Tempestade no Paraíso
Espantada, a secretária deduziu que o problema…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Espantada, a secretária deduziu que o problema do amigo envolvia uma mulher. Ele fora visto em noitadas com algumas das mais famosas beldades do mundo, mas nunca, que ela soubesse, havia levado alguma a sério. Agora, falava em compromisso!
— Claro que acreditam — Lorna assegurou-lhe, vendo Taylor sair.
Minutos depois, ele estava olhando para a colina do Capitólio, sede do Congresso dos Estados Unidos.
Primeiro, enfrentara uma missão sigilosa. Agora, um compromisso. Era demais para um homem vivido e experiente, de quase quarenta anos, que só queria sua vida de volta. Se transigisse mais uma vez, poderia ficar tarde para viver.
E não obstante, Taylor não conseguia dar as costas a um apelo. A ética, sua própria ética, mantinha-o firme no caminho outrora escolhido.
Ele travou uma batalha mental enquanto observava o prédio à distância, alheio ao fato de que, no final da primavera, Washington se tornava uma cidade bonita, com abundância de flores e um céu azul cristalino. Até mesmo o ar carregava um frescor magnífico.
Pela primeira vez em sua carreira, Taylor pensara em dizer "não" em vez de se importar com os outros. Não tivera êxito. Agora, ofertava a Blair Morgan nada mais, ou menos, do que ele mesmo. Por uma semana.
Ele tinha uma semana para convencê-la a lhe perdoar e, depois, para entrar em um
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acordo.
Jamais isso aconteceria, na avaliação de Taylor. Porque sabia como Blair se sentia e, passados sete dias, ele teria de partir. Nunca esqueceria, porém, a expressão de abatimento de Blair ao descobrir a existência de uma pistola na cabine do barco. Certamente, ela preferiria vê-lo condenado e preso, em segurança, a saber que ele participava de algum confronto perigoso, em qualquer país conflagrado entre tantos no mundo.
Taylor esfregou as mãos com ansiedade. Blair lhe pertencia! Tinha de lhe pertencer, houvesse o que houvesse. E só existia uma opção: fazê-la entender como havia se entregado a ele plenamente, antes da separação. Era um problema e tanto. Se batesse à porta de Huntington, Blair a fecharia antes de ouvir qualquer argumento.
Mas havia uma chance: a festa de George Merrill. Sua princesa estaria lá, sem dúvida. E Taylor se valeria de todo estratagema para se aproximar de Blair e convencê-la de que já era o dono de seu corpo, alma e coração.
Compromisso? Sim.
Aquela seria uma disputa diplomática que ele precisava ganhar, mesmo usando meios pouco diplomáticos.
Capítulo XII
— Ainda não consigo entender — disse Blair em tom austero. Finalmente estava em casa, com seu pai, olhando através da grande janela da sala a colina do Capitólio. Os dedos se curvavam ao longo da haste de uma taça de martíni. — Você sabia que os guerrilheiros planejavam atacar o grupo de combate à fome, mas deixou todos lá no acampamento, porque o relatório sobre o ataque era sigiloso...
A questão não só não fazia sentido, como vinha carregada de incredulidade.
— Blair... — Andrew Huntington tomou um gole de seu martíni e caminhou até a janela. — Nós tínhamos um agente clandestino, um homem infiltrado na guerrilha, que levou anos para conquistar a confiança do inimigo. Se a fonte de informação vazasse, ele não só seria executado como perderíamos todo o investimento nessa arriscada missão.
— Mas o grupo de combate à fome também não corria o risco de ser atacado? — ela interrompeu. Seria inacreditável que o pai permitisse isso, ou mesmo que estivesse envolvido com gente capaz de sacrificar seres humanos inocentes.
— Você não compreendeu — ele esquivou-se. — Os membros da missão humanitária não estavam em perigo, somente você. A guerrilha só atacaria o acampamento para sequestrá-la e conseguir resgate para financiar suas armas e operações. Não ligavam para mais ninguém do grupo, porém eu não podia simplesmente chamar você de volta. Os guerrilheiros ficariam furiosos e agiriam antes de você sair da lá. Aí, sim, poderia haver uma tragédia de grande repercussão. Nosso agente secreto seria descoberto e torturado até a morte. Alguns vilarejos pacíficos sofreriam um massacre, como retaliação.
— Mas eu teria entendido, se fosse informada.
— Teria? — O velho dirigente meneou a cabeça. — Se você farejasse algum perigo,
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pensaria que, como seu pai, eu daria um jeito de salvá-la. Mas conheço a filha que tenho. Você insistiria em ficar no acampamento com seus amigos. — Com um aceno de mão, Huntington afastou a tentativa de protesto de Blair. — Mas o fato é que seus amigos não corriam risco. Com você fora de cena, eles seriam deixados em paz. Por quê? Porque ninguém mais, ali, tinha valor em dinheiro como refém. Tivemos de criar a ilusão de que você fora levada por outro grupo terrorista rival.
