Teatro Completo
Zona Contaminada
Com édia negra em 1 Ato
Para Scarlet Moon Chevalier,
que me fez escrever e me ajuda a viver,
com gratidão e amizade.
PERSONAGENS
VERA, entre 25/35 anos. Forte, rude, decidida. Imagino-a com roupas de guerrilheira, cartucheiras tramadas no peito, um fuzil, cantil, talvez chapéu estilo cowboy. Mas também a imagino toda de couro negro, cabelos muito curtos, enriçados, descoloridos. De qualquer forma, seu visual deve dar a idéia exata do que ela fundamentalmente é: uma guerreira. Iansâ de frente.
CARMEM, irmã de Vera, mais ou menos da mesma idade, mas o oposto dela. Roupas leves, esvoaçantes — tule, musselina, seda. Visual um tanto pré-rafaelita, um tanto gótica (meio morta-viva). Anda descalça, cabelos que imagino longos sempre soltos. Talvez use coroas de flores, pulseiras. Oxum de frente.
MR. NOSTÁLGIO, homem de idade indefinida, quase um clown. Maquiagem muito branca, cravo vermelho na lapela, luvas brancas, smoking impecável, talvez polainas e uma bengala. Imagino que fala às vezes com sotaque lusitano. Também pode ser feito por uma atriz.
NOSTRADAMUS PEREIRA, é um D. J. de qualquer idade, multo agitado. Pode também usar roupas no estilo grunge (boné virado, bermudão, camisetona), quanto fantasias tipo Chacrinha. Fica a critério do diretor. Enquanto fala — talvez ritmadamente, como um rapper —, dança e se agita muito. Talvez tenha um auto-falante e um walk-man, quem sabe também muitos bottons.
HOMEM DE CALMARITÁ, por volta de 30 anos. Forte e musculoso, gostosíssimo, mas castigado. Está coberto de trapos que deixam entrever nesgas de carne, músculos, pelos. E da maior importância que passe uma impressão de irresistível sensualidade, bem animal.
CORO DOS CONTAMINADOS, fica a critério do diretor incluí-lo ou não, mas acho que seria ótimo. Imagino alguns bailarinos — uns cinco ou mais, homens e mulheres — cobertos de farrapos e chagas. Eles geralmente acompanham as emissões de Nostradamus, mas também podem participar de outras ações, sempre coreografados. Seu texto, como um coral, limita-se ao refrão das Litânias de Satã, de Baudelaire (“Tem piedade, Satã, desta longa miséria!”.) ou eventualmente algum mote tipo: Atotô, Obalua, atotô! (“Livrai-nos de nossas chagas!, Compadecei-vos de nossas feridas!”.) Algumas de suas intervenções estão sugeridas no texto, mas o diretor é livre para criar outras e também para eliminá-las.
CENÁRIO
Basicamente, o interior de uma loja funerária que sofreu um incêndio. Entre escombros, portanto, há coroas de flores metálicas, caixões, ex-votos, tralhas do gênero. Tudo pode ser apenas sugerido, mas é fundamental pelo menos um caixão à vista (a cama de Carmem).
Esse espaço pode ser chamado Plano Real, é nele que acontece a maior parte da ação. Em nível diferente, mais alto, ou num canto do palco (penso nele um pouco mais alto.), fica o Plano Alfa. Imagino-o completamente branco, ou preto, ou violeta — mas de qualquer forma, de cor contrastante com Plano anterior. Noutro canto, da mesma maneira que o anterior, fica o Plano da Nostalgia. Penso em sépia ou bege, ou um biombo recoberto de papel de parede estilo inglês. Há nele uma poltrona bergère, uma cadeira de balanço ou recamier, se o diretor quiser também uma mesinha com abajur art-nouveau em cima. Mr. Nostálgio é muito, muito chique. Há ainda um quarto espaço — o Plano Mídia — onde fica Nostradamus Pereira. Dependendo das possibilidades do palco e do diretor, esse plano pode ser um praticável levadiço ou nem sequer existir. Nesse caso, Nostradamus move-se por todo o palco, invade todos os espaços, sempre seguidos pelo Coro dos Contaminados (se houver.), que faz backing-vocal e repete como um eco coisas que ele diz.
Outras indicações/sugestões: 1. Dependendo do tipo de teatro, os vários Planos podem ficar fora do palco. Nesse caso, o espectador ficaria cercado pelo espetáculo, com várias cenas acontecendo simultânea e vertiginosamente. 2. Nostradamus Pereira intercala música em seu texto. As citadas são apenas sugestões do autor. 3. No Plano Mídia pode haver um telão, exibindo eventualmente cenas de Grande Catástrofe ou ruas desertas, montanhas de lixos. O diretor fica livre para pirar, dos horrores dos campos de concentração nazistas, passando pela Talidomida, explosões nucleares (um bom cogumelo atômico), vírus (dá-lhe HIV!) ampliados, flores carnívoras, etc. Enfim, Zona Contaminada em nenhum momento se pretende um texto pronto. Pode ser tanto uma comédia de humor negro, modesta, ou um espetáculo alucinado. Depende do diretor, da produção, do espaço disponível. Também quero deixar bem claro que o texto está aberto às improvisações dos atores, sobretudo o de Nostradamus Pereira.
CENA 1
Palco totalmente escuro. Aos poucos, exatamente como se amanhecesse, a luz vai crescendo lentíssimamente. No Plano da Nostalgia, sentado em sua bergère, como se dormisse, ou abanando-se suavemente com um leque, estilo nostálgico. No Plano Mídia, Nostradamus Pereira dança loucamente com um walk-man, cujo som a platéia não ouve. No Plano Alfa, magnífico e seminu esta o Homem de Calmaritá. Ele acaricia sensualmente o próprio corpo, passa a mão entre as coxas, geme, apalpa os mamilos como numa masturbação não exclusivamente genital. No Plano Real, continua a treva. Nada se vê.
CENA 2
HOMEM DE CALMARITÁ (Continuando a acariciar-se.) — Ah vem, mata a minha sede. Por piedade, mata a minha sede que já dura há tantos anos. Aqui, põe a tua língua aqui. Assim. Mais para a esquerda, como antigamente. Como antes da Grande Peste, me morde, me arranha, me rasga. E me toca. Com os dedos, por favor, com os dedos. Bem fundo. Eu quero ficar todo melado dentro de ti. (Subitamente para, como se ouvisse ruídos. Em voz baixa.) Quem está aí? Tem alguém aí? (A parte.) Maldição, deve ser algum contaminado. Preciso me esconder. (Procura com os olhos, dobra-se todo de cócoras, num canto, e fica imóvel.)
VERA (Entrando, o fuzil nas mãos, falando alto, ameaçadora.) — Quem está aí? Tem alguém aí? (Procura.) Maldição, deve ser algum contaminado. Preciso matá-lo. (Aos gritos.) Sai daí, besta imunda! Mostra tua cara purulenta, verme do Apocalipse!
HOMEM DE CALMARITÁ (Saltando sobre Vera.) — Aqui, olha bem. Aqui esta minha cara, contaminada dos infernos.
VERA (Debatendo-se.) — Me larga, eu não estou contaminada! Não me toca, não me passa a tua peste.
HOMEM (Joga-a no chão, domina-a.) — Todos dizem a mesma coisa. Deixa ver essa carinha. Hum... é verdade, não tem nenhuma mancha. Nenhuma ferida. Bom, isso não prova nada. A Peste deve estar em seus estágios iniciais. No começo não se nota nada. Deixa ver esses peitos... (Rasga a roupa de Vera, que continua a gritar e a debater-se.) Essa barriguinha... Nossa, parece perfeita.
VERA — Eu estou perfeita! Me larga, eu não quero, me deixa.
HOMEM — Sinto muito, meu bem. Não acredito em você Preciso salvar a minha pele. Vai ter que ser do jeito mais prudente, então. (Vera continua a gritar. O Homem a amarra pelos pulsos e tornozelos, amordaça-a — tudo com trapos que arranca da própria roupa. É um estupro. Vera debate-se como pode. O Homem então tira um par de luvas de borracha de algum lugar, veste-as e começa a lubrificá-las lentamente. Ergue as mãos para o alto. Luz somente nas mãos enluvadas do Homem, tempo suficiente para que Vera saia debaixo dele e desça para o Plano Real. A medida então que a luz diminui no Plano Alfa, aumenta no Plano Real.)
CENA 3
VERA (Espreguiçando-se, deitada num sleeping-bag.) — Amanheceu outra vez. Droga, outra vez aquele sonho. Tão bom... Ah, que homem. Tão forte. Tão duro. Tesão e fome, todo dia a mesma coisa. Nunca sei o que acontece primeiro. A fome começa aqui (apalpa o estômago), parece um buraco fundo. E vai subindo, subindo devagar. Depois aperta a garganta e seca na boca. Como areia. Então arde, arde tanto, como arde. Fome e tesão. Nunca sei qual o mais forte. O tesão começa aqui. (Apalpa o sexo.) Amolece, umedece, entorpece e vai subindo também, subindo. (Acaricia os seios.) Faz uma volta redonda, bem nos bicos dos meus seios, devagarinho, até deixá-los duros, rijos, de pedra. Dois pregos fincados no espaço. Depois arde, arde tanto, como arde.
CARMEM (Abrindo a tampa de um caixão de defunto, cantarola.) — Bom dia, dia! Bom dia, alegria! Bom dia, sal! Bom dia, sul! Bom dia, sol!
