Teatro Completo

Caio Fernando Abreu · Capítulo 6 de 9

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Teatro Completo

Cenas Avulsas

 

DIÁLOGO 1

 

A — Você é meu companheiro.

B — Hein?

A — Você é meu companheiro, eu disse.

B — O quê?

A — Eu disse que você é meu companheiro.

B — O que é que você quer dizer com isso?

A — Eu quero dizer que você é meu companheiro. S6 isso.

B — Tem alguma coisa atrás, eu sinto.

A — Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.

B — Não é disso que estou falando.

A — Você está falando do quê, então?

B — Eu estou falando disso que você falou agora.

A — Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.

B — Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.

A — Você também sente?

B — O quê?

A — Que você é meu companheiro?

B — Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.

A — Atrás do companheiro?

B — É.

A — Não.

B — Você não sente?

A — Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?

B — Não. Não é isso. Não é assim.

A — Você não quer que seja isso assim?

B — Não é que eu não queira: é que não é.

A — Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.

B — Agora não?

A — Agora sim. Você quer?

B — O quê?

A — Ser meu companheiro.

B — Ser teu companheiro?

A — É

B — Companheiro?

A — Sim.

B — Eu não sei. Por favor, não me confunda. No começo era claro.

Tem alguma coisa atrás, você não vê?

A — Eu vejo. Eu quero.

B — O quê?

A — Que você seja meu companheiro.

B — Hein?

A — Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.

B — O quê?

A — Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.

B — Você disse?

A — Eu disse?

B — Não. Não foi assim: eu disse.

A — O quê?

B — Você é meu companheiro.

A — Hein?

(Ad infinitum)

 

DIÁLOGO 2

 

A — Sinto-me tão nítido que quase posso tocar em mim.

B — A ração básica custa setenta por cento do salário mínimo.

A — Maduro como um fruto. Sazonando, não é assim? Pronto para ser colhido.

B — O índice de mortalidade infantil aumentou em trinta por cento.

A — Broto para fora, para longe. O que definitiva e realmente sou ameaça rebentar as janelas.

B — A temperatura ambiente é de vinte graus centígrados e dois décimos.

 

DIÁLOGO 3

 

A — Uma vez, bem no meio da ponte do Guaíba, você falou que a gente podia alugar um apartamento em Moinhos de Vento.

B — A gente?

A — É. Nós dois. Eu e você B — Ah. Mas já faz tempo.

A — Muito tempo, você acha?

B — Isso é uma questão real ou simbólica?

A — Como assim?

A — Quero dizer: Você quer uma resposta alegórica ou realista?

B — Realista?! Como?

C — Realista no sentido de não ter subtexto, entende? Quero dizer: eu dizer que acho que faz muito tempo porque se passou, suponhamos, um mas. E a partir disso, eu...

A (Cortando.) — Mas você lembra?

B — Suponhamos que sim.

A — Esse “suponhamos” é real ou (irônico) alegórico?

B — “Entre les deux, mon coéur vomitte”.

A — O que?

B — Quero dizer que...

A (Cortando.) — Você acha que um mês é um tempo significativo?

B — Significativo em que termos?

A — Me passa o vinho.

 

DIÁLOGO 4

O Aborto

 

A — Mas afinal, por que é que você não me disse que estava grávida?

B — Eu tentei, porra.

A — Acontece que você não tinha o direito de fazer este maldito aborto sem me consultar antes. Afinal de contas, cinqüenta por cento da cria era minha, não era?

B — Mas eu já disse que tentei te dizer, porra.

A — Tentou! Tentou como? Aquela vez que você me disse que tava grávida menos de um dia depois que a gente tinha trepado?

B — Você não acreditou...

A — Mas eu podia acreditar? Menos de um dia, porra. É completamente impossível alguém saber tão rápido. E humanamente impossível qualquer pessoa saber. Nem que fosse médium....

B — Não fica agressivo comigo, cara...

A — Agressivo? Ah, meu bem, nem que você tivesse superpoderes... Nem que fosse a Mulher Maravilha...

B — Uma mulher sempre sabe...

A — Sabe merda nenhuma. Não me venha com esses superpoderes feminóides.

B — Sabe na hora, cara. Sabe sempre. Sabe o tempo todo. No minuto exato em que você põe o pau lá dentro, tá sabendo? Na hora de baixar a calcinha. No segundo em que eu botei o olho em ti, cara.

A — Não força.

B — Como, não força? E já que a gente tá falando nessas coisas tão íntimas, meu querido, tem uma pergunta que há horas eu tou querendo te fazer. Me responde uma coisa: por que é que você sempre trepa de olhos fechados?

A (Lento.) — Você quer saber? Você quer saber mesmo?

B — Quero saber tudo. (Articulando as palavras.) Por que é que você sempre trepa de olhos fechados?

A (Lento.) — Porque é o único jeito de imaginar que eu tou fodendo com um homem.

Pausa longa

B (Acendendo um cigarro, lentíssimamente.) — E... isso te dói?

A — Absolutamente. Eu acho que.

 

DIÁLOGO 5

 

A — Não consigo aceitar essa mudança. Para mim, ele continuará sendo sempre aquele menino recém-chegado de Florença.

B — “Life is a tale told by an idiot full of sound and fury”. (Shakespeare.)

A — Não consigo. Aceitar essa mudança... Para mim, ele continuará sendo — sempre — aquele menino recém-chegado de Florença.

B — “There will be time. There will be time. Time for me and time for you. Time for visions and revisions. Time for a hundred indecisions”. (T.S. Eliot)

A — Eu não consigo, não consigo — não consigo aceitar essa... essa... mudança. Para mim... não sei... para mim... não sei... para mim, ele continuará sendo aquele menino recém chegado de Florença...

B — “I'am too pure for you or anyone. Your body hurst me as the world hurst me as the world hurst god”. (Sylvia Plath)

A — Estou tentando... estou tentando, mas não consigo... eu não consigo... essa mudança... Florença... para mim... eu não consigo... aquele menino...

B — “Amor de mis entrañas: viva muerte” (Pausa.) “Amor de mis entrañas: viva muerte”. (Pausa.) “Amor de mis entrañas: viva...” (García Lorca)

A (Cortando.) — Estou tentando... estou tateando... estou tonteando... estou turvando... estou torvelinhando... estou atordoando...

B — “Somenthing between Macondo and venice”.

Nota — A continua fazendo variações (que podem ser improvisadas ao infinito em torno de tentar-tatear-tontear-etc.) enquanto B repete sempre a última frase.