Tempestade no Paraíso

Heather Graham · Capítulo 1 de 4 · parte 2/2

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Tempestade no Paraíso

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

— Então, o que faz aqui? — perguntou Taylor.

— Disse que gosto do luxo, não que não posso viver sem ele. — Ela se amaldiçoou intimamente por responder a tudo, dando pistas de sua pessoa, enquanto Taylor permanecia enigmático. — Agora, fale-me de você.

— Eu fugi de casa certa vez, há uns vinte anos, mas voltei atrás de comida. — Os olhos dele brilharam à lembrança do fato. — Uma pessoa aprecia melhor os luxos da vida depois que passa fome e frio. Estive no Vietnã, vi metade da Europa e do Oriente Médio, e então aprendi que não se pode viver fugindo do que se é.

Também isso era verdade. Contudo, nenhum dos dois precisaria ter contado nada ao outro. Taylor apagou seu cigarro em uma pedra e o pôs de lado.

— Bem, vou deixá-la tomar banho. — Ele esboçou um sorriso e afastou-se.

A primeira rodada estava concluída. Blair despiu-se atrás dos arbustos, sentindo os dedos a tremer enquanto desabotoava a blusa. Temia ser espiada por Taylor ou desejava que isso ocorresse? A segunda hipótese era mais provável. Quanto mais o via, mais o desejava. Ela saltou na água.

A água fria da correnteza refrescou o calor de sua pele, que não se devia apenas ao sol. Riu sozinha ao imaginar-se radicalmente honesta com Taylor.

Perdão, sr. Taylor. Sinto vontade de lhe contar que não confio em sua pessoa, fora de minha vista, mas acho que gostaria de ir para a cama com você. Disse "acho" porque estou ligeiramente temerosa. Veja, já tive tudo o que quis... e perdi. Tenho medo e lhe peço para ser muito gentil, muito tolerante...

— Ei, como está a água? — Kate interrompeu os pensamentos de Blair ao surgir em

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plena margem, onde havia chegado em silêncio, começando a tirar sua blusa úmida de suor.

— Gostosa e fria, Kate — respondeu Blair.

Infelizmente, não fria o bastante para que ela voltasse ao normal.

 

Craig Taylor havia anunciado um jantar especial na sexta-feira e por certo estava cumprindo a promessa. O vinho era francês, e ele trouxera várias garrafas em sua sacola de náilon. A comemoração durou pouco, mas garantiu aos participantes uma noite festiva.

Exclamações alegres e elogios jocosos acompanharam o esforço de Taylor para sacar a primeira rolha. Blair imediatamente pensou que, nos grandes eventos dos quais participara com seu marido estadista, nunca existira tanto prazer e genuína camaradagem. O luxo era uma ilusão.

— Precisamos de lençóis de seda, para combinar com o vinho — ela declarou ao voluntário novato, estendendo o copo para repetir a dose da bebida.

Somente ao ser fitada por seu olhar penetrante, ela percebeu o sentido picante da frase, que sugeria uma noite juntos. Fechou os olhos e torceu para que o rubor lhe deixasse o rosto. Por um breve segundo, ela captara algo diferente naqueles olhos leoninos, algo que não estava lá antes, algo que lembrava perigo, incerteza ou luxúria.

Também havia certa ternura, mas uma ternura marcada pela dor, e que desapareceu instantaneamente quando Taylor serviu-se de vinho e de um prato de carne assada com batata, que constituía o cardápio especial da noite.

— Que tal irmos comer debaixo daquele carvalho? — Ele apontou a árvore, na área externa, que oferecia alguma privacidade.

A habitual fogueira que o grupo acendia, a fim de afugentar animais selvagens, estava a certa distância deles, e assim havia uma muralha de escuridão que os isolava do grupo.

Craig bateu seu copo contra o de Blair, em um brinde inesperado.

— Aos que admitem preferir lençóis de seda — afirmou. — Por falar nisso, quando pretende voltar aos seus?

— Dentro de alguns meses. — Ela mordeu uma robusta batata com molho, pensando na impossibilidade de engordar enquanto trabalhasse nas condições normalmente frugais do grupo de combate à fome. — Eu me inscrevi por dois anos. Irei embora quando o prazo acabar e meu substituto chegar.

— Alguém à sua espera, em casa? — Taylor indagou, sem parecer invasivo.

— Não. — Concentrada na comida, Blair corrigiu: — Quero dizer, sim. Meu pai.

— Além de um parente, há outra pessoa? Sei que você é viúva, mas já faz tempo. Não tem um amigo, um namorado?

— Nada do tipo.

Calando-se, Taylor continuou a mastigar. Sabia que suas perguntas eram muito pessoais, e até dolorosas. Nadava em águas turvas, provocando a pobre moça. Não compreendia por que havia verbalizado aquelas questões, apenas que, como homem, interessava-lhe ouvir as respostas dos próprios lábios de Blair. Para ser franco, ninguém podia esperar que ele fosse uma máquina incapaz de pensar ou sentir.

— Agora é sua vez. — Ela o encarou nos olhos. — Quem o espera? Uma esposa? Uma namorada?

— Não. Sempre viajei demais e acho injusto impor meu estilo de vida a uma mulher.

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Blair viu o rosto dele tornara-se tenso, as feições endurecidas em estado de alerta. Taylor observou a folhagem próxima e colocou seu prato no chão, sem fazer barulho. Em seguida, tocou com o dedo indicador os lábios de Blair, antes que ela falasse alguma coisa.

Taylor apontou o arbusto escuro às suas costas e marchou até lá em silêncio, com a agilidade de um felino. Depois de alguns passos, seu braço desceu no meio da folhagem, detendo-se em um obstáculo.

— Deus do céu, garoto! — Ele puxou para fora o trêmulo Miguelito. — Por que estava nos espiando? — Causou surpresa a Blair ao falar em espanhol.

Aterrorizado, o menino tremia, com a mão do homem alto fechada sobre seu pescoço. Os olhos dele se voltaram para Blair, em um pedido de clemência.

— Ninguém vai machucá-lo, Miguelito. — Ela se aproximou, dando tanta atenção ao garoto que Taylor o soltou. — Mas você nos assustou, escondido no mato. Deveria estar em casa, com sua mãe. O que faz aqui?

A história veio aos fragmentos, entre soluços. Miguelito havia simplesmente sentido o cheiro de comida e, como um bichinho faminto, quebrara a disciplina imposta pela mãe.

— É isso? Fome?

— O que você acha? — Blair enlaçou o menino com um braço protetor.