VERA — Não existe mais sol. As nuvens radioativas cobriram tudo, meu bem.
CARMEM (Saindo do caixão.) — Imagina. De alguma forma, por trás das nuvens, em algum lugar do infinito, deve continuar existindo aquele mesmo sol. Imenso, amarelo, redondo, quente.
VERA — Tão quente que faz a pele da gente ficar cheia de feridas que não cicatrizam nunca.
CARMEM — Era uma vez uma irmãzinha que acordava todo dia num mau-humor horroroso... Verinha, Verinha. Você continua a mesma, desde criança. Ainda bem que estou acostumada.
VERA — Aqui e agora, eu odeio estar viva aqui e agora.
CARMEM — Sei, sei, sei. Mas depois de um bom café qualquer um muda de idéia. Que tal um cafezinho bem quentinho e uma geleiazinha de moranguinhos num pãozinho bem fresquinho para adoçar o nosso diazinho que começa a tão azedinho?
VERA — Ai Carmenzinha, como você é idiotinha...
CARMEM (Fingindo não ouvir.) — Então, o que é que temos para o nosso petit dejéneur? Bon jour, madame! Une baguette de campagne, s’il vous plat! Merci o beaucoup, belle journée!
VERA — Nem baguete nem salete: os víveres acabaram.
CARMEM (Bem british.) — I beg your pardon?
VERA (Soletrando.) — A-ca-ba-ram. Necas de pitibiriba. O rango c’est fini. Kapput.
CARMEM — Não é possível.
VERA — Não ficou picas. Nem um grão-de-bico.
CARMEM — Mas a semana passada você trouxe tanta coisa. Salmão, caviar, anchovas daquele supermercado chiquérrimo. O que aconteceu?
VERA — Você come demais, querida. Já olhou a sua bunda? (Pega o fuzil.) Tudo bem, vou sair pra buscar mais. Supermercado abandonado é o que não falta.
CARMEM — Você vai me deixar outra vez sozinha aqui? Ah, Vera, a última vez foi horrível. Você demorou horas, cheguei até a pensar que eles tinham apanhado você, e que logo viriam me pegar também, e que nós estávamos perdidas, e que.
VERA (Cortando.) — Você pensa muita bobagem. Afinal, você sabe perfeitamente que se eles me pegarem eu não vou dizer nada. Podem me matar, ou me contaminar, o que é pior, mas eu não digo nada.
CARMEM — Não quero ficar sozinha aqui.
VERA — Então vem comigo.
CARMEM — Deus me livre.
VERA — Por quê? Vamos nós duas juntas. Por que é que tem que ser sempre eu, enquanto você fica aí no bem bom, delirando dentro desse caixão medonho?
CARMEM — Não fale assim do meu caixão. Ele é todo acetinado. E além disso você sabe muito bem que só estou tentando me acostumar com a idéia da morte. E assim uma espécie de... laboratório.
VERA — Laboratório? Só se for de cientista louca. Pois eu estou tentando me acostumar com a idéia da vida. Ou do que sobrou dela. A idéia da morte... como você é tola. Vem comigo, só uma vez. Vamos ver a cidade. Ou o que restou da cidade, meu bem. Não existe nada mais morto do que as coisas lá do lado de fora.
CARMEM — Eu já vi o suficiente.
VERA — O horror nunca é suficiente.
CARMEM — Para mim é, para mim já bastou. Eu tenho medo. As ruas, você sabe, as ruas estão cheias daquelas pessoas, você sabe, aquelas pessoas...
VERA — Os contaminados.
CARMEM — Pois é, eu não quero ver. Não quero nem dizer o nome.
VERA — Mas não tem quase mais nenhum deles vivos, Carmem. Ninguém resiste muito tempo. Da última vez só vi uns dois ou três escondidos num beco. Amontoados no chão, enrolados nuns trapos, fedendo, cheios de pus. Pareciam uns cães sarnentos.
CARMEM — Pobrezinhos, devem sofrer tanto. Não dói, só da gente ver?
VERA — Mas você não v quase nada. Você só sente o cheiro. Um cheiro adocicado de lixo. Um cheiro nojento, penetrante. Não adianta nada tapar o nariz. Aquele cheiro fura qualquer pano, atravessa qualquer parede. Empesta tudo, aquele cheiro podre perdido no meio dos destroços. Ruína, podridão: foi isso o que sobrou.
CARMEM (Fingindo não ouvir.) — Um figo seco, um biscoito, qualquer coisa.
Estou com tanta fome. Não ficou mesmo nada por aí?
VERA (Tirando um pão do bolso.) — Tem esse resto de pão. Foi só o que sobrou.
(Atira-o para Carmem.)
CARMEM (Apanhando o pão.) — Que lindo! Uma côdea, não era assim que se dizia nos livros? Graças a Deus, eu tenho fé que Ele não vai nos abandonar.
VERA — Já abandonou, honey.
CARMEM — Quer um pedacinho?
VERA — Pão velho, duro, seco.
CARMEM — Não fale assim do corpo de Cristo. É pecado.
VERA — Como se a gente fosse rato. Eu e você, duas ratazanas famintas enfiadas nesta toca imunda.
CARMEM — Não fale assim do nosso lar. É sacrilégio.
VERA — É melhor eu ir andando. Quanto mais cedo, mais nados têm horror à luz do sol.
CARMEM — Mas você mesma disse que não tem mais sol, irmã!
VERA — Sol? Tem razão. Na verdade, quando digo “sol”, eu quero dizer o sapo do inferno que ainda conseguem furar as nuvens de chumbo. Esse mormaço branco, viscoso, que rói a pele da gente. A luz diabólica que mata todas as malditas criaturas que insistem em continuar vivas, inclusive nós.
CENA 4
Nesse momento entra um ruído eletrônico fortíssimo. Carmem e Vera estatizam, Vera com o fuzil, Carmem com o pedaço de pão estendido para Vera. Luz sobre o Plano Mídia, onde está Nostradamus Pereira.
NOSTRADAMUS — E é cinco, um brinco. É quatro, que simulacro. É três, virou freguês. E dois, lá vem os bois. E um, um bum, é zero, é lero: Bom dia, queridos sobreviventes da Grande Catástrofe! Aqui quem fala é o seu repórter Nostradamus Pereira, porta-voz oficial do Comissariado do Poder Central, ao alvorecer da manhã do septuagésimo dia do Décimo Terceiro Ano da Peste, em sua primeira transmissão de hoje. E atenção, atenção, muita atenção! Durante a madrugada passada o sobrevivente identificado pelo número 200 1-KBeta-S-B-03 procurou o Centro de Denúncias da minha, da sua, da nossa Zona Contaminada, garantindo ter informaçoes fresquinhas sobre o paradeiro das Sisters Salvadoras. Segundo ele, as fugitivas estariam ocultas num porão ao sul do Boulevard Césio 90. Batalhões armados até os dentes cercaram a área, mas as duas Sisters não foram localizadas. Mais tarde constatou-se — ouça! ouça! — estar o Sobrevivente 2001 de tal sofrendo das terríveis alucinações características do Estágio D da contaminação. Conte à mina, ação!
VERA — Saco. Sempre a mesma história. Eles não vão nos encontrar nunca.
CARMEM — Se Deus quiser, irmãzinha. (Tentando mudar de assunto.) Acho que aqui ainda deve ter um pouco daquele café de ontem. Onde foi que eu deixei? Estava aqui, no meio daquela pilha de Vanity Fair que você trouxe outro dia. (Encontra uma garrafa térmica, serve Vera.) Está muito frio, querida?
VERA — Frio, fraco e fedorento. Mas tudo bem.
As duas ficam bebendo café em silêncio, enquanto prossegue a transmissão de Nostradamus.
NOSTRADAMUS — Como todos vocês estão cansados de saber, após a Grande Catástrofe, por um fenomenal fenômeno fescenino as irmãs Carmem e Vera são as únicas mulheres sobreviventes ainda com seus úteros em perfeitas condições de funcionamento, e portanto as únicas mulheres vivas capazes de evitar, através da procriação, a completa extinção da humanidade. Além disso, cientistas especulam da possibilidade da criação de uma nova espécie de mutantes, resultante do cruzamento de uma ou ambas as fugitivas Sisters com algum contaminado. Toda a cidade está cercada, todas as ruas vigiadas, todas as saídas controladas. (Volta o ruído eletrônico enquanto a voz de Nostradamus vai desaparecendo.) Qualquer informação sobre Carmem e Vera, as Sisters Salvadoras, será regiamente recompensada pelo Poder Central. Eu disse regiamente, maravilhosamente, generosamente, abundantemente, mente, mente. Vocês ouviram o seu repórter Nostradamus Pereira, em sua primeira transmissão diária. E agora fiquem com outro hit dos velhos bons tempos anteriores à Grande Catástrofe. Com vocês, a deusa do fin-de-siécle passado: Ma-don-na, The Big Bitch. Dá-lhe, vacona! (Entra Material Girl, Like a Virgin ou algo assim.)
CENA 5
CARMEM (Erguendo o pão seco em direção ao alto, litúrgica.) — Corpo de Cristo, oh doce e sagrado Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, derramai sobre nós Vossas sagradas bençãos. (Benze-se com o pão.) Em nome do Pai, do Filho, do Esp...
VERA (Cortando.) — Caralho! Não me pegarão com vida. Eu me recuso, ouviu? Eu me recuso a entregar meu corpo para esses monstros. Prefiro morrer de fome.
