Teatro Completo
O Homem e a Mancha
Peça em 1 Ato
(Livre releitura do Dom Quixote, de Miguel de Cervantes)
À memória de Clarice Lispector, que tanto me chamava de Quixote.
“E, com isto, Deus te dê saúde, e se não esqueça de mim.”
(Miguel de Cervantes, em 1605.)
PERSONAGENS
(Todos feitos por um único ator)
• ATOR
• MIGUEL QUESADA — HOMEM DA MANCHA
• DOM QUIXOTE — CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA
e mais:
GUILHERME, uma voz em off.
CENÁRIO
No centro e ao fundo do palco, um pequeno praticável. Sobre ele há um globo terrestre relativamente grande e, ao lado, um banquinho tipo “cantor de bossa- nova”. A direita, uma cadeira espreguiçadeira de lona listrada. Também pode ser um divã ou um récamier. A esquerda, um manequim de costureira. Apenas o busto, sem cabeça, pernas nem braços, sustentado por um cabo de madeira. Além disso, três telões pintados e independentes. Um ao fundo, os outros dois um de cada lado, todos pintados como se fossem prateleiras de uma biblioteca atulhada de livros. Dependendo da ação, esses telões sobem ou descem.
PRÓLOGO
(Que trata da condição do ator e sua procura pelo geral até chegar ao particular.)
(Telões levantados. Quando o público entra, o Ator já se encontra no palco, meio na penumbra, sobre o pequeno praticável, apenas de malha preta. Talvez na posição do Pensador, de Rodin. Sentado no banquinho, cabisbaixo ele contempla um globo terrestre com muita atenção. Toca o terceiro sinal, as luzes da platéia apagam. Acende luz sobre o Ator. Mas como se não percebesse, ele continua a contemplar o globo sem se mover. Para alertá-lo, então, toca um quarto ou quinto sinal, O Ator estremece, assustado. Levanta a cabeça. Está nervoso. Faz o sinal da cruz. Retoma o autocontrole. Lentamente, começa a olhar em sete direções, com movimentos muito definidos da cabeça — esquerda, direita, para cima, para baixo, etc. Para cada uma dessas direções, com entonações diferentes (infantil, lírica, catastrófica, etc.) vai repetindo: )
ATOR — Era uma vez.., era uma vez.., era uma vez.., era uma vez.., era uma vez.., era uma vez.., era uma vez. Era uma vez o que, meu Deus? Era uma vez quem? E quando, e onde era uma vez? E tão difícil escolher, é tão difícil começar. Deixa eu ver, quem sabe aqui tem alguma idéia... (Gira o globo terrestre. Com o indicador apontado faz com que pare ao acaso.) Era uma vez.., a Groenlândia. Muito gelo, muito branco, muito pingüim, muito esquimó, muito iglu, muito frio. Ah, muito chato. Nem um pouco dramático. Deixa eu tentar outra vez. (Torna a girar o globo.) Era uma vez... o Saara. Muita areia, muito sol, muito camelo, muito calor, muita seca. Nossa, que sede me deu.
(O Ator pega um copo ou garrafa d’Água ao lado, no chão, e bebe avidamente. Depois fica olhando o vidro. Toca o próprio rosto, como se o estivesse vendo refletido.)
ATOR — Era uma vez.., eu. Claro, tem que ser alguma coisa que eu conheça bem. Eu, então. Faz quase quarenta anos que convivo comigo mesmo. Alguma coisa devo conhecer. Sim, é isso mesmo. Eu. Por que não? Afinal, eu me acho bem interessantezinho.
(O Ator larga o copo/garrafa. Dá uma giradinha de desprezo no globo. Depois levanta-se e, em pé, encara a platéia decidido.)
ATOR — Era uma vez um ator. Muito palco, muito ensaio, muita luz, muita coxia, muito bastidor, muita platéia — graças a Deus! —, muita emoção, muito sonho, muita ilusão. Muito... Muito “Era uma vez”.
(Música circense feérica. O Ator desce do praticável e vai caminhando para a boca de cena, de braços abertos.)
CENA 1
(De como o Ator sofre um pequeno surto narcisista mas acaba por reconhecer a necessidade do Outro para ser.)
ATOR — Ladies and gentiemen, eu sou um ator. Meu nome é Carlos. Como vocês podem ver, eu sou mais ou menos alto, meio magro, um pouco tímido. Não tenho miitos cabelos nem muitos músculos, mas acho que sou... Simpático, engraçado. Eu conheço bem meu corpo, sei me movimentar, fazer gestos dramáticos, divertidos, estranhos, assustadores. (Faz vários gestos, posa, ilustrando o que diz.) Eu também sei cantar (improvisa, cantarola alguma coisa), sei dançar (dança um pouco, flainenco seria o ideal), mas sei principalmente representar.
(O Ator recita qualquer coisa breve — Shakespeare, tragédia grega, Molière, ou cada noite um texto diferente. O importante é que seja alguma coisa bem conhecida do público.)
ATOR (Mais sério.) — Quando represento, eu continuo sendo eu, mas também, ao mesmo tempo, passo a ser um outro. Eu não seria um ator se não conseguisse ser também esse outro. E não estou falando do outro que me assiste, embora eu também seja esse, porque ele sempre se vê em mim, mesmo quando não gosta do que vê. Falo principalmente daquele outro em que eu me torno, que eu incorporo, que eu me transformo quando estou sendo um ator. O personagem, é dele que eu falo. Um ator não é uma ator sem um personagem. (Pausa, confuso.) Bom, então, agora, aqui... será que eu não sou um ator? Será que eu não sou eu? Será que eu não sou nada, meu Deus? Será que estou muito chato? Será que estou pirando? Onde está o personagem?
(O Ator vai ficando cada vez mais frenético. Caminha pelo palco procurando, depois sai de cena. As últimas falas sao dadas em off.)
ATOR — Onde está o outro? Ele é essencial para a minha sobrevivência! Onde está o personagem? Eu não tenho sentido sem o personagem! Eu vou enlouquecer sem o personagem! Eu preciso do outro! (Vai saindo.) Querem acabar comigo! Isto é um complô! (Em off cada vez mais longe.) Eu processo! Eu mando sustar o cheque! Susta, susta! Eu quero porque quero o personagem! Me chama a produção!
Cada meu celular?
CENA 2
(Na qual se introduz afigura do personagem de Miguel Quesada, o Desventurado Trabalhador Anônimo.
No palco vazio, a luz permanec e apenas sobre o globo terrestre. Ouve-se um intenso ruído urbano, verdadeiro inferno sonoro. Alarmes de automóveis, ambulâncias, buzinas, sirenes de polícia e bombeiros, gritos, telefones, máquinas de escrever, freadas, sons de metrô, vendedores ambulantes, britadeiras, etc. Abrindo uma porta imaginária, entra Miguel, o personagem. Por sobre a malha o Ator, Miguel usa paletó, gravata, talvez chapéu. Traz uma maleta de executivo tipo 007 e várias sacolas de supermercado, uma vassoura, muito embrulhos e pacotes. Está um tanto excitado. Deposita as coisas em qualquer lugar, faz o gesto de fechar a porta. O barulho diminui, como se ficasse lá fora.)
MIGUEL — Enfim só. Longe de toda essa loucura, livre desse pesadelo que parecia sem fim. Hoje foi definitivamente o último desses... Quantos anos mesmo? Trinta, sei lá, trinta e tantos, trinta e muitos. Intermináveis anos. Eu até desisti de contar. Parecia que o tempo não passava nunca. (Noutro tom.) Mas passou. O tempo sempre passa. Essa é a única certeza que a gente tem. Fora a morte, claro. (Animado.) Mas hoje não quero pensar na morte. Quero pensar é na vida. Na minha nova vida.
(Miguel arranca o paletó, o chapéu, fica só com a gravata sobre a malha. Começa a rodar pelo palco, um tanto ridículo. Dá pulinhos de dança, sapateia, cantarola Singing in the rain ou qualquer coisa assim.)
MIGUEL — Finalmente chegou o grande dia. Miguel Quesada — o desventurado trabalhador anônimo, o solitário depressivo, o neurastênico insuportável, o mal- amado, o zé-ninguém que nunca teve nada nesta vida além de seus loucos sonhos impossíveis —, Miguel Quesada está livre. (Deslumbrado, meio pedante.) A-po-senta-do, que bela palavra! Deve ser uma das mais lindas da língua portuguesa. Não me refiro ao salário, claro. Nem às filas, evidente. Nem a toda essa miséria, lógico. (Poético.) Falo da sonoridade. Uma questão estética, não econômica. Uma palavra tão rica em melodia, tão cheia de significados. Aposentado. Após... sentado. Sentado.., em seus aposentos... em seus após. Depois... de estar sentado. Quanta tranqüilidade, quanto silencio. Ah essa coisa sagrada, o silencio. Onde habitam os anjos. No mais perfeito e absoluto silêncio. (Pausa breve e silenciosíssima.)
(Subitamente Miguel abre a porta imaginária. O ruído urbano volta, insuportável. Decibéis altíssimos, para estremecer a platéia.)
MIGUEL (Aos berros.) — Adeus, inferno! So long, bloody heil! Goodbye, neuróticos urbanos, gente que nunca me quis! Au revoir, cidade infernal do meu calvário de cada dia! Sayonara, vilie méchante da minha solidão sem remédio! Adiós, locura! Não preciso mais de vocês, mulheres que não me amaram, amigos que me traíram.
Arrivederci, gentalha! (Bate a porta. O ruído some.)
CENA 3
(Onde se revela a radical decisão de Miguel de desligar-se do defora e as providências tomadas para tanto.
Enquanto Miguel vai falando, começam a descer os três telões pintados como se fossem uma enorme biblioteca. Descem lentamente.)