Sem responder, Taylor ofereceu ao garoto nativo seu prato quase intacto.

— Faça bom proveito, Miguelito. Mas não conte a seus amigos, certo? Já acabou a comida, de onde isto veio.

Blair sentiu remorso por ter engolido o jantar tão depressa que nada lhe restasse para dar. Também experimentou arrepios ao lembrar como Taylor, corajoso e alerta, ouvira um som entre os arbustos e, mesmo desarmado, fora verificar. Na verdade, os habitantes do lugar eram capazes de flanar pela floresta, quietos como ratos.

Ele havia estado no Vietnã, Blair recordou-se. Certamente tinha aprendido a agir em uma guerra na selva. Por esse lado, nada tinha a temer. Por outro, por que continuar suspeitando de um homem que dera o próprio prato de comida a um menino faminto?

— E o que você vai comer? — Blair preocupou-se.

— Talvez tenha de recorrer a lagosta em conserva — ele disse, sem pedantismo. — Trouxe algumas latas.

Sim, mas não naquela noite, pensou Blair com uma ponta de admiração. Com o físico que possuía e tendo trabalhado duro o dia inteiro, Taylor deveria comer bem para não sentir dor de estômago durante o sono.

Ambos aguardaram que Miguelito terminasse a refeição e devolvesse o prato, fitando Taylor com ar de adoração.

— Muchas gradas, senor — ele disse timidamente. — Muchas gracias.

— No por eso. — Taylor demonstrou impaciência. — Agora vá para casa, e nem pense em enfiar-se de novo nos arbustos. Pode ser perigoso.

O garoto desapareceu nas trevas, correndo como um cervo rumo a seu povoado. Craig e Blair voltaram a sentar-se sob a árvore, menos à vontade do que antes. Ela notou, ao expandir a voz, um eco da questão que o dr. Hardy lhe havia lançado no dia anterior.

— Você sabe alguma coisa que eu não sei? E perigoso ficar onde estamos?

— Não e não — Taylor assegurou, exibindo inocência no olhar. — Pelo que ouvi, o governo está firme no poder.

Era verdade, o grupo de assistência humanitária não corria perigo. Mas ele havia se comprometido a dar proteção a Blair, e o treinamento realizado em áreas turbulentas o

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capacitava a detectar a mínima mudança no ambiente, a menor inflexão de rota de uma folha que cortasse o ar.

— Só estou preocupado com crianças que se aventuram pela floresta de noite — ele completou.

— Bem, Miguelito não deveria ter feito o que fez, mas fiquei contente por você ter-lhe dado comida. Essas crianças têm tão pouco...

O olhar ambarino já não parecia inocente, mas intrigante e assombroso. Eram olhos que viam demais. E permanecer perto de Taylor tornava-se perturbador.

— Que tal mais vinho? — ele propôs com um sorriso. — Ainda temos algumas garrafas lá na barraca. Permita-me, madame. — Com um meneio galante, que em nada combinava com ele, Taylor afastou-se rumo à tenda principal, levando os dois copos nas mãos.

Blair acompanhou-o com o olhar e viu que, quando ele atravessava o grupo reunido em círculo na área externa, recebeu uma ovação. Taylor já havia encantado toda a equipe. Seria um tipo raro no mundo civilizado. Mas ali nos confins da América Central, ele constituía um milagre: cortês, amistoso, forte, inteligente e... muito sedutor.

Haveria de fato um homem assim, chamado Craig Taylor?

Claro que sim. Ele era real e voltava para ela, bonito em uma simples camisa estampada e jeans justo, cavalheiresco ao lhe passar um dos copos cheios de vinho que trouxera.

— Que tal um passeio ao luar?

Blair olhou para o céu com ceticismo. Uma nesga de lua crescente proporcionava pouca iluminação.

— Tudo bem — ela acedeu. — Podemos passear sob as estrelas.

Existiam algumas pontilhando o céu.

Após os primeiros passos, ela ergueu as sobrancelhas.

— Crianças grandes também deveriam não sair de casa à noite, não acha?

— Só comigo — Taylor retrucou de pronto. — O riacho, por exemplo, deve estar lindo...

Andaram e conversaram até que, sem necessidade de palavras, desceram a ribanceira e sentaram-se à margem da água. À noite, o lugar parecia um paraíso, com os hibiscos emanando um suave brilho vermelho, a grama formando um tapete verde que alcançava a beira da água. A cascata não proporcionava apenas uma névoa úmida, mas um brilho de diamante ao cair incessantemente.

Colhida por esse encantamento, Blair esqueceu quem era e onde estava. Quase esqueceu de questionar quem era Taylor.

Não foi difícil. Ambos se entrosaram muito bem em uma conversa sobre livros, músicas e filmes. Comida também, mas nada que pudesse causar controvérsia.

O diálogo se desenvolveu tão naturalmente que, com idêntica naturalidade, Taylor passou um braço sobre os ombros de Blair. Ela não protestou, e também considerou natural tocar-lhe os dedos com os seus.

Jamais Blair havia se sentido tão confortável e segura ao lado de um homem. Adorou ficar aninhada no peito de Taylor, experimentando sua força, falando por meias-palavras, aspirando o aroma masculino.

Mais tarde, ele se levantou e ajudou-a a se erguer também.

— É melhor voltarmos — ele sugeriu em tom contrariado.

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Taylor não ofereceu o braço a Blair, como ela esperava, nem fez uma tentativa para beijá-la, e ela ficou estranhamente desapontada. Tinha certeza de que ele pretendera beijá-la, mas se controlara.

Não era tão tarde quando chegaram ao acampamento, mas a fogueira já estava quase extinta, brilhando apenas em pálidas línguas de fogo amarelo e laranja. Toda a equipe havia ocupado suas respectivas tendas a fim de dormir.

Taylor acompanhou Blair até a porta da barraca que ela ocupava. Os dois se entreolharam, e as íris douradas de Taylor pareceram ainda mais magnéticas, mais instigantes do que qualquer fogo do Céu ou da Terra. As emoções de um e de outro como que se desnudaram. O desejo que ela sentia seria compartilhado?

Blair umedeceu os lábios em um gesto sensual, alheia à própria ânsia de amar. O sentimento, visível em sua face, a tornava mais bonita. Craig Taylor julgou-se enfeitiçado, vendo esmeraldas nos olhos dela, chamas descendo no lugar dos cabelos e os lábios... bem, os lábios continuavam sendo os de uma mulher desejável e eram convidativos.

