.) Pero que sitio sucio... Es una pocilga, carajo.

(Para Agatha.) Vamos, desalmada. Donde está Ursula?

AGATHA (Apontando para um ponto, que Jezebel ilumina.) — Ali. (Aparece Úrsula, completamente louca, suja e desgrenhada. Canta, enquanto embala uma boneca nos braços.)

VASSILI — Mi querida, luz de mis ojos... Úrsula, bien amada!

ROSALINDA(Avançando para Úrsula.)- Mamãe! Oh, mamãe, julgava que estáveis morta!

ÚRSULA (Para a boneca.) — Filha, filhinha querida Não deves ter medo, não deixarei que te façam mal. (Para Vassili.) Afasta-te, Maurício! Não permitirei que destruas o fruto do meu amor! (Mudando o tom.) Besouro que cai de cosas não levanta nunca mais.

JEZEBEL — Está completamente loca! Maurício de Belmont ha de Pagar muy caro todas las atrocidades que ha cometido!

URSULA (Chorando.) — A corça corria celeremente sobre o ouro dos campos. Como se fora uma seta voando sobre o verde. Até... até que numa curva mais abrupta do escarpado caminho, numa curva ignominiosa seus pés quebraram.

ROSALINDA (Num gemido.) — Desditosa genitora!

ÚRSULA (Em pleno delírio.) — E ela não pode correr mais. As corças de pés quebrados não podem correr. Apenas rastejam. Como os besouros caídos de costas... que não se levantam nunca mais.

VASSILI (Para Ursula.) — Carinio, no me reconoces? Soy yo, tu Vassili. Tu amor, el gitano...

ÚRSULA — Vassili? Não, não: Vassili foi assassinado por Maurício. Seu sangue cigano cobriu o verde dos campos como o sangue inocente dos pés quebrados da corça... O vermelho da violência derramado impunemente sobre o verde da humildade...

VASSILI (Insistindo.) — Y esta chica, ves? Esta chica es Rosalinda, nuestra hija querida. Mira que hermosa es!

ÚRSULA (Para a boneca.) — Tanto tempo. Tudo faz tanto, tanto tempo. Hoje é como se fora outrora. E nunca mais outra vez.

ROSALINDA — Mamãe, mamãe, sou eu, Rosalinda, tua filha, a flor de teu ventre puro.

ÚRSULA (Para a boneca.) — Minha filha? Minha filha é esta aqui. Filhinha, filhinha... (Para a boneca.) — Sossega, ninguém te fará mal.

AGATHA (Mordaz.) — E definitivamente inútil. Esta parva jamais recuperará a razão.

JEZEBEL (Torcendo-lhe o braço.) — Callate, conchuda! Tus palabras son mas monstruosas que tu joroba! (Como se orasse.) Nel amor, hay fuerzas increíbles... capazes de cambiar el universo...

VASSILI (Pegando Úrsula pelos ombros e sacudindo-a.) — Úrsula. Te digo que soy Vassili! Muchos anios se han pasado. Pero estoy vivo. Y estoy acá para vingar nuestro amor. Soy Vassili! Vassili!

ÚRSULA (Com um lampejo de lucidez.) — Vassili?

VASSILI Si, mi amada, no reconoces mi rosto?

ÚRSULA — Esse rosto... essa pele morena... esse corpo delgado... (Detem-se.)Não, não! Não acredito! Vai-te daqui! Es um impostor! Um sicário a mando de Maurício para me torturar ainda mais! (Em delírio.) Bezouro que cai de costas...

JEZEBEL (Um tanto irritada.) — Ay, cono! Va a empezar de nuevo!

VASSILI (Transtornado, agarrando-a com mais força.) — Úrsula, mirame bien en la cara, en los ojos, en estes ojos ciegos...

ÚRSULA (Tocando-o.) — Meu Deus, o manso veludo dessa tez...

a suavidade desses lábios carmesim... Vassili, serás mesmo tu? O brinco em tua orelha esquerda...

VASSILI — Úrsula, vida mia...

ÚRSULA — O frescor de hortelã de teu hálito cálido, tuas mãos nodosas e fortes. A carícia áspera de tua barba dura que me lanhava o colo nas noites de indizível prazer. Não, não pode ser verdade, seria bom demais. Será que estou ficando louca, Virgem Santíssima?

VASSILI — Es verdad, carinio, soy yo! Y acá está también Jezebel, nuestra querida amiga y protectora.

ÚRSULA — Vassili, meu Vassili... Ai, Jesus, parece um sonho... (Delírio.) Ou quem sabe Deus teve pena de mim e me chamou para sentar ao lado seu no empíreo celestial?