— Certo, papai — Blair interveio. — Agora compreendo por que a informação era sigilosa. Compreendo que seu agente secreto seria morto se algum detalhe vazasse. Compreendo que meu desaparecimento, em um suposto sequestro, era necessário para prevenir um desastre. E compreendo por que você enviou Taylor — ela hesitou ao dizer o nome — para me vigiar e tirar da região quando se tornasse inevitável. Mas por que todo aquele tempo dentro de um barco? Por que Taylor não podia me explicar tudo logo que saímos do acampamento?
— Ele não fez isso porque também não conhecia a operação inteira—Huntington afirmou pausadamente. — E tinha ordens minhas para não dizer uma só palavra sobre o envolvimento de nosso governo.
— Mas por quê? — Blair insistiu.
— Por várias razões. Eu não tinha autonomia para decidir. Recebia instruções de um escalão superior. — Huntington esfregou a têmpora como se pesasse as palavras. — Meus juízos e sentimentos não vinham ao caso, entende? Não podia agir como seu pai, e você teria de desconhecer toda a operação até nós a resgatarmos. Só então o perigo passaria. Por isso você foi mantida no La Princesa, que parece uma banheira, certamente, mas é um barco de nossa Marinha. Não podíamos ter mandado um avião ou um helicóptero, pois chamaria atenção demais. A viagem seria lenta, mas segura até Belize, o primeiro porto bem equipado no caminho.
Blair balançava a cabeça ao escutar o relato e sorriu tristemente.
— Papai, eu não estava me referindo ao tempo de navegação. Sabia que íamos seguir a costa marítima após passar pelo pequeno rio. O ponto é: por que me deixar sem saber de nada depois de sair do acampamento? Por que Taylor não me contou que trabalhava para você e estava tentando me levar de volta para casa?
O silêncio de Huntington prolongou-se tanto que Blair quase o instigou. Não o fez porque percebeu que o rosto do pai se contorcia de dor e as mãos dele tremiam.
— Papai? — perguntou nervosamente. — Você está se sentindo bem?
Ele confirmou, impedindo a filha de se aproximar.
— Enfim, querida. O fato de ser seu pai não me garantiu prerrogativa nessa operação. Minhas ordens eram sigilosas. Se algo desse errado e você fosse apanhada pela guerrilha, não podíamos correr o risco de que você contasse alguma coisa.
— Mas eu não contaria nada, e você sabe disso! — Blair defendeu-se e ficou preocupada quando viu o pai enrugar a testa. Sentiu um calafrio e um lampejo de compreensão antes que ele respondesse.
— Filha, não é anedota nem fantasia. Esse pessoal tem meios de fazer qualquer um falar. É o soro da verdade. Graças à tortura, podem descobrir tudo o que um refém sabe. No caso, você sabia apenas que tinha sido raptada, e na verdade havia muito mais em jogo: o bem-estar do grupo de combate à fome, a vida de nosso agente secreto, a sobrevivência de muitos camponeses inocentes.
Mesmo assim era inquietante, Blair pensou. Diversas vezes, nas mãos de Taylor, ela sentira medo. Agora, depois de tudo acabado, experimentava um arrepio que induzia ao
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pânico. O que aconteceria com ela se fosse apanhada por guerrilheiros fanáticos e cruéis?
— E quanto a Taylor? — perguntou asperamente. — Se eu fosse aprisionada pela guerrilha, ele também seria.
— Taylor é treinado para não ceder nem confessar.
— Ora, papai! Você me mandou um James Bond, mas ele também não é imune ao soro da verdade.
— Taylor nunca passaria qualquer informação aos guerrilheiros. Mas permita-me lembrar: ele pouco sabia.
Blair apertou os lábios, consternada. Dispensava maiores explicações. Entendera tudo. Pelos critérios de Taylor, certos fatos deviam ser meramente aceitos. Inclusive a presença de outras vidas em torno dele.
Ela terminou seu martíni de um gole, depois caminhou até o bar de mogno atrás do sofá e serviu-se de uma segunda dose. O álcool, porém, não tornava mais fácil suportar a sensação de agonia que experimentava.
— Tivemos de manter tudo em sigilo até que os terroristas guerrilheiros pudessem ser encurralados, o que aconteceu na véspera do dia em que a resgatei. Havia um acerto para eu me encontrar com Taylor em Belize, em uma doca escondida, mas não aguentei esperar. — Huntington começou a circular pela sala em passos lentos. — Nosso homem junto aos terroristas os entregou diretamente às forças legais da América Central, depois de uma tentativa fracassada de sabotagem. Com os dirigentes principais presos, muitos guerrilheiros se entregaram às autoridades.
Calada, Blair observou o pai andando, até que ele parou, tomou-lhe a mão e fitou-a nos olhos.
— Querida, jamais desejei que você sofresse ou que fosse machucada, enquanto fazia meu trabalho. Lamento muito, muito mesmo.