Ele gemeu de expectativa, pensando mais uma vez que não era uma máquina, um computador, e sim um ser humano capaz de sucumbir a uma saudável atração.

Inclinou a cabeça a fim de nivelar a boca com os lábios que desejava sentir contra os seus. Eram lábios ao mesmo tempo selvagens e ternos, que queriam conquistar e ser conquistados. A língua de Taylor invadiu o vão que Blair deixara entre eles, roçou os dentes e, conforme ela abriu espaço, saboreou o aromático mel daquela boca de mulher.

Nunca antes havia agido assim. Também pela primeira vez na vida tinha perdido o autocontrole.

Os lábios de Blair permaneciam colados aos dele, em um beijo interminável. No começo, o contato fora tímido. Agora, sua boca podia ser comparada a uma flor que vicejava sob o sol. Como se fosse uma donzela, ela se resguardara no primeiro instante, para depois se entregar com uma paixão que saturava os sentidos de Taylor. Ao retê-la nos braços, sentia-a suave, maleável, maravilhosamente feminina, quente e receptiva.

Ela gemeu, em um estado de quase torpor. O toque daquele homem era tudo o que havia imaginado, e mais. As sensações que lhe assaltavam o corpo, a partir da boca, tendiam a produzir uma sublime loucura. Blair sentiu a rigidez dos músculos de Taylor e não se furtou a encostar o ventre na virilha dele. Sentiu-se totalmente mulher quando, a cada golpe de língua, a cada afago, seu corpo reagia com umidade, excitação e abandono.

Os dedos de Taylor agora acariciavam os cabelos macios e seguravam a cabeça de Blair com força possessiva, para manter os lábios dela na mesma posição. Ela, porém, não se moveria por vontade própria. Queria ficar ali para sempre, sentindo o calor masculino aquecer-lhe o corpo, queimá-la com a boca insaciável.

Tardiamente, Blair concluiu que ela é que havia oferecido e desfrutado o beijo com tanta sede de paixão que Taylor nada poderia negar-lhe. Tampouco ela não negaria coisa alguma àquele homem depois de ter-lhe entregado um pedaço do coração.

Em uma pausa para respirar, eles estreitaram o abraço que os unia e os transportava até a região virtual onde os instintos precisavam ser satisfeitos. Mas Taylor recuperou o autocontrole, a mente em luta com o corpo, e interrompeu o contato enlouquecedor com Blair. Ela poderia entender as razões dele, mais adiante, mas não naquele momento. Frustrada, voltou ao mundo real, decidida a conceder a Taylor tudo o que ele quisesse, no instante em que desejasse. Era efetivamente um homem incomum, que nunca seguiria os trâmites normais que levam do beijo à posse carnal.

Os braços dele a libertaram, a mão tocou-lhe o queixo de leve.

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— Boa noite, Blair — disse brandamente. Também ele se sentiu frustrado ao retomar a trilha para o acampamento, até sua barraca distante e quase isolada das demais.

Blair o viu partir, aceitando o fato de que estava apaixonada por alguém que, confessadamente, não tinha espaço em sua vida para um envolvimento.

De qualquer modo, era uma sensação maravilhosa estar abraçada àquele homem, e Blair quis desfrutá-la mesmo que, mais tarde, o amor só lhe trouxesse dor.

Acreditava, com razão, que Taylor se afastara, em vez de desnudá-la e possuí-la, por saber que não lhe podia oferecer nada de permanente. E daí? Ela o desejava, ainda que por uma noite, por uma hora.

No entanto, o estado de paixão não suprimia a desconfiança que Blair tinha de Taylor. Tremendo, ela entrou na tenda e logo se despiu, para vestir sua confortável camisola de algodão. O coração continuava disparado, nos batimentos quase audíveis.

Craig Taylor tinha uma maneira própria de iludi-la, até que confiasse nele. Havia se integrado ao grupo de combate à fome, e Blair seria obrigada a vê-lo todos os dias, um após o outro.

O que assustava, acima de seu desejo radical, era a possibilidade de que ela o conquistasse para sempre, em um relacionamento duradouro.

 

Em sua barraca, Craig Taylor não conseguia dormir. Queria distância de qualquer outra mulher em sua vida. Como tinha se deixado encantar pelos dotes femininos de Blair? Segundo ele, o contato se dera por muito mais do que uma instantânea atração química.

Havia sido pura eletricidade. Uma força que não se parecia com nada que ele já havia enfrentado. Mas essa força fazia parte integrante dele, traduzida em sedução, em encantamento.

Era a profundeza de seu olhar, a suavidade da voz, o orgulho viril, a devoção aos outros, o carinho e a inteligência.

"E agora?", ele se perguntou mentalmente, certo de que tremia na noite fresca. Cinco dias haviam se passado desde sua chegada. Como encarar os novos dias por vir, quando a imagem de Blair não lhe deixava o pensamento?

Por mais treinamento que tivesse recebido como agente especial, Taylor sentiu-se infeliz. Qual um espectro, rondou os arredores do acampamento. Não foi visto nem ouvido enquanto se deslocava até a selva.

Era meia-noite. Na clareira, uma luz intermitente passou a atravessar a folhagem. Mas não eram as chamas de uma fogueira, e sim um código de comunicação. Taylor ligava e apagava sua lanterna mais velozmente do que a maioria dos olhos poderia ver.

Cheguei. Tudo parece bem. Câmbio.

A resposta foi instantânea, a partir de um refletor no alto do morro.

Mantenha posição até novas ordens. Final.

O gato selvagem voltou à sua base de operações, sem ser percebido, silencioso.

 

Capítulo III

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Blair experimentou um perturbador surto de pânico pela manhã. Sua consciência lhe deu a visão plena do erro de conduta que praticara.

De positivo, estabelecera-se alguma ligação entre ela e Taylor, e o sentimento que isso despertava era fantástico. Mas não devia ter-se atirado nos braços dele. Agora seria impossível ele não perceber que poderia levá-la na palma da mão, que exerceria o controle, que imporia restrições. Pior, o que deveria estar pensando dela?

A ideia de deparar com Taylor no espaço do acampamento, de encará-lo à luz do dia, deixou Blair pálida, sem forças. E, ainda assim, vê-lo de novo se tornou o objetivo de seu dia. Ela ergueu uma sobrancelha defronte ao pequeno espelho quadrado acima de seu catre.

— Convenhamos, Blair! O que é que você quer? — A resposta achava-se fora de seu alcance, e ela balançou a cabeça com desânimo. — Não importa, não é? Preciso seguir adiante, de um modo ou de outro.

