Tempestade no Paraíso
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Tempestade no Paraíso
Tempestuos Eden
Heather Graham
Besteseller 82
APAIXONADA... SEDUZIDA... ATORMENTADA!
O agente secreto Craig Taylor tem instruções para empregar todo e qualquer estratagema possível para tirar Blair Morgan de uma região conturbada da América Central, onde ela presta trabalho humanitário. A missão de Craig é sigilosa, e ele é obrigado a mentir para Blair... o que não a impede, de apaixonar-se por ele.
Desde que perdeu o marido num atentado, Blair tem medo de arriscar novamente o coração. Mas o atraente Craig possui tudo o que ela pode desejar de um homem. As ardentes noites de paixão compartilhadas por ambos abalam as defesas de Blair, até o momento em que ele a sequestra e a torna sua refém, dentro da missão de resgate.
Inconformada por ter sido usada como trunfo numa trama política internacional, Blair luta para afastar do pensamento o homem a quem se entregou de Corpo e alma. Trava-se então um duelo de desejos e de emoções arrebatadoras entre um homem sedutor e uma mulher orgulhosa...
Digitalização e Revisão: Alice Akeru
Bestseller 82 – Tempestade no Paraíso (Tempestuous Eden) Heather Graham
Heather Graham já recebeu inúmeros prêmios por seus romances. Só da revista Romantic Times foram mais de vinte premiações. Seus livros são traduzidos para mais de quinze idiomas e publicados no mundo inteiro, atingindo um total de dez milhões de exemplares vendidos. Mãe de cinco filhos, Heather mora no sul da Flórida e adora viajar.
Querida leitora,
Mais um romance da brilhante autora Heather Graham que escreve com extrema habilidade. Uma história surpreendente do início ao fim!
Leonice Pomponio
Editora
Copyright © 1983 by Heather Graham
Originalmente publicado em 1983 pela Kensington Publishing Corp.
PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP.
NY, NY-USA Todos os direitos reservados.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.
TÍTULO ORIGINAL: Tempestuous Eden
EDIÇÃO/TEXTO Tradução: J. Alexandre
EDITORA Leonice Pomponio
ARTE Ana Suely S. Dobón e Mônica Maldonado
ILUSTRAÇÃO Hankins + Tegenborg, Ltd.
PAGINAÇÃO Dany Editora Ltda.
COMERCIAL / MARKETING Daniella Tucci
PRODUÇÃO GRÁFICA Sônia Sassi
© 2005 Editora Nova Cultural Ltda.
Rua Paes Leme, 524 – 10° andar - Cep 05424-010 - São Paulo - SP
www.novacultural.com.br
Impressão r Acabamento: RR Donnelley Moore Tel.:(55 11)2148-3500
Bestseller 82 – Tempestade no Paraíso (Tempestuous Eden) Heather Graham
Prólogo
MEMO
De: Taylor
Para: G.M.
Chefe,
Quanto a seu último pedido, tenho só uma pergunta: por quê?
Taylor
MEMO
De: G.M.
Para: Taylor
Tenho só uma resposta: é sigiloso!
Suas instruções são concisas. Grude na filha de Huntington, mantenha-a segura e no escuro. Mexa-se quando ordenado.
G.M.
MEMO
De: Taylor
Para: G.M.
Senhor,
Faça-me o favor! Já encarei tiros na Irlanda do Norte, bombas no Oriente Médio, disenteria na África. Não apronte essa comigo. Sou péssimo para pajear uma aristocrata de Washington.
Taylor
P.S. Não dá para me mandar de volta aos tiros, bombas ou disenteria?
MEMO
De: G.M.
Para: Taylor
Rapaz,
Sinto muito, mas dessa vez não dá! Os maiorais escolheram você. Veja a missão como férias, com direito a um pedaço de bolo.
G.M.
MEMO
De: Taylor
Para: G.M.
Chefe,
Nunca gostei de doces. Por que não manda John Denner? É muito mais o estilo dele.
Taylor
Bestseller 82 – Tempestade no Paraíso (Tempestuous Eden) Heather Graham
MEMO
De: G.M.
Para: Taylor
Taylor,
Já ouviu falar que homens de verdade não comem doces? O escalão superior decidiu, minhas mãos estão atadas. Repito: considere como férias.
G.M.
MEMO
De: Taylor
Para: G.M.
Caro senhor,
Proteger uma dondoca da sociedade não é a ideia que faço de férias. Apesar do sigilo, ela não pode ser convencida a tirar seu belo corpinho da América Central?
Taylor
MEMO
De: G.M.
Para: Taylor
Taylor,
A mulher a quem você foi designado a proteger não é criança, mas isso não vem ao caso. A resposta continua sendo confidencial.
G.M.
P.S. Se você se preocupa com o tédio, relaxe. Nossa socialite é uma gata selvagem e independente, que sabe fazer bombas e dar tiros.
MEMO
De: Taylor
Para: G.M.
Chefe,
Obrigado. Ave, César!
Os que vão morrer te saúdam.
Taylor
MEMO
De: G.M.
Para: Taylor
Taylor,
O encontro com Huntington está marcado para amanhã, às nove em ponto. Não se atrase.
G.M.
Bestseller 82 – Tempestade no Paraíso (Tempestuous Eden) Heather Graham
O homem que permanecia à janela do exíguo e elegante escritório não poderia ser definido como jovem, embora sua postura fosse firme. Um tufo de cabelos brancos lhe encimava a cabeça. O rosto, marcado pela idade e pela vida agitada que ele escolhera levar, continha uma expressão de generosa dignidade, evocando um patriarca. Claro que ele riria, com seu fino humor, caso ouvisse alguém chamá-lo assim. Porque aquele senhor possuía outro traço raro de caráter, para quem era dono de tanto poder: humildade.
Em quatro décadas de serviço, Andrew Huntington havia visto de tudo, mas seu coração não se endurecera.
Ele voltou-se da janela para sua escrivaninha, onde pastas de papelão pardo guardavam recortes de jornais. Bastou um olhar rápido para relembrar a história, que conhecia de cor. Uma história falsa, mas não por culpa do repórter.
...parece que o pior já passou. Com o novo governo entronizado no poder, a atividade da guerrilha é mínima, concentrando-se apenas perto da capital e nas fronteiras. Esta terra pobre e sofrida aparenta dar os primeiros passos no sentido da recuperação, habilitando-se à ajuda dos Estados Unidos e outros países aliados, bem como de organizações internacionais. Roberto Estevez, o novo ministro das Relações Exteriores, anunciou ontem: “A paz pela qual tanto lutamos está agora ao nosso alcance...”
