Teatro Completo
Cenas Avulsas
DIÁLOGO 1
A — Você é meu companheiro.
B — Hein?
A — Você é meu companheiro, eu disse.
B — O quê?
A — Eu disse que você é meu companheiro.
B — O que é que você quer dizer com isso?
A — Eu quero dizer que você é meu companheiro. S6 isso.
B — Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A — Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B — Não é disso que estou falando.
A — Você está falando do quê, então?
B — Eu estou falando disso que você falou agora.
A — Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B — Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A — Você também sente?
B — O quê?
A — Que você é meu companheiro?
B — Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A — Atrás do companheiro?
B — É.
A — Não.
B — Você não sente?
A — Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B — Não. Não é isso. Não é assim.
A — Você não quer que seja isso assim?
B — Não é que eu não queira: é que não é.
A — Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B — Agora não?
A — Agora sim. Você quer?
B — O quê?
A — Ser meu companheiro.
B — Ser teu companheiro?
A — É
B — Companheiro?
A — Sim.
B — Eu não sei. Por favor, não me confunda. No começo era claro.
Tem alguma coisa atrás, você não vê?
A — Eu vejo. Eu quero.
B — O quê?
A — Que você seja meu companheiro.
B — Hein?
A — Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B — O quê?
A — Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B — Você disse?
A — Eu disse?
B — Não. Não foi assim: eu disse.
A — O quê?
B — Você é meu companheiro.
A — Hein?
(Ad infinitum)
DIÁLOGO 2
A — Sinto-me tão nítido que quase posso tocar em mim.
B — A ração básica custa setenta por cento do salário mínimo.
A — Maduro como um fruto. Sazonando, não é assim? Pronto para ser colhido.
B — O índice de mortalidade infantil aumentou em trinta por cento.
A — Broto para fora, para longe. O que definitiva e realmente sou ameaça rebentar as janelas.
B — A temperatura ambiente é de vinte graus centígrados e dois décimos.
DIÁLOGO 3
A — Uma vez, bem no meio da ponte do Guaíba, você falou que a gente podia alugar um apartamento em Moinhos de Vento.
B — A gente?
A — É. Nós dois. Eu e você B — Ah. Mas já faz tempo.
A — Muito tempo, você acha?
B — Isso é uma questão real ou simbólica?
A — Como assim?
A — Quero dizer: Você quer uma resposta alegórica ou realista?
B — Realista?! Como?
C — Realista no sentido de não ter subtexto, entende? Quero dizer: eu dizer que acho que faz muito tempo porque se passou, suponhamos, um mas. E a partir disso, eu...
A (Cortando.) — Mas você lembra?
B — Suponhamos que sim.
A — Esse “suponhamos” é real ou (irônico) alegórico?
B — “Entre les deux, mon coéur vomitte”.
A — O que?
B — Quero dizer que...
A (Cortando.) — Você acha que um mês é um tempo significativo?
B — Significativo em que termos?
A — Me passa o vinho.
DIÁLOGO 4
O Aborto
A — Mas afinal, por que é que você não me disse que estava grávida?
B — Eu tentei, porra.
A — Acontece que você não tinha o direito de fazer este maldito aborto sem me consultar antes. Afinal de contas, cinqüenta por cento da cria era minha, não era?
B — Mas eu já disse que tentei te dizer, porra.
A — Tentou! Tentou como? Aquela vez que você me disse que tava grávida menos de um dia depois que a gente tinha trepado?
B — Você não acreditou...
A — Mas eu podia acreditar? Menos de um dia, porra. É completamente impossível alguém saber tão rápido. E humanamente impossível qualquer pessoa saber. Nem que fosse médium....
B — Não fica agressivo comigo, cara...
A — Agressivo? Ah, meu bem, nem que você tivesse superpoderes... Nem que fosse a Mulher Maravilha...
B — Uma mulher sempre sabe...
A — Sabe merda nenhuma. Não me venha com esses superpoderes feminóides.
B — Sabe na hora, cara. Sabe sempre. Sabe o tempo todo. No minuto exato em que você põe o pau lá dentro, tá sabendo? Na hora de baixar a calcinha. No segundo em que eu botei o olho em ti, cara.
A — Não força.
B — Como, não força? E já que a gente tá falando nessas coisas tão íntimas, meu querido, tem uma pergunta que há horas eu tou querendo te fazer. Me responde uma coisa: por que é que você sempre trepa de olhos fechados?
A (Lento.) — Você quer saber? Você quer saber mesmo?
B — Quero saber tudo. (Articulando as palavras.) Por que é que você sempre trepa de olhos fechados?
A (Lento.) — Porque é o único jeito de imaginar que eu tou fodendo com um homem.
Pausa longa
B (Acendendo um cigarro, lentíssimamente.) — E... isso te dói?
A — Absolutamente. Eu acho que.
DIÁLOGO 5
A — Não consigo aceitar essa mudança. Para mim, ele continuará sendo sempre aquele menino recém-chegado de Florença.
B — “Life is a tale told by an idiot full of sound and fury”. (Shakespeare.)
A — Não consigo. Aceitar essa mudança... Para mim, ele continuará sendo — sempre — aquele menino recém-chegado de Florença.
B — “There will be time. There will be time. Time for me and time for you. Time for visions and revisions. Time for a hundred indecisions”. (T.S. Eliot)
A — Eu não consigo, não consigo — não consigo aceitar essa... essa... mudança. Para mim... não sei... para mim... não sei... para mim, ele continuará sendo aquele menino recém chegado de Florença...
B — “I'am too pure for you or anyone. Your body hurst me as the world hurst me as the world hurst god”. (Sylvia Plath)
A — Estou tentando... estou tentando, mas não consigo... eu não consigo... essa mudança... Florença... para mim... eu não consigo... aquele menino...
B — “Amor de mis entrañas: viva muerte” (Pausa.) “Amor de mis entrañas: viva muerte”. (Pausa.) “Amor de mis entrañas: viva...” (García Lorca)
A (Cortando.) — Estou tentando... estou tateando... estou tonteando... estou turvando... estou torvelinhando... estou atordoando...
B — “Somenthing between Macondo and venice”.
Nota — A continua fazendo variações (que podem ser improvisadas ao infinito em torno de tentar-tatear-tontear-etc.) enquanto B repete sempre a última frase.