MIGUEL — A partir de hoje, e até o dia da minha morte-amém, nunca mais vou sair de casa. Como Marcel Proust, como Juan Carlos Onetti. Não preciso de nada lá de fora. Tenho estas quatro... (Hesita. Olha a platéia, os telões. Por um segundo volta a ser o Ator, consciente das três paredes teatrais.) bem... estas três paredes do meu apartamento. Tenho absolutamente tudo que preciso para viver sem sair nunca mais daqui. (Vai tirando coisas das sacolas e espalhando pelo palco.) Comida, bebida, remédios, víveres para muitos e muitos anos. E também tenho minhas lembranças, minhas memórias, que modéstia à parte são muitas. (Irônico.) Nenhum mérito pessoal nisso. Afinal, qualquer homem de quase 50 anos que trabalhou sem parar desde os 15, por mais chata que tenha sido a sua vidoca — e a minha, falando franco, foi chatérrima —, qualquer homem assim pode se dar ao luxo de passar o resto da vida sem viver mais nada. Nada de “real”, quero dizer. Um homem desses pode apenas ficar lembrando, mastigando, remexendo na memória. (Melancólico.) Desde bem moço, eu sempre tive inveja dos velhos, que não precisam mais fazer coisa alguma a não ser lembrar. Como se na mente deles existisse um... um baú transbordante de memórias cintilantes como jóias preciosas. Ametistas, rubis, esmeraldas. E não importa que sejam coisas más ou tristes ou miseráveis ou cruéis. Elas já foram vividas, não oferecem mais perigo algum. (Pensativo.) Porque tem o tempo. O tempo burilao tosco. (A parte.) Bom isso, preciso tomar nota... E além do mais, tudo nesta vicia são histórias. De certa forma, todas as coisas que acontecem a um homem vivo são insuportavelmente reais, até os sonhos... O que é mesmo que eu estava dizendo? Ah, tudo nesta vida começa sempre com “era uma vez”.
(Os telões já desceram completamente. Miguel está cercado de livros. O efeito é uma tanto claustrofóbico, embora colorido. Miguel sobe no praticável.)
MIGUEL — Era uma vez Miguel Quesada, o homem que cansou de tudo e nunca mais saiu de casa. Enterrado vivo, diziam. Demente, maníaco. Mas ele não se importava. Tinha suas próprias histórias para lembrar. (Poético.) E quando eu estiver cansado de pensar no que vivi, ainda me restarão os livros, que foram sempre o que mais amei, desde menino, e que guardam outras histórias dentro deles. Todas as histórias do mundo. Que maravilha Nenhum contato com o mundo lá de fora, esse maldito mundo que chamam de “real”. Nunca mais filas nos bancos, nunca mais sinais fechados, nunca mais correrias, ansiedade, violência. Nunca mais desejo. Nunca mais pessoas, nunca mais ninguém. Só o indispensável, o essencial, o estritamente necessário. (Vai-se aproximando do telefone.) Depois, qualquer problema, sempre existe o velho e bom telefone. E só pegar e ligar. (Confere numa agenda.) Deixa ver... tenho os números da farmácia, do supermercado, da pizzaria, da locadora de vídeo, do pronto-socorro. Até da delegacia, se for preciso, a gente nunca sabe. Rápido, eficiente, moderno. Hoje em dia tudo tem entrega a domicílio. Até sexo.
CENA 4
(Da primeira invasao inevitável do chamado Real Insuportável e a maneira como Miguel lidou com isso.
O telefone toca. Miguel assusta-se, depois hesita sem saber se atende. Faz um gesto de arrancar o fio da parede. Mas reflete melhor enquanto o telefone continua tocando, muito alto, e acaba atendendo de uns três ou quatro toques.)
MIGUEL (Disfarçando a voz.) — Alô, quem tá falando? Quem? Tia Flora? Tia de quem? Ah, sei. Quer falar com quem? Miguel de que? Fala mais alto, querida, a ligação tá péssima. Melhorou. Miguel de quê mesmo? Que nada? Queijada? Ah, Quesada. Sei, sei, espanhol. Nome mais esquisito, meu bem. (Com pressa.) Não, minha filha, não tem ninguém aqui com esse nome não. Quer dizer, ter, tinha, mas não tem mais. Viajou. E, esse tal de Miguel viajou. Não, não sei pra onde, coração. Não sei de nada, viu. Nem conheço ele. Eu só fiquei com o apartamento. Liga pra informações. Hã-hã. Sinto muito, amor. Tchau.
(Miguel bate o telefone com força. Preocupado, caminha pelo palco refletindo e tentando relaxar.)
MIGUEL— Paciência, paciência. No começo vai ser assim mesmo. Afinal, nunca contei a ninguém desse meu plano. Algumas pessoas vão ligar, insistir, perguntar. Saco. Ah, mas tudo bem. Em seguida todo mundo se acostuma. (Irônico.) As pessoas esquecem umas das outra com tanta facilidade. Como é mesmo que minha mão dizia? Quem não é visto não é lembrado. Longe dos olhos, longe do coração. Pois é. Mas talvez seja melhor tomar algumas providências.
(Miguel pega uma secretária eletrônica. Aperta botões e grava uma mensagem com voz disfarçada.)
MIGUEL (Gravando.) — “Isto é uma gravação. Miguel viajou. Não disse quando volta. Talvez nunca. Inútil deixar recado depois do sinal”. (Sinal eletrônico. Miguel continua seu monólogo.) Depois, é tão pouca gente. O Guilherme do Almoxarifado... a Silvana lá do banco... O Zeca da livraria... Quem mais? Ah, a tia Flora, claro. Mas a coitada está tão velha e surda, tão esclerosada que nem vai achar estranho. (Pausa.) E tem também a Carolina. (Melancólico.) Mas a Carolina acho que nem tem meu número. Nunca pediu, nunca ofereci. (Suspira.) Nenhum pai, nenhuma mãe, nenhum irmão ou filho, nem vizinho, nem credor, nem namorada. (Fatigado.) Esperei tanto por este dia. Tanto, tanto. Foi uma luta. Sem trégua. Venci. Estou cansado. Nem sei bem por onde começar. (Espreguiça-se.) Mas não tem pressa. A partir de hoje tenho todo o tempo do mundo. Todo o tempo do mundo pra não fazer mais nada.
(Miguel deita-se na espreguiçadeira. Boceja, acomoda-se. A luz vai diminuindo enquanto ele se encolhe, se enrosca como um bebê. Quase no escuro, fala sozinho, baixinho.)
MIGUEL — Dormir... sonhar... como era mesmo? Tão, tão cansado. Só um soninho. Só um pouquinho. Ah, que sono meu Deus. Que cansaço enorme. Imenso. (Luz sobre o globo terrestre.) Do tamanho do mundo. (Dorme.)
CENA 5
(Na qual se introduz um novo e inquietante personagem, bem como sua estranha obsessâo.
Miguel está adormecido. Silêncio e paz. Luz suave sobre o globo terrestre. Entram acordes de uma melodia espanhola, talvez só castanholas ou bater de saltos. Ritmo de flamenco, ardente mas suavíssimo. Quando Miguel desperta, já está’ transformado no Homem da Mancha. Mas a transformação é sutil, gradativa. De vez em quando voltam nesse Homem as suas porções Miguel e Ator, ao mesmo tempo em que também começa a emergir o Quixote.)
HOMEM (Acorda de repente.) — A mancha, meu Deus, a mancha. Onde foi parar a mancha? Estava aqui, agora mesmo. Não pode ter sumido assim. (Procura no chão.) Bem aqui, ela estava bem aqui. Era clara, isso eu me lembro. Não era uma mancha suja, nâo era uma mancha feia. Era só... só de outra cor. Bem clarinha. Assim... como se tudo fosse branco ou preto ou cinza, e em determinado lugar dessa superfície de repente lá estivesse ela, entende? Parada, quieta. De outra cor. Azul celeste. Amarelo água. Lilás, violeta, roxa. (Meio alterado.) Não, isso não. Roxa não, pelo amor de Deus, roxa não!
(O Homem levanta-se da espreguiçadeira. Baixou o Quixote.)
QUIXOTE (Em pé, dramático.) — Ah, maldição! Certamente este deve ser mais um dos imundos encantamentos dos nigromantes do mal que tanto me atormentam!
(Homem sai procurando a mancha pelo palco. Vai caminhando em direção ao praticável enquanto fala.)
HOMEM — Não sei, não lembro. Acho que eu estava dentro dela. Não, não era assim. Não era exatamente dentro. Ela não estava em volta de mim, feito uma rede, uma teia, uma bolha. Eu estava parado no meio dela. Era isso. Como numa poça de água da chuva, eu estava. Ou era mesmo uma rede, uma jaula? Não lembro, não sei. Tão clara, meu Deus. Em algum lugar ela deve estar.
(O Homem para em frente ao globo terrestre. Sobe no praticável, senta no banquinho na mesma posição do Ator durante o Prólogo, e começa a girar o globo.)
HOMEM — As Índias... o caminho das Índias... Etiópia, Pérsia, Madagascar. E o Novo Mundo. Dizem que existe um novo mundo do outro lado do mar sem fim. Como será por lá? Como será o perfume das manhãs do Novo Mundo? Especiarias, araras, hibiscos. (Noutro tom.) Mas onde estará a mancha? Talvez aqui, um pouco ao sul de Trebizonda. Mas Trebizonda também não existe neste globo. Esquisito. Mais ao norte, quem sabe. Que estranho, aqui deveria estar localizada Pasárgada. Mas também não está. E onde estarão as Terras de Calmaritá? Gozado. Nem a leste, nem a oeste, noroeste ou sudoeste. Pode ser então que cerca de Barcelos, talvez. Ou mais acima, no caminho de Santiago de Compostella. (Agitado.) Ela tem que estar aqui, em algum lugar, eu estava dentro dela. Dentro... dentro não. Em cima, em baixo. Não sei, não lembro, não importa. Se ela não está aqui, ela não existe. E. se ela não existe, eu também não... (Leva as mãos à cabeça, apalpa-se.) A não ser que existisse apenas dentro do meu próprio cérebro. Uma mancha no meio dos meus miolos. Um ganglio, um derrame, um aneurisma. Mas não dói, não pulsa, não sangra. (Passando a mão no corpo.) No meu corpo. Na minha pele, como uma tatuagem, uma queimadura. Mas eu não sinto nada. Já disse que não sinto nada. Faz tempo que eu não sinto nada. (Começa a pular num pé só, batendo com a mão aberta no ouvido.) Nem sequer aquela sensação de quando entra água nos ouvidos. Nem mesmo um zumbido, uma vertigem, uma labirintite. Não! Nada!