Andrew Huntington não era dado a acessos de raiva, mas um violento golpe de mão fez voar os recortes para o piso, enquanto um xingamento descrevia exatamente o que ele pesava do conteúdo dos papéis. Desde o instante em que vira o artigo, dias antes, percebera que era hora de mover as engrenagens. Sim, os guerrilheiros andavam quietos. Mas porquanto tempo, já que o prêmio pretendido, o poder, fora-lhes retirado?
Sigiloso! O termo lhe veio à mente com um travo de dor. A mesma palavra havia guiado sua vida por muitos anos.
Tinha chegado a hora de se prevalecer das amizades feitas nas altas esferas do governo. Daí, como consequência, o encontro matinal com um visitante desconhecido, mas bem recomendado.
Huntington pediu-lhe para entrar e, por um momento, sofreu um lampejo de nostalgia. Tempos atrás, também ele tivera aquele porte imponente, aqueles músculos de aço, aqueles traços duros.
Mas a temperança pela idade limitara seus poderes a desejos ou lembranças, e agora os usaria, dando o melhor de si, em prol da pessoa que ainda significava algo em sua vida.
O estranho, de alta estatura e físico atlético, tivera sua ficha vasculhada, a carreira observada por tempo suficiente para ser considerado confiável. Era um homem leal, apegado a princípios retos, e às vezes embaraçosamente franco.
— Obrigado por ter vindo.
Ambos trocaram um abraço, com vigorosas palmadas nas costas, e ainda assim o homem mais velho não sorriu. Devia saber como Craig Taylor considerava odiosa a tarefa que lhe fora atribuída. Pena, mas Huntington jamais pedira favores para si. Agora, julgava ter direito a um.
— Sente-se, por gentileza.
Craig Taylor obedeceu. Cruzou as longas pernas com negligência e alcançou, no bolso interno do impecável paletó, uma cigarreira prateada. Huntington avaliou que o objeto destoava de pessoas com menos idade do que ele próprio, mas a elegância com que o cigarro foi aceso destravou o sorriso retido em seus lábios. Apesar das maneiras polidas, o visitante
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exalava força e determinação.
Nada ou quase nada sabia sobre o que o esperava, mas era perfeito para a tarefa.
— Creio que você já tem os detalhes essenciais da missão, porém quis conhecê-lo pessoalmente e transmitir meus agradecimentos.
Ao expirar a fumaça, Taylor revelou dentes regulares e alvos.
— Não vou mentir, senhor. Estou aborrecido com este trabalho.
— Mas sei que dará o melhor de si. — Foi uma afirmação, não uma pergunta.
— Certamente o senhor precisa disso. — Taylor deu de ombros, despertando mais um sorriso no homem mais velho. — Mas a missão tem potencial para se tornar difícil e perigosa. Não compreendo. Por que apenas não pediu que...
— Por favor... — Com um aceno de mão, Huntington calou o visitante. — Não posso "pedir". Minha filha Blair tem quase trinta anos. É madura, responsável e inteligente. A partir daí, voltamos ao timbre de sigiloso. As ordens vieram diretamente da Casa Branca, e por isso não há mais como ela sair da América Central por meios convencionais. Coisas terríveis poderiam acontecer. — Uma sombra de medo turvou-lhe os olhos. — Se ela acreditar que você é um terrorista, terá chances de sobreviver. Blair tem coragem e bom humor.
— Mas, senhor... — Taylor sofreu um momento de desconforto, — É mais provável que ela lute contra mim...
— Sim, e nesse caso você empregará qualquer meio para mantê-la segura. Pode contar com o prazo de um mês. Até lá, nosso governo terá tudo sob controle.
— Qualquer meio, senhor?
Na pausa que guardou, Huntington estremeceu sob o olhar felino do visitante. Suspirou e depois meneou a cabeça. Ferimentos e escoriações no corpo e na alma, ao longo de sua carreira, já haviam cicatrizado, assim como a fria raiva dera lugar à sabedoria.
Só o ato de viver não poderia ser redimido.
Qualquer meio — ele ecoou com suavidade. — Basta mantê-la em segurança e, no momento oportuno, tirá-la de lá.
Huntington mal reconheceu Craig Taylor dentro da limusine oficial, na manhã seguinte. Não percebera, antes, que os cabelos castanhos bem penteados eram tão longos, nem que a barba de um dia poderia tornar-lhe as feições mais severas. O terno azul tinha sido trocado por calça jeans e camisa azul-clara. Botas surradas cobriam seus pés.
Perfeito. Nenhuma pista para a real identidade dele.
— Aqui está o retrato que lhe prometi. — O veterano político passou às mãos do jovem agente uma cópia colorida, desbotada, enquanto suas feições se contorciam de aflição. —: Blair é tudo o que me resta, entende?
— Claro, senhor.
Era a fotografia de uma mulher de olhos muito verdes, esmeraldinos. "Princesa" pareceu-lhe o termo ideal para definir a figura que o contemplava imperiosamente, exibindo uma luz profunda e ao mesmo tempo divertida, por conta dos lábios grossos, estreitados em um sorriso. Os cabelos cascateavam até o meio das costas, em um tom de ruivo sedoso que parecia roubar todo o sol necessário à tomada da imagem.
O refinamento e a delicadeza correspondiam aos do pai, mas a sensualidade era própria, marcada por um traço de orgulhosa altivez.
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"Meu Deus", pensou Taylor. "Realmente, vou pajear uma modelo cobiçada pelas revistas de moda!" Quando olhou para Huntington, este parecia ter envelhecido muito mais do que um dia.
— Duvido que as coisas fossem diferentes, sem essa história de sigilo oficial. Minha filha não acredita muito nisso. O marido dela estava sob proteção quando foi assassinado. E, lembre-se, ela conserva o mais absoluto anonimato.
— Adeus, então — disse Taylor sem se emocionar.
— Adeus e boa sorte.
Taylor lançou ao ombro sua mochila de náilon e saiu da limusine para o avião que o aguardava na pista. Huntington empalideceu ainda mais depois da breve despedida.
O agente federal era pouco expansivo. E tinha de ser assim.
Capítulo I
Era um dia abafado, quase sem ar, e a transpiração gotejava da testa para os olhos de Blair Morgan, que impacientemente usou o dorso da mão a fim de enxugar o suor. Manteve as pálpebras cerradas, pensando que todo aquele calor não era pior do que o existente nas quadras de tênis de Acapulco ou San Martin. Honestamente, ela preferia o lugar onde estava aos luxuosos centros de lazer dos milionários. Então, sem motivo, sentiu uma absurda saudade de casa. Não de Washington em si, mas da mansão em Maryland que era seu verdadeiro lar: a imponente construção em estilo georgiano, em meio a quilômetros de uma fresca paisagem verde-azulada.