JEZEBEL (Disfarçando.) — Ay, carajo!

VASSILI — No, no, estás viva! Acabaranse tus penas!

ÚRSULA (Reconhecendo-o finalmente.) — Sim, agora eu tenho certeza! És tu, Vassili! Meu adorado! Mas de que desvão esquecido da memória me surgiste?

VASSILI — Úrsula! (Abraçam-se e beijam-se ardentemente.) Vamos ahora empezar vida nueva, tu, yo y Rosalinda...

ÚRSULA — Rosalinda?... (Olha para a boneca. Olha para Rosalinda. Deixa cair a boneca.) Meu Deus... não pode ser... seria demasiada ventura para meu coração se essa donzela fosse... fosse...

ROSALINDA (Abrindo os braços.) — Vossa filha!

ÚRSULA (Abraçando-a.) — Filha querida! Oh, fruto mais puro que o meu ventre jamais gerou! Enfim posso abraçar-te!

ROSALINDA — Mamãe, querida! Que felicidade encontrar-vos!

ÚRSULA — Minha boa Jezebel... Mas... que aconteceu? Por que estão todos aqui?

Por que estou vestida assim? Que tenebrosa masmorra é essa? (Começando a delirar de novo.) Há como um poço escuro em minha memória... Um poço escuro onde flutuam corças de pés quebrados... negros besouros caídos de costas... (Vê Agatha e recua espavorida.) O que ela está fazendo aqui?

JEZEBEL (Agarrando-a por um braço, impaciente.) — No hay tiempo para explicar, Ursula. Ni para locuras otra vez. Más tarde te esclareceremos todo. Tememos ahora que desmascarar Maurício.

Vamonos deste infecto covil. Solamente un monstruo sin entranas podria encarcelar su propia hermana. (Saem todos)

 

CENA 13

 

NARRADOR — Celeremente voltaram todos ao castelo. Depois de tão cruéis sofrimentos, a felicidade parecia prestes a sorrir aos nossos heróis. O coração de Rosalinda, do malgrado a alegria do seu reencontro com os pais, ainda estava velado por uma nuvem de inquietação. A pobre rapariga pensava no fruto de seu desgraçado amor, que crescia em seu seio como uma erva daninha e em breve viria ao mundo sem a proteção de um pai. Quando chegaram ao castelo, o relógio soava as doze badaladas.

MAURÍCIO (Está adormecido, quando Úrsula entra lentamente e toca em seus cabelos.) — Quem me tocou? Úrsula? Fugiste novamente? Agatha, tira esta louca daqui! ÚRSULA (Perfeitamente lúcida.) — Já não estou louca, meu caro irmão. Meu bem-amado e minha querida filha me devolveram a razão.

MAURÍCIO — Teu bem-amado? Tua querida filha? Se te referes àquele cigano imundo, fica tu sabendo que há muitos anos eu mesmo o ceguei com uma chicotada. Deve andar esmolando pelas sarjetas. E quanto a tua ingrata filha, eu a expulsei de meus domínios. Não há lugar para meretrizes no castelo do Conde Maurício de Belmont. E tu, mais do que ninguém, sabes muito bem disso...

ÚRSULA (Muito segura.) — Tua maldade não tem limites, Maurício. Os sofrimentos que já causaste, as vidas que destruíste, certamente fariam petrificar a própria Górgona.

MAURÍCIO (Interrompendo-a.) — Ousas acusar-me? Foste tu — tu, minha cara irmã- quem iniciou este rosário de desgraças. És tu,e apenas tu,a cu1pada de tudo.Ou não te recordas?

Queres que te refresque a memória? Mesmo antes de te amancebares com aquele cigano asqueroso, já me desafiavas, insuflando os mineiros do Vale Negro contra mim. Contra mim, teu próprio irmão! Tu, uma aristocrata, uma condessa do clã dos Belmont!

ÚRSULA — Sim, uma aristocrata, uma condessa de Belmont. Mas antes de tudo, uma mulher. E uma mulher com coração! Não podia assistir indiferente aos tormentos dos desventurados mineiros e de suas miseráveis famílias. Explorados, inermes, escravizados por ti, meu irmão! Os camponeses entregando suas lamentáveis vidas às profundezas da terra de teu porco latifúndio, enquanto as mulheres, as criancinhas e os anciãos inocentes morriam à míngua em suas fétidas choupanas. Foi a caridade que me levou...

MAURÍCIO (Interrompendo-a.) — Caridade? Chamas de caridade a teu gesto de incitamento à rebelião contra a autoridade?