CARMEM — Os desígnios de Deus são insondáveis, querida.
VERA — Pare de me chamar de querida, querida.
CARMEM — Às vezes acho que seria mais fácil se a gente se entregasse logo, queri.
VERA — Para fazer um filho com um desses monstros sobreviventes? Um filho monstro, também? Pois eu não. No que depender de mim, a humanidade acabou. Foda-se a raça humana. Entregue-se você, se quiser. Na melhor das hipóteses, viro tia de um monstrinho bem nojentinho.
CARMEM — Que amor!
VERA — Às vezes eu acho que você ficou completamente louca.
(Pega o fuzil, decidida.) Chega de bobagem. Eu volto logo. (Vai saindo. Pára e apanha um par de luvas de borracha.)
CARMEM — Vera, volte aqui. Não me deixe sozinha pelo amor de Deus!
VERA (Vestindo as luvas, lentamente.) — Calma, querida. Fala baixo, você quer que eles nos encontrem? Fica em paz, fica calma. Dorme, sonha. Aproveita. Eu também vou aproveitar, pode ter certeza.
(Sai.)
CARMEM — Não esquece de trazer a gasolina! E vê se encontra aquela biografia da Lady Di! (A parte.) Coitadinha, dizem que foi das primeiras a ser contaminada. Ah, eu também queria uns bombons. E batom, e esmalte. Meu Deus, eu esqueci do esmalte...
CENA 6
Enquanto Carmem fala sozinha, enumerando futilidades, acende-se a luz no Plano da Nostalgia. Mr. Nostálgio está: parado, com uma rosa vermelha nas mãos estendidas para Carmem.
CARMEM (Chorosa, dá voltas pelo palco. Pega um espanador de penas, espana o caixão, fecha a tampa e coloca uma coroa de flores em cima. Senta-se no centro do palco com o pedaço de pão nas mãos.) — Bendita seja a sagrada refeição que me dais hoje, Senhor. Em vossas divinas mãos entrego meu destino, seja ele qual for. Imploro-vos de rastros que perdoe minha irmã Vera — ela não sabe o que faz e sem sua força e proteção, ainda que tivesse todo o ouro do mundo eu nada seria. Aroboboi, Oxumaré, aroboboi! Ave Maria, cheia de graça, se eu gritasse, quem na legião dos anjos escutaria meu grito? Vida, doçura e esperança nossa. Salve Rainha, mãe de misericórdia — eparrêi, lansã! — o fruto de vosso ventre Jesus. Orai, minha mãe Oxum! Por ti rogamos, por ti imploramos neste vale de lágrimas amargas de Petra von Kant.
Enquanto Carmem reza (a atriz pode improvisar à vontade), Mr. Nostálgio aproxima-se cada vez mais. Ao fundo, sobem os acordes de alguma valsa bem conhecida, Ondas do Danóbio, Desde L’Alma ou algo assim.
CARMEM — E no sétimo dia sete anjos desceram de suas sete casas, sete moradas, com suas sete espadas de fogo, e em nome do Senhor proclamaram aos sete ventos, sete moradas, que se fizesse silencio por todos os cantos crestados desta terra calcinada por sete carcinomas cancerígenos, oh vale lamacento do Estige...
NOSTÁLGIO (Curvando-se, muito formal) — A senhorita dar-meia a honra desta contradança?
CARMEM — Falou comigo, cavalheiro?
NOSTÁLGIO — Pois evidente que sim. Dar-me-ia a honra da contradança, gentil donzela?
CARMEM — A honra é toda minha, ilustre mancebo.
NOSTÁLGIO (Oferecendo a rosa.) — Aceite, como singela prenda de minha ardente admiração e afeto. Uma modesta rosa para enfeitar a suprema rainha de todas as flores.
CARMEM — Que exagero, garboso jovem. (Coloca a rosa nos cabelos.) Mas aceito vossa prenda, embora ainda não saiba sua graça.
NOSTÁLGIO (Enlaçando-a, começam a dançar.) — Nostálgio, a senhorita pode chamar-me assim. Alguns preferem Nos, outros apenas Gio. Mas prefiro Mr. Nostálgio. Um criado seu, obrigado. E vossa merca, se indiscrição não o fora?
CARMEM — Apenas Carmem. Tout-court. Duas sílabas crocantes: Car e Mem.
NOSTÁLGIO — Nome de cigana... Oblíqua, dissimulada.
CARMEM (Muito coquete.) — Cigana eu, nobre senhor? Nada tenho de cruéis dissímulos, podeis crer. Ao contrário, fui, sou e sempre serei a mais sincera dentre todas as donzelas.
NOSTÁLGIO — Ah, doce e fatal veneno que a um só tempo mata e embriaga: teu nome sempre será Mulher...
CARMEM — Mas deixemos de lisonjas, cavalheiro. Quem é mesmo o senhor?
NOSTÁLGIO — Sou aquilo que foi, e não volta. Tudo aquilo que persiste no coração dos mortais, apesar das guerras, das pestes. Sou o que resta na memória, além da passagem vertiginosa e implacável do Tempo.
CARMEM — Que romântico!
NOSTÁLGIO — Sou o jardim de um sobrado de subúrbio, coberto por todas as cores de todas as flores recém desabrochadas. Sou a praia deserta varrida pelo vento nas noites de lua cheia.
CARMEM — Sois tantas coisas belas, senhor...
NOSTÁLGIO — Sou o bolero eternamente vivo na lembrança dos velhos enamorados.
CARMEM (Cantarolando.) — “Acuerdáte en Acapulco, de
aquellas noches, Maria bonita, Maria del alma...”
NOSTÁLGIO — Sou o perfume no vale entre os seios da bemamada.
CARMEM — Poison! Eternity! And last but not least: Chanel número 5!
NOSTÁLGIO — Sou o suspiro.
CARMEM — Ai!
NOSTÁLGIO — A pérola.
CARMEM — Autentica.
NOSTÁLGIO — A orquídea, a ametista, o sândalo, o arquipélago.
CARMEM — A ametista, o sândalo, o arquipélago. (Valsam, enlevados, até que ela o empurra bruscamente.) E eu, quem sou eu? Não sou nada, seu idiota. Não passo de uma desgraçada que nada tem de seu além de um sonho falso. (A valsa para bruscamente.)
NOSTÁLGIO — Calma, senhorita! Vosso ânimo arrefeceu tão súbito... Qu’est que se passe, mon bijou?
CARMEM (Em transe, recitando Fernando Pessoa.) — “É o dia... Vêde, vêde, é dia já. Fazei tudo por reparardes só no dia, no dia real, ali fora... Vêde-o, vêde-o...” Não consigo esquecer aquele dia. Por mais que o tempo passe, eu não consigo. (Noutro tom.) Mas venha, venha. Não podemos perder tempo. Ah, enlace-me como antes. Vamos continuar dançando. Dançando sobre as cinzas de tudo. Venha, vamos valsar entre as ruínas. A valsa continua, a valsa não pode parar! (Ri como se estivesse bêbada.) Música, maestro! “Dai-me mais vinho, porque a vida é nada!” (Tenta cantarolar, enquanto puxa um relutante Nostálgio.) Tamtara-ram-tara-ram... Dance comigo, voe comigo! Tam-tara-ram-tararam-ra-ram...
CENA 7
Grotescos, patéticos, Carmem e Mr. Nostálgio tentam dançar sem música.
Carmem esbarra em coisas, ri muito, descontrolada. Enquanto isso, acende-se a luz no Plano Alfa, onde pode-se ver Vera com o fuzil na mão.
Carmem e Nostálgio ficam estáticos
VERA — Quem está aí? Responde, senão atiro (Engatilha o fuzil, aponta.) Vamos, responde logo. Eu sei que tem alguém aí. (Cautelosa.) E você? Responde logo, senão atiro.
HOMEM DE CALMARITÁ (Aparece subitamente, segura-a por trás.) — Claro que sou eu, meu amor. Não sentiu o meu cheiro?
VERA — Não me toque.
HOMEM — Que é isso? Por que não? É tão bom sempre. Você gosta, eu gosto. Vem cá, deixa disso.
VERA — Estive pensando, é melhor acabar logo com tudo.
HOMEM (Tirando o fuzil das mãos dela.) — O que? Você quer acabar com a única coisa que nós temos? Ora, garota, nós não temos nada, você e eu, além de nós mesmos. Nenhuma esperança, nenhum futuro. Nós só temos hoje e medo.
VERA — Agora e terror.
HOMEM — The horror... The horror...
VERA — Tesão e fome.
HOMEM — Isso. Tesão e fome, ao mesmo tempo. Vem cá, deixa eu comer você. Deixa eu matar minha fome.
VERA — Não! Hoje é a última vez que nos encontramos.
HOMEM (Acariciando-a, ela começa a ceder.) — Não diga isso. Foi um verdadeiro milagre a gente ter se encontrado. Você não tem o direito de jogar isso fora.
VERA — Você é tão belo.., tão forte... Não sei o que seria de mim se você não tivesse aparecido. Mas eu tenho uma intuição estranha... como uma certeza... uma certeza absurda que você vai me trair. (Afastao.) Vai embora, eu não posso confiar em você. E muito perigoso.
HOMEM — Não há perigo nenhum, garota. Nós não estamos contaminados. Sou um sobrevivente sadio, como você. Existem poucos iguais a nós. Estamos em extinção, você sabe. Temos que aproveitar. Vem cá. Deita aqui comigo, vem.