Ao pestanejar, Blair notou um par de pequenos olhos castanhos que a escrutinavam. Era um bonito menino. Vencendo sua vontade de sorrir, ela serviu ao garoto um prato de sopa.
— Gracias, señora — disse o menino, acrescentando em um murmúrio que aquela bonita norte-americana era um anjo de Deus.
Miguelito sabia da existência de anjos vingadores, como alguns que conhecera ao estudar o Velho Testamento com o padre da capela. Já vira sua flama em ação, na forma de guerrilheiros que às vezes atacavam os ocupantes de um jipe militar.
— No por eso, Miguelito, no por eso — Blair exprimiu-se em espanhol. Embora sorrisse, permanecia distante, e o garoto centro-americano afastou-se com sua vasilha de sopa e um pedaço de pão.
Ela continuou a empunhar a concha e servir sopa, imaginando se naquela ação o braço direito criaria músculos pouco compatíveis com uma mulher. De qualquer modo, comparar os dois braços lhe valeria como fonte de diversão.
Finalmente, a fila de crianças famintas, moradoras do vilarejo pobre, terminou e Blair removeu o chapéu de palha, abanando-o para se refrescar enquanto folgava o colarinho da camisa caqui, já colada à pele por causa do suor.
Em momentos como aquele, deplorava a vida fútil dos ricos e famosos. Ela própria só
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havia transpirado ao praticar ginástica modeladora ou ao tentar ganhar um bom bronzeado ao sol. Mas, naquele caso, sempre era possível mergulhar na piscina c esquecer o incômodo da transpiração.
Bem, já iam longe os tempos de mocinha da sociedade. Eslava por livre escolha em um país conflagrado, sentindo-se útil aos necessitados, combatendo a mágoa resultante de sua primeira grande perda. Ninguém poderia acusá-la de leviana e, por sua vez, Blair não conseguiria tolerar a futilidade de suas amigas de juventude.
Analiticamente, era possível compreender tais atitudes. Filha de pais ricos, casada com um homem igualmente abonado, Blair sabia que era respeitada por sua inteligência, embora nenhum integrante de seu grupo social a julgasse capaz de realizar trabalho braçal ou comunitário. Graças à amiga Kate, que acreditara em seu potencial humano, já fazia mais do que promover chás diplomáticos. Kate havia convencido o possessivo pai de Blair de que, após enviuvar em condições trágicas, ela necessitava de um refúgio para sua energia e sua dor.
Pensando na amiga, Blair a viu aproximar-se, com a mão erguida no ar sufocante.
— Como é que você consegue não ficar suada? — indagou.
Kate torceu o nariz lateralmente, de modo divertido, e introduziu um dedo no panelão a fim de provar da sopa rala.
— Tenho uma boa notícia para você — disse.
— E qual é?
— Descobri um belo riacho a menos de um quilômetro daqui. — Ela suspirou de felicidade. Prazeres como um banho constituía um luxo ali.
— Maravilha! — retrucou Blair. — Se os homens de nossa equipe forem cavalheiros o bastante para não espiar...
Ela gracejava. O grupo consistia em seis pessoas: três mulheres e três homens, todos muito gentis. Tom Hardy, o médico dedicado, mal ligava para a própria esposa, Dolly, a matrona alegre que era a terceira mulher do grupo. Alegava que sua única maneira de ver o marido era participando da equipe de combate à fome na América Central. Harry Canton, magro e muito estudioso, de vinte e poucos anos, ainda corava quando ouvia um palavrão. E finalmente Juan Vasquez, o navegador nativo da região, parecia um tio bem educado, que conservava seu charme latino.
Ele vivia dispensando elogios às mulheres, o que as mantinha cônscias de sua feminilidade. Por isso, lembrava a Blair uniu versão morena do próprio pai, Andrew Huntington.
— Teremos nossa privacidade — garantiu Kate. — Mas Tom quer vê-la na barraca do ambulatório médico. Parece que vai chegar um repórter, amanhã, e nosso doutor pretende preveni-Ia para ficar escondida.
Blair resmungou. Os voluntários contra a fome formavam uma organização apolítica, embora recebessem auxílio de diversos governos. Sempre que um jornalista vinha bisbilhotar, surgiam insistentes perguntas sobre posições políticas e ideológicas. Para Blair, era pior. Ela usava o sobrenome materno, mas, se fosse vista, sua notoriedade a denunciaria. Poucas pessoas sabiam de seu pai, e menos ainda a associavam ao noticiário sobre a precoce e trágica morte do senador Ray Teile, seu marido. Qualquer grupo assistencial aceitaria seu anonimato. Um repórter, não.
— Vá ver Tom — pediu Kate. — E eu a esperarei no riacho.
Blair marchou ao longo do pequeno conjunto de tendas até chegar à barraca do médico. Como sempre, quando não estava examinando um nativo ou aplicando injeções de
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antibiótico, Tom se debruçava sobre um grosso livro. A voluntária teve de gritar-lhe o nome duas vezes, para receber atenção. Blair obedeceu ao pedido dele para sentar-se e só então, instalada no duro assento de madeira, percebeu o quanto estava cansada.
— Do que se trata?
Tom cofiou a barba grisalha e sorriu vagamente. Isso, porém, não amenizou sua expressão preocupada.
— Kate lhe contou sobre o repórter?
— Sim, e qual o problema?
— Nenhum. Agiremos como de costume. Mas eu queria conversar sobre outra coisa: você anda pensando em voltar para casa, Blair?
— Como? — Ela surpreendeu-se. — Bem, realmente penso nisso, mas não para já. Comprometi-me a prestar dois anos de serviço, e ainda faltam alguns meses. Por que pergunta?
— É que a sede da organização está nos enviando um novo recruta. — O médico meneou a cabeça ligeiramente.
— Mas isso é ótimo! — exclamou Blair. — Precisamos muito de reforço.
— Sim, mas nunca esperávamos consegui-lo. Por que agora? — Tom levantou-se e circulou sobre o chão de terra batida, até olhar diretamente para a colega. — Você sabe de alguma coisa que eu desconheço?
Blair balançou a cabeça negativamente. Tom Hardy jamais mencionara as ligações familiares que ela preferia manter ocultas, portanto merecia uma resposta honesta.
— Tenho certeza de que não há nada de mais no envio de pessoal novo para cá. Procedimento de rotina. — Ela sorriu de modo confortador. — Recebi uma carta de meu pai, faz poucos dias. Ele teria me dado uma porção de alertas se houvesse algum perigo. Não, o governo recentemente eleito está firme no poder, e há quase um mês não se registram ações de guerrilheiros.