ÚRSULA — Aproximei-me dos mineiros, inicialmente, movida por um sentimento cristão de amor ao próximo. Queria somente mitigar as duras penas impostas por ti àqueles infelizes. Queria levar-lhes comida e agasalho, ensinar àquelas pobres criancinhas a cartilha e o catecismo. Mas o verdadeiro espírito de solidariedade humana, eu o aprendi com aquele que consideras um pária: Vassili!

MAURÍCIO — Maldito seja!

ÚRSULA — Sim, ele mesmo. Foi Vassili quem me ensinou que o mundo não precisa necessariamente ser dividido entre pobres e ricos, em miseráveis e poderosos, em senhores e escravos. Em nobres, de um lado, e em mineiros, ciganos e negros do outro.

MAURÍCIO — Basta! Já foste longe demais, insensata! Vejo que estás mais demente do que nunca. Retorna a teu repulsivo subterrâneo.

Nada tens a fazer aqui, na casa que desonraste. Teu sonho libertário acabou! (Irônico.) E contudo teu coração ainda pulse, a própria vida acabou para ti, espectro de gente!

ÚRSULA (Muito calma.) — Enganas-te, mui prezado irmão. Após tantos anos obnubilada, a vida recomeça para mim. Neste exato momento, quando acabo de reencontrar meu marido e minha filha.

(Afasta o reposteiro e aparecem Vassili, Rosalinda, Jezebel e Agatha.)

 

CENA 14

MAURÍCIO — Jezebel! Vassili! Rosalinda! Não é possível! (Tosse.) Agatha, Agatha, minha tisana!

AGATHA (Libertando-se de Jezebel, muito sôfrega, apanha o vidro.) Pronto, senhor conde. Aqui está.

JEZEBEL — Dejame ver este frasco.

AGATHA (Tentando escondê-lo.) — Não!

JEZEBEL (Matreira.) — Y por que no? Por lo que dicen, tratase apenas de una tisana medicinal. (Arranca-o das mãos de Agatha.) Tisana medicinal! Esto es un fuerte veneno: arsénico! La joroba está asesinando lentamente el Conde!

MAURÍCIO — Veneno! Oh, ingrata Agatha! E eu que te supunha a única criatura no mundo a manter-me alguma fidelidade! (Tosse e entra em violenta crise.)

AGATHA — Pois te enganaste, velhaco! Eu sempre quis apenas tua fortuna!

ÚRSULA — Não a deixem fugir!

VASSILI (Segurando Agatha.) — No se escapará, maldita!

MAURÍCIO (Tossindo muito) — Ledo engano! Meu esfalfado coração já não resiste a esses golpes cruéis... Que trevosa sina a minha! Ajudem-me que morro!

(Para Jezebel.) Cigana Jezebel, antes de morrer quero revelar-vos um segredo.

JEZEBEL — Un secreto? Por mi no escucharia tus sucias palabras. Pero la muerte es poderosa. Está bien. Habla.

MAURÍCIO — Jezebel... sempre vos amei. Jezebel, ah Jezebel, deixai-me repetir vosso nome como se música fora para meus fatigados ouvidos... Jezebel, meu sonho mais acalentado sempre foi beijar vossos lábios de carmim. Tivesse tido eu tal privilégio, quiçá o destino não me houvera transformado neste sórdido algoz que ora agoniza. Mas sempre me desprezaste. (Tosse) Jezebel, não negueis o derradeiro pedido de um moribundo. Sinto que morro, Jezebel. Dai-me um beijo. Um único beijo, um derradeiro beijo e morrerei feliz.

JEZEBEL (Hesita. Todos olham. Acaba curvando-se e beijando-o) — Mi corazón siempre pertenecerá a Vassili, aunque el no me quiera. Que los dioses se apiaden de tu espíritu.

MAURÍCIO — Rosalinda, sobrinha querida... Ursula, minha devotada irmã... Desventurado cigano Vassili, eternamente a vagar pelas sombras... Todos vítimas de minha cega cupidez! Por tudo que há de mais sagrado, perdoai-me! Deixo para vós toda a minha fortuna (morre).

JEZEBEL — Se finó. (Fecha os olhos dele com delicadeza e melancolia) Acabó. Está muerto. (Rosalinda e Ursula choram)

AGATHA (Aproveitando-se da emoção de Vassili, apanha a bengala que Maurício deixou cair) — Adeus, idiotas! Não me pegarão com vida. (Vassili tenta apanhá-la. Leva uma pancada na cabeça e cai desfalecido. Agatha foge rindo às gargalhadas)

ÚRSULA — Vassili! Oh, meu Deus, ela o matou!

ROSALINDA — Papai, papai! Fale comigo!