VERA (Louca de tesão.) — Maldito macho... E maldita a fenda entre minhas coxas que precisa do teu falo. (Agarra-se nele.) O teu cheiro, meu Deus, que loucura, eu tinha quase esquecido do teu cheiro. (Cheira-o por todo o corpo.) Aqui, embaixo do braço. Na curva do pescoço, nas virilhas. Teu cheiro fica grudado na minha pele quando a gente se separa. Dois, três dias, ele fica lá, guardado nas minhas dobras, secreto. Só eu posso sentir. E mesmo depois, quando parece que passa, porque não passa, continua aqui. (Começa a vestir as luvas de borracha.) Bem na ponta dos meus dedos.
HOMEM — Eu sabia. Não é verdade que você não me quer.
VERA — Claro que não é verdade. Claro que tudo é mentira. Vem, não se pode viver sem amor. Vem, me morde. Me machuca. Devagar. Me lambe.
A luz diminui um pouco no Plano Alfa, enquanto Vera e o Homem se abraçam com muitos gemidos. Ao mesmo tempo, a luz vai aumentando no Plano Real, onde Carmem e Mr. Nostálgio tentam valsar sem música.
CARMEM — Os cristais retinindo!
NOSTÁLGIO — O champanhe derramado sobre as rendas!
CARMEM — Çá vá! Ça vá!
No Plano Alfa:
HOMEM — Como você é gostosa.
VERA — Quero sentir o teu peso.
HOMEM — Deixa eu entrar em você
VERA — Não esquece as luvas.
HOMEM (Começa a vestir as luvas de borracha.) — Não, meu amor, não esqueço nada.
VERA — Pela última vez.
HOMEM — Nada nunca será a última vez entre nós.
VERA — A última, sim. Melhor que a prime. Mais fundo que todas.
HOMEM — Nunca, nada. Vamos ficar assim para sempre.
VERA — Repete, repete comigo: para sempre.
HOMEM (Erguendo as mãos com as luvas de borracha.) — Para sempre.
CENA 8
Os gemidos de Vera e do Homem — obscenos como os de um vídeo pornô — vão diminuindo de intensidade. Os dois voltam à obscuridade enquanto Carmem e Nostálgio continuam a rodopiar no Plano Real, mas sem música.
NOSTÁLGIO — Valsemos, minha musa. Valsemos, minha bela. As valsas não morrem nunca.
CARMEM (Deixa-se levar um pouco, depois o empurra.) — Para com isso! Chega, me deixa em paz.
NOSTÁLGIO — Sou os pares enlaçados no centro do salão, a rodopiar vertiginosamente no ritmo da fantasia.
CARMEM (Agressiva, tentando desvencilhar-se.) — Você não é nada, você não passa de um boneco de cera com voz de fita cassete!
NOSTÁLGIO (Soltando-a e falando mecanicamente.) — Sou o ramo de miosótis esquecido entre as páginas amareladas de um livro de sonetos antigos.
CARMEM — Você é um robô ridículo. Fora daqui!
NOSTÁLGIO — O verso póstumo na algibeira do poeta suicida, ainda morno de seu coração.
CARMEM (Aos gritos.) — Um manequim, isso é o que você é! Um manequim de gesso pintado!
NOSTÁLGIO (Afastando-se, cada vez mais longe.) — O suavíssimo pulsar da andorinha peregrina, ferida em pleno vôo.
CENA 9
Volta luz tênue no Plano Alfa. O diálogo de Vera e do Homem entremeia o de Carmem e Nostálgio no Plano Real.
VERA — Mais fundo, mais longe. Assim, meu amor.
HOMEM — Como você gosta. Onde você gosta.
VERA — Aqui, assim. Devagar, por favor, devagar.
HOMEM — Vem comigo, meu amor.
VERA — Agora mais forte. Agora, agora. Não pára.
HOMEM — Junto comigo. Vem que eu te espero.
VERA — Estou indo. Estou indo.
No Plano Real:
CARMEM — Era de tarde, acho que era de tarde. E devia ser abril, tenho quase certeza. Tinha que ser em abril, o mais cruel dos meses. Sei que era abril porque as folhas começavam a amarelar nos plátanos da rua. Naquela tarde, naquele tempo. Nós estávamos no porão da casa. Eu olhava fotografias de um álbum antigo, minha irmã Vera preparava um vestido novo para a festa daquela noite. Eu não gostava de ir a festas, nunca ninguém me tirava pra dançar.
NOSTÁLGIO (Ao longe.) — Havia uma festa. Era uma vez. Faz muito tempo. Em algum lugar. Havia sempre naqueles dias. Ah, o brilho dos cristais, as luzes todas acesas, cintilando.
CARMEM — Então veio a luz. Nenhum barulho, nenhuma explosão. Nada, absolutamente nada. Só o silencio e a luz. De repente. Uma luz cegante, esverdeada. Só aquela luz clareando tudo longe, dentro e fora do porão onde eu estava com Vera. No Plano Alfa, a luz fica mais forte.
(O Homem continua deitado. Em pé, Vera faz contraponto a Carmem.)
VERA — Uma luz insuportável. Parecia de vidro, de aço. Uma iuz que cortava a retina da gente. Eu vi o reflexo dela no rosto de Carmem e deixei a tesoura cair no chão.
CARMEM — A tesoura de Vera caiu no chão e eu, sem querer, rasguei a fotografia que tinha nas mãos.
VERA — Carmem rasgou sem querer a fotografia, no mesmo momento em que tesoura caiu no chão.
CARMEM — Plác! fez, um barulho seco. Plác!
VERA — Era uma foto de nós duas em Paris, bem em frente a Notre-Dame.
CARMEM — Papai e mamãe estavam fora. Talvez já tivessem morrido, eu não lembro.
VERA — Só muito depois encontramos os corpos de papai e mamãe. Os corpos... Eu quero dizer, as roupas. Dentro só tinha cinza, nem os ossos ficaram. Vários dias depois.
CARMEM — Primeiro veio o vento. Pelas janelinhas do porão dava pra ver o vento de fogo queimando tudo.
VERA — Eu podia imaginar que tudo mudaria tão completamente e para sempre depois daquela luz. Mas não fiz nenhum ruído. Para não ficar cega, tapei meus olhos com uma das mãos, e fiquei quieta quando o vento começou a soprar.
CARMEM — Eu comecei a gritar. De olhos fechados, para não ficar cega, eu gritei e gritei até perder a voz.
HOMEM (Para Vera, no Plano Alfa.) — Esquece, vem cá. De que adianta lembrar? As coisas não mudaram entre nós. Deita aqui comigo, vem. Outra vez, só mais uma.
VERA — Completamente. Desde aquele dia. Tudo mudou completamente. E para sempre.
A luz apaga no Plano Alfa.
CARMEM — Eu gritava, gritava. Como se estivesse louca. Como se o grito pudesse me salvar. Eu não conseguia parar de gritar.
NOSTÁLGIO — Acalme-se, por favor. A senhorita está demasiado atacada dos nervos. (Toma-a pelo braço e começa conduzi-la em direção ao caixão.) Convém deveras repousar um poucochito.
CARMEM — Eu tenho tanto medo. (Muito frágil.) Por favor, senhor Nostálgio, não me deixe só. Não me obrigue a entrar no caixão.
NOSTÁLGIO — Apenas para o sono da beleza, senhorita. Que diga-se de passagem, vosmecê nem necessita. Quinze, vinte minutos no máximo. A pele da senhorita acordará louçã como uma porcelana chinesa.
CARMEM — Era de tarde, sempre era de tarde ou de manhã naquele tempo. Agora parece que está sempre anoitecendo.
NOSTÁLGIO (Acomodando-a no caixão.) — Repousa, adormece, minha bela. Dorme e sonha, que a vida é apenas e nada mais que sonho. (Ergue a tampa do caixão, está prestes a fechá-la, com Carmem dentro.) Memória, fantasia, ilusão, quimeras. Pó, tudo pó. Já vai passar, já está passando. Pronto, pronto. Já passou.
CENA 10
NOSTÁLGIO (Está por fechar a tampa do caixão quando entra novamente aquele ruído eletrônico das transmissões de Nostradamus. Luz no Plano Mídia. Enquanto Nostradamus fala, Carmem permanece estática dentro do caixão e Mr. Nostálgio começa a voltar ao Plano da
Nostalgia.)
NOSTRADAMUS — E ão, ão, ão: atenção, muita atenção, desventurados sobreviventes deste mundo cão. Aqui fala o seu repórter Nostradamus Pereira, o porta-voz do Apocalipse, em mais uma de suas transmissões diárias diretamente do centro da minha, da sua, da nossa Zona Contaminada. Que nada, gemada, porrada. E conta, é mina, é nada. E continuam as frenéticas buscas das Sisters Salvadoras Carmem e Vera, únicos seres capazes de salvar a humanidade da completa extinção — oh não, oh não, que escuridão! Batalhões patrulham incessantemente os escombros das ruas da cidade, à procura das Irmãs Sisters. Tudo está sob absoluto controle. Não deixe o sol queimar as suas pústulas: passe cinza nelas. Cinza Angra 2, à venda em qualquer Posto de Insalubridade bem perto da sua toca. E agora fiquemos com mais outro hit do século passado. Na voz tropical de Ney Matogrosso, para lembrar os velhos bons tempos do libido, vamos ouvir Trepa no Coqueiro. Sacudam suas muletas, moçada! Esta é pra quebrar o gesso!