— Talvez, por fim, estejam reconhecendo nosso trabalho. — O médico voltou a sentar-se, visivelmente aliviado.
— Provavelmente. Agora, se me dá licença...
Blair achava-se ansiosa por desfrutar um banho de riacho, e assim fez. Abrigada pela multicolorida folhagem tropical, ela entrou nua na água e descobriu um paraíso. Existia até um lugar debaixo de pedras onde a correnteza formava uma pequena cascata.
Kate já se secava, na margem, quando Blair saiu da água e envolveu-se na toalha.
— Não achou fria demais a água? — perguntou a amiga.
— De modo algum. — Blair havia adorado a sensação do liquido gelado em contato com sua pele quente. Nódoas avermelhadas tinham aparecido aqui e ali, em seu corpo, mas ela as ignorou solenemente, sobretudo ao usufruir a queda d'água na cachoeira. — Vou entrar de novo.
Com essa disposição, Blair também não notou o farfalhar de um arbusto próximo, sem a presença do vento. Nunca lhe ocorreria, naquele final de tarde de domingo, que estava sendo observada.
Oculto entre a folhagem, o homem conteve a respiração e ficou imóvel, somente olhando. Era ela! Não se parecia com a imagem da foto, por causa dos cabelos escorridos sobre as costas, mas as feições delicadas eram inconfundíveis. E, claro, na fotografia Blair estava vestida.
O espião contraiu o maxilar. Abominava o papel de voyeur, por mais sugestivo que
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fosse o corpo daquela mulher, mas ele não conseguiu suprimir uma apreciação machista, ou melhor, humana, da cena. A foto não lhe dera pista de que o corpo seria tão bonito quanto o rosto: forte, esguio, saudavelmente bronzeado, com seios firmes e altos, além de curvas tentadoras nos quadris.
Acalorado, o intruso suportou o suor que o acometia em um dia tão úmido e secou a pele do queixo com o dorso da mão. "Princesa", recordou a si mesmo, lutando contra o incômodo na virilha que o fazia lamentar estar onde estava. Culpa daquela mulher de nariz empinado.
Ainda assim, ela criou uma cena de surreal beleza ao saltar na água e produzir o melodioso som do baque do corpo no riacho. As pernas compridas se debateram com harmonia até Blair alcançar a cascata e erguer os braços aos céus, como em uma súplica, a fim de desfrutar o inebriante jato líquido.
Droga! Era patético, diante daquele cenário, querer estar de volta ao Oriente Médio. A nova missão de Craig Taylor poderia render-lhe uma aposentadoria precoce...
Quando Blair deixou a correnteza e sentou-se, agasalhada, na modesta clareira, Taylor retornou à área do acampamento. Ali consumiu uma refeição pronta e insossa, depois tentou acomodar o corpo dentro de um saco de dormir.
Apesar da proteção de um mosquiteiro, ele sentiu-se comido vivo pelos pernilongos. Quando finalmente adormeceu, já havia apagado da mente as sedutoras imagens da mulher nua no riacho. Estivera ocupado demais, praguejando contra ela.
Taylor guiou seu jipe até o complexo de combate à fome tão logo as estrias alaranjadas do alvorecer começaram a ganhar um tom amarelo. Já então, havia intensa atividade no acampamento. Dezenas de nativos em fila recebiam porções de certa papa nutritiva, tiradas de um grande tacho de ferro.
Seus olhos rapidamente esquadrinharam a cena, mas ele não viu Blair Morgan. Uma morena magra manejava a concha de pau, enquanto um jovem mal saído dos vinte anos fornecia leite a crianças do grupo de indigentes. Uma segunda mulher, de meia-idade, entregava frutas acondicionadas em sacolas.
Assim que desligou o motor, Taylor notou um afobado homem barbado correndo em sua direção, a fim de saudá-lo com um sorriso. Mais uma vez, o agente verberou os poderosos que o tinham colocado naquela situação. O senhor de barba grisalha parecia em êxtase diante da suposta ajuda que estava recebendo em sua missão humanitária.
— Bem-vindo! Bem-vindo! — Ele estendeu a mão. — Sou Tom Hardy, encarregado desta confusão.
— Craig Taylor — o recém-chegado apresentou-se, surpreso com a força do aperto de mão. Apanhou sua sacola de náilon e saltou agilmente do veículo, esboçando um sorriso de fingida satisfação. — Por onde começamos?
— Gostei desse entusiasmo. — O médico riu, agora mais atento ao novo membro do grupo.
Era estranho, mas ele não parecia ser do tipo que se envolvia em missões assistenciais nos lugares carentes do planeta. Apesar dos cabelos cortados curtos e do ar empolgado, mas informal, os olhos cor de âmbar transmitiam autoridade. E o corpo de Taylor era sólido como um torno de aço. Bem, filosoficamente falando, nada havia de errado com o fato de um homem daqueles se engajar em distantes atividades humanitárias. Tal como na Legião Estrangeira, ninguém lhe perguntaria as origens, nem os motivos.
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Ao contrário, o dr. Hardy pensou que, com o novo colaborador, os frutos de seu trabalho poderiam duplicar. Teria por perto um homem inteligente e forte, talhado para descarregar caminhões de alimentos.
— Por enquanto — ele disse —, conheça os outros. Mais tarde encontraremos alguma tarefa para você. Transportar sacos de grãos, caso não se incomode em pôr seus músculos em ação.
— De forma alguma — retrucou Taylor. — Para isso estou aqui.
Preferiria não ficar à disposição do intrépido doutor, que aparentava ser um peão de obra tão forte quanto ele. Claro que, como vantagem, contava com a idade e a sabedoria.
— Venha então, conhecer a equipe — convidou Tom. — Depois eu lhe mostrarei suas dependências no acampamento.
Blair tinha ouvido o jipe chegar e assumira que se tratava do repórter anunciado. Era hora de desaparecer dali. Baixando o chapéu sobre o rosto, ela seguiu uma trilha atrás das barracas, e logo sua figura foi engolida pelas árvores e arbustos. Não precisava entrar propriamente na floresta. Uma pequena clareira, de onde poderia gritar e ser escutada no acampamento, lhe forneceria um refúgio sombreado. Uma rocha plana serviria de cadeira.
Ela se instalou ali, portando na mão um livro sobre a flora local, preparada para esperar o tempo que fosse necessário.
No entanto, Blair pôs o livro de lado assim que percebeu a chegada de um segundo jipe. A curiosidade venceu a cautela, e ela fez o percurso de volta, pé ante pé.