— Oh, papai — ela murmurou, esquecendo a própria ansiedade graças ao pesar e à tensão que viu nas feições abatidas do pai. Colocou a taça de martíni na mesinha e abriu os braços para enlaçar Huntington com irrestrito amor. — Estavam visando atingi-lo, não é? Você era o alvo principal.
— Sabe, filha? — Ele sorriu, gratificado. — Pode pôr toda a culpa em mim. Eu ordenei a Taylor que a mantivesse alheia aos fatos. Se você soubesse que ele nunca lhe faria mal, o deixaria louco com suas tentativas de fuga...
— Poderia ter confiado um pouquinho em mim — ela pleiteou, mas sem raiva.
— Bem, já não importa. Não sou eu quem faço as listas de operações sigilosas.
— Mas não quebraria o sigilo por nada, não é? Nem por mim...
O veterano político fez uma longa pausa e, quando respondeu, seus olhos não se desviaram do rosto da filha.
— Não, Blair. Sinto muito. — Realmente sentia, o que não conflitava com sua crescente sensação de cansaço e fragilidade. — Sou um servidor da nação, gosto de admitir que minha ética é inabalável, embora a do governo seja às vezes confusa. Você é minha única filha, Blair, e com prazer eu morreria em seu lugar. Mas não me olhe como um pai que vive alardeando isso para os outros. Provarei o que digo, se um dia for necessário. Mas eu não quebro o sigilo de operações oficiais.
Ela tocou-lhe a face gentilmente, com amor e orgulho.
— Compreendo perfeitamente, papai, e o amo por tudo o que é.
— Tudo o que deveria ser — ele atalhou com ironia. — Na verdade, eu tiro o corpo da
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maioria dos disparos. Por isso chamei Taylor. Eu o observei por anos, e sabia que era o melhor para esse caso.
Blair baixou o olhar e dirigiu-se à janela, onde de novo contemplou a paisagem marcada pelo Capitólio.
— Não duvido... — murmurou de costas para o pai. — Sim, dadas as circunstâncias, Taylor era o melhor para tomar conta de mim. Nem um artilheiro dentro de um tanque de guerra escaparia dele.
— Em algum momento você ficou ferida?
"Sim, papai", pensou ela fugazmente. "E você não imagina quanto."
— Não — foi a resposta audível, enfatizada por um sorriso. Nenhuma mágoa provocada por Taylor resistira ao raiar da manhã seguinte. — Mas senti medo algumas vezes. O que eu e Taylor estávamos fazendo na selva da América Central, afinal de contas? Bem, esqueça. Não quero ouvir de novo a palavra "sigiloso".
Huntington exibiu uma carranca ao mirar a filha no fundo dos olhos, outra vez. Ela procurava parecer serena para não afligi-lo, mas era visível nos olhos de esmeralda uma raiva descomunal, uma frustração cheia de auto-piedade. Blair vinha lidando com aquelas revelações do modo como o pai esperava: com altivez e sábia aceitação. Tinha enfrentado o episódio do sequestro com a plena intuição de seu alcance, e agora entendera perfeitamente a posição de Huntington e das outras pessoas envolvidas.
E tudo havia acabado bem. Ela estava em casa, sã e salva.
— Se você não quer mais ouvir, não vou pronunciá-la — disse Huntington, beijando a face da filha. — Só posso dizer que trabalho no Departamento de Estado há quase quarenta anos e já vi alguns erros graves. Também já discordei da política oficial, por vezes. Mas os dirigentes foram eleitos pelo povo, e é preciso apoiá-los. É a regra do jogo. — Baixou o tom de voz e pediu: — Estou perdoado?
Foi a vez de Blair beijar o rosto avermelhado do pai.
— Não há nada para perdoar, papai. Sou grata por estar viva, saudável e junto com você.
Era tudo verdade, mas uma pontada de dor fez com que Blair pestanejasse repetidamente. Estava grata, mas sentia-se solitária. Completavam-se dois meses desde que pusera os olhos pela primeira vez em Craig Taylor, chegando de jipe ao acampamento.
Daí por diante, ele se tornara o centro de sua vida, fosse provocando paixão e amor ou angústia e ódio. A bordo do La Princesa, mal conseguia estender-se na cama, sabendo que ele depois viria ocupar o outro lado do colchão.
Mesmo que ele não a tocasse, cumprindo sua promessa, era desagradável, até ridículo. Ainda mais quando, pela manhã, ela desabava nos braços dele, em busca de força e segurança.
Aquele homem a fizera de tola, lembrou amargamente.
Próximo dela, Huntington como que leu seus pensamentos.
— Você precisa esquecer Taylor — disse com suavidade. — Ele não queria fazer parte da operação, ficou furioso por achar que iria pajear uma dondoca da sociedade.
Ótimo, ponderou Blair. Taylor certamente havia praticado sua vingança, humilhando a "dondoca" ao torná-la sua amante, depois de espiá-la nua quando tomava banho no riacho. Deus do céu! Como tinha sido idiota!
E ainda era uma tola, pois desejava Taylor, amava aquele homem.