(Violentamente, o Homem joga longe o globo. Depois acalma-se e começa a descer do praticável, já totalmente transformado em Quixote.)
QUIXOTE — Ah aleives, urdiduras, tramas vis! Novamente a negra falange dos devotos de Lúcifer intenta confundir-me com sua astúcia maligna! Pois saibam que não os temo, demônios! (Caminha hierático para a boca de cena e declama Mano Quintana.): “Vinde, corvos, chacais, ladrões de estrada! Da minha mão avaramente adunca! Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!”
CENA 6
(De como por momentos o Ator retoma sua voz, mas é definitivamente tomado pela figura quixotesca.
O Homem permanece parado, a mão direita cri spada e erguida dramaticamente no ar. Volta a melodia espanhola, um pouco mais forte. Então, como se fosse novamente o Ator, ele pega um livro pesado, antigo e lê com todo cuidado.)
ATOR (Lendo.) — “Miguel Esteban, Villaverde, Esquivias, Tisteafuera, Quintanar de la Orden, Argamasilla de Calatrava e Argamasilla de Alba. Eram sete os povoados que compunham a região da Mancha.” Está aqui, no livro. Este livro não mente. Era lá que estava a mancha. Foi lá que aconteceu.
(O Ator pára, com o livro erguido na mão. Entra uma voz gravada lendo a primei ra frase do Dom Quixote, de Cervantes.)
VOZ GRAVADA — “Num lugar de La Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo dos de lança em cabide, adarga antiga, rocim fraco e galgo corredor.”
(O Ator fecha o livro. E volta a ser o Homem da Mancha.
Fala em tom pedante, professoral.)
HOMEM — Senhores, por mais que minhas idéias andem perturbadas, como dizem — e talvez tenham razão — certamente as idéias deste autor não o estavam quando, para iniciar sua obra imortal, escolheu justamente a expressão “num lugar da Mancha”. Pois convenhamos, se escreveu “num lugar ” isso obviamente indica que a referida mancha ocupava — ou ocupa — lugar no espaço. Espaço físico, real. Portanto, embora não consiga encontrá-la em lugar algum, tenho provas de que existe. (Noutro tom.) E ainda que não, que importa? Em mim, dentro ou fora, ou até mesmo em volta. Rede ou ferida. Geográfica ou psicologica. Vírus ou alucinação. A mancha existe. E eu preciso enfrentá-la.
O Homem deixa o livro de lado. Começou a transmutar-se novamente em Dom Quixote. Caminha nervosamente. Apanha uma espada de plástico ou madeira.
QUIXOTE — Parece mais do que evidente que toda esta burla não passa disso mesmo. Mero engodo, reles tramóia. Maracutaia. Mas como fidalgo que sou, não me deixarei abater por patranhas vulgares. (Suspiroso.) Ah, fado meu... Devaneio e perdição. Sinto que é chegada outra vez a hora de partir à cata de aventuras. (Animado.) Lança em riste para defender-me dos vilões, dos corruptos. Nigromantes, mouros encantados, opressores de toda a aldeia global, acautelai-vos! Vossos dias estão contados.
CENA 7
(Onde o fidalgo sonhador paramenta a si mesmo de cavaleiro andante e pede a bênção aos cavaleiros que o antecederam na lida.
Enquanto fala, Quixote vai-se vestindo. Roupas e armadura são improvisadas com material retirado da maleta de executivo e/ou das sacolas que Miguel trouxe, mais objetos que já estão no palco.)
QUIXOTE — Embora temporariamente fora de combate, por conta de um mal nos rins (apalpa as cadeiras, geme) que quase me arrancou a vida, jamais deixarei de pertencer nobre ordem dos cavaleiros andantes. (Altivo.) Defensor das donzelas, amparador das viúvas e socorredor dos órfãos e desvalidos da sorte! (Para a platéia.) Mesmo que Idade do Ouro tenha passado e de seu antigo esplendor não restem mais que cinzas, mesmo que todos nós hoje nos sintamos a ponto de sucumbir sob a pata imunda desta Idade do Chumbo que a mim maltrata os rins, e a vós não sei que partes do corpo ou da mente, mas com certeza aflige também; mesmo com toda a vulgaridade e preconceito que grassa pelos quatro cantos do mundo — a profissão de cavaleiro andante deve ser preservada a qualquer custo. Por isso, além de mim, que briosamente resisto a todos os embates do destino, quero louvar bem alto a outros cavaleiros que, a duras penas, tm mantido acesa e ardente a chama da dignidade e da ética.
(Dom Quixote já está totalmente paramentado e, naturalmente, muito bizarro.
Música espanhola caliente. Quixote ergue a espada e saúda em tom vibrante. Pode até pedir palmas da platéia.)
QUIXOTE — Salve o valente Amadis de Gaula, que nunca abaixou a crista! Salve o valoroso Felismarte de Mircnia, que jamais gastou pólvora em chimango! Salve o nunca assaz louvado Tirante, o Branco, eternamente enfrentativo! E salve também Dom Belianis da Grécia e todos os outros que porventura olvidei, não por desprezo, mas por ser urgente a minha partida e curta a vossa paciência!
CENA 8
(Na qual se narra com graça e nobreza o batismo do matungo finalmente conhecido como o Veloz Rocim Rocinante.
Quixote apanha a vassoura que Miguel trouxe com as compras. Num ritual coreográfico, enfeita-a com esmero. Pendura fitas, como se fossem arreios; um bod de plumas, como se fosse a crina; improvisa uma sela com uma almofada. Tudo enquanto fala.)
QUIXOTE (Para a vassoura.) — Poderia chamar-te Pégaso, como o corcel alado do herói Belerofonte, nascido da garganta decepada da medonha Górgona. Ou talvez Bucéfalo, para render homenagem à célebre montaria de Alexandre, o Grande. Mas digo-te em segredo e cá entre nós, para que não nos oiçam os intrigantes: no meu conceito pertences a uma estirpe ainda superior à daqueles dois. Pois embora não tenhas asas nem mítico nascimento, és valente e veloz como o vento que desgrenha a copa dos olivais. Fomos feitos um para o outro e, como um centauro, um só ser seremos. Teu nome entrará para a História, amigo, e esse nome desde já imortal precisa ser alto, sonoro, resplandecente. Digno de ti e também de mim, que sobre teu dorso percorrerei uma a uma as páginas das estradas e dos séculos, séculos amém. Pelo sangue derramado das veias dos bravos tombados em batalha, meu rocim banhado pelo rocio, te batizo Rocinante em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo amém again.
(Quixote faz uma cerimoniosa curvatura para a vassoura enfeitada. Depois monta ao contrário — isto é, com as palhas em frente ao próprio rosto, como se fossem a cabeça do cavalo — e começa a trotar lentamente, sem sair do lugar.)
QUIXOTE — Pocotó, pocotó, pocotó. Rocinante, Rocinante. Vê como soa magnífico? Vê como se parece contigo? (Noutro tom.) E agora basta de cortesias. Eia! O mundo nos aguarda, meu impetuoso corcel. Vamos lá, enfrentar gigantes tenebrosos e feiticeiros malévolos. Vamos lá, desencantar brancas donzelas cativas. Vamos lá, arrancar odientos tiranos de seus sórdidos tronos de sangue. Em frente, bravo Rocinante, que a vida é curta para tanta estrada!
CENA 9
(De como se introduz na narrativa a idolatrada figura de Dulcinéia del Toboso, a bem-amada de nosso fogoso personagem.
A melodia espanhola fica mais alta, mais vibrante. Montado na vassoura-Rocinante, Quixote cavalga doidamente pelo palco, aos gritos, em louca disparada. Durante a cavalgada derruba alguns objetos, berrando com a espada erguida. Certa confusão. A música só diminui quando ele pára subitamente em frente a um manequim.)
QUIXOTE — Detém teu galope, amigo Rocinante. Não é de minha têmpera partir sem antes despedir-me, e com esmero, daquela que determina a mais funda razão de meus atos. Frente a esta divina aparição, a acenar-me — vês? — como se humana fora, a cambraia do branco lencinho marejado de lágrimas, seria profano dirigir-me a Ela montado sobre teu dorso. Detém-te pois, alimária, que aqui estremeça!
(Para o manequim, com intensa emoção.) Dulicinéia! Dulcinéia del Toboso, senhora minha!
CENA 10
(Que trata da súbita e inesperada vinda à tona do desventurado Miguel Quesada para revelar seus frustrados amores.
Ao apear de Rocinante, Quixote enreda-se nas fitas, nos adereços, e leva um tombo grosseiro. Perturbado, ainda no chão, por instantes volta a ser Miguel, o personagem, já um tanto influenciado pela linguagem de Quixote.)
MIGUEL (Para o manequim.) — Tu foste a única pessoa que poderia ter emprestado alguma cor à minha em sépia. Nunca me atrevi a dizer nada, Carolina. Eras tão distante, tão fiel a teu marido, a teus filhos, à tua vida banal e limpa de senhora honesta. Jamais ousaria pensar em mim como um amante. Eu, o homem invisível, e sem nenhuma graça, o que não nasceu para isso. (Com amarga ironia.) Colegas de trabalho... Bom-dia-boa-tarde-como-foi-o-fim-de-semanaquer-um-cafezinho-parabéns-por-favor-muito-obrigado. Amáveis, sociáveis: dispensáveis. Que horror, que lindo encontrar contigo todas as manhãs de todos estes dias de todos estes anos, Carolina. (Trágico.) Ai de mim, platônico e patético! (Sofrendo muito, geme uns versos de Fernando Pessoa/Alvaro de Campos, com leve sotaque lusitano.): “Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta, e cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, e ouviu a voz de Deus num poço tapado.”