O novo jipe trouxera o jornalista, Blair soube instantaneamente, mesmo oculta entre as folhagens próximas. O homem que apeava do veículo não combinava com os trópicos. Vestia jeans de marca, bem talhado, cujas etiquetas Blair podia ver de longe. As mangas da camisa igualmente cara estavam dobradas até os cotovelos. Uma caneta achava-se clipada no bolso, A expressão facial era arrogante.
Um profissional em ascensão, Blair pensou secamente, lembrando como a irresponsabilidade de muitos repórteres havia infernizado sua vida. Ela ouviu o dr. Hardy esquivar-se das primeiras perguntas, determinado a não dar sua opinião sobre a realidade política daquele país distante e devastado. Assim, a entrevista pouco durou. Tom prezava seu lugar no mundo, e também seus objetivos pessoais. Nenhum jornalista o caracterizaria com uma verdade mundana: a de benfeitor dos pobres e famintos, vítimas de uma guerra civil.
Desencorajado, o jovem jornalista subiu ao jipe para retornar à cidade mais próxima. Antes que completasse o gesto, Tom já se afastara. Pronta a retornar ao acampamento, Blair gelou subitamente. Tudo indicava que o repórter a havia visto entre as árvores. O instinto o levara a saltar para o chão e caminhar no lado dela.
Movida pelas lembranças amargas de seu relacionamento com a imprensa, Blair conseguiu sair da imobilidade e embrenhar-se na floresta. O repórter não sabia quem ela era, mas, se chegasse mais perto...
Nas proximidades da clareira, ela estacou, dessa vez por causa da surpresa.
— Aonde pensa que vai?
Ela escutou claramente a voz às costas do repórter.
Movendo o olhar de um para outro homem, Blair avaliou que o lugar estava sendo invadido por uma horda de desconhecidos. O corpo atlético do segundo correspondia ao tom imperioso da pergunta, e o primeiro ficou paralisado. O novo intruso também não podia vê-la, já que fixava os olhos ambarinos no repórter assustado. Existia uma aura de perigo naquele homem mais alto e bronzeado que irradiava uma sensação de tranquilo poder. Era fácil compreender por que o jornalista não dera mais passo algum.
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De repente, o estranho olhou na direção de Blair e, por rápidos segundos, ela deslumbrou-se com aquelas íris cor de mel. O homem alto ensaiou um sorriso com o canto dos lábios, e ela sentiu-se tentada a retribuir, antes de lembrar que não podia dar a ninguém qualquer pista de sua identidade.
Mas a simpatia cresceu quando ela escutou o intruso afirmar ao jornalista que ninguém mais, especialmente a mulher desconhecida, queria conceder entrevistas. Parecia incrível, mas ele sabia o que ela tinha em mente, e isso causou um certo medo irracional, em vez do senso de proteção que o estranho poderia lhe oferecer. Além disso, ele era abertamente seguro de si, impositivo e muito... viril.
Um toque no braço e um sorriso completaram a ordem implícita para o jornalista, agora menos arrogante, retirar-se dali. Logo ele ultrapassou os arbustos e fez ouvir o motor do jipe em retirada.
Novamente os olhos do intruso se cravaram no rosto de Blair, parada em uma posição em que as árvores já não conseguiam ocultá-la. Perplexa e constrangida, ela contornou as folhagens e seguiu em direção ao acampamento. Deu as costas ao homem, que a interrompeu:
— Sra. Morgan... — ele balbuciou em tom divertido.
Por alguma razão secreta, ambos explodiram em uma risada. Blair tomou o intruso pela mão, apesar do aperto que sentiu no coração.
Ele não era o homem mais bonito que ela conhecera. De fato, possuía feições muito severas, quase hostis. No entanto, era com certeza o mais surpreendente de todos. Os olhos incomuns pareciam impor um poder a ser temido. Blair nunca esqueceria aquele olhar, se o tivesse visto antes.
— Estou em desvantagem — ela se queixou, sem se referir à diferença de altura. — Você sabe quem eu sou. E você, quem é?
— Craig Taylor. Eu ia me apresentar quando notei sua dificuldade com o repórter. Sou o novo voluntário.
— Ah! — exclamou Blair, batendo os cílios finos que combinavam com os cabelos ruivos.
Como o dr. Hardy, ela considerava que aquele homem não servia para a função, embora soubesse, ao contrário do jornalista, vestir-se para uma tarefa na selva tropical: jeans leve, camisa de algodão de mangas curtas, botas reforçadas.
— Fui aprovado? — ele indagou após o exame.
Embaraçada, Blair sentiu-se flagrada em um ato de explícita avaliação.
— Sim — resmungou sem demora, para em seguida sorrir. — Na verdade, não. Você parece o cruzamento de um ator de Hollywood com um cientista excêntrico.
Ele voltou a rir com naturalidade.
— Craig! — O chamado veio da barraca do médico. — Fui convocado para ir à cidade. Mais tarde você poderá me agradecer por tê-lo livrado de algo pior que a morte: um repórter.
Sentindo-se na defensiva, abruptamente receosa de que o homem a seu lado pudesse tornar-se perigoso, Blair cruzou os braços à frente do peito e adaptou sua fisionomia para um ar mais sério.
— Você apareceu na clareira na hora certa — disse, franzindo a testa —, mas eu seria perfeitamente capaz de lidar sozinha com a situação.
— Como eu já imaginava — ele murmurou.
Haveria uma sombra sutil em seus olhos claros? Um tom de amargura na voz? Não,
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Craig Taylor sorria com franqueza.
— Bem, exagerei um pouco, concordo — completou. — Nós nos veremos durante o jantar? -
— E há outra escolha, por aqui?
— Todos comem juntos?
— Mais ou menos.
Taylor atritou o queixo como se entrasse em profunda meditação.
— Guarde um lugar para mim, a seu lado. Tanto faz que seja à mesa ou no chão.
Blair sorriu, relaxando a guarda diante do curioso apelo. Taylor era intrigante e atraente, ninguém poderia negar. Também era inegável que seu coração de mulher batia mais forte na presença dele. Muito tempo havia decorrido desde que ficara interessada por um homem ou que seu corpo experimentara uma sensação tão diferente. Parecia que seus sentidos tinham acordado de um longo sono. Se fosse esperta, fugiria imediatamente de Taylor.
Mas era impossível fugir de qualquer pessoa na compacta unidade assistencial. A despeito de seu casamento de conto de fadas e da posterior perda trágica do marido, Blair Morgan não se considerava uma fortaleza emocional. Para ela, valia a pena conhecer melhor um homem tão fascinante.
— Está certo — disse por fim. — Guardarei seu lugar.
— Obrigado. E, se me contar o que Blair Morgan está fazendo neste lugar esquecido de Deus, eu lhe direi por que vim
— Combinado. — Blair apreciou o acordo como um triunfo pessoal.