Analisando de outra maneira, era bom que ela não houvesse passado de uma "princesa" para Taylor. Desse modo, não precisaria se preocupar com o fato de ele amá-la ou
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não, porque não suportaria mais viver na dúvida. Não suportaria conviver com a ideia de que as pessoas que amava corressem perigo. Teria de esquecer Taylor como parte desse quadro desanimador.
Blair notou que o pai a observava com uma mescla de aflição e bom humor. Detestando a possibilidade de ele ler sua mente outra vez, comentou:
— Que espécie de diplomata é aquele homem? O que houve com os funcionários de carreira, sóbrios e amáveis?
A questão era pertinente, mas o motivo era pessoal. Como mulher responsável, Blair não ficaria ressentida com alguém que cumprisse seu dever. Mas Taylor, claro, podia ter ido além do dever. Por isso, Huntington demorou a responder.
— Bem... ele é um diplomata que se especializou em certas situações delicadas.
— Perigosas, você quer dizer.
— Taylor é um bom sujeito — completou o pai de Blair, encolhendo os ombros.
Nada a contestar, ela concordou mentalmente.
— É mesmo — disse em voz alta, assustada com o pesar oculto em suas palavras. Forçou um sorriso e ergueu a taça vazia à frente do pai.
— Sirva-me mais um martíni, por favor. Hoje eu mereço ficar um pouco tocada.
No íntimo, ela desejava apagar-se, ficar fora de combate, esquecer, mesmo que por poucas horas, tudo o que lhe acontecera. Queria parar de pensar em Craig Taylor. Ansiava por bloquear a agonia de desejá-lo.
— Claro, querida. — Huntington obedeceu e encheu as duas taças. Lembrou-se das azeitonas, guardadas em um pote dentro do bar e devidamente espetadas em palitos, mas as desprezou. Em compensação, abriu uma fina caixinha de porcelana e retirou dois cigarros, um para si, outro para a filha.
— Não, obrigada, papai. Parei de fumar, não notou?
Huntington ergueu as sobrancelhas. Blair nunca havia fumado muito, mas suas tentativas de parar, no passado, haviam sido inúteis.
— Como conseguiu?
— Oh, apenas tirei o cigarro da cabeça. — Ela bocejou de um modo que, não fosse diante do pai, teria de pedir desculpas. — Mas vou levar o drinque comigo, enquanto tomo um longo banho quente. Depois, cama.
Impulsivamente, Blair abraçou de novo o pai, sorrindo como prova de amor e compreensão. Desejou-lhe boa noite e subiu a escada rumo ao quarto que Huntington sempre fazia questão de manter arrumado, à espera da filha.
— Blair! — ele a interrompeu a meio-caminho.
— Sim?
— Não fique brava com Taylor. Ele é um bom rapaz.
Ela ofereceu ao pai a sombra de um sorriso.
— Duvido que ele tenha notado se eu estava zangada ou não. Provavelmente nunca mais nos encontraremos, mas você tem razão. É um bom sujeito, um especialista em sequestros. Poderia mudar o nome para Taylor, o Huno. Como Átila.
Com esforço, Huntington reprimiu sua contrariedade.
— Acha mesmo que ele é um tirano? Perdoe-o mesmo assim, querida. Como já disse, ele não queria participar da operação.
Claro que não, pensou Blair com amargura. Pobre Taylor, bravo homem de ação
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repentinamente despojado do perigo de pajear uma viúva rica e benemérita! Não. Para usar os termos corretos, uma princesa mimada e tediosa. Mas de que adiantava debochar, dele e de si mesma, se havia caído tão facilmente nos braços daquele homem? Estava lhe dando a mais irônica das compensações pela aceitação de um trabalho indesejado!
Deus do céu! Taylor a havia convidado para dançar uma valsa, e ela se furtara a dar um simples passo. E o pior era que, se ele aparecesse ali, naquela hora, com mentiras de amor nos lábios, Blair se lançaria nos braços dele. Não, não queria mais sofrer com essa aventura decepcionante.
Dormir era prioritário! Calar seus pensamentos desenfreados, impedir o coração de fazer-se em pedaços, dividir-se entre a raiva e o medo, e então alcançar o alívio e a necessidade que se sobrepunha a todas, o amor.
Observando a filha, Huntington deduziu que alguma coisa estranha acontecia. Detectou, nas feições delicadas de Blair, sentimentos contraditórios: raiva e perdão, amor e ódio. Ela estava cultivando sentimentos por um homem, pela primeira vez desde a morte do marido. Antes, não havia reagido assim. Era sempre atenciosa e gentil com eventuais acompanhantes, mas sempre distante. Ninguém jamais conseguira se aproximar de seu coração.
— Blair?
— Perdão, papai. — Ela olhou para o pai, parado no meio da sala. — Estava devaneando. O que foi?
— Por favor, não seja uma pessoa amarga.
— Não sou, papai.
— Quero dizer, com relação a Taylor. Ele finalmente recebeu uma tarefa com a qual não pôde lidar a seu modo.