(Subitamente Miguel recompõe-se. Pega uma mantilha espanhola, muito colorida.
Beija-a, aperta-a contra o coração. Miguel coloca a mantilha sobre os ombros do manequim. No lugar da cabeça, põe uma rosa vermelha.)
MIGUEL — Adorno teus ombros nus, Carolina, para que não te cause dano o sereno da noite. E porque sei que é inútil, como um corvo triste repito em despedida: nunca mais... nunca mais... nunca mais... (Miguel vai repetindo “nunca mais” enquanto torna a montar em Rocinante.
Volta a transformar-se em Quixote. Faz uma profunda, solene e amorosa reverência para o manequim/Dulcinéia.)
QUIXOTE — Prometo que voltarei, senhora minha. Bálsamo de minh’alma, anjo das minhas negras vigílias, asa de pássaro no meu ferido coração de guerrilheira. Pelos quatro cantos desta vasta Espanha juro glorificar vosso nome, Dulcinéia del Toboso!
(Música espanhola ardente Quixote esporeia Rocinante e sai de cena no galope Por momentos o palco fica vazio. Resta uma luz sobre o globo terrestre; outra sobre a espreguiçadeira; outra — irreal — sobre o manequim coberto pelo xale espanhol.)
CENA 11
(Dos sucessos de Dom Quixote em busca de quem o sagre cavaleiro e outras acolitecências mundanas.
Ergue-se um dos telões laterais. Sempre a trote, entra Quixote por esse espaço aberto. Em sua imaginação, está entrando no pátio de um castelo. Cumpri menta a todos, muito amável e simpático, às vezes com algumas expressões em espanhol).
QUIXOTE — Buenos dias, esforçados aldeões. Saludos, hermosas sefioritas. Mis cumprimentos, damas e cavalheiros deste encantador pueblito. (Detém-se parafalar com alguém.) Perdoai-me importuná-lo, caro mancebo, mas saberíeis vós dizer-me donde puedo encontrar o castelão deste aprazível sítio? Si, como no. E como se chama? Dom Giraldo de Villacafias, que guapo! O que? Estalagem Ao Rendez-Vous dos Javalis? Mas deve haver algum equívoco. Dom Giraldo não passa o tempo na maciota, entre coxins, cercado pelas cortesãs?
No, no. Lejos de mi duvidar de vossas palavras, morocho muchacho. Muchas gracias. Vale!
(Quixote despede-se, muito educado, e sai trotando. Vai rindo sozinho, feliz. Dá voltas pelo palco, sempre cumprimentando, enquanto reflete.)
QUIXOTE — Pensando bem, está certo. O referido Dom Giraldo deve ter afinal suas fraquezas. (Noutro tom.) Como está, Dofia Rosita? Sempre solteira? (A parte.) Perna! (Reflexivo.) Como diz o vulgo, Dom Giraldo deve apreciar beber umas e outras. Voilá, nada mais humano. (Noutro tom.) Buenos dias, Senior Bigas Luna! (A parte.) Depravado! (Reflexivo.) E além do mais, como bom administrado que parece ser, deve apreciar o contato mais íntimo com o povo. Nada mais louvável, nada mais político. (Esporeia Rocinante.) Y todavia si. E certo encontrálo na estalagem, como assegurou el pibe.
(Quixote “estaciona” Rocinante, apeia e faz uma mímica para entrar na estalagem Ao Rendez- Vous dos Javalis. Ao fundo, em 0ff ruídos de risadas, fragmentos de conversas, tinir de copos, música alta, gargalhadas. Quixote vai pedindo licença.)
QUIXOTE (Com um salamaleque.) — Nobre castelão Dom Giraldo de Viliacafias, permiti que me apresente. Sou o futuramente lendário Dom Quixote de La Mancha...
CENA 12
(Que trata da inesperada e inoportuna vinda à tona do perturbado Homem da Mancha, sempre com sua obsessão.
Os ruídos gravados cessam por completo. O Homem da Mancha voltou ao ser pronunciada apalavra “Mancha”, claro. O Homem começa a procurar.)
HOMEM — Dá licença? A mancha... ela deve estar por aqui? Pode levantar seu pé, por favor? Obrigado. Não teria o senhor por acaso visto por aí uma mancha assim... Não, assim. Não muito grande, nem muito escura também. Uma mancha clarinha. O que? (Mais alto.) Não, não. Cainha, não. Ela é barata. Quer dizer, ela não tem preço. Clarinha, eu disse. E só uma mancha. Faz favor? E que sem ela, eu não sou ninguém, moça, não moro em lugar nenhum. Homeless? Não, não sei o que é isso. Eu fico solto no espaço, me entende? (Agitado.) Porra, eu tenho que achar a bosta dessa mancha! Você entende o que estou dizendo?
(O Homem pára e olha em volta. Silêncio absoluto. Por alguns instantes, o Homem transforma-se no Ator. E o Ator, em pânico, olha a platéia. E como se tivesse um branco e esquecesse o texto.)
ATOR — ...o que estou dizendo... (Mais alto.) Dizendo... Estou dizen-do... (Disfarça, estala os dedos, à parte) A de caralho! A deixa, pelo amor de Deus!
CENA 13
(Na qual o Ator recupera seu autocontrole e garbosamente volta a ser Dom Quixote para espanto de todos.)
QUIXOTE (Muito inseguro.) — Perdão, Dom Giraldo, por este — digamos — pequeno surto, mas como eu ia dizendo, eu, Dom Quixote, encontro-me ainda nas primícias da sua, quer dizer, da minha, da nossa — digamos — saga imortal Ousei adentrar vossos domínios com meu brioso corcel, Rocinante de Tal, que lá fora encontra-se em merecido repouso, visto que — não, isso não interessa —, pois bem, sem mais delongas, no aguardo de vossa atenção, como cavaleiro andante que sou, e da pesada, Dom Giraldo de Villacaíias desejo solicitar-vos —ufa! — alimento, pousada e mais importante que tudo, enfim e ao cabo: poderíeis, com vossas nobres mãos, sagrar-me cavaleiro? (Aliciante.) Devo dizer-vos que em futuro não só próximo, mas também remoto, ou ao contrário, vossa concordancia resultará em vosso próprio louvor, posto que, como determinam os manuais de cavalaria (à parte.) — dez por cento vos parece justo? — ao sagrador Dom Giraldo de Villacafias, bem como, evidente, à musa Dulcinéia dei Toboso, of course, deverei — ufa! — honrar e defender até a morte e tudo e tal.
(Quixote sai caminhando, corno se estivesse de braço dado com Dom Giraldo, enquanto fala.)
QUIXOTE — Então, como o crepúsculo já acaricia com seus róseos dedinhos o alto das cumeeiras... (Noutro tom.) Buenas tardes, Sefiorita Santa. E como está o Sefior Montiel? (A parte.) Biscate! (Para Dom Giraldo.) ...como eu ia dizendo, ponho-me pois de imediato a velar minhas armas. Até o alvorecer permanecerei vigilante. E ao romper da aurora, Vossa Esplendidez finalizará o milenar ritual da sagrada salerosa. (Aperta uma mão imaginária.) Gracias, gracias, encantado.
Buenas noches, Señor Dom Giraldo! (A parte.) Corrupto!
CENA 14
(Dos sucessos e também insucessos de nosso herói no ato de velar suas armas, atentado pelos nigromantes.
A luz baixa. Dom Quixote tira a roupa. Pode até ficar nu, ou só de cuecas. Arruma as roupas ao lado das armas, com cuidado, sobre praticável, junto ao globo terrestre. Arma uma espécie de escultura, usando também Rocinante.
Depois senta em postura de lótus, com uma vela de sete dias numa das mãos. Ao longe, um relógio bate lento 12 badaladas. Quixote, que cochila, acorda súbito.)
QUIXOTE (Contando as badaladas finais.) — Dez... Onze... Doze. Meia-noite. Preciso estar alerta. Como um raio, um LEO — pardo, uma serpente. Esta é a mais perigosa de todas as horas. Aquela em que feiticeiros e nigromantes escolheram para seus nauseabundos batuques. Sabedores que aqui vela em solidão um cavaleiro inimigo do mal, por supuesto hão de vir importunar-me com suas perfídias. (Grita para a escuridão.) Gentalha das trevas, ogros e abantesmas: não ouseis vos aproximar de moi! Hei de resistir até o primeiro canto do gelo branco, até o primeiro raio de soi da aurora! Nada de mau há de me suceder durante esta vigília! Ninfas, arcanjos, duendes, unicórnios, salamandras, silfos, orixás e fadas: todas forças do bem estão do meu lado! além dos espíritos daqueles cavaleiros já tombados em batalha, hoje cavalgando as pradarias do infinito! (Luz sobre o manequim! Dulcinéia.) E sobretudo, como uma fortaleza inóspita cravada no centro do meu coração, encontra-se também minha bem-amada senhora Dulcinéia del Toboso. Insone e temerosa por meu fado. Ela me protege com suas orações a La Virgen de Macarefta. (A parte.) I hope so! (Para a escuridão.) Guardai distância de mim, se tendes amor a vossas peles fétidas lavradas de cascas purulentas!
(Com um movimento brusco, Quixote derruba alguma coisa na escultura. Imediatamente salta, furioso.)
QUIXOTE — Porventura sois surdos? A cera em vossos ouvidos será mais espessa que as muralhas de Jericó? Atrevei-vos a fazer barulho, abortos langanhentos? (Toma a espada, como se lutasse.) Pois então toma e toma esta em teu tentáculo nojento e outra mais em tua pata disforme e toma mais esta na tua carantonha medonha, cheia de crocotós. (Mais calmo.) Deixai-me em paz com meus pensamentos, que exigem a mais funda concentração e a mais alta filosofia.