Ela observou por mais um instante aqueles olhos estranhos, hipnóticos, até que o dono deles se afastou. Andava de modo desengonçado, mas esse era um detalhe menor diante da poderosa atração que Blair já admitia sentir. Aonde isso a levaria? O que Taylor fazia na selva tropical?
Era óbvio que sabia que ela era viúva de Ray Teile. Nenhum repórter ignorava. Mas ele não aparentava ser um repórter disfarçado, e demonstrava um interesse especial por ela.
Talvez conhecesse seu pai, o que tornava a noite bastante promissora.
Capítulo II
Na hora do jantar, a expectativa de Blair se frustrou. Taylor não apareceu até que todos os outros houvessem praticamente terminado a refeição. Talvez, exausto pela viagem, houvesse cochilado além da conta. E ainda havia a diferença de clima. O calor úmido da floresta tropical era capaz de roubar as forças de qualquer pessoa, mesmo de Craig Taylor. Com esse pensamento, ela sorriu. Quantas noites não tinha retornado à sua barraca cansada demais para comer ou falar? Cansada demais para pensar em sua solidão?
Quando Taylor sentou-se à mesa rústica de madeira, brindou-a com um sorriso especial e, em seguida, gracejou com os outros membros da equipe. Parecia totalmente à vontade na companhia deles, como se fizesse meses que trabalhava ali, e não apenas algumas
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horas. Empenhava-se em agradá-los, pensou Blair com um sorriso, e possuía carisma suficiente para tanto.
A surpresa maior veio depois do jantar. Em vez de juntar-se ao grupo, ao redor da fogueira, Taylor foi o primeiro a dizer boa-noite e se retirar. Blair havia esperado que... bem, o que realmente esperava?
Ela estirou-se em sua cama e ficou contemplando o teto baixo da tenda, ajustando os olhos à escuridão. Esperava, em primeiro lugar, ser cortejada pelo recém-chegado, e depois conduzida a uma conversa particular. Como isso não acontecera, ela não sabia se ficava aliviada ou desapontada.
Blair descobriu que o comportamento de Taylor naquela noite estabelecera um padrão para os dias subsequentes. Viam-se durante a realização das tarefas, mas não tinham oportunidade de conversar, exceto durante o jantar. Pelo que podia observar, ele era muito empenhado e eficiente. Descarregava diligentemente os sacos de arroz e farinha que chegavam em velhos e precários caminhões, depois os arrumava em pilhas, cada qual destinada a uma finalidade. Às vezes, Blair tinha vontade de se aproximar e enxugar-lhe o suor do rosto, mas não poderia fazer isso sem prejuízo das próprias tarefas e sem chamar a atenção dos outros, especialmente a do severo dr. Hardy.
Naquelas noites, eles por certo conversavam, durante o jantar ou no espaço externo. Taylor não se mostrava arredio, mas Blair percebia que ele só manifestava por ela um interesse profissional. Por que, então, havia insinuado o desejo de conhecê-la melhor, de uma relação mais estreita? Ele não cumprira a promessa de explicar o que viera fazer ali.
Além da curiosidade, Blair sentiu o aguilhão da vaidade ferida. Atraída, mas desprezada, notou que a presença perturbadora de Taylor também lhe despertava medo, como se não confiasse nele. Por fim concluiu que não poderia agir como uma adolescente em um acampamento de férias, e que o primeiro contato com o novo voluntário é que fora atípico.
Na sexta-feira à tarde, o calor obrigou Taylor a tirar a camisa. Passando por ele, Blair surpreendeu-se com o feixe de músculos do torso, dignos de um pugilista. Excessivamente alto, Taylor teria de curvar-se a fim de acertar um adversário no ringue.
Ele não era tão pesado quanto um boxeador, mas possuía ombros largos e um abdome liso e plano. No peito, os pelos claros tostavam ao sol e, quando ele a encarou com os olhos cor de mel, Blair teve vontade de abraçá-lo e acariciar aqueles pelos. Trocaram um sorriso, o dela suave, o dele ameaçador como o de um leão a defender seu território. Taylor deslocou-se com controlada tensão, fazendo Blair sentir que uma força tremenda poderia explodir a qualquer tempo, em qualquer lugar, vitimando uma presa desprevenida.
— Pare de olhar, Blair — alguém sussurrou ao seu ouvido.
— É falta de educação...
Ela voltou-se e deparou com Kate, a ostentar um sorriso malicioso.
— Não estava olhando.
— Quer me enganar, amiga? Não se examinam os dentes de um cavalo dado de presente.
— Está falando do cavalo de Tróia? — Blair elevou as sobrancelhas em um arco de sapiência. — Ele parece não combinar com este lugar.
— E você combina? — Sem maquilagem, sem roupas caras, a voluntária já não lembrava a aristocrata que tinha sido, mas seus traços e gestos finos confirmavam tal condição.
— Devagar, amiga! — murmurou Blair, derrotada. Não conseguia explicar seus sentimentos a si própria. Como transmiti-los a Kate?
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— Preciso ir. — Kate suspirou e rumou para a barraca médica. — Como sabe, estou no esquadrão antibactérias. Há uma fila de gente esperando meu suave golpe de agulha.
Rindo, Blair tomou a direção contrária. Reconhecia que estivera olhando o corpo de Taylor, por mais tempo do que o normal. Precisava controlar-se mais, sobretudo diante dos outros. Por sorte, sua barraca também se achava repleta de crianças famintas, o que a distraiu pelo resto da tarde.
Diante dos rostinhos encovados, ela sentiu raiva dos generais que por muito tempo dominavam o país, provocando uma guerra civil da qual diziam terem saído vencedores. Não importava. Os derrotados eram sempre as crianças, o povo.
Quanto à guerrilha, ela não dava um tostão pelo seu proclamado poder de fogo. Tinha vivido a existência inteira na arena política, e sabia que nem sempre o mais forte vencia, e sim o mais falastrão ou demagogo.
Apesar de tudo, existia gente boa na máquina administrativa, movendo lentamente suas rodas. Seu pai, por exemplo, era um homem íntegro que havia servido o governo dos Estados Unidos sob os mais diversos estadistas.
No entanto, caráter e princípios pareciam inexistir ali, nos grotões esquecidos da América Central. Os dirigentes deveriam olhar para os que sofriam, não lhe dar as costas. Blair estremeceu. Filosofar não tornava as coisas melhores. Concentrou-se em alimentar e ensinar as crianças do vilarejo, transmitindo especialmente noções de higiene. Em seguida, levou-as até a área externa, onde as presenteou com uma bola de pano. A alegria do jogo coletivo explodiu, enchendo o espaço de sons agradáveis. Que bom que aquelas pequenas criaturas ainda soubessem rir, em vez de apenas chorar.