— Que diferença faz? — Blair rebateu com impaciência. — Logo ele estará voando para longe daqui, imagino.
— Taylor passa bastante tempo em Washington, se quer saber.
— Bem, eu é que não vou ficar muito tempo na cidade.
— O que está querendo dizer? — Apesar do tom inconformado, Huntington sabia que a filha não era mais uma menina e que buscaria caminhos próprios na vida.
— Pai — ela disse com firmeza, sorrindo de leve para amenizar o fato de que um pai nunca acredita totalmente que sua filhinha cresceu. — Ainda devo três meses de trabalho ao grupo de combate à fome na América Central. Pretendo concluir minha temporada.
O velho dirigente político arregalou os olhos com descrença.
— Justamente lá, onde você passou por um grande perigo e acabou de superá-lo?
— Não vou embarcar amanhã — ela riu. — Suponho que também lhe devo três meses. Combinado?
— Parece um bom acordo — Huntington bufou.
Blair havia mudado, ele definiu com uma ponta de tristeza. Algo no acampamento, na selva ou no barco tinha alterado o comportamento de sua filha. Sempre havia sido madura, mas agora o peso que carregava desde a morte de Ray Teile estava totalmente eliminado.
— Vai haver uma homenagem a George Merrill esta semana — ele acrescentou. — Você o conhece, é um velho amigo. Será uma festa de aniversário, mas seu velho pai precisa de uma acompanhante. Por que não faz um sacrifício e vai com ele?
— Sacrifício? Ora, papai... — Ela meneou a cabeça, mostrando uma expressão afetuosa. — É claro que vou com você. Terei a companhia do melhor dançarino do salão!
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Sorrindo serenamente, Huntington avaliou se não estava de novo manipulando a vida da filha. Concluiu que tinha direito à companhia dela, pois o tempo corria e ele não ficava mais jovem. Gostaria de viver o suficiente pelo menos para ver um neto nascer.
Os anos haviam feito dele um profundo intérprete da natureza humana. Naquele caso em particular, achava que tinha agido corretamente.
Blair subiu mais alguns degraus da escada, alheia ao sorriso aprovador do pai. De repente parou e voltou-se para ele.
— Papai! E o grupo de combate à fome? Todos devem estar terrivelmente preocupados com o meu sumiço. Você por acaso tem um botão secreto que eu possa apertar para estabelecer contato e enviar uma mensagem?
— Não estão preocupados, querida. Já sabem de tudo, ou quase tudo.
— Ah, é? Claro... — Ela acalmou-se, lembrando-se do segundo voluntário que aparecera no acampamento em menos de um mês. Kate gostara dele. Ambas estavam cegas. — Brad Shearer é outro de seus diplomatas, não é?
— Não — foi a surpreendente resposta. — Brad não é diplomata.
— Como assim?
— É membro do Serviço Secreto do Exército.
— Claro, claro — Blair murmurou. — Só isso.
Ela subiu e terminou de beber seu terceiro martíni no quarto, antes de entrar na banheira de água quente.
Andrew Huntington sentou-se diante da janela da sala, esticando as pernas sobre uma mesinha. Suspirou de felicidade naquele raro momento de lazer. Poderia ter ficado zangado, como qualquer pai ficaria, ao notar que a filha andava tendo um romance. Mas ele, ao contrário, sorria satisfeito. Parecia que algo bom nascera de uma situação ruim. Deveria acreditar mais vezes nisso...
Blair manteve-se ocupada nos dias subsequentes. Havia pessoas amigas a visitar, museus a percorrer, parques e lojas finas que teve vontade de explorar aleatoriamente. Organizou seus dias em função das horas livres do pai, de modo a ficar com ele o maior tempo possível.
Na manhã de sexta-feira, o dia da festa de George Merrill, Blair forçou-se a parar um instante e realizar um balanço do que vinha fazendo. Reconheceu que seu excesso de compromissos havia sido criado para compensar a terrível sensação de solidão que a atormentava.
Continuava predisposta a odiar Craig Taylor. Ele realmente a fizera de idiota. O disfarce de terrorista tinha sido bastante deplorável, mas aquela história de aceitar uma sentença de prisão fora demais. E ele sabia que ela o amava! Deus do céu, como se sentia humilhada ao lembrar-se dessa confissão!
Instruções, regras e ordens, nada mais. Taylor recebera ordens de se aproximar dela, vigiá-la, resgatá-la e protegê-la. Havia se excedido no cumprimento da missão, mas por que não se divertir um pouco com sua princesa cativa? Ele era homem, e com apetites intensos. Por que não apaziguá-los com uma parceira obviamente disposta a capitular?
Vermelha de raiva, Blair sentiu-se também fragilizada.
Tinha se apaixonado tão radicalmente por Taylor que se declarara pronta a esperá-lo, pelo tempo necessário, para que vivessem em plenitude seu amor. Mas nada daquilo havia
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sido real. Desde o princípio, ele nada sentira por ela, exceto atração sexual e a necessidade de seguir instruções.