Mas era estranho sentir-se devastadoramente atraída por um homem no qual não conseguia confiar.

Encarar Taylor provou-se fácil. Como que por obra do destino, ele foi a primeira pessoa que Blair viu naquela manhã. Sem camisa, mostrando os músculos torneados e a pele bronzeada, ele tentava barbear-se diante de um espelhinho precariamente pendurado num barbante.

Ele sorriu, debaixo da camada de espuma branca, assim que a viu. O simples gesto falou mais e melhor do que quaisquer palavras. Sim, havia uma ligação entre ela e Taylor. A expressão dele era de aceitação. O olhar dourado parecia dissipar a névoa da manhã.

— Bom dia — ele cumprimentou, indicando com a cabeça a mão que segurava o aparelho de barbear. — Eu costumava ser bom nisto, mas agora minhas mãos estão tremendo.

— Você não parece ser do tipo que treme — observou Blair, balançando a cabeça com incredulidade.

— Não usualmente — ele emendou.

Seria um contato simpático, Blair deduziu. Talvez Taylor também estivesse confuso com o sentimento que crescia entre os dois. Não a rejeitava, porém. Apenas se retraía. Se trocassem algumas palavras honestas e um olhar franco, talvez surgissem as respostas que ambos se negavam a admitir. Em pouco tempo, entrariam na rota de descoberta mútua.

— Bem, não posso oferecer-lhe ajuda — afirmou Blair com a certeza de estar sendo sincera. — Também estou tremendo um pouco.

Taylor riu e brindou-a com um longo olhar que ela recebeu como carícia.

— Como fomos os primeiros a levantar, vou fazer café.

— Estava mesmo com vontade. Você me traz uma xícara?

— Claro.

Blair sorriu e rumou para a barraca que abrigava a cozinha. Era incrível o que Taylor conseguia fazer com ela. Sempre havia adorado o trabalho com a equipe assistencial: a camaradagem entre os membros, a interação com o povo do lugar, o senso de valor próprio que redundava de suas ações. Mas isso tinha durado somente até a chegada de Craig Taylor, quando percebera que o trabalho era insuficiente para lhe devolver a felicidade que perdera com a morte do marido, Ray Teile. Pensava nisso agora porque subitamente havia recuperado um sentimento de entusiasmo no início de cada dia ou de cada tarefa.

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Naquela manhã, ela já se dava conta da leveza do ar, do aroma penetrante do café, dos sons que faziam parte da vida na selva e no acampamento. Seus sentidos estavam receptivos a uma nova dimensão de alegria.

— Bem, sr. Taylor — murmurou para si mesma enquanto esperava a água ferver na cafeteira. — Ainda não confio em você. — Em um lampejo, reviu a imagem dele diante do espelho, a cintura da calça jeans ajustada com precisão à linha média do corpo, os poderosos músculos das pernas correspondendo aos do tórax. — Mas estou contente com sua existência.

Satisfeita, levou-lhe o café.

O relacionamento deles parecia entrar em um confortável compasso de espera. O intenso nervosismo que Blair sentira anteriormente começou a dissipar-se, na medida em que entendeu que Taylor não lhe pediria nada que não estivesse pronta para oferecer. E naquele aspecto talvez ele a conhecesse melhor do que ela própria.

Certo medo era inevitável. Blair sentia próximo o dia em que finalmente eles chegariam juntos ao êxtase dos sentidos e não só aceitava o delírio sensual, como sonhava com ele. O crescimento da relação entre os dois tendia a aparar as arestas de qualquer receio de uma completa intimidade.

Ele vinha conquistando sua confiança, dia após dia. O pensamento de que havia alguma coisa errada com Taylor continuava no fundo de sua mente, mas a intuitiva suspeita se embotava quando ela o via trabalhando duro, feito uma máquina de energia. Era impossível que ele não fosse sincero em tudo o que dizia ou fazia.

As crianças do vilarejo próximo venceram o temor inicial em relação àquele gigante branco e passaram a rodeá-lo. Taylor não se comportou como pai ou irmão, incentivando as brincadeiras, mas volta e meia presenteava os garotos com pequenos brinquedos que tirava de sua grande sacola de náilon, verdadeira arca do tesouro. As crianças obedeciam sempre que ele lhes dava alguma ordem. Sua palavra era lei.

 

Completavam-se duas semanas desde a chegada de Taylor. Blair mantinha-se pensativa, na entrada da barraca do ambulatório, quando o dr. Hardy a surpreendeu.

— Você ainda está espionando aquele homem? — perguntou, aborrecido, embora as espessas sobrancelhas erguidas indicassem afeição. — Pensei que as coisas iam bem entre vocês. Não há noite em que não os veja conversando até tarde.

— Não estava espionando, chefe, só olhando.

— É justo. Ele também fica constantemente olhando para você.

— Mesmo? — ela espantou-se. Não imaginava que Taylor lhe retribuísse a secreta observação.

O médico acolheu a pergunta de Blair com um largo sorriso.

— Já disse, desde o começo, que ele estava atraído por você. A esta altura, você deve ter percebido. E, ou muito me engano, o sentimento é recíproco.

Sem protestar nem se defender, Blair enrugou a testa.

— Por que ele me observa em segredo? — Seus olhos encontraram os do médico. — Não acha que isso é um tanto suspeito?

— Oh, Blair! Não acredito que você ainda queira sondar a vida anterior de Taylor! Não, não é suspeito. É normal que um homem saudável olhe para uma mulher bonita. Ainda mais aqui, onde há tão pouco a ver. Taylor foi um presente dos céus para nós. Não me importa se anda escondendo algo de sua vida pregressa.

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— Acho que tem razão. — Blair deu de ombros, não totalmente convencida.

— Você desconfia dele?

— Sim — ela concordou. — Ocasionalmente.

— Ora, as mulheres! — Tom Hardy gracejou com a própria tolerância. — Vocês passam horas conversando. Assim, você o conhece melhor do que qualquer um de nós. Do que falam por tanto tempo?

— Todo tipo de assunto — respondeu Blair vagamente. Ela tomou a liberdade de pegar, no bolso da camisa do doutor, um maço de cigarros do qual tirou um, oferecendo outro ao chefe. Usou depois um isqueiro de plástico.

— Taylor viajou muito — prosseguiu. — Nós discutimos povos, países e costumes. Arte, música... — Hesitou diante da vastidão da cultura de Taylor. — Ele fala um espanhol perfeito, não?