Entretida, Blair não notou que um par de olhos leoninos a observava. Deu-se conta deles quando o dr. Hardy acercou-se de Taylor, à beira do campinho improvisado.
— Mulher admirável a nossa Blair, não acha? — o médico inquiriu o novato, em tom de grande conhecedor. — Tome conta dela, Taylor. Creio que Deus fez as ruivas com fogo nos cabelos para nos prevenir do fogo que têm por dentro.
O agente riu, recuperou a sobriedade e disse em tom de elogio:
— Ela é realmente boa em tudo o que faz. Nenhuma criança carente pode queixar-se dela.
— Eu é que ensinei tudo o que sabe — gabou-se o doutor. — Foi fácil. Bastaram duas semanas para Blair aprender o básico, incluindo o dialeto local.
Para o dr. Hardy, não era de surpreender que, conhecendo-lhe o pai como conhecia, a aristocrata de Washington tivesse alto quociente de inteligência e facilidade para idiomas. Mas essa era uma informação confidencial, e ele quase a havia passado para aquele estranho. Com alívio, notou que Craig Taylor não iria pressioná-lo quanto aos antecedentes de Blair Morgan.
— Melhor eu retomar o trabalho — o médico anunciou. — Como vai o descarregamento dos caminhões?
— Está completo.
— Completo? — Tom balançou a cabeça, incrédulo. — Droga, Taylor, assim vou gostar de ter você por aqui.
— Sim, obrigado.
Pareceu que o gigante de cabelos claros franzira a testa, e o doutor teve um momento de perplexidade. Depois, deu de ombros. Aquele não era o tipo de homem que necessitava de uma palmada encorajadora nas costas. Na verdade, quase ninguém do grupo precisava, todos se sentiam motivados para a prática do bem.
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— Creio que estão tendo problemas com o fogo, ali atrás — afirmou com serenidade. — É melhor eu ajudar.
Taylor apontou a área onde Kate, Dolly e Harry Canton tentavam acender o fogão a lenha e preparar um nutritivo cozido para o jantar.
O dr. Hardy entrou na barraca ocupada por Blair, ainda sacudindo os cabelos grisalhos. Com tinta removível, ela acabava de desenhar uma careta no braço de um menino de pele escura.
— E... aqui vai o nariz! — exclamou em espanhol precário.
— Terminamos!
O garoto olhou de Blair para seu braço, e novamente para ela, receoso se ficaria marcado para sempre ou não. Mas logo depois, saiu correndo e rindo, a fim de exibir-se aos amigos.
— Veio me trazer a nova lista de tarefas? — ela perguntou ao chefe.
— Não. Nosso novo voluntário adiantou o expediente.
Blair levantou-se do chão e guardou o pincel e a tinta.
— O que pensa dele? — quis saber.
— Bem, finalmente nos mandaram um homem de verdade.
— Mas, por que isso? — ela provocou o doutor, em timbre reflexivo.
— Não importa — respondeu Tom secamente. — Ele veio e é um bom trabalhador, isso me basta. — Ele bateu gentilmente no ombro de Blair. — Não o assuste com seus problemas, está bem? Já vi o brilho de seu olhar quando o observa. O rapaz pode estar à procura de paz e privacidade, tal como você. Nunca deixei alguém interrogá-la, portanto não faça isso com ele.
Os olhos de esmeralda podiam parecer inocentes quando Blair queria.
— Fique sossegado. Não vou afugentar o novato, mas ele já se ofereceu para me falar de sua vida.
— Privilégio seu.
O elogio não a satisfez.
— Por que eu? Acha que ele sente atração por mim?
— Se você desconhece as respostas, minha jovem, então a mantivemos tempo demais longe da civilização. No meu parco entender, os dois estão atraídos um pelo outro.
— Admito que ele é muito atraente — Blair declarou, sem querer ofender o médico.
— Aqui na selva, há poucos homens de sua idade — comentou Tom. — Digo, homens fortes e saudáveis. Sensuais — acrescentou num sussurro.
Era engraçado constatar que o doutor, velho amigo de sua família, estava pensando em genética e em reprodução, capazes de aperfeiçoar a espécie humana. Não em amor, paixão ou qualquer outro sentimento.
— Sensuais — ele repetiu, curvando-se a fim de amarrar a bota. — Craig Taylor, além disso, é confiável, vigoroso, do tipo que se dá bem com a vida, principalmente se essa vida lhe traz desafios. — Tom não respondia a Blair, e sim devaneava sobre o assunto, impondo seus pontos de vista.
Quem poderia garantir que tudo aquilo era verdade? Ela continuava sem palavras para descrever o que sentia. Não julgava Taylor incapaz de se doar afetivamente a alguém. No tempo certo, partilharia com uma companheira sua generosidade, força e talento. Apenas não faria isso por motivo fútil, em busca de uma aventura ou de auto-afirmação.
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— Bem, não se preocupe. — Blair pegou uma bolsa de palha e caminhou para a porta da barraca. — Vou tomar banho no riacho.
— Divirta-se! — desejou o médico, com um aceno de mão.
Em sua pequena tenda particular, Blair apanhou sabonete, toalha, e ajeitou-os na bolsa. Antes de sair para nadar, consultou o guarda-roupa.
O bom doutor estava certo sobre sua atração por Taylor. O que ela ainda não podia definir era se gostava ou não desse sentimento. De qualquer modo, a excitação que experimentava era maravilhosa, embora torturasse sua mente. Ansiava pelo calor de um corpo masculino, o que não acontecia havia muito tempo, e estava bem consciente disso. Craig Taylor não era um homem comum: irradiava poder e inteligência, transmitia sensualidade e volúpia.
Blair deu-se conta de que remexia no guarda-roupa à procura de um vestido sedutor para usar depois do banho, durante a refeição coletiva. Tática simples, avaliou, mas reagia como mulher e entrava em uma batalha de conquista, disposta a vencê-la. Não era filha de um político por nada.
De repente, Blair sentiu as mãos suadas e desabou na cama estreita que lembrava um catre de presídio. Tinha vivido um casamento feliz, rapidamente encerrado por uma tragédia. Porém, na presença de Craig Taylor, ela percebia que nunca sentira atração sexual por Ray Teile. Jamais ficara perturbada por ele como pelo corpo esbelto e pelos olhos magnéticos de Craig.
Atraída ou não, Blair era uma experiente viúva, não uma jovem inocente. Poderia esquivar-se de lutar com Craig, ou contra ele, já que naquele momento ambos estavam apenas se analisando diplomaticamente.