Blair lutava pela certeza de que nunca mais o veria. Por isso, no meio da multidão, sentia-se solitária, muito mais solitária do que quando era refém de Taylor no barco La Princesa, sem poder ver nenhuma outra pessoa.
Subitamente ela sentiu saudade do que vivera. Amigo, protetor, amante, traidor, Taylor podia vestir diversas máscaras e nem por isso seria menos adorado. Agora, ele devia estar pronto para viajar em nova missão, de volta ao trabalho que apreciava, liberado da tarefa de pajear uma socialite de Washington.
Talvez ele viesse a correr alguns riscos, mas nem Taylor nem outro homem qualquer mereciam as preocupações de Blair. O agente especial, particularmente, costumava enfrentar o perigo de olhos bem abertos. Portanto, para que se afligir? Não, nunca mais. Ela havia perdido Ray, e essa dor fora suficiente para convencê-la de que não suportaria amar alguém de vida errática, incapaz de ter um dia igual ao outro.
— Que diferença faz? — repetiu para si mesma, com irritação. — Esse homem brincou comigo, só quis se divertir. Se pretende aceitar outra missão perigosa, por que devo me preocupar?
Vencida pela amargura, Blair decretou que era melhor excluir Taylor de sua vida. Não pôde evitar, contudo, um insidioso calafrio. Ter pensado na solidão havia feito com que entendesse melhor seu pai, aumentando a empatia entre os dois. Andrew Huntington passava os dias preocupado com a política nacional, que ajudava a construir, mas em sua vida particular tudo o que tinha era Blair.
Ela, por sua vez, o amava muito, reconhecendo nele um homem bom, leal e dedicado.
Como Craig Taylor.
"Tire Taylor de sua cabeça. Pense no seu pai, que você vai acompanhar à festa de hoje. Precisa mostrar-se alegre e orgulhosa!"
Com essa resolução em mente, Blair passou a tarde em casa, desfrutando os luxos da civilização que havia ignorado por tanto tempo. Recebeu a manicure, a pedicure, o cabeleireiro, e até experimentou uma nova máscara para limpeza facial.
Não teria sido impossível cuidar de si mesma em plena selva da América Central. Mas Taylor ainda a chamaria de princesa se a visse toda desfigurada, com rolinhos nos cabelos?
Depois de lavar a lama cosmética do rosto, Blair começou a vestir-se para a noite. Havia separado um vestido longo de veludo verde, composto de saia drapeada e corpete justo, tomara-que-caia. Luvas inteiriças completavam o modelo, talvez o preferido de seu pai: o verde combinava com os cabelos ruivos e acentuava-lhe o tom dos olhos.
Era a primeira vez, desde a aventura na selva, que se vestia com esmero. Parecia estranho. Era como se sua vida real houvesse ficado lá, e o traje de gala não passasse de uma fantasia.
De fato, Blair mal reconheceu a si mesma depois de pronta. Os cabelos tinham sido presos no alto da cabeça e enfeitados com uma tiara que pertencera a sua mãe.
— Aí está, Taylor — falou a seu reflexo no espelho. — Uma verdadeira princesa.
Um riso forte, que se diria histérico, explodiu na garganta dela.
"Você está ficando amarga, Blair", ponderou em seguida. "Sabe que não é uma princesa, mas uma mulher responsável, madura e amorosa..."
Apesar de apegada ao bom senso, Blair pensava romanticamente que o importante eram os sonhos e alegrias partilhados com a pessoa amada. Mas decidiu parar de divagar antes de ficar exausta ou de desmanchar-se em lágrimas. Desceu até a sala e exibiu um sorriso
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alegre ao deparar com o pai.
A nata da sociedade de Washington devia estar presente ali, em peso. O grande salão de baile do Hotel Hilton brilhava com candelabros de cristal, finos vasos de flores exóticas e, naturalmente, pessoas elegantes e sofisticadas.
Era uma enorme mistura, na verdade. O anfitrião, George Merrill, estava em Washington havia tanto tempo quanto o pai de Blair, e por isso os convidados pertenciam a diversas camadas da vida política: senadores, deputados, membros do governo. Até o presidente era esperado, o que significava um considerável reforço no esquema de segurança.
Blair conhecia um bom número de pessoas presentes, de veteranos políticos a servidores civis, passando por autoridades militares. Mas também havia muitas pessoas novas no salão. Estivera fora por quase dois anos, e os funcionários eleitos tinham mudado de acordo com a vontade popular. Assim era bom, ela pensou, lembrando sua conversa com o pai. O povo exercia seu direito de escolha.
Embora Blair estivesse envolvida demais com sua batalha interior para desfrutar a festa, deu o melhor de si em honra do pai. Protegida por seu braço e seu orgulho, cumprimentou os velhos amigos de Huntington e aceitou novas apresentações, sempre com graça e um sorriso nos lábios. A George Merrill, ocupante de um posto mais alto, porém tão digno quanto seu pai, concedeu um beijo na face e sinceros votos de felicidades pelo aniversário. Ele a beijou ruidosamente em retribuição, e permaneceu observando Blair. Ela deduziu que Merrill fora o responsável pelo carimbo de "sigiloso" na operação que lhe esgotara os nervos.