A música toca um pouco (esta ou qualquer outra), depois diminui ao mesmo tempo em que volta a luz no Plano Alfa. A voz de Vera aos poucos sobrepõe-se música.
VERA (Para o Homem.) — Você ouviu? É a segunda transmissão de hoje.
HOMEM — Sempre a mesma bobagem.
VERA — É muito tarde, eu tenho que ir.
(Apaga-se a luz no Plano Alfa. Volta no Plano Real. Mr. Nostálgio está no seu Plano da Nostalgia, sentado na bergère ou numa cadeira de balanço. Carmem está sozinha no palco, dentro do caixão. )
CARMEM (Saindo do caixão.) — Não havia uma festa? Onde foi todo mundo? Todos sempre me deixam só, até Vera. Ela tem uma vida fora daqui, ela vê as coisas da rua. Eu não tenho nada. (Olhando o próprio palco, os spots, a platéia.) Só esta caixa preta. Estou trancada dentro desta caixa preta, cercada por olhos fosforecentes que observam cada um dos meus movimentos do fundo da escuridão. Observam e julgam, criticam. E esperam. (Para a platéia.) O que é que vocês esperam de mim? Eu não tenho nenhuma sugestão a fazer para melhorar a vida de vocês. Eu não tenho nada. (Noutro tom.) Não é justo. Eles sabem tudo sobre mim, vigiam todos os meus passos. E eu não sei nada sobre eles. Não conheço suas caras, nunca vi seus corpos. Sei apenas que seus olhos estão sempre lá, sempre aqui, à minha volta. Sina, fado, destino, Karma. Ai de mim, mortal e desvairada! (Procura algo dentro do caixão.) Talvez sem eles eu nem existisse. Nem mesmo esta existência de merda. Mas o melhor a fazer é cantar, enquanto o tempo não passa. Cantar e dançar, essa é a única maneira de vencer o fim do mundo. Quem foi mesmo que disse isso? Ah não importa, já esqueci, esqueci tudo. (Começa a espalhar pelo palco uma fileira de bandeirinhas de São João, bem coloridas.) Não havia uma festa por aqui? Então vamos cantar, minha gente. Qualquer canção. Uma canção antiga, uma canção esquecida. Dessas que ninguém lembra mais. (Canta.) “E o balão vai subindo, vai caindo a garoa. A noite é tão linda e a chuva é tão boa. São João, São João, acende a fogueira no meu coração.”
CENA 11
CARMEM (Canta, dança e espalha bandeirinhas pelo Plano Real. Se houver o Coro dos Contaminados, pode colaborar com ela. Mr. Nostálgio também sai de seu Plano para ajudá-la. Todos brincam enquanto a luz diminui para voltar no Plano Alfa, sobre Vera e o Homem.)
VERA (Tirando as luvas.) — Deve passar do meio-dia. Tenho que ir.
HOMEM — Mais um pouco. Fica mais um pouco.
VERA — Não, é muito arriscado.
HOMEM — Eu levo você em casa.
VERA — E você acha que vou dizer onde moro?
HOMEM — Você não confia em mim?
VERA — Confio. Sei lá, acho que sim. Mas não a esse ponto. (Procura o fuzil.) Semana que vem eu volto.
HOMEM — É muito tempo. Uma semana, sete dias, cento e sessenta e oito horas.
VERA (Rindo.) — Dez mil e oitenta minutos, é isso? Nunca fui muito boa em contas. Mas juro que eu volto. (Acaricia o Homem.) Vou levando o seu cheiro junto comigo. (Abraçam-se, olham-se em silêncio por algum tempo até que ela se volta para sair.) HOMEM (Segurando-a pelo braço.) — Espera.
VERA — Não posso ficar mais, já disse.
HOMEM — Não é isso. Tem uma coisa que eu quero te dizer, faz tempo.
VERA (Irônica.) — Que que foi? Vai me pedir em casamento?
HOMEM — Foge comigo.
VERA — Fugir? Mas fugir pra onde, meu bem? Você sabe perfeitamente que não existe mais nada além da Zona Contaminada. Dizem até que tivemos sorte de sobreviver...
HOMEM — Isso é o que eles dizem. O que eles querem que a gente acredite, porque não interessa ao Poder Central que todos vão embora à procura de outra coisa. Eles querem que todos pensem que tudo começa, acontece e acaba aqui. Só aqui, dentro da Zona Contaminada. (Pausa.) Mas eu conheço outro lugar.
VERA — Que lugar? Foi tudo destruído, no planeta inteiro. Finalmente apertaram o botão: bum! acabou. S6 ficaram ruínas, escombros, detritos. E legiões de contaminados pelas ruas.
HOMEM — Existe outro lugar.
VERA (Sarcástica.) — Não me diga. Bem que eu gostaria. Teu amor e uma cabana, como nos velhos tempos, hein? Coqueirais e areia branca, sei, drinques tropicais de abacaxi com camarão. Um lugar paradisíaco onde a gente pudesse tomar banho de mar e fazer amor o tempo todo. Mas, onde, meu bem? Capri, Goa, Arembepe?
HOMEM (Lentamente, sílaba por sílaba.) — Calmaritá.
VERA (Sem prestar atenção.) — A luta é aqui. O que existe é isto. Estou farta de sonhos idiotas e escapistas. Eu tenho que comer, eu tenho que dormir, eu tenho que trepar — eu tenho que sobreviver todo santo dia. “Santo” é maneira de dizer, claro... (Vira as costas e vai saindo.)
HOMEM — Eu disse Calmaritá.
VERA (Voltando, muito atenta.) — Calma... o que? O que foi que você disse? Eu já ouvi esse nome em algum lugar.
HOMEM — Claro que você ouviu. Em algum beco escuro, num sussurro. Todos falam em voz baixa, é proibido dizer essa palavra. E proibido falar desse lugar. Mas ele existe.
VERA — Calma... como é mesmo?
HOMEM — Calmaritá. Eu disse Calmaritá.
(A luz apaga subitamente no Plano Alfa.)
CENA 12
No Plano Real, Carmem e Mr. Nostálgio brincam feito duas crianças — ou dois retardados mentais — no palco enfeitado de bandeirinhas.
CARMEM — “São João, São João — acende a fogueira no meu coração.” Acende, São João. Acende uma fogueira bem grande, bem quente. O fogo purifica. Acende, São João. Ai, São João, Xangô menino.
Vamos pular a fogueira?
NOSTÁLGIO — Primeiro você.
CARMEM — Então lá vou. Um... dois... e... (pulando uma fogueira imaginária) três. Pronto, pulei. Agora é a sua vez.
NOSTÁLGIO — Será que eu consigo?
CARMEM — Claro que sim. Vai logo.
NOSTÁLGIO — Não precisa empurrar, eu já vou. Um... dois e... (Pula e tropeça, quase cai.)
CARMEM (Batendo palmas, implicante.) — Quem pisa na brasa, mija na casa. Quem pisa na lama, mija na cama. Quem pisa no fogo, mija de bobo.
NOSTÁLGIO — Não pisei nada. Só escorreguei um pouco.
CARMEM — Você mija na casa, você mija na cama, você mija de bobo.
NOSTÁLGIO (Trombudo.) — Não quero mais brincar disso?
CARMEM — Você quer brincar do quê, então?
NOSTÁLGIO — De sorte. Vamos brincar de ver a sorte.
CARMEM — Ah, isso é meio chato. Não sei se eu quero, não.
NOSTÁLGIO — Quer, sim. E não é chato nada. É superdivertido. E aqui tem tudo que a gente precisa, olha só. (Pega uma vela e uma bacia cheia d’água.)
CARMEM — Eu não sei como é esse brinquedo.
NOSTÁLGIO — É fácil, vem cá que eu te ensino. Você vai adorar. (Acende a vela lentamente, com um toque de maldade.) Primeiro a gente acende a vela. E muito importante acender a vela. Toma, pega.
CARMEM (Em transe.) — O fogo purifica. Só o fogo purifica. A cinza é a única redenção da matéria vil.
NOSTÁLGIO (Pega na mão dela, orienta.) — Agora você vira a vela assim, bem devagar. E vai pingando, bem devagarinho também. Treze gotas, treze vezes.
CARMEM (Pingando a vela na água e contando.) — Um, dois,
três, quatro... (Conta até treze.)
NOSTÁLGIO — Se o desenho formar um coração é um novo amor.
CARMEM — Acho que não está formando nenhum coração. Parece mais um... O que será isso? Um triangulo? Não, um navio. Acho que é um navio.
NOSTÁLGIO — Navio é viagem. Para bem longe.
CARMEM — Espera, está mudando. Não pára de mudar. Agora parece uma...
NOSTÁLGIO — Uma cruz.
CARMEM (Aterrorizada.) — Não, cruz não. Deve ser outra coisa. Espera até a água parar de se mexer.
NOSTÁLGIO — Já parou. E é uma cruz, sim. Um risco assim, vertical, outro assim, horizontal. Evidente que é uma cruz. Cruzérrima.
CARMEM — E cruz... cruz quer dizer o quê?
NOSTÁLGIO (Cruel.) — Cruz é morte certa.
CARMEM — Mentira! (Agitada.) Eu não vou morrer. Eu já morri, faz tempo. Você está mentindo!