JEZEBEL — Maldición! (Ouvem-se os cães latindo. Jezebel corre à janela..) Los perros se despertaron y van a atacarla! Que escena horrible! Diós mio, la estan destrozando! Tanta sangre! (Pausa) Que es esto, ahora? Hay un caballero que llega. Pero demasiado tarde... Y saca de una escopeta apunta a los perros. (Ouvem-se vários estampidos.)

ROSALINDA (Correndo à janela.) — Rafael, só pode ser ele!

JEZEBEL — Quien es esse hombre?

ROSALINDA (Baixando os olhos.) — O pai de meu filho.

VASSILI (Despertando.) — Que oigo? Mi hija...

TODOS — Vassili! Papai! Ele está vivo!

VASSILI (Ainda tonto.) — Si. Estoy más vivo do que nunca. Y quiero saber, Rosalinda, de que hombre estás hablando.

ROSALINDA (Dolorosa.) — Do homem por quem me apaixonei. Do biltre infame a quem — ah, tola donzela, iludida por perfídias! — entreguei minha pureza e que me desgraçou.

 

CENA 15

 

RAFAEL (Entrando com o corpo de Agatha.) — Os cães a destroçaram.

ÚRSULA — Teve o fim que merecia.

JEZEBEL — Pobre joroba!

RAFAEL — Rosalinda, eu...

ROSALINDA (Cortando.) — Que mais ainda quereis de mim, cruel mancebo? Ide-vos daqui. Atraiçoaste-me com vossas juras inconseqüentes, com vosso falso amor.

RAFAEL (Contrito.) — Vim justamente pedir-vos perdão por todo o mal que involuntariamente vos causei. Estou amargamente arrependido. Desde que vos desonrei, vossa imagem não me sai do pensamento. Doce Rosalinda, julgo enlouquecer sem vosso amor. Quero reparar meu erro. Perdoai-me, por piedade. Vim pedir vossa mão ao Conde Maurício.

ROSALINDA — Tarde demais. Ele está morto.

VASSILI (Levantando-se.) — Pero yo la concedo. Yo soy su verdadero padre. Si es seguro que usted quiere a mi hija de verdad... (Interrompendo-se, olhando em volta.) Pero, que pasa? Siento como un vértigo...

ÚRSULA — Vassili, o que tens? O sangue fugiu de tuas faces.

VASSILI — No compreendo... Mis ojos. Yo podia anteriormente decifrar algunos cobres... el verde, el azul... Si, porque no hay negror en la ceguera... Solo una luminosidad... una luminosidad en las solombras... (olhando olhando para qualquer coisa vermelha que há em cena,) pero la escarlata... Hace quanto tiempo no la veía... Por Dios, la escarlata!

JEZEBEL — Es una alucinación. Vassili, sientate un poco. Estás fatigado de tantas emociones.

ÚRSULA — Venha, querido.

VASSILI — No, no! Quiero quedarme en pie. Mis ojos... no compreendo... Que luz cegante es esa? Que claridad espantosa hay en el mundo!

ROSALINDA — Papai, papai!

VASSILI — Quiero ver.., ver... Nos es posibie, no lo puedo crer, no es verdad! Es un milagro... un verdadero milagro, un milagro divino! (Olhando uma a uma, incrédulo.,) Jezebel, Ursula, Rosalinda: impiezo a ver claramente vuestros rostros queridos!

ÚRSULA — A pancada que Agatha te deu...

ROSALINDA — ...fez com que vossa visão voltasse!...

VASSILI — Si, si, por los dioses, si! Jesú, Jesú, yo he recuperado la visión!

JEZEBEL — Alabado sea Dios!

TODOS — Alabado sea!

RAFAEL (Para Rosalinda.) — Então, quereis contrair matrimonio comigo?

ROSALINDA — Minha resposta só poderia ser afirmativa, meu amado. Não conseguiria ocultar por mais tempo que meu coração vos pertence desde o primeiro momento que vos vi! (Beijam-se apaixonadamente.)

VASSILI — Ahora seremos todos felizes...

ROSALINDA — Sim, os sofrimentos tiveram seu fim.

RAFAEL — Agora, a paz e a justiça reinarão para sempre no castelo de Belmont..

ÚRSULA — Amanhã mesmo triplicarei o salário dos mineiros.

ROSALINDA — Oh, meu Deus, como agradecer-vos tanta felicidade?

JEZEBEL — Las cartas no mienten jamás.

NARRADOR — E assim, punidos os culpados, e terminados os infortúnios daquelas almas abnegadas, cerremos docemente as cortinas sobre este quadro familiar, enquanto as auras da noite, acariciando o seio das flores, cantam o hino misterioso do amor, da ventura e da paz.