— E daí? Todos nós falamos espanhol, melhor ou pior, por causa de nosso trabalho. Ouvir a língua local ajuda a dominá-la.

— Mas Taylor já chegou aqui falando bem.

Impaciente, o dr. Hardy suspirou e meneou a cabeça em reprovação.

— Eu também falava bem o espanhol quando vim para cá. E se Taylor tiver um dom especial para idiomas? Como você, aliás.

— Quantas línguas ele conhece?

— Fluentemente, apenas cinco.

— Apenas cinco!

— Sei disso porque vi o currículo dele. Não mencionei esse detalhe porque sei como sua mente funciona...

— Bem, eu vinha perdendo minhas suspeitas, mas agora elas estão voltando!

— Só porque o nosso Hércules, além de forte, é um homem erudito?

— Não consigo explicar o que sinto.

— Eu consigo, mocinha — atalhou o doutor. — É algo normal, que você deveria assimilar em vez de combater. Você gosta de Taylor e tem medo disso, portanto procura obstáculos, para sua proteção. Você não precisa de proteção, Blair. Vá em frente e dê uma chance a si mesma.

Blair mordiscou o lábio, em silêncio. O médico teria razão? Estaria ela se escondendo atrás de uma suspeita imaginária porque temia sair machucada da relação?

— Tenho procurado assimilar. E você é o único que notou que eu passo meu tempo livre com ele.

— Suponho que sim. — Tom Hardy sorriu com sabedoria e apagou o cigarro em um cinzeiro. — De qualquer modo, você estudou Psicologia na faculdade, e deveria conhecer a própria mente. Embora não precisemos de Freud para decifrar a situação! — Rindo, o médico afagou os cabelos ruivos de Blair. — Vá, tome seu banho de riacho antes que a rapaziada fique impaciente, eu inclusive. Faz tempo que Kate foi para lá.

 

Blair conversava animadamente com Kate enquanto ambas desfrutavam seu lazer na água fria. Como sempre, Kate foi quem sentiu primeiro a pele arrepiada, e deixou o riacho para enrolar-se em uma grossa toalha.

— Não entendo. Antes, eu estava com um calor medonho. Agora, sonho com um

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chocolate quente.

— Pode ir — Blair instigou a amiga. — Daqui a pouco sairei também.

— Não gosto de deixá-la sozinha aqui — Kate justificou sua lerdeza.

— Pelo amor de Deus! Estou bem, muito bem. E não há ninguém por perto, exceto nosso grupo. Vá!

— Acho que vou mesmo — disse Kate, com os olhos brilhantes de malícia. — Se tudo o que tenho para me aquecer é um chocolate quente, farei um.

— O que está querendo dizer?

— Que não tenho um Taylor para me esquentar!

— Kate! — Como se mostrar escandalizada não funcionou, Blair passou à tática tradicional. — Taylor é apenas um bom amigo e, certamente, também é amigo seu.

— Esse é o problema — choramingou Kate. — De mim, ele só quer amizade. De você, muito mais!

Blair encolheu os ombros. Ela e Kate eram amigas demais para entrarem em uma discussão tola.

— Não sei — murmurou. — De um homem como Taylor, penso que é melhor ser somente amiga. Logo ele nos deixará para viajar de novo.

Taylor partiria em breve, em data não especificada, a fim de continuar perambulando pelo mundo. Ele próprio havia reconhecido tal detalhe como um fator negativo em suas relações com o sexo oposto. Blair não era inexperiente. Já conhecera o amor e a dor da perda e da solidão. E quanto a Taylor, ele partiria mesmo depois de torná-la dependente de seus cuidados e carinhos.

Não, aquilo não servia para ela. Sabia, no entanto, que uma atração física não era um compromisso de vida, e assim aceitava passar por uma experiência amorosa, embora passageira. Poderia nunca mais deparar com outro Craig Taylor ao longo de sua vida e, sem dúvida, lamentaria ter deixado passar a oportunidade.

— Não se subestime — aconselhou Kate, com um sorriso tristonho.

Blair, ainda submersa na água até a cintura, notou que a amiga tremia.

— Não subestimo nada! — Ela boiou um pouco, apreciando a falta de gravidade. — Por favor, vá embora, Kate. Não suporto vê-la trêmula e triste na minha frente. Oh, Deus! Está bem. Vou sair agora. — Para provar o que dizia, Blair arrastou-se pela margem e apanhou sua toalha.

— Já fui! — gritou Kate. — Levarei um chocolate quente à sua barraca.

— Obrigada! — Procurando vencer a contrariedade, Blair secou com força suas mechas raivas, depois enrolou a toalha sob os braços.

Não havia visto nem escutado nada de anormal. Não obstante, tinha a sensação de que estava sendo observada.

Nada existia por ali, além de grama, arbustos, folhagem e árvores baixas, ocasionalmente sacudidas pelo vento forte. Os únicos sons consistiam no fluxo da correnteza, na vazão da cascata, em minúsculos movimentos do ar.

Inquieta, Blair terminou de se secar. Com a calça jeans em ordem e a blusa semi-abotoada, ela voltou a examinar os arredores. Outra vez, nada para ver ou escutar. Sua impressão, porém, era de possuir um sexto sentido, uma capacidade de saber, quase com certeza total, de que alguém a observava.

"Não é a primeira vez que isso acontece", ela disse para si mesma. "Ou se trata de um pressentimento ou estou ficando paranóica".

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Talvez, simplesmente, sua imaginação trabalhasse em ritmo frenético. Vinha suspeitando de cada ação de Taylor, e do mesmo modo acreditava ser observada. Blair jogou a toalha e a bolsa no ombro e seguiu a trilha para o acampamento. Censurou-se por ter demorado no riacho mais do que pretendia, atrasando o banho refrescante do estimado dr. Hardy.

 

Blair havia sido observada, e não por um espectador feliz por poder deliciar-se à visão de seu corpo nu. Novamente, Taylor fora o responsável pelo farfalhar dos arbustos. Cada vez mais, ele ganhava o perfil de um voyeur sofredor. Pior agora, quando já conhecia aquela mulher e a desejava inteira, corpo, alma e essência, para si.

Ao passar o tempo do banho entre as folhagens, com todos os músculos tensos e a boca apertada, ele pressentia estar à beira da loucura. Tinha sido ruim no primeiro dia, mas nada comparável à amargura trazida pelas ocasiões seguintes, pois já não lhe bastava admirar e desejar o corpo quente e macio de Blair Morgan.