Chefe! A palavra insinuou-se na mente de Blair, que tardiamente percebeu como havia sido tola.
Merrill era o chefe que Craig Taylor não se cansara de mencionar em suas histórias.
Claro! Como não havia percebido? Taylor trabalhava para Merrill e, segundo seu pai, era seu homem de maior confiança. Bom motivo para ele comparecer à festa, caso estivesse em Washington.
Taylor estava.
Blair não soube exatamente o que a alertou para a presença dele. Talvez houvesse, de passagem, ouvido sua voz grave e segura. Talvez fosse o cheiro de sua pele, singular e penetrante, capaz de impregnar-lhe os sentidos e subconscientemente disparar uma torrente de lembranças.
Sexto sentido? Era provável. Ou uma combinação de tudo aquilo. O fato é que, acima de qualquer dúvida, ele estava perto dela, muito antes de Merrill gritar, chamando-o para seu grupo.
— Taylor, é bom vê-lo, rapaz! — O anfitrião mostrou tanto entusiasmo que o agente despediu-se de uma atraente loura com quem conversava e reuniu-se à turma do chefe, da qual Huntington e Blair faziam parte.
Curiosamente, ele falou com Merrill olhando para Blair. Seus olhos cor de âmbar retratavam, como sempre, um certo divertimento que contradizia a gravidade da expressão em geral.
— Não perderia sua festa por nada no mundo, senhor — disse Taylor com cordialidade, apertando a mão de seu superior. — Parabéns e muitas felicidades. — Voltou-se para Huntington e inclinou a cabeça: — Prazer em vê-lo, senhor.
— Igualmente, Taylor — afirmou o outro alegremente, oferecendo a mão para um aperto.
— Blair... — Só então ele a cumprimentou, de modo vago, mas levou-lhe a mão até os
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lábios para um perfeito exemplo de protocolo cavalheiresco.
— Senhor Taylor — disse Blair friamente, tentando apenas manter um tom que não ferisse o protocolo. Era difícil. Ela perdera o controle da respiração natural quando ele se aproximara, e o toque daqueles lábios em sua mão parecia queimar, como se ela fosse marcada a ferros.
— É um prazer ver você — Taylor acrescentou, recusando-se a soltar-lhe os dedos.
Ainda que levasse em conta o protocolo, Blair não conseguiria rebater a declaração dele. Não era prazer nenhum e, se fosse, de qualquer modo viria mesclado com um cruel tormento. Por isso Blair esboçou um sorriso amarelo, que serviu apenas para movimentar seus músculos faciais e nada mais.
— É uma surpresa vê-lo aqui, sr. Taylor — disse com um timbre seco. — Imaginava que, a esta altura, você já houvesse partido em uma nova missão diplomática.
A ironia dela o teria atingido? Será que uma sombra de mágoa perpassara por seus olhos? Não, era pura imaginação de Blair. Na verdade, Taylor erguia as sobrancelhas cinicamente, na direção do chefe.
— Minha última missão foi arriscada. Pensei em tirar esta noite para relaxar.
Blair bateu os cílios com enfado, mas manteve a compostura enquanto o pai e Merrill efetuavam tentativas de esconder suas reações. Blair havia constituído o principal risco de Taylor, como ambos sabiam muito bem.
A opção dela foi de afastar-se do grupo e procurar outras pessoas conhecidas, com as quais pudesse entreter uma conversação livre de Taylor.
— Com licença... — murmurou.
— Licença para dois — atalhou o agente, colhendo Blair firmemente pela cintura. — Ouvi uma valsa, sr. Huntington, e gostaria de roubar sua acompanhante, se possível.
— Vocês dois vão em frente e divirtam-se — Andrew Huntington despachou o casal com um gesto bondoso. — O chefe e eu pretendemos passar a noite recordando os velhos tempos. Corrigindo: tempos antigos, não velhos.
O dirigente riu, mas encontrou em Taylor uma barreira de sobriedade e na filha outra, de mal-estar.
— Papai... — Blair ensaiou um protesto, enviando desesperadas súplicas com os olhos, que o veterano político fingiu não notar.
Nada mais conseguiu, e rendeu-se ao inevitável. Taylor a conduziu à pista de dança e, a não ser que se atirasse ao chão, Blair não tinha escolha senão segui-lo, ou melhor, ser arrastada de roldão. Ainda que descambasse até o piso, pensou com amargo ressentimento, ele a levantaria, pediria desculpas às pessoas próximas, com sua informal diplomacia, e continuaria andando.
— Você é atrevido! — Blair o acusou, enquanto ele começava a rodá-la em seus braços, nos primeiros movimentos da valsa. — Achei que perceberia que eu não quero mais vê-lo nem falar com você, muito menos estar perto de sua pessoa pelo resto de meus dias!