(Quixote arruma a escultura, pega a vela e tenta retomar a posição em lótus. Mas de repente começam a jogar pedras, tomates, ovos de todas as direções. Os objetos vêem de fora de cena, junto com apupos.)
VOZES EM 0FF — Cai fora, idiota! Manda matar! Jacira! Tá muito louco! Vai-te catar! Tá pensando que é o que? Fora, babaca!
Quero meu dinheiro de volta!
CENA 15
(Onde continua a narrativa da conturbada vigília até o raiar da manhã radiosa.
Um tomate de pano ou plástico atinge Quixote na cabeça. Ele desmaia. E torna a vir à tona O Homem da Mancha.)
HOMEM (Olhando a própria pele, horrorizado.) — Ah, não... Na minha própria pele, não. Por piedade, Senhor, poupai-me. Já se foram tantos, já se foram todos. Eu devo ser um dos últimos. Eu tenho que resistir. Dai-me forças e dai-me fé, meu Deus. (Benzendo-se.) Oh puríssimo anjo Rafael, curador divino das feridas humanas, verte em minhas veias o líquido sagrado de tua ânfora dourada para purificar meu sangue!
(Subitamente um raio de luz incide sobre o rosto do Homem. Ao mesmo tempo, um galo canta ao longe. O Homem cede lugar outra vez a Quixote.)
QUIXOTE (Recuperando-se.) — Hein? O que? (Toma a espada.) Vinde, najas emboscadas! Vinde todos a mim, lacraias e morcegos, galo preto da encruzilhada! (Para a luz.) Pero... que pássa? Ah, eis o primeiro raio de sol. Oh, que tifego! (Brinca um pouco com a luz.) Amanheceu. O perigo passou, ufa. (Escuta.) Ah, eis o galo que cocorica três vezes. Que canoro Chanceler... (Aliviado.) Bueno, venci a primeira prova iniciática.
Estou pronto para o ritual de sagração. (A parte.) So!
(Começa a entrar música sacra ao fundo. Quixote tenta levantarse, mas os rins doem muito. Com as mãos nas cadeiras, ele anda com dificuldade.)
QUIXOTE (Com forte sotaque lusitano.) — Ai que já no tenho mais fresca idade, e o passar inclemente dos anos instalou-se-me direto nas cadeiras... (Suspirando.) Tivera eu comigo o poderoso bálsamo de Ferrabrás... Ai que estou a adernar feito uma caravela em plena borrasca sem ao menos ter descoberto o Brasil...
CENA 16
(Do ritual da sagrada sagração e toda a sua magnifica magnitude.
Música sacra mais alta. Ao perceber que o imagindrio Dom Giraldo entrou, Quixote recupera-se com toda a dignidade.)
QUIXOTE — Buenos dias, majestosíssimo senhor doutor Dom Giraldo de Viliacafías. Como vades, todo ritual foi cumprido a bom cabo e a contento. (A parte.) Eu sou maravilhoso! (Sério.) Deponho pois minha depauperada porém altiva carcaça a vossos mitológicos pés, para que me façais por fim cavaleiro andante a vosso serviço.
(Quixote apoia um dos joelhos no chão. Abaixa a cabeça. Permanece um momento assim. Depois levanta-se — é o Ator que assume o papel de Dom Giraldo —, pega aquele mesmo livro da Cena 6 e lê num latim errado, improvisado e monótono, com uma das mãos erguidas sobre a cabeça de Quixote.)
ATOR — “Per saeculum saeculorum dominus vobiscum peter filiis et espirictus sanctuslesbia pulchra est vanitas vanitatis summa cum laudae saculus plenus vaticanum voitilum positivus este terrae terrarum terris sumus est sun ad infmitum daementia precox amem.”
(O Ator benze o lugar onde deve estar Quixote. Pode usar uma varinha de incenso. Apanha a espada e, com a mão livre, bate três vezes em cada ombro da imaginária figura ajoelhada.)
ATOR — Pronto: acabou, acabou, acabou. Deus faça a vossa merca muito bom cavaleiro e tudo e tal e lhe dê toda a ventura na lida desta vida fodida. Et voilá!
(O Ator retoma a posição de Quixote. Quixote ergue as mãos unidas para o alto, como se orasse. Música sacra. (Talvez Bach, Haendel.) A luz dá a ilusão de vitrais. Sinos. Quixote benze-se, bate a cabeça no chão três vezes — como num terreno de candomblé — talvez coloque uma guia — e torna a vestir-se. Todo paramentado, monta novamente em Rocinante. Tem dificuldade, doem-lhe os rins. Geme, suspira. Enfim consegue. E sai trotando pelo palco, pelo lado do telão levantado.)
CENA 17
(Onde são narradas inevitáveis indecisões no início do caminho e também as curiosidades turísticas de Rocinante.)
QUIXOTE (Mastigando alguma coisa.) — Adiós, adiós, nobre Dom Giraldo de Villacafias! (Sacode um saco de moedas.) Obrigado pela verba! Claro, claro, prometo colaborar com vossa campanha. Aumento de imposto, sei. Mercado aberto às importações. Hã-hã. (A parte.) Marajá! (Trotando.) Pocotó-pocotó-pocotó. (Bate na barriga, satisfeito.) Bueno, a pança está cheia. Tudo vai bem. Jóia. Mas... onde estão as limusines? — quero dizer, as aventuras. Só vejo poeira e horizonte sem fim, a tal ponto que terra e céu parecem um só. Videiras e olivais a perder de vista. Terra mais seca esta minha, Deus. Nem sombra de gente. Tédio. Se pelo menos cruzasse meu caminho algum peregrino capaz de dizer-me onde encontrar algumas gotas do miraculoso Bálsamo de Ferrabrás para mitigar minhas dores... (Gemendo.) Ai, latejam-se-me os quartos como se alguna morocha tuviera sapateado o flamenco sobre eles... (Para Rocinante.) Dize-me lá, cavalar amigo, para onde queres ir tu? Para mim tanto se me dá, tudo que vejo é poeira. Dize-me então num relincho: o que aconselha tua soberba intuição eqüina? (Pára.) Eis aqui uma placa... (à parte) — a sinalização é péssima — indicando.., deixa ver... (Pode colocar óculos para ler melhor.) A leste, Almodóvar del Pilar; ao norte, Cafiaveras; a oeste, Alcázar de San Juan e ao sul, Alarcón. Eu preferiria toujours Almodóvar, mas deixo-te escolher. Abandono as rédeas: em tuas patas entrego meu destino.
(Rocinante empina. Relincho gravado. Rocinante — comandado por Dom Quixote, claro — dá meia-volta e toma outra direção.)
QUIXOTE — Ah, pelo visto preferes Alarcón. Queres ver o famoso castelo, não? Pois cedo a teu desejo. Com sorte há de rastejar por lá algum mouro encantado em lagartixa, que me renderia boas aventuras. (Animado.) E pode ser que deparemos até mesmo com o trevoso Marques de Villene, o mais repelente feiticeiro dos últimos sete últimos sete séculos. (Esporeia Rocinante.) Eia, mais depressa, que embora o ar esteja seco farejo na brisa o cheiro da aventura. Eu não disse? (Apontando.) Lá naquela curva ergue-se um redemoinho de pó, que se não for o demo nem anhangá ou saci, por certo gente há de ser.
CENA 18
(Em que o herói se toma de simpatias por um mancebo, ao mesmo tempo em que fustiga seu cruel feitor.
Quixote cavalga rápido. Pode haver fumaça com efeito de poeira levantada. Dá algumas voltas e pára. Fala como se fosse com um mercador chicoteando seu criado.)
QUIXOTE — Alto lá, sacripanta! Sou Dom Quixote de La Man... (Interrompe-se, lembrando das inoportunas aparições do Homem da Mancha.) Sou Dom Quixote e pronto, recém sagrado cavaleiro andante com o aval de Dom Giraldo de Viliacafias. Escuta, que mal vos fez este infeliz mancebo descamisado e com o lombo em carne viva? Ladrão? Malfeitor? (Furioso.) Não creio em vós, poltrão. Devo dizer-vos que, a meus olhos experimentados, o malfeitor mais pareceis vós, que com tanto açodamento açoitais um jovem de tão puro semblante e nobre porte. (Desmonta apressado.) Para trás, mercenário! E corre que te arranco as calças! (Debochado.) Isso, sebo nas canelas, antes que eu faça um puchero de vossas frouxas carnes! Correi, correi desembestado campo afora, fracote, e a quem encontrardes pelos cariinhos dizei bem alto que quem vos enfrentou foi Dom Quixote, o eleito da mais formosa dama do universo, a estonteante Dulcinéia del Toboso!
(Quixote curva-se para o moço supostamente amarrado. Age como se o ajudasse a levantar-se. Tudo é um tanto erótico, ambíguo.)
QUIXOTE (Para o moço.) — Está livre, lasanha. Deixa-me desembaraçar-te das amarras. Assim, isso. Nossa que músculos duros tens... E que peito mais cabeludo... (Recompondo-se.) Bem, podes partir. E não te olvides: a quem encontrares pelo caminho repete bem alto que...
(Subitamente Quixote cai por terra. O moço imaginário deu-lhe um soco na cara e saiu correndo.)
QUIXOTE (Levanta, espanando-se.) — Volta cá, cafajeste! Ingrato, velhaco, mal-agradecido! Trombadinha! Ah, bem me diziam “fazei o bem, mas olhai a quem”. Ninguém está livre de aconchegar uma víbora em seu regaço. (Apalpa os bolsos.) Cofio! Ainda por cima o bofe levou-me os últimos tostões. (Gritando.) Volta aqui, pivete! Michê!
(Quixote tenta correr atrás do moço, mas doem-lhe os rins. Desiste e torna a montar em Rocinante, um tanto deprimido.)