A bela ruiva talvez não imaginasse que cada movimento seu era uma pintura de fluida graça, que o arco de seus braços ao nadar era uma lição de sensualidade. Todos os dias, Taylor tentava fechar os olhos na hora em que Blair emergia da água como uma Vênus, com os pingos d'água percorrendo sua pele sedosa, às vezes parando voluptuosamente nos mamilos rosados antes de cair na forma de prismas luminosos.

Fechar os olhos, porém, de nada adiantava. A figura de Blair Morgan estava enraizada em sua mente: belos seios, ventre enxuto, cintura fina e quadris graciosos. A virilha, quando visível, era talhada em um perfeito triângulo levemente ressaltado: sublime, misterioso e enfeitiçante.

Ela não fazia ideia da tortura que seu banho diário representava para Taylor, mas ele mantinha a compulsão de segui-la até o riacho, com o pretexto de vigiá-la em nome da segurança.

Geralmente, era fácil. Como trabalhavam perto um do outro, no acampamento, ele conhecia as tarefas diárias de Blair. Gostava de vê-la cuidar das crianças desfavorecidas. Aquilo lhe tinha vindo como um prêmio, quase como as férias que o chefe havia prometido.

Taylor julgava que podia conhecer Blair observando-a em segredo, tanto quanto conversando com ela nos finais de tarde. Adorava vê-la preocupada com algum problema, com determinada criança, quando então erguia as sobrancelhas finas, para depois plantar no rosto um sorriso de infinita graça e beleza.

Também amava ver Blair no riacho, mas isso já beirava a agonia. Recriminava-se por espiá-la em sua privacidade. Queria desfrutar sua visão, livre e tranquila na correnteza, mas igualmente desejava que ela soubesse que ele estava ali. Assim, os folguedos na água seriam destinados a ele, somente a ele.

Isso poderia tornar-se realidade, pensou Taylor enquanto rilhava os dentes com força. Blair era a filha de Huntington, e ele se encontrava em missão de proteção e resgate. Pela primeira vez na carreira de agente especial, não teria como obter prazer em nome do simples prazer. Já não ousava tentar definir o que vinha sentindo.

Enquanto pudesse se controlar, ele o faria. Não repetiria o erro do primeiro dia, o de deixar-se seduzir pela disponibilidade de Blair, pela tácita confiança que ela depositara nele, inicialmente.

E então lá estava Taylor entre os arbustos, mergulhado em um sofrido voyeurismo. Blair tinha mesmo de ser espiada quando tomava banho. Fazia parte do trabalho. Se houvesse

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uma tentativa de sequestro, por exemplo, aquele seria o lugar e a hora perfeitos. Ela ficava ali sozinha, distraída, longe dos colegas e do acampamento.

Taylor respirou fundo e seguiu Blair de volta às barracas. A noite caía rapidamente. Nas proximidades do acampamento, Taylor mudou de direção a fim de parecer que vinha do lado oposto. Chegou à fogueira praticamente junto com o alvo de sua missão.

— Olá — ele cumprimentou Blair e Kate conjuntamente, mas os olhos se fixaram na ruiva, sem esconder a admiração.

Ela sorriu, imaginando como aquele homem conseguia mostrar tanta coisa naqueles olhos extraordinários, e ao mesmo tempo nada revelar.

— Café? — Kate ofereceu.

— Claro, obrigado. — Taylor aceitou uma caneca fumegante e, como agradecimento, deslizou a mão pelos cabelos de Kate.

Blair surpreendeu-se com o ciúme que o breve gesto despertou nela. Não foi um ciúme rancoroso. Kate era sua amiga, e radicalmente honesta. Mas houve uma aguda ponta de inveja diante de um carinho que não recebera de Taylor, com tanta generosidade.

O momento de mal-estar passou.

— Vamos jantar? — Taylor propôs, voltando-se para Blair.

— Acho que sim — respondeu ela, encolhendo os ombros.

— Bem, é a minha hora para bater em retirada — afirmou Kate. — Dois na cozinha, tudo certo. Três já formam uma multidão.

— Kate! Não seja tola! — Com as mesmas palavras, Taylor e Blair insistiram para que a amiga os acompanhasse.

— Não se preocupem comigo. Preciso encontrar Dolly e falar com ela sobre uma vacina que está chegando. Aproveitem o jantar.

Desconsolada, Blair viu a amiga distanciar-se. Seria tão óbvio assim que ela e Taylor gostavam de ficar sozinhos? Sozinhos, bem entendido, da maneira que era possível permanecer sozinhos no acampamento. Era verdade que o grupo jantava em conjunto, mas, por uma decisão não verbalizada, todos comiam mais cedo, discretamente, e deixavam Taylor e Blair à vontade. Era como se fossem os últimos clientes de um restaurante de luxo. Não contavam com o romantismo de uma vela à mesa, mas tinham as sombras da floresta ao derredor. Também não saboreavam algum prato fino, mas se esforçavam para mastigar a comida do dia.

Claro que, na maioria das vezes, tratava-se de um exagero bem-humorado.

Naquela noite, por exemplo, alguém havia preparado um cozido de carne com batatas e legumes, bastante palatável, conforme Taylor comprovou ao servir o prato de Blair e ouvir sua aprovação.

— Soube que você fala cinco línguas fluentemente. É um grande dom, mas que também exige esforço. Como você se tornou um poliglota? — Blair manteve os olhos fixos em Taylor, atenta a qualquer sinal de mudança.

Ele permaneceu impassível, depois exibiu um sorriso forçado.

— Gosto de idiomas, por isso aprendo com facilidade.

— Mas cinco!

— Não é façanha alguma. Cresci no sul da Califórnia e assimilei o espanhol das crianças mexicanas das redondezas. Tive uma avó italiana, e ela me ensinou o vocabulário básico, bem como a inflexão das palavras. Depois, passei dois anos na Alemanha, com os militares, e nem precisei aprender a língua. Eu a absorvi.

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— Continue — pediu Blair, interessada. — Contando com sua língua materna, são só quatro até agora.

Taylor vacilou por um segundo, em uma hesitação que passaria despercebida a quem piscasse. Valorizar-se perante ela era bom, mas Blair não imaginava o esforço que ele tinha de fazer para manter aquele meio-sorriso afivelado ao rosto.

— Falta o francês — ele anunciou em tom alto. Conhecia o idioma, mas não se considerava fluente nele. Contudo, ante a desconfiança de Blair, não poderia dizer que a quinta língua que dominava era o russo.

— Então?