NOSTÁLGIO — Cruz é morte, todo mundo sabe. É morte certa. E é pra logo.
CARMEM — Pára com isso!
NOSTÁLGIO (Implicante, pulando em volta dela, batendo palmas e cantando, bem infernal.) — Treze gotas na bacia. A vida está deserta, a alma está vazia. E cruz é morte certa.
CARMEM (Aos gritos.) — Você mexeu a bacia, assim não vale.
NOSTÁLGIO — Não mexi nada. Você está pirada.
CARMEM — Cala a boca. Você não sabe nada, fica quieto. Eu estou mandando. Fica quieto, fui eu que inventei você. (Nostálgio estatiza. Carmem olha em volta.) Estou ouvindo um barulho, parece que tem alguém aí. Vera, Vera, é você?
VERA (Em off) — Não, é a Stephanie de Mônaco. Claro que sou eu.
Tudo bem aí?
CARMEM — Tudo, tudo bem. (Para Nostálgio, entregando-lhe a vela acesa e empurrando-o para que Vera não o encontre.) Anda, vamos, sai daí. Anda logo, dá o fora. Ela não pode ver você. (Empurra Nostálgio, que vai voltando para seu Plano com a vela acesa nas mãos.) E mesmo que visse, ela não acreditaria. A gente só vê mesmo aquilo que acredita.
CENA 13
VERA (Entrando.) — Pelo visto você andou se divertindo, hein? Era aquele seu amiguinho invisível outra vez?
CARMEM — Vera, me explica uma coisa: se eu pingar treze gotas de uma vela numa bacia cheia d’água, não vai formar o desenho de uma cruz, vai?
VERA — Cruz? Bom, até pode. Mas acho que vai formar coisa bem diferente, sabe o que?
CARMEM (Infantil.) — Cruz, não. Cruz eu não gosto.
VERA — Cruz coisa nenhuma. O desenho vai ser de um navio. E você lembra o que significa navio?
CARMEM — Uma viagem. Para bem longe.
VERA — Pois, é, então, olha só. (Entra o ruído da transmissão de Nostradamus. Ambas se imobilizam.)
NOSTRADAMUS — E atenção, meu povão, bota atenção nisso. O seu repórter Nostradamus Pereira informa que movimentos inusitados foram observados durante a manhã de hoje num supermercado abandonado — ado, ado — próximo ao cruzamento das avenidas Chernobil com Nagasaki, bem no coração da sua, da minha, da nossa Zona Vitaminada, quero dizer, Minacontada, quero dizer Con-ta-mi-nada. Rárárá. Olé, olé, tudo está rigorosamente sob controle, e é possível que novas buscas levem finalmente ao covil onde escondem-se The Irmãs Sisters Carmem e Vera. Voltaremos a informar nos horários habituais ou a qualquer momento em edição imaginária, quero dizer, alimária, quero dizer, extraordinária. E por falar em ária, fiquem agora com a ária do suicídio de Madame Butterfly, na voz lendária de Maria Callas. (Entra Callas cantando.) Te mata, japona! O gringo bunda-mole te chifrou mesmo! Arrive derci cornutta!
(Nostradamus dubla Maria Callas no Plano Mídia, com coreografia do Coro dos Contaminados (se houver), enquanto voltam Carmem e Vera no Plano Real.)
VERA — Saco, sempre a mesma história. Nada de novo. Eles nunca vão nos encontrar. Nós somos mais espertas que o Poder Central. (Pega nas mãos de Carmem.) Carmem, escuta. Eu preciso te dizer uma coisa importante.
CARMEM — Já sei: você encontrou rosas brancas.
VERA — Não existem mais flores, não é nada disso. Escuta: nós vamos fazer uma viagem. Nós vamos embora daqui.
CARMEM — Embora? Mas agora, já? Agora não, agora eu estou com fome.
VERA (Abrindo a bolsa e jogando latas e pacotes.) — Está bem, então coma primeiro. Tem café, biscoito, sardinha, nozes, salsicha.
Come à vontade.
CARMEM (Mastigando algum coisa.) E a gasolina, você trouxe?
VERA (Mostra um galão.) — Trouxe, trouxe. E as revistas, bombons, esmalte, batom, tudo que você pediu e muito, muito mais.
CARMEM — Você está tão estranha. Até parece feliz.
VERA — E estou.
CARMEM (Muito surpresa.) — Feliz?
VERA — Bom, feliz talvez ainda não. Mas tenho assim... aquela coisa... como era mesmo o nome? Aquela coisa antiga, que fazia a gente esperar que tudo desse certo, sabe qual?
CARMEM — Esperança? Não me diga que você está com esperança!
VERA — Estou, estou. Senta aqui, eu preciso te contar.
CARMEM — Você encontrou a biografia da Lady Di?
VERA — Ainda não, mas vou encontrar. O que aconteceu foi que... Por onde eu vou começar? Bom... sabe... eu... Eu encontrei um homem.
CARMEM (Incrédula.) — De verdade?
VERA (Maliciosa.) — Claro. Com todo o equipamento. E que equipamento, meu bem...
CARMEM (Assustada.) — Um contaminado? Vera, você ficou louca, irmãzinha! Eles estão atrás de nós. Agora eles vem nos pegar. Eles precisam de nós. Você contou a ele aonde nós estamos e agora temos que fugir. Sei, era essa a viagem que você falou. Meu Deus, para onde a gente vai agora? Já estou cansada de andar me escondendo por igrejas, cemitérios, hospitais, museus, casas de cultura, livrarias — livrarias até que eu gostava —, teatros, bares.
VERA (Cortando a enumeração interminável.) — Calma. Não é nada disso. A viagem que eu falei é outra, meu bem. E o homem também é outro. Não é um contaminado. E um homem como nós. Um homem bom.
CARMEM — Não existem mais homens bons.
VERA — Esse é. Eu tenho certeza. Já faz tempo que a gente se encontra, mas só hoje ele me contou de um outro lugar que existe perto daqui. Ele não estava mentindo. Ele me ama. Ele conhece bem esse lugar, ele veio de lá.
CARMEM — De lá, de onde? Não existe lugar nenhum fora daqui, irmãzinha. De onde veio esse homem, Vera?
CENA 14
(Luz no Plano Alfa. Carmem e Vera paralizam-se. Luz sobre o Homem de Calmaritá, parado no Plano Alfa.)
HOMEM — Calmaritá, esse lugar chama-se Calmaritá. Fica ao norte daqui, não muito longe, nas terras altas. E um vale à beira do último rio de águas limpas. Fica meio escondido, de longe ninguém vê, só quem sabe que ele existe consegue encontrar. Quem não sabe, mesmo chegando perto não vê coisa nenhuma, Só um buraco escuro. E se perde no meio do caminho, é destruído pelos contaminados, devorado pelos animais mutantes, as planta canibais. Não tem muita gente lá. Umas trinta pessoas, mas quase todo dia chega gente nova, trazida por um de nós. Gente como você, como eu, gente que por alguma razão conseguiu escapar das mutações. Ou você acha que você e sua irmã são as únicas sobreviventes da Grande Catástrofe? Não, não são. Existem outros, além de vocês, além de mim. Nós precisamos nos reunir, nós precisamos nos reproduzir e nos fortalecer para o futuro que virá. Um mundo novo, Vera. Um mundo muito melhor que aquele que nós conheciamos antes da Grande Catástrofe. Venha, venha comigo para as Terras de Calmaritá. Traga sua irmã. Se nós sairmos logo depois do par-do-sol, por volta da meia-noite estaremos chegando lá. Eu revelei meu segredo, agora revele o seu. Onde vocês moram, você e sua irmã?
VERA (No Plano Real.) — Saindo daqui, suba quatro quarteirões em direção ao Comissariado Leste do Poder Central. Atravesse em diagonal a Praça Hiroshima, aquela com a estátua de Prometeu bem no meio. Fica do outro lado, bem em frente, na loja funerária com a fachada incendiada.
HOMEM (No Plano Alfa.) — Antes do entardecer eu passarei para apanhar vocês. Arrumem suas coisas e venham comigo. Vamos todos embora para as Terras de Calmaritá.
CENA 15
Apaga-se a iuz no Plano Alfa,fica apenas no Plano Real.
CARMEM — Parece bonito, parece gostoso lá: Cal-ma-ri-tá.
VERA — Tem calma dentro dela.
CARMEM — E mar, também tem.
VERA — Tem alma, e é bela.
CARMEM — E ama, meu bem.
VERA — E lar, tem lá.
CARMEM — E Clara, voilá.
VERA — Tem maria, tem maria lá.
CARMEM — E tia, que é tão bonito.
VERA — Tem ita. Você sabia que na língua dos índios ita significava pedra?
CARMEM — Ita... poâ. Ita... maracá. Ita... petininga.
VERA — Itaqui, Itacuruçu.
CARMEM — Mas tem... tem lama lá. (Noutro tom.) Será que nós podemos confiar nesse homem, irmãzinha? Afinal, eles não são todos iguais?
VERA — Esse é diferente.
CARMEM — E se ele nos denunciar ao Poder Central?
VERA — Ele não faria isso.
CARMEM — Como você sabe?
VERA — Eu trepei com ele.
CARMEM — Que vulgar, Vera! Além do mais, isso não é motivo.
Só porque você tre... fez amor com ele, não significa que.
VERA — Ele é um homem bom.
CARMEM — Como é que eu posso ter certeza?
VERA — Eu vou ter um filho dele.