Mentira, ela ponderou para si mesma, rilhando os dentes e fechando os olhos no momento em que sua face roçou a textura acetinada da gola do smoking. Taylor já exercia seu charme masculino e fazia os sentidos de Blair vibrarem com seu toque magnético, guiando-a com firmeza e segurança pelo salão, ao som de uma música tradicional.
"Ele está diferente hoje", Blair pensou em seu benefício. Dentro da figura de um aventureiro da selva, Taylor tinha sido rudemente atraente, apesar de malvestido. Agora, em traje a rigor, ele podia parecer qualquer coisa menos um renegado garboso.
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O smoking, obviamente feito sob medida, ajustava-se ao físico dele sem esconder a musculatura do corpo alto e esbelto, destacando os ombros largos. Antes de diminuir a masculinidade que nenhuma roupa conseguiria ocultar, as dobras de sua camisa plissada complementavam a estonteante aparência de Craig Taylor.
Imersa na admiração desses detalhes, Blair quase perdeu a resposta que ele proferiu.
— Tenho tanto atrevimento quanto nervos. — Taylor reduziu o espaço entre ambos, apertando Blair contra seu corpo, de tal modo que ela foi forçada a erguer o olhar para fitá-lo.
Os olhos dourados de Taylor então brilharam com humor. E com perigo e determinação. Blair cravou convulsivamente os dedos no tecido dos ombros dele.
— Gostaria de falar com você — Taylor completou.
— Mas eu não quero! — Blair reagiu no mesmo instante. Sua voz ondulou levemente porque ele de fato pretendia conversar com ele, mas estava confusa e furiosa. Assim, o que poderia vir de bom de um diálogo? Sabia que Taylor não se importava com ela. Todos os acontecimentos, bons e maus, tinham sido consequência de ordens recebidas. Na remota hipótese de Taylor realmente se interessar por ela, isso só traria mais dor.
O sombrio sorriso que invadiu a fisionomia de Taylor levou os lábios dele a traçarem uma fina linha.
— É pena, princesa. — Um encolher de ombros pôde ser pressentido. — É pena porque você vai falar comigo quer queira quer não.
Blair havia visto a cena no cinema ou em bailes, dezenas de vezes. Não esperava ser ingênua a ponto de ser colhida no suave movimento da valsa, mas foi. Taylor rodopiou com ela pela pista em tal velocidade que ela mal pôde respirar, e assim alcançou a porta do terraço.
Prosseguiu dançando, porém, até achar um banco discreto entre as floreiras, e sua derradeira pressão no ombro de Blair serviu para fazê-la sentar-se. Soltou-a, mas bloqueou qualquer rota de escape com o corpo e com um sapato bem polido à frente do pé dela.
O olhar de Blair transferiu-se do sapato ao rosto de Taylor. O verde-esmeralda de seus olhos denotava espanto e raiva contida.
— Certo — reconheceu, depois de avaliar sabiamente que suas chances de fuga eram nulas. — Você não queria falar? Pois fale.
— Bonita festa, não é? — O sorriso dele tornou-se zombeteiro.
— Era, até alguns minutos atrás — ela revidou. — Se for só isso, posso ir embora?
— Não, não é só isso — Taylor grunhiu, exibindo um olhar flamejante. — Você disse que me amava, Blair. — Ele riu sem alegria, desdenhosamente. — Você até prometeu que me esperaria enquanto eu estivesse na cadeia. O que aconteceu? Você se dispõe a transformar um terrorista, mas não pode amar um homem do governo? Do que se trata? Que filantropia é essa? Já não se sacrificou o bastante?
A sucessão de perguntas e conceitos foi demais para o pleno entendimento de Blair. Ela se ergueu do banco, mas a mão de Taylor em seu ombro a fez retornar à posição sentada. A fúria jorrava como vapor de uma chaleira, afetando o fluxo das palavras.
— O quê? Você está louco, Taylor! Não me importa nem um pouco que você trabalhe para o governo. É bom para você. Mas sei que prefere brincar de James Bond sempre que possível, até ser morto um dia. Mandarei flores. Não vale a pena discutir o que você tem sido até agora. Eu o desprezo, Taylor, porque você me fez de tola e me decepcionou.
— Espere um pouco! — ele rugiu ao interrompê-la, apoiando um cotovelo na perna e posicionando o rosto face a face com o dela. — Eu estava impedido de dizer-lhe a verdade, Blair, e você sabe disso muito bem!
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— Não disse porque não quis e porque é um lacaio — ela o agrediu outra vez, sem ter certeza de que estava sendo razoável, mas tensa com suas emoções conflitantes e receosa de imaginar, apenas imaginar, que nada poderia ter acontecido entre eles. — Certo, você estava trabalhando para meu pai. Mas mesmo assim deveria ter me colocado a par do problema, dado uma indicação do que pretendia fazer. Em vez disso, divertiu-se com minha ingenuidade.