Ela desejava uma explicação para o aprendizado do francês. Agora Taylor se arrependia de ter ajudado o dr. Tom Hardy com uma carta naquele idioma. O médico não se cansava de elogiar-lhe a capacidade, como se precisasse valorizar seu próprio papel como chefe do grupo de combate à fome.

— Eu viajei muito — Taylor aferrou-se a tal explicação. — Gostava de francês desde o ginásio, e com o tempo fui aperfeiçoando meu domínio do idioma com base em livros didáticos e na experiência de vida.

Era extraordinário, pensou Blair, que um homem de feições tão severas pudesse exibir um sorriso tão fascinante. Suas reservas se dissipavam sempre que ficavam juntos, e ela se sujeitava ao brilho daquele estilo de sorrir, cheio de promessas de gozo e afeto.

Ele riu abertamente e acercou-se de Blair, quase encostando o corpo no seu. Ela pôde sentir-lhe a respiração acariciando sua pele.

— Sabe qual a grande verdade? — Taylor instigou. — Fui um hippie envelhecido, que passou a vida a percorrer o mundo. Com a única diferença de que tinha dinheiro para fazer isso.

— É interessante — ela murmurou. As razões para interrogar Taylor tinham abandonado sua mente, como em uma espiral sem fim.

Quando ele se aproximou mais, Blair não se preocupou com seu futuro, nem com o passado daquele homem. Foi vencida pela urgência de um desejo dominante: sentir a emoção dos lábios dele contra os seus, experimentar uma vulcânica volúpia crescendo a partir de suas profundezas, liberar o impulso de completar o que fora começado uma semana antes, esquecendo o receio de que ele não a quisesse com o mesmo ardor.

Taylor se achava tão enlevado quanto Blair, colhido no próprio feitiço. Estavam ao alcance da vista do restante do grupo, mas isso tinha importância menor. Os lábios de ambos eram convidativos. Um esperava a iniciativa do outro, ansiando por sentir a doçura do beijo iminente. Bastaria um sussurro e...

Taylor detinha o poder, refletiu Blair vagamente. O poder de acelerar seu sangue nas veias, de produzir arrepios de paixão em todo seu corpo. No entanto, certamente ele ainda não possuía o poder de balançar a fogueira próxima, de mover a terra e outros elementos da natureza.

— Droga!

Subitamente, Taylor passou um braço em torno dela, enlaçando-a com força, mas esse não foi um momento especial de ternura ou desejo. A terra realmente se movia perto deles.

— Terremoto!

Blair ouviu a assustadora palavra vinda do canto do acampamento. Viu-se girando pelo terreno, agarrada a Taylor, enquanto o solo debaixo deles tremia violentamente. Rolaram e rolaram, até sentirem tontura, e só pararam perto de uma árvore nos limites da clareira. Naquele momento, a árvore estalou e caiu, atingindo o solo a poucos passos dos dois.

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Gritos quebraram o silêncio da noite. O pandemônio se estabeleceu. Um medo profundo se apossou de Blair. Ela já vira tremores de terra na América Central, mas nenhum como aquele: o rugido forte da natureza, o barulho das árvores em queda, uma cacofonia de tambores enlouquecidos.

Abaixo dela, a terra seca se fendia.

Acima dela, porém, estava Craig Taylor, cobrindo-a com o próprio corpo, as mãos entrelaçadas a fim de transmitir calma e abrigo. Havia tensão nele. Junto com as demais vibrações que a rodeavam, Blair experimentou uma sensação de segurança, contra todas as possibilidades.

As barracas balançavam e caíam, e o rugido da terra prosseguiu. No céu, as estrelas pareciam sacolejar, instáveis como o chão. E, de repente, tudo cessou tão abruptamente quanto começara.

— Você está bem? — Taylor, com o rosto oculto no escuro, pressionou os dedos de Blair com intensidade.

— Ótima... — ela balbuciou, e com isso ele colocou-se de pé, puxou Blair para cima e correu com ela até o acampamento.

Ali, Taylor soltou-lhe a mão e assumiu o controle, graças à personalidade forte. Com a voz firme, passou as primeiras ordens para o grupo, onde cada um procurava, em vão, por algo mais do que arranhões e ferimentos leves. Felizmente, não havia sido um terremoto, Taylor anunciou, mas um pequeno tremor de terra. E sua voz calma logo ganhou a confiança de todos.

— Juan, Kate, vão ao povoado com material de primeiros socorros. Dolly, prepare o ambulatório para os eventuais feridos mais graves. E Blair, você... — Os olhos dele pousaram sobre ela, voluptuosamente apesar de tudo.

— Eu vou com Juan e Kate — prontificou-se. — Conheço bem as crianças e...

— Não! — A ordem soou incontestável. Os olhos ambarinos de Taylor brilhavam mais do que nunca, sinalizando um auto-controle que poderia vencer qualquer perigo. —- Você precisa ficar aqui Blair, ajudando Tom no ambulatório. Qualquer criança ferida será transportada até aqui em minutos.

A Blair não cabia refutar a voz de comando. Ele continuou, agora mais suave, transmitindo instruções gerais para o enfrentamento da situação, como se estivesse no papel de um técnico a passar orientações para seu time de futebol. Depois de ouvir Taylor, os membros do grupo se dispersaram em diferentes direções.

A presença do dr. Tom Hardy seria importante ali, mas ele fora à cidade e não se sabia se conseguiria voltar logo. O primeiro trabalho, em mutirão, foi o levantamento e recuperação das barracas. Trabalhando duro, Blair ganhou o consolo de ver Taylor de perto, diversas vezes, enquanto ele organizava tudo.

 

Noites e dias insanos se seguiram. O tremor podia ter sido pequeno em termos científicos, mas a devastação causada na aldeia fora grande. Muitas das frágeis paredes de barro haviam caído, desabrigando diversas famílias do povoado.

Por sorte, não ocorreram mortes. Blair tratou de uma infinidade de cortes e contusões, franzindo a testa toda vez que um ferimento mais grave exigia uma tira anormal de esparadrapo para o curativo não se soltar. O pior caso que o dr. Hardy, já de volta, precisou tratar foi a fratura do pé de um rapaz, atingido por um armário em queda.

O tremor de terra tinha sido mais violento ao norte, perto da base de um vulcão

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adormecido. Qualquer ajuda extra que viesse da capital ou de outros países não chegaria ao acampamento dos voluntários contra a fome naquele dia.

Demorou dois dias e meio para as atividades voltarem ao normal e, curiosamente, os membros do grupo ficaram desorientados com a retomada da rotina.