CARMEM — Um filho dele? Meu Deus, que tragédia! Eu vou mesmo ficar pra titia... E não foi você mesma quem disse que.
VERA — Eu sei o que eu disse: no que depender de mim, a humanidade pode acabar, não foi isso? Pois eu mudei de idéia. (Acariciando o ventre.) Desde que comecei a sentir a presença de uma outra coisa aqui, naquele mesmo lugar onde antes só existiam tesão e fome. Uma terceira coisa, diferente das outras duas. Agora não é mais apenas um buraco voraz, furioso, insaciável. Não sei explicar. Essa coisa nova dentro de mim me dá assim como uma espécie de... como era mesmo aquela coisa antiga que a gente sentia quando acreditava em alguma coisa?
CARMEM — Fé? Meu Deus, Vera, você está sentindo fé?
VERA — Pode ser. Fé. E isso ai.
CARMEM — E ele sabe?
VERA — Ainda não. Vou contar hoje à noite. (Sonhadora.) Quando chegarmos a Calmaritá.
CARMEM — E se ele não aparecer?
VERA — Ele me deu o mapa de lá. (Tira um rolo de papel, abre.)
CARMEM (Encantada.) — Tem um rio. E eu vou ser tia. Ah, que bom vai ser passear com o meu sobrinho na beira do rio. Que nome você vai dar pra ele? Precisamos fazer uma lista. Se for menino, eu gosto muito desses nomes de anjo. Gabriel, Arjel, Rafael, Daniel.
VERA (Sem ouvir.) — Depois que o sol se for, se por acaso ele não vier, basta atravessarmos a praça e seguir por aquele caminho que vai para o norte.
CENA 16
(No Plano Real, debruçadas sobre o mapa, Carmem e Vera falam baixinho, fazendo planos. Luz no Plano da Nostalgia, sobre Mr. Nostálgio. Enquanto fala, ele desce e vai recolhendo as bandeiras de São João.)
NOSTÁLGIO — Ilusão. Para continuar existindo, isso é tudo que o ser humano necessita. Humano? Quero dizer, esse escombro que restou, e que só por falta de outra palavra ainda insistimos em chamar de “humano”. Tão insensato, tão irracional na sua fantasia desenfreada que chega a inventar nomes próprios e lugares geográficos imaginários para a própria ilusão. Nomes mágicos, sonoros, cheios de sugestões que incendeiam a mente dos pobres coitados. Shangri-Lá, Eldorado, Atlântida, o Jardim das Hespérides, Lemúria. Mu, Getsemâni, Rosebud, Pasárgada. (Recitando Manuel Bandeira.) “E quando estiver cansado / Mando chamar a mãe d’água / Pra me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar.” Utopias, continentes perdidos, terras do eterno prazer. Paraísos obsessivos, úteros perdidos a serem recuperados de alguma forma, mesmo que apenas na fantasia. Na mente, no sonho. Essas coisas em que não se pode jamais tocar, e que tm apenas um nome. Ilusão, eu já dizia cá com os meus botões, ilusão é tudo que o humano — esse escombro patético — necessita para continuar existindo. (Sai.)
CARMEM — Parece verdade.
CENA 17
(Carmem e Vera no Plano Real.)
VERA — É verdade, Carmem. Nossa vida vai mudar.
CARMEM — Calmaritá, Calmaritá. Ao norte, nas terras altas. Parece um sonho. Ah, eu acredito. Eu acredito. E se é verdade, então preciso arrumar as minhas coisas. Me empresta a sua bolsa.
VERA (Estendendo a bolsa.) — Pode pegar. Eu não vou levar nada. Tudo que preciso está comigo.
CARMEM (Remexendo dentro do caixão.) — Pois eu preciso de muita coisa.
VERA — Meu filho, meu corpo. É tudo. Tudo que é necessário para começar um mundo novo.
CARMEM — Mas eu não. Eu não tenho filho, eu não tenho homem, eu preciso de uma porção de coisas. A Priscilla, por exemplo (tira uma boneca do caixão), minha primeira boneca. Como vai, Priscilia querida? Vamos embora, meu bem, vamos embora daqui. Uma tesoura, sempre é bom. Agulha e linha também. Alguns botões, pourquoi pas? Nunca se sabe o que as pessoas usam nessas tais Terras de Cal... Como é mesmo, Vera?
VERA — Calmaritá, Carmem.
CARMEM — Pois é, é o que eu digo, calma, mar e ita. De repente, sei lá, é um lugar chiquérrimo. Não posso parecer uma mendiga, né, meu bem? Acho que vou levar uns moldes também, cada aquela coleção de Manequim? Eu é que não quero andar mal vestida no meio de uma terra e de uma gente que nem conheço direito.
VERA — Mais uma meia-hora e ele deve estar chegando por aí.
CARMEM — Doce de abóbora.
VERA — O que?
CARMEM — Será que tem lá?
VERA (Rindo e dando inicio a um jogo meio infantil) — Deve ter.
Tem tudo lá.
CARMEM — E vatapá.
VERA — E caruru.
CARMEM — E boitatá.
AS DUAS (Improvisam fantasias com as tralhas de Carmem e cantam, com trejeitos de Carmem Miranda.) — Tem tudo lá, me diga só o que não tem em Calmaritá? Tem sapoti, tem mungunzá. Tem juriti e abará. Não tem aqui, não tem ali, pois só tem lá. Ah me leva daqui, eu quero ir já. Me diga só o que não tem em Calmaritá? Axé, Babá, me leva pra lá, meu pai Oxalá, oba lá-lá, eu quero ir já pra Calmaritá.
CENA 18
Carmem e Vera brincam como duas meninas. Se houver, o Coro dos Contaminados faz backing-vocal, com coreograJlas e muito tchurutchuru e oh yeah! De repente o zumbido de Nostradamus no Plano Mídia interrompe tudo. As duas congelam como quem brinca de estátua, com gestos de Carmem Miranda.
NOSTRADAMUS — E atenção, mucha atenção, caros, caríssimos, sofridíssimos, amadíssimos, desventuradíssimos — íssimos, íssimos — sobreviventes da Grande Catástrofe, a esperança voltou! Em edição extraordinária aqui q uem vos fala é o seu repórter Nostradamus Pereira, o arauto do fim dos tempos, porta-voz oficial do Poder Central. Há poucos instantes foi capturado mais um dos raros, raríssimos, procuradíssimos — íssimos, íssimos — sobreviventes da enorme, da imensa, da Grandissíssima Catástrofe, sem qualquer sinais exteriores de contaminação. De número não identificado, sexo masculino — e bota masculino nisso! é um bofe maravilhoso! até eu que nem sou chegado fiquei balançado como um veado — ado, ado, ado, ira, ira, ira: Jacira! —, aparentando por volta de 30 anos, pouco mais ou menos, bem no ponto! Enfim, sem mais frescuras e submetido à confissão obrigatória o charmoso sobrevivoso má-ravilhoso revelou saber — atenção, atención, atention, please! — o paradeiro das Irmãs Sisters Carmem e Vera, as únicas fêmeas capazes de salvar a humanidade da mais negra e completa extinção.
(Luz no Plano Alfa, onde está parado o Homem de Calmaritá.)
VERA (Para o Homem.) — Você nos denunciou!
HOMEM — Me perdoa, eles me torturaram.
VERA — Você devia ter resistido.
HOMEM — Eu não tive culpa, ninguém resistiria.
NOSTRADAMUS — Segundo revelou a lasanha, quero dizer, o sobrevivente, as gatinhas Carmem e Vera estão descaradamente escondidas numa loja funerária semidestruída em pleno centro da minha, da sua, da nossa Zona Contaminada. Mais pra zona do que pra nada, mais pra mina do que pra conta. Batalhões armados até os dentes que sobraram já cercam o local. Se for verdadeiro o que afirma o garanhão, não haverá fuga possível para as Irmãs Sisters. E se não for, vão coçando aí suas feridas, que um dia será. Enquanto a funerária é cercada, fiquem com a voz de titia Jagger, morta na Grande Catástrofe, no mais expressivo hit do século passado: Sa-tis-fa-ti-on! Hoje mais do que nunca, embora morta, a tia tinha razão: ninguém consegue ter satis-fa-ção! (Entra a voz de Mick Jagger, o Coro de Contaminados acompanha, muito animado.)
HOMEM — Foi quando eu atravessava a praça, eles estavam escondidos atrás da estátua de Prometeu. Eles me pegaram, com redes, como se eu fosse um bicho. Queriam saber meu número, eu não tinha, eu nunca tive. Eu não sou um número. Queriam saber de você. Fui obrigado a contar. Me perdoa, eu fui fraco. Eu traí você, Vera.
(Sempre com os Rollings Stones ao fundo, a luz permanece acesa no Plano Alfa. O Homem tem uma das mãos estendidas em direção a Carmem e Vera, que continuam estatizadas no Plano Real. Ao mesmo tempo, Nostradamus e o Coro dos Contaminados cantam e dançam loucamente.)
CENA 19
CARMEM — Você ouviu?
VERA — Claro. Todo mundo ouviu. Existe um auto-falante em cada esquina da cidade.
CARMEM — Ele falou de nós, o Nostradamus.
VERA — Ele sempre fala de nós.
CARMEM — E do homem. Desta vez ele falou também do homem. Do seu homem.
VERA — Ele é um homem bom.