QUIXOTE (Gemendo, com sotaque lusitano.) — Ai que sinto cá uma fisgada, como se meus quartos fossem a boca de um bacalhau pescado pelo anzol... (Pensativo, sempre trotando.) Triste sina a de um cavaleiro andante. Tem seus momentos de glória, claro. Ainda ressoam em meus ouvidos os sinos do palácio onde fui sagrado cavaleiro, ainda sinto na pele a carícia macia das sedas nos trajes das donzelas. Ah, a textura luxuriosa do veludo adamascado na capa ritual sobre meus ombros... E o que dizer ouro bizantino dos candelabros? (Suspira.) Mas para um cavaleiro, nem tudo é luxo e ostentação. Há também momentos de humildade, solidão e modéstia. (A parte.) Saco! (Mais conformado.) Bueno, diz que quem mais se humiha, mais se exalta. Porém.., me sinto deveras solitário. Tivera ao menos um outro ser humano para... (Detém-se: insight.) Mas é claro! Tudo que preciso é de um fiel escudeiro para aliviar-me não só do peso abstrato da solidão, mas principalmente do peso bem mais concreto de toda esta traquitana. (Para Rocinante.) Meia-volta, cavalgadura. Sinto muito frustrar tua turística tournée. Tem paciência. Eis que de súbito lembrei-me de um homem muy leal e valoroso, que certamente acederá a meu convite.
(Esporeia Rocinante.) Eia! Avante! Ai-pi-ai-ô, Silver!
CENA 19
(Em que finalmente se introduz a fundamental figura do fiel escudeiro Sancho Pança.
Ergue-se o outro telão lateral. Portanto, só resta um telão, ao fundo. Quixote sai de cena por um lado e volta imediatamente pelo outro. Continua montado em Rocinante e, por uma cordinha, puxa um pequeno barril com rodas embaixo — ou sobre um carrinho, ou mesmo sobre um skate. O barril, com correntes tramadas e tralhas penduradas (canecas, machado, panelas, etc.) é Sancho Pança.)
QUIXOTE (Para Sancho.) — Esporeia teu asno, Sancho Pança, e não te metas em assuntos de cavalaria, que disso entendo eu. It’s my business, dear. Limita-te a teu ofício de escudeiro, que já não é pouco. (Irritado.) E por caridade, quando falares não o faças a favor do vento, mas contra, caso contrário bate-se-me nas fuças esse teu bafo entranhado de cebola e alho e vinho vagabundo e sei lá mais que. Como é possível rememorar os doces aromas de alfazema da perfumada Dulcinéia se teu fartum me faz cair na real? E bem sabes o quanto detesto essa tal real... (Mais paciente.) Não, não te apoquentes, calma. Digo e redigo que aquela ilha em Angra será tua assim que tivermos alguma aventura — digamos — mais substancial. Hein? Já te disse que nada entendes de cavalaria andante, caso contrário estarias farto de saber que a fortuna custa a surgir. Sossega pois a tua periquita. Logo, logo destronaremos algum tirano... desencantaremos alguma bela princesa cativa.., arrancaremos a máscara da face de alguma medonha megera... Essas coisas. E seremos regiamente recompensados, por supuesto. Prometo, prometo. Afinal, já assinei tua carteira. Até o final da temporada a prometida ilha será toda tua. Sua Excelência, o Governador Sancho Pança. Nada mal, hein?
(Quixote detém-se de repente. Estica-se e aponta para longe.)
QUIXOTE — Raios se me partam los cuemos se aquilo que avisto não é o Elmo de Mambrino! (Para Sancho.) Como não vês nada? Será que além de sonso és cego? Presta atenção, mula. Por sob aquele 1amo altaneiro vem vindo um cavaleiro a trote manso. Vês como brilha e rebrilha um adereço metálico na cabeça do cujo? Pois te juro trata-se do famigerado Elmo de Mambrino, que toma invisível a quem o possui.
Deixa-te de preguiça, homem de Deus! Põe-te em pé sobre teu asno e verás que verias o que vejo eu.
(Quixote apeia. Pega Sancho e ergue-o acima da própria cabeça. Gira-o como um periscópio até focalizar um ponto.)
QUIXOTE — Que azinheira, tapume. Nem azinheira nem pitangueira. Eu falei á-la-mo. Lá, mais abaixo. Na ribanceira, estrupício. Viste? (Irritadíssimo.) Como? Um cura com uma bacia na cabeça para proteger-se do sal? Por certo perdeste o senso, companheiro. (Devolve Sancho ao carrinho.) Então não percebes que os malditos nigromantes transformaram o cavaleiro num gordo cura de aldeia? E não percebes também que transformaram o próprio Elmo numa reles bacia? Pois te afirmo que esses grosseiros encantamentos não deterão meu ímpeto.
(Quixote torna a montar. Sai gritando com a espada, deixando Sancho parado. Quixote dá voltas por fora do palco, ouvem-se apenas os gritos. Entrevero em off. Quixote volta muito orgulhoso, com um penico na cabeça, feito chapéu.)
QUIXOTE (Para Sancho.) — Três vezes vitória, oh torvo escudeiro! Botaste reparo na desabalada carreira em que escafedeu-se o bandoleiro transmutado em cura? Ave, ave, evoé! Mais uma conquista do invencível Dom Quixote! (Acaricia o Elmo/penico.) Com o poderoso Elmo de Mambrino em minhas mãos — quer dizer, minha cabeça — as portas da glória se arreganham para nós. Sigamos portanto nosso rumo, pois tomba lânguido o crepúsculo e o fatigado cavaleiro tem precisão de um sítio ameno para repousar seus ossos.
CENA 20
(De como se faz noite e nosso herói arma o camping para o repouso enquanto lembra a bem-amada em suas orações.
A luz diminui. Noite. Quixote apeia, apeia Sancho. Tira o Elmo/penico. Alimenta Rocinante com uma cenoura. Se Sancho for mesmo um barrilzinho, tem uma torneira de onde Quixote tira vinho e bebe numa caneca de lata. Pode-se também forjar um fogo com papel celofane vermelho. Quixote estende um sleeping-bag. Mastiga um pão.)
QUIXOTE (Prepara-se para dormir.) — Convenhamos, compadre Sancho, certamente opíparo não é o adjetivo mais adequado para este frugal repasto... Causar- me-á o escorbuto tanto pão seco no bucho? Além do mais, tuas cebolas provocaram-me horrendos borborigmos. (Arrota.) Perdão: a cada dia o seu quinhão, amanhã teremos faisão. E quanto a ti, não abuses dos torresmos que não estou disposto a estremecer de susto com teus traques durante a madrugada. Dorme em paz. Sonha com tua ilha. E não olvides tuas orações, que não olvidarei as minhas.
(Deitado, as mãos unidas, Quixote reza. Luz sobre Dulcinéia/manequim. Suavíssima melodia espanhola. A luz vai diminuindo lentissimamente junto com a voz de Quixote. As últimas palavras são um sussurro na escuridão.)
QUIXOTE — “Ah! senhora das minhas ações, caríssima e incomparável Dulcinéia del Toboso, se é possível que cheguem aos teus ouvidos as preces e rogos deste teu venturoso amante, por tua inaudita beleza te peço que os escute, pois cifram-se apenas em implorar que te não recuses a dar-me o teu favor e amparo, agora que tanto deles preciso antes de embrenhar-me pela ignota região dos sonhos...”
CENA 21
(Em que o chamado Real-Insuportável desta vez mais suportável novamente interrompe o fluxo e o devaneio.
Luz súbita sobre o telefone. Toca três vezes. Atende uma secretária eletrônica, com aquele recado de Miguel. (Vide Cena 6.))
VOZ DE MIGUEL (Na secretária.) — “Isto é uma gravação. Miguel viajou. No disse quando volta. Talvez nunca. Inútil deixar recado depois do sinal.”
(Ouve-se um irritante bip eletrônico. Enquanto dura o bip e, logo após, a voz de Guilherme na secretária. Quixote levanta-se e vai caminhando até a espreguiçadeira. Deita-se.)
VOZ MASCULINA — Alô, Miguel? Recado esquisito, meu. E vida boa, hein? Mal se aposentou e já viajou. Quem me dera. Olha, aqui é o Guilherme do Almoxarifado. Escuta, se você estiver por aí atende, porra. Eu só queria convidar você prumas cervejas, viu. Quem sabe um uisquinho, uns tira-gostos pra gente comemorar a tua liberdade. Eu pago, faço questão. Olhe, tem umas gatas aí super-afins. Coisa fina. Alô, Miguel? Tá me ouvindo? Tá bom, deixa pra lá. Tchau.
(Ruído eletrônico. A secretária se cala. Luz sobre a espreguiçadeira. Quando o bip da máquina desliga, Quixote acorda bruscamente. Está transformado em Miguel Quesada, o personagem.)
MIGUEL (Amargo.) — Cerveja, uisquinho, tira-gosto. Mas você nunca me convidou pra nada, Guilherme. Durante pelo menos 30 anos você só me ligou pra falar de coisas de trabalho. Circular, demissão, oleriti, fundo de garantia, décimo terceiro, dissídio. Mais de 30 anos. Agora é tarde, Guilherme. Eu cansei. Me esquece. Eu fui-me embora daqui.
CENA 22
(Do que aprontaram os nigromantes incompetentes com nosso herói durante a noite, seguido do despertar.
Subitamente Miguel volta a ser Quixote, que desperta na espreguiçadeira e, para seu espanto, não no chão aonde adormecera ao lado de Sancho.)
QUIXOTE (Dando um pulo.) — Maldição! Se sonâmbulo não o sou, como é possível dormir lá e acordar cá? Ah, vejo que os magos da treva andaram a mangar comigo durante o sono... (Para o nada.) Covardes, incompetentes! Tivésseis reais poderes ter-me-íeis levado até as lonjuras da Beldregúndia... aos confins da Longelândia... à remota Quintanópolis... Que truquezinho mais chinfrim, moleque da alta magia! Dessa maneira envergonhais a memória de vosso ancestral Merlin, de vossa amada Morgana. Devem estar todos rindo à socapa de vossa idiotia, oh nigromantes nigrinhas...