Era difícil compreender a resistência dos habitantes locais. Em um dia, suas humildes casas estavam no chão, por efeito do abalo sísmico. No outro, aceitavam ajuda e diziam obrigado de todo o coração. Depois, pareciam esquecer tudo e não desfrutavam as facilidades que lhes eram oferecidas, o que era terrível sobretudo por prejudicar crianças, condenadas a ficar sem escola e sem comida. Ninguém mais do grupo duvidava de que o problema ali, antes de combater a miséria, era combater a ignorância.

Ao cair da terceira noite, Juan Vasquez retornou da aldeia com a notícia de que a última casinha derrubada já estava de pé outra vez. Blair havia liberado seu último pequeno paciente. Kate tinha arrumado os novos suprimentos, recém-chegados, na barraca médica, transformada em um verdadeiro hospital de campanha.

Era incrível, mas de repente parecia que ninguém tinha nada a fazer. Restava retomar a rotina cotidiana, antes tão rigorosa, agora tão cômoda. As pausas para refeições e descanso assumiam o papel de férias em um país inóspito.

— Será que houve mesmo um pequeno terremoto por aqui? — Blair perguntou a Tom, em tom descrente, ajeitando uma mecha de cabelos que teimava em lhe cair sobre a testa.

Eram cinco horas da tarde, e o trabalho terminara. Não para Craig Taylor, que podia ser visto levantando caibros, arrastando móveis, verificando as coberturas de lona das barracas. Como sempre estava por perto, Blair não ficou sem o calor da presença dele, sem a energia vital que transmitia a todos, sobretudo a ela. Mas ao mesmo tempo, pareciam separados por quilômetros, devido à falta de oportunidade para conversarem.

Blair o viu carregando caixas de alimentos, sem demonstrar cansaço. Enrugou a testa e voltou-se para o doutor:

— Não sei o que fazer — disse a Tom, em tom lamurioso.

— Tome um banho — aconselhou o médico, examinando as feições abatidas de Blair, que haviam perdido parte de seu brilho. — Mas vá logo, porque também pretendo entrar no riacho.

Blair soube que Kate já havia se banhado e que agora se reclinava alegremente perto da fogueira, com um livro, um cigarro e uma xícara de café. Disposta a não perturbar a amiga, Blair partiu sozinha e alcançou rapidamente a correnteza. Adorou estar na água, mas mesmo assim banhou-se depressa, acostumada ao ritmo dos dias de emergência. Agora, com a volta à rotina, reencontrou tempo para pensar, e a reflexão a remeteu à tarde em que tivera certeza de estar sendo observada.

Estranhamente, mesmo durante aqueles dias de trabalho ingente, ela havia experimentado idêntica sensação. Tom lhe havia dito que Taylor a espiava. Tolice, pois ele estivera ocupado demais para seguir seus movimentos às escondidas. Aliás, podia segui-los às claras, durante o dia todo, no acampamento.

Taylor continuamente ficava perto de Blair, embora concentrado nas tarefas de reconstrução e reforma do lugar. Era torturante vê-lo tão próximo e, ao mesmo tempo, tão longe dela.

Mas também seria tolice, por parte de Taylor, espiá-la durante o banho no riacho. Para que ver em segredo aquilo que poderia desfrutar a noite inteira, caso simplesmente pedisse? E por que não pedia?

Ela ignorava.

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As consequências do terremoto tinham mantido seu coração e sua mente livres de pressões incômodas. Além disso, Blair vinha se sentindo tímida diante do poder demonstrado por Taylor. Ele, um enigma. Ela, uma lástima.

Cismada, terminou o banho de riacho e voltou ao acampamento. O próprio enigma a esperava na trilha de acesso ao local.

— Olá — Taylor saudou.

— Alô — retribuiu Blair, com um sorriso de culpa. Saberia Taylor como ela vinha pensando nele constantemente? Em todos aqueles dias de emergência, vira-o cuidar de tudo com competência. O sentimento guardado no coração era de que Taylor a envolvia cada vez mais em sua rede.

— Finalmente, teremos uma noite livre — disse ele.

— É verdade.

— Gostaria de conversar...

— Eu também — ela admitiu suavemente.

Taylor tomou-lhe a mão, e juntos entraram no acampamento. Ele prosseguia no comando, Blair percebeu, mas ficou contente com isso. O relacionamento voltava à etapa anterior.

Mas o tempo de mãos respeitosas e de construção da amizade havia chegado ao fim. Ambos tinham retornado à simples, mas intensa atração física que os unia. E ele a tocava de novo, prenunciando movimentos mais ousados.

Levaram os pratos para a beira do riacho, à noite, e depois de comerem, sem aviso prévio, Blair aninhou-se no ombro forte de Taylor. Poucas palavras trocaram, porém mostraram-se obviamente alegres pela companhia um do outro.

Ainda assim, ele manteve uma distância segura. Não solicitou o beijo que ela ansiava dar, e por isso Blair concluiu que Taylor, debaixo de sua sólida estrutura, procurava conter as emoções.

Deixou-a a porta da tenda, intocada, mas o fogo que brilhava em seus olhos indicava desejo e sofrimento, além de outras emoções que Blair não conseguia entender. Havia naquele olhar certa mágoa que ela viu como sendo uma clara e quente dor da saudade, uma necessidade que praticamente o dominou quando acariciou a nuca de Blair com as mãos, enquanto fitava o mar de esmeralda de seus olhos. Os lábios dele roçaram a boca de Blair levemente, e então se afastaram para um mundo próprio.

— Taylor... — Ela havia formado o som na mente, sem esperar que repercutisse. Manteve-se atenta aos movimentos dele, já passando pela fogueira, e paradoxalmente sentiu frio no coração.

Então ela soube que Taylor ainda pressentia seu terrível medo. O medo que jamais reconhecera na esfera racional do pensamento, o medo da dor que lhe restara como legado após a morte de Ray.

Talvez houvesse mais que medo dentro dela. Só tinha certeza de que não suportaria passar mais uma noite sem Taylor. Não suportaria mais uma noite deliberando, meditando e deduzindo.

Repleta de tristeza e carência afetiva, saudosa da alegria que só Taylor poderia lhe dar, Blair caminhou através do acampamento. Os sentimentos agora a tangiam, primeiro devagar, depois com implacável determinação, pelo rumo que ela estava destinada a tomar desde o primeiro dia.

Ela necessitava de Craig Taylor e sentia muito medo de amá-lo. Mas nada mais importava, nada.

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