Impaciente, Blair apanhou a melhor roupa que possuía, uma calça jeans quase nova e uma blusa azul de algodão macio, e saiu para a área externa.
Kate, de pé, preparava o jantar do grupo. Blair não resistiu a provocá-la e disse que a esperaria no riacho. Recebeu de volta um sorriso misterioso.
O som da água corrente era tranquilizador, assim como a paisagem marcada pela vegetação em torno e as pequenas rochas planas que margeavam o riacho. Quanto mais se aproximava da ribanceira, mais Blair antecipava o prazer de banhar-se ali.
De repente, estacou, assombrada. Alguém havia chegado antes dela: Craig. Uma pilha de roupa usada jazia sob um carvalho, em cujo ramo mais baixo estavam penduradas uma calça e uma camisa muito parecidas com as dela.
Na verdade, Blair não viu Craig na água, apenas reconheceu os trajes, enquanto seus sentidos a alertavam definitivamente para a presença dele. Leves arrepios a tomaram de assalto, desde a nuca até a base da espinha. Sua mente já formava a imagem de um corpo dourado emergindo da água, firme e sólido, exalando masculinidade.
— Oh... — murmurou Blair, recuando até um arbusto.
Já não se tratava de sua imaginação. Primeiro, ela viu os cabelos escurecidos pela água, depois o rosto que respingava, em seguida o tórax musculoso, com seus pelos cintilantes.
Os olhos ambarinos de Taylor a descobriram atrás da folhagem, e um sorriso formou-se lentamente em seus lábios. Blair balançou a cabeça, não pretendia fugir como uma adolescente assustada.
— Vai entrar na água? — ele gritou.
— Quando sair, sr. Taylor, então eu entrarei. Acho que esquecemos de lhe explicar o protocolo. As mulheres têm prioridade no uso do riacho.
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— Sinto muito! — ele bradou de novo, a fim de ser ouvido.
Mantinha-se respeitosamente na água, encoberto até a cintura. Mesmo assim, a massa de cabelos claros do peito se afunilava ao aproximar-se do umbigo, o que fazia prever uma estreita extensão dos pelos até a virilha oculta pela água.
Blair sentia dificuldade em assimilar essa imagem, por mais sugestiva que fosse. Com irritação, notou que Taylor se acercava da margem e, a qualquer momento, se mostraria nu.
Mas ele não fez isso. Aproximou-se simplesmente até o ponto em que poderiam desenvolver uma conversação audível, sem precisar gritar acima do ruído da cascata.
— Não tinha nada para fazer — ele explicou — e resolvi explorar a área. Encontrei este córrego e voltei depressa para pegar roupas limpas.
Blair riu, cônscia de que o perigoso olhar de Taylor só estava mascarado por um sorriso jovial.
— Tudo bem — falou —, não precisa se justificar. A falha foi nossa.
Ele meneou a cabeça em desacordo e riu com gosto.
— Você não ligaria mais para o protocolo, se soubesse o que descobri.
— O quê?
— Não posso contar. A descoberta é inexplicável por palavras. Você precisa vê-la pessoalmente, mas, já que não quer nadar comigo...
— É a maior mentira que já ouvi, e você parece ser bom nisso — disse Blair com secura.
— Estou arrasado com essa acusação!
— Claro que não está! — Nada o faria sentir-se arrasado, ela poderia garantir!
— Um dia — ele prometeu, erguendo as sobrancelhas —, eu lhe mostrarei meu glorioso segredo, e você lamentará essa tola desconfiança. Agora, por favor, vire-se de costas para que eu não fira sua virtude.
Blair obedeceu imediatamente ao vê-lo fazer menção de sair da água e apanhar as roupas penduradas no carvalho. Estava trêmula, e rezava para que seus gestos escondessem do homem a tensão disseminada pelo corpo. Houvera dias, após a morte de Ray, em que ela pensara partir para algum lugar, na companhia de qualquer um, só para se convencer de que ainda era uma mulher normal, capaz de sentir prazer.
Mas o bom senso tinha temperado o impulso. Ela jamais provaria nada a ninguém, e provavelmente se magoaria muito se tentasse manter um caso sem emoção ou real desejo. Agora, repentinamente, quando julgava ter domado os instintos, surgia uma atração intensa que a lançava em febril desejo.
Até a emoção estava presente. Desconfiava de um homem cheio de enigmas como Taylor, mas, no íntimo, gostava dele. Havia uma sintonia nervosa que lhe atravessava o corpo inteiro.
— Posso usar sua toalha? — ele pediu. — Prometo não ensopá-la.
— Fique à vontade. — A filha de um estadista tinha de saber conservar o nível da voz, mesmo de costas para o interlocutor.
— Estou decente, pode se virar.
Blair soltou o fôlego longamente retido e deparou com o colega que fazia um exame aberto de seu corpo. Um tanto constrangida, viu quando Taylor pegou no bolso da calça um maço de cigarros e um isqueiro.
— Você fuma?
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— Sim, obrigada. — Ela aceitou um cigarro, notando aliviada que seus dedos já não tremiam. A fumaça produzida pela dupla dançou no ar e mesclou-se significativamente. — Norte-americano?
— Trouxe comigo alguns produtos, para distribuir a toda a equipe.
— Ah, você por acaso é rico?
O dr. Hardy provavelmente a esganaria por essa pergunta, mas Taylor não pareceu ofendido nem surpreso.
— Não rico, apenas independente. Herdei um pequeno fundo de investimentos. — Ele não estava mentindo. Comprara pessoalmente cada presente trazido na mala e ainda fizera uma razoável contribuição em dinheiro à sede da organização de combate à fome. Nada que merecesse elogios, ele pensou. Possuía dinheiro, dinheiro herdado, em volume maior do que poderia gastar na vida toda. — E você?
Não tinha motivo para questioná-la assim. Conhecia tudo que se poderia conhecer de especial sobre Blair Morgan: não só o dia de nascimento, mas também a hora do parto e o nome da maternidade. No entanto, restava aquilo que nenhum dossiê do mundo poderia revelar sobre aquela mulher orgulhosa e determinada: ela mesma.
Blair tragou a fumaça do cigarro e encolheu os ombros.
— Igualmente culpada — ela comunicou em tom sério. — Fui criada em meio ao luxo, e gosto dele.
— Mas repudiou tudo?
— Não. Nada tenho contra a riqueza socialmente responsável. O dinheiro pode fazer uma porção de coisas boas pelos pobres. — Ela sorriu, satisfeita. — Como diz o ditado, dinheiro atrai dinheiro, e então fiz questão de viver bem, comer divinamente e vestir-me como uma rainha.