(Discretamente Quixote faz xixi num cantinho. Depois faz como se lavasse as mãos e o rosto. Tosse, cospe, bufa. Depois vai resmungando até Sancho. Sacode-o, abre a torneira, bebe café. Bochecha, cospe. Tudo isso enquanto desfaz o acampamento e recoloca Sancho sobre o carrinho.)
QUIXOTE — Vite, vite! Apura que se faz hora, companheiro Sancho. Onde pensas que estás? Refestelado numa hospedaria cinco estrelas? Toma aí teu petit-dejeuner e avia-te presto, bundone. Trotear é preciso, antes que rompa a manhã. (Montado, vai puxando Sancho pela cordinha.) Então, fala-me de teus sonhos, meu compadre. Sei, lingüiças. De ouro? Veja só. Dona Sancha e as cinco Sanchinhas? Sei, sei. Interessante. (Vai ficando entendido.) Hã-hã. Odres de vinho. Branco ou tinto? Sei, rosée. (A parte.) Que pobreza. (Reflexivo.) Oquei, quanto a mim creio que tive um sonho... premonitório. Te crês que ainda está caliente e a dar-se vueltas y más vueltas cá pelos cornos? (Visionário.) Vislumbrei maquinarias tão intrigantes, com engenhos a tal ponto indescritíveis... Faltam-se-me as palavras — o que é raro — para descrevê-los. Mas logo ao despertar tive a segura intuição que, antes que o sol alcance o meio do céu, depararemos com uma extraordinária aventura. Será quiçá o gigante Briaréu? Será a temível sábia Mentironiana? Será o monstro do Lago Ness? (Esporeia Rocinante.) Vai afiando teus gumes, meu amigo. A chave confirma: é hoje!
CENA 23
(Onde se narra o extraordinário acontecimento com a mutação eletrônica do gigante Briaréu e seus asseclas.
(Enquanto Quixote e Sancho trotam, começa a subir o telão do fundo. Tão lentamente que Quixote só o percebe quando está totalmente levantado. Atrás do telão há um bizarro totem em forma de escultura. E formado por um pedestal de aparelhos de TV(reais ou de papelão, mas se reais, cada um sintonizado num canal diferente), mais jornais, revistas, microfones e fios colados. O cenógrafo é livre para escolher vários símbolos da Mídia. Sobre esse pedestal, lá no alto, vê-se uma enorme antena parabólica. Que também pode ser real ou de arame, papiermachê ou qualquer outro material Seria sensacional se pudesse girar, emitindo raios e sons estranhos, eletrônicos, descargas estáticas de rádio, plimplim da Globo, além de fragmentos de jingles, frases e trechos de música em vários idiomas. Esse é o Moinho de Vento.)
QUIXOTE (Percebendo o totem-Moinho.) — Uau! Me cago en la concha de Maria Santíssima! U-lá-lá, vejo que aqui temos aventura da grossa! Arrete, amigo Sancho.
(Quixote apeia de Rocinante. Vai-se aproximando do totem com muita prudência e alguns sustos, enquanto fala com Sancho.)
QUIXOTE — Sancho de Deus, no lo creo em meus bugalhos! Estás a ver como eu todos esses anões amontoados uns sobre os ombros dos outros com aquele gigantão estalado lá em riba? Por Picasso! Olha só o monstro lá do alto girando seu único braço em direção ao céu. Quanta arrogância! Que enfrentativo ele é! Ah, bem que meu sonho me avisou. Esta côsa lôca nada mais é que o monstruoso Briaréu em carne e osso. Por El Greco, que me cago hasta en la leche de mi puta madra!
(Quixote examina as TVs, fascinado e aterrorizado. Dependendo das imagens — se forem reais — o Ator pode improvisar alguns comentários, reconhecendo conhecidos, etc.)
QUIXOTE — Já dobrei meio século de Karma e nunca jamais en toda mi perra vida tropecei em tamanha trola. E estarrecedor! E estupefaciente! (Gritando.) Mas é sobretudo um estorvo! Não fujais, estúrdias criaturas do fundo do íntimo do âmago do mais longínquo Hades! O bravo cavaleiro desafia a própria morte e contra vós investe!
(Espada em riste, Quixote joga-se furiosamente contra o totem.)
QUIXOTE (Aos berros.) — Chegou tua hora, horrendo Briaréu! Vai encomendando tua alma a Leviathan. Hei de decepar esse teu braço repugnante para jogá -o aos cães danados! Hei de cravar uma estaca de madeira santa no teu podre coração, vampiro imundo! (Benze-se.) Valeime, minha doce Dulcinéia, que neste embate aposto minha honra. E chegado o vosso fim, finalmente, fiisteus!
(Quixote tenta escalar o totem. Talvez até consiga, um pouco, mas acaba levando um grande tombo. Se forem reais, as TVs nesse momento saem do ar. Ficam nas telas apenas aqueles riscos verticais, zumbindo.)
QUIXOTE (Por terra, geme e apalpa os rins.) — Caluda, companheiro Sancho, fecha tua matraca e me deixa em paz. Moinhos de vento? Capaz! Não percebeste, trolha, que no último instante, quando eu já saboreava o gosto da vitória, que o nefasto mago Freston transformou anões e gigantes nessas máquinas dementes? (Levanta, altivo.) Felizmente meus futuros cronistas, biógrafos, exegetas, fãs e etc. haverão de fazer justiça. (Para a platéia.) Haveria por acaso algum biógrafo entre vós? Um escritor, quiçá? Um jornalista, ao menos? Algum fotógrafo, quem sabe? Um video maker que seja? Mas nem sequer um mísero cineasta? (A parte.) Ai, que se me esnoba a mídia estou fodido... (Para Sancho.) E tu atoleimado, não esqueça de espalhar aos quatro — aos quatro não, aos sete — ventos que teu amo e senhor Dom Quixote teve a audácia de enfrentar Briaréu. (A parte.) Afinal, o boca-a-boca sempre funciona...
CENA 24
(De como a saia se ajusta pouco a pouco e todos os caminhos começam a parecer sem saída.
Quixote torna a montar. Sai a trote, puxando Sancho em direção a um dos lados do palco. Enquanto ele trota, despenca violentamente um telão lateral. Quixote dá de cara no telão.)
QUIXOTE — Valha-me Lope de Vega, que os caminhos se me ajustam qual saia sem fenda em nesga! (Para Sancho.) Anota em tua agenda, escudeiro: nesta vida às vezes é preciso saber recuar. Ponto. Como quem teme. Ponto. Mas não temer jamais, vírgula, e sim buscar discreto pelo atalho menos evidente e mais propício. Ponto final. O que? Precipício não, lesado: pro-pí-ci-o. (Esporeando Rocinante.) Em frente, fogoso corcel, que nada nem ninguém nos deterá.
(Quixote galopa a todo vapor para o lado oposto. De repente cai também o outro telâo. E outra vez Quixote dá de cara no telão.)
QUIXOTE (Filosófico.) Well, well, well. Parece que os corruptos nigromantes donos do poder querem mesmo me enlouquecer. Em vão, patetas! Não fora eu quem a História confirmará que fui e continuo sendo, e o futuro me absolve!
(Quixote olha para o fundo, onde ainda está o totem já apagado. Começa a caminhar para lá, puxando Rocinante por uma das mãos e Sancho pela outra.)
QUIXOTE — Vejo que ainda resta um caminho. Um mísero e único caminho. O mais estreito, o mais melancólico de todos. O mais perigoso, o mais solitário. Mas cuernos, parece mesmo o único, que se há de fazer? (Avança, tapando o nariz.) Por Antonio Banderas, que medonha fedentina! Dir-se-ia que este sítio está juncado de cadáveres em franco estado de putrefação. Abutres, hienas. Ah quanta miséria. Juro que nunca pensei. Oxalá os pestilentos miasmas da sórdida matéria viva em decomposição não arruínem ainda mais minha depauperada saúde. (Para os céus.) Valei-me, Augusto dos Anjos!
(Quixote abandona Rocinante e Sancho. Tira o Elmo/penico e pendura-o num dos ganchinhos de Sancho. Olha em volta. Anda pé ante pé, equilibrando-se como numa corda bamba. Pela primeira vez parece frágil, inseguro, assustado.)
QUIXOTE — Bueno, já que prudência e covardia sinônimo não são, meus caros amigos, talvez seja melhor investigar bem esta vereda que se me afigura sem salvação. Cabeça fresca, passo comedido, respiração ritmada. (Equilibra-se, quase cai, mas recupera-se e bate no peito.) Mas o coração — ah, o coração eternamente enfrentativo! (Erguendo um braço com os dedos em figa.) Vade retro, vudu bestial! Falange de eguns, Exu caveira, meu nome em boca de sapo: definitivamente xô!
CENA 25
(Na qual todas as porções anteriores vêm subitamente à tona numa verdadeira apoteose esquizofrênica & pós-moderna.
Quixote está em frente ao impassível totem-Moinho. Dos lados, já caíram os dois telões. O telão à frente do totem também começa a descer, mas lentamente, milímetro por milímetro. Então acontece a Grande Divisão Esquizofrênica. Sem controle algum, os personagens anteriores — Ator, Miguel Quesada, o Homem da Mancha — começam a emergir caoticamente. Cada um quer tomar o poder e falar. Também começa a emergir em Quixote o último personagem — o Cavaleiro da Triste Figura.)