CARMEM — Como “bom”? Ele nos denunciou! Nós estamos perdidas. (Sacudindo Vera.) E agora, o que é que nós vamos fazer?
Estamos perdidas.
VERA — Eu não estou perdida. Eu tenho o mapa.
CARMEM — Mas não adianta mapa. Nós estamos cercadas.
NOSTRADAMUS — Completamente cercadas, amadas! Em edição extraordinária o seu repórter Nostradamus Pereira, para felicidade de todos os sobreviventes da Grande Catástrofe, informa que as Irmãs Salvadoras Carmem e Vera — alô, alô, gatinhas, vão preparando suas xoxotinhas para reprodução, ai, que tesão! — estão totalmente cercadas pelos batalhões do Poder Central. Redes, gás lacrimogêneo, algemas e mordaças serão utilizadas para prender as feras. A prisão é questão de minutos, e daqui a pouco a humanidade estará salva! Enquanto o cerco se fecha irreversivelmente, fiquem com Outro hit da etapa anterior à Grande Catástrofe. Vamos lá, moçada contaminada, numa homenagem às Irmãs Sisters, bailem comigo ao som de As Frenéti-cas. Soltem todos suas frangas (vai entrando aquele tema de Dancing Days, cada vez mais alto com Dudu, Edir, Tia Rege, Lidoka, Sandrão e Leiloca).
(Nostradamus e o Coro dos Contaminados dançam ao som das Frenéticas. Aos poucos vão saindo de seu Plano, tiram Nostálgio para dançar. Meio sem graça, ele tenta.)
VERA— Eu vou fugir. Vem comigo.
CARMEM — Isso é loucura. Eles vão nos pegar.
VERA — Eu tenho o mapa. Ele me deu o mapa.
CARMEM — É impossível.
VERA — Eu vou tentar. Você tem que tentar também.
CARMEM — Eu não posso, eu não quero.
(Luz no Plano Alfa, onde esta o Homem.)
HOMEM — Ao norte daqui, não fica muito longe, num vale escondido nas terras altas. Se sairmos ao entardecer, chegaremos lá por volta da meia-noite. Existem mais alguns, além de vocês, além de mim. Venham comigo para as Terras de Calmaritá. E preciso um companheiro para chegar. Ou então um mapa, se você estiver só. E se você tiver o mapa.
CENA 20
(A partir de agora a ação acelera loucamente. Tudo acontece ao mesmo tempo.
Ruídos violentos começam a ser ouvidos — explosões, sirenes, cacos de vidro partidos —, misturados aos fundos musicais anunciados por Nostradamus e a sons eletrônicos. O clima é atordoante.)
VERA — Eu tenho o mapa.
CARMEM — Como os bonzos budistas, lembra? Faz tanto tempo. Eu não vou, eu fico aqui. Eu desisto, para sempre eu desisto, amém. Eu quero o que se perdeu. Eu quero aquilo que conheço, mesmo que não exista mais. Não quero esse lugar para onde você vai, e que nem sei se existe.
VERA — Existe. O homem não mentiu. E se não existe esse, existe outro. Sempre existe algum lugar.
CARMEM — Onde está a gasolina?
VERA — Para quê? Você não pode fazer isso, Carmem! Você não é idiota a esse ponto. Venha comigo, venha comigo.
CARMEM (Pega o galão de gasolina e começa a derramar por tudo.) — Já disse que eu desisto. Renuncio, o meu gesto mais nobre é desistir de tudo agora. Neste momento.
NOSTRADAMUS (Abraçado a Nostálgio.) — Loucura, ilusão ou realidade, minha gente, pouco importa: agora é definitivo, ivo, ivo. Finalmente as buscas tiveram seu fim. Carmem e Vera, as famigeradas Irmãs Sisters Salvadoras, estão completamente perdidas. Ou achadas, claro. Daqui de onde estamos já conseguimos visualizar seus movimentos dentro do tenebroso antro onde por tanto tempo permaneceram escondidas. Aleluia! senhoras e senhores, bem-aventurados idolatrados adorados ados, ados, sobreviventes da Grande Catástrofe. E é cá, e é tas, e é tro, e é fé: ca-tás--tro-fe. Carmem e Vera estão totalmente cercadas, informou e continuará informando o seu repórter Nostradamus Pereira neste glorioso entardecer do septuagésimo dia do Décimo Terceiro Ano da Peste.
VERA — Eu vou embora. Eu vou para Calmaritá.
CARMEM — Eu fico por aqui. O fogo purifica. Eu tenho uma cruz marcada no meu destino. Não há como fugir. Onde estará aquela vela?
(No Plano da Nostalgia, Nostradamus acende a vela que Nostálgio tem nas mãos. Nostálgio vai caminhando com a vela acesa em direção a Carmem.)
NOSTRADAMUS — E em vez de música, caros ouvintes, hoje vamos brindá-los com um magnífico soneto de Luiz de Camões, na voz do querido companheiro Mr. Nostálgio. Dá-lhe, Nostálgio! (A parte.) Dizem que ele não é real, mas quem se importa com isso? Aliás, quem se importa com qualquer coisa? Quem se importa?
NOSTÁLGIO — “O dia em que nasci morra e pereça, não o queria jamais o tempo dar, não tome mais ao mundo, e se tornar, eclipse nesse passo, o Sol padeça. A luz lhe falte, o Sol lhes escureça, mostre ao mundo sinais de se acabar, nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar, a mãe ao próprio filho não conheça. As pessoas pasmadas, de ignorantes, as lágrimas no rosto, a cor perdida, cuidem que o mundo já se destruiu. O gente temerosa, não te espantes, que este dia deitou o mundo a vida, mais desgraçada que jamais se viu.”
(Com uma reverência, Nostálgio entrega a vela a Carmem, que está parada no meio de um charco de gasolina, e volta para junto de Nostradamus.)
VERA — Não faça isso. Pela última vez, venha comigo. Existe outro lugar.
CARMEM — Só existe um lugar. Este, o meu lugar é aqui. No meio do fogo. O fogo purifica. (Canta.) “São João, São João, acende a fogueira no meu coração.”
NOSTRADAMUS (Invadindo o Plano Real, com Nostálgio e o Coro dos Contaminados.) — A porta já foi arrombada, caros ouvintes. E é inenarrável, inacreditável minha gente adorável : durante dois anos, sem que ninguém soubesse, em pleno centro da minha, da sua, da nossa Zona Contaminada, por assim dizer bem nas nossas barbas, as irmãs Carmem e Vera conseguiram manter em segredo seu sórdido esconderijo. Mas agora está tudo terminado. A captura das Irmãs Sisters é questão de minutos, quiçá segundos vagabundos, furibundos e não esqueçam, bundo é o masculino de bunda. Os batalhões armados do Poder Central já estão invadindo o local. Aleluia, eia, sus! Começa aqui uma nova era para todos os sobreviventes da Grande Catástrofe. Que melodia pode servir de fundo musical a um momento tão emocionante? A única saída para Carmem e Vera agora é cantar um tango argentino. (Começa a tocar La Cumparsita. Nostradamus dança com Nostálgio.)
VERA — É tarde demais. Preciso ir. (Beija Carmem.) Adeus, minha louca irmã. De alguma forma, eu espero que tudo dê certo para você, para mim, para nós todos. (Pega o fuzil.)
CARMEM (Segurando a vela acesa com as duas mãos acima da cabeça.) — Adeus, irmãzinha. Espero que você encontre o seu lugar. E que seja lindo lá. O meu lugar é aqui. Eu vou ficar bem, agora.
(Luz no Plano Alfa. O Homem de Calmaritá está crucificado, nu, com uma coroa de espinhos na cabeça.)
HOMEM — Meu Pai, meu Pai, por que me abandonaste se sabias que eu era fraco, se sabias que eu era nada? Por que permitiste que eu traísse e enganasse, quando tudo que eu queria era fazer o bem? Ilumina o caminho da mulher que amei, já que não quiseste iluminar o meu. A beira da minha morte, Vera, eu te abençoo. Vai com Deus.
CARMEM — Eu vou ficar bem, agora. Eu vou ficar muito bem. Basta levantar a mão assim, não muito alto, e depois, aos poucos, assim, devagarinho, basta um gesto.
VERA (Enquanto Carmem fala, sai gritando pela platéia, desvairada, sacudindo os espectadores.) — A saída, eu sei que existe uma saída! Ele me deu o mapa, eu tenho o mapa. Eu tenho que chegar lá. Preciso salvar meu filho. Eu sei que existe outro lugar. A saída, meu Deus, onde fica a saída? Me diga onde fica a saída!
NOSTRADAMUS — Atrás dela! Pega! Não deixa escapar! Queremos ela com vida! Pega! Pega!
(Vera some, aos berros, com Nostradamus e Nostálgio atrás. Permanece uma luz suave sobre o Homem de Calmaritá crucificado. O Coro dos Contaminados cerca Carmem em semicírculo, de frente para a platéia. Ela está sentada em postura de lótus, com a vela acesa. Os Contaminados entoam o mantra Om, junto com Carmem. Ouvem-se ao longe os gritos de Vera e de Nostradamus, cada vez mais remotos. Então os ruídos cessam completamente e todas as luzes se apagam. Em completa escuridão, à exceção da vela de Carmem, entra música bem alto.)
(O autor sugere a Bachiana nº 5, de Vila-Lobos, ou outra à escolha do diretor — quem sabe Let it Be, dos Beatles, com Tina Turner?)
(A vela apaga.)