QUIXOTE — Triste, triste figura a minha. Tão magro sou, tão seco de carnes. Já quase nem tenho dentes, que forem-se-me os molares. E me fugiram os fios de cabelo, como espantados por meus loucos sonhos. As coisas se me encurvam de fadiga, o peito se me encava de desgosto. (Tosse.) Esta rede de rugas no meu rosto... e as mãos me tremem como de ressaca. (Para o céu, meio grego.) Meu regente Marte, senhor da guerra, Ogunh, por que me abandonaste? Oh Saturno, implacável Senhor do Tempo, impiedoso Cronos: poupai-me do envilecer da carne viva!
ATOR — Não se pode ir em frente. É impossível recuar. Ficar parado seria fatal. Ah, fugir. Desaparecer. Não fazer, não agir. Cair no esquecimento. Esquecimento... de que? Não consigo lembrar. Merda de memória!
HOMEM — A coisa mais triste do mundo é a pele. Fronteira, limite que nos separa dos outros e das coisas. A pele é intransponível como uma malha. (Olhando as mãos.) E tem manchas tristes, tristes, tristes.
MIGUEL — Eu não sabia, Senhor, que o mundo era tão vasto e doloroso. E que desejando a vastidão do mundo meu coração conheceria também a vastidão da dor. Por que, Senhor Meu, permitiste que eu tentasse fugir da minha pequenez? Por que me deste todos esses sonhos, muito maiores di que eu?
QUIXOTE — Dulcinéia, minha estrela da manhã. (Recita Manuel Bandeira.) “Pura ou degradada até a última baixeza eu quero a estrela da manhã!”
ATOR (Citando Vicente Pereira.) — “Sempre quando tiveres mais de três pessoas reunidas e for falado o nome de Deus, eu estarei entre eles. Mas sempre com um decote bem profundo.” (Noutro tom.) “Segura o turbante, meu bem, e sente o ritmo.”
MIGUEL (Citando Machado de Assis.) — Carolina! “Querida, ao
pé do leito derradeiro!”
QUIXOTE — Soltem os leões!
HOMEM — Como as atrizes e cantoras que desaparecem para sempre, eu também quero outra coisa.
ATOR — Astaroth, Asmodeu! Belial, Belfégor!
MIGUEL — Fechar as portas, bater as portas, trancar as portas. Tragam-me chaves, correntes, cadeados. Dêem-me o claustro que não suporto o outro. Ponham-me grades, que não agüento o vivo!
QUIXOTE (Bem espanhol.) — Ay que me muero!
HOMEM — O vômito. Além do vômito, a lágrima.
ATOR (Citando Nelson Rodrigues.) — “Herculano, aqui quem te fala é uma morta!”
HOMEM — Além da lágrima, a prece, Meu Deus. Ou o cinismo.
QUIXOTE (Citando Sun-Tzu. “A arte da Guerra”.) — “Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo. Mesmo em cem batalhas, nunca correrá perigo. Aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo. As vezes ganha, às vezes perde. Aquele que não conhece nem o inimigo nem a si mesmo. Em todas as batalhas será vencido.”
ATOR (Citando Clarice Lispector.) — “Ter nascido me estragou a saúde.”
MIGUEL — A saída, onde fica a saída? Eu preciso encontrar a saída!
QUIXOTE — Nasci para viver morrendo, e tu para viver comendo.
HOMEM — Além da prece, o riso. O riso a que não me atrevo. Ah, o humor dos palhaços, das crianças, dos que fumam maconha para falar bobagens... Quem me dera o humor dos anjos.
ATOR (Citando Oswald de Andrade.) — “Ah o amor, o amor, o amor: eu quero porque quero da vida!”
HOMEM — Socorram-me que me afogo em meu próprio sangue, em minha própria mancha!
QUIXOTE — Ay ay ay que me muero!
(Na cara de Quixote cai finalmente o terceiro telão, escondendo por completo o totem-Moinho. A luz fica mais clara, feérica. Quando
Quixote volta-se para o público, está transformado no Ator.)
CENA 26
(Onde um alegre circo subitamente dá lugar ao deprimido e deprimente Cavaleiro da Triste Figura.)
ATOR (Braços abertos, bem circense.) — Respeitável público! Senhores e senhoras, rapazes e senhoritas: boa-noite!
(Música circense bem animada. Efeitos feéricos de luz. O Ator pode fazer mágicas, tipo tirar infinitos de dentro do Elmo/penico. Suspensa por um fio de nylon, despenca do alto do palco uma enorme lua em purpurina prateada. Ao ver a lua o Ator pára. A música também pára. O Ator transformou-se novamente em Quixote que, por sua vez, já se transformou no Cavaleiro da Triste Figura.)
TRISTE (Para a lua.) — Cavaleiro da Branca Lua, vencido estou. Branca, branca lua: a teus pés de prata deponho meus arroubos. Oh Lua, desalmada e feiticeira... Tamanha surra me deste, Cavaleiro da Branca Lua, que já no valho um furo sequer da sola das tuas negras botas. Adeus, dias de vinho e rosas. (Caidaço, acabado.) Ah, esqueceme. Esqueçam-me todos. Estou exausto desta farsa. (Para Rocinante.) Esquece-me também tu, indomável Rocinante, que aprimorou meu porte e suportou meus ossos. (Para Sancho.) Esquece-me incluso tu, o mais amoroso e leal de todos os escudeiros de toda a história de toda a cavalaria andante. (Amargo, acariciando o barrilzinho.) Mais do que nunca, companheiro Sancho, tornei-me agora exato e justo a alcunha que um dia me deste: Cavaleiro da Triste Figura. (A parte.) Que vexame...
Triste caminha até o manequim/Dulcinéia. Começa a colocar suas próprias roupas sobre o xale do manequim. Retira apenas a rosa vermelha que mantém nas mãos Enfia na cabeça o Elmo/penico e começa a caminhar em direção à espreguiçadeira.
TRISTE (Cada vez mais curvado.) — Lá vai ele, sombra de gente. Farrapo humano, destroço, soçobro de si mesmo. Lancem-lhe apupos, que endoideceu. Escarrem-lhe na cara, que ensandeceu. Joguem-lhe ovos podres, tomates murchos e ratos morto, que desatinou e nunca mais voltou. (Mais alto, com fúria.) Joguem- lhe bosta, que nunca foi nada!
EPÍLOGO
(Onde se encerra a narrativa falando da morte, da vida, da saúde, do amor e do azul.
Triste pára junto à espreguiçadeira. Tira o penico da cabeça e coloca-o embaixo.
Está vestido apenas com a malha, como o Ator no Prólogo. Triste vai falando enquanto deita, a rosa vermelha sempre nas mãos.)
TRISTE — Perdoai-me todos, se a alguns fiz mal. É que fugiu-seme a razão, dizem, por longo tempo, e só me torna agora. Tarde demais, pois a morte já anunciou sua chegada. Que louco sonho ou pesadelo foi a minha vida, a tua vida, as nossas vidas. Ah, somos todos inocentes nesta barca da Medusa a navegar insânias. E eu de nada me arrependo. (Recita García Lorca, num último alento:) “Si muero, / dejad el balcón abierto. // El nino come naranjas. / (Desde mi balcón lo veo.) // El segador siega el trigo. // (Desde mi balcón lo siento.) //Si muero, / dejad el balcón abierto!” (Com um esforço derradeiro, Triste joga a rosa para a platéia. Leva a mão ao peito, geme.) Ay que me muero! (Cai deitado na espreguiçadeira, imóvel.)
Do teto começa a cair uma chuva de confetes coloridos sobre Triste morto. Uma cuíca geme ao fundo, ao longe, ou remotíssima batucada. Começam a subir ao mesmo tempo os três telões. A lua permanece.
HOMEM (Levanta, espanando os confetes, consultando o relógio. Fala com um psicanalista imaginário.) — Já? Mas hoje eu quase nem disse nada. Nem você. Aliás, você nunca diz nada. E muito caro pra não dizer nada. No que é que eu estou pensando agora? Na mancha, é claro. Eu penso nela o tempo todo. Você melhor do que ninguém sabe disso. (Procura pelo chão.) Ela tem que estar aqui. Aqui, ali. Assim não é possível. Não pode desaparecer assim. (Desinteressado.) AH, deixa pra lá. Dentro ou fora de mim, já cansei dessa história. Quer saber do que mais? Caguei: K-Gay!
O telefone começa a tocar. Já transformado em Miguel o Homem precipita-se para atender. Mas a secretária eletrônica é mais rápida.
VOZ GRAVADA — “Isto é uma gravação. Miguel...”
Miguel aperta um botão e desliga a secretária. Atende sôfrego.
MIGUEL (Ao telefone.) — Alô, quer falar com quem? Miguel? Sou eu mesmo, pode falar. Quem gostaria? (Sorrindo, surpreso e feliz.) Carolina? Nossa... eu nunca pensei que... Como? Ah, então você recebeu a minha carta? (Confiante, animado.) Eu também, eu também. Muita falta. Que bom, vamos sim, vamos nos ver. Claro, claro. Hoje mesmo?
Miguel estaca sorrindo ao telefone. Os três telões terminaram de subir. Miguel deposita suavemente o telefone. Já transformado em Ator, caminha até o praticável . Senta no banquinho em frente ao globo terrestre. Os telões sumiram. Resta o palco e poucos elementos espalhados, como despojos de uma batalha. E a lua, lá no alto.
Toca um sinal de início de espetáculo. O Ator não se move. O sinal repete duas, três vezes enquanto o Ator volta a sentar no banquinho do início.
ATOR (Estremecendo.) — Hã? Hein? O que? Quem? (Gira lentamente o globo, com o indicador apontado.) Ah, é verdade. A gente sempre esquece. Quem vê lá do espaço, eu de longe lá do alto — diz que a Terra é azul. Deve ser mesmo. (Pára o globo, procura e aponta.) Aqui. Bem aqui. Exatamente aqui. (Olhando em direções diferentes, como no Prólogo, repete sete vezes cada vez mais baixo, enquanto a luz diminui em resistência.) Sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim.
Música espanhola vibrante, vigorosa, vital.
(São Paulo, Carnaval de 1994)